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março 06, 2013

Corazón coraza

Na manhã seguinte, senti doer cada músculo do meu corpo – num lento despertar dos sentidos. Minha cabeça era devorada. Por que diabos inventei de tomar tanto vinho? Ao contrário dos destilados, com porre de vinho eu não tava acostumada. Me destruía completamente. Para piorar, sentia minhas pernas fracas de toda a atividade na madrugada anterior, a pele calejada de hematomas e mordidas nas costas, no pescoço, roxos nas pernas e marcas do lenço torcido nos pulsos – de quando a Clara resolveu se vingar.
 
A sensação geral era tinha sido atropelada por um caminhão. Tô ficando velha, lamentei, passando as mãos no rosto sentada à beira da cama. Caralho. Me bateu uma crise um dia antes de fazer 25. Uns outonos antes, pensei, teria levantado só com uma ressaca leve e ido contabilizar as marcas no espelho, achando graça. Olhei para o lado, para a Clara adormecida ali. É. Mas uns outonos antes, sorri, eu não tinha você. E virei para frente, colocando o rosto entre as mãos novamente. Essa garota vai me matar.
 
Me enchia o peito duma felicidade boba viver as coisas ao seu lado. Juntei forças para me levantar. E fui até a mochila largada no canto do quarto, pegando uma boxer qualquer e a vestindo, após um banho rápido naquele chuveiro gelado cujo aquecedor não consegui fazer funcionar. Então coloquei o único jeans que tinha levado e uma regata branca. E deixei o quarto, à surdina. Saí na rua, andando algumas quadras até encontrar o que parecia ser um café.
 
Gesticulei. Fiz mímica. Gastei o todo meu espanhol fajuto para comprar un café de la mañana. E a atendente riu – repetindo qualquer outra palavra algumas vezes até eu finalmente entender que estávamos falando da mesma coisa. Comprei o que deu com uns pesos que a Clara tinha, apontando o que pareciam ser uns sanduíches e pegando dois cafés para viagem. Fiz o que pude para garantir que não tivesse carne nos lanches, mas saí sem muita certeza de que a garota realmente tinha me entendido. O bairro era ainda mais bonito durante o dia. Voltei observando as ruas, tentando não me perder. A Clara ainda estava dormindo quando cheguei, vinte minutos depois.
 
Despertou ao me ouvir entrar. E sorriu ao abrir os olhos, me vendo parada ali, com dois cafés na mão. “Vou ficar mal-acostumada assim”, murmurou. Comemos em cima do colchão e ela se divertiu, implorando para eu repetir como tinha pedido tudo aquilo no café. Achando graça ao me escutar balbuciar aquele espanhol ruim. E em menos de meia hora, estávamos saindo pela porta. Tínhamos muito para ver – de uma estranha flor de metal a um palácio não tão rosa, o jardim botânico, coisas assim.
 
Andamos o dia inteiro. Os meus favoritos foram os murais de artistas de rua, as lojas de vinil e a estátua da Mafalda, ao lado da qual sentei e pedi pela primeira vez na viagem toda que a Clara tirasse uma foto. Almoçamos no mercado em San Telmo e, como já beirava as 16, tomamos mais vinho. “Estamos na Argentina”, justificamos o tempo todo, que se dane. Aí pedi para a Clara me levar em algum estúdio de tatuagem – queria um rabisquinho internacional. Entramos numa das lojas em Bond Street e pedi pra Clara escrever “33” num papel. O tatuei nas costas da mão, em homenagem ao vinho, em cima do pulso marcado daquela madrugada.
 
Nem uma hora depois, movida pelo meu entusiasmo com a Pequena Notável mais cedo, a Clara me arrastou até uma livraria alternativa do bairro, com pilhas caóticas de livros empoeirados por toda parte e administrada por um casal de caminhoneiras. Animal. Absolutamente todos os lugares que a Clara me levava me empolgavam, numa vontade de ver, de viver tudo que podia ali.
 
_Eu gostava de vir aqui... – me contou, baixinho, cumprimentando de longe uma das sapatas – ...quando era nova, com uns 11, 12 anos. E minha mãe, em negação, achando que eu era hétero.
 
Olhei para ela, achando graça. Aí peguei um livro que estava numa grande cesta de palha no chão, em promoção. Parecia bem de sebo, com as bordas detonadas. Era uma antologia de poesias. A Clara seguia adiante, buscando pelas prateleiras mais ao fundo para ver se me achava um Quino original, em espanhol. Folheei as páginas com certo interesse em ver o quanto daquilo eu conseguia entender. Inicialmente, os poemas eram curtos e simples. Me pareciam o tipo de coisa que a Marina ia gostar de ler. Pensei em levá-lo de presente para ela. Até que, na página 79, meus olhos se perderam nas linhas de um dos poemas.
 
Diziam:
 
“Porque eres mía
Porque no eres mía
Porque te miro y muero y peor que muero
Si no te miro amor, si no te miro
 
Porque tú siempre existes dondequiera
Pero existes mejor donde te quiero
Porque tu boca es sangre y tienes frío
Tengo que amarte amor, tengo que amarte
Aunque esta herida duela como dos
Aunque te busque y no te encuentre
Y aunque la noche pase y yo te tenga
Y no”
 
Fechei o livro. Rapidamente. E o meu coração acelerou, não sei bem por quê. Olhei por cima das prateleiras, para a Clara ao longe. Pensei em devolvê-lo ao cesto – mas parte de mim, agora, queria mesmo levar. Cacete.
 
