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novembro 15, 2012

“You met Mia yet?”

(Pulp Fiction)
 
Girei a maçaneta. E com suas mãos apoiadas no batente de madeira, lá estavam eles – os meus incontáveis meses de erro consciente. Batendo à porta, literalmente. A Mia sorriu para mim, num camisetão preto do Misfits que ela cortou as mangas para transformar em regata, meio vestido. Sem perceber a inconveniência da sua presença ali naquele instante, as pernas de fora e o coturno surrado nos pés, enquanto minha lasanha queimava no forno e eu metia a carteira no bolso de trás da calça, pronta para sair.
 
_O que... – ri, surpresa – ...cê tá fazendo aqui?
_Tô atrapalhando?
_Não. É que, ahm...
_Bom, cê disse que eu podia vir te visitar quando eu quisesse... – ela arqueou as sobrancelhas e os meus olhos se perderam por um segundo no seu sorriso, indefesos – ...não?
 
Droga.
 
Eu tinha mesmo dito. Dias antes, alcoolizada como um gambá e sem um pingo de autopreservação, no chão daquela sala, tagarelando sobre o quanto “claro” que ela “podia aparecer” quando bem entendesse. Mas que inferno, causei aquilo a mim mesma. Comecei a pensar em como me livrar daquela cilada. Tinha passado a semana inteira com a Clara e queria fazer as coisas direito – mas também sabia o que meu coração sentiu naquela madrugada com a Mia e não confiava inteiramente em mim mesma para ficar sozinha de novo assim com ela. Cacete.
 
_Na real, e-eu... – passei a mão na nuca e a olhei, parada ali espontaneamente, na porta do meu apartamento – ...tava pra sair, ia... só jantar ant...
_Ah, tudo bem... – ela piscou na minha direção e foi entrando – Te faço companhia!
 
Merda. Merda, merda, repeti para mim mesma. E empurrei a porta de volta, fechando a maçaneta atrás de mim, enquanto a Mia caminhava sala adentro. Isso não tá acontecendo. Largou a mochila sobre o sofá, como se viesse de algum outro lugar, e foi em direção à cozinha. Assim que a segui, o meu celular apitou em cima da mesa. Chequei a mensagem no visor – “é o Gui”, murmurei, “preciso me apressar”. Larguei o telefone de novo e fui até o fogão, abrindo a porta do forno.
 
_Hum, então cê tava mesmo de saída... – a Mia fez graça, sondando.
_Ainda tô, Mia.
 
Agachei na frente do forno para checar a lasanha. Ela me observou a alguns metros dela, e sorriu. Podia senti-la no cômodo, mesmo sem olhar para trás – a forma como se movia milimetricamente por cima do meu ombro. E caía a minha ficha agora de que, sem o Fernando no apartamento, as minhas desculpas para fugir se tornavam escassas. Fechei a porta do forno e coloquei a travessa quente sobre uma das bocas do fogão, erguendo-me do chão. A Mia ainda me observava, apoiada contra a mesa da cozinha. Perguntei se tinha fome e ela disse que já tinha comido na casa da Michelle.
 
_Hum – ri e alcancei um prato no armário sobre minha cabeça – Aquela que me adora?
_Essa.
_E você contou... – a olhei de relance, colocando um pedaço no prato – ...que vinha aqui?
 
A Mia sorriu, arqueando as sobrancelhas com os braços cruzados em frente ao corpo. Isso é um sim ou um não?, achei graça. Caminhei até a geladeira para pegar uma garrafa de Coca. E quando virei de novo, a Mia ainda não tinha respondido, encarando os próprios pés para não pensar a respeito. Comecei a rir e pensei na Marina, na bronca que tomei. “Entendi”, disse para ela, balançando a cabeça antes de irmos para sala. Nos sentamos no sofá, numa cumplicidade de quem nunca realmente se afastou. E eu comecei a comer.
 
Por trás de toda aquela conversa jogada fora, uma garfada atrás da outra, a real é que a sua presença me inquietava. Era estranho. Tê-la sentada ao meu lado, ali, tão abertamente no meu apartamento, em plena sexta-feira à noite. E como alguém que ainda sente coçar a perna que perdeu, sentia que a qualquer momento o Fer ia entrar naquela sala e nos flagrar. Ainda que o seu quarto estivesse vazio e todas as suas coisas tivessem sido levadas, em toda a sua impossibilidade, ainda era difícil me sentir totalmente confortável com a Mia ali.
 
E não é como se estivesse fazendo qualquer coisa errada – estava só comendo meu humilde ranguinho enquanto a Mia comentava, revoltada, sobre uns colegas de classe que viraram discípulos dum professor babaca no Mackenzie. Eu ria da sua indignação. Nada acontecia. Literalmente. Nada mesmo. O problema, com nós duas, é que estava sempre lá. Algo. Nas entrelinhas. Eu simplesmente não podia baixar a guarda.
 
