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janeiro 14, 2013

Mono

_Aguenta aí, velho... – o Fer pediu, se curvando sobre um canteiro – ...vou gorfar.
 
E não demorou dois segundos para que vomitasse ruidosamente. Bem em frente ao prédio. Comecei a rir dos seus modos e o porteiro nos encarou como se o nosso legado ali fosse o pior de todos os moradores. Não sei nem como aconteceu, mas em algum momento perdemos a noção das horas e da quantidade de garrafas de cerveja. Ao ponto que nossas vitórias deixaram de sequer ser computadas. Seguimos jogando até ficar de noite e o bar ser invadido pelo movimento caótico de sábado na Augusta.
 
E foi aí que a minha carteira se esvaziou desenfreadamente.
 
Uma garrafa levou à outra e todo o dinheiro se foi. Os nossos cigarros também – primeiro o meu maço, depois o dele. E então decidimos ir para outro boteco, mais abaixo na Augusta, largando nossas companhias de mesa para comprar maços novos. Chegando lá, onde a princípio nem íamos “ficar muito”, decidimos mudar de cerveja para rum. O que é sempre um mau sinal quando se trata de mim e do Fernando.
 
Estávamos enchendo a cara desde as duas da tarde. E , o problema de beber por horas espaçadas assim é que ficamos com aquela impressão de que estamos distribuindo o álcool com certa moderação. Mas é claro que a gente não estava. Eu menos ainda, numa ressaca acumulada da noite anterior. Algumas doses depois, sem saber bem quantas, voltamos cambaleando para o apê. Escorados um no outro, numa demonstração bêbada de afeto. Como eu te amo, moleque – pensei, trançando as pernas Frei Caneca acima. E o Fer segurou meu braço, enquanto vomitava no jardim de frente do nosso prédio.
 
É. Muita classe.
 
Subimos e ele capotou de qualquer jeito no sofá. Segui até o meu quarto no maior silêncio que conseguia. E descoordenadamente tirei minhas calças, me livrando daquele jeans todo. Entre tropeços, fui até o banheiro com uma camiseta velha e o celular em mãos. E só quando larguei tudo na pia é que notei mais uma mensagem da Mia. Não tinha checado o telefone desde que a respondi dizendo que não podia. “Hum, q pena...”, mandou de volta, inconclusiva, horas antes. Sorri e tirei a blusa, depois a boxer, num lapso de consciência, sem nem perceber direito o que estava fazendo. Aí me meti no chuveiro para curar a embriaguez. Sem muito sucesso.
 
Conforme a água descia pela minha nuca, deslizando pelo meu cabelo e as minhas costas molhadas, todavia, a minha cabeça foi tomada pela Mia. Meio bêbada, irracional. A imaginando naquela noite – esperando a minha resposta, a forma como movia os lábios ao me escrever. Sentada sobre a sua cama, no seu quarto. Ou na sala? No balcão da cozinha. Da sua, da minha. Tinha ambas as minhas mãos na parede, inclinada sob o chuveiro, com uma saudade imensa dela no meu corpo. Assim, de repente. Por que diabos não fui?, me arrependi, já fechando a torneira. Desliguei a água e saí do box, ainda consideravelmente bêbada. E peguei o celular antes mesmo de me enxugar, a respondendo – “qpena pq?”.
 
Me sequei de qualquer jeito com a toalha e vesti a camiseta velha, chutando minhas roupas sujas para debaixo da pia. Com certa dificuldade em me mover com precisão. Voltei para o quarto tateando no breu e me esparramei na cama, num conforto de deitar ali, sem roupa nenhuma me apertando. Nisso, o meu celular se acendeu na mesa de cabeceira. Ela tá acordada, pensei na mesma hora. E estiquei a mão, alcançando o telefone – o seu nome estava lá.
 
“Ta bebada? Kk ;)”. Podia senti-la sorrir em todas as ramificações nervosas da minha pele, nos meus pelos. Como uma brisa. Sentada em seu quarto em Higienópolis, enquanto eu encarava a tela deitada no meu. No escuro, sentindo sua falta do meu lado. “Ñ inteerssa”, respondi, numa dislexia alcóolica. “Ta, sim kkkk” – o meu celular vibrou novamente. Ri ao ler e digitei de volta – “oq cv t áa fzendo ai?”. Acomodei as costas num travesseiro meio atravessado, erguido contra a cabeceira da cama. Fala que tá pensando em mim, garota.
 
