- »

junho 23, 2012

Os casos

_Você?! E a Má?! – questionei e a Clara acenou um ‘sim’ envergonhado com a cabeça, os olhos ainda escondidos entre os dedos – V-vo... VOCÊS DUAS, MANO?!
 
Dei um passo para trás, com uma das mãos sobre a testa, e comecei a rir ainda mais. No máximo de silêncio que conseguia, claro, para não chamar atenção. A festa seguia atrás de nós desavisadamente. Constrangida, a Clara me encarou, fazendo um gesto com as mãos como se dissesse “e agora?”, mas tudo o que eu conseguia fazer era rir. Não, não é possível, balancei a cabeça. A Marina não tem NADA A VER com a bandida da Clara, porra. Estiquei o pescoço novamente para a cozinha e observei a minha ex em seu vestidinho preto, sapatos de boneca e os seus olhos atentos ao fogão, por detrás dos óculos pretinhos.
 
Mano, tornei a encarar a Clara, ainda desacreditada, essa é a melhor fofoca do ano.
 
_Não. Fala sério. Você?! – repeti, abismada – Com, com a minha Marina?!
_“Sua”?
_É. Ela... – expliquei, rindo – ...é minha ex. Eu te falei dela!
_E-eu achei que v-vocês fossem... amigas, não?!
_Não, nós namoramos uns anos atrás. Mas agora a gente é tipo muito, muito amiga.
_Tá me zoando, né?!
_Não. Eu fui a primeira namorada dela – ri.
_Inferno... – a Clara se desesperou, subindo as mãos novamente ao rosto – ...merda! Eu não sab...
_Como? – continuei me divertindo, a interrompendo – Quando? Quando vocês duas, digo, COMO?! COMO É POSSÍVEL?!
_Não... – choramingou, se recusando a falar, sem conseguir rir junto – ...para, não piora tudo, mano. Por favor!
 
A puxei então pela mão, para entrarmos de vez na cozinha. Vamos acabar logo com isso, pensei, indo cumprimentar as meninas. Mas a Clara grudou as costas na parede, a menos de um metro da porta – “não posso entrar aí!”. E eu não pude evitar senão rir ainda mais da situação. “Isso é ridículo, relaxa!”, cochichei, “ela não vai te morder, mano, todo mundo aqui já saiu uma com a outra! Vem!”. “Não!”. A Marina seguia cozinhando, inadvertidamente, junto às meninas. E não havia argumento que convencesse a Clara a entrar lá do meu lado.
 
Foi quando, de repente, me deu um estalo:
 
_Voc... v-você deu bolo nela! – a olhei, como se desvendasse um grande enigma – Filha da mãe! Você deu perdido na Marina!
_Eu não dei bolo em ninguém – me desprezou com os olhos.
_Alguma coisa! Alguma coisa você fez, mano, pra tá agindo assim... – gargalhei – Você não consegue nem esconder. Olha o medo na sua cara, meu! Vai, só fala. O quê?! O que você fez? – me aproximei da Clara, sem conter a curiosidade – Juro que não falo pra Má que cê falou, mas conta, vai, o que foi?! – ela virou o rosto e eu a apertei contra a parede, insuportável – Você deu bolo nela, não deu? Deu?!
_Não! Não dei, para... – sussurrou – ...e-eu, eu só nã...
_O quê? O quê?!
_Não fica aí pulando de felicidade, mano! – me deu bronca, fugindo do assunto, e eu revirei os olhos, nem aí, voltando a rir – Para!
_Só me conta logo!
_Não.
_Por favor, Bi!
_Quieta!
_Por favoooooor!
_Tá. Mas é que... f-faz muito tempo... – hesitou – U-uns, uns dois anos já. Três, sei lá! A gente só saiu uma vez, ela é amiga da irmã da Lu. A gente se pegou numa festa e e-ela dormiu lá em casa depois e eu... meio que... – a Clara suspirou, sem conseguir me olhar direito – ...namorava outra menina, na época. Só que aí ela... a-apareceu do nada, no dia seguinte, e eu tive que ir correndo pedir pra, p-pra Marina sair.
_DA SUA CAMA?! – quase gritei – Espera, espera, você acordou a Marina e pediu pra ela sair?!?
_Ela já tava acordada, idiota, eu s-só...
_Ainda assim! – eu me diverti – Que desgraçada!
_Você quer o quê?! Deixar pior do que já é?!?
_Cara... – ri ainda mais – ...eu tô te odiando muito agora. Cê tem noção?
 
A Clara enfiou o rosto nas mãos, mais uma vez, constrangida. E então me olhou, desesperada por qualquer salvação daquela festa, sem querer estar ali. Comigo, ainda por cima. Eu não conseguia parar de rir, sem qualquer intenção de ajudá-la a sair daquela. Tomada pelo absurdo do rebuceteio paulistano. Ela também ria, de tempos em tempos. Eu tirava sarro da sua cara e ela me dava tapas no braço, implorando para que eu parasse.
 
_Ela me mandou à merda, cê sabe, né... – comentou, apoiada contra a parede comigo.
_Merecido. Porra, mano, é a, a Marina!
_É, bom. Se eu soubesse...
 
Ela riu, arqueando as sobrancelhas de leve.
 
Não é fácil, eu sei. Ficar conhecida como “a mina que deu um puta fora na Marina” entre as minhas amigas certamente era a última coisa que a Clara esperava daquela noite. Levou uma das mãos ao topo da cabeça, entrelaçando os dedos no cabelo, como se tomasse coragem. E aí me olhou, determinada – “tá, vamos entrar logo”. Desencostou da parede e eu segurei a sua mão. Mas bastou um passo para ela mudar de ideia. “Não dá, isso vai ser muito feio”, voltou atrás. “Não vai, só vem”. “Não consigo”, hesitou, balançando a cabeça. “Cara, ela não vai falar nada! A Má é a pessoa mais de boa que existe!”, argumentei e a Clara me contrariou imediatamente com os seus olhos castanhos. “É sério”, reafirmei, rindo. “Muito fácil pra você dizer, né...”. “Eu conheço ela, besta”, cochichei, “tô te falando”. “Mano, por que? Por que ela?? Cê não podia ter namorado outra pessoa??”. “Olha quem fala!”. “Não acredito nisso... por quê?? Por que comigo??”, irritou-se. “Calma”, ri. “Calma nada, como é que eu vou entrar ali?”. “Vai ficar tudo bem”. “Argh”. “Vem, vamos só entrar, eu te protejo...”, tentei puxá-la pela mão. “Não, não. Não dá, meu!!”. “Não vai acontecer nada, Clá”. “Eu quero morrer”. “Só vem”. “Não”. “Vai ficar tudo bem! Olha, eu te amo, aconteça o que acontecer. Só vamos!”, ri do seu nervosismo. Ela suspirou. E os nossos pés lentamente foram se afastaram da parede. “E se ela ainda tiver puta comigo?”, sussurrou. “Não vai estar”. “Promete?”. “Prometo”, sorri.
 
