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abril 02, 2013

A fossa

Peguei mais uma cerveja na geladeira. E disquei o seu número – “por favor”, murmurei, com os olhos já inchados de tanto chorar. Fui até a área de serviço, tentando não fazer barulho conforme me escondia. Ouvi o telefone chamar, sem resposta. Era a minha quarta ligação em menos de duas horas. Atende, atende. A latinha suava entre meus dedos e o calor que assolava São Paulo naquela noite se esparramava janela adentro. Contra meu ouvido, os toques ecoavam ignorados. Vai, porra, atende.
 
Escutei o meu nome na cozinha e a ligação caiu mais uma vez.
 
_Caralho... – chutei um balde entulhado de produtos de limpeza no chão, apoiada nas beiradas do tanque com o celular e a cerveja em cada mão.
 
O Fernando abriu a porta atrás de mim.
 
_Mano, cê tá se escondendo?!  
_Não – retruquei, grossa.
_Para, porra... – relou na minha mão e eu saí da área de serviço, trombando no seu ombro – ...para de ligar pra ela!
 
Continuei em direção ao corredor, sem responder. Larguei a latinha sobre a mesa da sala e enfiei a cara numa almofada, me jogando no sofá. O Fer veio em seguida. Sentou na poltrona, me observando ter um ataque, e riu. Então ordenou que eu entregasse o celular. “Não” – respondi, rancorosa. E me sentei, tornando a discar o número da Clara. Ninguém atendia. O Fer se levantou, dando dois passos até mim, e tirou o aparelho do meu ouvido, “chega”. Desligou o telefone ao sentar-se de volta na poltrona e o meteu no bolso da bermuda, encerrando o assunto.
 
_Me dá, Fer. Eu não vou ligar.
_Vai, sim.
_Me dá a merda do telefone!
_Não, cara... – ele riu, de novo – Quê que cê vai conseguir com isso? Faz dias que você tá perseguindo a mina e ela num dá sinal de vida, meu... a única coisa que vai sair disso é briga.
_Dane-se! Talvez eu queira que ela brigue comigo!
_Mais?!
 
O Fer balançou a cabeça, indignado.
 
Aí puxou a camiseta por cima da nuca, a tirando. E tornou a encostar na poltrona, largando a blusa no chão e acendendo um baseado.
 
_Velho... – soltou a fumaça espessa no ar, me encarando – ...para. Cê não é assim, na boa.
_Foda-se. Eu preciso fazer alguma coisa! Qualquer coisa! Eu prefiro que ela atenda essa porra desse telefone e me xingue, que grite comigo, do que eu não ter nem chance de falar, caralho, de explicar q-que eu... porra, que eu sinto uma falta desgraçada dela!! Fer, eu, e-eu tô enlouquecendo!
_Calma, ela vai voltar... Cê tem que dar um tempo para ela, mano.
_Não. Não a Clara... – neguei e ele roubou um gole da minha cerveja, com calor – ...ela não vai me esperar. Já deve ter uma porra duma fila de mina pra curar ela de mim, cacete. Eu não posso, não posso deixar ela me esquecer. Porque eu sei que ela vai, mano! Ela não vai vir rastejando de volta, não a Clara.
_Meu, cê tá viajando, o que cês tinham não é descartável assim. Ela ama você.
_Não, Fer... Eu fodi tudo, fodi mesmo. Ela tá puta.
_Ela te levou para a Argentina, porra! Cê que não tá vendo o quanto essa mina gosta de você...
 
Balancei a cabeça, não sei se a Argentina melhora ou piora as coisas. Tomei mais um gole da minha cerveja, pensando se devia fumar também. Queria me afogar em más escolhas. Meu coração estava dilacerado. Não conseguia acreditar que tinha fodido tudo com a garota que eu amava. Sentia-me vazia sem ela do meu lado, sem seu cheiro em mim, sem os seus SMS apitando no meu celular o dia todo. Parecia que faltava algo, alguém para dividir a minha vida, a porra de existência naquele buraco de cidade. São Paulo tornava-se ainda mais cinza.
 