Mas a resposta não veio de imediato.
 
O silêncio no apartamento tornava os arredores ainda mais lentos. E eu observava fixamente o celular nas minhas mãos. Até que a tela se acendeu – “eu? nada, nada, so imaginando...”, disse. E imaginando o quê?, li, conforme a minha mente disparava. Eu, ah, eu, sim, pensava nela. Nas formas como a sua cintura se encaixava nos meus dedos, sabe? O jeito como sua barriga se dobrava sobre mim, imaginando-a de todas as formas mais magníficas, e sujas. Imaginava – seu contorcer, o seu gosto. Cacete. Numa vontade desgraçada de que viesse dormir comigo naquela noite. E me torturava sem conseguir parar de pensar na sua boca, no seu cheiro, no seu jeito. Inebriada pelo álcool e um tanto confusa nas sensações, misturando a realidade com as memórias dela. Os seus movimentos, os lençóis bagunçados. O som dela respirando no meu pescoço, subindo no meu ouvido, o som de quando ia perdendo o fôlego, se descontrolando, puta merda. Os sons de quando gozava na minha boca. Nos meus dedos, nas minhas pernas. Quase podia sentir a tensão das suas coxas contra as minhas. Me arranhando as costas, me mordendo inteira. Os meus pensamentos começaram a se sobrepor. Os toques, seus beijos na minha mão antes de dormir, num carinho quase adormecido, a sonolência, esse estar juntas, os recomeços lentos, os orgasmos, nossas manhãs no apartamento, cigarros divididos e baseados bolados, os seus olhos vermelhos, pequenininhos quando ela ria, chapadas a tarde inteira, à toa, numas conversas gostosas, numas não-conversas também, as nossas línguas uma na outra, suas pernas sobre a pia da cozinha e o seu olhar quando a Marina veio – “as melhores”, ela repetia na minha mente, arqueando as sobrancelhas para mim. E aí vinha o piso frio contra nossos corpos, o seu apartamento e as luzes da Sarajevo, o frio na calçada da Augusta, ao seu lado; o calor e os meus dedos dentro dela, meus lábios nos seus – a umidade, o sal que eu lambia da sua pele, nosso suor se misturando, nuns movimentos lentos, molhados. A minha pulsação começou a aumentar, já me contorcendo naquela porra daquela cama. Imaginando-a, perdendo a cabeça, me pedindo para que fosse mais forte. Nos fodendo, a comendo contra o sofá. Contra a parede, contra o seu colchão. À exaustão, vez atrás de outra. Sem conseguir nos largar, desgraça. E imaginava a sua mão onde estava a minha, naquele quarto escuro, entre as minhas coxas.
 
Como se eu tivesse levado tempo demais para responder, chegou mais uma mensagem da Mia. Tirei a mão do meio das minhas pernas e a abri, já sem fôlego – “...oq vc podia ta fazendo cmg, se tivesse aqui”. Ah, pra puta que pariu! Quis morder o travesseiro com suas reticências, agora completas, subindo pelas paredes de vontade dela. A sentia em mim, fisicamente, e me retorcia com o respirar quente dela entre as minhas pernas, afundando em cada uma das sensações irreais que me sucediam. E demorava-me, solta na cama, extasiada e bêbada; com a porta do quarto fechada. Em todo o meu corpo, o sangue parecia correr bruto. Peguei o celular de novo, num impulso, e disquei o seu número, os meus dedos ininterruptos até ouvir a Mia atender, do outro lado da linha, pouco me fodendo para o quão baixo era aquilo.
 
_M-me conta... – me adiantei, ofegante, prestes a explodir com o mero som da sua voz – ...me conta, porra... o que eu podia tá fazendo.

janeiro 10, 2013

Deslizes

Saí na calçada da Augusta, acendendo um dos últimos cigarros do meu maço. Conforme soltei a fumaça pro lado, checando o celular, me dei conta de uma mensagem da Mia que não tinha visto – “vai ta sozinha hj?”. O ar na rua estava abafado. Dei mais um trago e digitei de volta, “ñ, desci com o fer pra augusta.. acho q vms pro apto dps”. Aí pausei por um instante, com os olhos na mensagem, apoiada contra a parede imunda do lado de fora do boteco.
 
