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abril 10, 2012

S.O.S. Sapatão

Dois dias depois, comecei a me perguntar se tinha feito merda.
 
A Clara não me respondia desde a minha ida-surpresa ao seu apartamento, o que agora me fazia cogitar se a minha declaração desajeitada a tinha assustado. Inferno, olhei para a tela do celular pela sexta ou sétima vez naquela manhã de domingo, sem qualquer resposta. Por que diabos eu fui até lá?, me frustrei, largando o celular ao meu lado.
 
Estava deitada no sofá da Thaís, onde passei a noite depois de alguns baseados e um filme terrível que assistimos na TV. Talvez ela só precise de um pouco de espaço, pensei, enquanto minha cara era lambida pelo Bruce. Nosso relacionamento era diferente de todos os que eu já tinha tido, sabia que a Clara gostava de certas liberdades tanto quanto eu. E eu amava aquele seu jeito desencanado, de quem sequer gosta de dar nome aos bois, zombando dos apaixonamentos alheios, enquanto a gente mesma não conseguia se largar. Nuns afetos que eram ao mesmo tempo livres e absolutamente compulsivos.
 
A gente se entendia. E isso, claro, tornava ainda mais difícil não receber qualquer notícia sua depois que eu fui até a casa dela só para dizer que “gostava mesmo” dela. Digo – isso e o peso na consciência que eu estava sentindo pela discussão com a Mia. Pelo que aconteceu no banheiro do apartamento. Argh. Quando meu celular finalmente apitou, para a minha decepção, era apenas o Gui. “C ta em casa?? preciso duma caminhao, urgente!”, dizia o SMS dele. Li e achei graça, já digitando de volta – “to umas quadras pra cima, fala ai”. Então veio a explicação: “queimou meu chuveiro kkkk”.
 
Fala sério.
 
“Ta me zoando q vc ñ sabe trocar resistencia, guilherme??”, comecei a rir. “q?? ñ me julgaaa! pfvrzin, vou ver o bofe.. preciso tomar banho!!”. “e ele ñ pode fazer pra vc? ja testa o chuveiro com ele dps... ;)”. “ñ confio em macho fazendo isso, QRO MINHA SAPATAO!!”. “rs daqui a pouco to ai!”. “c tem furadeira? Podia ja me ajudar a por a estante tb, neh?”. “ñ, mas to na casa da thais...”, digitei, enquanto levantava do sofá, “vou ver se ela tem”. Caminhei até o quarto da minha amiga, que dormia só de cueca preta e regata num colchão no chão, e bati na porta aberta.
 
_Bora levantar... – falei alto, a acordando – ...temos que resgatar um viado lá no Centro!

janeiro 21, 2012

Exílio

Se eu tinha uma certeza, depois de uma noite mal dormida e de um encontro indesejado com a Mia pela manhã – que me fez imediatamente dar meia volta na cozinha –, era de que eu não queria trombar com ela tão cedo. Pelos dias seguintes, então, me dividi entre a cama da Clara e o sofá da Thaís, devidamente compartilhado com o Bruce, voltando para casa de vez em nunca para pegar uma troca de roupa e fazendo valer a minha fama no trabalho. Que seja.

agosto 27, 2011

We mimic the openness

…of the ones we love.
(Björk)
 
O meu lance com a Thaís não era um lance. Tecnicamente a gente não tava ficando – apesar de vez ou outra acabarmos na cama, por pura falta de vergonha na cara algo melhor para fazer. A real é que a maioria das vezes que eu ia no seu apartamento era pra evitar a Mia no meu ou pra fumar um. Ficava à toa, rolando no chão com o Bruce e conversando, enquanto ela desenhava tatuagens para alguma cliente. Ela tagarelava sobre qualquer garota que estava afim e eu reclamava sobre a minha vida. A gente se entendia.
 
E sim, ocasionalmente, quando dava vontade, a gente se pegava também – até porque, né? Nunca vi dois grelos grudarem tão bem desse jeito, puta merda.
 
Naquele domingo, todavia, me atracar com a Thaís talvez não tenha sido a melhor das ideias. Estava um calor dos infernos. E se o ventilador já não estava dando conta de nós duas ali paradas – imagina quando resolvemos nos comer no meio da sala. Caralho. Sentia o suor escorrendo pelas minhas costas enquanto eu a fodia, passando das suas coxas para as minhas quando a gente as encaixava, pingando da sua testa no meu peito assim que ela subia em cima de mim, me comendo de volta, escorregando sob a minha mão na sua pele. Cacete. Eu soltava o ar pela boca, cozinhando de calor, esfregando o antebraço no rosto para me enxugar como dava, antes de a lamber perna adentro – a chupando até molhar a cara toda de novo. Sacanagem.
 
