Uma bunda. A última maldita coisa que eu gostaria de ver passar
diante dos meus olhos ao final de uma noite que parecia ter durado para sempre
na pista de dança – e que agora prosseguia, interminável, na calçada imunda da
Augusta – era uma bunda. E não digo uma bunda bonitinha, bunda de mina. Não,
senhoras e senhores. Não. Estou falando de uma bunda realmente
bunda, bunda mesmo, do tipo pálida e de homem. Eca.
E só de pensar que o meu infeliz amigo ia, de fato, por livre e
espontânea vontade, passar o resto da madrugada desfrutando prazerosamente
daquela peça lastimável que agora desfilava descoberta e embriagada metros
abaixo da saída da balada – mano, não, não dá, que depressão. Nessas
horas me batia uma convicção tremenda de que o que eu gostava mesmo era de
mulher. Mulheres, cara, mulheres e as
suas bundas bonitas, devidamente adequadas, eu divagava, caindo de bêbada,
enquanto assistia o DJ ali, seminu na minha frente.
_O QUE DIABOS CÊ TÁ FAZENDO, SUA BICHA DOIDA?!
Ouvi gritarem, pouco mais acima, e do nada o Gui passou correndo
rua abaixo, bem na minha frente, escandalizado e rindo, indo com pressa em
direção ao seu pseudo-affair
exibicionista. Eu estava parada, fumando sozinha na minha, após longas horas
suando naquela balada lotada sem tocar em um cigarro sequer, apoiada contra um
muro do lado de fora. Ah, minha sagrada nicotinazinha. Já passavam das
cinco da manhã e eu mal me aguentava em pé, bêbada como nunca, tentando não mijar
nas calças de tanto rir do pobre Gui, que agora puxava o jeans do outro pra
cima, refutando seus argumentos de que ele era “um cidadão livre” e que tinha “direito
sobre o seu corpo”. Os dois tagarelavam numa cena tão engraçada que eu tinha
que me apoiar nos lambes encardidos da Augusta para não cair.
O nosso grupo havia ganhado três novos integrantes. Um outro casal
– também gay – se agregou à nossa excelente companhia já quase no fim da noite,
assim como um amigo estilosinho do DJ, que eu conhecia de vista da Outs. O
plano era ir pra casa desse último, que estava nos acelerando a cada dois
minutos. O problema é que eu mal era capaz de andar, tentando não escorregar
para o chão enquanto perdia o fôlego num ataque de riso involuntário causado
pelo Gui e as calças abaixadas do seu homem da vez. Mano, não dá, eu vou cair..., pensei já agachada, me apoiando
contra o muro para não tombar mais, ...eu
vou cair, eu vou cair, eu vou cair..., olhei então para o cigarro aceso na
minha mão, na dúvida se o largava e me segurava ou se, puta merda, é agora, vou cair
mesmo.
_Vem, sua bêbada! – a garota da pista, que até então estava
ocupada conversando com o casal, apareceu rindo na minha frente, oferecendo as
suas mãos para eu segurar – Eu te ajudo.
Estou
salva. Meti o cigarro na boca – como
não pensei nisso antes? – e dei as minhas mãos para ela, me levantando
pouco antes de relar no chão asqueroso da Augusta. Ufa. Agora em pé, coloquei o braço por cima dos ombros e terminei
de tragar, tirando o filtro da boca. Eu estava andando mais torto do que um
gambá. Descíamos a rua apoiadas uma na outra. O Gui voltou empolgado até nós,
passos acima, tagarelando qualquer besteira, e me abraçou do outro lado. E aí,
sim, começamos a andar torto mesmo. Disse que a casa do cara não ficava longe,
que já tinha ido lá e que era logo ali, na próxima esquina, e eu achei graça –
estava rindo de qualquer merda que me diziam àquela altura. Então o Gui me deu
um beijo, num gesto de carinho.
A garota arregalou os olhos.
_Ah! Então quer dizer que ele pode? – contestou na mesma
hora, indignada.
_Meu bem... – o Gui retrucou – Eu posso tudo! TUDO!
Pulou para a nossa frente, repetindo mais algumas vezes a palavra
“tudo” do jeito mais afeminado e eu continuei rindo, sem discutir. A garota – que
tem um nome, eu juro, e é, ela d-deve ter me falado, acho, em a-algum momento –
nos olhava, indignada. O Gui riu comigo e aí seguiu para frente, descendo a
Augusta nitidamente aos trancos, todo tonto de tequila, até esbarrar no seu affair e grudar nele com um abraço
apertado.
Ah! Isa!, lembrei, é esse o nome dela.
_Mas você é... é... – ela se revoltava, bêbada – ...sapatão!
_Hum.
_É! Não é?!
_Sim... – eu ri.
_Então, porra! Você, v-você não pode beijar ele!
_Ah, meu, pelamor. Aquilo não foi nem um beijo!
_Sei. Se é assim... – a Isa me olhou e sorriu, mal-intencionada –
...não quer me dar um não-beijo, então?
_Não é a mesma coisa!
_Não?! – se divertiu.
_Se eu dou um beijo no Gui, é... é... sei lá, bicha. Foi meio
selinho. Não significa porra nenhuma! Mas você, você é uma mina, né, meu... –
me enrosquei na minha lógica bêbada – Se a gente se beijar já... tipo... já
significa alguma coisa.
_Hmm... – ela saiu debaixo do meu braço, me pegando pela mão, e
olhou nos meus olhos – ...e se não significar nada? Nem pra mim, nem pra você?
Não fala
essas coisas pra mim, garota.
_Tá. Mas isso é... – eu sorri e tentei achar qualquer argumento, dando
o último trago, antes de jogar a bituca no chão – ...é o que todo mundo diz,
né, até que, de repente, começa a significar.
_Escuta... – ela me parou na rua, ficando na minha frente, e eu já
comecei a rir – ...olha, eu prometo, prometo... – apoiou os antebraços nos meus
ombros, fazendo questão de me olhar nos olhos, e eu coloquei as mãos na sua
cintura sem pensar – ...prometo que não vou me apegar. Amanhã eu não vou nem lembrar
de você. Tá bom assim?
A observei, de repente tentada.
_Um beijo, vai. Só um.
_Não... e-eu... – passei a mão no rosto, me livrando daquela má
ideia, e suspirei – ...eu t-tô... é... é complicado.
_Credo. É pior do que eu imaginava! – ela riu e me olhou como se
simpatizasse com o meu sofrimento – Não sei nem se eu quero saber.
_Não, vai por mim, você não quer.
Ri também, de novo, achando graça na minha própria desgraça, e dei
uns passos mais pra frente. Ela seguiu caminhando junto comigo, ainda de mãos
dadas nas minhas. Fui brincar e coloquei ela nas minhas costas, já quase no
prédio do cara, montada com as pernas ao lado do meu corpo e os braços no meu
pescoço. Clássica ideia idiota. Nós quase caímos, óbvio. Rindo até não
poder mais, sem poder evitar, enquanto os outros nos olhavam como se fôssemos
loucas e o Gui gritava qualquer coisa na nossa direção. Os vizinhos deviam nos
odiar, tenho certeza, já acordando para ir trabalhar àquela hora. Mas
que se dane.