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abril 15, 2013

3 Songs – pt. 2

“I wanna be forgotten and I don't wanna be reminded
You say, "please, don't make this harder"
No, I won’t yet"

(The Strokes)
 
_CLARA?! – meu coração disparou – CLARA, NÃO DESLIGA! POR FAVOR, NÃO DESLIGA!!
_Por quê, meu? – a sua respiração parecia pesada – Por que cê acha que eu devia falar com você?
_Porque cê já tá falando, vai, por favor. Só me escuta! – implorei, com o telefone num dos ouvidos e a mão no outro, tentando abafar o som externo – Essa semana foi um lixo, Bi, um inferno! Eu não consigo parar de pensar em você!! LINDA, POR FAVOR! A gente tem que conversar! – choraminguei – S-só, sabe, só sentar em algum lugar e conversar, me dá outra chance! Me deixa explicar, eu... e-eu fiz merda, porra! Eu tô desesperada!! Só a ideia de te perder, meu... – minha boca atropelava as palavras, embriagada, e as lágrimas começaram a se formar nos meus olhos, me fazendo perder todo o controle das minhas emoções – ...e-eu não posso te perder, não posso. Eu te amo. Eu te amo tanto!!
_Você não superou aquela garota. Você sabe que não... – murmurou, magoada – Então por que você me liga? Hein?! Por que cê tem que me fazer passar por isso?!
_Me dá uma chance, só me deixa t...
_Meu... – ela me cortou – ...cê não entende. NÃO FAZ DIFERENÇA! Você, v-você perdeu o respeito por mim. Você nunca se importou...
_NÃO! NÃO!! NÃO É VERDADE!!!
_...você não deu a mínima para como eu ia me sentir, você só, s-só faz o que faz. E eu não sou saco de pancada para esse seu jeito errado, essa sua forma torta de fazer as coisas. Você não leva NINGUÉM em consideração, nada, porra, só as suas vontades... – ela parecia chorar do outro lado e as lágrimas desataram, incontidas, pelo meu rosto – ...você precisa crescer. Eu não posso tá com alguém como você. V-você sabia, inferno, sabia que as coisas tinham mudado para nós. Que eu tinha mudado, que eu te queria. E você, v-você vai e atropela tudo. Tudo! Você magoa todo mundo, porra, magoa a si mesma. VOCÊ ME MAGOOU! VOCÊ ENTENDE ISSO? VOCÊ ME MAGOOU DO PIOR JEITO POSSÍVEL, CARALHO!
_Clara, nã... – solucei, destruída, sem conseguir reagir.
_Olha, eu posso ter te amado... – concluiu, com rancor – ...mas você vai ver o quão rápido eu te esqueço.
_Por favor, não faz isso, nã...
 
Escutei-a chorar, enquanto eu implorava, segundos antes de ouvir o telefone desligar.

Não. Entrei em desespero. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Me senti impotente. Sem saída. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Todas as minhas ligações seguintes caíram na sua caixa postal. E eu perdi o controle. Esmurrei a cabine, gritando, com raiva. As lágrimas me rasgavam. As dela, mais do que as minhas. Quis destruir tudo, completamente fora de mim. Se algum resquício de sanidade ainda me restava, àquela altura já não sabia. Desatei. Sem qualquer noção.
 
Uma das funcionárias do banheiro começou a me chamar do outro lado da porta, alarmada, me mandando sair imediatamente. “FODA-SE! FODA-SE!”, eu chutava a porta de volta, aos berros. Aí ela ameaçou chamar a segurança. E eu sequer enxuguei o rosto. Saí. Furiosa. Deixando a porta escancarada para trás. Aí entrei na pista, absolutamente descontrolada.

_O que tá acontecendo? – o Fer tentou me segurar, ao trombar comigo no galpão – Você tá chorando??? O QUE ACONTECEU?!?!?!
_CADÊ A MERDA DA GAROTA??
_Que garota? – ele perguntou, confuso, e eu tentei me soltar dele, irritada, ainda chorando; a Mia me olhava assustada, ao seu lado, com todos os meus amigos em volta – QUE GAROTA?!? O QUE ACONTECEU??! FALA COMIGO, PORRA!!
_A MERDA DA MINA! A MINA QUE VOCÊS QUERIAM QUE EU PEGASSE, CADÊ A DROGA DA... DA MINA?!
_SEI LÁ ONDE TÁ A MINA, CARALHO! FALA COMIGO!! – ele me segurou forte, tentando me forçar, aos trancos, para fora do surto – QUE PORRA ACONTECEU?!?! CÊ FALOU COM A CLARA?? VOCÊ LIGOU PARA ELA?!?! O QUE ACONTECEU?!??
_ME SOLTA!! – eu chorava, embriagada, gritando – EU QU... Q-QUERO...

Eu queria achar a garota. Qualquer garota. Queria consumir cada milímetro de uma porra duma estranha. Comer alguém em plena pista. Expor a minha falta absoluta de escrúpulos para o mundo. Na frente dos meus amigos, da Mia. Queria magoar os outros, me destruir. Arrebentar a pior parte de mim, acabar com todos os caminhos até o meu coração. Queria aniquilar tudo, meus sentimentos, o que passasse pela minha frente. A garota, a Mia, aquela festa, tudo. Todas aquelas pessoas idiotas, alheias à dor no meu coração. Estourar cada veia no meu corpo até estar vazia. Completamente alcoolizada.
 
E comecei então a descontar em mim, no meu fígado. Fui gastando até o que não tinha em doses imprudentes, tão logo me soltei dos braços do Fernando. A Thaís tentou me segurar, aí a Lê, o Gui, eu não me importava. Fodia com tudo. E de certa forma, funcionava. A bebida me acalmou – mas perdi todos os outros sentidos. Anestesiada e delirante. Duas ou três horas depois e eu dançava em meio à multidão da outra pista, a de trás, absolutamente alucinada. Sem noção das horas ou de onde estava.
 
A minha consciência parecia apagar por intervalos inteiros de tempo. Por mais de meia hora, às vezes, para então ressurgir enquanto eu vomitava em pé ao lado das caixas de som. Aí voltava para a pista. Caía no banheiro. Não lembrava de rostos, nem de conversas. Discuti algo com o Fer, em algum momento. E a Mia apareceu – ou já tava lá? –, pouco depois dele sair de perto, irritado. Eu cambaleava e trombava nas pessoas, ela ficou ao meu lado. E tentou me segurar, colocando o braço ao redor do meu corpo, pedindo para que eu fosse junto com eles.

Eu fechava os olhos e me mexia desenfreada, fora de mim, dançando – e quase a derrubando junto. A Mia riu e disse, com carinho, que eu devia ir. “Vem tomar um ar comigo, com todo mundo”, repetiu algumas vezes, “vamos lá pra fora, vem”. Mas eu não ia. Você..., eu a observei, sem conseguir perceber direito os arredores, ...tá...tão bonita. Eu gosto tanto..., pensei, ...de você. E não disse nada. Não sei o que aconteceu então. Em algum momento, acho que virei as costas e simplesmente me enfiei na multidão, sumindo da sua vista e me afastando. Era tudo um borrão. Só retomei a consciência algumas horas depois.

Já amanhecia quando me dei por mim ao lado do Gui, fumando perto da piscina – como vim parar aqui? O Du estava junto a ele. Comecei a falar e os dois então me convenceram a pagar e ir embora. O Fer, a Mia e o Benatti já estavam do lado de fora. Havia outros amigos meus também, mas a maioria parecia ter ido para casa. Nenhum sinal da Lê ou da Thaís. Quando me viu sair na calçada, descabelada e bêbada, o Fer caminhou até onde estávamos e me falou algo, me deu uma bronca. Não me lembro bem. Não discuti de volta, só ouvi, meio fora de órbita.

Ele e o Du trocaram algumas palavras também – deve ter mandado que me levasse direto pro apartamento e que cuidasse de mim. Tive a impressão de que era isso. Me deu o seu casaco, antes de voltar para perto dos outros. E a Mia estava lá. Ao lado deles, me olhava à distância e sorriu, eu a observei. E aí, e aí eu, e-eu não sei. Tive um sentimento estranho, como se tivesse que ter dito alguma coisa naquela hora – mas não disse nada. Tinha sido uma idiota com ela mais cedo. Estava a metros da Mia, esperando junto ao Du e ao Gui até uma outra garota chegar. Aquela estranheza ficou entalada, o sentimento que tive.
 
O nosso carro iria duas vezes mais cheio do que na vinda. A Mia e o Fer foram noutro, junto com o Benatti.
 
O amigo do Du tinha um Gol branco, entrei cambaleando. Me sentia tonta. Completamente fora de mim. Me espremeram contra a porta ao final do banco, diretamente atrás do motorista. Me dava certa noção de segurança por estar voltando para casa, mas a luminosidade do sábado de manhã ardia nos meus olhos. Peguei então o celular e digitei torto para a Mia – “me necotra noapto??1”. E então desmaiei. Até acordar, lá pela metade do caminho, com um dos amigos do Gui vomitando pela janela. A garota ao meu lado falava sem parar, uma ruiva que parecia hétero, com uma voz estridente. Ou talvez fosse toda a bebida dentro de mim. O meu estômago estava embrulhado, minha cabeça começava a doer.
 
Argh.

dezembro 08, 2012

I've exposed your lies

“…baby, the underneath’s no big surprise”
(Muse)
 
_Você vem, Bo?
_Não, vão vocês.
 
Pisquei rapidamente para a Clara e ela se virou para acompanhar a Ju do lado de fora, aproveitando a pausa para fumar um enquanto a Thaís trocava a agulha da máquina. Fiquei largada no sofá e minha amiga começou a procurar as tintas e as agulhas de preenchimento na gaveta duma bancada baixa. Já tinha terminado todo o contorno da tatuagem.
 
