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fevereiro 21, 2013

01 nova mensagem

Me dsclp, ñ qria brigar... fiquei meio atravessada :( qria te ver no seu aniversario, meu, mas tb entendo. me perdoa?” – li a mensagem da Mia no meio do set, enquanto falava com uma das assistentes de produção no rádio, me perdendo por um segundo no que estava dizendo. Não queria ir viajar com aquela discussão idiota na garganta. Sorri.

fevereiro 19, 2013

O telefone sem fio

Eu soube minutos depois, quando me preparava para sair para uma locação. “Vc vai pra argentina com a clara???”, a Mia me mandou por SMS e eu suspirei, lendo a mensagem de canto de olho enquanto finalizava a papelada da gravação. Saí para a rua uns vinte minutos depois, ainda sem ter respondido. E aí outra mensagem chegou, já nos primeiros passos que dei na calçada – “valeu hein, c ñ vai nem me responder??”.
 
Merda.
 
Puxei o maço do bolso, desconcertada, e acendi um cigarro na busca de um pouco de coragem. Aí disquei o seu número, conforme cruzava a Manoel da Nóbrega. Dei uma tragada, ouvindo o telefone tocar do outro lado da linha. Qual é, garota, eu sei que você tá perto do celular. Mas ela só atendeu na segunda vez que liguei, uns cinco toques depois.
 
_Fala.
 
Parei a alguns metros da entrada do metrô, sem querer perder o sinal. E apoiei a mão livre no vidro do lado de fora da estação Brigadeiro. “Mia” – falei meio desajeitada, com o cigarro ainda na boca. “Fala”, repetiu, nitidamente irritada. Suspirei. Soltei a mão do vidro, me virando para encostar a lateral do corpo ali, e tirei o filtro dos lábios.
 
_É só uma viagem, Mia.
_Não é “só uma viagem” – me interrompeu, ríspida.
_Cara, nã... – respirei fundo – ...não faz assim.
_...
_Mia.
_Foda-se. Foda-se! Eu não ligo, pode ir viajar com a merda da Clara, fica à vontade!
_Para com isso, meu. Eu... e-eu nem sei por que cê tá brava, eu sequer planejei a porra da viagem! Não tava sabendo de nada, descobri hoje. Não é como se...
_Você não me deve uma explicação – me cortou, de novo.
_Linda, por favor.
_Não, quer saber?! DEVE, SIM! – aumentou o tom de voz, mudando de ideia de repente – COMO VOCÊ VAI ENTRAR NUMA PORRA DUM AVIÃO COM ELA, COM TUDO O QUE TÁ ACONTECENDO ENTRE A GENTE?? FALA SÉRIO, MANO, NÃO SEI O QUE CÊ ACHA QUE TÁ FAZENDO!
_Como “O QUE EU ACHO QUE TÔ FAZENDO”? É SÓ UMA PORRA DE UMA VIAGEM! – me irritei – NINGUÉM TÁ CASANDO, CACETE, EU VOU E EU VOLTO! É SÓ ISSO!
_AH! É ISSO QUE VOCÊ ACHA QUE É?! “SÓ” ISSO??
_E O QUE TEM DEMAIS?! – retruquei e aí respirei fundo, tentando me acalmar – Mia, escuta, ela me deu de presente a parada, meu. Eu vou fazer o quê?! DIZER NÃO?!
_Não. Não, não, você tá certa mesmo... – disse, com ironia – ...vai lá. Se diverte!
 
Àquela altura, eu sequer sabia por que estava brigando, passando as mãos compulsivamente no rosto, esfregando os olhos em agonia. Dando vexame na frente da estação do metrô, com o celular no ouvido e com o cigarro entre os dedos. Traguei mais uma vez, nervosa, soltando a fumaça em seguida. E aí tentei argumentar, com paciência:
 
_Eu não tô fazendo de propósito, Mia.
_...
_Não faz isso comigo, vai...
_EU QUE TÔ FAZENDO?? – ela se ofendeu – EU???  
_Mano, eu ganhei as passagens! Não foi planejado! Fiquei sabendo hoje de manhã, meu... E eu quero ir, Mia. Eu quero. Eu nunca fui, cara!
_E VOCÊ NÃO SE SENTE MAL, ENTÃO? – me provocou, perdendo a mão de novo – É ISSO? CÊ VAI MESMO VIAJAR COM A PORRA DA CLARA ENQUANTO ME COME DIA SIM, DIA NÃO?! VOCÊ NÃO SE SENTE NEM UM POUCO CULPADA??
_CLARO QUE ME SINTO CULPADA, MIA! CLARO! COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO? – comecei a me irritar de verdade, brigando de volta – MAS EU AMO A CLARA, PORRA. E SIM, EU QUERO VIAJAR COM ELA! QUERO! CÊ QUER MESMO ENTRAR NESSAS? PORQUE SE QUER FALAR DO MEU RELACIONAMENTO, A GENTE PODE FALAR DO SEU TAMBÉM, INFERNO!
_Cê é muito cara de pau, puta merda.
_“Eu”, né? – retruquei, irônica – “Eu”.
 
Traguei duas últimas vezes – a segunda um tanto mais demorada –, já terminando o cigarro. E aí joguei a bituca na calçada, pisando na ponta ainda acesa, sem paciência. As pessoas passavam atrás de mim na rua e entre nós seguia o silêncio. Aquela conversa me tirou do sério. Cacete. Meti a mão no bolso, procurando pelo meu bilhete. Precisava chegar logo na locação, tinha mil coisas para fazer, ainda mais se ia pedir para sair mais cedo no dia seguinte, mas não queria desligar sem antes me resolver com a Mia.
 
Então, tentei me acalmar. Abaixando a cabeça para falar:
 
_Linda, por favor. Você sabe que não é de propósito... – repeti, suspirando – ...não tô tentando te machucar.
_Eu não disse que tá me machucando, não é isso...
 
De repente, me diverti, eis que surge o orgulho.
 
_...eu só não sabia que, q-que você ia. Foi inesperado. isso.
_Tá – ri quieta, achando graça.

fevereiro 11, 2013

Vinho & alfajores

_Não, mãe... mãe, escuta... – interrompi seu monólogo que já durava uns bons minutos, fumando um cigarro em frente à produtora com o celular colado no ouvido – Preciso falar com vocês. Escuta, eu vou tá fora no fim de semana.
_Como “fora”? Fora de onde?
_De São Paulo.
_Pra onde você vai? Você não vem mais no domingo?
_Não. Eu e a Clara, a gente... v-vai viajar. Desculpa não ter avisado, é que foi surpresa, só fiquei sabendo agora.
_Mas viajar pra onde? Eu já combinei com a sua avó, a gente encomendou o bolo, seu pai chamou a família inteira pra vir. Vocês não podem ir no outro?
_Não dá – e naquele instante, dei graças aos céus que a Clara me tinha dado a desculpa perfeita para não ir àquela reunião sem sentido de almoço com a minha família, tragando o cigarro já quase acabado na calçada suja da Brigadeiro – As passagens já tão compradas, mãe. Mas eu passo aí durante a semana e a gente janta ou faz alguma outra coisa, sei lá.
_Eu não acredito nisso! – bufou do outro lado da linha e então se recuperou, perguntando pela terceira vez o que eu estava evitando responder – Mas, finalmente, cês vão pra onde?
_A gente... vai p... p-pra Argentina.
_O QUÊ?!
_É. Buenos Aires – murmurei, já de olhos fechados, à espera do surto.
_VOCÊ PERDEU A CABEÇA?! NÃO!! VOCÊ NÃO VAI VOAR PRA FORA DO PAÍS, MINHA FILHA, SEM NEM SE PROGRAMAR DIREITO, ONDE ESSA MENINA VAI TE ENFIAR??? NEM PENSAR! VOCÊ LÁ TEM DINHEIRO PRA ISSO?!?
_Mãe...
_VOCÊ NUNCA SUBIU NUM AVIÃO NA SUA VIDA! ESSAS COISAS TÊM QUE SER PENSADAS ANTES, NÃO É SIMPLESMENTE PEGAR E IR, É OUTRO PAÍS! E SE ACONTECE ALGUMA COISA ENQUANTO VOCÊS TÃO LÁ, FILHA? AS DUAS, SOZINHAS... – ouvi-a afastar-se do telefone e chamar aos berros pelo meu pai, inconformada.
_Mãe... mãe! Calma.
_Me passa o telefone da Clara.
_Cê não vai falar com a Clara, sossega o facho! – eu ri, revirando os olhos – Não tem nada demais, meu. A Clá já foi um bilhão de vezes, todos os amigos dela são de lá! Olha, vai ficar tudo bem, a gente vai amanhã direto do trampo e volta no domingo. Vou fazer uma mochila hoje à noite...
_Ah, não sei. Não sei, não. Vê lá onde você vai se meter, hein, minha filha...
_Relaxa, mãe. Escuta... – soltei a fumaça e joguei a bituca adiante na calçada – ...preciso entrar aqui na produtora.
_Tá. Me liga hoje à noite, quero saber melhor dessa história...
_Tá, tá. Vou lá, tá? Beijo.
_Não vai aprontar você, hein?
_Não vou, meu – ri.
 