Argh.
 
Já era quarta-feira. E eu me deixava amargurar com o passar dos dias, a ausência dela parecia gritar dentro de mim. Eu tinha feito tudo, tudo errado. Chorei por três noites seguidas, consolada pela Marina, que dormiu comigo desde o domingo em que desembarquei no aeroporto até aquela quarta de manhã. A cada pausa que fazia no trabalho, cada segundo que tinha livre, eu mandava mensagem, ligava e checava a tela do meu celular compulsivamente. E nada.
 
Mais cedo naquela noite, o Fer me encontrou na saída da produtora, provavelmente depois de receber uma mensagem preocupada da minha ex. Contei tudo que tinha acontecido. Ou quase. Ele não entendia como eu podia ter mencionado o nome de outra garota em meio à nossa viagem em Buenos Aires. No caso, o da namorada dele – cujas mensagens eu vinha ignorando a semana toda. Eu sabia que o Fer já tinha contado para ela e que a Mia só estava preocupada, tentando me apoiar. Mas não estava com coração cabeça para lidar com o motivo personificado do meu término com a Clara. Não agora. Inferno.
 
_Pelo menos deixa ligada essa merda, meu! – me inquietei no sofá – Vai que ela responde...
_Não vou ligar, cacete. Esquece!
_Fernand... – interrompi meu próprio resmungo, nervosa.
 
Ele me observava, inabalado. E me vi obrigada a ceder – não estava desesperada o bastante para ir, de fato, até lá e tirar o celular à força do bolso dele. De repente, ouvimos a porta da frente abrir. Era o Du. Chegando de algum happy hour, com cheiro de bar. O Fer se virou para ver quem entrava, estendendo-lhe a mão por cima do encosto da poltrona.
 
_E aí, velho? Beleza? – ambos se cumprimentaram e o Du largou uma sacola da Livraria da Vila sobre a mesinha à minha frente.
_Que cês tão fazendo aí?
 
Perguntou ao sentar na ponta oposta do sofá, largado a meu lado. Revirou então os olhos e riu, de bom humor, assim que o Fernando explicou – “curando a fossa dessa aí”.

fevereiro 11, 2013

Vinho & alfajores

_Não, mãe... mãe, escuta... – interrompi seu monólogo que já durava uns bons minutos, fumando um cigarro em frente à produtora com o celular colado no ouvido – Preciso falar com vocês. Escuta, eu vou tá fora no fim de semana.
_Como “fora”? Fora de onde?
_De São Paulo.
_Pra onde você vai? Você não vem mais no domingo?
_Não. Eu e a Clara, a gente... v-vai viajar. Desculpa não ter avisado, é que foi surpresa, só fiquei sabendo agora.
_Mas viajar pra onde? Eu já combinei com a sua avó, a gente encomendou o bolo, seu pai chamou a família inteira pra vir. Vocês não podem ir no outro?
_Não dá – e naquele instante, dei graças aos céus que a Clara me tinha dado a desculpa perfeita para não ir àquela reunião sem sentido de almoço com a minha família, tragando o cigarro já quase acabado na calçada suja da Brigadeiro – As passagens já tão compradas, mãe. Mas eu passo aí durante a semana e a gente janta ou faz alguma outra coisa, sei lá.
_Eu não acredito nisso! – bufou do outro lado da linha e então se recuperou, perguntando pela terceira vez o que eu estava evitando responder – Mas, finalmente, cês vão pra onde?
_A gente... vai p... p-pra Argentina.
_O QUÊ?!
_É. Buenos Aires – murmurei, já de olhos fechados, à espera do surto.
_VOCÊ PERDEU A CABEÇA?! NÃO!! VOCÊ NÃO VAI VOAR PRA FORA DO PAÍS, MINHA FILHA, SEM NEM SE PROGRAMAR DIREITO, ONDE ESSA MENINA VAI TE ENFIAR??? NEM PENSAR! VOCÊ LÁ TEM DINHEIRO PRA ISSO?!?
_Mãe...
_VOCÊ NUNCA SUBIU NUM AVIÃO NA SUA VIDA! ESSAS COISAS TÊM QUE SER PENSADAS ANTES, NÃO É SIMPLESMENTE PEGAR E IR, É OUTRO PAÍS! E SE ACONTECE ALGUMA COISA ENQUANTO VOCÊS TÃO LÁ, FILHA? AS DUAS, SOZINHAS... – ouvi-a afastar-se do telefone e chamar aos berros pelo meu pai, inconformada.
_Mãe... mãe! Calma.
_Me passa o telefone da Clara.
_Cê não vai falar com a Clara, sossega o facho! – eu ri, revirando os olhos – Não tem nada demais, meu. A Clá já foi um bilhão de vezes, todos os amigos dela são de lá! Olha, vai ficar tudo bem, a gente vai amanhã direto do trampo e volta no domingo. Vou fazer uma mochila hoje à noite...
_Ah, não sei. Não sei, não. Vê lá onde você vai se meter, hein, minha filha...
_Relaxa, mãe. Escuta... – soltei a fumaça e joguei a bituca adiante na calçada – ...preciso entrar aqui na produtora.
_Tá. Me liga hoje à noite, quero saber melhor dessa história...
_Tá, tá. Vou lá, tá? Beijo.
_Não vai aprontar você, hein?
_Não vou, meu – ri.
 
