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março 25, 2012

Nove-décimos

Escorreguei o tênis de leve para a esquerda, alinhando a borda do meu All Star à sombra do assento que eu ocupava. O metrô corria silencioso. E a próxima parada seria a primeira de duas curtas estações que separavam a produtora das redondezas do meu apartamento. Num vagão, eu e mais umas doze pessoas dividíamos os bancos disponíveis. 21:03. Passei a mão no rosto e apoiei novamente no encosto, estou saindo tarde demais do trampo, todo dia. Fazia horas que tentava apagar a conversa com a Mia da minha cabeça. Em vão.
 
As portas se abriram e os passageiros do Trianon-MASP entraram. Apoiei os antebraços brevemente sobre as coxas, curvada para a frente, e em seguida tornei a me encostar contra o banco. Estava inquieta. Inferno. Soltei o ar e olhei para frente – uma garota estava sentada fileiras adiante, numa das cadeiras. Tinha os olhos castanhos e uma das laterais da cabeça raspada, alargadores grandes pretos, como muitas que andavam na Augusta de sexta à noite. A observei por algum tempo, sem qualquer intenção, e então abaixei a cabeça. Para de pensar na Mia, porra. Tornei a olhar para as sombras no chão, ajeitando os meus tênis paralelamente.
 
“Próxima estação, Consolação” – o autofalante anunciou. As pessoas começaram a se aglomerar nas portas, mudando a distribuição do vagão. A garota também se levantou. Poucos instantes depois, do lado de fora e bem-iluminada, surgiu a plataforma que eu frequentava diariamente. Os novos passageiros esperavam em pé atrás da linha amarela. Parada brusca, portas abertas. O movimento intenso durou por alguns segundos. E logo as portas se fecharam novamente.
 
Por algum motivo, no entanto, eu não desci.
 
Restavam menos pessoas no vagão agora. Desde que a Mia e eu resolvemos falar sinceridades uma para a outra, naquelas últimas semanas todas, nossas dores pareciam acumuladas de tal forma dentro de nós que cada conversa era uma catarse. E uma catástrofe. Ainda tinha, dava-me conta, um décimo incontestável dela preso no meu peito. Me sentia estranha, não sei. Saltei na estação Sumaré, como se aquele fosse meu destino o tempo todo. Do lado de fora, o céu ameaçava com nuvens de chuva. Desci a rua, sem saber bem o porquê, me dirigindo até o prédio da Clara. Mal toquei o interfone e ela atendeu, me deixando subir. Abriu a porta com os cabelos soltos sobre os ombros, realmente bonita.
 
_O q-que cê tá fazendo aqui?
 
Me perguntou, levemente desconfiada.
 
_Não sei. E-eu... – esfreguei as mãos no rosto, só então percebendo a tamanha idiotice em aparecer ali sem avisar – ...n-não sei mesmo, desculpa.
_Tá tudo bem. Eu ia jantar com uma amiga – ela riu – Cê quer entrar?
_Não, meu, eu... já vou.
 
Isso, me detestei, parada em frente à sua porta, agora que a Clara vai pensar que eu sou louca mesmo. Me arrependi. De ter ido, de não ficar. Mas, espera... que amiga?! A encarei e ela me olhou de volta, sem entender meu comportamento – sou uma desregulada mesmo, pensei, brotando no seu apartamento do nada e ainda com ciúmes de uma porra de uma amiga, cuja existência eu sequer tinha conhecimento até dois segundos atrás. O que eu tô fazendo, cacete?! Fiz que ia embora, mas no segundo seguinte mudei de ideia. E voltei, a pressionando contra o batente, num beijo demorado.
 
Assim que nossas bocas se separaram, ela sorriu.
 
_Ei – me disse, baixinho – Tá tudo bem?
 
E eu senti uma melancolia tomar conta de mim.
 
_E-eu... – suspirei – ...não sei.
_Bo?
_Sabe, eu... e-eu gosto mesmo de você... – confessei e ela me olhou um tanto contente, um tanto confusa com a declaração inesperada – ...gosto pra caralho, Bi, e eu, s-sei lá, eu não sou muito boa nisso. Mas... achei que cê devia saber.

março 22, 2012

O que me importa

...o seu carinho agora,
se é muito tarde para amar você
(Marisa Monte)
 
_Eu... e-eu não quis, merda! – ela se arrependeu, do outro lado da linha – Escuta, eu, e-eu acho que a gente tem que... se encontrar... conversar, não sei...
_Mano, eu não tenho mais nada pra falar com você...
_Não faz isso! – implorou – Eu não quis dizer nada disso! Não era pra, não era pra nada disso ter nem acontecido. Essa conversa, que... q-que saco! Eu... o-olha, eu... eu queria tanto, tanto só... só conversar direito com você. Eu tô me sentindo... – interrompeu, ofegante e confusa – ...não sei, eu...
_Não, não. É exatamente isso. É exatamente como você disse... sempre foi isso na, na porra da sua cabeça, não foi?! – a minha respiração se atropelava nas palavras e o meu coração apertava ainda mais – O problema sou eu, sempre fui eu. A culpa dessa merda toda é... MINHA! – ri de nervoso – Eu é que sou louca, não é, Mia??! E que fui enxergar o que não tava lá! Eu!! Eu que coloquei ideia na sua cabeça, que te corrompi, que te fiz fazer tudo aquilo e você, v-você não teve nada a ver com isso... NADA, não é?! – o jornaleiro da banca em frente me olhava como se eu fosse uma descontrolada, gritando ao telefone – Fui eu! Que decidi me apaixonar por você e que me coloquei nessa merda de situação. A culpa é minha!! – senti as lágrimas engasgarem na minha garganta, mas as engoli, com raiva – Cara, se... se é isso que você... v-você pensa que... aconteceu... entre a gente, na boa, Mia... vai se foder!
_Não é isso! Não! – se desesperou – Não é nada disso!! Eu...
_Olha, garota, o que você tá sentindo por mim agora... – a interrompi – ...não é amor... – me convenci, conforme falava aquelas palavras – ...é só rejeição. Só isso.
_Não, não é!! Por favor, me escuta... não é isso!! Hoje, eu... e-eu fui lá na... – ela continuou – ...na Mi, porque eu... eu não aguentava mais, eu, e-eu não consigo parar de pensar em você... na gente... te vendo com a Clara, e-eu, não sei, eu só... e-eu só não queria que fosse assim, não qu... – sua voz se misturava com o choro – ...ontem, eu...
_Eu não quero saber, Mia. E vê se não mete a Clara nisso! Porque eu e você não estamos juntas, eu não te devo porra nenhuma. Eu nunca devia ter te tocado, não devia ter nem olhado na sua direção! Ontem menos ainda! – atravessei a rua de volta, acabando com aquilo – Fica longe de mim. Você e as suas amigas!
_Não! Não era pra... e-eu...
 