Ouvi sua voz diminuir, já afastando o celular do ouvido. E desliguei o telefone, entrando na produtora. Aí mandei uma mensagem para a Marina e então para o Fer – que, como todo ano, tinha ignorado meus pedidos e organizado uma comemoração com nossos amigos no fim de semana. A Clara me contara que foi convidada uns dias antes e ficou na dúvida se comentava sobre a viagem com ele, com receio de estragar a surpresa. Sendo justa, o Fernando era meio maria-do-bairro – tinha amigos demais e uma certa tendência à fofoca. Ele me respondeu quase imediatamente depois do meu SMS, rindo e admitindo a culpa pela festa. Eu sabia.
 
Antes de eu sequer chegar na minha mesa, o meu celular começou a vibrar com várias mensagens da minha ex também. “Ñ acredito q vc vai viajar!! alias q VCS vao viajar JUNTAS! Q LINDO!!!”, ela me escreveu de volta, empolgada, emendando um SMS que dizia “assim, achei uma afronta? achei. pq vc ñ mexia essa bunda pra ir nem na padaria cmg, sabe. c eh uma ridícula. To mto feliz por vc, mas vc é uma ridícula, rs”, meio em tom de revolta, meio brincando, e depois um “ai, mas BUENOS AIRES, flor! Nossa, ñ acredito!! vai ser demais, vc vai amar”. E por fim, completou com um: “boa viagemmmm pra vcs! :)” e eu ri sozinha daquele escândalo todo.
 
Era apenas uma questão de tempo agora para que a Mia ficasse sabendo – o que eu queria postergar o máximo que pudesse. Mas sabia que o Fer ia acabar contando, a não ser que eu especificamente pedisse para que não o fizesse. E eu obviamente não podia dar tanta bandeira assim. Melhor contar eu mesma, decidi. O problema é que, logo que me respondeu e antes que eu pudesse sequer terminar a minha lista de tarefas do dia, o Fer ligou para meia São Paulo avisando sobre o cancelamento da festa.
 
E a linha inevitavelmente cruzou Higienópolis.

dezembro 11, 2012

Pacaembu

O problema é que, ao mesmo tempo, a Mia também não facilitava.
 
Quase cinco da tarde e lá estava eu, me desgastando numa gravação sem fim no estádio do Pacaembu, discutindo com uns quatro incompetentes ao mesmo tempo, quando ela me mandou mensagem. Estressada, peguei o celular entre um argumento e outro e olhei para o visor rapidamente – “ñ ta na hr dum cigarro?”, o SMS dizia. Como se lesse a minha mente. Horas antes, na minha última pausa, a Mia tinha me ligado e nós ficamos conversando por um tempo. Eu a diverti com as minhas reclamações sobre o buffet contratado pra gravação, que interpretou o meu “precisa ter opção vegetariana” como “que tal picar uma salada murcha de alface com meia rúcula”. Por que diabos não fazem uma porra dum macarrão? 
 
_Ô! – assobiei e chamei uma das minhas colegas, a uns metros dali, antes de me virar para a roda de pessoas que ainda discutiam – Gente, ó, resolve com ela aqui. Preciso dar uns 5!
 
Larguei a bucha na mão de outra assistente e fui em direção à saída, já procurando o número da Mia nas ligações recentes. Bati o maço desajeitadamente na perna, puxando um cigarro com a boca, conforme discava e atravessava o portão de entrada. E foi quando dei de cara com a Mia.
 
_O que... – sorri, na mesma hora, tirando o filtro da boca – ...o-o que cê tá fazendo aqui?
 
Ela sorriu de volta. De chinelo e vestida numa roupa de quem só saiu pra dar uma volta no bairro e que, puta merda, me dava uma vontade desgraçada de estar em casa com ela, vendo TV e dando uns beijos à toa no sofá, sabe? Meu corpo quase a podia sentir aninhada em mim. E como se pudesse me ouvir, ela aproximou e tirou a franja da minha cara, segurando o riso. Em uma das suas mãos, notei um saco pardo desses de padaria.
 
_Bom, eu tava com saudade. E né, imaginei que cê devia tá morrendo de fome, depois do fiasco mais cedo, então trouxe um lanche...
_Cê...
 
Deixei escapar mais um sorriso, sentindo meu coração encher.
 
_...cê não existe, meu.
 
Passei a mão no rosto, meio sem acreditar que ela estava mesmo ali. E de repente, me senti a garota mais feliz de toda São Paulo – ou sei lá, do Pacaembu. Enquanto os carros começavam a se engarrafar nas ruas ao redor de nós e a luz do sol ia ganhando um tom alaranjado. Puxei a Mia pela mão e fomos até a lateral do estádio, sentando num canto escondido, onde comi meu burguer vegano e fumamos um juntas.
 
Foram os melhores vinte minutos da semana inteira.

dezembro 07, 2012

Encontro às cegas

_Escuta... – a Thaís perguntou, do nada – Cê ainda tá com a Clara?
_Do que cê tá falando, mano?!
 
Estranhei, equilibrando o celular contra o ombro, enquanto assinava um orçamento e tentava despachar toda papelada que ainda tinha que entregar antes de ir embora naquela terça. Minha amiga parecia estar na rua, pelo som do outro lado da linha, e eu podia ouvir alguém rindo ao seu lado.
 
_Não é... – respondeu, tentando segurar o riso – ...é só que tava indo comprar comida agora e encontrei uma mina aqui, que comentou de você. E mano... Na moral, puta gata!
_Quê?!
_Pensei em apresentar vocês hoje, sabe, se cê tiver solteira... Ela morava na Argentina, sabe, fala espanhol, trabalha numa loja de música aqui perto e tem cabelo comprido, assim, um undercut... – foi listando, fazendo graça – ...uma tatuagem na linha do ombro.
_Sei... – comecei a rir.
_Ouvi dizer que ela gosta dumas trouxas igual você.
_Vai se foder...
_É sério, velho, acabou de me falar aqui que num resiste a uma sapatão ruim de sinuca.
_Olha, Thaís, cê nem vem cuspir no prato que comeu! – eu ri, revirando os olhos, e assinei mais uns papéis sem nem ver direito – Mas, agora sério, onde cês tão? Saio daqui uns quinze, vinte minutos, se pá...
_Tamo voltando pro estúdio, vou tatuar a Ju hoje. Cola lá!
_Bora.
 
Desliguei o telefone ainda rindo. A amizade da Thaís com a Clara era fundamentada quase exclusivamente em me zombar, a cada oportunidade que surgia. Trouxas. Me apressei para terminar o que faltava de trabalho e saí da produtora pouco antes das sete. A semana mal tinha começado e eu já estava cansada. Pelo menos agora, com o Du dividindo o apartamento comigo, já não precisava mais me forçar a tanta hora extra. Subi a rua até o metrô e fui em direção a Pinheiros para o meu date misterioso.
 
Quando cheguei no estúdio, uns quarenta minutos depois da ligação, a minha amiga estava debruçada sobre a sua namorada, tentando acertar um decalque nas suas costas. Ao lado delas, com as mãos apoiadas na maca, a Clara se inclinava para acompanhar o processo de perto. Numa regata branca que roubou de mim uns meses antes porque ficava larga e confortável no seu corpo, seu cabelo preso numa trança sobre o seu ombro, revelando uma tatuagem que tinha na nuca.
 
Fechei a porta atrás de mim e a Clara se virou, sorrindo ao me ver. Sorri de volta, caminhando até onde elas estavam. O estúdio tinha paredes pretas com desenhos e decalques colados por todo lado, um sofá grande e umas espadas de São Jorge em vasos pelos cantos. Todos os outros tatuadores já tinham ido embora, só restavam as três ali. A Thaís levantou brevemente a cabeça para me cumprimentar, enquanto fazia uns retoques de caneta no decalque, e a Ju ergueu a mão, sem poder se mover muito.  
 
_Hum... – me aproximei da Clara, fazendo graça – ...então é você que eu ia conhecer hoje?
_É – ela colocou os braços em volta do meu pescoço – Mas não sei, ouvi um papo aí que cê namora...
_Eu?! Não... – balancei a cabeça, na maior cara de pau – ...cê tá me confundindo.
_Ah, tô?
 
Ela riu e eu deslizei as mãos até suas coxas, a erguendo no meu colo num só movimento. E nos beijamos, ainda rindo, conforme ela cruzava as pernas ao redor do meu corpo. “Olha, se eu soubesse que cê era gata assim...”, cochichei, com a boca a centímetros da sua.  “Hum”, a Clara se divertia, me instigando, “me diz o que cê ia fazer”. A Thaís revirou os olhos ao longe, gritando na nossa direção:
 
_PODE PARAR. SEM BAIXARIA AQUI DENTRO, VOCÊS DUAS!
 