Àquela altura, fazia umas duas horas desde que a Mia tinha ligado e eu não tinha checado meu celular desde então – só sabia que tinha vibrado mais algumas vezes. Temporariamente sozinha naquele sofá, tirei-o do bolso e vi mais uma chamada não atendida, junto com três mensagens não lidas da Mia. O que acontece?, estranhei. Abri minha caixa de entrada, curiosa, e li um “ME ATENDEEE”, seguido de “PFVRRRR CADE VCCC? PRECISO TE PERGUNTAR UMA COISA KKKK”. E eu sequer pretendia responder naquela hora, sabia que a Clara estava logo ali do lado, mas aí li o terceiro SMS – “É URGENTE! A gnt ja fez rebuceteio???”.
 
Quê?!
 
Comecei a rir na mesma hora. O rádio tocava Muse ao fundo. Me afundei no sofá, sem conseguir me conter, digitando de volta – “ESSA eh sua pergunta importante?? rs”. E nem trinta segundos depois, chegou a resposta dela – “sim!!! :x pq?? vc ja fez???”. “C sabe do q vc ta falando? rs”, achei graça. “Ñ! kkkk to no bar aqui na rua debaixo do Mackenzie e uma mina sapata q estuda cmg tava falando q mandou ver no rebuceteio e eu fiquei curiosa kkkk”. Passei a mão no rosto, já me divertindo. “Acho q vc ta achando q eh outra coisa, Mia, rs”, enviei, aí me pus a explicar. Antes que terminasse a minha mensagem, no entanto, a Mia mandou mais uma – “ñ eh sexo?? ela falou q foi dormir na casa duma mina la!”.
 
Meu deus, pensei, essa é a melhor conversa que já tive na vida

Estava quase gargalhando no sofá, sozinha. “Eh uma gíria sapatao pra qdo vc pega alguem q sua ex ou sua amiga ja pegou”, expliquei. “Ah, tipo talarico?”, a Mia pareceu decepcionada. “Ñ, talarico eh mais na maldade e o rebuceteio eh meio inevitavel, rs. pq a cena lesbica eh um ovo e td mundo ja se pegou, ñ tem como fugir, meu, uma hr c acaba participando”. Passei a mão no meu cabelo bagunçado, o tirando da cara, e logo chegou mais uma mensagem dela – “hum, e c ja participou??”.
 
Comecei a rir, de novo. “Ah, ja :P tipo, q nem, eu peguei a jessica, q pegou a thais, q eu ja peguei, q pegou a le junto cmg, q hj pega a jessica e q já pegou a marina, q eh minha ex, q ja pegou a clara... e por ai vai, rs”, expliquei, achando graça.
 
_Com quem cê tá falando? – a Thaís me questionou, de repente, do outro lado da sala.
 
Ergui os olhos e vi a minha amiga ali, me encarando de volta, como quem suspeita de algo, enquanto separava na bancada as cores que ia usar na tatuagem.
 
_Não, nada... – desconversei, na mesma hora – ...c-com ninguém.
_Sei – retrucou, sem paciência – O mesmo “ninguém”?
_...
_Cê tá falando com a Mia, não tá?
 
Respirei fundo, sem responder à bronca gratuita, enfiando o celular de volta no bolso. E a Thaís me observou, também quieta. Que foi, meu?, me incomodei, se tem alguma coisa pra falar, fala logo. Ela se esticou para alcançar uma cerveja sobre a bancada e, então, continuou:
 
_Olha, eu não vou me meter... – resmungou, abrindo a latinha entre as pernas, com os antebraços apoiados nos joelhos, e aí olhou pela janela para ver se as garotas continuavam fumando – ...mas a Clara é uma puta mina da hora.
_Eu sei, porra, a...
_E eu pensaria bem antes de foder as coisas com ela... – me interrompeu, com certa seriedade – ...ainda mais se for com alguém que já te deixou tão na merda.
_Não é assim, meu.
_Então, como é? – deu um gole, indisposta com a minha desonestidade – Porque até onde eu sei, ela ainda namora seu amigo.
_Mano, a gente só tava trocando mensagem...
_Tá bom, então – se irritou.
_Qual é, Thaís?!
_Velho, só não quero ver você quebrando a cara de novo por essa mina... só isso. E eu sei que você ama a Clara, que não quer magoar ela...
_E-eu... – hesitei, sem saber o que responder direito, e aí esfreguei a mão no rosto – ...eu, eu sei. E eu não quero mesmo, porra, é só que... – me angustiei – ...inferno. Eu gosto dela, Thá. Eu... e-eu ainda gosto dela pra caralho e, e eu não sei o que fazer...
 
Nisso, ouvimos a porta abrir. E a Clara entrou junto com a Ju, rindo, interrompendo imediatamente as palavras que saíam da minha boca.

dezembro 07, 2012

Encontro às cegas

_Escuta... – a Thaís me perguntou, do nada – Cê ainda tá sério com a Clara?
_Do que cê tá falando, mano?!
 
Estranhei, equilibrando o celular contra o ombro, enquanto assinava um orçamento e tentava despachar toda papelada que ainda tinha que entregar antes de ir embora naquela terça. Minha amiga parecia estar na rua, pelo som do outro lado da linha, e eu podia ouvir alguém rindo ao seu lado.
 
_Não é... – respondeu, tentando segurar o riso – ...é só que tava indo comprar comida agora e encontrei uma mina aqui, sem querer. E mano... Puta gata!
_Sei... – comecei a rir.
_Pensei em apresentar vocês hoje, sabe, se cê tiver solteira... Ela fala espanhol, é filha de boliviano, trabalha numa loja de música aqui perto, tem cabelo comprido, assim, um undercut... – foi listando, fazendo graça – ...uma tatuagem na linha do ombro.
_Ahm...
_Ouvi dizer que ela gosta dumas trouxas igual você.
_Vai se foder!
_É sério, velho, ela acabou de me falar que curte umas sapatão ruim de sinuca.
_Olha, Thaís, cê nem vem cuspir no prato que comeu! – eu ri, revirando os olhos, e assinei mais uns papéis sem nem ver direito – Mas, agora sério, onde cês tão? Saio daqui uns quinze, vinte minutos, se pá...
_Tamo voltando pro estúdio, vou tatuar a Ju hoje. Cola lá!
_Bora, bora.
 
Desliguei o telefone ainda rindo. A amizade da Thaís com a Clara era fundamentada quase unicamente em me zombar. A cada oportunidade que surgia. Bestas. Me apressei para terminar o que faltava de trabalho e saí da produtora pouco antes das sete – a semana mal tinha começado e já estava cansada. Pelo menos agora, com o Du dividindo o apartamento comigo, já não precisava mais fazer tanta hora extra. Subi a rua até o metrô e fui em direção a Pinheiros para encontrar o meu date tão misterioso.
 
Quando cheguei no estúdio, uns quarenta minutos depois da ligação, a minha amiga estava debruçada sobre a sua namorada, tentando acertar um decalque nas suas costas. Ao lado delas, com as mãos apoiadas na maca, a Clara se inclinava para acompanhar de perto. Numa regata branca que roubou de mim uns meses antes – gostava de ir trabalhar com ela porque ficava larga e confortável no seu corpo. Seu cabelo estava preso numa trança sobre o seu ombro, revelando o undercut e a tatuagem de cruz andina que ela tinha na nuca.
 
Fechei a porta atrás de mim e a Clara virou o rosto na minha direção, sorrindo ao me ver. Sorri de volta, caminhando até onde elas estavam. O estúdio tinha paredes pretas com desenhos e decalques colados por todo lado, um sofá grande e umas espadas de São Jorge em vasos pelos cantos. Todos os outros tatuadores já tinham ido embora – só restavam as três ali. A Thaís levantou brevemente a cabeça para me cumprimentar, enquanto fazia uns retoques de caneta no decalque, e a Ju ergueu a mão sem poder se mover muito.  
 
_Hum... – me aproximei da Clara, fazendo graça – ...então é você que eu ia conhecer hoje?
_É – ela colocou os braços em volta do meu pescoço – Mas não sei, ouvi um papo aí que cê namora...
_Eu?! Não... – balancei a cabeça, na maior cara de pau – ...cê tá me confundindo.
_Ah, tô?
 
Ela riu e eu deslizei as mãos até suas coxas naquele jeans, a erguendo no meu colo num só movimento. E nos beijamos, ainda rindo, conforme ela cruzava as pernas ao redor do meu corpo. “Olha, se eu soubesse que cê era gata assim...”, cochichei, com a boca a centímetros da sua.  “Hum”, a Clara se divertia, “me diz o que cê ia fazer”. A Thaís revirou os olhos ao longe, gritando na nossa direção:
 
_PODE PARAR. SEM BAIXARIA AQUI DENTRO, VOCÊS DUAS!
 
E nós a ignoramos. Os meus pés encontraram intuitivamente o caminho até o sofá, caindo junto com a Clara sobre as almofadas. E a Thaís começou a reclamar de longe. A gente riu, se agarrando quase de propósito. Subi em cima da Clara e a apertei pela cintura, nuns beijos com gosto. “TEM CÂMERA AQUI DENTRO!”, minha amiga insistia, nos xingando. E a gente fazia que não escutava. Nisso, senti o meu celular vibrando. Tirei ele do bolso, ainda entre as pernas da Clara, rindo, e olhei rapidamente no visor – merda. Era a Mia me ligando. Recusei a chamada, num reflexo rápido, mas senti certo desconforto.
 