Ouvi sua voz diminuir, já afastando o celular do ouvido. E desliguei o telefone, entrando na produtora. Aí mandei uma mensagem para a Marina e então para o Fer – que, como todo ano, tinha ignorado meus pedidos e organizado uma comemoração com nossos amigos no fim de semana. A Clara me contara que foi convidada uns dias antes e ficou na dúvida se comentava sobre a viagem com ele, com receio de estragar a surpresa. Sendo justa, o Fernando era meio maria-do-bairro – tinha amigos demais e uma certa tendência à fofoca. Ele me respondeu quase imediatamente depois do meu SMS, rindo e admitindo a culpa pela festa. Eu sabia.
 
Antes de eu sequer chegar na minha mesa, o meu celular começou a vibrar com várias mensagens da minha ex também. “Ñ acredito q vc vai viajar!! alias q VCS vao viajar JUNTAS! Q LINDO!!!”, ela me escreveu de volta, empolgada, emendando um SMS que dizia “assim, achei uma afronta? achei. pq vc ñ mexia essa bunda pra ir nem na padaria cmg, sabe. c eh uma ridícula. To mto feliz por vc, mas vc é uma ridícula, rs”, meio em tom de revolta, meio brincando, e depois um “ai, mas BUENOS AIRES, flor! Nossa, ñ acredito!! vai ser demais, vc vai amar”. E por fim, completou com um: “boa viagemmmm pra vcs! :)” e eu ri sozinha daquele escândalo todo.
 
Era apenas uma questão de tempo agora para que a Mia ficasse sabendo – o que eu queria postergar o máximo que pudesse. Mas sabia que o Fer ia acabar contando, a não ser que eu especificamente pedisse para que não o fizesse. E eu obviamente não podia dar tanta bandeira assim. Melhor contar eu mesma, decidi. O problema é que, logo que me respondeu e antes que eu pudesse sequer terminar a minha lista de tarefas do dia, o Fer ligou para meia São Paulo avisando sobre o cancelamento da festa.
 
E a linha inevitavelmente cruzou Higienópolis.

dezembro 10, 2012

0800-LESBOFOFOCA

_CÊ TÁ SAINDO COM A MIA DE NOVO?!! É sério isso?!?!
_Bom dia pra você também, ô educada! – resmunguei para a Marina, ao telefone.
 