Nós a ignoramos. Os meus pés encontraram intuitivamente o caminho até o sofá no centro do estúdio, caindo junto com a Clara sobre as almofadas. E a Thaís começou a resmungar alto. A gente riu, se agarrando quase de propósito. Subi em cima da Clara e a apertei pela cintura, nuns beijos com gosto. “TEM CÂMERA AQUI DENTRO!”, minha amiga insistia, nos xingando. E a gente fez que não escutava. Entre um beijo e outro, senti o meu celular vibrar. Tirei ele do bolso, ainda entre as pernas da Clara, e olhei rapidamente no visor. Merda. Era a Mia ligando. Recusei a chamada, num reflexo rápido.
 
E guardei o telefone no bolso.

setembro 04, 2012

Prazer, Du

Estava entre a diretora de arte da produtora e uma das atrizes no set, quando senti o celular vibrar no meu bolso. Tirei-o discretamente da calça e espiei – “e oq era? :3”, a Mia respondeu. “Dps t conto”, digitei brevemente e tornei a focar os meus olhos na prancheta cheia de rabiscos, sem dar bandeira. A gravação daquela manhã parecia durar para sempre.
 
Céus. Não é possível que achem isso ‘cool’, julguei silenciosamente, observando com certo desgosto as escolhas trágicas da equipe de figurino. Umas roupas pretensiosas que contrastavam escandalosamente com a calçada suja e aquele charme urbano de São Paulo. Mas, né, quem era eu pra falar, metida numa bermuda e com a mesma camiseta desbotada de quatro dias antes.
 
Esperei as coisas acalmarem um pouco e dei uma escapada para fumar. Fiquei fofocando com uma das assistentes, entre uma tragada e outra, do lado de fora. Ela ria dos meus comentários sobre o figurino. A gravação, claro, estava atrasada. Quando olhei no meu relógio, faltavam menos de vinte minutos para as 14h – merda, merda. Joguei a bituca no chão, com pressa, apagando a brasa com a ponta do meu All Star encardido. Corri até a tenda onde estava o restante da equipe e avisei que ia tirar o meu horário de almoço, largando a prancheta com um estagiário.
 
Subi então para o metrô, descendo na Consolação e cruzando a pé para a Frei Caneca, de olho no horário. 14:07. A menos de um quarteirão do nosso prédio, vi um cara de cabelo loiro escuro parado em frente ao portão. Vestia uma calça saruel preta e tinha uns óculos escuros Clubmaster. A regata branca com o corte fundo na lateral o denunciava como amigo do Guilherme. 100% viado.
 
_E aí, beleza? – me aproximei, o cumprimentando – Você que é o Du?
 
Ele sorriu e se apresentou, pegando a mochila que estava no chão; tinha umas tatuagens esquisitas no braço – dessas propositalmente toscas e aleatórias, não sei bem explicar. Fomos juntos até o elevador do prédio. E apertei para o nosso andar, enrolando as mangas da camiseta sobre o ombro, cansada da descida em ritmo apressado até a Frei. Me sentia confortável ao lado dele, bom sinal. Agora que o via mais de perto, todavia, não me parecia ser mesmo gay. Ou será que é?, me ocupei com o meu radar por um instante, distraída.
 
Andamos até a porta do apartamento e eu entrei, largando minhas chaves na mesa e chamando o Fer para checar se estava em casa, mas ele não respondeu – o apê estava vazio. Fui na frente, mostrando o espaço e puxando assunto, sondando mais sobre o Du. Ele era ator de teatro, assim como o Gui, só que de uma outra companhia que eu nunca tinha ouvido falar. Trabalhava dando aula e fazia mestrado, tinha 26 anos. A princípio parecia meio quietão, na sua, não abriu muito a boca, mas algo me dizia que era debochado.
 
_E cê tá querendo sair lá de onde cê mora?
_É. Moro com uma família no Santa Cecília, tenho um quarto alugado – o Du olhava os cômodos conforme a gente ia andando – Mas é ruim lá, meu, não tenho privacidade e ficam cagando regra. Não funciona.
_Não te deixam levar gente ou o quê?
_Ah, entre outras coisas... – riu, erguendo os óculos sobre a cabeça – ...mas, assim, já fodi meio Vale escondido enquanto eles ouviam louvor no andar de baixo.
 
E aí estava, o deboche.
 
Achei graça. Vamos nos dar bem. Chegamos, enfim, ao quarto que ele ocuparia caso resolvesse se mudar pra lá e eu afastei a bagunça do Fernando com os pés para que pudéssemos entrar direito. Expliquei que aquele era ligeiramente maior que o meu, então o aluguel não seria dividido exatamente na metade. E que a maioria dos móveis iam sair – tudo o que o Fer não fosse levar, ele ia tentar vender, então não ia sobrar muita coisa. Nem a cama.
 
_Hum. E o seu amigo tem planos de voltar quando?
_Então, daqui uns meses, acho. Assim que ele arranjar um trampo e juntar uma grana, se estabilizar, aí ele vem de novo. Mas dá pra ir conversando... – cocei a nuca, já voltando pra sala – Quanto tempo cê acha que ia precisar aí?!
_Ah, meu... uns sete, oito meses. Tô tentando uma bolsa na gringa, a ideia é fazer uma parte do meu mestrado fora, mas isso deve rolar só lá pra julho, agosto... O que der pra eu ficar aí antes já ia ser perfeito. O apê de vocês é do caralho, meu...
 
Sorri e encostei contra o apoio do sofá, ainda em pé. Ele parecia mesmo o tipo de cara que frequentava a Society – que ficava a 500 metros do nosso prédio –, senti que se mudaria imediatamente para o quarto do Fer se pudesse. Estava visivelmente animado. Cruzei os braços, o observando. Talvez eu devesse falar mais alguma coisa, não sei, mas a verdade é que eu não sabia muito bem como diabos entrevistar alguém para dividir um apartamento. Literalmente só tinha morado com o Fer desde que saí da casa dos meus pais.
 
_E... c-cê tem alguma pergunta? – questionei, sem muitas ideias de como prosseguir.
_Não. Ou melhor... – o Du riu – ...só por precaução, quais as regras?
_Olha, não muitas – ri também – A gente divide as contas e dá uma faxinada a cada semana, quinze dias, sei lá. Eu passo a maior parte do tempo fora, então nem vou ficar muito aí. Quando venho geralmente tô trancada no quarto... E de resto é bem de boa. Traz quem cê quiser, faz o que quiser, tô pouco me fodendo. Só não largar prato sujo por três dias na pia que tá tranquilo.
_Pode crer. E assim, é “legalizado”?
 
O encarei como quem diz “meu bem, olha pra minha cara de maconheira, né”. Gostei de você.

setembro 01, 2012

AM

_Bi... – ri, enchendo o seu rosto de beijo – ...acorda!
 
Já tinha me levantado há quase 40 minutos, tomado banho, escovado os dentes, feito café e a Clara continuava desmaiada entre os lençóis. Balancei os cabelos molhados, os bagunçando com a mão, para que respingassem na sua cara. Nada. Uma careta aqui, outra ali, e ela se afundou ainda mais no travesseiro. “A gente vai se atrasar”, subi então em cima dela, cochichando. Mas nada feito.
 
Na noite anterior, fumamos um baseado e acabamos nos enroscando no sofá, assistindo um filme qualquer na TV enquanto a Luna passava inconvenientemente em frente à tela. Afundei-me nos seus braços e nos ajeitamos deitadas, levemente tortas, naquele pequeno espaço. Até que começamos a nos cutucar por baixo das nossas camisetas, como duas bobas, e a brincadeira virou uns amassos meio adolescentes – que logo se transformavam num passatempo um pouco mais adulto. Dessa vez, com sucesso. E o que começou no sofá da sala, uma hora passou para o quarto. Lá pelas tantas da madrugada.
 
Agora eu lutava para tirar a Clara da cama. Foi um parto. E quando finalmente consegui, não deu tempo nem de comer qualquer coisa – saímos correndo, atrasadas e rindo, derrubando o café pelo corredor do prédio e tropeçando nos nossos próprios passos para descer as escadas. Corri até a estação Sumaré e peguei o metrô lotado para a Brigadeiro. Assim que desci na Paulista, chequei um relógio eletrônico de rua e o visor já marcava 09:11.
 
Acendi um cigarro, apressada, e peguei o meu celular para enviar uma mensagem ao tal do Du, conforme descia a rua. “Oi, o gui me passou seu numero. Ce quer ir hj ver o apto? Pode ser umas 18?”, digitei. E ainda estava descendo a calçada da Brigadeiro quando ele me respondeu – “preciso ta na rodoviária as 5, passo o Natal com minha família no interior :/”. Aquele era o último dia antes do recesso e eu tinha que acompanhar uma gravação até às 13 na Liberdade. “Pode ser dps do almoço? 14?”, perguntei a contragosto, já calculando o corre que ia ser sair do set para ir até em casa. “Sim, com ctz!”, piscou na minha tela segundos depois.
 
.
 