Aí guardei o telefone no bolso, de novo.

julho 13, 2012

Meio fim de festa

Logo fomos interrompidas. Já no segundo cigarro e milésimo beijo, amassadas contra a parede e testando os limites da boa conduta na casa dos outros. “Epa, epa, vamos parar de baixaria aqui?”, a Thaís falou bem alto, rindo, assim que nos encontrou na lateral da casa. A Clara rapidamente a mandou tomar no cu. Numa intimidade conquistada nos últimos meses – de tanto me acompanhar na casa da Thaís para fumar uns, já que eu andava evitando rolê para economizar dinheiro, as duas acabaram se tornando amigas.
 
Voltamos para a sala pouco depois dela, levemente descabeladas e guardando os nossos maços nos bolsos. Ainda sentia as minhas bochechas levemente vermelhas de tanto, ahm, passar calor. Sentamos na mesa e nos pusemos a comer aquele “jantar”, tão atrasado que estava começando à 1 da manhã. Pelas horas seguintes, pratos e tigelas amontoados, com apenas restos, foram se acumulando à nossa frente. Mesmo quando acabou a comida, continuamos à mesa e as taças de vinho seguiram fluindo tão bem quanto a conversa.
 
Propus um brinde ao aniversário da Jéssica – que, a essa altura, já estava sentada no colo da Lê nuns beijos embriagados. O álbum do Uh Huh Her tocava sem parar. No auge da sapatonice. Ficamos todas tão bêbadas, de uma garrafa chilena atrás da outra, que eu e a Thaís nos debruçávamos sobre a mesa, rindo, sem nem saber de quê. Até a Clara estava tagarelando com a Marina, agora sentada ao seu lado. E é, verdade, eu devia tá ouvindo aquilo – mas já não conseguia prestar atenção em mais nada. Outra meia hora e aquela era a 3ª vez que escutava “I'm better than the other one, you're a harder chase” sair do rádio. Mais dez minutos, outras duas taças. E eu discutia, aos gritos, com a Camila na outra ponta da mesa. Entre um verso e outro da música alta, fora de mim, enquanto a Clara me puxava pela camiseta e me mandava sentar de novo, ordenando que parasse de fazer cena.
 
_CÊ TÁ OUVINDO O QUE ESSA IDIOTA TÁ FALANDO?! – bati na mesa, indignada, e voltei a atacar a Camila – CÊ TÁ MUITO LOUCA, MANO!!
 
Alguns minutos antes, ela defendeu que a versão traduzida de “Starman” era melhor que a do Bowie. E eu perdi a cabeça em meio segundo. Não satisfeita, a minha amiga tomou as dores do rock nacional e começou a gritar de volta comigo, irritada, me acusando de ser uma fã chata. A Thaís me forçou de volta à cadeira e encerrou de vez a briga. “You're fast against mine, I will tear you from the...”, quarta vez. Pazes feitas, todas amigas de novo. Rodamos uma garrafa vazia, deitada, no centro da mesa e nos desafiamos a contar nossos piores podres umas para as outras. A Clara se divertia com os meus. E a Marina, já quase sem fôlego de tanto rir, confirmava tudo com a cabeça. Seus óculos já estavam abandonados sobre a mesa. Deus, eu me afundava na cadeira, cobrindo a minha cara de pau, ainda bem a Clara não vai lembrar metade disso amanhã.
 
_Vem – disse, então, no ouvido dela – Vamos cair fora um pouco.
 
E aí escapamos, enquanto as meninas tentavam descoordenadamente abrir a sei-lá-qual rolha da madrugada. Já tinha perdido a conta. Cês são loucas de beber mais vinho, meu deus. Rindo, trombamos na porta da lateral e fugimos com sucesso para o nosso cantinho de antes. O quintal continuava escuro – o sol ainda não tinha nascido e uma umidade meio fria das 5 e pouco se alastrava no ar. Nos escondemos atrás da casinha onde ficava o botijão de gás, acoplada à lateral da casa. Beijei a Clara com uma vontade embriagada, quase incontrolável.
 
Aí nos enroscamos – os seus braços subiram até os meus ombros, eu desci as minhas mãos. E a empurrei contra a parede. Não conseguia me concentrar em nada. Eram momentos desconexos, nuns lapsos de memória que, de alguma forma, faziam sentido quando fluíam assim, cada beijo, cada chupão, as mãos dela, a pressão nos meus lábios, as mordidas, o seu corpo pesando no meu, nuns toques indelicados – como se eu fechasse e abrisse os olhos, o tempo todo, repetidas vezes. A minha cabeça rodava. E a Clara tinha as mãos metidas no meu jeans. Roubava-lhe um beijo e nos contorcíamos, juntas. Tell me I’m the only one, the only one”, soava ao fundo – aquela era a quinta vez. Ri sozinha ao reparar e a beijei logo em seguida. Enfiei as minhas mãos no seu cabelo, a segurando com vontade enquanto a beijava, esquecendo de respirar. Desci um dos meus braços até um dos botões da sua calça, dois, o zíper, o lance todo. Apoiei a testa no seu ombro, por um segundo, buscando um pouco de estabilidade – tentando voltar à realidade, ao mínimo de consciência. Numa tontura alcóolica, o fogo queimando, desnorteada.
 
Caralho.
 
A Clara encostou a boca no meu ouvido, “vamos voltar pra casa, quero você sentada na minha cara enquanto eu...”, e foi deslizando os dedos para dentro de mim, me falando cada obscenidade que estava com vontade de fazer ali e não podia. Puta merda. Tudo o que eu queria era uma cama, porra. E sobriedade. Senti que ia passar mal. Nem pensar, se controla, era o único pensamento que a minha cabeça conseguia formular, você consegue. Aceleramos então, a intensidade, tudo. Os beijos se multiplicaram, o calor, nossos corpos arrastados, tudo. Tudo confuso – e gostoso. Sentia como se estivesse prestes a explodir. Tell me I'm the only one, the only one...”, ouvia Uh Huh Her cantar, repetidamente. Nuns orgasmos simultâneos. Perdi o fôlego por um instante, meu corpo inteiro em êxtase. A Clara beijava o canto da minha boca, entreaberta, sentindo cada pedacinho das nossas peles se tocando. Cacete.
 
Assim que caí de novo em mim, me senti mal. Dei dois passos para trás no breu e me virei rapidamente, apoiando a mão nos tijolos da casinha do gás.
 
_Cê tá bem, Bo? – a Clara se assustou, vindo na minha direção.
 
Colocou a mão no meu ombro, preocupada. E tão logo respondi “n-não muito”, engasgada e sem ar, foi o que bastou para o meu estômago se revirar por completo. Vomitei duas vezes, todo o maldito vinho. Gran finale.

julho 09, 2012

Tautologia

Qual o tamanho da merda que falei?
 
Me angustiei, a observando no meio da sala, com uma taça de vinho entre os dedos. Conversava animadamente com a Lê, a Thaís e a Ju, entre sorrisos e o trincar da garrafa na borda das taças, constantemente enchidas antes mesmo de esvaziar. Droga. Entrei na sala e a Clara sorriu ao ver eu me aproximar da roda que elas formavam, ali em pé. Apoiei suavemente a minha mão nas suas costas e ela me olhou, ao seu lado, me oferecendo um gole. Aceitei. Conforme bebia, a encarei em busca de qualquer indício de que tinha escutado a declaração que deixei escapar, minutos antes, sem intenção.
 
Ela percebeu? Percebeu ou não percebeu?!, tentava ler cada milímetro dos seus gestos, em vão, analisando o seu comportamento. Era estranho não saber – aquilo me deixava ansiosa. Mas as suas expressões permaneciam neutras, enigmáticas. Indecifráveis. Enquanto eu me torturava atrás de sinais invisíveis, a Thaís tagarelava incessantemente com a Lê na nossa frente. A Clara me encarou de volta, dando um gole no vinho. E assim que abaixou de novo a taça, sorriu discretamente na minha direção.
 
Ah, sim. Ela ouviu.
 
_Sabe... – a Clara se aproximou então do meu ouvido, cochichando, sem atrapalhar a conversa das meninas – ...eu quis te matar lá dentro.
_Desculpa – murmurei baixinho, rindo.
_Você é muito panaca!
 
Referia-se à minha ceninha com a Marina na cozinha. Já tinha quase esquecido daquilo de tão preocupada que estava com a porra do “eu te amo” que soltei sem querer. , pensei, talvez ela sequer tenha ouvido. Uma pausa de milésimos de segundos do seu olhar no meu, todavia, fez com que a dúvida ressurgisse. Oscilando a cada sinal incerto. Isso é ridículo, me irritei com a minha inquietação involuntária, eu devia só perguntar logo de uma vez. E num impulso, toquei de leve no seu braço.
 
_Ei, escuta, quer sair pra fumar ou algo assim?
_Vamos.
_Tá – sorri – Vou só pegar o meu maço, espera aí... Já volto!
 
Voltei uns passos até a cozinha, onde tinha largado o meu cigarro. No caminho, trombei com outra amiga nossa, a Flavinha, que saía lá de dentro. Estava com uma regata preta e jaqueta de couro por cima – o que, junto com o cabelo Joãozinho, a deixava mais caminhão do que nunca. Assim que cruzou comigo, me segurou pelo braço por um instante:
 
_Cara, é sério que a Marina saiu com essa mina aí que cê trouxe? – falou baixo, como se fofocasse, e eu a encarei, surpresa – Cê já sabia? Faz tempo isso?!?
 
Como diabos vocês trocam esse tipo de informação em menos de cinco minutos, mano, me irritei, surpresa com tamanha boca de sacola das minhas amigas, puta merda.
 