E foi aí que ela moveu as pernas.
 
As ergueu em frente ao corpo, com os coturnos sobre o sofá, abraçando os joelhos. E num reflexo, o meu olhar escapou para o lado, notando aquele pouco pano todo. O tecido da camiseta escorregou pelas suas coxas e, juro, que não tinha porra de shorts nenhum por debaixo. Céus. Me arrependi imediatamente de tê-la deixado entrar. O meu descuido durou um segundo. Nem isso. Mas os olhos da Mia cruzaram com os meus, conforme eu desviava rapidamente o olhar de volta para o meu prato. E ela sorriu, interrompendo o que estava dizendo.
 
_Hum... – se divertiu – ...tô achando que você não quer sair, não.

março 22, 2012

Petulância de uns

_Olha, eu não sei como cê conseguiu o meu número, garota... – respirei fundo, tentando me conter – ...mas cê não tem a menor ideia do qu...
_Tenho! TENHO, SIM! – me interrompeu – SEI MUITO BEM A PALHAÇADA QUE VOCÊ FEZ ONTEM!! A Mia passou a tarde inteira chorando aqui em casa POR SUA CULPA!! Cê tem noção do que tá fazendo ela passar?!
_ O que EU tô fazendo ela passar?!? – tirei o cigarro da boca, já irritada – Cê tá muito louca, mano!
 
A audácia, não conseguia acreditar no que ouvia.
 
_Não vou discutir, não liguei pra isso. Só quero você LONGE da minha amiga! Cê tá entendendo?!?
_Desculpa aí, mas cê acha que pode me ligar pra falar um monte de bosta?! – me revoltei – EU É QUE QUERO A MIA LONGE DE MIM, PORRA!! Tá maluca?!? E outra, a Mia já é grandinha e pode falar por ela mesma!! Se ela tem um problema, ela que fale, você não tem que se meter. Cê não tem A MÍNIMA NOÇÃO do que tá rolando entre a gente!!
_Eu sei O QUE EU VEJO! – pistolou do outro lado – É-é minha amiga chegando todo dia mal na faculdade, é isso que eu vejo, sofrendo e falando sobre você e você e você... E VOCÊ AINDA VAI E FAZ O QUE FEZ ONTEM!! Você... – pausou e eu senti o ódio no seu silêncio – ...meu, v-você...
_Olha aqui, eu...
_Você tá DESTRUINDO ELA! – me cortou – É ISSO QUE CÊ TÁ FAZENDO!!
_Eu não preciso ouvir essa merda.
 
Perdi a paciência. E desliguei – aquilo tinha ultrapassado todos os limites. Meti o celular no bolso, andando de um lado para o outro na calçada em frente à produtora, fumando o resto do cigarro a muito custo. Aquilo me tirou do sério. Quem a Mia pensa que é?! Eu tô vivendo a porra da minha vida, tô com a Clara, caralho. A garota fica me procurando e eu ainda tenho que ouvir sermão da amiga? Vai se foder!
 
Argh. Tudo. Tudo o que eu já tinha feito com a Mia passou em flashes pela minha cabeça. Como essa idiota sequer sabe qualquer merda sobre nós duas?!, podia sentir a minha respiração acelerar. Com o coração na boca e uma vontade cretina de ligar para a Mia, de despejar no seu ouvido. Mas não, refleti, não vou me afundar nessa merda de novo. Joguei o cigarro fora na sarjeta da Brigadeiro e andei cinco, seis passos de volta até a porta da produtora, decidida a... que se dane.
 
Dei a volta e digitei o número da Mia, atravessando a rua.
 
