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junho 05, 2012

Duas coelhas...

_N-não, ele... – me enrolei – ...saiu, f-foi levar uns amigos que tavam aí.
_Hum.
 
O seu olhar oscilou, voltando para mim no batente da porta. Parada, ali, implorando para que não levasse a mal. O seu cabelo preto caía, bonito e desfiado, por cima de um cachecol com flores pequenas, indicando o frio que fazia do lado de fora. Me encarou, como se procurasse alguma explicação plausível – a que fosse – para a minha cara de culpada, ali, e a Mia logo atrás, no apartamento vazio.
 
Mas... afinal, rolou alguma coisa?!
 
Nem eu sabia dizer. Eram sempre esses momentos tão dispersos, argh. A Mia nos observava de longe e os seus olhos, os da Clara, não se enraiveceram, se manteve tranquila diante da situação. Ainda que, no fundo, eu percebesse uma constatação magoada – decepcionada comigo, com as possibilidades pouco admiráveis que o meu comportamento podia tomar. E me dava conta agora, de repente, do quanto me importava com o que a Clara pensava de mim.
 
_M-mas eu... – retomei, afobada – ...e-eu vou com você!
 
E sem saber bem o porquê, em meio a uns segundos impensados de constrangimento, me virei para ir trocar e a acompanhar – num nervosismo atrapalhado. Pedi que me esperasse dois minutos, iríamos juntas até a Ouro Fino, uma galeria de artistas e designers independentes do outro lado da Augusta. Me virei na direção do corredor, às pressas. E a Clara se surpreendeu com a decisão repentina. A Mia também.
 
Sem que eu visse, seus pés descalços se apressando no chão, a Mia me seguiu até o quarto. E fechou a porta atrás de nós. Não, não. Por que diabos você veio?, a olhei ali, angustiada. Agora é que a Clara vai pensar que tá rolando alguma coisa, porra! Seus olhos indignados.
 
_Você vai mesmo com ela??? – me questionou, num tom baixo.
 
Respondi que “sim”, começando a tirar as roupas do meio da zona que estava o meu armário. E a Mia cruzou os braços, em silêncio. Subi uns jeans rasgados pelas minhas pernas e coloquei a primeira camiseta que vi na frente, junto a um lenço palestino. Enquanto procurava pela minha jaqueta no bolo de roupas, largadas ali de qualquer jeito, a ouvi suspirar, irritada. A menos de um metro de mim.
 
Aqui. Achei a porra da jaqueta. Me virei e a Mia ainda estava lá. Por favor, só volta para a sala. Aquilo não me ajudava em nada a manter as aparências. Desviei novamente o olhar, enquanto calçava um par de tênis sujos. A Mia era incapaz de esconder o seu incômodo, cruzando e descruzando sistematicamente os braços, me observando ajeitar o cabelo amassado no espelho atrás da porta do meu armário.
 
_Sério mesmo que você vai com ela?! – sussurrou quase brava, inquieta – Agora? Assim?!
_E o que eu deveria fazer, Mia? – retruquei – Hein?! Esperar aqui com você até o Fernando voltar?
_Não foi o que eu quis dizer... É só q-que, sei lá, eu achei que a, a gente tivesse...
_Sei. Ótimo plano! – a interrompi, irônica – Só que só funciona para uma de nós.
_Não. Espera! Você não precisa ir...
 
A sua mão alcançou a minha, me segurando. Havia carinho no toque dos seus dedos, o mesmo de antes. Suspirei, tentando não me deixar afetar por cada gesto seu, e a olhei, me sentindo estranhamente capaz de ser cada vez mais sincera.
 
_Não. Não preciso ir, não preciso mesmo... – respondi, sussurrando de volta – E você também não precisa ficar com ele. Mas você, v-você fica, não é?! E enquanto você fizer o que quer, eu também faço.
 
Desviei dela, fechando a jaqueta, apressada. E a Mia me deu passagem, com os olhos magoados.

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