O restante do dia correu abarrotado de tarefas para fechar o ano.
Entre uma crise e outra, troquei mensagens com o Gui para me assegurar da
sanidade do Du e, horas depois, quando encontrei com a Clara na saída de casa,
já havia me decidido por ele. “Tem certeza?! Não é melhor procurar mais um
pouco, Bo?”, ela me perguntou, fumando ao meu lado na rua. Mas eu não queria
ter que ficar procurando gente para entrar no lugar do Fer – não tinha paciência
ou emocional para isso – e achei que o melhor era aceitar o que o destino me
arranjou.
Liguei para o Du quando cheguei no apê e combinamos que ele traria
suas coisas depois do Ano Novo, assim que voltasse do interior. Desliguei com a
sensação de tirar um peso das costas. “Resolvido”. Num só impulso, joguei o celular sobre o travesseiro e a Clara
deslizou pelas minhas pernas, subindo pelos meus joelhos até as coxas. Acomodou-se entre elas. E os seus
dedos foram me fazendo cócegas, me arrepiando, escorregando lentamente por
debaixo da minha blusa. Meio assim, à toa. Passamos as horas seguintes daquele
jeito. Nuns carinhos distraídos, numa sacanagem boba. Na pele uma da outra. Com
aquela calma de quem tem todo tempo do mundo pela frente. Como eu gostava de
passar o tempo do lado daquela mulher – puta que pariu.
Lá pelas dez, ouvimos alguém chegar. Estávamos as duas afundadas
na minha cama, fumando haxixe e ouvindo o Maxinquaye no último. Bem
legalizadas, é. Passei o baseado para a Clara assim que escutei a porta da
frente – “é o Fer”, murmurei, me levantando do colchão, “preciso falar com
ele”. O meu corpo parecia pesar três vezes mais. Eita. A Clara resmungou,
de sutiã e sem calcinha, com a ponta na mão. “Não vai...”, miou e eu sorri para
ela, vestindo a mesma camiseta desbotada de horas antes só para sair do quarto.
Abaixei e lhe dei um beijo rápido, “já volto”.
Fui até a sala e o Fer estava em pé na frente do sofá, abrindo uma
correspondência qualquer.
_E aí, meu... – apoiei o joelho numa das almofadas, meio chapada –
...deixa eu falar, fechei hoje com um moleque aí, amigo do Gui, pra vir morar aqui.
Gente boa. Combinamos dele mudar quando virar o ano, pode ser?
O Fer me olhou de volta, pego de surpresa pelo assunto – ou a rapidez
com que as coisas se acertaram, não sei bem. Me senti subitamente mal
pela forma como lhe dei a notícia. Delicada
que nem um rinoceronte. Droga. Não esboçou reação alguma, mas podia ver que
tinha se incomodado. Sabia quando o Fernando não estava bem e os seus olhos
transpareciam certa frustração.
_Sei – ele cruzou os braços, abaixando a cabeça – Deu certo,
então...
Droga. Argh. Eu tenho
merda na cabeça ou o quê?, me condenei. Tentei
forçar os meus dois únicos neurônios sóbrios a formular qualquer resposta,
buscando desesperadamente alguma maneira de consertar o clima que causei, mas
o que diabos eu posso dizer agora? Já tinha combinado, o cara vinha mesmo. Em
pouco mais de duas semanas. Duas semanas,
caralho. Caralho. O pânico
começou a tomar conta de mim, enquanto eu olhava para o Fer ali – foi cedo demais? Me precipitei? Tentava
articular qualquer frase para falar, mas não conseguia, chapada, não saía nada
da minha boca. Nada. O meu pensamento tão lento que quase parava, afogado pela
fumaça nos meus pulmões. Cacete. Só
fala qualquer coisa.
_Deu, e-ele fa...
_Ok – o meu melhor amigo me interrompeu, grosseiramente.
_Fer, por favor, e-eu... – me angustiei, sem saber direito o que falar.
_Não, não. Tudo bem! De boa.
_Mas eu não... m-merda, eu, e-eu não...
_Cara, foi isso que a gente combinou, não foi?! Então tá certo, porra.
_Mas v-você não... e-eu... Fer, é q-que... argh! – me enrolei, lesada, e me irritei comigo mesma – É q-que, sei lá... e-ele já tava, t-tava afim de vir logo e vai virar o mês também e aí eu pensei q-que...
_Relaxa. De boa, mano. É isso, vai fazer o quê... – resmungou, deixando escapar certa agressividade – Pode deixar que tiro minhas tralhas e libero o quarto pro moleque entrar.
Largou a carta que estava olhando em cima do sofá, amassada, e aí
saiu em direção à cozinha. Bosta.
_Ok – o meu melhor amigo me interrompeu, grosseiramente.
_Fer, por favor, e-eu... – me angustiei, sem saber direito o que falar.
_Não, não. Tudo bem! De boa.
_Mas eu não... m-merda, eu, e-eu não...
_Cara, foi isso que a gente combinou, não foi?! Então tá certo, porra.
_Mas v-você não... e-eu... Fer, é q-que... argh! – me enrolei, lesada, e me irritei comigo mesma – É q-que, sei lá... e-ele já tava, t-tava afim de vir logo e vai virar o mês também e aí eu pensei q-que...
_Relaxa. De boa, mano. É isso, vai fazer o quê... – resmungou, deixando escapar certa agressividade – Pode deixar que tiro minhas tralhas e libero o quarto pro moleque entrar.
13 comentários:
título lindo, post meio tristinho.
sdds Mia.
Aaaaahh o Fer morrendo de ciumes do novo colega de quarto. Tadinho do Fer =/ Ótimo post Mel, quero só ver o desenrolar da histórias agora xD
=/ Que foda!
Tadinho do Fer... essa hora é foda, não poder apoiar quem se gosta por causa da merda do "dinheiro". Muito frustrante!
Nuss primeira vez que eu sinto pena do Fer, deve ser muito chata essa situação :/
Mas voltando a parte boa.. é tão gostoso esse climinha com a Clara hehe
Ótimo post mel, mas tenho uma pergunta. Cade a mia? E qual foi o desenrolar da história do sms?
Calma que já veeeem... hahahahahaha
"Corri a minha mão pela cavidade das suas costas. E inclinei-me para lhe beijar os ombros, a lateral da cintura. A sua pele era mais fina sobre as costelas". Mell, vc escreve pura poesia. Me encanta a forma como vc usa as palavras, me fez sentir de novo no quarto com um caso antigo. Q saudade!!
Adorei esse post. As citações a Hilda Hilst e ao Maxinquaye, vc sempre escolhe as melhores referencias. Vc ñ existe mulher!!
Bjs
GANJAAAAAA!!! \O/ \O/ fm mega chapada no final kkkkkkkkk bom demaaais!!
kkkkkkkkk e esse anonimo chapado
Muito bom quero o proximo, sdd da Mia
I wanna know about Mia. cadê? :)
viiiiiiiiiiiiiish
Deu dó do Fer e ao mesmo tempo quero que ele saia logo do ap pra saber o que vai acontecer. hnahaha posta Mel :(
"Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer."
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