Eu relutei, subitamente apegada àquelas páginas.

dezembro 08, 2012

I've exposed your lies

“…baby, the underneath’s no big surprise”
(Muse)
 
_Você vem, Bo?
_Não, não, vão vocês.
 
Pisquei rapidamente para a Clara e ela se virou para acompanhar a Ju do lado de fora, aproveitando a pausa para fumar um enquanto a Thaís trocava a agulha da máquina. Fiquei largada no sofá e minha amiga começou a procurar as tintas e as agulhas de preenchimento na gaveta duma bancada baixa. Já tinha terminado todo o contorno.
 
Àquela altura, já fazia umas duas horas desde que a Mia tinha ligado e eu não tinha checado meu celular desde então – apesar de tê-lo sentido vibrar mais algumas vezes. Temporariamente sozinha naquele sofá, tirei-o do bolso e vi mais uma chamada não atendida, junto com três mensagens não lidas da Mia. Era estranho. Ela nunca me ligava. Preocupada, abri minha caixa de entrada e li um “ME ATENDEEE” em caixa alta, seguido de “PFVRRRR CADE VCCC? PRECISO TE PERGUNTAR UMA COISA KKKK”. E sequer pretendia responder, sabia que a Clara estava logo ali, do lado de fora, mas aí li o terceiro SMS – “É URGENTE! A gnt ja fez rebuceteio???”.
 
Quê?!
 
Comecei a rir na mesma hora. E me afundei no sofá, sem conseguir me conter, digitando de volta: “ESSA eh sua pergunta importante?? rs”. O rádio tocava Muse ao fundo e, nem trinta segundos depois, chegou a resposta – “sim!!! :x pq?? vc ja fez???”. “C sabe do q vc ta falando?”, achei graça. “Ñ! kkkk to no bar aqui na rua debaixo do Mackenzie e uma sapata q estuda cmg tava falando q mandou ver no rebuceteio e eu fiquei curiosa kkkk”. Passei a mão no rosto, me divertindo. “Acho q vc ta achando q eh outra coisa, Mia, rs”, enviei e me pus a digitar a explicação. Antes que terminasse a mensagem, no entanto, chegou mais um SMS – “ñ eh sexo?? ela falou q foi dormir na casa duma mina la..”.
 
Estava quase gargalhando sozinha no sofá. Essa é a melhor conversa que já tive na vida, pensei. E expliquei, “eh uma gíria sapatao pra qdo vc pega alguem q sua ex ou sua amiga ja pegou”. “Ah, tipo talarico?”, a Mia pareceu decepcionada. “Ñ, ñ, talarico eh mais na maldade e o rebuceteio eh..inevitavel. pq a cena lesbica eh um ovo e td mundo ja se pegou rs, ñ tem como fugir, uma hr c acaba participando”. Passei a mão cara, tirando o meu cabelo bagunçado dos olhos para ler sua mensagem seguinte – “e c ja participou??”. “Ah, ja :P td mundo ja”. “Com qm?”. “Ah meu, sei la.. eu peguei a jessica, q pegou a thais, q pegou a le cmg, q hj pega a jessica tb e q ja pegou a marina, q eh minha ex, q ja pegou a clara... por ai vai, rs”, descrevi rindo.
 
_Com quem cê tá falando? – a Thaís questionou, do outro lado da sala.
 
Ergui os olhos e vi a minha amiga ali, me encarando de volta, como quem suspeita de algo, enquanto separava na bancada as cores que ia usar na tatuagem.
 
_Não, nada... – desconversei – ...c-com ninguém.
_Sei – retrucou – O mesmo “ninguém”?
_...
_Cê tá falando com a Mia, não tá?
 
Respirei fundo, sem responder à bronca gratuita, enfiando o celular de volta no bolso. E a Thaís observou os meus movimentos, também quieta. Quê, meu?!, me incomodei, se tem alguma coisa pra falar, fala logo. Ela se esticou para alcançar uma cerveja sobre a bancada e, então, continuou.
 
_Olha, eu não vou me meter... – resmungou, abrindo a latinha entre as pernas, com os antebraços apoiados nos joelhos, e aí olhou pela janela para ver se as garotas continuavam fumando – ...mas a Clara é uma puta mina da hora.
_Eu sei, porra, n...
_E eu pensaria bem antes de foder as coisas com ela... – me interrompeu, com certa seriedade – ...ainda mais se for com alguém que já te deixou tão na merda.
_Não é assim, meu.
_Então, como é? – deu um gole, indisposta com a minha desonestidade – Porque até onde eu sei, ela ainda namora seu amigo.
_Mano, a gente só tava trocando mensagem...
_Tá bom, então – se irritou.
_Qual é, Thaís?!
_Velho, só não quero ver você quebrando a cara de novo por essa mina... só isso. E eu sei que você ama a Clara, que não quer magoar ela...
_E-eu... – hesitei, sem saber o que responder direito, e aí esfreguei a mão no rosto – ...eu, eu sei. E eu não quero mesmo, porra, é só que... – me angustiei – ...inferno. Eu gosto dela, Thá. Eu... e-eu ainda gosto dela pra caralho e, e eu não sei o que fazer...
 
Nisso, ouvimos a porta abrir. E a Clara entrou junto com a Ju, rindo, interrompendo imediatamente as palavras que saíam da minha boca.

dezembro 07, 2012

Encontro às cegas

_Escuta... – a Thaís perguntou, do nada – Cê ainda tá com a Clara?
_Do que cê tá falando, mano?!
 