Mal tinha pisado pra fora do chuveiro, plenas oito da manhã, com a água ainda pingando das minhas pernas e a minha ex-namorada já gritava comigo do outro lado da linha. Três dias depois da minha ida ao estúdio.
 
_Mas espera... – apoiei o telefone na pia e coloquei a chamada no viva-voz – Quem te falou que tô saindo com a Mia?
_Ah, então, É VERDADE?!?
_Você falou com a Thaís, meu?
_Não, não, ela falou com a Lê e a Lê me contou!
_Hum, sei. E foi divertido pra vocês? – resmunguei – Se meter na minha vida assim?!
_Ai, flor, a gente tá preocupada.
_Marina, não é como se...
_Meu, você não falou no começo do ano que “agora” TAVA COM A CLARA? – me interrompeu, a indignação vibrando na sua voz – COMO ASSIM VOCÊ TÁ SAINDO COM A MIA?? E POR QUE CÊ NÃO ME CONTOU??
_PORQUE SABIA QUE CÊ IA REAGIR ASSIM!
_Sinceramente... – ouvi ela respirar fundo – ...não sei nem o que falar pra você, de verdade. Cansei. Cansei de tentar entender você e essa menina!
isso, então? – reclamei, me enxugando com a toalha – Cê me ligou três vezes enquanto eu tava no banho pra me dar bronca?!
_Não! E-eu...
_Não?
_...eu já ia ligar para conversar de outra coisa, mas aí a Lê me mandou mensagem e eu até esqueci o que ia perguntar, meu, e-eu... – argumentou – ...eu não acredito que você não me falou!
_Tá, tá. Mas o que cê ia perguntar?
 
Peguei o telefone, já seca, e fui até o quarto. Aí vesti a primeira cueca preta que encontrei, enquanto escutava a Marina na linha.
 
_Era sobre o Fer. Ontem, meu chefe na redação comentou que o cara de T.I. da revista vai sair, perguntou se eu não conhecia alguém. Aí pensei em indicar o Fer! Ele já conseguiu alguma coisa?
_Que eu saiba, não... – disse, colocando uma regata também preta – ...vou mandar mensagem pra ele. Mas, porra, ia ser incrível!
_Ia? Não sei... – desdenhou – ...não sei o que você quer da sua vida agora, né, já que você tá COMENDO A NAMORADA DELE DE NOVO!
_Ai, Marina. Dá pra parar?!? – revirei os olhos, irritada – E olha, nem vem, que eu sei que o que realmente tá te incomodando não sou eu, não é a Mia, não é meu relacionamento com a Clara. É eu não ter te contado!
_Não é verdade! – contestou.
_É, SIM!
_Não, agora sério, linda, cê tem certeza do tá fazendo?
_Não, Má! Não tenho! Não tenho certeza de porra nenhuma – respondi, numa sinceridade exaltada – Mas eu também não sei que merda fazer, então...
_Mas você ama a Clara?
_Cê sabe que sim.
_E a Mia?
_...
_Você ama a Mia?
_E-eu...
_Céus. Cê tá apaixonada por ela, de novo, não tá?
_E-eu... – hesitei – ...eu preciso ir, Má. Tô atrasada pro trampo. Escuta, depois a gente se fala melhor, pode ser?
_Flor. Flor! – ela contestou antes que eu desligasse – Olha, cê não pode continuar com isso...
_Depois a gente conversa, tá? Beijo!
 
A interrompi, às pressas. Era difícil falar sobre os meus sentimentos assim, em voz alta. Se sequer tinha contado para a Marina – a Marina! – o que estava fazendo com a Mia nos últimos meses, que dirá confessar o que sentia por ela. Ou pela Clara. E todo o rolo emocional em que vinha me metendo deliberadamente. Não. Não dá. Parte de mim sabia que o primeiro sinal de que as coisas andam realmente mal é quando se começa a ocultar informação dos seus amigos – e era exatamente isso que eu estava fazendo. Evitava comentar porque, no fundo, não queria ouvir o que tinham a dizer, sabia o quanto ia me destruir por dentro.
 