_Sim. Não. E sim – respondi, impaciente – Quem te falou?!
_A Camila... – riu e eu fiquei ainda mais confusa, como a Camila já sabe? – ...mas e aí, mano, ela expulsou mesmo a Má depois de ter comid...?!
_Escuta – a interrompi – Não é da sua conta, é?
 
Larguei ela falando sozinha e continuei até a cozinha. Minha ex-namorada estava encostada no balcão, com as pernas cruzadas em frente ao corpo e a mão beliscando um pote de amendoins, enquanto falava com a Paula. Uma fofoca dessas, jura, logo você? Lancei um olhar indignado para ela. E peguei o maço que tinha esquecido sobre a mesa. Saí de novo para a sala e fiz um gesto para a Clara me seguir. Passamos por uma porta que dava na lateral da casa, numa espécie de quintal estreito. Alguns vasos com temperos malcuidados ocupavam o chão de ladrilho. Encostamos na parede e acendemos cada qual um cigarro.
 
_Cê já tá oficialmente conhecida entre as minhas amigas... – murmurei com o filtro ainda na boca, colocando o isqueiro de volta no maço – ...já virou a “mina que deu um fora na minha ex”.
_Nossa, hein... – a Clara arqueou a sobrancelha, irônica – Valeu!
_Quê?! Não fui eu que espalhei, meu... – achei graça – ...só tô te contando, porque vieram me falar.
_Ai, que ótimo...
 
Colocou a mão no rosto, soltando a fumaça para baixo. E nós rimos juntas. Estava frio e escuro ali, do lado de fora. Conforme tragava o meu cigarro, observei a Clara sorrir e senti verdade em cada palavra que escapou da minha boca naquela noite.
 
_Meu... – senti meu estômago embrulhar e desencostei da parede, ficando na sua frente – ...eu q-queria... falar com, com v-você.
_Sobre...?
_Ah... – peguei na sua mão, envergonhada, e os meus tênis esbarraram nos seus – ...sobre uma parada aí que... eu... m-meio que falei... antes.
_Ahm... – a Clara riu de volta – ...e o que foi que você “meio” falou antes?
_Ah... cê sabe...
_Não, não sei. O que era?
 
Agora eu tinha certeza. A desgraçada sabe. Levantei a cabeça e olhei bem nos olhos da Clara, espertos e debochados, mordendo os seus lábios à espera da minha resposta e, ah, ela sabe.
 
_Nada – respondi, a contrariando.
_Hum, sei... – ela riu junto e entrelaçou os dedos nos meus, carinhosamente – ...eu te “nada” também.

junho 23, 2012

Bullying

A expressão de surpresa da Lê, ao abrir a porta e deparar-se conosco, me fez sentir como se eu devesse ter ligado antes. Não era pra vir?, pensei. Mas logo ela abriu um sorriso, de orelha a orelha, descendo a rampa da garagem num moletom com bermuda, bem sapatão. Me cumprimentou com um abraço violento, já notavelmente embriagada.
 
_PORRA! PORRA, MANO!! – disse, em alto e bom som, no meu ouvido; aí se afastou, olhando alternadamente para nós duas paradas ali – Não sabia que você vinha, meu...
_Podia vir, né?
_Tá brincando?! Lógico!! Já te xinguei para meio mundo porque cê não tava aí, meu!
_Besta! – revirei os olhos – Mas e aí, afinal, quê que tá rolando hoje?
_Como o que tá rolando?! – me deu um tapa no alto da cabeça – É aniversário da Jéssica, ô sua merdinha. Dá pra acreditar nesta mina, meu?! – me apontou para a Clara.
_Foi mal, foi mal, foi mal...
 
Me desculpei, rindo, de cabeça ainda abaixada. E a troglodita da Letícia partiu para cima de mim com os punhos fechados, me enchendo de “socos” no estômago, na costela, argh. Bêbada de merda. “Aparece aqui e num sabe nem que tá fazendo, ô infeliz, num ia dar nem um parabéns pra mina, sua sem vergonha!”, se divertia às custas da minha memória de maconheira, gritando. Durou seis ou sete segundos apenas, nem doeu também, mas eu dispensava aquela demonstração de a-gente-se-trata-assim-na-base-do-soco bem em frente à Clara. Quando enfim me consegui me soltar, a Lê se virou à minha convidada e sorriu:
 
_E você, então, é a famosa?
_Ah, é! Esta é a Clara. Cê lembra dela, não... – eu fiz as devidas apresentações, ainda me recuperando – ...cê tava junto quando a gente se trombou aquela vez lá, na Calixto.
_Hum, então é vocêêê... – a Lê desafinou, rindo, e eu implorei mentalmente para que o comentário parasse aí, mas claro que não – ...essa aqui, ó... – colocou o braço ao redor do meu pescoço e eu dei um sorriso amarelo – ...essa aqui ficou toooda, toda quando te viu lá, cara, não queria nem me falar teu nome! – a Clara me olhou, se divertindo com a revelação, e eu quis morrer – Eu soube na hora! Sabia! Sabia que tinha coisa!! Voltou toooda apaixonadinha pro estúdio comigo, ficou o resto do dia agindo esquisit...
_Tá bom, tá bom! Já chega!
_Quê?! E tô errada?! – a Lê arqueou as sobrancelhas – Ah lá, uns meses depois e cês tão aí! Juntinhas!
_Tá, Letícia. Já deu, vamos. Se comporta! – resmunguei e virei pra Clara – Vamos entrar, Bi, vem...
 
Puxei-a para longe da minha amiga sem amor à vida, que riu. Menos de três minutos aqui e já me arrependi de ter vindo.
 
_Ah, mas eu tava achando interessante...
 
A Clara achou graça, conforme eu a puxava para dentro da casa. Passamos pelo corredor lateral da entrada. Ali moravam a Lê e uma amiga meio hétero que estudou com ela – e que já tinha beijado todas nós em algum momento daqueles anos todos, nas festas que elas davam ou nos nossos rolês. A Camila era alguns anos mais velha que eu, sorri assim que a vi, sentindo que não nos encontrávamos há uns bons dois ou três anos.
 
_E essa aqui, hum, quem é? – ela olhou para a Clara então, curiosa.
_Clara, Camila. Camila, Clara.
_Prazer... – a Clara sorriu.
_Ó, já vou avisar... – brincou, me apontando – ...cuidado com essa daqui, hein?
 
Caralho. Me deixa só chegar antes?, revirei os olhos. As duas riram. E a Lê passou por trás de mim, dando outro tapa no topo da minha cabeça. “Agora cê tá me achando menos mal, né?”, cochichou no meu ouvido. “Não”, retruquei baixinho, “e você não tá perdoada ainda”. A sala estava ocupada por umas sete ou oito amigas nossas – incluindo a Thaís e a Ju, que agora namoravam oficialmente. Passei o olho e não achei a aniversariante.
 
_E a Jéssica, cadê?
_Tá lá na cozinha com a Má.
_E ela e a Lê, hein, mano? – perguntei baixinho, em tom de fofoca – Tão juntas ainda ou não?!
_Ah, meu, sei lá. Eu não pergunto, não falo nada, né... – a Camila deu de ombros, rindo – ...mas direto ela dorme aí.
 
Nos olhamos como se soubéssemos o que ambas não queriam admitir. As duas estavam saindo desde antes do aniversário da Lê, quando fomos para o Guarujá. E para o terror da minha amiga, que no fundo gostava mesmo era de namorar, a Jéssica tinha mais talento pra galinhagem. Aí ficava esse chove-num-molha sem fim. A Clara nos observava futricando, tentando acompanhar quem era quem. Fiz um gesto com a cabeça para ela e fomos em direção à cozinha para achar a aniversariante. 
 
_Não! Espera, espera... – a Clara me puxou pelo braço, de repente, já quase na porta – ...espera, só um segundo!
_O que foi?!
 
Eu a olhei, assustada, e ela se escondeu atrás das próprias mãos.
 
_Ai! – reclamou – Tem uma mina que eu já peguei aí!
_Quê?? Quem?!? – estiquei a cabeça pela porta e vi a Jéssica cozinhando perto do balcão, junto com a Marina e a Paula, que pareciam preparar um molho de macarrão em meio a uma zona de pratos e louça suja – A Jéssica? A de tatuagem no pescoço?!
_Não! Não! A de cabeço comprido!!
 
Comecei a rir, descontroladamente.
 
_A Marina?

maio 31, 2012

Velhos amigos

_E aí, rockstar... – o Marcos me zombou, acendendo o próprio cigarro, e eu revirei os olhos – ...relaxa, não vim aqui para te encher.
_Sei.
_Cara... – ele riu da minha amargura – ...cê gosta mesmo dessa mina, hein?
_E-eu nã... – suspirei – ...não vou discutir isso com você.
 
Balancei a cabeça e fechei os olhos por um instante, apoiando contra a parede. Por favor, só me deixa em paz, expirei pelo nariz. E nem era como se o Marcos estivesse sendo escroto – pelo contrário –, surpreendentemente estava mais de boa do que o vira agir em meses. Mas, , sob a influência dos infindáveis comentários idiotas dos meus amigos nas últimas horas e de todo álcool que corria pelas minhas veias, o meu julgamento já não tava lá dos melhores. E tudo o que eu queria naquele momento era esquecer da Mia e daquela porra de beijo.
 