Estranhei, equilibrando o celular contra o ombro, enquanto assinava um orçamento e tentava despachar toda papelada que ainda tinha que entregar antes de ir embora naquela terça. Minha amiga parecia estar na rua, pelo som do outro lado da linha, e eu podia ouvir alguém rindo ao seu lado.
 
_Não é... – respondeu, tentando segurar o riso – ...é só que tava indo comprar comida agora e encontrei uma mina aqui, que comentou de você. E mano... Na moral, puta gata!
_Quê?!
_Pensei em apresentar vocês hoje, sabe, se cê tiver solteira... Ela morava na Argentina, sabe, fala espanhol, trabalha numa loja de música aqui perto e tem cabelo comprido, assim, um undercut... – foi listando, fazendo graça – ...uma tatuagem na linha do ombro.
_Sei... – comecei a rir.
_Ouvi dizer que ela gosta dumas trouxas igual você.
_Vai se foder...
_É sério, velho, acabou de me falar aqui que num resiste a uma sapatão ruim de sinuca.
_Olha, Thaís, cê nem vem cuspir no prato que comeu! – eu ri, revirando os olhos, e assinei mais uns papéis sem nem ver direito – Mas, agora sério, onde cês tão? Saio daqui uns quinze, vinte minutos, se pá...
_Tamo voltando pro estúdio, vou tatuar a Ju hoje. Cola lá!
_Bora.
 
Desliguei o telefone ainda rindo. A amizade da Thaís com a Clara era fundamentada quase exclusivamente em me zombar, a cada oportunidade que surgia. Trouxas. Me apressei para terminar o que faltava de trabalho e saí da produtora pouco antes das sete. A semana mal tinha começado e eu já estava cansada. Pelo menos agora, com o Du dividindo o apartamento comigo, já não precisava mais me forçar a tanta hora extra. Subi a rua até o metrô e fui em direção a Pinheiros para o meu date misterioso.
 
Quando cheguei no estúdio, uns quarenta minutos depois da ligação, a minha amiga estava debruçada sobre a sua namorada, tentando acertar um decalque nas suas costas. Ao lado delas, com as mãos apoiadas na maca, a Clara se inclinava para acompanhar o processo de perto. Numa regata branca que roubou de mim uns meses antes porque ficava larga e confortável no seu corpo, seu cabelo preso numa trança sobre o seu ombro, revelando uma tatuagem que tinha na nuca.
 
Fechei a porta atrás de mim e a Clara se virou, sorrindo ao me ver. Sorri de volta, caminhando até onde elas estavam. O estúdio tinha paredes pretas com desenhos e decalques colados por todo lado, um sofá grande e umas espadas de São Jorge em vasos pelos cantos. Todos os outros tatuadores já tinham ido embora, só restavam as três ali. A Thaís levantou brevemente a cabeça para me cumprimentar, enquanto fazia uns retoques de caneta no decalque, e a Ju ergueu a mão, sem poder se mover muito.  
 
_Hum... – me aproximei da Clara, fazendo graça – ...então é você que eu ia conhecer hoje?
_É – ela colocou os braços em volta do meu pescoço – Mas não sei, ouvi um papo aí que cê namora...
_Eu?! Não... – balancei a cabeça, na maior cara de pau – ...cê tá me confundindo.
_Ah, tô?
 
Ela riu e eu deslizei as mãos até suas coxas, a erguendo no meu colo num só movimento. E nos beijamos, ainda rindo, conforme ela cruzava as pernas ao redor do meu corpo. “Olha, se eu soubesse que cê era gata assim...”, cochichei, com a boca a centímetros da sua.  “Hum”, a Clara se divertia, me instigando, “me diz o que cê ia fazer”. A Thaís revirou os olhos ao longe, gritando na nossa direção:
 
_PODE PARAR. SEM BAIXARIA AQUI DENTRO, VOCÊS DUAS!
 
Nós a ignoramos. Os meus pés encontraram intuitivamente o caminho até o sofá no centro do estúdio, caindo junto com a Clara sobre as almofadas. E a Thaís começou a resmungar alto. A gente riu, se agarrando quase de propósito. Subi em cima da Clara e a apertei pela cintura, nuns beijos com gosto. “TEM CÂMERA AQUI DENTRO!”, minha amiga insistia, nos xingando. E a gente fez que não escutava. Entre um beijo e outro, senti o meu celular vibrar. Tirei ele do bolso, ainda entre as pernas da Clara, e olhei rapidamente no visor. Merda. Era a Mia ligando. Recusei a chamada, num reflexo rápido.
 
E guardei o telefone no bolso.

dezembro 27, 2011

Björk

Me puxou pela mão, entre as pessoas, e sorriu. Os arredores da Calixto estavam no caos de sempre dos sábados. A olhei, surpresa, sem saber direito como reagir, e tirei o cigarro da boca. O segurei para baixo por um momento, com o filtro entre o polegar e o indicador. A Clara me cumprimentou como se o tempo não tivesse passado. Estava com o cabelo preso em um grande coque improvisado sobre a cabeça, numa regata preta sem sutiã. Daquele seu jeito desencanado. E bonita – as pintinhas no rosto e os olhos levemente puxados, com seus ares de boliviana-argentina.
 
_Nossa, o que cê tá fazendo pra esses lados? – ela sorriu com o acaso.
_E-eu tô com umas amigas aí... – fiz um gesto com a cabeça e a mão que segurava o cigarro, apontando a direção em que a Lê e a Thaís foram – ...a gente t-tava...
_Cês vieram pra feirinha?!
 