_Oi... – ela atendeu, hesitante.
_Então, é assim, né... – já fui logo acusando – ...agora cê põe suas amigas PRA ME LIGAR E FALAR BOSTA?! SÉRIO MESMO, MIA?? Cê vai querer jogar ESSE jogo comigo?!
_Eu nã... – pareceu pega de surpresa, se atrapalhando para responder – ...e-eu pedi pra, p-pra Mi não te ligar. E-eu... – a voz rouca a denunciava, como se tivesse, de fato, chorado a tarde toda – ...m-me, me desculpa.
_Como diabos essa mina tem meu telefone, Mia, porra?!?
_Eu nã... eu não... – respirou fundo, soando cansada – ...por favor, v-você precisa fazer isso?
_EU?! E O QUE EU FIZ?! HEIN?? O que é que eu tô fazendo? – me irritei, gesticulando no meio da calçada – Eu tava aqui de boa trabalhando, porra! E aí vem você com essa droga pra cima de mim?! Q-que MERDA você foi falar com essa garota, Mia? Inferno! Por que cê não aproveita e conta pra sua amiguinha que É VOCÊ que fica me procurando?? Hein?! Na frente da porra da Clara, do Fer?!?! – fui descontando nela, indignada – Não sou obrigada, cara!! A ficar ouvindo que cê tá mal, como se fosse eu a errada nessa merda, escutando bosta de uma idiota que não sabe PORRA NENHUMA!!!
_E VOCÊ QUERIA QUE EU FIZESSE O QUÊ?! – a Mia surtou de volta, machucada – EU... E-EU NÃO SABIA MAIS O QUE FAZER! COM QUEM FALAR!! – a sua voz desafinou, perdendo o controle – COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO?!?!
_NÃO SEI! NÃO SEI, CARALHO! – briguei de volta – É O GRANDE MISTÉRIO DA PORRA DA HUMANIDADE! PORQUE NÃO FAZ O MENOR SENTIDO, INFERNO!!!
_EU ME SINTO UM LIXO! É ASSIM QUE EU ME SINTO!! – as suas lágrimas voltaram, do outro lado da linha – É ISSO QUE VOCÊ QUER OUVIR?? Eu me sinto um, u-um NADA pra você! E confusa e sozinha e, e presa nesta merda que eu não sei mais nem como começou e... e... e quando eu tento te falar... v-você vai lá... e faz o... o q-que quer comigo, sabe... – suspirou – ...e-eu t...
_MANO, E COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO?! – retruquei, a interrompendo – HEIN?!? JÁ PAROU PRA PENSAR NISSO ALGUMA VEZ, CARALHO?? – o rancor nos cegando – VOCÊ PENSA EM MIM?? EM COMO VAI FODER MINHA CABEÇA TODA VEZ QUE VEM ME PROCURAR?? TODA VEZ QUE DÁ PITIZINHO DE CIÚMES?? PRA DEPOIS IR LÁ PEGAR OUTRA MINA NA MINHA CARA E AÍ VIR ME QUERER, INFERNO, VOCÊ ACHA QUE EU TENHO QUE FICAR AGUENTANDO TUDO??!? VAI À MERDA!!
_Não... n-não precisa ser assim... – retomou o tom baixo, como se engolisse os ânimos, arrependida – ...a gente nã... não precisa... merda! Não precisamos brigar, por favor...
_PRECISAMOS, SIM. PRECISAMOS, MIA! – continuei – E vamos continuar brigando porque você, você parece que NÃO ENTENDE, CARA!! NÃO ENTENDE O QUE EU PASSEI POR VOCÊ!!! O TANTO QUE SOFRI, POR MESES, pra no segundo em que eu fico bem, que eu tô feliz com outra pessoa, você vir E ME ENFIAR DE NOVO NESSA MERDA?? Como você tem... – perdi o controle – CORAGEM de falar isso de mim?! Que EU tô te magoando?? Foi VOCÊ que escolheu ficar com o Fernando, caralho! E agora tem a cara de pau de dizer que tá sofrendo, de ir chorar pra porra da sua amiga... EU SÓ ME FODI!! Eu só quebrei a cara por sua causa!!
_E ISSO TE DÁ DIREITO DE FAZER O QUE QUISER COMIGO?! DE FAZER IGUAL?? – se revoltou, subindo o tom de novo – É ASSIM?! Só porque você se machucou, só porque eu te magoei, você pode ir lá e me, m-me comer na porra do banheiro só pra depois me largar e... E IR DORMIR COM A DROGA DA CLARA?! – chorava, desesperada – PORRA, VOCÊ NEM OLHOU NA MINHA CARA! SAIU ANDANDO E FOI LÁ COMER ELA, INFERNO!! EU TAVA ALI DO LADO!! DO LADO!! VOCÊ ACHA QUE NÃO OUVI VOCÊS?? V-você... meu... como você PÔDE fazer isso??
_AH, TÁ! Por que você nunca fez, né?! Você nunca foi até o meu quarto e depois voltou correndo pros braços do Fer, não é?? – retruquei, gesticulando que nem uma louca no meio da rua – TODO ESSE TEMPO!! TODAS AQUELAS VEZES, PORRA! Que eu tive que sentar lá e engolir, assistir você com ele, todo santo dia, ouvir vocês rindo e trepando e brigando e conversando no quarto ao lado e o caralho a quatro, sem poder falar nada... NADA!! COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SENTIA?!?! – gritei, indignada com a sua hipocrisia – Ah, fala sério, Mia, não me vem com essa agora... ISSO você não pode falar!!
_MANO! EU NAMORO O FÊ!! EU SEMPRE NAMOREI, CARALHO! – se ofendeu – Cê faz soar como se EU tivesse procurado tudo isso, como se EU tivesse feito alguma dessas coisas de propósito, ido lá te procurar pra começo de conversa... FOI VOCÊ, PORRA!! VOCÊ FEZ ISSO COM VOCÊ MESMA!!
 