Me sentia estranha falando com a Mia depois da madrugada com a Clara. Entre isso e o fato de que o Fer provavelmente ia dormir em casa, recusar devia ter sido fácil – mas não foi. Nunca era. Não aprendera a lidar com o interesse da Mia. E a verdade é que eu gostava, gostava de cada palavra sua que encontrava caminho até a minha caixa de entrada, me convidando para ficar com ela, aparecendo de surpresa na porta do meu trabalho, me beijando entre um pega e outro dum baseado, descendo dum táxi às duas da manhã em frente ao prédio, num vai-dar-merda impagável. Podia me enganar o quanto quisesse, e não só a mim, mas bastava seu nome aparecer na tela que meu coração acelerava.
 
Argh
 
Enviei a mensagem. Dane-se. A real é que não tinha como encontrá-la, pelo menos não naquela noite. E a última coisa que me passava pela cabeça era dispensar o Fer para ir ficar com a sua namorada – ainda que o canalha do meu amigo estivesse levantando do seu banco para ir dar uma volta com a nossa companheira de mesa em um canto do bar. Fora do meu campo de minha visão, isto é. Cê nunca superou, hein, dei mais um trago, achando certa graça na cena, a bronca que tomou quando te peguei com a Júlia em casa.
 
Me divertia a discrição do Fer de quem come quieto, observando de longe, de fora do bar. E não me importava se ele dava uns beijos em qualquer garota, de tempos em tempos. Ainda mais agora, depois de tanto tempo e águas passadas, quem era eu para achar ruim? Não conseguia sequer dar conta ou entender a complexidade dos meus relacionamentos, dos meus sentimentos, que dirá os dos outros. Mas me divertia.
 
Soltei a fumaça para baixo, num último trago, e apaguei o cigarro na parede do bar. Aí entrei de novo. As mesas de sinuca ficavam ao fundo, numa espécie de porãozinho aberto a uns 5 degraus do piso de entrada. Desci as escadas e peguei meu copo, que já estava formando uma poça na lateral da mesa. E fiquei trocando ideia com o tal do Max – enquanto o Fernando beijava a amiga dele contra a parede, segurando a lateral do pescoço dela com as mãos tatuadas, no corredor escuro que ia pros banheiros.
 
Dei uma olhada e virei de costas para eles, começando outra partida com o cara. Fingindo que não tinha visto.
 
_Vamos lá, mais uma...

janeiro 08, 2013

Os ratos de boteco

_Ô, arrasa-coração! – cantei no ouvido do Fer, o zombando.
 
Ele riu do comentário e me contrariou com a cabeça, antes de eu encaçapar a próxima ímpar. Só mais três na mesa contra seis pares. Nem cinco da tarde no relógio. Me debrucei sobre a beirada da mesa de sinuca, escada abaixo num boteco da Augusta. Nem uma hora antes, fizemos amizade com um viado barbudo e sua amiga hétero – estavam esperando ao lado da nossa mesa para revezar partidas e, em algum momento, os convidamos para se juntar a nós.
 
Agora, tinham ido buscar mais cerveja no bar. Nós ficamos.
 
_Nada a ver, mano – o Fer cruzou os braços, achando graça nos meus comentários, e se curvou para checar as pernas da garota escada acima na fila.
_Meu, vai por mim...
_Nem.
_Escuta o que eu tô te dizendo, cara... – o alertei e ele se divertiu, me ouvindo falar, depois de uns bons copos de cerveja – ...essa aí tá querendo.
_Não tá, meu.
_Tá bom, então. Fica vendo...
 
Dei de ombros, com o taco ainda em mãos e me afastei da mesa. Ele sabia. Deu mais uma olhada nas pernas da garota escada acima. Usava uns shorts curtos e uma dessas rasteirinhas, como se tivesse na praia; tinha os dois braços fechados de tatuagem old school. Ela e o amigo já perdiam pela segunda vez para nós, naquele clima bom de sábado à tarde na Augusta, tagarelando sem parar e se enchendo de cerveja com a gente.
 
_Uai. Cadê?! – o boy se espantou ao voltar do balcão, com mais uma garrafa na mão – Cês acertaram mais uma?
_Três a seis – o Fer respondeu.
_Ahm. Mas, assim... – a menina chegou logo atrás, fazendo graça e encarando o meu amigo – Três mesmo ou cês encaçaparam uma com a mão aí, enquanto a gente tava fora?
_Três, porra! – ele riu – Vou mentir?
_Hum, sei não, acho melhor a gente mudar essas duplas aí. Num confio em vocês dois juntos...
_Ah, é? E vamos mudar pra o quê?
_Eu e você... – ela piscou pro Fer, na maior cara de pau – ...contra eles.
_Não. Não ia dar certo isso aí, não...
 