Corajosamente, fizemos as nossas melhores caras de não-era-a-gente-que-tava-discutindo-por-dez-minutos-atrás-dessa-parede para entrar na cozinha. A um passo da porta, a Clara apertou a minha mão e eu fui na frente.
 
_Flor!

Bullying

A expressão de surpresa da Lê, ao abrir a porta e deparar-se conosco, me fez sentir como se eu devesse ter ligado antes. Não era pra vir?, pensei. Mas logo ela abriu um sorriso, de orelha a orelha, descendo a rampa da garagem num moletom com bermuda, bem sapatão. Me cumprimentou com um abraço violento, já notavelmente embriagada.
 
_PORRA! PORRA, MANO!! – disse, em alto e bom som, no meu ouvido; aí se afastou, olhando alternadamente para nós duas paradas ali – Não sabia que você vinha, meu...
_Podia vir, né?
_Tá brincando?! Lógico!! Já te xinguei para meio mundo porque cê não tava aí, meu!
_Besta! – revirei os olhos – Mas e aí, afinal, quê que tá rolando hoje?
_Como o que tá rolando?! – me deu um tapa no alto da cabeça – É aniversário da Jéssica, ô sua merdinha. Dá pra acreditar nesta mina, meu?! – me apontou para a Clara.
_Foi mal, foi mal, foi mal...
 
Me desculpei, rindo, de cabeça ainda abaixada. E a troglodita da Letícia partiu para cima de mim com os punhos fechados, me enchendo de “socos” no estômago, na costela, argh. Bêbada de merda. “Aparece aqui e num sabe nem que tá fazendo, ô infeliz, num ia dar nem um parabéns pra mina, sua sem vergonha!”, se divertia às custas da minha memória de maconheira, gritando. Durou seis ou sete segundos apenas, nem doeu também, mas eu dispensava aquela demonstração de a-gente-se-trata-assim-na-base-do-soco bem em frente à Clara. Quando enfim me consegui me soltar, a Lê se virou à minha convidada e sorriu:
 
_E você, então, é a famosa?
_Ah, é! Esta é a Clara. Cê lembra dela, não... – eu fiz as devidas apresentações, ainda me recuperando – ...cê tava junto quando a gente se trombou aquela vez lá, na Calixto.
_Hum, então é vocêêê... – a Lê desafinou, rindo, e eu implorei mentalmente para que o comentário parasse aí, mas claro que não – ...essa aqui, ó... – colocou o braço ao redor do meu pescoço e eu dei um sorriso amarelo – ...essa aqui ficou toooda, toda quando te viu lá, cara, não queria nem me falar teu nome! – a Clara me olhou, se divertindo com a revelação, e eu quis morrer – Eu soube na hora! Sabia! Sabia que tinha coisa!! Voltou toooda apaixonadinha pro estúdio comigo, ficou o resto do dia agindo esquisit...
_Tá bom, tá bom! Já chega!
_Quê?! E tô errada?! – a Lê arqueou as sobrancelhas – Ah lá, uns meses depois e cês tão aí! Juntinhas!
_Tá, Letícia. Já deu, vamos. Se comporta! – resmunguei e virei pra Clara – Vamos entrar, Bi, vem...
 
Puxei-a para longe da minha amiga sem amor à vida, que riu. Menos de três minutos aqui e já me arrependi de ter vindo.
 
_Ah, mas eu tava achando interessante...
 
A Clara achou graça, conforme eu a puxava para dentro da casa. Passamos pelo corredor lateral da entrada. Ali moravam a Lê e uma amiga meio hétero que estudou com ela – e que já tinha beijado todas nós em algum momento daqueles anos todos, nas festas que elas davam ou nos nossos rolês. A Camila era alguns anos mais velha que eu, sorri assim que a vi, sentindo que não nos encontrávamos há uns bons dois ou três anos.
 
_E essa aqui, hum, quem é? – ela olhou para a Clara então, curiosa.
_Clara, Camila. Camila, Clara.
_Prazer... – a Clara sorriu.
_Ó, já vou avisar... – brincou, me apontando – ...cuidado com essa daqui, hein?
 
Caralho. Me deixa só chegar antes?, revirei os olhos. As duas riram. E a Lê passou por trás de mim, dando outro tapa no topo da minha cabeça. “Agora cê tá me achando menos mal, né?”, cochichou no meu ouvido. “Não”, retruquei baixinho, “e você não tá perdoada ainda”. A sala estava ocupada por umas sete ou oito amigas nossas – incluindo a Thaís e a Ju, que agora namoravam oficialmente. Passei o olho e não achei a aniversariante.
 
_E a Jéssica, cadê?
_Tá lá na cozinha com a Má.
_E ela e a Lê, hein, mano? – perguntei baixinho, em tom de fofoca – Tão juntas ainda ou não?!
_Ah, meu, sei lá. Eu não pergunto, não falo nada, né... – a Camila deu de ombros, rindo – ...mas direto ela dorme aí.
 
Nos olhamos como se soubéssemos o que ambas não queriam admitir. As duas estavam saindo desde antes do aniversário da Lê, quando fomos para o Guarujá. E para o terror da minha amiga, que no fundo gostava mesmo era de namorar, a Jéssica tinha mais talento pra galinhagem. Aí ficava esse chove-num-molha sem fim. A Clara nos observava futricando, tentando acompanhar quem era quem. Fiz um gesto com a cabeça para ela e fomos em direção à cozinha para achar a aniversariante. 
 