Passei o endereço e ia guardar o telefone de volta no bolso, mas, por algum motivo, mudei de ideia. E foi assim, numa idiotice impulsiva, a poucos passos da entrada da produtora, que abri mais uma vez a caixa de mensagem. Vejam bem, não foi planejado, foi... n-não sei o que foi. Foi um “pensei em vc do nd ontem meu... na pior hr... rs”, escrito sem pensar, conforme dava um último trago no cigarro. Apertei enviar antes que pudesse me dar conta do que estava fazendo. E na mesma hora, senti um leve revirar no estômago. Não queria passar a impressão errada para a Mia, nem desencadear nada. Não sei que porra queria. Numa vontade boba de lhe mandar algo, de falar com ela. Pra quê?, me incomodei comigo mesma.

maio 04, 2012

Cumplicidade

_O que diab... – puxei-o pro lado na calçada e ele se levantou – ...FILHOS DA PUTA! Como assim te demitiram?!
_E-eu... eu fiz merda... – balançou a cabeça, angustiado – ...n-no dia da festa do Benatti lá, e-eu capotei quando cheguei em casa, t-tava muito louco. Não apareci no trampo e não avisei. Fodi as coisas com um cliente, eles ligaram lá reclamando. Tomei esporro no outro dia, quando fui, mas n-não... – se frustrou – ...não achei que ia dar em nada.
_Puta, Fer, que merda. Mas foi só uma vez! Como eles podem fazer isso, porra?? Cê é o cara mais esforçado que eu conheço!
_Num sei... Cheguei lá hoje e o chefe do setor me chamou e... – soou desesperado, passando a mão repetidas vezes na cabeça – ...eu tô fodido, mano. Fodido. Cê não tem noção!
_Calma, meu. Não é o fim do mundo, a gente vai resolv...
_Como não?! EU TÔ ZERADO, CARALHO! – me interrompeu, entre uma tragada e outra, nervoso – Zerado, mano. Zerado! Não tenho dinheiro pra nada! Acabei de gastar o que tinha sobrado do último salário na porra da tatuagem... – uma old school que quase fechava o antebraço, feita na semana anterior – ...mano, como eu posso ser tão burro assim?!
_Fer, calma! Cê não tinha como sab...
_Meu pai vai me comer vivo! – me interrompeu – Se descobrir que perdi o emprego. E-eu tô fodido, cara...
 
É, de fato. Naquilo eu não podia discordar – era melhor deixar a notícia longe do velho. O pai do Fer era difícil. O Fernando ajudava os pais com a grana que recebia, o que por si só devia ser motivo para panos quentes nas relações familiares, mas o relacionamento dos dois era péssimo. O temperamento de ambos também não ajudava, especialmente a forma “educada” do meu melhor amigo de falar umas verdades na cara do pai. Melhorou um pouco quando o namoro com a Mia começou. O pai enxergava a família da Mia como algum tipo de progresso para o Fer, os encorajando a casar e a porra toda. Mas, no geral, os dois não se davam. E as discussões eram barulhentas – as maçanetas e móveis do nosso apartamento sofriam terrivelmente.
 
Tudo era motivo pro velho descer o pau no filho. E perder um emprego de anos colocava o Fernando à mercê das duras críticas paternas. O velho era um idiota. E além de tudo, não ia muito com a minha cara. Se não fosse tão amigo do meu pai, nem a mãe do Fer tão amiga da minha, provavelmente não ia me tolerar. Aos olhos dele, eu não passava de uma “lésbica suja”. E sim, essas foram as palavras exatas dele em meio a uma briga com o Fernando, no fim da nossa adolescência.
 
Eu era a razão de todo mal. O motivo pelo qual o filho dele tinha se tornado um maconheiro tatuado, que vivia no antro imundo da “Gay” Caneca e só andava com vagabundo. Mal sabia ele que o Fer tinha arranjado a primeira maconha que fumamos na vida – num rolê de skate quando a gente tinha treze. Assim, sendo justa, a minha má fama talvez tivesse uma leve parcela de culpa nossa também. A gente costumava culpar toda encrenca na qual nos metíamos um no outro, quando era mais novo. Não por sacanagem, era um acordo mesmo. Para levar menos bronca e voltar antes para a rua para aprontar mais, torcendo para ninguém cruzar as informações em algum churrasco de domingo.
 
_Meu, a gente vai dar um jeito... – apoiei a mão no ombro do meu amigo, tentando animá-lo – Olha, eu te ajudo com a grana, cê pega a rescisão, pede seguro-desemprego, a gente revê seu currículo no fim de semana. Vai aparecer alguma coisa, meu...
_Não sei... – abaixou a cabeça, por um momento – ...t-talvez.
_Mano, vai ficar tudo bem. Cê vai ver...
_Mas, velho, por quê cê num atendeu o telefone mais cedo?
_Te falei, meu, tá no conserto!
 _Mas por quê? Que que deu?
_Ah, eu quebrei ele ontem... – murmurei – ...perdi o controle e joguei pra fora da cama, fodeu o visor. Não tá ligando...
_Puta, mano, mas você também é outra...
 
Ele começou a rir, me olhando em descrença. Empurrei o seu ombro e roubei seu cigarro, dando um trago rápido. Aí o devolvi – enquanto o Fer seguia me zombando pela façanha de quebrar um celular indestrutível. “É a única vantagem desses telefones antigos, porra!”, argumentou, indignado. É. Agora que o Fer não tinha emprego talvez fosse prudente eu parar de destruir as coisas assim. Demos alguns passos adiante e sentamos na calçada, lado a lado, em frente à produtora, para terminar o cigarro. Faltava pouco para eu ter que voltar. Apoiei a cabeça no seu ombro e ele me olhou ali, num suspiro.
 
_Escuta, não precisa ficar toda bicha aí... – ele riu – ...só porque eu tô desempregado, viu?
_Quê?! Tô de luto pelas minhas economias, não por você!
_Ah, vá! – ironizou – Que economias?!
 
O olhei com todo o meu desprezo, tentando não rir.
 
_Vai nessa. Vai fazendo gracinha, vai... – o ameacei – Te deixo no olho da rua, rapá!
_Pior que é, né? – o Fer riu e abaixou a cabeça, logo se deixando abater pela realidade; eu sabia o quanto aquilo era realmente difícil para ele – Cara... – ele me encarou, de novo – ...eu preciso arranjar outra coisa, meu. Se eu tiver que voltar pra casa dos meus pais, mano, não vai dar. Aguentar o velho todo dia vai ser foda...
_Calma, a gente vai dar um jeito.

abril 30, 2012

Ineficiência

Meio-dia e quarenta, após uma noite terrivelmente mal dormida, e lá estava eu – desperdiçando meu precioso horário de almoço só para passar raiva em frente ao funcionário mais incompetente de toda assistência técnica de celulares da capital. Revirei os olhos, eu tinha que ser tão imbecil?
 
A conversa com a Mia se prolongou por quase uma hora na noite anterior e o que começara como uma noite de decisões maduras, aos poucos, tomou a direção contrária – passando perigosamente por cada momento nosso, da nossa história, numa nostalgia estúpida de se permitir. Tanto para mim, quanto para ela. O ar custava para entrar nos meus pulmões, me destruindo completamente do outro lado da linha. Me sentindo mais perdida do que quando tudo aquilo começou.
 
“Queria que você tivesse subido hoje”, foi a última coisa que a Mia disse antes de desligar. E assim que vi o seu nome sumir da tela, encerrando a ligação, eu perdi o pouco de sanidade que me restava – joguei a porra do celular para longe. É, como se pudesse fugir. Fugir dela, das suas palavras, inferno de garota na minha vida.
 
E agora lá estava eu. O visor tinha quebrado e a porra toda não ligava. O conserto em si custava pouco, eram os dias de espera que me incomodavam. Já podia até ouvir o Fernando me dando sermão sobre como eu devia ter comprado um smartphone meses antes, sob suas incessantes recomendações, ao invés de insistir naquele atraso tecnológico do período Jurássico que sequer chip tinha. Agora me via forçada a esperar dias até a peça dinossáurica substitutiva chegar. Droga.
 
Nem o atendente estava engolindo meu apego a aquele aparelho caindo aos pedaços. Não, amigo, você não tá entendendo, ouvia impaciente aos argumentos dele para que eu desistisse de consertar aquele e arranjasse um aparelho novo, se eu perco essa lista de contatos, eu perco a minha vida inteira. Soltei o ar vagarosamente, tentando não me irritar ainda mais.
 
_Escuta, cara, você quer a grana ou não?! – me enchi de vez com aquela ladainha toda – Porque eu posso levar em outro lugar para consertar, se for muito trabalho pra você...
_Não, não, dona. Se cê quer mesmo, segunda-feira tá na mão!
 
Argh.
 
Isso significava uma semana toda sem celular. E eu bem que merecia, é, por ser uma porra duma descontrolada. Desci o degrau em frente à loja na Paulista e saí pela calçada, em direção à produtora na Brigadeiro. Acendi um cigarro e observei o maço quase vazio, após as infelizes horas acordada naquela madrugada. O que mais vai dar errado hoje?, pensei, parando na esquina para esperar o sinal abrir para pedestre.
 