Ela me interrompeu, interessada. E apoiou suavemente a mão na curva entre o seu ombro e o seu pescoço, num gesto sutil, daqueles que a tornavam realmente sexy, filha-da-mãe. O calor, aquela gente ao redor e a situação toda começaram a me incomodar – mas, por qualquer motivo imbecil, não caí fora na mesma hora.
 
_N-não, eu... e-eu vim tatuar lá no, n-no... sabe, aqui embaixo depois da Schaumann. O que vo... – me atrapalhei um pouco – ...o que v-você tá... – ela me olhava, tentando entender o que eu estava dizendo de forma pouco articulada, aí eu lembrei – ...ah, é! Você... v-você trabalha aqui, não é?!
_Sim – riu.
 
E foi só então que me toquei de que estava a um quarteirão da loja onde ela trampava, onde a viera buscar uma vez. Então tudo me voltou de uma só vez, as memórias da Clara, o que vivemos, o jeito brusco como terminou, de repente, caindo a ficha da situação em que me encontrava naquele instante. Senti um embrulho no estômago.
 
_Faz tempo, não faz? – ela percebeu.
_Faz. Olha, e-eu preciso ir, minhas amigas já tão lá na frente... – disse rapidamente, dando sinais com o corpo de que ia vazar – ...eu, a, a gente... tem que voltar lá pro estúdio, então...
 
O meu desconforto cresceu, merda. A sua presença me bagunçava. Não consegui sorrir, mas por algum motivo tentei ser educada – depois de algum tempo, acho, certas coisas perdem a importância. E os erros dela desapareceram por um momento.
 
_Tá... – a Clara sorriu e encostou uma das mãos no meu braço – ...a gente se fala, espero.
 
Murmurei um “aham”, concordando com a cabeça, e coloquei o cigarro de volta entre os lábios – teria dito qualquer só para sair logo dali. Me virei para descer e a Clara ficou me observando ainda, a menos de um metro na mesma calçada. Não dei bola, ou tentei. Desci a rua até encontrar a Lê e a Thaís, já do outro lado da feira e me apressando, perguntando quem diabos era aquela.
 
_Ah, uma garota aí...
 
Não sabia por que me sentia tão estranha. A Lê insistiu mais um pouco, curiosa, e eu mudei de assunto – preferia não falar a respeito. Voltamos ao estúdio, onde eu ficaria pelas próximas horas, vendo a Lê pagar pelo tanto que me zombou. Sã e salva.

dezembro 26, 2011

Pain lovers

Já tinha esquecido o quanto aquilo puta merda filha-da-puta do caralho doía. Argh. Minha costela ia se rasgando pouco a pouco. E a açougueira da Thaís ainda achava graça no meu sofrimento, me chamando de “dramática” durante o processo todo. Meu cu – aquele era o pior lugar para se tatuar. A pele na costela é fininha e o osso por debaixo aumenta a sensibilidade, atravessando seu corpo inteiro, é o equivalente moderno à tortura medieval. Nenhuma outra minha tinha doído tanto. Juro. Quase desisti quando acabou o contorno, mas a Thaís logo emendou o preenchimento e eu decidi encarar.
 
_PUTA QUE PARIU! – a xinguei – CÊ TÁ PESANDO A MÃO, CARALHO, NÃO É POSSÍVEL!
_Para de reclamar, mano! – a Thaís ria, debochando – Nem dói tudo isso...
_AH, NÃO! IMAGINA, SUAVE!!
_Pois merece, ninguém mandou atrasar... – a Lê me zombou também – ...agora aguenta!
_TOMAR NO CU, LETÍCIA, EU ATRASEI 20 MINUTOS, PORRA!
_Mano, na boa... – reclamou – QUE MERDA cê tava fazendo que cê não consegue chegar às 10:30 NUM SÁBADO?!
_QUE CÊ ACHA QUE EU TAVA FAZENDO?!
 
Resmunguei, tentando engolir a dor.
 
_Tava piranhando por aí, essa desgraça... – a Thaís riu, mergulhando a agulha na tinta antes de continuar – ...tava ou num tava, cachorra?
_TAVA... – travei os dentes, sentindo a maquininha cortar a minha costela – ...TAVA, CARALHO!
_Hummm, com quem?
_A-aquela, aquela mina lá do Vegas... – suei frio – ...PUTA MERDA, MANO!
_E valeu a pena, pelo menos?! – a Lê continuou, ignorando minha dor.
_Foi legal...
_Ih. Num senti firmeza...
_Não é, foi bom. É só que a mina... – respirei fundo, suportando a agonia que tomava o meu torso inteiro – ...a mina, n-não sei. Foi a primeira vez dela com mulher, sabe?
_Sei – a Lê riu – Então cê fez o serviço todo e agora tá subindo pelas paredes? É isso?
_Cala a boca, mano.
_Uai. Achei que já tava acostumada... – a Thaís fez graça – ...depois de todo o rolo lá com a Mia.
_Velho, não. A Mia... – me segurei, sem querer entrar no mérito do quanto a Mia, cacete, me desgraçava a cabeça, de como a gente fodia sem qualquer inibição – ...a, a Mia e-era diferente.
_Vixi. Deu uma saudadezinha? – a Lê provocou.
_Claro que não, mano.
_Ó! – a Thaís alertou – Vou continuar aqui. Para de se mexer!
 
Assim que a agulha recomeçou, senti a dor reverberar pelos meus ossos como se dilacerasse meu peito por dentro. Ô inferno. Mais dez minutos daquela tortura e eu tava prestes a matar a Thaís. Que dor desgraçada, mano. Quando enfim terminou, ela limpou todo o sangue da minha pele e a sujeira de tinta preta e vermelha ao redor. Me levantei para ver no espelho. Do caralho, sorri recompensada, como se tivesse vencido uma maratona.
 