_Não! Espera, espera... – a Clara me puxou pelo braço, de repente, já quase na porta – ...espera, só um segundo!
_O que foi?!
 
Eu a olhei, assustada, e ela se escondeu atrás das próprias mãos.
 
_Ai! – reclamou – Tem uma mina que eu já peguei aí!
_Quê?? Quem?!? – estiquei a cabeça pela porta e vi a Jéssica cozinhando perto do balcão, junto com a Marina e a Paula, que pareciam preparar um molho de macarrão em meio a uma zona de pratos e louça suja – A Jéssica? A de tatuagem no pescoço?!
_Não! Não! A de cabeço comprido!!
 
Comecei a rir, descontroladamente.
 
_A Marina?

junho 21, 2012

Inconseqüências monetárias

Marchei apartamento adentro, indo o mais longe que conseguia do Fernando. Folgado! Vem agora me pedir um tostão que seja, vem, larguei minhas tralhas sobre a mesa da cozinha, com ódio, você vai ver só. Desviei das latinhas e garrafas vazias espalhadas no chão, odiando o meu colega de apartamento inútil por não ter arrumado nada naquela tarde. Busquei na geladeira uma cerveja e a abri desajeitadamente com a mão, machucando de leve a minha palma. Olhei para o relógio na parede. Eram 23:21.
 
Todo mundo tinha pavio curto naquela casa – uma população inteira de duas cabeças duras incapazes de medir as palavras que saíam da nossa boca. Era sempre assim. Toda vez. Toda maldita vez. Nos irritávamos e nos ofendíamos, aí baixávamos o nível – fosse pelo aluguel ou por uma louça suja esquecida por três dias no meio da sala. Eu perdia o controle, ele saía batendo porta.
 
_Vocês parecem duas crianças, cara... – a Clara riu.
_Que se foda! – resmunguei, equilibrando o celular no ouvido, enquanto trocava de camiseta – Eu vou sair. Você vem?
_Quê?! Agora?!?
_É. Vou lá na Lê... – terminei de vestir a regata, alcançando uma jaqueta e a minha cerveja no armário – ...já tinha falado não ia mais cedo, mas se o idiota do Fernando acha que pode sair, então eu também posso. Cê vem ou não?
_Vou, vou...
 
A Clara murmurou, ainda rindo. Combinamos de nos encontrar no metrô. E em menos de 10 minutos, já estava saindo de casa de novo. Antes de deixar o apartamento, todavia, escrevi um bilhete bem-educado pro Fernando e grudei com uma fita na porta de entrada. Muito madura, sim. Subi a rua até a estação Consolação e esperei pela Clara na plataforma. Às 23:47, ela chegou. Com uma blusa do Billy Idol e uma jaquetona larga por cima. Sorri na mesma hora.
 
A estação abrigava animados grupos de 20-e-tantos anos, como nós, que apanhavam os últimos trens da noite. A gente tinha que ir até a República e depois até a Barra Funda. Já dentro do vagão, sentamos com os nossos pés apoiados nos bancos da frente e dividimos os fones do iPod dela durante o breve percurso. Descemos na primeira baldeação e esperamos o segundo trem da noite. A Clara fazia graça sobre a linha no chão e eu a assistia, sorrindo.
 
Quando subimos no próximo vagão, decidimos ir em pé, apesar do trecho ser mais longo. Se segurando no cano imundo no meio do corredor, a Clara fazia uns movimentos bobos, dançando ao som da música nos fones. “Jolene, jolene, jolene”, as suas mãos escorregavam pelo cilindro de metal e eu ria. Podia assistir ela dançar para sempre. “I’m begging of you”, o Jack White gritava nos nossos ouvidos, numa trilha sonora suja, “please, don't take my man!”. Apoiou o ombro contra o cano, chegando perto o suficiente da minha boca.
 
Num beijo, ou quase.
 
E aí tornou a deslizar, fazendo graça, antes que eu recebesse o meu beijo. Suas curvas desciam tentadoras no ar. “Jolene, joleeene...”, fez então que virava, meio de repente, esquecendo-se dos fones. E acabou toda enrolada. Comecei a rir. Fui tirando os cabelos dela do meio do fio, emaranhados na sua própria falta de atenção, e a Clara riu também. Os outros passageiros ignoravam as nossas gracinhas. Éramos possivelmente o casal mais insuportável em público.
 
Por precaução, guardamos os fones no bolso até a Barra Funda. Saímos na rua já depois da meia-noite e pegamos um táxi até a casa da Lê, o que me custou mais alguns bons reais. Quem foi o infeliz que inventou a bandeira dois? Mas, , chegamos. Batemos na porta da humilde e um tanto acabada casa da Letícia – podíamos ouvir a música alta vinda lá de dentro. Reconheci a moto da Ju e o carro da Marina, estacionados na garagem, junto com outro que não sabia de quem era. Comentei com a Clara a respeito e ela sentiu um frio na barriga – finalmente ia conhecer o resto das minhas amigas.

junho 17, 2012

No corredor

Cacete. Apertei suavemente a parte de trás do meu pescoço, sentindo doer, conforme saía do elevador do prédio. Eram 23:14, mas já parecia madrugada – tinha passado o dia inteiro numa gravação na puta que pariu, lá pros lados de Parelheiros. Agora, muitas baldeações depois, chegava em casa, arrastando os pés exaustos. Quando ouvi a porta do nosso apartamento abrir, a poucos metros dali. Era o Fernando. Me encarou, estressado, como se já estivesse atrasado para algum lugar.
 
_Onde cê tá indo, meu?
_No Z Carniceria... – resmungou, vindo na minha direção – ...vou encontrar os moleques.
 
Você só pode tá brincando.
 
_Como assim? – o segurei antes que chegasse no elevador – Com que dinheiro, Fer?!
_Qual é?! VAI VIRAR MINHA MÃE AGORA?! – se irritou com a intrusão.
_Aparentemente vou, né... – levantei a voz, brigando de volta – ...se sou eu quem vai ficar bancando as suas contas, caralho!
_E EU PEDI PRA CÊ BANCAR ALGUMA COISA, PORRA?!
_Ah! E você acha então que tem dinheiro sobrando?!?
 