O dia mal tinha começado e só ia piorar – afinal, eu precisava do meu celular para trabalhar e agora tinha que ir lá contar para a minha chefe que ficaria incomunicável pelo resto da semana. Desgraça. Já podia antecipar a quantidade grotesca de horas extras que teria que fazer por conta disso, colada ao telefone da produtora. E como se precisasse de mais alguma preocupação na minha vida, ainda tinha ela – a Mia.
 
Me fodendo a cabeça.
 
Minha respiração oscilava, pesada, sem conseguir tirá-la dos pensamentos. Céus. Soltei a fumaça para o lado, nervosa, atravessando na faixa. E o problema não era só a Mia. Era que o meu melhor amigo também estava lá, entre nós duas. Onde sempre esteve. “É possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?”, ela me perguntou ao telefone, na noite anterior. Traguei mais uma vez e tirei o cigarro da boca, mordiscando os lábios e os judiando, num nervosismo distraído.
 
E a verdade é que eu a entendia. Contra toda a minha vontade – mas a entendia. Parte de mim sequer sabia se queria mesmo que a Mia se decidisse por mim, sem querer pôr a perder o que eu tinha com a Clara. O que me fodia era como ela ainda podia estar tão em dúvida. Depois de tudo, tudo o que te ouvi dizer, garota, me revoltei, sentindo o meu coração entalar na garganta.
 
Talvez minhas ex-namoradas tivessem razão. Talvez eu gostasse mesmo da adrenalina. Do cortisol sempre no talo. Metida naquela porra daquela confusão, de novo, argh. Não é possível que tenha alguém no mundo com maior tendência à burrice do que eu. Puta que pariu. Traguei o cigarro já quase terminado, fumando como se a solução estivesse no fim do filtro.
 
Maldição.
 
Por mais que o meu coração disparasse a cada sinceridade dita pela Mia ao telefone, sobre nós e como se sentia, todo restante da nossa história ainda pesava contra ela. Depois de tanto tempo atrás daquela garota, o meu fôlego tinha esgotado. Passei a mão na nuca, sentindo a minha cabeça doer, exausta de tudo aquilo. Até quando eu vou ficar presa nessa merda?, me irritei. É. Talvez um tempo sem celular me fizesse bem no fim das contas. Me forçaria a ficar longe da Mia. O único problema é que isso também me impedia de me comunicar decentemente com a Clara.
 
Não que ela sequer tivesse retornando minhas mensagens.
 
Argh, aquele fim de semana tinha virado o mundo de cabeça pra baixo. O único telefone que eu sabia de memória era o da Marina, para quem eu não tinha intenção nenhuma de contar sobre aquele rolo todo – depois de garantir o meu não-envolvimento com a Mia uns dias antes. Melhor ficar na minha, concluí enquanto caminhava, já virando a esquina da Brigadeiro. Conforme me aproximei da produtora, notei o Fernando sentado na calçada da frente, fumando.
 
_O que cê tá fazendo aqui?
 
Perguntei, confusa, a alguns passos dele.
 
_E-eu... – ele resmungou, com uma expressão péssima – ...não conseguia te achar, mano!
_Meu celular quebrou, acabei de vir da assistência – expliquei – Tá tudo bem? O que foi??
_Fui demitido.

março 22, 2012

O que me importa

...o seu carinho agora,
se é muito tarde para amar você
(Marisa Monte)
 
_Eu... e-eu não quis, merda! – a Mia se arrependeu, do outro lado da linha – Escuta, eu, e-eu acho que a gente tem que... se encontrar... conversar, não sei...
_Mano, eu não tenho mais nada pra falar com você.
_Não faz isso! – implorou – Eu não quis dizer nada disso! Não era pra, não era pra nada disso ter nem acontecido. Essa conversa, que... q-que saco! Eu... o-olha, eu... eu queria tanto, tanto só... só conversar direito com você. Eu tô me sentindo... – interrompeu, ofegante e confusa – ...não sei, eu...
_Não, não. É exatamente isso. É exatamente como você disse... sempre foi isso na, na porra da sua cabeça, não foi?! – a minha respiração se atropelava nas palavras e o meu coração apertava ainda mais – O problema sou eu, sempre fui eu. A culpa dessa merda toda é... MINHA! – ri de nervoso – Eu é que sou louca, não é, Mia??! E que fui enxergar o que não tava lá! Eu!! Eu que coloquei ideia na sua cabeça, que te corrompi, que te fiz fazer tudo aquilo e você, v-você não teve nada a ver com isso... NADA, não é?! – o jornaleiro da banca em frente me olhava como se eu fosse uma descontrolada, gritando ao telefone – Fui eu! Que decidi me apaixonar por você e que me coloquei nessa merda de situação. A culpa é minha!! – senti as lágrimas engasgarem na minha garganta, mas as engoli, com raiva – Cara, se... se é isso que você... v-você pensa que... aconteceu... entre a gente, na boa, Mia... vai se foder! VAI SE FODER!!
_Não é isso! Não! – se desesperou – Não é nada disso!! Eu...
_Olha, garota, o que você tá sentindo por mim agora... – a interrompi – ...não é amor... – me convenci, conforme falava aquelas palavras – ...é rejeição. Só isso.
_Não, não é!! Por favor, me escuta... não é isso!! Hoje, eu... e-eu fui lá na... – ela continuou – ...na Mi, porque eu... eu não aguentava mais, eu, e-eu não consigo parar de pensar em você... na gente... te vendo com a Clara, e-eu, não sei, eu só... e-eu só não queria que fosse assim, não qu... – sua voz se misturava com o choro – ...ontem, eu...
_Eu não quero saber, Mia. E não mete a Clara nisso! – ameacei – Porque eu e você não estamos juntas, eu não te devo porra nenhuma. Eu nunca devia ter te tocado, não devia ter nem olhado na sua direção! Ontem menos ainda!! – atravessei a rua de volta, acabando com aquilo – Fica longe de mim. Você e as suas amigas!
_Não! Não era pra... e-eu...
 
E antes que ela pudesse terminar, desliguei o telefone. Numa estupidez incorrigível. Meu coração se afobava, tentando desesperadamente se proteger, se fechando no meu peito. Porque doía, puta merda, como me doía, escutar as suas palavras e percebê-la assim, tão destruída. E eu sabia, sabia o quanto acreditava – nos seus sentimentos e nas coisas que me dizia, agora tão mais claras e mais sinceras. Sabia que havia parte de mim nela e, principalmente, parte dela em mim. Caralho, como eu sabia. Mas sentia, ao mesmo tempo, o meu peito prestes a explodir, numa frustração deslocada. Ouvindo-a falar como se fosse uma vítima do que fomos, e do que nunca conseguimos ser, depois de tudo que vivemos, cacete, como se fora eu quem procurara aquele sofrimento para mim mesma e como se ela pudesse voltar assim, quando bem entendesse, depois do que fez, como se não tivesse me machucado, me rejeitado, sem mudar porra nenhuma na sua vida e esperando que eu fosse parar a minha, arrogante, nem a pau. Tirei o volume das chamadas e entrei de novo na produtora, metendo o celular – e todos os meus problemas – no bolso. Que se foda.

março 16, 2012

(a way of) breakin' hearts

À luz do dia, tudo parecia um pouco menos complicado. A sobriedade ajudava. Acordamos – a Clara e eu – e amassei o rosto na sua pele morna, com as pernas entrelaçadas nas suas, numa preguiça boa, sem qualquer vontade de me levantar da cama. O despertador ainda ecoava no quarto e eu o ignorava. Repetidamente. Achando graça, a Clara se levantou e o desligou, caminhando até o meu armário em seguida. Começou a se trocar para ir trabalhar e eu restei, apagada entre os lençóis.
 
Não vi ela sair. Acordei não-sei-quanto-tempo depois com uma mão no meu braço, me chacoalhando. Ainda estava afundada no colchão, de bruços. Movi os olhos para cima, abrindo-os com certa relutância, e vi o Fernando. O que cê tá fazendo aqui?, estranhei.
 
_Escuta... – ele disse, apressado – ...preciso que cê deposite o aluguel hoje, tá?
 
E você me acordou pra isso?! Post-it pra quê, né?
 
_Aham... – murmurei, sonolenta.
_Tá?! – insistiu – Deixei minha parte em cima da mesa da cozinha, vê lá.
_Tá, tá... – virei o rosto.
 
Não enche.
 
Voltei a dormir, de ressaca e sem ter pregado o olho direito a noite inteira, exausta. E foi assim que, claro, perdi a hora para ir trabalhar. Merda. Levantei no susto, correndo, merda, merda, quarenta minutos depois. Puta que pariu, não acredito nisso. Vesti a primeira roupa que achei limpa no armário e passei na cozinha para pegar a porra do dinheiro do aluguel, metendo-o no bolso da jaqueta. O meu cabelo estava todo amassado, a raiz por fazer. Pulei desajeitadamente até o elevador, descalça, e fui vestindo o tênis enquanto descia até o térreo. A minha chefe vai me matar, inferno.
 