Meu peito apertou. É sério mesmo?!
 
_Ah, Mia... na boa, vai à merda!

março 16, 2012

(a way of) breakin' hearts

À luz do dia, tudo parecia um pouco menos complicado. A sobriedade ajudava. Acordamos – a Clara e eu – e amassei o rosto na sua pele morna, com as pernas entrelaçadas nas suas, numa preguiça boa, sem qualquer vontade de me levantar da cama. O despertador ainda ecoava no quarto e eu o ignorava. Repetidamente. Achando graça, a Clara se levantou e o desligou, caminhando até o meu armário em seguida. Começou a se trocar para ir trabalhar e eu restei, apagada entre os lençóis.
 
Não vi ela sair. Acordei não-sei-quanto-tempo depois com uma mão no meu braço, me chacoalhando. Ainda estava afundada no colchão, de bruços. Movi os olhos para cima, abrindo-os com certa relutância, e vi o Fernando. O que cê tá fazendo aqui?, estranhei.
 
_Escuta... – ele disse, apressado – ...preciso que cê deposite o aluguel hoje, tá?
 
E você me acordou pra isso?! Post-it pra quê, né?
 
_Aham... – murmurei, sonolenta.
_Tá?! – insistiu – Deixei minha parte em cima da mesa da cozinha, vê lá.
_Tá, tá... – virei o rosto.
 
Não enche.
 
Voltei a dormir, de ressaca e sem ter pregado o olho direito a noite inteira, exausta. E foi assim que, claro, perdi a hora para ir trabalhar. Merda. Levantei no susto, correndo, merda, merda, quarenta minutos depois. Puta que pariu, não acredito nisso. Vesti a primeira roupa que achei limpa no armário e passei na cozinha para pegar a porra do dinheiro do aluguel, metendo-o no bolso da jaqueta. O meu cabelo estava todo amassado, a raiz por fazer. Pulei desajeitadamente até o elevador, descalça, e fui vestindo o tênis enquanto descia até o térreo. A minha chefe vai me matar, inferno.
 
Não tinha atrasado assim desde que começara na produtora. Argh. Quase uma hora depois do meu horário normal, dei as caras e tive que inventar uma desculpa esfarrapada. Ralei do começo ao fim daquela sexta-feira. Sequer saí para almoçar para compensar. E lá pelas 16h, o meu celular tocou. Peguei o meu maço e saí na rua para atender, aproveitando a brecha, já que não tinha feito nem metade das minhas pausas usuais para fumar.
 
_VOCÊ FEZ O QUÊ?!?!?
 
Era a Marina, indignada, certamente depois de ler o meu último SMS.
 
_Calma, calma... – coloquei um cigarro na boca, segurando o telefone contra o ombro.
_CÊ PERDEU QUALQUER NOÇÃO DE LIMITE?! MEU DEUS! – gritou comigo – COMO VOCÊ TRANSA COM A MIA ENQUANTO O FER E A CLARA TÃO NO APARTAMENTO?!? ALIÁS, QUE MERDA DEU NA SUA CABEÇA PARA IR LÁ COMER ESSA MINA DE NOVO???? QUAL É O SEU PROBLEMA??
_Eu sei, eu sei... calma! – ri da sua reação, fazendo o isqueiro pegar – E meu, também não é como se eu tivesse planejado, né, só... sei lá, aconteceu, porra!
_“Aconteceu”?? “ACONTECEU”??? – aumentou novamente o tom de voz e eu me diverti com o escândalo que minha ex fazia – Sabe, imprevistos “acontecem”, chuva em Ubatuba “acontece”, perder o ônibus “acontece”, MAS NÃO SE ENTRA NAS CALÇAS DE NINGUÉM POR ACIDENTE!!
 
Continuei rindo, entre uma tragada e outra.
 
_Na boa... eu não sei nem o que dizer!! – a Marina continuou – Olha as cagadas que você faz, meu. É inacreditável!! Como cê me dá uma dessas???
_Má, escuta... Dessa vez, não me arrependo! – podia sentir os seus olhos revirando do outro lado da linha – É sério. Eu sei que vai soar estranho, mas... a-agora eu sei, manja? Sei que não quero ficar com ela. Não mesmo.
_Ah é, porque ISSO nitidamente prova que cê já superou a Mia...
_Não! Eu sei... – ri – ...eu sei que tenho umas paradas pra resolver dentro de mim. Não tô negando isso. Só que agora, sei lá, eu... e-eu acordei tão bem com a Clá, sabe? E com a Mia, não sei, é tudo tão pesado, sempre. Me faz tão mal. E eu não quero isso, mano.
_AH, PRONTO! Quem te ouve falar assim nem parece que eu já não... – senti o telefone vibrar – ...te falei um milhão de vezes que a...
 