Folgado.
 
_Tem?! – eu repeti, indignada, o encarando no meio do corredor.
_Não. Não tem! NÃO TEM! – gritou – MAS ISSO É PROBLEMA MEU, INFERNO. MEU! POR QUE CÊ TÁ SE METENDO?!
_Ah, não. Não mesmo... – ri, revoltada – ...isso é PROBLEMA NOSSO, FERNANDO! SEU E MEU!!
_ENTÃO CÊ VAI FICAR CONTROLANDO TUDO O QUE EU FAÇO AGORA?!? TOMAR NO CU!!
_VAI VOCÊ!! – retruquei, sem acreditar – É ASSIM QUE CÊ VAI TRATAR SUA AMIGA?? EU TÔ TENTANDO TE AJUDAR, PORRA! Cê vai ficar saindo todo dia, estourando verba que não tem?! Porra, Fer, caralho. Não é assim! Você tem que pensar no apê, meu, pensar em mim também, no que a gente paga junto. E na boa, se cê acha que eu vou ficar bancando tudo da casa pra você ir lá fazer festa todo dia, cara, cê tá muito enganado...
_Mano, mas... Eu nem vou gastar!! – ele esfregou as mãos contra o rosto, irritado comigo – Eu vou com os caras, caralho, eles que chamaram... Não paga nada pra entrar. Vou tomar só umas!
_Não interessa, Fernando!! Não interessa quanto cê “acha” que vai gastar, meu! É a sua atitude que tá errada! Porra, eu também tô deixando de sair...
_PORQUE QUER!!
_AH! SE É ASSIM, ENTÃO POR QUE EU NÃO SAIO HOJE TAMBÉM?! OU MELHOR, POR QUE EU NÃO SAIO E TORRO TODA A MINHA GRANA JÁ QUE CÊ TEM TUDO SOB CONTROLE, NÃO É MESMO?!?
_SAI! SAI, ENTÃO!! SAI! FAZ O QUE VOCÊ QUISER DA SUA VIDA, INFERNO, EU NÃO TÔ NEM AÍ!!
_VOU! VOU SAIR MESMO! – gritei e ele esbarrou no meu ombro, indo em direção ao elevador – CÊ TÁ SENDO UM BABACA, VELHO!
 
Virei as costas para ele e entrei no apartamento, batendo a porta.
 
Filho-da-puta do caralho.

junho 16, 2012

Toda calma do mundo

É. Não nos casamos, evidentemente – mas também não nos largamos mais. Nem naquela noite, nem nos meses que se seguiram. E admito, talvez eu tenha tropeçado um tanto para afastar o meu coração da Mia, hesitante em realmente deixar seu apartamento ou impedir seus avanços durante a festa, tá, eu sei, mas estar com a Clara era diferente. Diferente de tudo que eu já tinha vivido. Era o relacionamento mais sincero que já vivi. Numa ausência completa de hesitação – não tinha um pensamento que cruzasse a minha cabeça e que não saísse sem medo da minha boca, se concretizando quase imediatamente ao lado dela. Testando o limite uma da outra, nos expandindo sem filtro. E nos apaixonando pela expressão mais sincera de quem éramos. Puta merda. Assim, juntas, matando o trabalho só para nos ver; dez, doze horas sem sair da cama; fodendo em cada banheiro que a gente encontrava; caindo pelas sarjetas da Augusta, numas declarações bêbadas de madrugada; subindo no primeiro ônibus pro litoral só para ver o sol nascer no mar; conversando o caminho todo, as mãos e as pernas entrelaçadas, afundadas num banco no fundo do busão para Santos; nos contando todos nossos segredos, nuns papos sem fim, aos risos; xavecando nossas amigas; cuspindo água gelada uma na outra, numa tarde de calor no sofá da sala; nos beijando até acabar o ar – toda vez.
 
Nunca vivi esse tipo de genuinidade com alguém. Esse tipo de liberdade.
 
A única coisa sobre a qual a gente não falava era a Mia. Mas também não é como se tivesse muito o que dizer – desde que conversamos sobre nossos sentimentos, eles pareciam ter perdido a força. Ou a urgência. Era como se, em algum lugar, a Mia agora soubesse o que significava para mim e eu para ela. E a certeza nos tirava aquela angústia toda. Chegamos num ponto em que passamos a quase fazer graça, ocasionalmente nos provocando pelos corredores ou nuns SMS bobos. Sem nunca cruzar a linha.
 
As coisas só não estavam indo lá muito bem no apartamento. Financeiramente – é, o Fer continuava sem emprego. Começou com uma festa aqui, outra ali, mas aí passou um mês inteiro e depois outro... e nada. No terceiro mês, bateu o desespero. Paramos com as festas e passamos a mandar o currículo dele para tudo quanto é canto. O Fer tentou alguns freelas e até rolaram umas entrevistas, mas nada. Nada de vaga. E quando foi lá pelo quinto mês, acabou o seguro-desemprego. Aí apertou de vez. No sexto, acabaram-se as economias dele. No sétimo, as minhas. E então aconteceu exatamente o que não deveria – as festas voltaram.
 
Inferno.
 
Não para o apartamento em si, porque eu deixei bem claro que era contra, mas o Fer não passava mais uma porra de noite em casa. Não sei. Talvez ele estivesse cansado de ficar lá depois de tantos meses ou talvez só precisasse extravasar a frustração, vai saber. Mas o clima ficou uma merda. Toda vez que eu chegava do trabalho, exausta de tanta hora extra que pegava, e não o encontrava... eu reclamava.
 
E toda vez que eu reclamava, ah, dava treta.  

junho 15, 2012

[ CONTEÚDO EXCLUSIVO ]

AVISO: Os próximos 2 posts foram escrito exclusivamente para o livro do Fucking Mia e não estão disponíveis aqui. Os títulos são "5/5" e "Por que está amanhecendo?".
 
O livro do Fucking Mia está sendo preparado com muito carinho, em comemoração aos 10 anos de blog. O novo conteúdo está sendo escrito desde meados da pandemia e a ideia é lançar em breve! ♥
 
Se você quer ser avisada(o) sobre o lançamento do livro, deixe seu e-mail aqui:
 


junho 14, 2012

Lares insólitos

_Posso te contar uma coisa?
_Pode.
 