Argh.

novembro 01, 2012

¡Oh my corazon!

Acabamos capotando. A Marina ficou com o lado da parede, descalça e ainda em seu vestido – apesar de eu ter oferecido uma camiseta minha. Um dos meus braços caía para fora do colchão, o meu rosto esmagado contra a mesa de cabeceira. Fazia talvez uns quatro, cinco anos que eu não dividia uma cama com a Marina. Nem se me esforçasse conseguia lembrar da última vez que dormimos juntas antes do fim do namoro. Nas poucas vezes em que fiquei na sua casa desde então, sempre deitei no sofá. Mas o conforto do seu braço ao redor de mim, agora, era o mesmo. Seus dedos apoiados na minha barriga, os seus pés descobertos contra os meus de meia. Me dava uma nostalgia boa – não amorosa ou nada assim, só conhecida.
 
A Marina era a minha âncora no mundo, não sei explicar.
 
Apaguei por algumas horas ao seu lado. A verdade é que talvez não teria conseguido fechar os olhos sem ela ali. Mas, então, o meu celular tocou. Estava a poucos centímetros da minha cabeça, fazendo a mesinha de cabeceira vibrar contra a minha cara, o que me despertou. Abri os olhos e senti a Marina se reacomodar ao meu lado – num reflexo inconsciente, soltou as mãos da minha cintura e se virou para o outro lado. Ergui a tela diante do meu rosto e tentei ler, sonolenta, vendo um SMS desfocado da Mia ali. Pisquei algumas vezes até conseguir enxergar melhor.
 
“Pqp”. Só essas três letras. Sem entender, digitei de volta – “pqp oq?”. E contrariando minhas próprias palavras, apenas horas depois de saírem da minha boca, o meu coração acelerou no peito quando a tela se acendeu de novo.
 
“vc <3”.

outubro 18, 2012

Ainda bem, ainda bem

Não subi até que a Marina chegasse. Esperei em frente ao prédio e sinalizei para o porteiro abrir a porta da garagem quando o carro dela se aproximou, a acompanhando até a antiga vaga do Fer. Naquela noite, conversamos por horas, a maior parte do tempo sobre o que ela estava vivendo com a Vivian. Tinha passado o fim de semana na casa dela e chegou na minha sem conseguir parar de sorrir. Vê-la tão bem assim me fazia feliz, me distraía dos meus fantasmas. “Cê tem que trazer ela aqui um dia”, murmurei, checando as horas no visor do celular, “pra eu conhecer”. Ela acenou com a cabeça e eu sorri, largando o telefone sobre a mesinha de cabeceira, deitando ao seu lado na cama.
 
Então a minha mente divagou. Podia sentir a ausência silenciosa do Fer ecoar pelo apartamento vazio. Minutos antes eu tinha levantado para pegar um copo d’água na cozinha. E o simples ato de ir até lá sozinha me induziu a uma bad incômoda, estúpida. Agora as mãos da minha ex abraçavam a minha barriga – e eu tentava empurrar a culpa que crescia dentro de mim.
 
_Foi... estranho, Má... – suspirei, afundada no travesseiro – ...deixar o Fer na casa dos pais dele hoje, vir pra cá...
_Eu imagino.
_Toda nossa vida, meu... – tentei falar e senti a tristeza escapar entre as palavras, escalando garganta acima contra meus esforços – ...toda lembrança que eu tenho, aqui ou de quando a gente morava em Santo Amaro, qualquer merda que fiz na minha vida, velho, ele tava sempre comigo. No quarto do lado ou na rua debaixo. E agora eu tenho que pegar uma porra de um ônibus que leva quarenta minutos para ver o Fer. O Fer, mano! É bizarro.
_Ei. Mas cês ainda vão se ver, linda... – ela me olhou e sorriu, apoiando a cabeça no meu ombro – Vai ser estranho agora, hoje, amanhã, mas logo cê vai se sentir melhor. E vocês vão se acostumar, sabe, até conseguirem mudar isso, achar algo que funcione melhor.
_É. Sei lá...
 