Baixei o celular, olhando rapidamente o visor, com o cigarro entre os dedos.
 
_Linda, desculpa, tenho outra ligação. Já te ligo!
 
A Marina suspirou, interrompida. E eu desliguei, apertando o botão para receber a segunda chamada.
 
_Alô? – coloquei o cigarro de volta na boca.
_Oi. Preciso falar com você.
 
Aquela voz era estranhamente familiar.
 
_Quem tá falando?
_É a Michelle... – quem?, minha cabeça repassou todas as Michelles que eu conhecia – ...amiga da Mia. A gente se conheceu na casa dela, no ano passado.
_Ah, sei.
 
Como diabos essa garota tem meu telefone?
 
_Presta atenção – endureceu a voz – Não sei o que cê acha que tá fazendo, mas você precisa parar com essa merda agora. Cê tá acabando com ela!

fevereiro 26, 2010

Amigo de peixe, peixinho é?!

O ônibus de volta para Jardins estava vazio. Ou quase. Um playboy babaca falava irritantemente no celular, em alto e bom som, ao lado do coitado do cobrador. Maravilha, pensei sarcasticamente, ao passar pela catraca. Sentei o mais longe que pude, no fundo, e apoiei os pés no banco da frente. Olhei para o lado e um velhinho me encarava, como se desaprovasse o meu descaso com os meios de transporte público. O encarei de volta, algum problema? E para a minha surpresa, ele levantou as sobrancelhas, impaciente, indicando o moleque com os olhos. Comecei a rir e concordei com a cabeça. Velhinho simpático. Coloquei os fones de ouvido e deitei a cabeça para trás, numa tentativa inútil de descansar o que não havia conseguido naquela noite.
 
Fracasso total.
 
A Mia continuava na minha cabeça. Não conseguia tirá-la de lá – revivendo cada segundo da noite anterior. Mas algo me incomodava. Me sentia estranhamente irritada. Talvez porque não havia dormido nem meia horinha ou talvez fosse o cara que não calava a porra da boca; ou quem sabe fosse por causa da Michelle, que resolveu passar o sábado com a minha garota. Minha? Fui praticamente enxotada do apartamento quando a infeliz resolveu arrastar a Mia para a sua casa e não me convidou. Babaca. Agora eu voltava, desacompanhada e com um sono desgraçado, para a Frei Caneca.
 
Puta merda! – o ônibus passou por um buraco do nada e eu bati a nuca violentamente no banco. Sentei reto e decidi não tentar mais dormir, a fim de preservar a minha integridade física. Sabe como é. Argh. Dava tudo para estar com a Mia agora, lamentei. O problema era que, de repente, a noite anterior já não parecia mais as mil maravilhas que foi. Talvez fosse a ressaca ou o meu azedume matinal, resultado direto da amiga empata-foda e do playboy que coexistia escandalosamente comigo no ônibus, não sei. Mas algo revirava o meu estômago. É. À luz do dia, a imagem da Mia se misturava com a do Fernando.
 
E eu me sentia um lixo. A pior amiga do universo.
 
Não tinha desculpa para aquela filha da putice sem tamanho, sem escrúpulos, não desta vez – essa foi pra valer, pensei. E me incomodei comigo mesma. Sentada no banco do ônibus, sem conseguir lidar com o que eu tinha feito: após meses de negação e investidas frustradas, eu finalmente tinha pegado a namorada do meu melhor amigo. Que merda eu fui fazer? Balancei a cabeça, tentando fugir da responsabilidade.
 
Desci na Paulista e caminhei até a minha rua, sentindo o peso de cada tonelada da minha consciência. Os meus passos pareciam afundar o chão. Acendi um cigarro e, antes que o acabasse, já tinha chegado na porta do prédio. Respirei fundo. Joguei a bituca ainda acesa na sarjeta e entrei. Não estava pronta para encarar o meu melhor amigo. Droga. O nervosismo me embrulhava o estômago. No elevador, tudo o que eu conseguia pensar era na cara do Fernando e na porra do orgasmo da Mia. A culpa era minha – em todos os sentidos. Parei na frente do nosso apartamento e ouvi algum som qualquer ao fundo. Isso é...
 
Sepultura?, estranhei.
 