Sorri de volta para ela. E sentei na cama, despida, alcançando o isqueiro no chão. O sol terminava de se pôr lentamente e a luminosidade do meu quarto dependia quase unicamente dos postes do lado de fora, o cômodo estava escuro e os nossos olhos, já acostumados. Acendi um baseado, soprando a fumaça na direção da janela aberta.
 
Fazia horas que a gente tinha voltado para o apartamento. Passadas ali, entre as coxas e as mãos de uma, os beijos da outra. Os presentes comprados para as amigas pendiam em duas sacolas na maçaneta da porta e as pernas da Clara agora se moviam no lençol, encaixando-se na lateral do meu corpo. Ela encostou os seios descobertos na minha pele, esfriada pela proximidade da janela. Déjà-vu. Me senti bem de estar ali, com ela.
 
_No outro dia, quando... – continuou, baixinho, apoiando o rosto nas minhas costas – ...v-você passou lá no apê de surpresa, e-eu... – criou coragem – ...não ia jantar com uma amiga.
_Não? – traguei, segurando a fumaça por um instante.
_Não.
_Hum. Mas você ia jantar com alguém... é isso?
_É... – ela suspirou, envolvendo o braço na minha cintura, e eu soltei a fumaça no ar – ...quer dizer, era uma amiga, mas não... do tipo que... q-que você não precisa se preocupar. Era uma amiga mais... do... outro tipo.
_Sei.
 
Senti a sua respiração oscilar sobre a minha pele.
 
_Clara, eu... – dei mais um trago, insincera – ...não tô preocupada.
_Mas nã... n-não era isso que eu queria te contar... foi depois. Depois que você apareceu lá. Foi o que eu te mandei no SMS que você não recebeu essa semana. Sabe, e-eu te vi naquele dia e, e percebi que não...
_Hum?
_...n-não sei. Acho que foi o... – continuou, se atrapalhando um pouco – ...o jeito como você falou o que falou, a situação toda. E-eu me senti feliz, Bo. Mesmo que você tenha ficado só dez segundos lá. E, e eu sei que a gente não é como... como outras pessoas, sabe, como outros casais... Mas eu fiquei tão feliz, só de te ver ali.
 
Sorri, em silêncio, com as costas ainda viradas para ela.
 
_Meu, você vai achar besta... – ela comentou, apoiando o queixo pouco abaixo do meu ombro – Mas foi mesmo como se você tivesse me salvando de um jantar que eu realmente não queria ter, de um encontro idiota como qualquer outro, sem sentido nenhum. E... e era você, sabe? E-eu não queria tá ali, eu queria ficar com você. E eu tentei, e-eu passei o fim de semana todo com ela, m-mas...
_Hum – soltei a fumaça em silêncio, engolindo o ciúme que brotava em mim.
_Mas v-você é diferente, Bo – murmurou, apoiando de novo a lateral do rosto em mim – Sabe?
 
Não. Eu não sabia – sorri discretamente, num reflexo natural.
 
_E eu só queria q-que você soubesse. Eu gosto do que a gente tem.
_Então... – senti meu coração acelerar – ...o que cê tá dizendo? Vamos mesmo fazer isso? – respirei fundo – Eu e você?
_Não sei. O q-que... – ela sorriu contra a minha pele, nas minhas costas – ...que você acha?
_Eu quero ficar com você, Bi – respondi sem hesitar.
_E eu quero ficar você, desgraça.
 
Ela riu e eu sorri, dando mais uma bola no baseado. Um sentimento estranho de felicidade me contaminando, à surdina. Bem de mansinho. Os fios do seu cabelo deslizaram pela minha coluna e a Clara ajeitou o rosto contra a minha pele. Estar com ela me fazia bem e eu sabia. Desci a mão sobre os seus joelhos, enrolados ao redor de mim, com a seda ainda entre os dedos. E deixei a fumaça escorregar aos poucos para fora da minha boca. Enquanto a deixava entrar. Na minha vida, na minha cabeça. No meu coração.
 
Coloquei a ponta restante do baseado sobre o parapeito da janela, esticando o braço. O THC inebriava os meus pulmões e os seus movimentos, tornavam-se sutis, cada vez mais perceptíveis. As pontas dos seus dedos percorriam a minha barriga, fazendo cócegas pela minha cintura e aí subindo, delicadas. Me virei na sua direção e a Clara sorriu. Podia senti-la ainda na minha pele, um sentimento descomplicado. É. E talvez fosse mesmo tão simples assim, talvez pudesse ser assim o tempo todo. É engraçado o quanto quatro paredes podem mudar a sua percepção das coisas, do que te basta para ser feliz. Sem pressa, a minha mente contemplou os caminhos ondulados do seu corpo, do que tínhamos juntas, não sei – minhas mãos foram deslizando pelo entendimento que possuíamos uma da outra, nossa sintonia, levemente chapada. Conforme ela se tornava cada vez mais, e mais, real na minha vida.
 
_Então... – sorri, encarando os seus olhos castanhos com a boca já quase na sua – ...então é isso... – os meus lábios encostaram nos seus – ...que a gente vai fazer.

junho 08, 2012

Etiqueta

Peguei o cigarro de volta das suas mãos e dei dois passos para trás. Não queria o confronto. Argh, merda. Sentei no degrau frente à galeria Ouro Fino, de cabeça baixa, encarando meus tênis contra o chão de cimento. E a Clara abaixou, agachando-se na minha frente. Traguei mais uma vez e ela colocou os braços apoiados nos meus joelhos, me olhando nos olhos. Soltei a fumaça para o lado e a encarei de volta, indisposta.
 
_Olha, eu... – ela justificou, me observando de perto – ...não tô, aqui, achando que aconteceu alguma c...
_Porque não aconteceu.
 
Segurou o fôlego, interrompida.
 
_Quê, meu?! – gesticulei nervosa, a conversa me deixava inquieta – Você sabe que não! Não aconteceu nada, porra! Então por que você tem que vir e começar isso agora?!
_Eu não tô c... – respirou fundo – A gente só tá conversando, Bo.
_“Conversando”, tá. Sei.
 