E antes que ela pudesse terminar, desliguei o telefone. Numa estupidez incorrigível. Meu coração se afobava, tentando desesperadamente se proteger, endurecendo no meu peito. Porque me doía, puta merda, como me doía, escutar as suas palavras e percebê-la assim, tão vulnerável. E eu sabia, sabia o quanto acreditava – nos seus sentimentos e nas coisas que me dizia, agora tão mais claras e mais sinceras. Sabia que havia parte de mim nela e, principalmente, parte dela em mim. Caralho, como eu sabia. Mas sentia, ao mesmo tempo, o meu peito prestes a explodir, numa frustração deslocada. Ouvindo-a falar como se fosse uma vítima, do que fomos e do que nunca conseguimos ser, depois de tudo que passamos, cacete, como se fora eu quem procurara aquele sofrimento para mim mesma; e como se ela pudesse voltar assim, quando bem entendesse, como se não tivesse me machucado, me rejeitado, sem mudar nada na sua vida e esperando que eu fosse agora parar a minha, nem a pau. Tirei o volume das chamadas e entrei de novo na produtora, metendo o celular – e todos os meus problemas – no bolso. Que se foda.

Petulância de uns

_Olha, eu não sei como cê conseguiu o meu número, garota... – respirei fundo, tentando me conter – ...mas cê não tem a menor ideia do que tá faland...
_Tenho! TENHO, SIM! – me interrompeu – EU SEI MUITO BEM A PALHAÇADA QUE VOCÊ FEZ ONTEM!! A Mia passou a tarde inteira chorando aqui em casa, por sua culpa. Cê tem noção do que você tá fazendo ela passar?!
_Eu?!? – tirei o cigarro da boca, já irritada – O que EU tô fazendo ela passar?? Cê tá muito louca, mano!
 
A audácia.
 
_Não vou discutir, eu só quero você LONGE da minha amiga! Cê tá entendendo?!?
_Desculpa aí, mas cê acha que pode me ligar e falar um monte de bosta?! – me revoltei – Eu é que quero a Mia longe de mim, porra!! Tá maluca?!? E outra, a Mia já é grandinha e pode falar por ela mesma!! Se ela tem um problema, ela que fale, você não tem que se meter. Cê não tem A MÍNIMA NOÇÃO do que tá rolando entre a gente!!
_EU SEI O QUE EU VEJO! – pistolou do outro lado – MINHA AMIGA CHEGANDO TODO DIA MAL NA FACULDADE, É ISSO QUE EU VEJO, SOFRENDO E FALANDO SOBRE VOCÊ E VOCÊ E VOCÊ... E VOCÊ AINDA VAI E FAZ O QUE FEZ ONTEM!! Você... – pausou e eu senti o ódio no seu silêncio – ...meu, v-você...
_Olha aqui, eu...
_VOCÊ TÁ DESTRUINDO ELA! – me cortou – É ISSO QUE CÊ TÁ FAZENDO, CACETE!!
_Eu não preciso ouvir essa merda.
 
Perdi a paciência. E desliguei na cara dela – aquilo tinha ultrapassado todos os limites. Meti o celular no bolso, andando de um lado para o outro na calçada em frente à produtora, furiosa, fumando o resto do cigarro a muito custo. Aquilo me tirou do sério. Quem ela pensa que é?! Eu tô vivendo a porra da minha vida, na minha, tô com a Clara, caralho. A garota fica me procurando e eu ainda tenho que ouvir sermão da amiga dela? Vai se foder!
 
Argh. Tudo. Tudo o que eu já tinha feito com a Mia passou em flashes pela minha cabeça. Como essa idiota sequer saber sobre nós duas?!, podia sentir a minha respiração acelerar. Com o coração na boca e uma vontade cretina de ligar para a Mia, de despejar no seu ouvido. Mas não, refleti, não vou me afundar nessa merda. Joguei o cigarro fora na sarjeta da Brigadeiro e andei cinco, seis passos de volta até a porta da produtora. Decidida a... que se dane, voltei. E digitei o número da Mia, atravessando a rua.
 