_Olha, não vim te atazanar, mas cê é foda também... – deu um trago ao meu lado – Não sei como o Fer não percebe, na boa...
_Não tem o que perceber – soltei a fumaça também e apaguei a bituca do meu cigarro no chão, sem paciência – Não tem mais nada entre a gente.
_Não?! E aquilo na sala foi o quê, então?!
_“Aquilo” o quê, mano?!
_Como “o quê”?! – sua voz ecoou no corredor – Cê beijou a porra da mina na frente de todo mundo!
_Ah, Marcos, vai à merda! – estourei – Era só brincadeira. Brincadeira, caralho!
_Cê vai mesmo me dizer que aquilo foi na brincadeira?!
_Claro que foi, porra! Não tive nada a ver com aquela merda! – gesticulei, indignada – Foi outra mina que desafiou!!
_Quem? – ele riu, agora sim, com a mesma atitude de merda dos últimos meses – A amiga da Mia?! Tá bom, então.
 
Para quem não veio me encher até que tá enchendo bastante, né?
 
_Olha, eu não preciso ouvir isso, na boa... – me irritei – O que é agora?! Hein? A porra da teoria da conspiração??
_Teoria da consp... – ele mesmo se interrompeu, ridicularizando – ...cara, cê tá com culpa estampada na sua testa! Se toca!! Só o jeito que, q-que cê OLHA para ela, meu... Nem a pau que vocês não tão se pegando!!
_Não, sinto muito te desapontar. Acabou – retruquei – Ela escolheu ele. E eu, e-eu tô feliz com outra mina.
 
Ele me olhou, descrente, com uma expressão de dar nos nervos. Tão arrogante – e eu já tão fora de mim – que tive vontade de acertar uma no meio da sua cara. Babaca. Entretanto, me segurei.
 
_Olha, eu não espero que você entenda... – resmunguei – ...não mesmo, Marcos.
_E o que tem pra entender?! – franziu as sobrancelhas, levemente exaltado – Meu, como você consegue?! Morar com o cara assim, olhar na cara dele todo dia, mano, escondendo uma parada dessas!
_Fala baixo, porra! – murmurei de volta – E cara, já disse que não tem nada rolando. Nada!
 
Na mesma hora, escutamos a porta se abrir. Virei para trás e vi o Benatti cambaleando para fora do apartamento, acompanhado de uma garota que eu peguei na época de colégio, indo juntos para a saída de incêndio – onde a Thaís também tinha se metido com a crush dela. Me preparei para levantar também e, antes que eu pudesse sair do alcance, o Marcos resmungou:
 
_Olha, é bom mesmo não tá rolando nada... – deu mais um trago, sem me encarar diretamente – ...porque o Fernando gosta mesmo da Mia e cê tá ligada. 
 
Revirei os olhos e dei as costas para ele, entrando de novo no apartamento. Quem ele pensa que é para me dar esporro? Uma olhada rápida na sala, em meio àquele caos, e imediatamente me irritei com aquela droga de festa interminável. Foda-se essa merda também. Andei até o meu quarto, num mau humor terrível, me trancando ali. E em algum momento, apaguei.

maio 25, 2012

Os valores modernos

Podia sentir todos os olhos em nós, mesmo com os meus fechados. Expostas ali, pela primeira vez – em meio aos sons exagerados da festa, o rádio gritando e as pessoas que nos rodeavam, bêbadas, atentas a cada gesto nosso. Avancei no vazio. E as nossas mãos se encontraram sobre o piso de madeira, as pontas dos meus dedos tocaram os dela, assim, de leve. E a minha pressão caiu na mesma hora.
 
Não, me retraí. Não posso d-dar bandeira.
 
Dei-me conta de que não sabia como beijá-la assim. Em público. Não sabia o que não fazer. Confusa do bancar ou não na frente de todo mundo – porque, se por um lado eu não podia me conter demais, perigando transparecer o quanto aquilo me afetava; por outro, também não podíamos demonstrar intimidade. Na forma como nos segurávamos. E logo me dei conta de que eu não sabia como fingir desconhecimento. Da sua boca, do seu ritmo, de como inclinar a porra da cabeça, de como me encaixar nos movimentos dela, inferno. Tudo isso, em milésimos de segundo, passou pela minha mente – milhares de pensamentos revirando meu cérebro, o meu estômago. Argh.
 
Embriagada e ainda com os olhos fechados, podia sentir a Mia sorrir a meros milímetros do meu rosto. Tá se divertindo, desgraça? Fui me aproximando, me inclinei para frente, cacete. Cacete, cacete. Até os nossos lábios, enfim, se tocarem. Puta merda, tá acontecendo mesmo. O nervosismo desceu meus braços, lambendo meus ossos e se espalhando pelas minhas mãos, plantadas no chão. Agora menos firmes do que um segundo antes. Mas então a Mia entreabriu a sua boca e o seu gosto se fundiu naturalmente em mim.
 
De repente, tudo era como sempre fora. Fácil, instintivo. Nosso. A sala, o som do rádio, tudo ao redor se tornou líquido num instante – a Mia a única coisa sólida restante, real, e meus dedos tomados pela vontade de a tocar, de me agarrar à sua presença, agora tão palpável, concreta. Durou quatro, seis segundos no máximo. O suficiente, no entanto, para empurrar a Mia com tudo de volta à minha realidade – me lembrando de todos os beijos que eu ainda tinha guardados para ela dentro de mim. Como é difícil te negar, garota.
 
E quando acabou, reabrimos os nossos olhos e nos encaramos rapidamente. Inferno. O que diabos estamos fazendo? O constrangimento cobriu meu rosto. E eu tentei não a olhar por tempo demais, abaixando logo a cabeça. Forcei uma expressão de revolta – “eu vou matar todos vocês”, reclamei em voz alta. Todo mundo na roda riu. Minhas bochechas ainda queimando. Nos afastamos, engatinhando ao revés até voltar para os nossos devidos lugares, num teatro até que convincente. E assim que sentei de novo, o Fernando abriu a boca:
 
_Quer dizer, então... – fez graça, tragando um cigarro – ...que agora eu posso dar uns beijos na Clarinha?!
_N-não ouse, babaca!
 
O ameacei. E no segundo seguinte, um copo plástico voou na sua direção das mãos da Mia, com um resto qualquer de bebida. Ele riu e se curvou, sendo atingido na altura do ombro. Todo mundo riu também. A situação parecia que seria esquecida logo, sucumbindo entre os demais desdobramentos da festa e passando despercebida – mas é claro, claro, que não acabou aí. Ah, não. Não. Os idiotas dos nossos amigos não iam deixar tão barato assim. Madrugada afora, pelas horas seguintes, fizeram questão de me atazanar incansavelmente por causa daquela porra de beijo.
 
_Mandou bem, hein... – um dos nossos amigos comentou por cima do meu ombro, me alcançando no corredor – ...pegou e com aval ainda.
_Cala a boca, Igor.
_Quê?! – retrucou, achando graça – A Mia é mó gata, meu.
_QUAL O SEU PROBLEMA?!?
 
Desviei do idiota, encerrando aquela “conversa”, e entrei pela porta da cozinha. Mas não importava aonde fosse, eu não conseguia fugir. Em todos os cantos daquela merda de apartamento, tinha algum engraçadinho com um comentário a respeito do maldito beijo. Haja paciência. E se não eram os meus amigos cara-de-pau, era a Mia – quem eu pretendia, sim, evitar pelo restante da festa. Para não levantar mais suspeitas. Não tô podendo.
 
Lá pelas tantas, saí no corredor do prédio para respirar em paz por um segundo. E vi a Thaís mais adiante, perto do elevador, conversando com quem presumi ser a Ju. Uma butch gorda e forte que tinha um undercut com topete, desses meio anos 50. Puta merda. Rapidamente entendi todo o nervosismo da minha amiga em falar com ela – a mina é gata mesmo. Sorri ao ver as duas ali e sentei ao lado da porta do apartamento, com as costas apoiadas na parede. Acendi um cigarro e estiquei as pernas, aliviada por ter um momento tranquilo.
 
Foi quando alguém abriu a porta do apê, deixando o som da festa escapar para o corredor. Virei o rosto para cima para ver quem era e dei de cara com o Marcos, com a mão ainda na maçaneta, fechando a porta atrás de si.
 
_Ah, maravilha... – murmurei, irônica – ...era só o que faltava mesmo.
 
Ele riu, tendo ouvido parte do comentário e captando minha empolgação. Bati as cinzas do cigarro no chão, sem paciência para ouvir sermão, e ele se sentou ao meu lado, me olhando rabugenta ali. Por que diabos eu fui aceitar esse desafio?

maio 24, 2012

Coação

Fiquei sóbria na mesma hora.
 
_O, o q-quê? – o meu coração congelou, merda – Nã... n-não!
_Vai. E ó, beijo de verdade! – a loira insistiu, se divertindo – Num é pra vir com selinho!
_MANO, NÃO! TÁ LOUCA?
_BEIJA LOGO! – alguém gritou no meio da roda.
_N-não, não... – me atrapalhei, suando frio – Não, gente, e-eu...
 
Inferno.
 
Não conseguia me mover, sem saber como diabos reagir àquilo. Puta merda. Olhei para a Mia e ela sorriu descaradamente – argh, sabia, isso tem dedo seu. Maldição. Mas e-eu, não, eu não podia. Senti o desconforto subir pela minha espinha, ameaçando expor cada segredo que eu guardava trancado no peito, agora foi longe demais, porra. Olhei então para o Fer, atordoada, procurando qualquer saída ou resposta de que merda eu deveria fazer. Mas ele estava chapado demais para sequer registrar o que estava acontecendo – e me preocupava que tivesse um lapso de consciência tardio no dia seguinte.
 