Balancei a cabeça, frustrada, e traguei mais uma vez. Outras pessoas passavam por nós no degrau e entravam na Ouro Fino. Olhei para a minha mão e o cigarro já estava quase no fim. Soltei o ar lentamente. Não posso perder o controle. Tinha a tendência de estragar esse tipo de conversa antes mesmo de começar. E não queria fazer isso com a Clara, definitivamente. Mas é, inferno, tão difícil manter a calma quando não se tem certeza da sua própria culpa.
 
Dei mais uma tragada, já aproximando a linha da brasa fatalmente do filtro, e ofereci o pouco restante para a Clara. Ela recusou com a cabeça. Então o matei e apaguei contra a calçada. Os seus olhos castanhos me observavam apertar o fogo contra o cimento. Cacete, suspirei. Como me meti nessa? Alguns lojistas conversavam e fumavam metros adiante na calçada – uma conhecida acenou de longe e eu sorri brevemente, por educação. E tornei a olhar para a Clara, na minha frente:
 
_Olha, eu sei porque... p-porque você acha que temos que conversar, mas... não temos. Não temos mesmo – insisti – Porque não tem nada, Bi! Não aconteceu nada!
_Então você tá me dizendo que não sente nada pela Mia? É isso?! Nem ela por você?
_E o que você tem a ver com isso, meu?
 
“Nossa...”, ela arregalou os olhos, ofendida. E com um gesto de mãos para cima, ficou novamente em pé – “aparentemente nada”, resmungou. Merda. Balançou a cabeça, num suspiro, desistindo de tentar conversar civilizada comigo. Merda, merda. Como eu sou idiota, me arrependi, fechando os olhos e passando a mão no rosto. Por que eu não consigo calar a boca? “Deixa pra lá”, a Clara murmurou, falando para entrarmos antes que as lojas fechassem. E eu me levantei, a acompanhando galeria adentro.
 
O clima agora estava uma merda. Passamos por algumas das lojas do térreo e eu a segui, com as mãos nos bolsos. E o rabo entre as pernas. Ela sequer olhava na minha direção. Agíamos como meras conhecidas – droga. Não posso magoar ela assim, não a Clara. Subimos a escada rolante para o primeiro piso. Eu me arrependia, cada vez mais, mas continuava quieta. Ela tentava se mostrar indiferente, olhando as roupas e fazendo comentários curtos, apática. Estava procurando um presente para duas das suas amigas, cuja festa conjunta de aniversário aconteceria na outra sexta-feira.
 
Nada no primeiro andar, então fomos para o segundo. Demos a volta toda em silêncio. Está feliz?, me repreendia mentalmente, isso é culpa sua, sua imbecil. Observei a Clara dar alguns passos adiante, na sua jaqueta de inverno e o lenço de flores pequeninhas. Parou frente a uma vitrine com roupas vintage, mas não entrou – desanimada com tudo o que via. Apertei o passo e a alcancei, andando novamente ao seu lado; ela ignorou um sorriso espontâneo meu. Nossos olhares se cruzaram, mas – nada. Nos aproximamos do elevador, já caminhando em piloto automático para o terceiro piso.
 
_Espera, não. Vem cá... – a peguei pela mão e a encostei numa das paredes – ...espera só um pouco, vai.
_O quê?
_Eu... – apertei os olhos, fechando-os arrependida, e abaixei a cabeça – ...e-eu sou uma idiota, Bi – encostei a testa no seu ombro – Uma idiota, me desculpa. Não devia ter sido grossa com você daquele jeito...
_É, né.
_...e eu, e-eu sei que cê não tava me cobrando, nem nada, aquela hora...
_Só queria conversar numa boa, meu!
_Eu sei, desculpa!
_Sério, cara, você precisa melhorar esse... – bufou – ...esse seu “jeito”, sabe. Urgentemente. Você me trata como se...
_Eu sei, eu sei – a interrompi – É que eu... sabe, e-eu gosto de você, gosto mesmo, e... a última coisa que eu quero estragar tudo com a minha boca grande, só que... não sei... e-eu, eu sou muito, muito ruim com esse tipo de conversa, sei lá, eu f-fico nervosa e, e quando vejo acabo dando umas respostas piores ainda – a olhei nos olhos, tentando fazer com que visse a sinceridade neles – Saiu tudo errado, Bi! Não era a minha intenção, meu, não mesmo... – respirei fundo – ...e-eu gosto tanto de você, porra.
 
Meu corpo pendia sobre o seu e ela me olhava, com os braços ainda cruzados. Suas costas estavam contra a parede e a sua expressão aborrecida. Deixa passar essa, garota, eu a encarava de volta, por favor. E naquele momento, a Mia podia ir à merda. O que eu queria era ficar bem com a Clara, mais do que já quis qualquer coisa nessa vida. Ela abaixou a cabeça, cedendo um pouquinho. E empurrou o meu corpo com um dos seus ombros, num movimento leve, ainda com os braços cruzados.
 
_Eu também gosto de você... – murmurou, admitindo pela primeira vez, um tanto brava e um tanto sorrindo – ...mas você é MUITO babaca. Puta merda!
_Eu sou mesmo... – eu ri.
_Não! Não, não... – a Clara balançou a cabeça, indignada – ...não vai achando aí que é engraçado, que você pode se safar assim toda vez... – descruzou os braços, apontando o dedo na minha cara e eu ri ainda mais, junto com ela – ...você vai ter que aprender a conversar que nem uma pessoa normal, se a gente for mesmo ficar junt...
_Ahhhh! – brinquei – Então você quer ficar junto?!
_Cala a boca! Eu não terminei.
_Clara Villares Huanca desistindo do seu mar de amantes paulistanas... – a provoquei – ...quem diria, hein?
_Olha... – ela me encarou, sem paciência – ...seria muita sorte sua.
_Seria mesmo.
 