Gozamos até não sobrar mais fôlego nos nossos pulmões – e em cada músculo do nosso corpo –, aí largamos nossas pernas e braços sobre o chão por alguns minutos. Até conseguirmos juntar força para nos mover ou sequer falar qualquer coisa. Como pode essa desgraça foder tão bem assim? Senti meus músculos tremerem por dentro, sem saber ao certo se os tinha forçado por tempo demais ou se a culpa era dos orgasmos consecutivos. Deixava a minha mente afundar em si, ainda chapada, sentindo cada centímetro da sensação no meu corpo.
 
A Thaís se levantou e desligou a TV, acendendo a luz da sala. Foi até o banheiro. E eu me despertei daquele estado de relaxamento, virando para alcançar o maço sobre o sofá. Aí soltei o corpo de novo no chão, exausta. Acendi um cigarro e soprei a fumaça em direção ao teto. Ouvi a descarga e, pouco tempo depois, a porta do banheiro se abriu. Observei a Thaís caminhar até o som, colocando algo para tocar e vestindo a mesma camiseta de horas antes, enquanto eu tragava preguiçosamente. Assisti aquele pedaço de pano cobrir parte das suas tatuagens. Ela tinha uns braços fortes e o corpo grande, bem caminhoneira. Geralmente usava um boné para trás, mas naquele dia estava sem, com a franja curtinha jogada sobre a sobrancelha.  
 
Veio até onde eu estava e subiu em cima de mim, me olhando imprestavelmente. Mordeu meu pescoço, num beijo molhado. E eu achei graça, rindo da nossa falta de limite. Ela ergueu a cabeça e sorriu, perguntando do que eu estava rindo, já achando graça também. “Nada”, respondi. E ela se moveu lentamente para frente, na minha direção, me dando um beijo de desgraçar a cabeça. Achei que íamos mais uma vez. Mas aí largou o corpo ao meu lado, me roubando o cigarro por um instante.
 
_Essa música é animal, escuta – pediu, encarando o teto junto comigo.
 
Cantarolou duas ou três palavras. E eu prestei atenção no som, pegando o cigarro de volta e tragando mais uma vez.
 
_É Björk?
_É. Já tinha ouvido?
_Essa não – soltei a fumaça, aos poucos – Faz uma cota já que não ouço Björk, nossa. Ouvia muito antes.
_Hum, sei – ela riu, me zombando – Quer dizer que agora cê ouve “outras paradas”, então...
_Cala a boca... – a empurrei para o lado, rindo – ...não é, é só que... sei lá, me lembra alguém.
_Quem?
_Ah! Uma mina aí que eu saía, ano passado...
 
Me senti estranha por um instante, ao responder.
 
_Ixi. Quer que eu tire?
_Não – sorri – De boa.
 
Nisso, o Bruce, que até então estava capotado na cozinha, passou andando por nós – daquele seu jeito idoso e meio cego – e num equívoco, levantou a pata para mijar sobre um vaso de planta, onde estava escorado o celular da Thaís. Ops. Num só pulo, aos berros, assisti minha amiga levantar correndo. E comecei a gargalhar, enquanto o Bruce abanava o rabinho, sem entender porra nenhuma.

agosto 13, 2011

Baixa Augusta

Bati a porta do apartamento e caminhei até o elevador, sem olhar para trás, alcançando os fones no meu bolso. Procurei qualquer coisa para ouvir no meu iPod velho, que comprei do Gui. Bowie? L7? Arctic Monkeys? Isso. Antes que desse por mim, já estava na rua e o Alex Turner cantava nos meus ouvidos. Desci a Augusta quase inteira e o corre foi tranquilo. Pouco depois das quatro e meia e eu já me encontrava completamente desocupada.
 
Tá. E agora, o quê?
 
Não queria ficar andando pelos cantos com uma paranga no bolso, não é mesmo, mas também não fazia questão de voltar para o apê e ver a cara da Mia. Então mandei uma mensagem para a Thaís e colei lá. Salve, salve. A porta do seu apartamento estava destrancada quando cheguei. Assim que abri, fui recepcionada aos pulos pelo Bruce, que quase me derrubou no chão naquela animação vira-lata.
 
Minha amiga estava largada no piso, em frente ao sofá, tomando uma cerveja e assistindo “Pingu” na TV. Era até engraçado ver uma caminhão daquele tamanho, cheia das tatuagens, se entretendo com um pinguim de massinha que fica gritando “NÚT-NÚT”. Me juntei a ela no chão e nos atualizamos das últimas novidades – que, no meu caso, se resumia à audácia da Mia meia hora antes.
 