Foda-se a dor – aquilo sempre valia a pena.
 
Me plastifiquei inteira. E agora, era a vez da Lê de sofrer nas mãos da nossa amiga. Como já eram quase duas da tarde, saímos para “almoçar” antes. Tínhamos menos de meia hora, o que mal me dava tempo de passar na Calixto para olhar as câmeras na feirinha. O sol estava de rachar – subimos a Teodoro e pegamos qualquer coisa para comer na esquina, seguindo direto para a feira lotada. Me entretive por algum tempo na barraca de um maluco cheio das polaroids, mas, como toda vez que eu ia na Calixto, percebi que não tinha dinheiro para pagar nem um quinto do que pediam por cada antiguidade ali.
 
Subimos um pouco mais na Teodoro, passando pelas infinitas lojas de novos designers e instrumentos, até a ruazinha da Choque Cultural, onde trabalhava uma amiga da Thaís. Batemos papo por algum tempo, entretidas, e logo já era hora de voltar. Me empenhei em acender um cigarro conforme descemos a rua de novo, no meio daquela gente toda, um tanto distraída – e foi quando dei de cara com a Clara.

dezembro 23, 2011

Mancadas clássicas

_Hum... – murmurei, enfiada no travesseiro – ...que horas são?
 
Tinha apagado. A Patti estava em pé, apoiada na janela com um cigarro na mão. E nua, desinibida, como se aquela madrugada a tivesse libertado de si mesma. Observei uma faixa de sol iluminar a âncora tatuada em sua coxa, me espreguiçando por cima do travesseiro. Repeti então a pergunta e ela sorriu de volta para mim, arqueando as costas para olhar o relógio da parede.
 
_Dez e vinte.
_N-não! TÁ BRINCANDO?! – dei um pulo na mesma hora, alcançando a boxer no chão – ...merda, merda... – a vesti rapidamente e comecei a procurar pelas minhas roupas – ...mil vezes merda!
_O que foi? – a Patti se assustou – Cê tem que ir??
_Eu vou tatuar, tá marcado pras 10 e meia... – coloquei o jeans, sem abotoar, e fui calçando de qualquer jeito os meus All Stars – ...que merda, puta que pariu. Minhas amigas vão me matar!
_Calma, eu te levo! Onde é? É perto?
_Não, não, meu. Fica aí! Não precisa se vestir, sair correndo... – coloquei a minha camiseta amarrotada, fechando as calças em seguida – ...deixa que eu me viro. Vai dar tempo!
 
Ah, mas não vai.
 
Beijei-a rapidamente, num selinho apressado. E corri escada abaixo para pegar o primeiro táxi que aparecesse. Burra. Como eu sou burra, cacete. Na minha cabeça já podia ouvir a Lê me xingando de todos os nomes possíveis. Eu era uma mulher morta. Morta. Droga! Não vai dar. Olhei meu celular, já no banco de trás de um táxi, enquanto passava as direções do caminho, e só então me dei conta da minha grosseria. Inferno. Fechei os olhos, apertando-os em arrependimento, conforme o taxista descia a Arcoverde. Primeira noite da garota com uma mina e eu largo ela lá, correndo, qual é o meu problema?
 
Por um segundo, temi que a Patti pensasse mal de todas as lésbicas do mundo – e pior, ficasse com um pé atrás comigo. É difícil representar sua classe quando se é tão... tão eu. Abri um SMS e digitei às pressas: “Dsclp sair correndo assim... eh q minha amiga vai me matar msm!! Posso compensar mais tarde? <3”. Assim que enviei, olhei para frente pela janela e notei a porra do trânsito em que estávamos presos. Um pouco mais abaixo, a Arcoverde estava completamente parada por causa da feirinha na Calixto. Dez pras onze em pleno sábado, revirei os olhos, me sentindo uma tonta, é óbvio que vai tá tudo parado.
 
_Deixa, amigo... vou a pé daqui! – toquei no ombro do motorista, já tirando o dinheiro da carteira – Quanto deu?
 
Bati a porta do táxi, descendo a rua entre os carros com pressa. Já tinha subido na calçada quando a Patti me respondeu – “relaxa, vms sim! :), ufa. Segui descendo e digitando, atrapalhada, dividindo minha atenção entre a rua esburacada e o visor do celular. Perguntei o que ela queria fazer e, para o infortuno dos meus extintos anos de estudante, ela escolheu ir num cinema de shopping. Ê programinha de hétero, hein? Achei graça, mas não discuti. Aceitaria qualquer coisa que ela falasse.
 
Atravessei a Henrique Schaumann com certa impaciência – o semáforo da avenida não fechava nunca, caralho –, a poucas quadras do estúdio onde a Thaís trabalhava. Tinha em mãos o primeiro cigarro do dia, já pela metade. Sabia que teria que entrar direto assim que chegasse e me preocupava o meu estômago vazio. Andei mais duas quadras e logo avistei a Lê, parada em frente ao estúdio. Estava apoiada contra um poste, de óculos escuros e bermuda, daquelas bem sapatão, porque decidiu de última hora que tatuaria a panturrilha. Fumava impacientemente, com cara de quem ia mesmo me matar. Atravessei a rua e me aproximei, já receosa com a bronca.
 