Admiti. E nós ainda ríamos, quando nos beijamos contra a parede. Fazendo as pazes.

junho 06, 2012

...duas cajadadas

Sem olhar para trás, atravessei o corredor. E encontrei a Clara na porta. Respirei inquieta, enquanto o elevador descia. Ela agia diferente comigo, mais distante, se forçando a se conter. Sem afeto. Procurei ignorar os sinais e saímos do prédio, subindo a Frei Caneca em direção ao lado “bom” da Augusta – isto é, a área em que as casas de strip e os botecos sujos eram substituídos por restaurantes e lojas de estilistas em começo de carreira.
 
Assim que atravessamos a Paulista, parei rapidamente para pegar café. O dia estava frio – o termômetro da rua marcava 14ºC e a ressaca me maltratava junto ao vento. Nenhuma palavra da Clara no caminho todo. Por favor, por favor, implorei mentalmente. E me cruzou à cabeça a época em que eu ainda namorava a Marina, quando nós discutíamos toda noite. A Clara não é a Marina, me convenci.
 
Mas o que ela é, então?!
 
Desde que voltamos a nos ver, nunca discutimos as premissas do nosso relacionamento. Só fomos levando – nos vendo quando dava vontade. O problema é que, sem isso ou qualquer conversa, não sabia até onde ela tinha direito de agir daquela forma. Simplesmente por eu estar sozinha na sala com a Mia, digo. Sequer sabia se a Clara saía com outras minas. E importa? Argh. Me sentia apreensiva. Se tinha uma coisa em que eu era realmente, realmente péssima, sem dúvida, era discutir relacionamento – especialmente a culpa me rondava.
 
Caminhando lado a lado, ainda em silêncio, atravessamos a Lorena. Nenhuma de nós dizia nada. As ruas estavam relativamente cheias para aquele horário. Descemos o quarteirão até parar em frente à galeria e a Clara me segurou para que a esperasse acender um cigarro. Tirou o maço do bolso, acendendo um Lucky Strike com um dos meus isqueiros, roubado na semana anterior. Deu o primeiro trago, me oferecendo-o num gesto automático. Eu aceitei. Traguei duas ou três vezes também, devolvendo-o logo em seguida. Seus olhos não saíam de mim – os seus dedos seguravam o filtro e pressionavam os lábios, suavemente, e eu sabia o que estava por vir.
 
_Eu vou te perguntar... – ela disse calmamente e me encarou – ...isso, antes de a gente entrar, e eu não quero que você pense que me deve alguma coisa, mas eu queria que você falasse a verdade.
_Bi... não, meu. Por favor.

junho 05, 2012

Duas coelhas...

_N-não, ele... – me enrolei – ...saiu, f-foi levar uns amigos que tavam aí.
_Hum.
 
O seu olhar oscilou, voltando para mim no batente da porta. Parada, ali, implorando para que não levasse a mal. O seu cabelo preto caía, bonito e desfiado, por cima de um cachecol com flores pequenas, indicando o frio que fazia do lado de fora. Me encarou, como se procurasse alguma explicação plausível – a que fosse – para a minha cara de culpada, ali, e a Mia logo atrás, no apartamento vazio.
 
Mas... afinal, rolou alguma coisa?!
 
Nem eu sabia dizer. Eram sempre esses momentos tão dispersos, argh. A Mia nos observava de longe e os seus olhos, os da Clara, não se enraiveceram, se manteve tranquila diante da situação. Ainda que, no fundo, eu percebesse uma constatação magoada – decepcionada comigo, com as possibilidades pouco admiráveis que o meu comportamento podia tomar. E me dava conta agora, de repente, do quanto me importava com o que a Clara pensava de mim.
 
_M-mas eu... – retomei, afobada – ...e-eu vou com você!
 
E sem saber bem o porquê, em meio a uns segundos impensados de constrangimento, me virei para ir trocar e a acompanhar – num nervosismo atrapalhado. Pedi que me esperasse dois minutos, iríamos juntas até a Ouro Fino, uma galeria de artistas e designers independentes do outro lado da Augusta. Me virei na direção do corredor, às pressas. E a Clara se surpreendeu com a decisão repentina. A Mia também.
 
Sem que eu visse, seus pés descalços se apressando no chão, a Mia me seguiu até o quarto. E fechou a porta atrás de nós. Não, não. Por que diabos você veio?, a olhei ali, angustiada. Agora é que a Clara vai pensar que tá rolando alguma coisa, porra! Seus olhos indignados.
 
_Você vai mesmo com ela??? – me questionou, num tom baixo.
 
Respondi que “sim”, começando a tirar as roupas do meio da zona que estava o meu armário. E a Mia cruzou os braços, em silêncio. Subi uns jeans rasgados pelas minhas pernas e coloquei a primeira camiseta que vi na frente, junto a um lenço palestino. Enquanto procurava pela minha jaqueta no bolo de roupas, largadas ali de qualquer jeito, a ouvi suspirar, irritada. A menos de um metro de mim.
 
Aqui. Achei a porra da jaqueta. Me virei e a Mia ainda estava lá. Por favor, só volta para a sala. Aquilo não me ajudava em nada a manter as aparências. Desviei novamente o olhar, enquanto calçava um par de tênis sujos. A Mia era incapaz de esconder o seu incômodo, cruzando e descruzando sistematicamente os braços, me observando ajeitar o cabelo amassado no espelho atrás da porta do meu armário.
 
_Sério mesmo que você vai com ela?! – sussurrou quase brava, inquieta – Agora? Assim?!
_E o que eu deveria fazer, Mia? – retruquei – Hein?! Esperar aqui com você até o Fernando voltar?
_Não foi o que eu quis dizer... É só q-que, sei lá, eu achei que a, a gente tivesse...
_Sei. Ótimo plano! – a interrompi, irônica – Só que só funciona para uma de nós.
_Não. Espera! Você não precisa ir...
 
A sua mão alcançou a minha, me segurando. Havia carinho no toque dos seus dedos, o mesmo de antes. Suspirei, tentando não me deixar afetar por cada gesto seu, e a olhei, me sentindo estranhamente capaz de ser cada vez mais sincera.
 
_Não. Não preciso ir, não preciso mesmo... – respondi, sussurrando de volta – E você também não precisa ficar com ele. Mas você, v-você fica, não é?! E enquanto você fizer o que quer, eu também faço.
 