_Oi... – ela atendeu, hesitante.
_Então, é assim, né... – já fui logo acusando – ...agora cê põe suas amigas PRA ME LIGAR E FALAR BOSTA?! SÉRIO MESMO, MIA?? Cê vai querer jogar ESSE jogo comigo?!
_Eu nã... – pareceu pega de surpresa, se atrapalhando para responder – ...e-eu pedi pra, p-pra Mi não te ligar. E-eu... – a voz rouca a denunciava, como se tivesse, de fato, chorado a tarde toda – ...m-me, me desculpa.
_Como diabos essa mina tem meu telefone, Mia, porra?!?
_Eu nã... eu não... – respirou fundo, soando cansada – ...por favor, v-você precisa fazer isso?
_EU?! E O QUE EU FIZ?! HEIN?? O que é que eu tô fazendo? – me irritei, gesticulando no meio da calçada – Eu tava aqui de boa trabalhando, porra! E aí vem você com essa droga pra cima de mim?! Q-que MERDA você foi falar com essa garota, Mia? Aliás, por que cê não aproveita e conta pra sua amiguinha que É VOCÊ que fica me procurando?? Hein?! Na frente da porra da Clara, do Fer?!?! – fui descontando nela, cada vez mais indignada – Não sou obrigada, cara!! A ficar ouvindo que cê tá mal, como se fosse eu a errada nessa merda, escutando bosta de uma idiota que não sabe PORRA NENHUMA! É DE FODER!!
_E você queria QUE EU FIZESSE O QUÊ?! – a Mia surtou, machucada – EU... E-EU NÃO SABIA MAIS O QUE FAZER! COM QUEM FALAR!! – a sua voz desafinou, perdendo o controle – COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO?!?!
_NÃO SEI! NÃO SEI, CARALHO! – briguei de volta – É O GRANDE MISTÉRIO DA PORRA DA HUMANIDADE! NÃO FAZ O MENOR SENTIDO, INFERNO!!!
_EU ME SINTO UM LIXO! É ASSIM QUE EU ME SINTO!! – as suas lágrimas voltaram, do outro lado da linha – É ISSO QUE VOCÊ QUER OUVIR?? Eu me sinto um, u-um NADA pra você! E confusa e sozinha e, e presa nesta merda que eu não sei mais nem como começou e... e... e quando eu tento te falar... v-você vai lá... e faz o... o q-que quer comigo, sabe... – suspirou – ...e-eu t...
_MANO, E COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO?! – retruquei, a interrompendo; o rancor nos cegando – HEIN?!? JÁ PAROU PRA PENSAR NISSO ALGUMA VEZ, CARALHO?? VOCÊ PENSA EM MIM, EM COMO VAI FODER MINHA CABEÇA TODA VEZ QUE VEM ME PROCURAR?? QUE DÁ PITIZINHO DE CIÚMES?? PRA DEPOIS IR LÁ PEGAR OUTRA MINA NA MINHA CARA E AÍ VIR ME QUERER, INFERNO, VOCÊ ACHA QUE EU TENHO QUE FICAR AGUENTANDO TUDO??!? VAI À MERDA!!
_Não... n-não precisa ser assim... – retomou o tom baixo, como se engolisse os ânimos, arrependida – ...a gente nã... não precisa... merda! Não precisamos brigar, por favor...
_PRECISAMOS, SIM. PRECISAMOS, MIA! – continuei, exaltada – E vamos continuar brigando porque você, você parece que NÃO ENTENDE, CARA! NÃO ENTENDE O QUE EU PASSEI POR VOCÊ!! O tanto que sofri, por MESES, como foi difícil pra eu me recuperar, caralho, pra me livrar do que eu sentia por você! Pra no segundo em que eu fico bem, em que eu tô feliz com outra pessoa, você vir E ME ENFIAR DE NOVO NESSA MERDA?? Como você tem... – perdi o controle – ...CORAGEM de falar isso de mim?! Que EU tô te magoando?? Foi VOCÊ que escolheu ficar com o Fernando, caralho! E agora tem a cara de pau de dizer que tá sofrendo, de ir chorar pra porra da sua amiga... Eu só me fodi!! Eu só quebrei a cara por sua causa!!
_E ISSO TE DÁ DIREITO DE FAZER O QUE QUISER COMIGO?! DE FAZER IGUAL?? – se revoltou, subindo o tom de novo – É ASSIM?! Só porque você se machucou, só porque eu te magoei, você pode ir lá e me, m-me comer na porra do banheiro só pra depois me largar e... E IR DORMIR COM A DROGA DA CLARA?! – chorava, desesperada – PORRA, VOCÊ NEM OLHOU NA MINHA CARA! SAIU ANDANDO E FOI LÁ COMER ELA, INFERNO!! EU TAVA ALI DO LADO!! DO LADO!! VOCÊ ACHA QUE NÃO OUVI VOCÊS?? V-você... meu... como você PÔDE fazer isso??
_AH, TÁ! Por que você nunca fez, né?! Você nunca foi até o meu quarto e depois voltou correndo pros braços do Fer, não é?? – retruquei, gesticulando que nem uma louca no meio da rua – TODO ESSE TEMPO!! TODAS AQUELAS VEZES, PORRA! Que eu tive que sentar lá e engolir, assistir você com ele, todo santo dia, ouvir vocês rindo e trepando e brigando e conversando no quarto ao lado e o caralho a quatro, sem poder falar nada... NADA!! COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SENTIA?!?! – gritei, indignada com a sua hipocrisia – Ah, fala sério, Mia, não me vem com essa agora... ISSO você não pode falar!!
_MANO! EU NAMORO O FÊ!! – ela se ofendeu – EU SEMPRE NAMOREI, CARALHO! Cê faz soar como se EU tivesse procurado tudo isso, como se EU tivesse feito alguma dessas coisas de propósito, ido lá te procurar pra começo de conversa... FOI VOCÊ, PORRA!! VOCÊ FEZ ISSO COM VOCÊ MESMA!!
 
Meu peito apertou, sério mesmo?!
 
_Ah, Mia... na boa, vai à merda!

março 20, 2012

OST 4 ♥

Saiu a quarta trilha sonora do blog! Clique nas músicas abaixo para ver onde elas aparecem na história ou clique aqui para ouvir a trilha completa no Spotify.
 

15. Anberlin - "Inevitable"
16. La Roux - "Bulletproof"
17. Nine Inch Nails - "Closer"
18. Violent Femmes - "Breakin’ Hearts"
 
*Obrigada especial para Marcella de Oliveira pela arte maravilhosa da capa!

março 16, 2012

(a way of) breakin' hearts

À luz do dia, tudo parecia um pouco menos complicado. A sobriedade ajudava. Acordamos numa preguiça boa, a Clara e eu – amassei o rosto na sua pele morna, com as pernas entrelaçadas nas suas, sem qualquer vontade de me levantar da cama. O despertador ainda ecoava no quarto e eu o ignorava. Repetidamente. Achando graça, a Clara se levantou e o desligou, caminhando até o meu armário em seguida.
 
Começou a se trocar para ir trabalhar e eu restei, apagada entre os lençóis. Não vi ela sair. Acordei não-sei-quanto-tempo depois com uma mão no meu braço, me chacoalhando. Ainda estava afundada no colchão, de bruços. Movi os olhos para cima, abrindo-os com certa relutância, e vi o Fernando. Estranhei, o que cê tá fazendo aqui?
 
_Escuta... – ele disse, com pressa – ...preciso que cê deposite o aluguel hoje, tá?
 
E você me acordou pra isso?! Post-it pra quê, né?
 
_Aham... – murmurei, sonolenta.
_Tá?! – insistiu – Deixei minha parte em cima da mesa da cozinha, vê lá.
_Tá, tá... – virei o rosto.
 