_Mano, tomar no cu você e essa merda da sua pontualidade, cara! – a Lê tirou os óculos e jogou o cigarro na calçada, me segurando pelo braço como uma criança e arrastando para dentro do estúdio.

janeiro 20, 2011

Tatus

_Não olha! Não olha!
_Não tô olhando!
_Vamos juntas… – a Mia riu, segurando a minha mão, descalças e em pé no seu quarto às três da manhã passadas – 1... 2 e... já!
 
Abaixamos a cabeça, olhando para os nossos joelhos recentemente tatuados. Minha coxa tinha manchas de tinta preta espalhadas para todo lado e, num canto, um pequeno raiozinho torto. Igual ao da Patti Smith. Ou, se o meu coração se permitisse o devaneio, o que fiz sob o seu olho no show que fomos juntas. Sorri – me sentindo estranhamente, intimamente contemplada. E então, a Mia começou a me xingar.
 
_Vai à merda! Mano, não acredito que fiz um desenho legal em você e cê fez... – balançou a cabeça, sem saber se ria ou brigava comigo – ...um homem-palito! Porra!!
_Quê?! Eu avisei que só sabia desenhar isso!
_Tá, m-mas... – a Mia esfregou a mão no rosto, rindo – ...não achei que cê fosse mesmo tatuar isso!
_Ah, sei lá, achei que era legal e sem sentido... – me desculpei – ...p-pode cobrir se quiser.
_Não... – bagunçou o meu cabelo com a mão e sorriu – ...eu meio gostei.

janeiro 15, 2011

A estrela dourada

Minha mão tremia mais do que volante de carro velho. Com a agulha a dois centímetros da pele da Mia e um medo desgraçado de fazer besteira, enquanto ela me explicava como inclinar meus dedos. Tá. Primeiro furo. E mais um, o meu sangue gelou. A Mia ria do meu nervosismo – o piorando consideravelmente com comentários como “não vai cagar na minha perna, hein”. Obrigada pelo incentivo, eu arqueava as sobrancelhas e ria junto.
 
Fui pegando o jeito aos poucos. O processo do handpoke ia mais devagar do que com a maquininha, os ponteiros do relógio rodavam madrugada adentro. Nos tatuávamos sentadas no chão do seu quarto, de frente e sem as calças, uma com a perna em cima da coxa da outra. Quase numa tesoura, é – mas eu estava tensa demais para fazer um comentário engraçadinho. Sentia a agulha entrar na minha pele, pouco acima do meu joelho, conforme a tatuava do outro lado. Não tinha a menor ideia do que a Mia estava fazendo em mim. Combinamos de não mostrar até terminar, nos marcando sem estêncil e, no meu caso, sem experiência também.
 
Nuns papos à toa, entre pernas e papéis-toalha sujos de tinta, ela me contou sobre a primeira vez que se tatuou, me mostrando o desenho – uma luazinha com linhas tortas, a tinta já estourada pelo tempo – que fez no tornozelo quando tinha 14 anos. Passamos a hora seguinte falando sobre outras primeiras vezes nossas, do primeiro show – ela CPM, eu Planet Hemp – ao primeiro beijo – ela na escada do prédio, aos 13; eu na quadra de trás da escola, aos 10. E lá pelas tantas, quando o assunto caiu na primeira vez mesmo, a nossa situação se inverteu.
 
_É diferente quando cê não quer dormir com caras... – molhei a agulha na tinta duas vezes, rapidamente.
 
Eu tinha quase 17 – a Mia, 14. E ela não conseguia acreditar que eu tinha começado tão depois dela. “Mas você gostou?”. Eu ri, “gostei”. “Eu odiei”, revirou os olhos, “os moleques nessa idade são uns idiotas”. “Só nessa idade?!”, questionei e ela me empurrou, rindo. Os contextos eram completamente diferentes. A sua tinha sido com um amigo do seu irmão numa festa, na primeira e única vez que ficaram; a minha foi numa tarde depois da aula na casa da Nana, quando ninguém estava em casa e a gente já namorava.
 
_Tá. Essa foi sua primeira mina, mas qual foi a melhor? 
_Por quê? – fiz graça – Cê quer o telefone dela?
_Não, né, só quero saber... – me olhou, curiosa.
_Você.
_Para! Tô falando sério, meu.
_Eu também.
_Mano, claro que não, eu não sei nem o que tô fazendo metade do tempo... – apertou os olhos na minha direção, como se eu estivesse mentindo – Vai. Fala a verdade.
_Mas eu tô falando... – insisti e ela balançou a cabeça, indignada – ...o quê? Cê quer saber quem tinha mais “habilidade”, é isso? – ri, mais uma vez, enquanto riscava mais uma sequência na sua pele – Eu posso citar um milhão de minas, a minha resposta ainda ia ser a mesma.
_Eu não quero o nome de um milhão delas, só um.
_Que diferença faz?
_Só escolhe uma, porra.
_Você.
_Meu deus, como cê é! – revirou os olhos – Por que cê não pode me dizer? Foi a Clara?
_A Clara?!
_Sei lá, meu. A Dani, a tal da Marina...
_Mia... – ri – ...você foi a melhor da minha vida.
_Cê sabe o que eu quero dizer!
_Sei, sim... – insisti – ...é você que não tá entendendo.
 