A música indicava que o Fernando estava em casa, argh. O que diabos eu vou falar? Passei a mão no rosto, ansiosa. Bosta. O problema não era mentir. Eu sabia mentir, podia mentir facilmente para qualquer garota, pai, mãe, chefe ou segurança inconveniente de balada – mas pro Fernando, não. Menos ainda nessas circunstâncias. Abri a porta. Sentindo todas as minhas entranhas se contorcerem, angustiada. O som do rádio dominava a sala inteira, num volume inacreditável. É, confirmei mentalmente, é Sepultura.
 
Como não vi ninguém ali, gritei qualquer coisa à procura de quem quer que estava ouvindo àquela barulheira, pedindo para que desligasse. E o Fer logo apareceu do corredor. Estava só de jeans e com uma cara de quem havia acabado de acordar. Ou... Seus olhos pareciam surpresos em me ver ali. E foi quando, atrás dele, vi a Júlia – a hipsterzinha de merda.
 
Ahh, cachorro.

fevereiro 25, 2010

4:20

Aquele telefone demorou uma eternidade para tocar – mas uma hora, tocou.
 
Aleluia.
 
A Michelle atendeu o celular dando uns passos adiante. A gente tinha esquematizado uma rodinha não muito discreta no canto do pátio. Eu estava sentada na mureta do parquinho, com as mãos apoiadas na borda e a Mia ao meu lado, distraída, encarando os próprios pés suspensos no ar. Observei sua amiga indo em direção ao estacionamento e se afastando de nós. Até que finalmente ficamos sozinhas. Nos olhamos e sorrimos, então a Mia deu um trago demorado e abaixou a cabeça.
 
_Como eu faço... – soltou a fumaça e me olhou de novo, passando o baseado – ...pra fazer o que cê fez?
_Como assim?
_Ah, cê sabe... – se constrangeu, contendo um sorriso – ...o, o que você fez... o-ontem... – explicou desarticuladamente – ...quer dizer, eu sei o que você fez e como, mas... e-eu, sei lá, n-não sei se saberia fazer de volta.
_...hum, e queria?
 
Achei graça, tragando e segurando a fumaça enquanto a observava.
 
_Ah, sim, né...
_Em mim?
_É, sua tonta! – a Mia balançou a cabeça, envergonhada – Você entendeu...
_Ok – ri – Eu te mostro...
_Você tá tirando com a minha cara, não tá?
_Não – sorri e passei de novo para ela – É que cê tá uma graça aí, toda girininha...
_“Girininha”?
_É, é o estágio antes de ser sapa.
_Vai se foder! – me empurrou, rindo.
_Ah. A gente chega lá, gata...
 
Nós duas rimos. A Michelle continuava falando no celular, ao longe, e o vento começava a arrepiar nossas pernas. Era uma manhã cinzenta e tipicamente paulistana. Tínhamos descido só com os camisetões que usamos de pijama e sem as calças, claro. Uma decisão que eu agora repensava. Um tanto quanto desprovida de roupa para o clima. O que não é uma boa também quando se está cometendo uma atividade ilegal a pleno céu aberto e do lado da única área infantil do prédio – chama muita atenção. Até então, no entanto, salvos alguns olhares de desaprovação duns vizinhos antipáticos de meia-idade, ainda não tínhamos sido perturbadas.
 
_Ontem foi tão...
 
A Mia retomou baixinho, encarando o chão. E sorriu, sem terminar a frase.
 
_Tão...?
_Não sei, incrível – fechou os olhos, já levemente chapada, e tragou mais uma vez antes de me olhar de volta – Num foi?
 
Sorri – “pra caralho”.
 
_Meu – ela riu – Eu devo ter sido a pior trepada da sua vida!
_Mia, ontem... – a encarei, achando graça – ...não foi uma trepada.
_Não?
_Claro que não!
_Como “claro que não”? E o que mais vocês fazem, então?
_Mano...
 
Eu comecei a rir muito. Um dia você ainda descobre, garota.

fevereiro 24, 2010

As velas

O sol se levantou e eu não havia sequer fechado os olhos. Continuava deitada ali, ocupando obsessivamente meus pensamentos com o que rolou no sofá. Foi mesmo real? Parte de mim não conseguia acreditar. Todas as meninas já tinham acordado àquela altura, falando aqui e ali ainda deitadas. A Mia era a única que seguia dormindo. Fiquei esperando, esperando que acordasse. Ansiosamente. Como se precisasse de um sinal de que não fora um sonho ou apenas imaginação – algum delírio bêbado de madrugada.
 