Não enche.
 
Voltei a dormir, de ressaca e sem ter pregado o olho direito a noite inteira, exausta. E foi assim que eu, claro, perdi a hora para ir trabalhar. Merda. Levantei no susto, correndo, merda, merda, quarenta minutos depois. Puta que pariu, não acredito nisso. Vesti a primeira roupa que achei limpa no armário e passei na cozinha para pegar a porra do dinheiro do aluguel, metendo-o no bolso da jaqueta. O meu cabelo estava todo amassado, a raiz por fazer. Pulei desajeitadamente até o elevador, descalça, e fui vestindo os tênis enquanto descia até o térreo. A minha chefe vai me matar, inferno.
 
Não tinha atrasado assim desde que começara na produtora. Argh. Quase uma hora depois do meu horário normal, dei as caras e tive que inventar uma desculpa esfarrapada. Ralei do começo ao fim daquela sexta-feira. Sequer saí para almoçar para compensar. E lá pelas 16h, o meu celular tocou. Peguei o meu maço e saí na rua para atender, aproveitando a brecha, já que não tinha feito nem metade das minhas pausas usuais para fumar.
 
_VOCÊ FEZ O QUÊ?!?!?
 
Era a Marina, indignada, certamente depois de ler o meu último SMS.
 
_Calma, calma... – coloquei um cigarro na boca, segurando o telefone contra o ombro.
_CÊ PERDEU QUALQUER NOÇÃO DE LIMITE?! MEU DEUS! – gritou comigo – COMO VOCÊ TRANSA COM A MIA, ENQUANTO O FER E A CLARA TÃO NO APARTAMENTO?!? ALIÁS, QUE MERDA DEU NA SUA CABEÇA PARA IR LÁ COMER ESSA MINA DE NOVO???? QUAL É O SEU PROBLEMA??
_Eu sei, eu sei... calma! – achei graça na sua reação, fazendo o isqueiro pegar – E meu, também não é como se eu tivesse planejado, né, só... sei lá, aconteceu, porra!
_“Aconteceu”?? “ACONTECEU”??? – aumentou novamente o tom de voz e eu me diverti com o escândalo que minha ex fazia – Sabe, imprevistos “acontecem”, chuva em Ubatuba “acontece”, perder o ônibus “acontece”, MAS NÃO SE ENTRA NAS CALÇAS DE NINGUÉM POR ACIDENTE!!
 
Continuei rindo, entre uma tragada e outra.
 
_Na boa... eu não sei nem o que dizer!! – a Marina continuou – Olha as cagadas que você faz, meu. É inacreditável!! Como cê me dá uma dessas???
_Má, escuta... Dessa vez, não me arrependo! – podia sentir os seus olhos revirando do outro lado da linha – É sério. Eu sei que vai soar estranho, mas... a-agora eu sei, manja? Sei que não quero ficar com ela. Não mesmo.
_Ah é, porque ISSO nitidamente prova que cê já superou a Mia...
_Não! Eu sei... – ri – ...eu sei que tenho umas paradas pra resolver dentro de mim. Não tô negando isso. Só que agora, sei lá, eu... e-eu acordei tão bem com a Clá, sabe? E com a Mia, não sei, é tudo tão pesado, sempre. Me faz tão mal. E eu não quero isso, mano.
_AH, PRONTO! Quem te ouve falar assim nem parece que eu já não... – senti o telefone vibrar – ...te falei um milhão de vezes que a...
 
Baixei o celular, olhando rapidamente o visor, com o cigarro entre os dedos.
 
_Linda, desculpa, tenho outra ligação. Já te ligo!
 
A Marina suspirou, interrompida. E eu desliguei, apertando o botão para receber a segunda chamada.
 
_Alô? – coloquei o cigarro de volta na boca.
_Oi. Preciso falar com você.
 
A voz era estranhamente familiar.
 
_Quem tá falando?
_É a Michelle... – quem?, minha cabeça repassou todas as Michelles que eu conhecia – ...amiga da Mia. A gente se conheceu na casa dela, no ano passado.
_Ah, sei.
 
Como diabos essa garota tem meu telefone?
 
_Presta atenção – endureceu a voz – Não sei o que cê acha que tá fazendo, mas você precisa parar com essa merda. Cê tá acabando com ela!

março 11, 2012

Estrondo

_O que aconteceu?! – a Clara perguntou, como se acordasse num susto – Ouvi um barulho, a porta batendo com forç...
 
A interrompi com um abraço, subindo na cama, me apertando contra o seu corpo no escuro. Me perdoa. Me perdoa, por favor, a abracei, sem dizer nada. Me perdoa. Me arrependia de cada passo errado, idiota que eu dava, argh, cacete, numa recorrência autodestrutiva de merda, furiosa comigo mesma, arriscando magoar a única garota que realmente me importava. Como eu sou burra, porra. Inferno. Apertei os braços ao redor da Clara. E os meus pensamentos dispararam. Se atropelavam, pareciam desmoronar sobre mim, maldição. Numa vontade louca de gritar, de chorar, mas engolia, quieta – tentando conter a minha raiva, minha fragilidade, dentro do meu peito. E a Clara também permaneceu em silêncio, me segurando ali no escuro. Os lençóis estavam desarrumados e eu sabia que era injusto, sabia. Mas deitei ao seu lado e ela se aninhou no meu ombro. Eu não te mereço. Não queria soltá-la nunca mais. Deslizei as costas da mão pelo seu braço, acariciando o seu rosto. Que diabos eu fui fazer? Meus pensamentos seguiam vertiginosos, me consumindo por dentro, mas me acalmava tê-la, assim, perto...
 