_Nem sei. Na boa, não sei mesmo... – comentei, depois de contar toda a história, deitando de costas no chão da sala enquanto a Thaís enrolava um do meu lado – Não entendo qual é a dela, meu...
_Ah, ela quer atenção... – a Thaís riu, lambendo a seda em seguida – ...é isso.
_É, né, agora que não tem mais...
_Foda, velho... Sem noção essa mina aí... – colocou o baseado entre os lábios e o acendeu, dando um trago – ...meu, vir com esses papinhos aí depois de te dar o maior fora?! Nem a pau. Num vem querer ser amiguinha, não!
 
Pois é. Dobrei um dos meus braços atrás da cabeça, apoiada no piso de madeira, e encarei a faixa de luz que o entardecer projetava da janela até o teto.
 
_Ei, e deixa eu te falar... – me chamou, passando o baseado – ...falei com aquela minha amiga lá, a Renata.
_Ah! E aí?!
_Ela disse que tá rolando ainda lá, passei seu número. Deve te ligar essa semana...
_Sério?! – sorri, empolgada, equilibrando o baseado na boca – Porra, que massa!
_É. Mas agora vê se num me faz passar vergonha, hein, meu, falei mil maravilhas de você, a Rê ficou animada pra caralho. Num me vai cagar na entrevista...
_Cala a boca, trouxa! – traguei demoradamente e ri – Claro que não, vou fazer certinho. Porra, valeu mesmo...
 
Fiquei feliz. Aquilo me dava novas perspectivas, não sei – fazia tempo que não me sentia assim. Uns dias antes a Thaís tinha comentado sobre uma amiga que trabalhava numa produtora quase só de minas na Brigadeiro e que estava com vaga para assistente de produção. Não era exatamente o que eu fazia, mas pagava bem mais – e né, eu já estava de saco cheio de ficar rodeada de fotógrafo escroto o dia todo, organizando álbum de casamento e fazendo corre de produção pruns shoot de formatura, credo. Tédio mortal.
 
Bati o baseado num cinzeiro no chão, com esperança de conseguir sair do estúdio. Já era fim de fevereiro e o ventilador do apartamento da Thaís movimentava o ar quente inutilmente, de um lado para outro. A cidade inteira parecia estar enfiada numa porra dum microondas. Cacete. A Thaís resmungou do calor, tirando a camiseta. Ficou só de cueca e passou a camiseta na testa e na nuca, secando o suor. Faltava uma semana pro Carnaval.
 
_Meu, e cê já decidiu se vai no rolê da Lê semana que vem?
_Se pá vou... – pegou o baseado de volta e tragou mais uma vez, apoiando a cabeça no sofá atrás de nós, com os peitos suados – ...preciso ver se a grana vai dar, janeiro foi fraco. Ninguém tatua no começo do ano, meu.
_Velho, não, cê tem que ir. Sério! – implorei – Cê não pode me largar sozinha com a Marina e a porra da Bia num carro por sei lá quantas horas, mano. Puta morte lenta e horrível.
 
A Thaís soltou a fumaça no ar e riu, achando graça do meu drama.
 
Vai rindo, vai, desgraça.

julho 23, 2010

Marasmo

Ergui os braços sobre a cabeça, me espreguiçando, e em seguida os soltei sobre o colchão – cada músculo do meu corpo estava exausto. E relaxado. Podia facilmente dormir por algumas horas. Virei o rosto e observei a Thaís, que se esticava para fora da cama como se procurasse algo no chão. Então voltou com um dichavador e um pacote de seda na mão. E imediatamente repensei o meu desejo para aquele fim de sábado – fumar um, cochilar e aí comer uma pizza quando acordar, é, é isso.
 
Alheia aos meus planos, sentada mais acima no colchão, a Thaís desfazia a ponta que acendemos juntas em frente ao boteco umas horas antes. Misturou o resto com um pouco mais de erva no dichavador, depois fechou e começou a girar. Suas mãos eram inteiras tatuadas – uma mariposa old school na direita e um pardal na esquerda, além duns desenhos menores rabiscados nos dedos. Tinha os dois braços fechados, as costas, a lateral do pescoço e parte das pernas, onde os traços se misturavam com seus pelos. Caralho – a admirei, imersa no momento. Nunca a tinha visto assim. Então virei o corpo na sua direção, deslizando os dedos instintivamente pelos seus pelos, enquanto ela dichavava, a lambendo perna acima. Bem lentamente. Subindo pelo seu joelho, sua coxa, sentindo a sua pele arrepiar contra a minha língua. 
 
_Meu... – ela riu – ...acho que preciso dar um tempo, cara. 
 
Argh. Joguei o corpo de volta no colchão e revirei os olhos para ela, rindo.
 
_Arregona.
_Velho, sou nada, cê que é muito intensa... – resmungou – Sossega aí.
 
A Thaís balançou a cabeça, achando graça, enquanto abria o dichavador e virava toda a maconha numa seda. Bolou habilidosamente entre os dedos e lambeu a beirada, apertando o baseado. Então o acendeu.
 