Depois de inúmeros resmungos e uns bocejos preguiçosos, as outras finalmente se levantaram. E antes de saírem para a sala, tentaram acordar a Mia – já eu fiquei no quarto. Com saudade de estar sozinha com ela. Apoiei os meus braços no seu colchão e encostei a cabeça de lado. Sonolenta, desperta pela movimentação toda, a Mia enrolava para abrir de vez os olhos e eu a observava. Tinha os cabelos castanhos caídos sobre as bochechas e o nariz. E uma das mãos no rosto. Três pequenos pontinhos tatuados em um dos seus dedos, entre o do meio e o indicador. Ah, garota, suspirei.
 
_Oi... – ela despertou, ainda sonolenta.
_E aí, bonita... – cochichei de volta e sorri, ela afundou o rosto no travesseiro.
 
Sem a bebida e o véu da madrugada, todavia, algo agora me incomodava por dentro. O que diabos eu vou dizer para o Fer, senti o meu peito doer. Foi quando a tal da Laura nos interrompeu, entrando no quarto novamente para ver se a Mia já tinha levantado. Ela e a Michelle estavam com fome, disse. Empata-foda. Saí de lá, deixando as duas, e fui até o banheiro lavar o rosto – já emburrada. Sem esperanças de ter mais um segundo sozinha com a Mia. Me olhei no espelho, com o cabelo amassado e a raiz por fazer debaixo daquele descolorido tosco, e tive a certeza de que a ausência de horas dormidas naquela noite não poderia ser disfarçada. Estava estampada na minha cara, com duas olheiras enormes.
 
Deus. Quem come croissants de café-da-manhã?, me surpreendi, instantes depois, entrando na cozinha e encarando a cesta de pães em cima da mesa. Aquilo parecia cena de novela. Na verdade, a casa inteira da Mia parecia ter saído do horário nobre da Globo. Desviei o meu olhar dos pães e dos talheres bonitos e notei que, do outro lado da mesa, a Mia me olhava. O meu coração disparou na mesma hora. Me esforcei para conter um sorriso e não revelar às outras o nosso pequeno e fantástico delito daquela noite.
 
Após o café, descemos para parte de trás do pátio do prédio para fumar um e a Laura precisou ir embora. A tal da Gi disse que ia junto. Elas iam para o centro de São Paulo, passando quase do lado do meu apartamento, mas insisti que não precisava de carona. Mentira. Tudo o que eu queria era ficar mais um tempo com a Mia antes de ser jogada de volta à realidade. No final, restamos só nós e a outra amiga. Não via a hora de me livrar da Michelle, mas a garota parecia obstinada a não ir a lugar algum. Nossa ressaca estava insuportável. Expulsamos umas crianças do parquinho do prédio e ocupamos as balanças que ficavam no pátio. A Michelle sentou no chão para bolar um. O tempo todo, a Mia dava um jeito de me espiar e eu a olhava de volta, sem falar nada. Apenas sorríamos.
 
Mas a porra da amiga continuava lá.

fevereiro 16, 2010

Infalível?

Olhei no relógio da televisão e já eram mais de 2 da manhã. As garotas estavam deitadas ao redor de uma panela de brigadeiro feita dez minutos antes, num clichê que transparecia o outro lado das suas personalidades, fofocando sobre um cara que eu desconhecia. Uma delas saiu com ele por um tempo na faculdade. Tagarelavam todo tipo de baixaria e eu observava a conversa de cima do sofá, fumando perto da janela. Os meus olhos se direcionavam obsessivamente à Mia, pensando no que disse horas antes.
 
“Talvez”.
 
A possibilidade me consumia, numa fixação que ocupava cada segundo da minha presença naquele apartamento. Precisava descobrir o que diabos a Mia quis dizer com “talvez”. E precisava descobrir logo. A minha estratégia era infalível. Isso tem que dar certo, implorei mentalmente. Esperei que ficasse sozinha e casualmente puxei assunto, sem as suas amigas por perto. A Mia estava colocando a panela suja na pia e eu me aproximei, me apoiando na bancada.
 
_Sabe, eu tô com um problema...
_Eeeiiita – ela falou prolongadamente, bêbada, distraída com a torneira – O que é?
_Bom, como você sabe, o metrô já fechou...
_É.
_E também não tem ônibus...
_Não.
_E não tenho como voltar até a Paulista a pé, né...
_Ai! Quer que eu veja se alguma das meninas pode te dar carona?
 
Não, Mia. Obviamente que não.
 
_Na verdaaade... e-eu estava pensando se eu não podia... – ela levantou as sobrancelhas, finalmente percebendo as minhas intenções – ...sei lá, dormir aqui, talvez?
_“Talvez”?
 
A Mia riu.
 
