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setembro 04, 2012

Prazer, Du

Estava entre a diretora de arte da produtora e uma das atrizes no set, quando senti o celular vibrar no meu bolso. Tirei-o discretamente da calça e espiei – “e oq era? :3”, a Mia respondeu. “Dps t conto”, digitei brevemente e tornei a focar os meus olhos na prancheta cheia de rabiscos, sem dar bandeira. A gravação daquela manhã parecia durar para sempre.
 
Céus. Não é possível que achem isso ‘cool’, julguei silenciosamente, observando com certo desgosto as escolhas trágicas da equipe de figurino. Umas roupas pretensiosas que contrastavam escandalosamente com a calçada suja e aquele charme urbano de São Paulo. Mas, né, quem era eu pra falar, metida numa bermuda e com a mesma camiseta desbotada de quatro dias antes.
 
Esperei as coisas acalmarem um pouco e dei uma escapada para fumar. Fiquei fofocando com uma das assistentes, entre uma tragada e outra, do lado de fora. Ela ria dos meus comentários sobre o figurino. A gravação, claro, estava atrasada. Quando olhei no meu relógio, faltavam menos de vinte minutos para as 14h – merda, merda. Joguei a bituca no chão, com pressa, apagando a brasa com a ponta do meu All Star encardido. Corri até a tenda onde estava o restante da equipe e avisei que ia tirar o meu horário de almoço, largando a prancheta com um estagiário.
 
Subi então para o metrô, descendo na Consolação e cruzando a pé para a Frei Caneca, de olho no horário. 14:07. A menos de um quarteirão do nosso prédio, vi um cara de cabelo loiro escuro parado em frente ao portão. Vestia uma calça saruel preta e tinha uns óculos escuros Clubmaster. A regata branca com o corte fundo na lateral o denunciava como amigo do Guilherme. 100% viado.
 
_E aí, beleza? – me aproximei, o cumprimentando – Você que é o Du?
 
Ele sorriu e se apresentou, pegando a mochila que estava no chão; tinha umas tatuagens esquisitas no braço – dessas propositalmente toscas e aleatórias, não sei bem explicar. Fomos juntos até o elevador do prédio. E apertei para o nosso andar, enrolando as mangas da camiseta sobre o ombro, cansada da descida em ritmo apressado até a Frei. Me sentia confortável ao lado dele, bom sinal. Agora que o via mais de perto, todavia, não me parecia ser mesmo gay. Ou será que é?, me ocupei com o meu radar por um instante, distraída.
 
Andamos até a porta do apartamento e eu entrei, largando minhas chaves na mesa e chamando o Fer para checar se estava em casa, mas ele não respondeu – o apê estava vazio. Fui na frente, mostrando o espaço e puxando assunto, sondando mais sobre o Du. Ele era ator de teatro, assim como o Gui, só que de uma outra companhia que eu nunca tinha ouvido falar. Trabalhava dando aula e fazia mestrado, tinha 26 anos. A princípio parecia meio quietão, na sua, não abriu muito a boca, mas algo me dizia que era debochado.
 
_E cê tá querendo sair lá de onde cê mora?
_É. Moro com uma família no Santa Cecília, tenho um quarto alugado – o Du olhava os cômodos conforme a gente ia andando – Mas é ruim lá, meu, não tenho privacidade e ficam cagando regra. Não funciona.
_Não te deixam levar gente ou o quê?
_Ah, entre outras coisas... – riu, erguendo os óculos sobre a cabeça – ...mas, assim, já fodi meio Vale escondido enquanto eles ouviam louvor no andar de baixo.
 
E aí estava, o deboche.
 
Achei graça. Vamos nos dar bem. Chegamos, enfim, ao quarto que ele ocuparia caso resolvesse se mudar pra lá e eu afastei a bagunça do Fernando com os pés para que pudéssemos entrar direito. Expliquei que aquele era ligeiramente maior que o meu, então o aluguel não seria dividido exatamente na metade. E que a maioria dos móveis iam sair – tudo o que o Fer não fosse levar, ele ia tentar vender, então não ia sobrar muita coisa. Nem a cama.
 
