_Olha, eu não sei como cê conseguiu o meu número, garota... – respirei
fundo, tentando me conter – ...mas cê não tem a menor ideia do qu...
_Tenho! TENHO, SIM! – me interrompeu – SEI MUITO BEM A PALHAÇADA
QUE VOCÊ FEZ ONTEM!! A Mia passou a tarde inteira chorando aqui em casa POR SUA
CULPA!! Cê tem noção do que tá fazendo ela passar?!
_ O que EU tô fazendo ela passar?!? – tirei o cigarro da boca, já irritada
– Cê tá muito louca, mano!
A audácia, não conseguia acreditar no que ouvia.
_Não vou discutir, não liguei pra isso. Só quero você LONGE da
minha amiga! Cê tá entendendo?!?
_Desculpa aí, mas cê acha que pode me ligar pra falar um monte de bosta?!
– me revoltei – EU É QUE QUERO A MIA LONGE DE MIM, PORRA!! Tá maluca?!? E
outra, a Mia já é grandinha e pode falar por ela mesma!! Se ela tem um
problema, ela que fale, você não tem que se meter. Cê não tem A MÍNIMA NOÇÃO do
que tá rolando entre a gente!!
_Eu sei O QUE EU VEJO! – pistolou do outro lado – É-é minha amiga
chegando todo dia mal na faculdade, é isso que eu vejo, sofrendo e falando
sobre você e você e você... E VOCÊ AINDA VAI E FAZ O QUE FEZ ONTEM!! Você... –
pausou e eu senti o ódio no seu silêncio – ...meu, v-você...
_Olha aqui, eu...
_Você tá DESTRUINDO ELA! – me cortou – É ISSO QUE CÊ TÁ FAZENDO!!
_Eu não preciso ouvir essa merda.
Perdi a paciência. E desliguei – aquilo tinha ultrapassado todos
os limites. Meti o celular no bolso, andando de um lado para o outro na calçada
em frente à produtora, fumando o resto do cigarro a muito custo. Aquilo me
tirou do sério. Quem a Mia pensa que é?! Eu tô vivendo a porra da minha vida, tô com
a Clara, caralho. A garota fica me procurando e eu ainda tenho que ouvir sermão
da amiga? Vai se foder!
Argh. Tudo.
Tudo o que eu já tinha feito com a Mia passou em flashes pela minha cabeça. Como
essa idiota sequer sabe qualquer merda sobre nós duas?!, podia sentir a
minha respiração acelerar. Com o coração na boca e uma vontade cretina de ligar
para a Mia, de despejar no seu ouvido. Mas
não, refleti, não vou me afundar nessa merda de novo. Joguei
o cigarro fora na sarjeta da Brigadeiro e andei cinco, seis passos de volta até
a porta da produtora, decidida a... que se dane.
Dei a volta e digitei o
número da Mia, atravessando a rua.
_Oi... – ela atendeu, hesitante.
_Então, é assim, né... – já fui logo acusando – ...agora cê põe
suas amigas PRA ME LIGAR E FALAR BOSTA?! SÉRIO MESMO, MIA?? Cê vai querer jogar
ESSE jogo comigo?!
_Eu nã... – pareceu pega de surpresa, se atrapalhando para
responder – ...e-eu pedi pra, p-pra Mi não te ligar. E-eu... – a voz rouca a denunciava,
como se tivesse, de fato, chorado a tarde toda – ...m-me, me desculpa.
_Como diabos essa mina tem meu telefone, Mia, porra?!?
_Eu nã... eu não... – respirou fundo, soando cansada – ...por
favor, v-você precisa fazer isso?
_EU?! E O QUE EU FIZ?! HEIN?? O que é que eu tô fazendo? – me
irritei, gesticulando no meio da calçada – Eu tava aqui de boa trabalhando, porra!
E aí vem você com essa droga pra cima de mim?! Q-que MERDA você foi falar com essa
garota, Mia? Inferno! Por que cê não aproveita e conta pra sua amiguinha que É
VOCÊ que fica me procurando?? Hein?! Na frente da porra da Clara, do Fer?!?! –
fui descontando nela, indignada – Não sou obrigada, cara!! A ficar ouvindo que
cê tá mal, como se fosse eu a errada nessa merda, escutando bosta de uma idiota
que não sabe PORRA NENHUMA!!!
_E VOCÊ QUERIA QUE EU FIZESSE O QUÊ?! – a Mia surtou de volta, machucada
– EU... E-EU NÃO SABIA MAIS O QUE FAZER! COM QUEM FALAR!! – a sua voz
desafinou, perdendo o controle – COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO?!?!