_É. Talvez.
_Sei.
_E aí, que cê acha?
_Olha, você até pode, o problema... – ela me olhou, contendo um sorriso – ...é só que... – segurou suavemente na barra da minha camiseta – ...você não foi a primeira a pedir.
_Cê tá zoando – ri.
_Não. Eu e você... – continuou, puxando a minha camiseta de leve – ...vamos ter que dividir o quarto com a Laura... e a Gi... e a Mi também.
 
Merda. Não consegui esconder minha decepção. E a Mia se divertiu com a frustração que rapidamente tomou o meu rosto – é disso que cê gosta, né, desgraça?, pensei. De me ver sofrer. E não que eu me orgulhe das minhas intenções ali. Mas, inferno, precisava virar a porra da festa do pijama?

fevereiro 12, 2010

Catfight!

Ao final das lutas e de todas as bebidas que conseguimos achar naquele apartamento, nos encontrávamos numa brisa boa, caídas no tapete felpudo do quarto de televisão. O que eu não daria por um baseado agora. Todas as meninas estavam descalças e deitadas, olhando para o teto enquanto a gente conversava, à toa. Algo sobre quem sobreviveria mais tempo num apocalipse zumbi. Coisa da Mia. Foi quando uma das suas melhores amigas, a Michelle, sugeriu a si mesma como a resposta óbvia.
 
E deu-se início a uma gritaria.
 
“Você não consegue matar nem uma barata”, “não ia durar dois dias”, “cê sabe que não ia ter delivery, né?”, “cala a boca” – as acusações voaram. Todas bêbadas e discordando entre si. Eu só ria, ciente de que seria a primeira a arregar, a pular dum prédio, sei lá. Doar meu cérebro voluntariamente pra não ter que lidar com a ansiedade. Com o intuito de se provar, a Michelle começou uma briga desajeitada com uma outra garota. E as duas começaram a rolar pelo tapete, nos atropelando, numa demonstração gratuita de violência que nos obrigou a levantar e dispersar.
 
Me sentei mais adiante no chão, ao lado da Mia, apoiando as costas de novo contra o sofá. E ficamos observando a disputa, nos divertindo. Era meio de brincadeira, claro, mas elas se desequilibravam e acabavam deferindo golpes reais por acidente. Aí se xingavam de verdade.
 
_Hum – cutuquei a Mia, de olho na briga – A gente devia fazer isso qualquer dia, eu e você...
 
Ela começou a rir. Sem precisar de muito para que soasse como sacanagem.
 
_Tá achando interessante?
_Opa... – fiz graça, me afundando ainda mais contra o encosto – ...se soubesse que ia ter luta de verdade nem tinha me atrasado.
_Ah! Então, quer dizer que cê veio pelas minhas amigas? 
_Não – retruquei – Eu vim por você, Mia.
 
Ela sorriu, satisfeita. E eu quis cavar um buraco para enfiar a minha sinceridade alcoolizada, argh. A briga seguia à toda. A tal da Michelle conseguiu errar um chute e cair sozinha em cima do tapete – e do próprio braço. Ui. Que dor. Com o canto do olho, reparei que a Mia ainda me observava e virei o rosto na sua direção. Ela sorriu mais uma vez, eu perguntei o que era. Ela só balançou a cabeça, como se fosse besteira – “nada”. Hum. Nisso, a outra menina se enroscou com a Michelle no chão de novo, empurrando outra delas, a Laura, que resmungou e entrou no bolo – era mão e perna para todo lado.
 
_Hum. Talvez a gente... – a Mia comentou, baixinho – ...devesse mesmo fazer isso, dia desses.
_Oi? – olhei para ela, na hora.
_Você sabe... – mordeu a pontinha da língua, flertando de leve – ...eu e você, pra ver quem ganha.
_É? – sorri de volta.
_Depende. Cê é boa de luta?
_Olha, não sei... – fiz graça – ...mas, né, eu tento treinar sempre que posso.
_Ah, eu imagino... 
 
Imagina?
 
_Hum – arqueei a sobrancelha – Imagina como?
_Larga de ser tonta... – ela riu e me afastou dela, constrangida – Não desse jeito!
_Aham. Eu sou tonta, mas cê que tá aí querendo brincar de lutinha comigo... 
_Que absurdo! Foi você que começou!!
 
Me deu um tapa na barriga, revirando os olhos, e eu rachei o bico. Mais adiante, suas amigas finalmente começavam a desistir da disputa, se ajudando a ficar em pé. Os meus olhos voltaram de novo para a Mia.
 
_Se eu te chamar, um dia desses... – tomei coragem e perguntei – ...você vai?
_E-eu... – ela hesitou – ...n-não posso.
_E se eu te chamasse hoje?
 
A Mia me encarou por um instante.
 
_Talvez.