O Fer ficou sem jeito. E se virou para a mesa, matando mais duas logo em seguida. O outro cara se revoltou, resmungando um “cês tão de brincadeira” sonoro e largando o taco de lado, como se desistisse. Eu ria do outro lado da mesa. O Fer sentou numa cadeira de boteco, com as pernas abertas. E a mina se aproximou, se metendo entre os joelhos dele, esbarrando as coxas no seu jeans enquanto conversavam. Virei mais da cerveja gelada no meu copo, observando ela dar em cima do meu amigo.
 
_Vai... – tentava o convencer – ...vamos jogar uma eu e você, pô.
_Não... – ele riu, abaixando a cabeça, meio deixando ela fazer graça pra cima dele – Se quer mudar as duplas, vai ser minas contra caras. Melhor.
_Hum. Mas não quero jogar com a sua amiga...
_Epa. Alguma coisa contra? – fingi estar ofendida, me intrometendo de longe – Homofobia isso aí, hein?
_Nossa, até você?! – a garota me olhou, assustada – Caralho, meu, não existe mais hétero na Augusta!
_Na Augusta?! – o Fer deu um gole na cerveja, se divertindo – Mano, nunca existiu...
_Vamos dominar o mundo... – ameacei.
_Vixi. Tô vendo que vai sobrar pra gente, hein, repovoar a Terra... – ela brincou, cutucando o Fernando, e ele ficou imediatamente sem graça, erguendo os olhos na minha direção atrás de ajuda, enquanto eu me divertia.
 
Vai, eu ri, quem é que tava certa agora.
 
_Não, meu – ele esfregou a nuca, sentindo apertar toda a corda que deu – Acho que a minha namorada não ia gostar, não.
 
Tinha lá o seu charme cafajeste, o Fer. Com aqueles ares de cachorro dele – de quem tá negando, mas não muito. A garota se abaixou e cochichou algo em seu ouvido, colocando uma das mãos sobre a sua perna. E o Fernando ouviu, quieto, como quem não tem nada a perder, mas logo balançou a cabeça para ela e sorriu, declinando. Não escutei o que era. E nem me importava àquela altura, cogitando ir até o lado de fora para fumar.

julho 28, 2010

#FAIL

Duas derrotas depois e eu perdi o ânimo de jogar. Sapatão de merda. E aí desandou – o excesso de bebida e a falta recorrente de dinheiro começaram a ter o efeito contrário em mim. Droga. Toda distração momentânea daquele rolê escapava por entre meus dedos, o barulho no bar parecia aumentar com as horas, as cervejas não paravam mais de vir e a minha cabeça já rodava de um jeito desagradável. E o que é pior, o meu coração começava a ficar sóbrio.
 
Me larguei sentada numa cadeira qualquer, mergulhada nuns pensamentos errados. E então, fiz o que não deveria – peguei o celular na mão e o segurei ali. Como se fosse tocar a qualquer momento, numa insistência bêbada e burra. Inconscientemente desejando que a mensagem daquela tarde não fosse a última. Que ela mudaria de ideia e me escreveria, que me salvaria de mim mesma. A Mia. Ah, a Mia. Eu nunca deveria ter me esforçado tanto para não pensar nela. Não por tanto tempo. O tiro começava agora a sair pela culatra e a desgraçada voltava violentamente para o meu peito. Como se nunca o tivesse deixado.
 
E de fato, não tinha.
 
Inferno. Me ajeitei contra o encosto, desconfortável. Então larguei o celular na mesa à minha frente e meti as mãos nos bolsos da calça, me afundando naquela cadeira de plástico. Encarava o telefone fixamente, sentindo a cerveja se misturar com a lembrança ainda viva de duas noites antes, dos nossos beijos e de como eu a amava, como a queria, e não a tinha, embriagando os meus sentimentos mais amargos. E o resultado é que eu tive que sair dali. Não podia mais ficar. Não assim – emburrada e calada em um canto, contemplando obsessivamente a ausência da Mia no meu telefone na minha vida. Não. Insisti até não dar mesmo para aguentar, aí inventei qualquer desculpa para a minha amiga – que a esta altura já estava pegando a caminhão do chinelo – e me coloquei a caminho de casa.
 