Desviei dela, fechando a jaqueta, apressada. E a Mia me deu passagem, com os olhos magoados.

junho 01, 2012

52 ways to murder anyone

Uma tonelada – esse era o peso da minha cabeça no dia seguinte. Afundada contra o travesseiro e tentando suportar a dor, o meu estômago se retorcia. Passei mais de quarenta dos minutos iniciais daquela tarde de sábado rolando de um lado para o outro na cama, sem realmente acordar de vez, no limbo excruciante da ressaca. O meu corpo todo suado e o quarto frio.
 
Quando finalmente levantei, vesti um moletom cinza – o mais confortável do meu armário – para tentar me esquentar. Coloquei um par de meias grossas e, me sentindo ligeiramente estável, fui até a cozinha pegar um copo de água. Abri a geladeira, sentindo a minha cabeça e o meu corpo resmungarem a cada movimento. De lá, me arrastei preguiçosamente até a sala, onde me deparei com o caos silencioso daquela madrugada. O apê parecia ter sido saqueado, com copos vazios, garrafas e latas amassadas largadas por todo lado.
 
Cacete.
 
Empurrei uma jaqueta e algumas das coisas largadas sobre o sofá, despejando-as de qualquer jeito no chão. Aí liguei a TV e acendi um cigarro, demorando um pouco para achar o controle e me deitando, com a barriga virada para cima. Mudei o canal para um desenho animado qualquer. E fiquei ali algum tempo – fumando o cigarro apenas até a metade e o apagando na mesa de centro. O meu cabelo amassava-se contra o encosto e eu tinha uma das mangas do moletom apoiadas na testa. Estava tão confortável que acabei cochilando de novo.
 
Não sei bem quanto tempo se passou. Mas senti alguém acariciar levemente a minha mão, que agora pendia para fora do sofá. Num ritmo lento. Como se desenhasse com a ponta dos dedos sobre a minha pele, me despertando aos poucos. Abri os olhos e foi quando a vi ali, a Mia. Sentada ao pé do sofá, só de blusão no chão da sala. Tinha a cabeça apoiada no braço, dobrado sobre o trecho do sofá perto das minhas pernas.
 
Ei, você..., sorri instintivamente.
 
Suas mãos acariciavam as minhas, no pequeno espaço descoberto do meu antebraço – o sofá tinha repuxado o meu moletom. A outra manga cobria parcialmente os meus olhos, com o braço largado sobre a testa – e eu a observava dali, por debaixo do pano. Desacostumada a receber carinho dela assim. Ia deslizando dois ou três dos dedos pela minha pele, despreocupadamente. E eu assistia, um pouco fora da realidade. Mas onde tá o..., a ficha me caiu de uma só vez e eu arregalei os olhos.
 
_Puta merda – me ajeitei no sofá, às pressas, tirando o braço do seu alcance, me dando conta de onde estava. E com quem.
 
A Mia levantou a cabeça, como se despertasse junto comigo, num susto.
 
_Que foi?
_O, o que v-você tá fazendo?! – me alarmei, sussurrando na sua direção – Cadê o Fer?!
_Relaxa... – ela riu, trazendo novamente a minha mão para perto de si – ...ele saiu, faz um tempo já. Foi levar o Igor e o Rafa lá em Tiradentes.
 
Encostei o corpo de novo contra o sofá e... e não sei bem por que, mas deixei que as suas mãos continuassem na minha. Não pensei, não sei. Ela analisava meus dedos com carinho e eu me sentia fora do ar. Estranha. Ali, com ela. A ressaca parecia me prender contra aquele sofá, me impossibilitando de mover. Olhei para a Mia por um instante, me segurando com tanta ternura, e, não... não faz isso, porra.
 
Argh. Meu coração cansado bateu mais fraco. E apesar da angústia que se manifestou silenciosamente, quente na minha pele, por baixo dela... nas minhas veias... eu não desviei o olhar. Meus olhos seguiram os dedos dela. A verdade é que parte de mim gostava. De cada pequena atitude da Mia. O problema era a outra parte – a que gritava nos meus ouvidos, suplicando para eu me afastar dela. Não tinha condições de voltar ao que fora no passado. Você não faz bem para mim, garota. Mas lá estava ela, tão confortável comigo, ali, que, por algum motivo, deitada naquele sofá, eu não conseguia tirar a minha mão das suas.
 
_Não acho que a gente devia tá assim... – murmurei.
_Por quê?! – a Mia se debruçou de leve sobre o sofá, quase tão sonolenta quanto eu – Se alguém chegar, falo que tava só agradecendo... pelo beijo.
_Sei... – sorri.
 
Ela colocou a cabeça apoiada sobre a minha barriga e ajeitou o cabelo atrás da orelha.
 
_E me diz, como... – a minha voz se arrastou, curiosa, afundada no sofá – ...c-como você conseguiu que a sua amiga m-me desafiasse?
_Eu pedi.
_Ela não achou estranho?!
_Não. Disse que sempre tive curiosidade... – a Mia se constrangeu, falando em tom de segredo – ...mas que preferia que fosse você, que eu já conhecia. E ela topou.
_Nossa, cê não tem noção de como eu quis te matar ontem...
_Eu disse para ela não contar pro Fê que eu que tinha pedido.
_Sei – achei graça – Muito esperta voc...
 
A campainha tocou de repente, nos interrompendo. Nos afastamos imediatamente, num gesto automático. E o seu olhar buscou o meu, sem respostas. Mas... Espera. O Fer esqueceu a chave?, estranhei. Me levantei, passando por cima do braço do sofá, indo em direção à porta. A Mia continuou no chão. Tentei virar a chave na fechadura e só então notei que já estava aberta – então girei a maçaneta. E dei um passo para trás, o que diab...?
 
Era a Clara.
 
_E, e aí...?! – a cumprimentei, confusa – O q-que cê tá fazendo aqui?
_Te acordei? Ia dar uma passada lá na Ouro Fino para comprar umas coisas e aí pensei em te chamar para ir junto. Ia te mandar mensagem, mas como cê tava sem celular... – ela riu e olhou por cima do meu ombro.
 
A sua expressão mudou na mesma hora, merda. A Mia estava sentada no chão, só de blusão, nos olhando.
 
_O Fer... – a Clara tornou a me encarar, hesitante – ...tá aí?