_Hum. E o seu amigo tem planos de voltar quando?
_Então, daqui uns meses, acho. Assim que ele arranjar um trampo e juntar uma grana, se estabilizar, aí ele vem de novo. Mas dá pra ir conversando... – cocei a nuca, já voltando pra sala – Quanto tempo cê acha que ia precisar aí?!
_Ah, meu... uns sete, oito meses. Tô tentando uma bolsa na gringa, a ideia é fazer uma parte do meu mestrado fora, mas isso deve rolar só lá pra julho, agosto... O que der pra eu ficar aí antes já ia ser perfeito. O apê de vocês é do caralho, meu...
 
Sorri e encostei contra o apoio do sofá, ainda em pé. Ele parecia mesmo o tipo de cara que frequentava a Society – que ficava a 500 metros do nosso prédio –, senti que se mudaria imediatamente para o quarto do Fer se pudesse. Estava visivelmente animado. Cruzei os braços, o observando. Talvez eu devesse falar mais alguma coisa, não sei, mas a verdade é que eu não sabia muito bem como diabos entrevistar alguém para dividir um apartamento. Literalmente só tinha morado com o Fer desde que saí da casa dos meus pais.
 
_E... c-cê tem alguma pergunta? – questionei, sem muitas ideias de como prosseguir.
_Não. Ou melhor... – o Du riu – ...só por precaução, quais as regras?
_Olha, não muitas – ri também – A gente divide as contas e dá uma faxinada a cada semana, quinze dias, sei lá. Eu passo a maior parte do tempo fora, então nem vou ficar muito aí. Quando venho geralmente tô trancada no quarto... E de resto é bem de boa. Traz quem cê quiser, faz o que quiser, tô pouco me fodendo. Só não largar prato sujo por três dias na pia que tá tranquilo.
_Pode crer. E assim, é “legalizado”?
 
O encarei como quem diz “meu bem, olha pra minha cara de maconheira, né”. Gostei de você.

14 comentários:

Ianca' disse...

Pow, morar com a FM deve ser tão de boa... Eu seria mó chata hahaha
Agora tá batendo umas tristezinha, não queria que o Fer fosse embora de fato, mas imagina a Mia no apê sem o Fer presente? Seria totalmente exclusivo e intenso (viajei)

Anônimo disse...

Curti esse Du. Será que é gay? HAHAHAH
E poax, a Mia só respondeu no outro dia de manhã??? Sacanagem hein...

Anônimo disse...

Só o que falta é o cara ser hetéro mesmo e levar uma namorada super linda pro apê e toda a história recomeçar rsrsrs Ahh meu ela já curtiu o cara mano, não acredito, sinto o Fer sendo largado rsrsrs (como isso fosse acontecer) Muito bom Mel, tá ótimo, vê se não demora com o próximo hein? :)

Anônimo disse...

algo me diz q o fernando nao volta. hahaha

Pathy disse...

Nada da Estória se repetir com o Du hein.. HAHAHAHAHHA

jamile disse...

adorei ele =D hahaha

Anônimo disse...

Nossa, agora eu viajei em inúmeros desdobramentos dessa possível heterossexualidade... (66

Anônimo disse...

"Ja gostei de voce" awn, gostei desse moço tambem hahaha

Anônimo disse...

Ele não é gay. e eu acho que seria foda se ela ficasse com a mina dele kkk.

Anônimo disse...

Tô com dó do Fer! :(

Anônimo disse...

"Ele não é gay. e eu acho que seria foda se ela ficasse com a mina dele kkk."

Turn the hard right, nobody deserves!!!

Anônimo disse...

Gostei dele e estou curiosa com a sexualidade.

Dea disse...

o Du não faz ideia do quanto é difícil entrar num lugar e gostar dele logo de cara. sortudo dos infernos, hunf. hahahahaha! desabafos a parte, é meio estranho ler FM com você longe, Mel. quando volta mesmo? quero mais posts, quero prévias, quero discutir as personagens e quero sua companhia, poxa!

;*

Juliana Nadu disse...

Que delicia de post!!

Definitivamente Melzita vc é uma bruxa!! Acabei de vivencia a mesma experiencia com uma amiga num prédio na Frei Caneca essa semana...

Delicioso Post!!