Como deixei chegar a esse ponto, porra, pensei, enquanto acendia um cigarro, irritada. Me revoltava a saudade que eu sentia de estar com ela, a solidão que me tomava de repente, conforme soltava a fumaça no ar e atravessava a rua em direção à Frei Caneca. Droga. Então tentava me lembrar do que a Marina costumava dizer, que “ninguém sabe o que tá fazendo, todo mundo tá na mesma merda”, mas aquilo não me fazia sentir melhor.
 
Passei em frente à banca próxima ao meu prédio e, em poucos minutos, já estava de volta em casa – de onde eu sequer deveria ter saído. Atravessei pela sala, pelo corredor e entrei no quarto. E não, não havia ninguém ali. De novo. Sábado à noite, concluí a contragosto. Eu já havia aprendido a lógica, mas parte de mim não queria se lembrar. Deixei a carteira e o maço em cima da cama e fui para o banheiro, numa tentativa de esfriar os ânimos.
 
Eu não devia ter falado nada, me arrependia, enquanto arrancava a camiseta do corpo e a largava no chão, não devia ter mandado porra de mensagem nenhuma. Argh. Me sentia uma idiota. Uma porra duma idiota. Como se tivesse me exposto à toa, dizendo que queria vê-la, o quanto tinha gostado, perguntando se estava com ele, quando o seu silêncio na sexta e naquela manhã já tinha sido claro o suficiente. Por que eu não fiquei quieta? Pelo menos eu ia me poupar de... Argh. Tirei o celular do bolso da calça e o abri, num impulso, olhando para a mensagem da Mia mais uma vez. Caralho. E se ela se arrependeu?
 
Não. Coloquei o telefone de lado. Chega. Eu não posso entrar nessas. Tirei a calça e entrei no chuveiro frio, determinada a não remoer mais os meus sentimentos. E por uns minutos, deixei a água escorrer na minha nuca para amenizar a dor de cabeça e aquele peso nos meus ombros. Saí do banho me sentindo melhor e desliguei o telefone, indo para o quarto me trocar. De camiseta-de-ficar-em-casa dos Stooges e banho tomado, por fim, tentei me forçar a dormir para acabar logo com aquele dia de merda.
 
Uma hora, tem que passar.

julho 26, 2010

Pequena trégua

“Rapidinho”. Eram nove e meia e nós continuávamos enfurnadas no mesmo snooker bar sujo de horas antes, cercadas de outras sapatas e umas sapateens com idade suficiente para estarem no ensino fundamental – e que provavelmente se sentiam mais em casa ali, no meio das caminhoneiras, do que frente aos olhares de julgamento dos seus pais. Eu amava aquela imundice dyke paulistana, os tão estimados botecos de sinuca da Augusta. De certa forma porque, em algum momento, anos e anos antes de sair do armário, aquele também tinha sido o meu “lar” fora de casa.
 
Como um verdadeiro rei em meio às sapatonas, o Bruce tinha se acomodado debaixo de uma das mesas e ia ganhando sobras de comida a cada 5 minutos. Cada vez de uma mão diferente, em segredo, enquanto ele abanava o rabo. O meu dinheiro já tinha acabado completamente. Àquela altura, eu sobrevivia no rolê por benfeitoria, às custas das cervejas e aperitivos alheios – mas, para dizer bem a verdade, ninguém mais sabia quem tinha comprado o quê. Tudo era socializado.
 
Depois de cinco ou seis rodadas de cerveja, me encontrava levemente bêbada entre umas amigas da Thaís que trombamos ao acaso ali, em meio às garrafas e cinzeiros e tacos, bebendo e falando mais do que deveria. Fiz amizade com uma delas, que me humilhava na sinuca pela segunda vez no dia, depois do fiasco daquela tarde, e acabei perdendo quatro das cinco vezes que jogamos. O meu orgulho já estava no chão. Reuni o pouco que restava e fui atrás da Thaís para pedir patrocínio. Na maior cara de pau. Afinal, quem perdia providenciava também a ficha para o jogo seguinte.
 
Minha amiga estava sentada numa das mesas de trás, ao lado do Bruce e a poucos metros de mim, flertando com uma caminhão dessas de chinelo, camisa aberta e regata por baixo. Um clássico. Tive a impressão de que já a tinha visto algumas vezes ali pela Frei Caneca. E quando me aproximei, a Thaís começou a rir, me olhando como se pudesse prever o motivo da minha visita àquelas bandas.
 