O que eu quero dizer, garota, a encarei por um instante, mergulhando a agulha na tinta mais uma vez, tentando decifrar se aquele papo era curiosidade ou insegurança, é que tem umas minas que entram na sua cabeça tão violentamente que estouram todos os limites da sua existência, do seu coração. Destroem a sua razão. É outra parada, achei graça no quanto a Mia parecia não saber o estrago que causava em mim, você nem sabe nem o que está fazendo, não pensa em porra nenhuma, não calcula, só faz e vocês vão, vão se movendo, juntas, atropelando tudo, quebrando todas as regras, como se fosse a sua própria natureza, como se o seu corpo inteiro soubesse, porra, o que quer e como conseguir – é disso que eu estou falando, entende? E é – é sobre você.

agosto 10, 2010

A la Marquês de Sade

Sabe aqueles testes ruins no estilo “Descubra qual é o seu tipo de homem”? Pois bem. Vez ou outra, movida pelo absoluto tédio numa sala de espera, eu pegava uma revista feminina e me divertia respondendo qualquer quiz idiota desses só para discordar do resultado ao final. Não, Cláudia. O meu tipo de homem não é loiro, surfista e musculoso, credo. O meu tipo de homem era o que não falava comigo – e de preferência, que me deixasse em paz na rua. No melhor dos casos, o meu tipo de homem eram as bichas afrontosas da Augusta. Ou o Fer. E ainda assim, todos bem longe da minha cama.
 
A revista nunca acertava. E o erro não era só por presumir que todas as mulheres gostam de homens – ou pelas respostas incrivelmente superficiais. A verdade é que, mesmo se existisse uma versão sapatona, provavelmente o teste fracassaria. Eu não tinha um “tipo”. Nenhum. Zero. Sempre achei meio babaca esses lances. O mais específica que eu podia ser sobre o que me atraía fisicamente em garotas era, por exemplo, um joelho ralado – isto é, de tanto tropeçar por aí. Eu gostava de mina sem noção. Sabe aquelas porraloucas que saem pela rua fazendo amizade às 5 da manhã, equilibrando a cerveja numa mão e a dignidade na outra? Pois esse era o meu tipo. E até isso era relativo, não é, bastava olhar para a Marina e o nosso namoro improvável. A minha maior regra era não ter regra.
 
Mas p u t a q u e p a r i u como eu perdia a cabeça com mina tatuada.
 
E não estou me referindo àquelas três estrelinhas escondidas atrás da orelha, nem àqueles erros em forma de golfinho – resultado lamentável de um devaneio pós-insolação num feriado prolongado no Guarujá. Não. Para mim e toda a água na minha boca, existia uma grande diferença entre ter tatuagem e ser tatuada. E lá estava a Mia, sentada na minha frente, com o corpo inteiro rabiscado e sem a menor inibição. Juro – eu podia passar duas, três, dez horas que fosse apenas observando, enquanto a Mia era dolorosamente desenhada por aquela maquininha.
 
Os minutos se desdobravam lenta e deliciosamente. Aquilo era quase melhor do que sexoeu disse quase. De tempos em tempos, eu e a Mia engatávamos uma conversa qualquer descontraída com a tatuadora. Numa intimidade que fluía bem entre nós e que me fazia sorrir. Ainda assim, havia sempre aqueles momentos de silêncio, em que só se ouvia o barulho do motorzinho e ninguém falava por minutos a fio.
 
E esses, sim, eram complicados.
 
As agulhas percorriam o corpo da Mia, pouco a pouco colorindo as flores em tons amarelados, então a tatuadora limpava a sua pele, descendo pela sua costela. E eu me obrigava a sentar ali, assistindo-a morder os lábios ao passo que a agulha preenchia o contorno, milímetro por milímetro, franzindo a sobrancelha e reposicionando o quadril para frente na cadeira, se mexendo sutilmente assim que a máquina pausava por cinco, seis segundos; movendo a cintura, se reajeitando. E a cada recomeço, os olhos da Mia apertavam. Já os meus não desviavam – observando-a apertar a camiseta com as mãos, afundando os dedos no tecido, para depois soltar ar lentamente pela boca.
 
Pelo amor de Deus.
 
Eu a observava ininterruptamente, numa fissura tão grande que logo começou a me dar calor. Uma quentura, sabe? Aquela febre interna. Numa saudade desgraçada de beijá-la, de pressioná-la contra o meu corpo. E aí ficar parada naquela cadeira começou a se tornar uma tarefa realmente difícil. Bastava olhar para a Mia ali e a minha mente ia sendo tomada por todo tipo de pensamento sujo. Realmente sujo. E eu me torturava – já cozinhando debaixo daquela roupa toda e, ainda assim, sem tirar os olhos dela.
 
Cacete, respirei fundo. E arranquei o lenço do pescoço. A Mia continuava lá, se concentrando na dor, com a tatuadora agora já na parte de baixo da sua costela. E a minha atenção inteira na sua boca entreaberta. O calor não ia embora, o jeito foi tirar a jaqueta também. Daqui a pouco eu fico pelada aqui, quis rir. Mas a intensidade daquele metro e pouco entre a Mia e eu, inebriada pelo zunido da maquininha, não me permitiram. A única coisa que eu conseguia fazer era me inquietar naquela cadeira, morrendo de tanto tesão calor.
 
_Que aconteceu? – a Mia me perguntou, de repente.
_O-o que... – reagi, arrependida da bandeira que eu estava dando – Como assim?!
_Aí... – ela arqueou a sobrancelha, me encarando.
_Onde?!
_Na sua blusa – ela sinalizou rapidamente com os olhos e riu, de novo – Tá toda suja, meu.
 
Ahhh, isso.
 
_E-eu... derramei café, lá no trampo – respirei aliviada, puxando a minha camiseta com as mãos para ver melhor a mancha – Que merda, esqueci que isso tava aí...
_Ficou bonito, hein...
_É. Faz parte do meu estilo funcionária-do-mês.
_Toma, veste essa! – a Mia jogou a camiseta que estava na sua mão na minha direção – Eu trouxe um moletom largo para usar depois que terminar aqui.
_Mas cê não...?
_Não, pode usar – sorriu.
 