...enquanto deixava a Mia lá, do lado de fora.

março 07, 2012

Partidas

“Me beija”, sussurrou no meu ouvido, conforme eu a subia no meu colo, a pressionando contra a parede. You let me violate you. Mordi a ponta do seu queixo e fui arranhando os dentes pela linha do seu maxilar, pelo seu pescoço. A sua pele ia marcando com facilidade, nuns chupões, enquanto eu arrancava a sua calcinha. Filha da mãe. Me agarrou pelo cabelo, me puxando para si e eu a beijei, a empurrando contra os ladrilhos duros. You let me desecrate you. Rudes – eu, ela. Meus ombros sustentavam os seus braços, as pernas ao redor do meu corpo. Puxei a calcinha até o meio das suas coxas, num movimento arrogante; e ela se inclinou. You let me penetrate you. Encaixou o quadril nos meus dedos e suspirou, gemendo – cacete. As minhas mãos, pudera, já estavam enxarcadas no instante em que entraram nela. Suas pernas nuas, abertas, se apertavam contra mim. You let me complicate you. Minha língua percorreu a curva do seu pescoço, imprestável. Alcançando a sua boca de novo e ela pressionou o meu braço, conforme eu ia cada vez mais fundo, mais forte. (...) Puta merda, me desconcertei por um instante, no calor do momento. Caralho. Me perdendo nela. Senti a minha pele esquentar, cada vez mais, mais molhada, a escutando sussurrar baixaria no meu ouvido, agarrando a minha regata e me puxando, enquanto eu a fodia. Suas mãos subiam pelas minhas costas, me arranhando a pele. E eu me contraía, tentando me conter. Inferno. Numa vontade desgraçada dela. (...) Epifania estrondosa, violenta. Contra a parede. Ela me olhava, agora, direto nos olhos. E a sua respiração escalava, crescia ofegante; os seus lábios entreabertos. I wanna... Murmurou algo, entre um fôlego e outro, inebriada, prestes a gozar; entrelacei meus dedos no seu cabelo, ela fechou os olhos e os abriu, ainda fixos em mim, se contorcendo de tesão... fuck you like... A segurei por dentro, movendo meus dedos do jeito que ela gostava, a sentindo ali, suja, a um segundo de explodir na minha mão... an animal... Ambas, tensionadas entre si, como eu te quero, filha-da-puta. O ar se suspendeu, num começo demorado de orgasmo. Com os seus olhos nos meus. Segurei a sua boca para que não fizesse barulho e a encarei. Vem. Todas as cores, de repente. Suas pálpebras se fecharam por um segundo... I wanna feel you from... num prazer nostálgico... e perigoso... the inside... os segundos se esticaram, prolongados.
 
(...)
 
Então os meus pés, descalços contra o piso frio, e as costas dela, na parede de ladrilhos, descontraíram-se. Aos poucos. Lentamente, ela suspirou, retomando a respiração, voltando a si. E eu me dei conta do que tinha feito.
 
Merda.
 
Ergui o queixo, a encarando – com raiva de mim mesma, dela. Puta merda. A Mia sorriu e se moveu para frente, para me beijar, mas eu me afastei. Tirei a minha mão dela e desencostei nossos corpos, dando um passo na direção contrária. Não. Não, não, não, inferno. Ela me olhou, sem entender, na mesma posição em que eu a deixara. Ainda atordoada, recuperando o fôlego apoiada contra a parede. Eu sou uma idiota. Uma porra duma idiota, o que eu fui fazer?! Senti a minha consciência pesar, como um soco no estômago, caralho. O meu coração acelerou, embriagado, e eu sabia – sabia que a Clara estava deitada no meu quarto, do outro lado do corredor. E eu, puta que pariu, e-eu não queria estar ali, com a porra da Mia. De novo, não. Não! Esfreguei a mão no rosto, angustiada. As mãos dela subiram a calcinha pelas pernas, meio sem jeito, constrangida. E antes que pudesse dizer qualquer coisa, eu saí. Irascível, que se foda. Deixando o silêncio e a porta escancarada para trás.
 
Já não tinha o que fazer ali.

março 06, 2012

Vem

Naquela noite, ainda que acompanhada da Clara, eu não consegui dormir. Só fecha os olhos, inferno, eu me revirava na cama. Mas algo me mantinha acordada. Por mais que lutasse contra, sabia que uma parte significativa da minha insônia tinha o dedo da Mia. A sua presença desconcertante ao meu lado no teatro, os seus malditos beijos na garota da festa. Merda. Buscando silêncio na ponta dos pés, me levantei e saí para o corredor, encostando cuidadosamente a porta do quarto. Esqueci de pegar o cigarro, mas... deixa, tarde demais. Na cozinha, o relógio marcava quase três da manhã e os ponteiros ecoavam ritmadamente seus tics-e-tacs pelo cômodo vazio.
 
Todos, exceto eu, naquele apartamento dormiam. 
 
A luminosidade da madrugada agitada na Frei Caneca entrava à surdina pelos vitrôs abertos sobre a pia, me dispensando de acender o interruptor. Caminhei no escuro, apenas eu e os meus pensamentos angustiados, e abri a geladeira. A luz forte me doeu os olhos. Observei as garrafas colocadas aleatoriamente na porta até chegar numa de rum, quase cheia e esquecida ali. Fazia alguns meses que não bebia. , vamos lá. Sentindo o vidro gelado entre os meus dedos, voltei à mesa da cozinha. E com gestos sonolentos, acendi a luz na parede, empurrando a cadeira sem muita delicadeza. 
 
Me sentei ali, com a garrafa em frente a mim, e enchi um copo. A Marina vai me matar, penseiMas virei de uma vez e o primeiro gole desceu gelado – esquentando a minha garganta. Me invadindo assim, aos poucos. A minha cabeça ia e vinha nos acontecimentos daquela noite, daquela semana. Daquele ano. Horas antes, a Clara tinha reclamado, incomodada com a atitude da Mia no decorrer daquela noite, ainda que não tivesse percebido todos os desdobramentos. “Essa garota só quer tanto sua atenção porque você não é mais dela”, disse, antes de deitarmos. E eu sou sua, então?, me inquietei.
 
Mas sabia que era ela quem tinha razão – não a Mia. 
 
Não?
 