_Mano... – comentei, observando ela tragar – ...cê não sente que a melhor parte do sexo é quando cê num aguenta mais e mesmo assim continua?
_Hum – soltou a fumaça e sorriu, me passando o baseado – Pode ser.
_Sabe quando cê pensa “num dá mais” e aí dá?
_Sei – ela riu, enquanto eu dava um pega – Mas eu ainda preciso dar uns 10...
 
Passou a mão no cabelo curtinho e a esticou em seguida, para pegar o baseado de volta. Notei o seu olhar percorrer o meu corpo discretamente. E então sorriu, balançando mais uma vez a cabeça.
 
_Velho, isso é muito doido...
_O quê? – perguntei, soltando a fumaça para cima.
_Isso. Eu e você, aqui.
_Né?
_Se alguém me perguntasse hoje de manhã como ia ser minha tarde... – achou graça – ...eu nunca ia ter adivinhado.
_Pois é... – me espreguicei mais uma vez – Mas, por outro lado, sei lá, eu meio que sempre soube que ia acontecer um dia. Cê não?
_Pode crer.
_Rolava uma curiosidade.
_Mano, muito fogo no rabo. Eu e você – ela riu – Era só questão de tempo...
 
Nos olhamos por um instante e a Thaís me empurrou de leve, fazendo graça. Me sentia bem de poder falar com ela sobre o nosso pequeno delito. Sentei na beirada da cama e alcancei meu maço no bolso da calça, que estava amassada num canto do colchão. Coloquei um dos cigarros na boca e olhei para a janela – o apartamento dela ficava no terceiro andar dum predinho baixo da Peixoto Gomide.
 
Me levantei e senti o olhar da Thaís me acompanhar pelo quarto. Abri o vidro, me apoiando no parapeito sem uma roupa sequer no corpo, enquanto os sons de São Paulo invadiam o cômodo. A juventude porralouca paulistana já começava a lotar a rua – e qualquer um que olhasse para cima da calçada facilmente veria os meus peitos ali. Mas que se dane. Acendi o cigarro e pus-me a observar o movimento naquele começo de noite gelado. Passei a mão no meu cabelo bagunçado, tirando-o da cara meio de qualquer jeito. E senti o vento arrepiar toda a minha pele.
 
De repente, ao fundo, ouvi a Thaís murmurar algo.
 
_Cê falou alguma coisa? – apoiei as costas contra a janela, me virando para dentro por um instante.
_Falei... – ela riu – ...eu perguntei... – repetiu, colocando o braço atrás da cabeça – ...quando que cê vai me deixar tatuar essa sua pele aí.
 
Com os seus olhos em mim, o comentário soava mais como um xaveco. E me fez sorrir.
 
_Olha, quando cê quiser, eu também topo...
_É? – ela sorriu de volta, como se falássemos de outra coisa – Tá faltando uns rabiscos meus aí.
_Tá. Tá sobrando muito espaço... – eu ri.
_Meu... Eu não ia dizer nada, mas tá mesmo, velho – mudou o tom, me zombando – Tá vergonhoso isso aí. Porra! Já num basta o vexame que cê é na sinuca, nem para compensar em tatuagem...
_Ah! Vai se foder, mano!
_Quê?!
_Num ouvi ninguém reclamando uma hora atrás.
 
Arqueei as sobrancelhas e a Thaís deu de ombros, debochada, como se tivesse razão. Revirei os olhos e me virei outra vez para fumar na janela, achando graça, apoiando o corpo contra o parapeito. O barulho do lado de fora intensificava junto com a aglomeração que se formava na Peixoto. E assim que coloquei o cigarro na boca, em meio às buzinas e gritos bêbados da rua, tive a impressão de escutar algo também do lado de dentro.
 
_O quê? – encarei o quarto mais uma vez, para ouvir direito.
_Que foi?
_Achei que cê tinha falado alguma coisa...
_Não – ela riu – É o Bruce que tá fazendo escândalo na porta.
 
O Bruce era um vira-lata misturado com boxer, já velho e meio cego, que a Thaís tinha adotado um ou dois anos antes. Era o amor da vida dela e o cachorro mais boa praça de toda Baixo Augusta. E que agora arranhava o vão da porta do quarto, choramingando, como se a sua vida dependesse de um passeio para mijar nos postes da vizinhança. Traguei mais uma vez, soltando a fumaça rapidamente para o lado de fora, e caminhei até a beirada da cama.
 
_Vamos dar um rolê com ele – falei, esticando a mão e oferecendo o cigarro para a Thaís.
_Agora?
_É – peguei a cueca no chão e vesti, rindo – A gente desce rapidinho.
_Bora então.