Não tinha atrasado assim desde que começara na produtora. Argh. Quase uma hora depois do meu horário normal, dei as caras e tive que inventar uma desculpa esfarrapada. Ralei do começo ao fim daquela sexta-feira. Sequer saí para almoçar para compensar. E lá pelas 16h, o meu celular tocou. Peguei o meu maço e saí na rua para atender, aproveitando a brecha, já que não tinha feito nem metade das minhas pausas usuais para fumar.
 
_VOCÊ FEZ O QUÊ?!?!?
 
Era a Marina, indignada, certamente depois de ler o meu último SMS.
 
_Calma, calma... – coloquei um cigarro na boca, segurando o telefone contra o ombro.
_CÊ PERDEU QUALQUER NOÇÃO DE LIMITE?! MEU DEUS! – gritou comigo – COMO VOCÊ TRANSA COM A MIA ENQUANTO O FER E A CLARA TÃO NO APARTAMENTO?!? ALIÁS, QUE MERDA DEU NA SUA CABEÇA PARA IR LÁ COMER ESSA MINA DE NOVO???? QUAL É O SEU PROBLEMA??
_Eu sei, eu sei... calma! – ri da sua reação, fazendo o isqueiro pegar – E meu, também não é como se eu tivesse planejado, né, só... sei lá, aconteceu, porra!
_“Aconteceu”?? “ACONTECEU”??? – aumentou novamente o tom de voz e eu me diverti com o escândalo que minha ex fazia – Sabe, imprevistos “acontecem”, chuva em Ubatuba “acontece”, perder o ônibus “acontece”, MAS NÃO SE ENTRA NAS CALÇAS DE NINGUÉM POR ACIDENTE!!
 
Continuei rindo, entre uma tragada e outra.
 
_Na boa... eu não sei nem o que dizer!! – a Marina continuou – Olha as cagadas que você faz, meu. É inacreditável!! Como cê me dá uma dessas???
_Má, escuta... Dessa vez, não me arrependo! – podia sentir os seus olhos revirando do outro lado da linha – É sério. Eu sei que vai soar estranho, mas... a-agora eu sei, manja? Sei que não quero ficar com ela. Não mesmo.
_Ah é, porque ISSO nitidamente prova que cê já superou a Mia...
_Não! Eu sei... – ri – ...eu sei que tenho umas paradas pra resolver dentro de mim. Não tô negando isso. Só que agora, sei lá, eu... e-eu acordei tão bem com a Clá, sabe? E com a Mia, não sei, é tudo tão pesado, sempre. Me faz tão mal. E eu não quero isso, mano.
_AH, PRONTO! Quem te ouve falar assim nem parece que eu já não... – senti o telefone vibrar – ...te falei um milhão de vezes que a...
 
Baixei o celular, olhando rapidamente o visor, com o cigarro entre os dedos.
 
_Linda, desculpa, tenho outra ligação. Já te ligo!
 
A Marina suspirou, interrompida. E eu desliguei, apertando o botão para receber a segunda chamada.
 
_Alô? – coloquei o cigarro de volta na boca.
_Oi. Preciso falar com você.
 
Aquela voz era estranhamente familiar.
 
_Quem tá falando?
_É a Michelle... – quem?, minha cabeça repassou todas as Michelles que eu conhecia – ...amiga da Mia. A gente se conheceu na casa dela, no ano passado.
_Ah, sei.
 
Como diabos essa garota tem meu telefone?
 
_Presta atenção – endureceu a voz – Não sei o que cê acha que tá fazendo, mas você precisa parar com essa merda agora. Cê tá acabando com ela!

fevereiro 19, 2012

24

Na sexta daquela semana, todavia, veio a má notícia – era o meu aniversário.
 
Chamem de inferno astral, azar sazonal, azedume, me acusem de ser rabugenta, que seja – mas eu sempre me fodo nos meus aniversários. E esse ano não parecia que ia ser diferente. Trabalhei como uma condenada a semana toda numa série de ações publicitárias. E de todos os dias em que podia cair a maior gravação da porra da campanha toda, é claro que tinha que ser na sexta. Sério. Odeio aniversários.
 
Meu despertador tocou às 5 da manhã para que eu conseguisse chegar a tempo no set, que ficava pra lá de Interlagos. Amanheci tão sapatão quanto todos os outros dias da minha vida – com a diferença de que, agora, eu podia me dizer oficialmente viada. Aquela era a minha 24ª volta ao redor do Sol. E começou sem um pingo de luz, pisando para fora de casa enquanto ainda estava escuro para pegar a primeira de três conduções.
 
Inferno.
 
Meu azar em aniversários era tanto que, com o tempo, parei de comemorar. Não falava para ninguém, não fazia festa – sequer colocava nas redes sociais. Então, naquela manhã, quando finalmente cheguei no estúdio onde seria a gravação, quase duas horas de trânsito depois, tratei de ficar bem quieta para que nenhum colega meu descobrisse. Deus me livre ser vítima duma festinha de firma, pensei, enquanto colava o cronograma na parede do set.
 
As únicas pessoas que sabiam da infeliz data eram as já que me conheciam há tempo suficiente – como a Marina, com quem eu tinha um acordo de “comemorar” fora de época. Ainda assim, ela foi a primeira a me enviar um SMS de manhã, me desejando um “feliz não-aniversário”. Ha-ha, engraçadinha. Passei o resto do dia de um lado para o outro, resolvendo pepino atrás de pepino. Absolutamente tudo o que podia dar de errado naquela merda de gravação, é óbvio, deu – de ator atrasado a objeto de cena faltando e iluminação quebrada no meio da tarde.
 
Para piorar, o buffet esqueceu de mandar uma porra de opção vegetariana, apesar dos meus insistentes pedidos duas semanas antes. Fui obrigada a sobreviver o dia todo à base de amendoim e cigarro. Vai tomar no cu. Lá pelas 6 da tarde, numa das minhas pausas para fumar, senti o meu celular vibrando. Era uma mensagem da Clara, inteira em caixa alta “ENTÃO C Ñ IA ME CONTAR Q EH SEU CUMPLE, BO?? EH ASSIM??! KKKK”. Era só o que me faltava. Respirei fundo e meti o telefone de volta no bolso, desejando que aquele dia acabasse logo. Mas espera, estranhei, como diabos ela sabe?
 
Peguei o celular de novo e disquei, furiosa:
 
_PODE PARAR! – ordenei.
_Parar o quê, mano?!
_Fernando, eu não quero festa!
_Mas do que cê tá falando? – ele riu do outro lado da linha, nitidamente culpado – Que festa, meu? Eu, hein... Hoje é algum dia especial por acaso?
_É SÉRIO, PORRA! NEM VEM!
 
Todo ano, mano. Todo maldito ano, eu pedia a mesma coisa. E todo ano, um atrás do outro, o Fer me ignorava e organizava uma noite de bebedeira com os nossos amigos. Fala sério. Mais cedo naquela semana praticamente implorei para que ele não fizesse nada e expliquei que estaria ocupada. Mas o fato de a Clara ter sido informada no meio da tarde sobre a data só poderia ter o dedinho fofoqueiro do Fernando envolvido. Ahh, desgraçado.
 
_Fer, eu vou trabalhar até tarde, mano – resmunguei – Já são seis e a gente num tá nem perto de acabar aqui...
_Deixa de ser cuzona. Vem logo pra casa e a gente vai tomar umas, vai.
_Não posso! Tô numa puta gravação importante, meu. Não dá, real!
_Foda-se. A gente espera cê sair...
_Fer, na moral, não dá. Não sei nem que horas vou chegar em casa, porra... Provavelmente só de madrugada!
_Velho, é seu aniversário! – ele argumentou, indignado – Fala pra sua chefe que é uma emergência e vem tomar umas com a gente, meu. Vai! Comprei um whisky pro cê... Pode ser só nós mesmo, a Mia já tá vindo aí...
 
Agora é que não quero mesmo.
 
_Não vai rolar, Fer. Desculpa. Eu nem tô bebendo direito, meu... – o desencorajei – Deixa quieto, sai só vocês. Hoje não rola...
 
E contrariado, entre um xingo e outro, meio brincando, o Fer se contentou a me desejar feliz aniversário e então desligou. Ufa.  

fevereiro 09, 2012

Meia hora depois

“Mano”, digitei pra Clara assim que pisei na calçada, já do lado de fora da produtora, “qse fiz uma cagada mto grande agora!!”. Segurava o celular desajeitadamente, enquanto acendia um cigarro com a outra mão. “Ai... diz q ce ñ deu em cima da sua chefe pfvr kkkk”, ela respondeu. Tirei o cigarro da boca, depois de uma tragada curta, caminhando pela calçada da Brigadeiro – “ñ foi minha culpa, ela deu mta brecha!!”. “Como assim?? CONTA”. “Ah meu, ficou falando q ja tinha pegado mina, perguntou do q eu gostava”, equilibrei o filtro entre os lábios, me divertindo com a situação, “pra q ela foi falar isso pra mim, velho?? Qse dez da noite, a gnt sozinha la... pqp!”. Parei na esquina com a Santos, esperando o farol fechar para atravessar. Aí não me aguentei e liguei para a Clara:
 
_Meu... – ri, assim que ela atendeu.
_Então quer dizer que foi boa essa hora extra aí? – ela fez graça.
_Nossa... Cê não tem noção, tô passando mal!
_É, né – ironizou, do outro lado da linha – Muito calor por aí?
_Puta merda, Bi... – esfreguei a mão na cara – ...na boa.
 