A ideia me incomodava. Era o que me mantinha acordada. Respirei fundo, angustiada – eu não queria a Mia de volta. Isso eu sabia. Tinha toda certeza. Que não queria a confusão, a traição, não queria aquela merda de novo. Mas não conseguia agora, insone, tirar o meu pensamento da minha cabeça, me afastar das suas mãos. Do atrevimento silencioso dos seus dedos, céus. Por que agora? Podia senti-los, ali, tão reais e intencionados, na minha pele, sozinha na cozinha. Iam deslizando em mim, numa memória sensorial, sem intenção ou controle. Não, não faz isso, cacete, eu implorava pra mim mesma. Mas ainda assim eles seguiam, a pontinha do seu indicador, encostando na minha mão. E meus dedos escorregavam pelo copo suado, frio, sobre a mesa da cozinha, lembrando perigosamente de todas as vezes em que as mãos da Mia correram assim por mim. Pelos contornos do meu corpo, a minha boca, descobertas, no chão frio do banheirinho da sua casa, do seu quarto, do meu, no andar escuro da Sarajevo, nas ruas do Itaim. Caralho. A sensação ia me tomando lentamente. Insólita. A sua memória, arrebentando cada centímetro de mim. 
 
Não. O meu peito contestou, doído. Por que, por que eu faço isso?, apoiei os braços na mesa e pressionei as mãos contra a minha cabeça. Puta merda. Baguncei o meu cabelo, me desesperando. E-ela, ela nunca lutou por você, tentei me convencer, me agarrando à raiva que sentiaNas madrugadas, às vezes, era pior – aquela nostalgia burra e meio impensada do peso dela dentro de mim, do amor que eu tinha pela Mia me ocupando. Denso, dilacerante, em todo o coração. Nem sempre o seu corpo quer a leveza que conquista, entende? 
 
Mas não, você não. N-não tem direito, garota. O meu copo se esvaziava, me embriagando aos poucos. De me tirar isso, de me roubar a paz. E o que me incomodava mesmo era a proporção. Do quanto a Mia, de fato, fizera naquela noite e o quanto era eu quem permitia. É, “permitia”. Essa era a palavra – pois permitia que entrasse de novo em mim, que me afetasse. Parte da culpa era minha, sim. Ainda que não tivesse movido um milímetro em sua direção. E como poderia? Agora que não te quero, agora que não me importa mais, não é, merda, virei o segundo copo, agora você vemMas eu não quero mais, Mia. O seu drama, as suas incertezas, as suas idas e vindas com o Fer, comigo, não é mais problema meu. E eu não quero. Agora que me livrei de você, eu sei. Sei o quanto me faz mal e não quero, porra. 
 
A mera ideia de perder a amizade com o Fer ou o que eu tinha com a Clara me embrulhavam o estômago, me fazendo arrepender de sequer olhar na sua direção, lhe dirigir a palavra. Não vale a pena, enchi mais uma vez o copo, começando a perder a conta. E balancei a cabeça, amarga, já com o copo vazio de novo em mãos. Não, não vale, repetia para mim mesma. Como um mantra. E ainda assim não conseguia tirar da cabeça os seus beijos na droga da festa, ou pior. O que fez naquele banheiro. Num refluxo de emoções, tomada por uma angústia, inferno de garota. Senti então que precisava reassumir o controle da situação, da minha vida. Já estava no meu quarto, quinto copo, não sei. Com os olhos secos, insones. Chega.
 
Já se ia quase uma hora ali, sentada e ridícula. Suspirei, empurrando um último gole, matando os dois dedos de rum restantes no copo, e me levantei. Me sentia exausta. Num desgaste emocional, dor de cabeça, tudo junto, sei lá. Preciso parar com isso. Com aquela mania de confusão, aquela dependência do caos, da dor, numas obsessões recorrentes demais de madrugada, sozinha na porra da cozinha e sem saber parar. Peguei a garrafa em mãos, já não tão fria quanto antes, e a devolvi à geladeira. Voltaria aos lençóis compartilhados com a Clara. Mais uma tentativa de dormir, uma última. Talvez o álcool ajude, pensei. É. Apaguei a luz da cozinha e saí para o corredor escuro, que quase no mesmo segundo se acendeu. O qu...? 
 
Do outro lado, saindo do quarto, a Mia tomou um susto ao me ver. Parada ali. 
 
O que diab...?, os meus pensamentos demoraram alguns segundos para assimilar, já um tanto bêbada e inconsequente. Os seus olhos grandes, e castanhos, me olhavam de volta, como um veado paralisado em frente aos faróis dum carro, sua respiração suspensa. Com a mão ainda no interruptor, ela terminou de fechar a porta atrás de si – tinha as pernas descobertas num camisetão branco do Fer. Ela está acordada. Caí em mim. E assim que o fiz, todo o rancor voltou, me inundando violentamente, a minha expressão mudou. Ficou séria. E o silêncio entre nós se esgotou tão rápido quanto surgiu.
 
_Sabe, eu queria entender... – disparei na sua direção, meio estúpida – ...QUE MERDA passa pela sua cabeça ultimamente pro cê sair aí pegando mina – a encarei, arrogante – Que é?! Tá com saudade de beijar mulher agora?!
_Você sabe muito bem o que é.
 
Não recuou. Seus olhos pegos de surpresa rapidamente se fixaram nos meus, me encarando de volta sem se deixar intimidar pelas minhas palavras enxarcadas – em rum e ressentimento. Como se não tivesse nada mais a perder.
 
_Sei? Me diz. O que é que eu sei, Mia?
_O que eu quero – ela respondeu.
 
E eu comecei a rir, de nervoso.
 
_Quer saber, não. Não sei! E-eu... – passei as mãos no rosto, perdendo a cabeça – ...eu não tenho IDEIA d-de PORRA NENHUMA, Mia! NADA! Porque é com ele – baixei a voz – que você vai dormir toda maldita noite, não é?! – senti as lágrimas de raiva me doendo a garganta, embriagada – Então, não, não sei! Não sei. Não sei NADA DO QUE SE PASSA NESSA MERDA DA SUA CABEÇA! EU NÃO TENHO IDEIA DO QUE VOCÊ QUER!!
_TEM! TEM, SIM!! – ergueu a voz de volta.
 
E eu perdi o controle. 
 