Levantei, empurrando a cadeira levemente para trás, e tirei a camiseta. A dobrei e abaixei para colocá-la junto à minha jaqueta e ao lenço no chão. A tatuadora sequer olhava na minha direção. Já a Mia, me encarava com os seus olhos castanhos e, por algum motivo, me senti vingada por toda a sessão de tortura que aguentei até então. O seu olhar parou numa palavra que eu tinha tatuada no canto do abdômen, depois subiu até os meus braços. Puxei a sua camiseta do meu ombro e a vesti.
 
_E aí? Ficou bom? – perguntei, ainda de pé.
 
E a Mia deixou escapar um sorriso discreto no canto da boca. Aí, sim.

agosto 09, 2010

Dia de folga

_Não tô me sentindo bem – forcei uma voz pesada, levemente ofegante, apoiada no batente da sala antes de sequer terminar de entrar.
 
Meu chefe levantou os olhos e observou a minha expressão arrasada de quem não tinha dormido a noite inteira por causa de uma porra de um SMS e depois passado o dia todo numa agonia interna por causa de uma garota, sem saber realmente que era disso que se tratava. E aí... simpatizou comigo. Pois é. O lado bom de se apresentar à labuta quase diariamente com cara de merda e olheiras descomunais era a facilidade que eu tinha de mentir sobre o meu estado de saúde. Digo, quando metade do trabalho já está feito e estampado na sua cara não é necessário muito esforço para soar realmente convincente.
 
Contive um sorriso e abaixei a cabeça para não dar bandeira, a fim de consolidar a minha patifaria. O relógio do meu celular mal marcava 16:30 e eu já era uma mulher livre, pisando na rua a caminho do metrô. Vinte minutos depois e eu dava as caras na estação Consolação, vestida com a minha jaqueta preta e um lenço palestino colocado de qualquer jeito em volta do pescoço – a tarde estava linda, ensolarada e fria pra caralho. Êê São Paulo, pensei com carinho, enquanto descia contra o vento gelado da Augusta, enfiando as mãos no bolso da frente do meu jeans.
 
O estúdio ficava umas quadras para baixo, dentro duma galeriazinha, e tinha vista para a rua através de uma janela imensa no segundo andar. Subi as escadas, cantarolando “Gimme Danger” na minha cabeça, realmente feliz por ter decidido ir. A Mia estava numa cadeira ao lado da escada. Entrei e dei de cara com ela sentada ali, só de calça, segurando a blusa nas mãos. Os peitos e todas as outras tatuagens à mostra. Puta merda. Fui pega de surpresa, tá calor aqui, né?
 
Ela me olhou assim que alcancei o topo da escada e sorriu. Absolutamente linda. Uau. Me aproximei e a cumprimentei, segurando atrás da sua cabeça com os dedos entrelaçados em seu cabelo e dando um beijo a dois milímetros da sua boca. Aí puxei uma cadeira e sentei de frente para ela, acenando um “alô” desinteressado com a cabeça para a tatuadora. Sem conseguir tirar os olhos da Mia.
 
_Sofrendo muito aí?
_Não, de boa... Dá pra levar – ela respondeu, indiferente à dor – Só quando chegar na costela, aí vai ser osso.
_E o que é?
_Cê não viu? – riu.
_Não... Deixa eu ver...
 
Levantei e caminhei para trás da cadeira, do lado oposto da tatuadora, que rabiscava a lateral das suas costas. De um lado, estavam as flores de cerejeira – as que me torturavam toda maldita vez que a Mia aparecia de shorts no apartamento –, começando no ombro e descendo pela sua pele até um pouco depois de onde supunha-se estar a lateral da sua calcinha. Agora, do outro lado, embaixo de toda aquela sujeira de sangue misturado com a sobra de tinta preta, a tatuadora traçava uma série semelhante de flores, quase espelhadas e que também deslizavam do seu ombro até o alto da sua coxa.
 
_Não é a mesma, é?
 
Perguntei, observando as pétalas diferentes.
 
_Que a de cá? Não, não, é outra – sorriu – Tá ficando bonita?
_Tá, só... – fiz uma pausa, analisando – ...essa parte aqui em cima que, não sei, é pra ser assim mesmo?!
_O quê? Que parte?! – a Mia se agitou, preocupada, e a tatuadora foi obrigada a interromper o processo.
_Essa aí em cima, meu, o contorno tá... não sei, parece torto... – me sentei, de novo, na sua frente e não me aguentei ao ver sua expressão de desespero, gargalhando – ...tô brincando, trouxa. Relaxa.
_PORRA, MANO. QUE SUSTO!
 
Gritou comigo e a tatuadora lançou um olhar de reprovação na minha direção. Apoiei meus pés num banquinho que estava sobrando ao lado e cruzei as pernas, ainda achando graça.
 
_Deus. Não acredito que cê caiu nessa, é a piada mais velha do planeta! – eu ri.
_Vai se foder, velho! – a Mia riu também e me bateu com a blusa que estava em sua mão – Não, sério agora... O que cê achou?
_Vai ficar linda, meu... – pisquei para ela.
_É?
 
Ela sorriu de volta, satisfeita. E eu me senti especial, a primeira a ver. É tão mais fácil assim, garota. Só eu e você. De repente tudo era descomplicado, tudo estava bem. E não importava mais se eu era ou não a primeira opção para acompanhá-la. Só que fosse eu quem estivesse lá.