_Meu, n-não, não dá... – retomei, ansiosa, encarando a mackenzista – ...é, é sacanagem, mano.
_É só um jogo, velho! – ela desdenhou e a Mia achou graça, ao seu lado, se entretendo com a minha hesitação – Só beija duma vez!
_N-não! Não.
_Que tem?!
_Como “o que tem”?! – me exasperei – É... a, A... NAMORADA DO MEU MELHOR AMIGO, CARALHO!
_AH, QUAL É! – o Benatti resmungou, sentado ao lado do Fer – Vai dizer que nunca passou pela sua cabeça?! – zombou.
_NÃO! Eu n-nunca f.... – gaguejei, forçando uma expressão séria.
_AAAAHHHHHHH, TÁ!
 
A festa inteira gritou junto.
 
_QUÊ?! Cara, não é assim – fuzilei todos de volta, puta – NÃO MESMO!
_VAI LOGO, CARALHO... É SÓ UM BEIJO!
_É. É só um beijo, cara... – a Thaís falou baixo, me empurrando com o ombro – Se enrolar, é pior. Só vai lá!
_Mano, e-eu... – traguei o baseado, numa tentativa angustiada de pôr a cabeça no lugar – ...e v-você?! Não vai fazer nada, porra?!
 
Mas a Mia só me olhou de volta do outro lado da roda, rindo, é claro que não. Desgraçada. Meus amigos, os dela, a porra do Fernando, todo mundo me encarava, esperando. O meu coração acelerou, angustiada – não tinha como fugir.
 
_N-não sei, e-eu... – tropecei nervosamente nas palavras e aí olhei para o Fer, como se lhe pedisse permissão – ...e você, vai me matar amanhã ou o q-quê?!
 
Ele riu, em negação, balançando a cabeça e erguendo as mãos – como se dissesse “vai em frente”. Bêbado de merda. Então era carta branca, agora não tinha mais volta. Passei o baseado para a Thaís segurar. E sentindo as minhas mãos tremer, as coloquei no chão. Insegura, comecei a engatinhar roda adentro. Droga. A Mia se aproximou também, engatinhando até mim, na frente de todos nossos conhecidos. Nos encontramos no centro da roda e eu a olhei com toda a indignação que podia concentrar num só gesto, apertando as pálpebras na sua direção. Filha-da-puta. Todo mundo nos observava. A desgraçada fechou seus olhos, ainda rindo, e eu me vi obrigada a fechar os meuso meu coração prestes a sair pela boca.
 
Puta que pariu.

maio 23, 2012

Caos

Aconteceu nem duas horas depois, me pegando de surpresa. Estava distraída, molhando o dedo na ponta da língua. Um lado tá indo mais rápido que o outro, notei. Mas aí algum amigo imbecil passou e tropeçou nos meus pés, largados adiante, atrapalhando o procedimento.
 
_OLHA ONDE PISA, PORRA! – reclamei.
 
Estava deitada no chão da sala, completamente bêbada, com a cabeça no colo da Thaís. Com o indicador ainda úmido, percorri meio perímetro do meu baseado, logo abaixo da linha que queimava, tragando e tentando corrigir a trajetória da brasa. Estava todo mundo frito. Outras pessoas se acumulavam sentadas ou caídas à nossa volta, a maioria envolvida num jogo idiota.
 
De repente, alguma coisa vibrou na parte de trás da minha cabeça.
 
_Cara... – minha amiga, cuja perna me servia de apoio para a nuca, me cutucou – ...olha isso, mano.
 
Olhei para cima e vi a tela do seu celular com a mensagem da Ju, a tal da mecânica com quem ela estava flertando há dias. O SMS perguntava se a Thaís estava acordada. É, às 3 da manhã. Mas nenhuma das duas tomava a iniciativa. Não é possível isso, revirei os olhos, já irritada com aquele lenga-lenga. Dei mais um trago, acertando por fim a linha da brasa, e segurei a fumaça por bem mais tempo do que o recomendável com o tanto de álcool que eu tinha no sangue. A combinação não me fazia bem. Ou talvez fossem os excessos. Me levantei com certo esforço, sentando ao lado da Thaís, em frente à roda que se formava aos poucos no chão da sala, e estiquei a mão para que ela me passasse o telefone.
 
_Dá. Deixa eu responder! – pedi, com o baseado ainda na boca.
_Nem a pau! – ela riu, enquanto eu tentava tirar o celular das suas mãos – Para, mano, cê vai foder com tudo!
_Cala a boca! Não vou, não! – argumentei, ofendida, e ela continuou se esquivando – Me dá!
_Não! Sai pra lá!
_Velho, CHAMA ELA PRA VIR AQUI!
_Assim?? No meio da madrugada?!?
_ELA QUE TE MANDOU MENSAGEM, THAÍS, PORRA! – consegui pegar o telefone, finalmente – Vai. Confia em mim, meu. Deixa eu fazer! 
 
A Thaís esfregou as mãos no rosto, nervosa, enquanto me observava digitar. “Me passa isso aí então”, pegou o baseado, como se estivesse prestes a se arrepender. Troquei quatro ou cinco mensagens com a mina e, em menos de três minutos, já estava passando a porra do meu endereço para ela vir. “Frouxa”, zombei a Thaís, devolvendo o celular, depois de fazer todo o serviço por ela.  
 
Apoiei as costas de novo na parede e, num impulso inconsciente, olhei rapidamente na direção da Mia. Ela estava sentada do outro lado da sala, perto de duas amigas suas do Mackenzie. Já tinha descalçado os coturnos e estava com o cabelo bagunçado, a área onde minha mão tocou sua cintura ainda vibrava quente na minha pele. Dei mais um trago lento no baseado, a observando ali. E bem nesse instante, o olhar da Mia cruzou o meu. Estavam levemente vermelhos os seus olhos, como os meus provavelmente. Ela sorriu. E balançou a cabeça – como se ainda não tivesse me perdoado pela lavanderia.
 
Me diverti, arqueando as sobrancelhas para ela – com raiva?
 
Uma movimentação no meio da roda nos distraiu. O Benatti levantou falando alto, desafiando o primo a virar quase um quarto duma garrafa de vodka. Esse jogo é uma imbecilidade, puta merda. Meus amigos estavam se provocando aleatoriamente – inventando um desafio mais estúpido que o outro – e o da vez era beber aquela vodka barata, que circulava de mão em mão ali, até atingir a marca do logo impresso na garrafa. Não tinha chance daquilo ia acabar bem.
 
_MANO, NÃO. DEIXA DE SER IDIOTA! – me intrometi na roda, enquanto todo mundo opinava ao mesmo tempo – CARA, CÊ VAI PASSAR MAL!
 
Mas “o cara” levantou, se metendo a macho, e todo mundo começou a encorajá-lo a virar logo. Aos gritos. Vamos mandar o povo pra casa de ambulância hoje, meu deus. O infeliz meteu o gargalo na boca, virando verticalmente a garrafa e bebendo de uma só vez. A vodka descia como água em galões de bebedouro, dava para ver as bolhas de ar subindo. Balancei a cabeça, desistindo dos meus amigos.
 
Essas brincadeiras sempre começavam com besteiras – eu mesma fui obrigada a dar em cima de um cara desavisado uns minutos antes. Aí o álcool ia progressivamente piorando o nível das apostas. O Fernando, por exemplo, sempre acabava abaixando as calças em algum momento. E agora lá estava ele, uns metros mais para lá na roda, enchendo a cara, lata atrás de lata, e incentivando o primo do Benatti a dobrar a porra da meta. Sem chance. O cara mal conseguiu chegar na marca do logo antes de cuspir metade da vodka para fora. Na boa, qual é o propósito da nossa geração?
 
Todo mundo entrou em surto, berrando que não tinha valido, enquanto o cara brigava com o Benatti, dizendo que tinha chegado até a marca, sim, um empurrava o outro, num desaforo amigável, e eles riam. Eu assistia aquele caos, tragando o meu baseado ali, na minha, enquanto todo mundo gritava fora de si. E foi nisso que uma das garotas perto da Mia me chamou, fazendo com um gesto com a cabeça:
 
_Ei, você! – a loira do Mackenzie disse na frente de todo mundo, do outro lado da sala – Duvido cê beijar a namorada do teu amigo. Pega a Mia aí!

abril 13, 2012

Armistice

_Com a Mia?! – a Thaís arqueou as sobrancelhas, irônica – Não. 
_Por quê? – o Gui logo tentou se inteirar – Que rolou com a Mia?
_E-ela... quer dizer, a gente meio que se pegou depois da sua estreia na quinta e, não sei, eu fiz merda, meu... – expliquei – ...acabou mal e, e ela ficou chateada, tentou conversar co...
_Não! – a Thaís interrompeu – Ela não “tentou conversar”, a amiga dela ligou pra te dar esporro. Foi ISSO que aconteceu! Como se cês tivessem na porra da quinta série!!
_Eita. Sério?
_É. Mas... n-não sei, ela... – respirei fundo – ...ela tava mal mesmo no telefone, Tha. Eu nunca vi ela chorar assim. E e-eu, sei lá, eu tava puta da cara, não escutei direito... não sei, e-eu... fui uma babaca. E, e eu gosto dela, apesar de tudo. Porra, fui apaixonada pela mina mó tempo, mano! É foda agora ouvir a Mia fal... – pausei – ...enfim, não sei. Só sei que não quero tratar ela assim. Não me sinto bem.
_Velho, para. Para! – me deu bronca – Nem entra nessas, cara. A Mia precisa assumir a responsa pelas decisões dela, não dá pra querer tudo. Fica aí falando que tá mal? A mina NAMORA seu amigo! Vai se foder! Se ela tá tão na merda assim por você, por que ela continua com ele?! – se revoltou – Porra. É muito fácil assim, né, caralho!
_Tá, mas... – hesitei – ...não sei.
_Cara, larga mão. Essa mina só te faz mal! Cê tem que ficar com quem te faz bem, mano. Com a Clara. Foda-se a Mia!
_É, amiga... – o Gui comentou – ...eu também acho. Mas se cê tá preocupada com como foi a conversa de vocês, por que cê não liga pra Mia? Tenta falar com ela numa boa, sabe, sem barraco. Só para pôr um ponto final. E aí cê pode seguir sua vida com a Clara... – aconselhou – Acho que vocês duas precisam disso, meu.
 