TENHO?!? EU TENHO???, me revoltei. E o que é??!? Eu?! SOU EU, PORRA?! A minha respiração foi ficando pesada, cada vez mais carregada pelo que eu não conseguia suportar, o que sobrou de nós depois do estrago. Queria que ela visse tudo o que tinha custado, todo o tempo em que eu esperei sozinha. É isso?! DE REPENTE, EU VALHO A PENA?! De repente, você quer ficar comigo?!??  Os meus pensamentos gritavam tão alto que a Mia quase os ouvia. Seus olhos se perdiam nos meus, depois de tudo?? Fácil. Simples assim, não é?!, senti o meu coração disparar, de repente não tem problema, de repente não te importa mais o Fer, a porra do seu namoro?? De repente, tudo bem colocar tudo a perder na frente dele?? Da Clara?? De todo mundo?? Na droga do teatro, numa festa lotada com nossos amigos?! Que se foda, né?!, comecei a ir na sua direção, num impulso. É isso, Mia?! Fui sem pensar. Por todos os seus nãos, as suas meias palavras. Por toda aquela merda do caralho, os seus erros, os meus. Todos eles. E pelos acertos. Pelo tanto que eu a quis, por tanto tempo, desgraçada, e pelo tanto que a queria naquele instante. Pelas suas pernas descobertas naquela droga de corredor, pelo seu gosto na minha memória. Pelo desgosto também. Pela dor que eu nunca realmente deixei de sentir. Então tá, garota, a empurrei para dentro do banheiro, batendo a porta atrás de nós duas, quer ser sapatão?! 
 
Então, vem.

março 03, 2012

Bulletproof

_Fica aí dois segundos, cacete! A gente já volta... – o Fer reclamou, rindo – ...não vou roubar a menina, porra!
 
A gente tava naquela dança infeliz desde que chegamos no teatro. Ele tentando me deixar sozinha com a Mia, para “sondar” sobre a garota da festa, e eu querendo ficar o mais longe possível dela – pelo mesmo motivo. Porcaria. Agora, meu amigo arrastava a Clara para buscar pipoca com ele, insistindo que eu e a Mia ficássemos para guardar os lugares na fila. Eu sei o que você está fazendo, encarei o cachorro do meu amigo.
 
Agia como se eu estivesse fazendo grande caso daquilo e fui obrigada a ficar quieta – não tinha um motivo aceitável para não querer ficar. Então assisti, conforme ele e a Clara se afastavam, nos deixando ali. Eu e a Mia. Argh. Faltava vinte minutos para a peça começar e umas quarenta pessoas já se aglomeravam em frente ao teatro, falando alto. Abaixei o olhar, observando fixamente os meus All Stars contra o chão de concreto, tentando não dar nem um segundo de atenção para a Mia. Todavia, sentia que ela me olhava.
 
E assim que ficamos sozinhas, como num pesadelo que se concretiza, ela alcançou a minha mão – “quero falar com você”.
 
Afastei imediatamente a minha mão da sua.
 
_Não tenho nada pra falar com você – retruquei.
 
E a olhei, com rancor, por um segundo antes de voltar os olhos para o lado, para as pessoas na calçada.
 
_Por favor – a Mia insistiu.
 
E eu me segurei. Sem olhar na sua direção, sem dizer uma só palavra. Porque sabia que se o fizesse, se ousasse abrir a boca ou sequer virar o rosto na sua direção, se a visse ali, era capaz e me deixar tomar pela raiva que estava sentindo e falar alguma besteira da qual me arrependeria depois. Não vou perder o controle, pensei, ciente de que a Clara e o Fer não estavam longe, não aqui. Mas meu coração acelerava, por mera proximidade dela. E a Mia ainda me encarava, com seja lá o que fosse engasgado em seus olhos.
 
_Eu... – retomou, após algum tempo desconfortável de silêncio – ...e-eu só queria d...
_Vou achar eles.
 
A interrompi, saindo da fila.
 
Não quero saber. Caminhei na direção do carrinho de pipoca e a Mia ficou parada no meio da fila, me olhando.  A calçada estava cheia de intelectuais paulistanos, amantes de teatro. Assim que dei alguns passos, vi o Fer e a Clara voltando já com as pipocas em mãos. Os encontrei no meio do caminho e o Fer me encarou sem entender – como se eu tivesse acabado de desperdiçar uma oportunidade e tanto. Que se dane. Não vou fazer isso, pode esquecer!
 
Voltamos para a fila e, de maneiras pouco perceptíveis aos demais, o contexto se agravou. Naquele breve período de espera frente ao teatro, é, com a insistência dos olhos da Mia em me procurar. Em todas as brechas, a cada oportunidade que tinha. Isso já tá beirando o absurdo. Virei o corpo, incomodada, e me voltei à Clara, fingindo que nada acontecia. Ela me abraçava, desavisada, conversando com o Fer sobre um VJ da MTV que vivia nos rolês da Augusta – e que os dois conheciam através de diferentes amigos em comum. A Mia ainda me olhava. Não sei se eu era realmente tão boa mentirosa ou se a Clara já tinha percebido a patifaria toda e optado por não se envolver. Sinceramente não sei o que é pior, pensei, torcendo para abrirem logo as portas do teatro.
 
Quando enfim entramos, o Fernando logo se apressou para entrar primeiro na fileira, sendo seguido naturalmente pela Mia. Calculista do caralho. Rapidamente, fiz um gesto para que a Clara me passasse e fosse atrás deles, mas ela se recusou. “Não vou sentar do lado dessa garota”, cochichou, “ela me detesta!”. Inferno. Suspirei me sentindo encurralada, , e entrei na sua frente. A contragosto. Satisfeita com sua pequena vitória, a Clara me seguiu e se sentou na outra ponta.
 
Ótimo.
 
Ficamos o Fer, a Mia, eu e depois a Clara – e eu não consegui me mover direito a peça inteira. Mal respirava. Durante as suas longas quase duas horas, senti que a Mia me olhava. Aquilo começou a me tirar do sério, digo, a sua atitude. Qual é, meu?!, suspirei e me esforcei para olhar para frente, sem conseguir prestar atenção direito na peça. Do outro lado da cadeira, eu segurava as mãos da Clara, com os dedos entrelaçados nos seus. A Mia nos observava. Insistentemente. Me deixa em paz, minha cabeça implorava. Mas ela não ia embora – a sua atenção, sua intenção, os seus olhos em mim o tempo todo. Puta merda. De tempos em tempos, a Clara comentava a peça comigo. Eu a olhava e forçava um sorriso de volta, tentando focar nela, no Gui, no palco, em qualquer outra coisa. Mas a minha respiração seguia suspensa.
 