Nós rimos. E ah, é, quase esqueci: em algum momento da semana anterior, eu e a Clara começamos a nos chamar por apelidos, numa brincadeira tonta que fazia referência a uma das primeiras vezes que saímos. O “Bi” vinha, de alguma forma, de “Björk” e o “Bo”, que ela passou a usar para mim, era uma versão encurtada de “Bowie” – ambos ressurgidos duma vez que disputamos quem ia usar a camiseta de qual artista, em frente ao meu armário.
 
Duas bobas, é. Mas, por algum motivo, tudo o que vinha da Clara não me assustava –simplesmente não incomodava. Não sei explicar. Talvez porque o nosso comportamento e principalmente a nossa falta de vergonha na cara fossem parecidos demais. Sentia que podia ser eu mesma do lado dela.
 
_Hum... – a Clara riu, mais uma vez, no telefone – E cê não quer passar aqui, não?! Dar uma acalmada esse fogo aí?
_É, então... – atravessei a rua, já indo em direção ao metrô – ...te liguei pra isso.

fevereiro 08, 2012

Certa flexibilidade

As semanas se passaram rapidamente. Àquela altura, eu já estava trabalhando na produtora há quase um mês. Mais do que jamais tinha trabalhado na vida – o que quase me fazia sentir saudades do meu emprego anterior. Quase. Não sabia se era pior morrer de tanto tédio num cargo fácil ou me acabar em um que eu realmente gostava. As horas extras eram quase diárias.
 
Numa dessas, me vi sozinha com a minha chefe, às nove e quarenta da noite. Trancafiadas numa sala terminando, no caso dela, uma pilha de orçamentos para autorizar e, no meu, uma checklist infindável para a gravação da manhã seguinte. Não trocávamos muitas palavras além do necessário. Só o meu celular vibrava o tempo todo sobre a mesa. Aí eu o checava, fazendo uma expressão séria, como se fosse de trabalho – lendo as mensagens indecorosas da Clara, me pedindo para descrever o que a minha chefe estava usando.
 
É.
 
Nos divertindo com a crush platônica que eu mantinha por aquela mulher que nunca, nem em um milhão de anos, me daria bola – sentada a menos de dois metros de mim, no seu terninho descolado, com cara de poucas ideias. E gata, puta merda. Como é gata. Eu a olhava de relance e descrevia o que ela estava fazendo, por SMS, inventando cenários em que eu a interrompia, em que chegava nela. Passavam-se meros segundos e a Clara me sugeria outras estratégias, numa sem vergonhice compartilhada. “Vou ser demitida, mano”, eu respondia, segurando o riso, “por justa causa”. E o meu celular vibrava de novo antes de tocar a mesa – “o importante eh: vai valer a pena? rs”.
 
_Então... – a minha chefe disse do nada, detrás de uma pilha de documentos, me vendo sorrir entre uma mensagem e outra – ...qual é a sua, afinal?
_Hum?!
 
Ergui a cabeça, sem ter escutado direito.
 
_“Qual é a sua”... – ela repetiu e ergueu os olhos por um instante, me encarando mais uma vez, antes de voltar a rubricar o documento que tinha em mãos.
_A “minha”?
_É... – deixou escapar um sorriso – ...está rolando uma aposta entre todo mundo na produtora.
_Que aposta?
_Se você gosta de meninos ou meninas...
 
Sorri, chuta.
 
E ela me observou achar graça. Me ajeitei na cadeira, passando um dos braços por cima do encosto, e a encarei de volta. Ainda que talvez não devesse. Não com aquela intenção toda. Meus olhos passearam pelas suas mãos – usava vários anéis prata, de diferentes tamanhos –notei manchinhas sutis no seu braço, quase como sardas, dessas que vêm com anos de sol.
 
_Não se preocupa... – ela continuou, assinando a parte inferior de uma página – ...esse tipo de comentário é comum por aqui.
_Não tô preocupada, só... – me afundei na cadeira, sorrindo – ...curiosa.
_Curiosa?
_Pra saber em qual cê apostou.
 
A minha chefe subiu os olhos novamente na minha direção e eu arqueei as sobrancelhas a desafiando a dizer, ela riu. Por um instante, senti como se dividisse um cômodo com a Catherine Keener em “Your Friends & Neighbors”, do Neil LaBute. Que era como metade das minhas fantasias começavam, de toda forma. Cacete, essa mulher.
 
_Bom... Eu acho que você gosta das meninas.
 
Deslizei mais um pouco na cadeira, a observando com naturalidade.
 
_Hum. E você?
_Eu?
_É – comecei a brincar com um isqueiro que estava sobre a mesa, passando-o entre os meus dedos, sem deixar minha atenção desviar dela – Gosta?
_De mulher?
_Isso.
_Bom, eu sou casada com o meu sócio... – respondeu, sem parecer se incomodar com a pergunta – ...há dez anos. Mas fui “heteroflexível” por um tempo, por assim dizer, quando era um pouco mais velha que você... – brincou – ...acho mulheres muito complicadas, não é pra mim.
_Olha... – não consegui evitar, numa confiança tão natural que transparecia nos meus gestos – ...se quiser, dá pra descomplicar facinho.
 
A minha chefe riu.
 
_Você parece dar trabalho às suas meninas... – arqueou as sobrancelhas brevemente, voltando a olhar os documentos que segurava em mãos.
_Eu? Não – achei graça.
 
Nem um pouco.

janeiro 16, 2012

Eleuteromania

Na manhã seguinte, entrei na produtora com a mesma roupa do dia anterior – depois de passar trinta minutos revirando a porra do armário inteiro da Clara, sem encontrar uma roupa sequer que eu me sentisse confortável em usar. Todas justas demais ou “pijama” demais. Argh. Aí aconteceu exatamente o que eu não precisava no meu segundo dia de trabalho: alguém reparou. E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a respeito, já estava com a mesma fama que carreguei no meu emprego anterior.
 
A de quem nunca dorme na própria cama, é.
 
Então, quando a Clara me mandou aquelas baixarias no meio da tarde – numas mensagens que, puta merda –, eu sabia que tinha que pelo menos passar em casa antes de encontrar com a diaba. E foi o que eu fiz. No segundo em que o relógio da produtora marcou seis da tarde, dei um pulo da cadeira e passei no meu apartamento para tomar banho e trocar de roupa. Em menos de uma hora, a encontrei na loja onde ela trabalhava e, de lá, caímos na sua cama. Nos engolindo.
 
De alguma forma, a Clara me lembrava da relação que sustentei por anos com a Dani – nessas de ir e vir na vida uma da outra e de nos consumir até esgotar, toda vez, numas obsessões que eu não conseguia evitar. Atraída, de alguma forma, pela promessa dessa ausência completa de regras. Fascinadas e cruas, soltas, fodendo à exaustão e absorvendo cada segundo, cada falta de limite, cada conversa e madrugada em claro, como se fosse a única coisa que importasse na porra do mundo inteiro. Eram os meus relacionamentos mais sinceros.
 
E né – o sexo era fenomenal. C a c e t e.
 
Nós não nos precisávamos, apenas nos queríamos. E há uma diferença aí. Nos entendíamos de um jeito só nosso, numas manias de liberdade. O que não quer dizer, claro, que fosse um mar de rosas. Nunca é. Ou, pelo menos, era assim com a Dani. Todos aqueles anos, nos metendo numas discussões irracionais de madrugada, nuns excessos, nuns ciúmes, nuns sumiços, nos provocando e nos traindo, perdendo a noção da porra do limite até não aguentar mais. E inevitavelmente, no final, alguém sempre se machucava. Mas nunca o suficiente para impedir a próxima vez – e é aí que mora o perigo.
 
Agora, entretanto, num quartinho mal iluminado em Pinheiros, deitada ali com a Clara, me questionava se a comparação com a Dani sequer era justa. Ou se era só receio. Como quando sua cabeça te convence de que tudo o que é tão bom assim só pode ser cilada. A observava fumar um baseado, tranquila, enquanto as pontas dos meus dedos davam voltas a esmo pela superfície do seu corpo, e sentia medo da intensidade daqueles dias – de gostar, de realmente gostar. Um gostar de verdade, digo, não como eu tinha gostado da Patti. De perder o controle.
 
