O clima no apartamento ficou estranho. Apesar dos meus esforços
para compensar a minha acidental falta de sensibilidade, o Fer manteve a sua
cara devidamente fechada pelas duas semanas seguintes. Para piorar, a Clara foi
passar seus dias de recesso num camping em Jaguariaíva com duas amigas. E sem
dinheiro nem para a passagem de ônibus, eu fiquei em São Paulo – na companhia emburrada
do meu melhor amigo, cuja namorada também o trocou por uma viagem em família.
Pois é. Fim de ano é sempre uma droga, mas aquele era
o pior de todos. Sequer comemoramos o Natal ou o Ano Novo, rodeados de caixas
de papelão enquanto os fogos estouravam na Paulista. Coexistíamos como dois
irmãos após uma briga. Ridiculamente, isto é – eu puxava assunto na mesa
da cozinha e ele me respondia com três palavras. É. Aquele era o meu castigo nos nossos
últimos dias morando juntos.
A sua indiferença.
Agia como se pouco importasse, mas a verdade é que meu melhor
amigo estava menos bravo com a minha rápida troca de colega de apartamento e
mais incomodado em ter que deixar a sua vida ali. O tempo tinha acabado. Espalhando
o seu gosto amargo em cada canto daquele apartamento. Os ânimos só foram melhorar
uns dias depois, num sábado de manhã, quando a Mia voltou.
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