_O que cê quer agora? – ela achou graça e eu coloquei os braços ao seu redor, prestes a implorar – Hein, desgraça?!
_Pô, vê mais uma ficha para mim...
_Cê não tem vergonha na cara mesmo, não é, não? – ela se divertia comigo – VELHO, CÊ TÁ PERDENDO UMA ATRÁS DA OUTRA!
_AH, MEU! OLHA QUEM VOCÊ ME APRESENTA, MANO! ESSA CRETINA PARECE PROFISSIONAL, NUM ERRA UMA, PORRA! – resmunguei, bêbada – Vai. Por favor... Por favorzinho! Eu preciso ganhar minha dignidade de volta, cara.
_Tá, tá... – ela riu e tirou alguns trocados do bolso – ...mas vê se ganha uma pelo menos, caralho!
 
Agora vai.

julho 20, 2010

Botequinho

Sentei naquele snooker bar sujo, contando os poucos trocados que eu tinha no bolso. R$ 2,47. Isso só me garantia 4 fichas – talvez 5, se eu chorasse um pouco para o cara do caixa. Enfiei as moedas de volta no bolso da calça. E logo em seguida, avistei a minha amiga atravessando a rua. Numa regata branca e jeans largos, o boné virado para trás – puta merda, tava gata.
 
A Thaís era a única tatuadora num estúdio cheio de macho em Pinheiros. Era uma dessas butch gordas com uns braços fortes e um sorriso que te desgraçam a cabeça. Para piorar, recentemente ela tinha tatuado a lateral do pescoço. Cacete. Entrou no bar com aquela cara de quem tinha caído do sofá dez minutos antes. Parou no balcão antes de me cumprimentar e pediu uma garrafa de Brahma gelada, que o cara entregou para ela junto com dois copos americanos. Então veio até onde eu estava sentada.
 
_E aí, sapatão!
_E aí... – a Thaís sorriu, colocando a cerveja na mesa e puxando uma cadeira.
_Te acordei, meu?
_Não, tranquilo... Precisava sair daquele sofá, foi bom que cê ligou.
_Porra, saudade, faz tempo que a gente num se vê. Acho que desde a festa, não?
_Nossa... – arregalou os olhos e começou a rir, passando a mão na cara – Que que foi aquela sua festa, mano. Não sei nem como cheguei em casa naquele dia...
_Hum. Eu sei bem como cê chegou em casa... – pisquei na sua direção, a provocando.
_Cala a boca.
_Quê? – eu ri – Eu lembro.
_Fica quieta que cê tava caída do lado do sofá com a porra da Aninha em cima de você, velho. Cê não viu merda nenhuma!
_Ah, então não era você saindo pela porta com a sua ex do lado?!
_Filha da puta...
 
Ela riu, balançando a cabeça, e se esticou para frente para colocar cerveja nos nossos copos.
 
_Vem. Vamos beber, vai!
 
Brindamos e tomei um gole, achando graça na cara de pau da minha amiga. Ela ria também e me contava os desdobramentos daquela noite. Assim que terminamos o primeiro copo, levantei para comprar as fichas no bar. O boteco era um clássico trash paulistano – com uma estufa de salgados de origem duvidosa, um banheiro imundo com porta sanfonada e uma estátua de São Jorge empoeirada ao lado dumas laranjas e uns conhaques na prateleira atrás do balcão. Me sentia em casa. Peguei quatro fichas e ocupamos uma das mesas de sinuca, apoiando os nossos copos na beirada. 
 
Jogar contra a Thaís era má ideia. Toda santa vez. Não gostava nem de pensar na quantidade de dinheiro que eu já tinha perdido para ela ao longo dos anos, apostando cerveja atrás de cerveja em mesas exatamente como aquela. Não que eu fosse ruim, isto é, eu até que me garantia contra os bêbados da Augusta – mas não uma sapatão de respeito daquelas. E ela fazia questão de me provocar a toda maldita jogada que eu errava. É. Para depois ir lá e encaçapar três seguidas como se nada fosse.
 
Inferno.
 