Respirei fundo. E desliguei a água do chuveiro – ainda sem saber como me sentia com tudo aquilo. Fui até a caixa de força e religuei a energia para testarmos a nova resistência. Talvez devesse mesmo falar com a Mia, refleti, mas não sei como. Não tinha muita certeza se não acabaria piorando ainda mais a situação, ao mesmo tempo que não via outra solução para parar com aquelas brigas. Argh. Assim que a água aqueceu, o Guilherme nos agradeceu e rapidamente expulsou da sua quitinete, indo tomar banho para ver o boy dele.
 
O relógio do meu celular já marcava uma da tarde. Aproveitei a vizinhança pra levar a Thaís num restaurante de lámen que eu conhecia ali perto. Assim que pedimos, o meu estômago roncou – a gente não tinha sequer tomado café naquela manhã. A Thaís tagarelava sem parar, qualquer besteira sobre o aquário que tinha em frente à nossa mesa, mas a minha cabeça estava tão cheia que eu mal a ouvia. Aquela era a primeira vez em muito tempo que eu estava num relacionamento que me fazia tão feliz assim. Só agora me dava conta do quanto, de fato, gostava da Clara. E da nossa sintonia, do seu jeito descomplicado. De como me acalmava e inquietava ao mesmo tempo, de como a gente funcionava tão bem juntas.
 
E eu sabia – sabia que se fosse ficar de vez com ela, eu precisava fazer aquilo direito. Então fiz o que nem eu, nem a Mia conseguimos fazer em todo aquele tempo. Peguei o celular e saí para a rua, acendendo um cigarro, enquanto discava para ela. Os toques se estenderam, consecutivos, ressoando no meu ouvido – atenta a cada um deles. Atende, vai. Por um instante, achei mesmo que não o fosse fazer. Mas então ouvi a sua voz surgir do outro lado da linha.
 
_Por que você tá me ligando, meu?
 
Ela suspirou e pude senti-la amargurada comigo, exausta.
 
_A gente precisa conversar... – respondi e a Mia se manteve quieta, do outro lado – ...direito. Posso passar aí hoje, depois do almoço? Eu não quero mais brigar, Mia.

abril 11, 2012

Os placebos

Graças a deus, nunca tive cara de heterossexual nessa vida. Cresci com os moleques da rua cantando “Maria-sapatão” para mim antes mesmo de eu saber o que era uma lésbica. E desde os meus onze ou doze, quando minha mãe deixou de ter qualquer controle sobre o que eu vestia, já andava por aí como a pequena caminhãozinha do bairro. As únicas pessoas que me olhavam e achavam que algum dia eu ia me casar com um “bom moço”, em absoluta negação, eram as vovós crentes que cruzavam comigo na padaria lá pelos meus dezesseis, alheias à minha bermuda grunge até o joelho e o boné pra trás. Sempre colecionei olhares por todo lugar que eu ia, já estava acostumada – aprendi a ter orgulho e a amar quem eu era, a gostar da subversão.
 
Mas, olha, não tava preparada para a experiência social de pegar o ônibus com a Thaís, naquela manhã de domingo. Eu e ela, juntas, segurando uma porra duma caixa de ferramentas ainda por cima, atingíamos outros níveis de caminhoneirice em público. Era o dobro de olhares. Uma mulher duns 40 anos ficou nos encarando tanto, mas tanto, sentada nuns assentos mais adiante, que comecei a provocar a Thaís – “ela tá te querendo, ó”, a empurrei com o corpo. “Cala a boca”. “Velho, ela não para de olhar pra cá”, eu ria e murmurava, “ou me quer, ou quer você”.
 
A gente se divertia, a observando de volta. E como ela não desviava o rosto, claro, começamos a fazer de propósito – enrolando as mangas da camiseta para mostrar as tatuagens, flexionando os braços para nos espreguiçar, exibindo os nossos pelos e sorrindo. Quando chegou o nosso ponto, entre a Sé e a Liberdade, passamos bem ao lado da dita cuja e eu ainda dei uma piscadinha na sua direção, fazendo graça.
 
Descemos aos risos. E subimos a rua até o prédio do Guilherme, que ficava numa travessa da Conselheiro Furtado. Assim que chegamos no apartamento, nos deparamos com um chuveiro velho já quase caindo aos pedaços, todo empoeirado.
 
_Ah, mano. Puta merda, Gui! – reclamei – Cê não podia ter dado uma limpadinha, pelo menos?
_Eu não, vai que tomo choque! Nunca nem mexi nesse treco!
_Nota-se... – a Thaís riu.
 
Abrimos o chuveiro e eu desci para comprar a resistência numa loja dessas multicoisas, a três quarteirões dali, enquanto a Thaís instalava a prateleira do lado da cama do meu amigo. Chequei meu celular de novo, quando já estava voltando, e sem sinal da Clara. Que merda. Entrei no apartamento. A Thaís tagarelava no banheiro, sentada sobre o tampo da privada na sua bermuda de moletom, argumentando pro Gui sobre como a revolução tinha que ser autossuficiente. 
 
_A gente, as sapa e os viado, temos que saber fazer tudo sozinhos, cara... – defendeu, acendendo um cigarro – ...não dá para depender dos outros.
 
Eu sorri e roubei o cigarro dela, subindo na escada para colocar a nova resistência.
 
_Falando nisso... – murmurei, com o filtro na boca – ...como tá a mecânica lá?
_Velho, fiquei até quatro da manhã ontem trocando ideia com ela... – a Thaís passou a mão no rosto – ...se essa mina num tiver afim, mano, na boa. Não sei nem o que pensar!
_Ela tá afim, sim, meu! Vai rolar!
_Espera – o Gui se meteu – Cê tá na dúvida se uma mina que ficou falando com você A MADRUGADA TODA quer te pegar ou não?!
_Ah, mano, eu acho que ela quer... – hesitou – ...mas é que a gente só fica falando de tatuagem, porra!
_Velho, a mina trabalha quase dez quarteirões do estúdio e entra TODO DIA lá pra trocar ideia com você, Thaís! – argumentei, já fechando o chuveiro – Ela quer te pegar, sim.
_E se ela já deu o telefone dela, gata... – o Gui piscou – ...é porque quer dar uns beijos.
_Num foi exatamente ela que deu, fui eu que pedi, né?
_Eu não sei por que cê tá tão insegura, velho... – desci da escada e devolvi o cigarro – ...a mina obviamente te quer!
_Ah, sei lá. É só que... – deu um trago, insegura – ...eu tô realmente afim, mano. Não sei por quê! Fazia tempo que num me interessava assim por alguém, meu. E aí, sei lá, eu fico meio trouxa...
_Thaís, meu, vai dar certo. Nem esquenta!
 
Sorri para ela e abri o chuveiro, deixando a água correr. O Gui insistiu, interessado na fofoca, perguntando como foi que a tal garota tinha começado a ir ao estúdio para ver a Thaís – naquele chove-num-molha delas que já durava quase um mês. E nesse meio tempo, a minha cabeça se distraiu. Vagando sem rumo, os meus pensamentos voltaram para a Clara, para a lembrança do beijo na porta do seu apartamento, numa vontade de ver ela e de saber se a gente estava bem. Me diz que não te assustei, garota. E então, num erro recorrente demais, pensei também na Mia. Nas coisas que tentara me dizer e em como a briga saíra de controle na sexta, nas suas lágrimas do outro lado da linha. E em como eu não queria que fosse assim entre nós, inferno. Por uns segundos fiquei ali, pensativa, segurando a chave de fenda no ar, enquanto encarava a água caindo.
 
_Ei! – a Thaís estalou os dedos, me despertando – Tudo certo aí?!
 
Balancei a cabeça, confusa, como se realmente acordasse. E ela riu.
 
_Tá... – murmurei, mas aí olhei para meus amigos, me sentindo estranha – ...v-vocês, meu, cês acham que eu fui muito babaca com a Mia?

abril 10, 2012

S.O.S. Sapatão

Dois dias depois, comecei a me perguntar se tinha feito merda.
 
A Clara não me respondia desde a minha ida-surpresa ao seu apartamento, o que agora me fazia cogitar se a minha declaração desajeitada a tinha assustado. Inferno, olhei para a tela do celular pela sexta ou sétima vez naquela manhã de domingo, sem qualquer resposta. Por que diabos eu fui até lá?, me frustrei, largando o celular ao meu lado.
 
Estava deitada no sofá da Thaís, onde passei a noite depois de alguns baseados e um filme terrível que assistimos na TV. Talvez ela só precise de um pouco de espaço, pensei, enquanto minha cara era lambida pelo Bruce. Nosso relacionamento era diferente de todos os que eu já tinha tido, sabia que a Clara gostava de certas liberdades tanto quanto eu. E eu amava aquele seu jeito desencanado, de quem sequer gosta de dar nome aos bois, zombando dos apaixonamentos alheios, enquanto a gente mesma não conseguia se largar. Nuns afetos que eram ao mesmo tempo livres e absolutamente compulsivos.
 