Até que, de repente, a Mia encostou em mim.
 
Ah, não. Nem a pau.
 
Me ajeitei na cadeira, desejando que se fosse um engano das suas mãos. Querendo mesmo acreditar que aquele milésimo de segundo havia sido sem intenção. Um descuido, dela. Mas ela voltou. A Mia, é. E outra vez pude sentir a sua pele na minha, tão deliberadamente. Colocou a ponta do indicador sobre as costas da minha mão, num toque suave. E inconsequente. Com o Fer ao seu lado, a Clara ao meu – você perdeu a cabeça, porra?! Aquilo ultrapassava todos os limites. E ainda assim, ela ficou. Foi deslizando lentamente o dedo sobre a minha mão, com carinho, nuns centímetros intermináveis.
 
Minha respiração congelou, antes de acelerar. E eu respirei fundo, sentindo como se tocasse além de mim. Dentro de mim, droga, como se o seu dedo esbarrasse de leve no nosso passado. Um incômodo me subiu pelo corpo, pela garganta – e pensei que a ânsia ia me expor ali mesmo. Imediatamente me veio à cabeça a memória dela se atracando com a garota na festa. O rancor tomou conta de mim. Senti que o meu coração ia sair do peito, filha-da-puta.
 
Não.
 
Tirei minha mão, num movimento grosseiro, e cruzei os braços frente ao corpo. Impermeável. A Mia se encolheu na sua cadeira. E me olhou, com pesar, mas os meus olhos permaneceram fixos no palco. Me recuso a participar disso.

março 01, 2012

Pretensão, inevitável

“I wanna be your last, first kiss
That you'll ever have”
(Anberlin)
 
Eu fumava, um atrás do outro.
 
Os minutos passavam devagar, sozinha no meu quarto. A Clara chegaria a qualquer momento e o apartamento tinha o seu silêncio perturbado pelo som do Fer martelando a mesinha de centro da sala – um dos suportes estava solto. E ali dentro, de um jeito intragável, a Mia não saía da minha cabeça. Desgraçada. A beirada da janela já acumulava cinzas o suficiente para me matar. Dum câncer no pulmão, do que fosse, qualquer coisa é melhor do que essa merda. O meu coração dava voltas, inquieto. E os meus olhos se fixavam na calçada imunda da Frei Caneca, naquelas árvores e nas pessoas que eu nunca iria conhecer. Por que não consigo simplesmente deixar pra lá?
 
Me incomodava como a Mia me afetava. Mas afetava – os seus beijos, o que fez com a outra garota no banheiro. E continuava me afetando quase dois dias depois do ocorrido, numa incapacidade de esquecer o que tinha acontecido na festa. Cacete. Me despertei daquele estado reflexivo, martirizante, ao ouvir tocar a campainha. A Clara chegou. Chega. Chega dessa merda. Apertei contra a madeira o último cigarro de uma série nada saudável e o joguei pela janela. Eu não ia tornar a situação pior do que já era e me recusava – r e c u s a v a – a transparecer o caos dos meus pensamentos para a Clara, que nada tinha a ver com aquela confusão toda.
 
Saí no corredor com um skinny jeans preto e de regata cinza. Passei pelo Fer na sala, vendo-o terminar o reparo sem camiseta, com as tatuagens todas à mostra – e me irritei com aquela demonstração desnecessária de testosterona, sem paciência com ele. Com a sua mera existência, é. Abri a porta e a Clara sorriu assim que me viu, me beijando e me resgatando quase imediatamente daquela amargura. Parecia que fazia semanas que eu não a via.
 
_E aí... – virei e olhei para o Fer, o acelerando – Vamos?
_Vamos! – ele se levantou, largando o martelo sobre a mesa – Deixa só eu pôr uma camiseta lá... Aguenta aí!
 
Apoiei o corpo no batente da porta, observando a Clara na minha frente. E ela sorriu. Estava com saudades, garota. Senti o algodão da minha regata deslizar suavemente pelas costas da minha mão, metida debaixo da blusa, escorregando à toa sobre a minha barriga. A Clara e eu nos olhávamos, em nossas eternas reticências, e ríamos. “E aí, hein?”, ela fez graça, esbarrando a ponta da sua bota contra o meu coturno. Nutria um carinho descomplicado por ela, não sei. Nos gostávamos – e isso, de repente, me bastava para aguentar duas horas no teatro com a droga da Mia.
 
Talvez não seja tão ruim, me convenci.
 
Entramos no carro alguns minutos depois, os três, e dirigimos por uma São Paulo congestionada, em plena noite de quinta, até as ruas de Higienópolis. Ao estacionarmos em frente ao prédio da Mia, que eu bem conhecia, o Fer ligou duas vezes para ela. Sem sucesso. Desceu então do carro, já irritado, indo à portaria para pedir que interfonassem no apartamento. Aí voltou e se sentou de novo atrás do volante, batendo a porta.
 
_Inferno! – resmungou.
 
O meu braço estava ao redor da Clara, no banco de trás, quando a Mia finalmente saiu pelo portão. Absolutamente linda. Filha da mãe. Era como se fizesse de propósito – numa skinny e jaqueta pretas, com o cabelo castanho jogado para o lado. Merda, me afundei no banco, sentindo a raiva voltar. E a contragosto, a observei entrar no carro. Não parecia feliz ou disposta a ir. Se sentou no banco, ao lado do Fer, mas não o beijou ao entrar. O carro mal deu partida e ela se virou para trás, na minha direção.
 
Sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar.
 
Me olhou com os seus olhos castanhos, amendoados. Descaradamente. Você não tá facilitando, garota. Me ajeitei no banco, desconfortável, presa naquele carro com o Fer, a Clara, a Mia e a porra da garota da festa, inferno, que agora não saía da minha cabeça. Argh. Parecia querer me dizer algo, a Mia, digo, mas eu não queria ouvir. Nem a pau. Virei os olhos para fora do carro, fugindo dos seus. Senti que não ia conseguir não transparecer o rancor entalado na minha garganta, que dirá aguentar uma noite toda ao seu lado – e a gente mal tinha saído do seu quarteirão.