Ia passeando a mão pelos seus contornos, com a cabeça no seu ombro, numa brisa boa. Como se não existisse nada além do quarto. E de fato, não existia. Deitada de barriga para baixo e um tanto fora da realidade, depois de tantas horas enfurnada ali com ela, eu me sentia bem. Assistindo a fumaça espessa deixar seus lábios e permitindo, sem desviar o olhar, que ela me roubasse o fôlego.

janeiro 13, 2012

Uns recomeços

As pontinhas do seu cabelo pingavam sobre a camiseta que emprestei para ela ir trabalhar. Por cima dum top preto e o único jeans que a serviu, todos muito mais largos do que a Clara costumava usar. Por algum motivo, ver aquela garota nas minhas roupas caminhoneiras me fazia sorrir. Ficava bonita. Seus longos cabelos escuros molhavam o tecido e ela sorria para mim, enquanto a gente tagarelava e tomava café.
 
Acordamos quase duas horas antes naquela manhã de segunda, com a chuva forte que caía do lado de fora. Os seus pés se aninharam inconscientemente nos meus e as minhas mãos procuraram a sua cintura sob o lençol, nos encaixando uma na outra. Entre o esbarrar dos nossos corpos e o barulho do lado de fora da janela, acabamos despertando. Era pouco depois das seis. “Vamos ficar mais um pouco...”, a Clara sussurrou. “Não dá”, murmurei, escorregando as costas da minha mão lentamente pelo seu braço, “preciso levantar”. 
 
Ela afundou o rosto no travesseiro com preguiça. E eu achei graça. Sem a ressaca e o azedume do dia anterior, estar com a Clara de repente não parecia tão assustador. Parte de mim queria ficar ali a manhã toda. O problema é que quando cai uma gota de chuva em São Paulo, a cidade inteira para – o trânsito, o metrô, absolutamente todos os meios de transporte com teto. E aquele era o meu primeiro dia no novo emprego. Não podia voltar a dormir e arriscar chegar atrasada. Então me forcei a levantar.
 
Tomamos um banho rápido juntas. Quer dizer, não tão rápido – mas bem juntas. E agora comíamos pão com manteiga na cozinha. A Clara tentava me convencer que “But I’m a cheerleader” era o melhor romance adolescente dos anos 90. Eu ria, discordando. Todo mundo sabe que é “The incredibly true adventure of two girls in love. Depois dividimos um guarda-chuva até a entrada do metrô Consolação – ela ia para Clínicas e eu, Brigadeiro. Meu trem chegou primeiro. A beijei antes de entrar e, assim que as portas fecharam, a assisti ir para o outro lado da plataforma nas minhas roupas largas. A barra do jeans encharcada de andar na chuva.
 
O resto do dia correu descomplicado.
 
As pessoas da produtora eram interessantes, novas, eram outras – e isso por si só já me empolgava. Fui conhecendo a equipe, fazendo pouco e observando muito, vendo o dia passar rápido. Lá pelo meio da tarde, respondi uma mensagem da Marina dizendo que precisava me ver e combinamos de ir jantar. Assim que saí da produtora, umas horas depois, lá estava ela. Na calçada, apoiada contra o seu carro, com seus óculos pretinhos e o celular na mão. Sorri ao vê-la parada ali.
 
_E aí? – me perguntou, conforme entramos no carro – Como tão as coisas?
_Bom... – bati a porta, me acomodando no banco do passageiro – ...fodi de vez as coisas com a Patti e tô com a Clara agora. E você?
_Terminei com a Bia.

novembro 24, 2011

Hipótese infundada

Ainda assim, a ideia não saía da minha cabeça.
 
Argh, não. Nem pensar. Eu é que não ia enlouquecer por culpa daqueles dois mal-amados. Me recusava, que se fodam. Eles e as suas teorias de merda. É, chega, decidie aí passei a noite atormentada pela quantidade de vezes que a Marina acertara antes sobre a minha vida amorosa. Tentei jogar um pouco de videogame com o Fernando para me distrair, me convencendo entre uma pista e outra de Mario Kart de que a Mia não tinha influência alguma em quem eu queria ou deixava de querer. Isso é ridículo, eu revirava os olhos. Eu já superei essa merda.
 
Lá pelas duas, o Fer foi dormir e eu segui ali sozinha. Essas eram, afinal, as minhas primeiras “férias” em muito tempo – se não contar os três dias lá para meados de dezembro em que eu simplesmente não apareci no trabalho porque estava a 100 km de São Paulo fodendo a Dani na casa dos pais dela em Campinas. Um pequeno deslize em meio a uma fossa colossal, esta, sim, impulsionada na época pelo meu coração partido pela Mia.
 
Mas agora eu já tinha superado. Águas passadas.
 
Acordei pouco depois das 14h no dia seguinte com a cara amassada no sofá e saí correndo para chegar a tempo no exame admissional, nas redondezas da praça da Sé. Merda. O calor abafado que impregnava o ar paulistano me deu uma dor de cabeça, conforme eu balançava naquele metrô suado – mas cheguei, intacta e a tempo. Ufa. De lá, fui direto ao meu antigo trampo, resgatar a carteira de trabalho que tinha deixado para assinarem.
 
A Patti me enviou uma mensagem enquanto eu estava na linha verde e eu só li uns quarenta minutos depois, quando terminei de assinar toda papelada e saí do estúdio. Por algum motivo, agora, eu não conseguia a responder. Filhos-da-puta. O Fer e a Marina estavam fodendo com a minha cabeça. Caminhei pelas ruas estreitas da Vila Madalena e o calor começou a me irritar, baixando minha pressão. Minha mente dava voltas na Patti. Num bloqueio emocional estúpido. Comecei a pensar que estragaria tudo e senti a respiração apertar o meu peito.
 
Não sabia por que gostava assim dela, com tanta facilidade – mas a verdade é que, sim, gostava. Com Mia ou sem Mia. Peguei então o celular e disquei para ela, tirando os fones de ouvido. I really hope my new star doesn't turn to dust, o som do Those Dancing Days se afastou. Em poucos instantes, ela atendeu e eu sorri. Parecia feliz em me ouvir, ali, competindo com o tráfego de ônibus e carros barulhentos que se enfileiravam na hora do rush.
 
_E aí, já desistiu do nosso encontro hoje?
_Olha, estranhamente não... – a Patti riu, do outro lado da linha.

setembro 19, 2011

Isso!

“Me deve uma tatuagem :)”, digitei para a Thaís no metrô de volta. E nem um minuto depois, a resposta já estava vibrando na minha mão – “conseguiu?????”. “Sim, mano! Bora sair hj?? Chama a Le”, sugeri, descendo na estação Consolação. Coloquei o celular no bolso e subi as escadas rolantes. Assim que pisei do lado de fora, senti meu telefone vibrar de novo. Era um SMS da Lê, já devidamente informada. “PARABENS SAPATAOOOO bora comemorar”, sorri ao ler.
 
Desci a Frei Caneca num piscar de olhos. Cheguei no apartamento escancarando a porta, numa felicidade tão grande que assustei o pobre do Fernando. Ele estava assistindo TV com a Mia – desta vez, de roupa. A luz estava acesa e o cômodo bagunçado. Entrei, toda empolgada, fazendo escândalo. Pulei no sofá, me virando deitada de barriga pra cima, e apoiei a cabeça no colo do Fer. Sorrindo. Ele me olhou confuso, sem entender porra nenhuma.
 
_Então... – ri – Quem é a mais nova assistente de produção contratada?
_ERA HOJE?? – ele sorriu – DEU CERTO??
 
Levantei e ele me abraçou, na mesma hora.
 
_CÊ TÁ ME ZOANDO? JÁ É CERTEZA?!
_É! – continuei, quase gritando as boas notícias – E meu, paga bem mais! É animal! Na porra da Brigadeiro, mano, muito perto!
_Tá zoando?!
_Meu, não. É o trampo perfeito. Sério! Até a minha chefe nova é gata... – comecei a rir, acendendo um cigarro – ...começo segunda já!
_Velho, a gente tem que comemorar!
_Cê acha que não? – dei um trago – Já avisei a Lê e a Thaís, vamos no Vegas hoje. Bora?
_Fechou!
_Meu, Fer, cê num tem noção de como eu tô feliz. Tô feliz pra cacete! Sério, vou pegar aquela balada inteira hoje! – ri – Vamos arregaçar, meu.
 
Assim que as palavras saíram da minha boca, olhei inconscientemente para a Mia. E ela não pareceu gostar.
 
_Demorou! – o Fer riu, empolgado também – Vou chamar os moleques. Te pago a primeira cerveja!
 
Tirou o celular do bolso para avisar nossos amigos, como se precisassem de motivo para sair numa quarta-feira e ir encher a cara na Augusta. Digitou umas três ou quatro mensagens e guardou o telefone de novo, me abraçando mais uma vez. Aí nós dois olhamos para a Mia, ao mesmo tempo, sem querer.
 
_Parabéns... – ela resmungou, a contragosto.
 
Parecia desconfortável – com o flagra na noite anterior ou a mensagem que não respondi. Vai saber. Talvez fosse meu comentário de segundos antes. Se limitou apenas a concordar com o rolê no Vegas, sem lá muito ânimo, conforme as confirmações dos nossos amigos iam chegando no meu celular e no do Fer.