_NÃO SEI! NÃO SEI, CARALHO! – briguei de volta – É O
GRANDE MISTÉRIO DA PORRA DA HUMANIDADE! PORQUE NÃO FAZ O MENOR SENTIDO, INFERNO!!!
_EU ME SINTO UM LIXO! É ASSIM QUE EU ME SINTO!! – as suas lágrimas
voltaram, do outro lado da linha – É ISSO QUE VOCÊ QUER OUVIR?? Eu me sinto um,
u-um NADA pra você! E confusa e sozinha e, e presa nesta merda que eu não sei
mais nem como começou e... e... e quando eu tento te falar... v-você vai lá...
e faz o... o q-que quer comigo, sabe... – suspirou – ...e-eu t...
_MANO, E COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO?! – retruquei, a
interrompendo – HEIN?!? JÁ PAROU PRA PENSAR NISSO ALGUMA VEZ, CARALHO?? – o
rancor nos cegando – VOCÊ PENSA EM MIM?? EM COMO VAI FODER MINHA
CABEÇA TODA VEZ QUE VEM ME PROCURAR?? TODA VEZ QUE DÁ PITIZINHO DE CIÚMES??
PRA DEPOIS IR LÁ PEGAR OUTRA MINA NA MINHA CARA E AÍ VIR ME QUERER, INFERNO, VOCÊ
ACHA QUE EU TENHO QUE FICAR AGUENTANDO TUDO??!? VAI À MERDA!!
_Não... n-não precisa ser assim... – retomou o tom baixo, como se
engolisse os ânimos, arrependida – ...a gente nã... não precisa... merda! Não
precisamos brigar, por favor...
_PRECISAMOS, SIM. PRECISAMOS, MIA! – continuei – E vamos continuar
brigando porque você, você parece que NÃO ENTENDE, CARA!! NÃO ENTENDE O QUE EU
PASSEI POR VOCÊ!!! O TANTO QUE SOFRI, POR MESES, pra no segundo em que eu fico
bem, que eu tô feliz com outra pessoa, você vir E ME ENFIAR DE NOVO NESSA MERDA??
Como você tem... – perdi o controle – CORAGEM de falar isso de mim?! Que
EU tô te magoando?? Foi VOCÊ que escolheu ficar com o Fernando,
caralho! E agora tem a cara de pau de dizer que tá sofrendo, de ir chorar pra
porra da sua amiga... EU SÓ ME FODI!! Eu só quebrei a cara por sua causa!!
_E ISSO TE DÁ DIREITO DE FAZER O QUE QUISER COMIGO?! DE FAZER
IGUAL?? – se revoltou, subindo o tom de novo – É ASSIM?! Só porque você se
machucou, só porque eu te magoei, você pode ir lá e me, m-me comer na porra do
banheiro só pra depois me largar e... E IR DORMIR COM A DROGA DA CLARA?! – chorava,
desesperada – PORRA, VOCÊ NEM OLHOU NA MINHA CARA! SAIU ANDANDO E FOI LÁ COMER
ELA, INFERNO!! EU TAVA ALI DO LADO!! DO LADO!! VOCÊ ACHA QUE NÃO OUVI VOCÊS?? V-você...
meu... como você PÔDE fazer isso??
_AH, TÁ! Por que você nunca fez, né?! Você nunca foi até o meu
quarto e depois voltou correndo pros braços do Fer, não é?? – retruquei,
gesticulando que nem uma louca no meio da rua – TODO ESSE TEMPO!! TODAS AQUELAS
VEZES, PORRA! Que eu tive que sentar lá e engolir, assistir você com ele, todo
santo dia, ouvir vocês rindo e trepando e brigando e conversando no quarto ao
lado e o caralho a quatro, sem poder falar nada... NADA!! COMO VOCÊ ACHA QUE EU
ME SENTIA?!?! – gritei, indignada com a sua hipocrisia – Ah, fala sério, Mia,
não me vem com essa agora... ISSO você não pode falar!!
_MANO! EU NAMORO O FÊ!! EU SEMPRE NAMOREI, CARALHO! – se ofendeu –
Cê faz soar como se EU tivesse procurado tudo isso, como se EU tivesse feito
alguma dessas coisas de propósito, ido lá te procurar pra começo de conversa...
FOI VOCÊ, PORRA!! VOCÊ FEZ ISSO COM VOCÊ MESMA!!
Meu peito apertou. É sério mesmo?!
_Ah, Mia... na boa, vai à merda!