Numa dessas, a bola branca aterrizou a poucos centímetros de uma das minhas. Praticamente na reta da caçapa. Tomei um gole da minha cerveja e coloquei o copo para o lado, me inclinando sobre a mesa. Era para ser fácil. Mas a Thaís ficou parada ali, me assistindo mirar, com os braços cruzados naquela regata e – cacete. Ergui o olhar na sua direção por um segundo e ela sorriu para mim. Como se por um breve instante soubéssemos o que se passava na cabeça uma da outra. E quando voltei a minha atenção para a bola, agora já levemente desconcertada, acertei o taco muito para a esquerda. Maldição. A branca pegou de raspão na outra bola, que bateu na quina da porra da caçapa e eu errei feio.
 
_PUTA MERDA! – a Thaís gritou e começou a rir – Que vergonha! Que vergonha pra nossa classe, mano...
_Cala a boca!
_Velho, na boa, cê tem sorte de ser gata assim, porque cê joga mal pra caralho...
_Ah, vai se foder!!
_COMO CÊ ERRA UMA BOLA DESSAS??
_PEGOU ERRADO NA BRANCA, CARALHO, IA ENTRAR!
_Ia... – ela zombou, rindo da minha cara – ...ia, sim. Tá bom.
_Cala a boca, mano! – eu ri também e a empurrei pro lado, a Thaís se divertia – Babaca.
_Sério. Como cê consegue se chamar de sapatão?
_Fácil. Porque... – fiz graça – ...o que importa, eu faço direito.
 
Ela arqueou as sobrancelhas como se dissesse “é?” e balançou a cabeça, rindo. Era gostoso flertar com a Thaís. Em algum lugar, nós nos entendíamos – testando os limites quando nos dava na telha e falando merda, sem nenhuma pretensão de necessariamente fazer algo a respeito. Encostei contra a parede. E ela me olhou ali, tomando mais um gole da cerveja, antes de se virar para me humilhar jogar.
 
De repente, existia uma tensão entre nós.
 
Foi como se aquele breve momento desencadeasse segundas intenções em tudo o que dizíamos. Ou fazíamos. Nos esbarrando entre as jogadas, esvaziando os copos, enchendo-os de novo e sorrindo, encarando uma à outra, sem dizer muito de fato. Havia certa arrogância na forma como a Thaís sabia que eu não conseguia tirar os olhos dela. Dobrando aquele braço forte, tatuado, para trás e deslizando o taco entre os dedos da outra mão – e olha, eu gostava.
 
Quando matamos a segunda garrafa de Brahma, saímos na calçada para fumar. A Thaís puxou o maço do bolso de trás da calça e pegou um cigarro, colocando-o atrás da orelha. Logo abaixo do boné, com um sorriso no canto da boca, como se fizesse charme. Depois resgatou uma ponta no fundo do maço, acendendo-a com o meu isqueiro. Demos dois tragos cada e ela logo apagou, guardando o baseado antes que alguém reclamasse. Não eram nem quatro da tarde ainda.
 
_Mas e aí... – a Thaís subiu o olhar na minha direção, tirando o cigarro da orelha e o colocando na boca – ...qual o lance com a Aninha, cês voltaram?
_Não, meu...
_Não?
_Foi só aquele dia lá da festa... – eu ri e ela tragou, me passando o cigarro em seguida – Depois até trombei com ela no Glória, num outro dia aí, mas não rolou nada.
_Hum. Por que não? Cê tá pegando alguém?
_Ah... – hesitei, sem saber como diabos responder a pergunta – ...é complicado.
_Complicado como?
_Ah, mano... – suspirei e a Thaís achou graça – Uma mina aí, curto ela pra caralho. Mas ela... e-ela namora. E uma hora me quer, na outra não. Esses dias a gente saiu, dormimos juntas e depois ela não falou mais comigo, tá me ignorando agora. Não sei o que pensar. Sei lá, é foda...
_Nossa.
_É... – arqueei as sobrancelhas e ri, tragando demoradamente.
_Velho, não dá, por isso que não tenho paciência pra me envolver com ninguém agora.
_Né? – soltei a fumaça por um espaço pequeno entre os lábios, passando o cigarro de volta para ela – Queria que as coisas pudessem ser mais simples, meu.
_Pode crer.
_Às vezes, cê... – disse e olhei descaradamente para a sua boca, conforme ela colocava o filtro entre os lábios – ...cê não acha que seria melhor simplesmente, sei lá, transar com suas amigas? Sabe, só... foder e se divertir, ficar de boa?
 
A Thaís segurou o riso e me olhou de volta, enquanto tragava, quase como se me desafiasse.
 
_Ué, vamos então.