A gente se entendia. E isso, claro, tornava ainda mais difícil não receber qualquer notícia sua depois que eu fui até a casa dela só para dizer que “gostava mesmo” dela. Digo – isso e o peso na consciência que eu estava sentindo pela discussão com a Mia. Pelo que aconteceu no banheiro do apartamento. Argh. Quando meu celular finalmente apitou, para a minha decepção, era apenas o Gui. “C ta em casa?? preciso duma caminhao, urgente!”, dizia o SMS dele. Li e achei graça, já digitando de volta – “to umas quadras pra cima, fala ai”. Então veio a explicação: “queimou meu chuveiro kkkk”.
 
Fala sério.
 
“Ta me zoando q vc ñ sabe trocar resistencia, guilherme??”, comecei a rir. “q?? ñ me julgaaa! pfvrzin, vou ver o bofe.. preciso tomar banho!!”. “e ele ñ pode fazer pra vc? ja testa o chuveiro com ele dps... ;)”. “ñ confio em macho fazendo isso, QRO MINHA SAPATAO!!”. “rs daqui a pouco to ai!”. “c tem furadeira? Podia ja me ajudar a por a estante tb, neh?”. “ñ, mas to na casa da thais...”, digitei, enquanto levantava do sofá, “vou ver se ela tem”. Caminhei até o quarto da minha amiga, que dormia só de cueca preta e regata num colchão no chão, e bati na porta aberta.
 
_Bora levantar... – falei alto, a acordando – ...temos que resgatar um viado lá no Centro!

janeiro 21, 2012

Exílio

Se eu tinha uma certeza, depois de uma noite mal dormida e de um encontro indesejado com a Mia pela manhã – que me fez imediatamente dar meia volta na cozinha –, era de que eu não queria trombar com ela tão cedo. Pelos dias seguintes, então, me dividi entre a cama da Clara e o sofá da Thaís, devidamente compartilhado com o Bruce, voltando para casa de vez em nunca para pegar uma troca de roupa e fazendo valer a minha fama no trabalho. Que seja.

dezembro 27, 2011

Björk

Me puxou pela mão, entre as pessoas, e sorriu. Os arredores da Calixto estavam no caos de sempre dos sábados. A olhei, surpresa, sem saber direito como reagir, e tirei o cigarro da boca. O segurei para baixo por um momento, com o filtro entre o polegar e o indicador. A Clara me cumprimentou como se o tempo não tivesse passado. Estava com o cabelo preso em um grande coque improvisado sobre a cabeça, numa regata preta sem sutiã. Daquele seu jeito desencanado. E bonita – as pintinhas no rosto e os olhos levemente puxados, com seus ares de boliviana-argentina.
 
_Nossa, o que cê tá fazendo pra esses lados? – ela sorriu com o acaso.
_E-eu tô com umas amigas aí... – fiz um gesto com a cabeça e a mão que segurava o cigarro, apontando a direção em que a Lê e a Thaís foram – ...a gente t-tava...
_Cês vieram pra feirinha?!
 
Ela me interrompeu, interessada. E apoiou suavemente a mão na curva entre o seu ombro e o seu pescoço, num gesto sutil, daqueles que a tornavam realmente sexy, filha-da-mãe. O calor, aquela gente ao redor e a situação toda começaram a me incomodar – mas, por qualquer motivo imbecil, não caí fora na mesma hora.
 
_N-não, eu... e-eu vim tatuar lá no, n-no... sabe, aqui embaixo depois da Schaumann. O que vo... – me atrapalhei um pouco – ...o que v-você tá... – ela me olhava, tentando entender o que eu estava dizendo de forma pouco articulada, aí eu lembrei – ...ah, é! Você... v-você trabalha aqui, não é?!
_Sim – riu.
 
E foi só então que me toquei de que estava a um quarteirão da loja onde ela trampava, onde a viera buscar uma vez. Então tudo me voltou de uma só vez, as memórias da Clara, o que vivemos, o jeito brusco como terminou, de repente, caindo a ficha da situação em que me encontrava naquele instante. Senti um embrulho no estômago.
 
_Faz tempo, não faz? – ela percebeu.
_Faz. Olha, e-eu preciso ir, minhas amigas já tão lá na frente... – disse rapidamente, dando sinais com o corpo de que ia vazar – ...eu, a, a gente... tem que voltar lá pro estúdio, então...
 
O meu desconforto cresceu, merda. A sua presença me bagunçava. Não consegui sorrir, mas por algum motivo tentei ser educada – depois de algum tempo, acho, certas coisas perdem a importância. E os erros dela desapareceram por um momento.
 
_Tá... – a Clara sorriu e encostou uma das mãos no meu braço – ...a gente se fala, espero.
 
Murmurei um “aham”, concordando com a cabeça, e coloquei o cigarro de volta entre os lábios – teria dito qualquer só para sair logo dali. Me virei para descer e a Clara ficou me observando ainda, a menos de um metro na mesma calçada. Não dei bola, ou tentei. Desci a rua até encontrar a Lê e a Thaís, já do outro lado da feira e me apressando, perguntando quem diabos era aquela.
 
_Ah, uma garota aí...
 
Não sabia por que me sentia tão estranha. A Lê insistiu mais um pouco, curiosa, e eu mudei de assunto – preferia não falar a respeito. Voltamos ao estúdio, onde eu ficaria pelas próximas horas, vendo a Lê pagar pelo tanto que me zombou. Sã e salva.

dezembro 26, 2011

Pain lovers

Já tinha esquecido o quanto aquilo puta merda filha-da-puta do caralho doía. Argh. Minha costela ia se rasgando pouco a pouco. E a açougueira da Thaís ainda achava graça no meu sofrimento, me chamando de “dramática” durante o processo todo. Meu cu – aquele era o pior lugar para se tatuar. A pele na costela é fininha e o osso por debaixo aumenta a sensibilidade, atravessando seu corpo inteiro, é o equivalente moderno à tortura medieval. Nenhuma outra minha tinha doído tanto. Juro. Quase desisti quando acabou o contorno, mas a Thaís logo emendou o preenchimento e eu decidi encarar.
 
_PUTA QUE PARIU! – a xinguei – CÊ TÁ PESANDO A MÃO, CARALHO, NÃO É POSSÍVEL!
_Para de reclamar, mano! – a Thaís ria, debochando – Nem dói tudo isso...
_AH, NÃO! IMAGINA, SUAVE!!
_Pois merece, ninguém mandou atrasar... – a Lê me zombou também – ...agora aguenta!
_TOMAR NO CU, LETÍCIA, EU ATRASEI 20 MINUTOS, PORRA!
_Mano, na boa... – reclamou – QUE MERDA cê tava fazendo que cê não consegue chegar às 10:30 NUM SÁBADO?!
_QUE CÊ ACHA QUE EU TAVA FAZENDO?!
 
Resmunguei, tentando engolir a dor.
 
_Tava piranhando por aí, essa desgraça... – a Thaís riu, mergulhando a agulha na tinta antes de continuar – ...tava ou num tava, cachorra?
_TAVA... – travei os dentes, sentindo a maquininha cortar a minha costela – ...TAVA, CARALHO!
_Hummm, com quem?
_A-aquela, aquela mina lá do Vegas... – suei frio – ...PUTA MERDA, MANO!
_E valeu a pena, pelo menos?! – a Lê continuou, ignorando minha dor.
_Foi legal...
_Ih. Num senti firmeza...
_Não é, foi bom. É só que a mina... – respirei fundo, suportando a agonia que tomava o meu torso inteiro – ...a mina, n-não sei. Foi a primeira vez dela com mulher, sabe?
_Sei – a Lê riu – Então cê fez o serviço todo e agora tá subindo pelas paredes? É isso?
_Cala a boca, mano.
_Uai. Achei que já tava acostumada... – a Thaís fez graça – ...depois de todo o rolo lá com a Mia.
_Velho, não. A Mia... – me segurei, sem querer entrar no mérito do quanto a Mia, cacete, me desgraçava a cabeça, de como a gente fodia sem qualquer inibição – ...a, a Mia e-era diferente.
_Vixi. Deu uma saudadezinha? – a Lê provocou.
_Claro que não, mano.
_Ó! – a Thaís alertou – Vou continuar aqui. Para de se mexer!
 
Assim que a agulha recomeçou, senti a dor reverberar pelos meus ossos como se dilacerasse meu peito por dentro. Ô inferno. Mais dez minutos daquela tortura e eu tava prestes a matar a Thaís. Que dor desgraçada, mano. Quando enfim terminou, ela limpou todo o sangue da minha pele e a sujeira de tinta preta e vermelha ao redor. Me levantei para ver no espelho. Do caralho, sorri recompensada, como se tivesse vencido uma maratona.
 
Foda-se a dor – aquilo sempre valia a pena.
 
Me plastifiquei inteira. E agora, era a vez da Lê de sofrer nas mãos da nossa amiga. Como já eram quase duas da tarde, saímos para “almoçar” antes. Tínhamos menos de meia hora, o que mal me dava tempo de passar na Calixto para olhar as câmeras na feirinha. O sol estava de rachar – subimos a Teodoro e pegamos qualquer coisa para comer na esquina, seguindo direto para a feira lotada. Me entretive por algum tempo na barraca de um maluco cheio das polaroids, mas, como toda vez que eu ia na Calixto, percebi que não tinha dinheiro para pagar nem um quinto do que pediam por cada antiguidade ali.
 
Subimos um pouco mais na Teodoro, passando pelas infinitas lojas de novos designers e instrumentos, até a ruazinha da Choque Cultural, onde trabalhava uma amiga da Thaís. Batemos papo por algum tempo, entretidas, e logo já era hora de voltar. Me empenhei em acender um cigarro conforme descemos a rua de novo, no meio daquela gente toda, um tanto distraída – e foi quando dei de cara com a Clara.