Eu gostava de ouvi-la falar. A Marina tinha o seu jeito calmo, paciente de me escutar e aconselhar. Apertando os braços ao meu redor como se pudesse carregar parte da dor. A tristeza, todavia, perdurava em meus pulmões, na minha voz.
 
_E-eu... eu podia ter feito tanta coisa diferente. Mas, não sei, e-eu... – os olhos do Fer naquela tarde voltaram ao fundo dos meus e eu me senti minha garganta apertar – ...eu só fiz merda. Merda atrás de merda. Eu fui a pior amiga que ele poderia ter. E, e não é justo que ele tenha que passar por essa porra, que seja ele quem tem que sair, ele tava tão triste, inferno, e eu não sabia o que fazer, como ajudar, sabe, e-eu é que devia tá me fodendo...
_Flor, não fala assim! – me repreendeu – Eu sei o quanto você ama o Fer e o quanto você tentou nesses últimos meses, como você ficou do lado dele. É uma situação complicada.
_É. Mas...
 
Ia retrucar e me calei, me sentindo culpada demais.
 
_“Mas” o quê?
_Nada.
_Linda? – a Marina insistiu, notando algo estranho – O que aconteceu?!
_Nada. Não quero falar sobre isso.
_Flor, não faz isso. Não guarda as coisas. Conversa comigo – pediu.
_E-eu... – respirei fundo, sentindo o peso devastador de cada palavra que estava prestes a confessar – ...f-fiquei com a Mia de novo, ontem.
_Com a Mia? ONTEM???
 
A Marina se levantou, sentando ao meu lado no colchão, como se não conseguisse processar aquela informação deitada. E aí me encarou, seus olhos me fuzilando, descrente. Inferno. “Foi sem pensar”, murmurei, na mesma hora. Quis afundar no colchão, sumir. Sem saber o que dizer, a Marina me pediu os óculos e eu os alcancei na mesa de cabeceira, lhe entregando. Os colocou, num suspiro desgostoso, como se precisasse olhar direito na minha cara de pau – e eu usei toda força que tinha dentro em mim para não virar o rosto, para encará-la de volta. Porque precisava ver a decepção nos seus olhos, enfrentar a verdade sobre mim mesma.
 
E lá estava ela, refletida.
 
_Na boa, eu não sei como você consegue. Ser assim, fazer essas coisas.
 
As suas palavras me atravessaram duramente. A ausência de surpresa na sua voz.
 
_Foi um erro.
_Foi?
_Claro que foi! A, a Mia que veio pra cima, meu... – me justifiquei, já sabendo que estava errada – ...e e-eu... eu gosto dela, porra, você sabe que, que eu... não sei. Não sei! Eu. Não. Sei. Tá? A, a gente tinha bebido e... – passei a mão no rosto, frustrada – ...não foi planejado, a g-gente... Argh!
_E a Clara?
_Não é assim, Má, isso não muda nada. Ontem foi, f-foi um erro... – garanti – ...eu tô com a Clá.
_Hum. Foi o que você disse da última vez, não foi?
 
Merda, tá.
 
_Foi. Mas, m-mas eu tô mesmo apaixonada pela Clara, a gent...
_E você não acha que ela tem direito de saber? – a Marina me interrompeu, sem paciência – Hein?!
_Acho. Mas é que e-ela, ela não entenderia... – senti o meu coração doer com a possibilidade de perdê-la – ...quer dizer, ela... diz que sim, mas eu sei que não. Nem a pau. Não a Mia. E eu não quero foder as coisas entre a gente. Não por uma noite, não por isso. E-eu sei o que parece, mas você tem que acreditar, Má. Eu amo mesmo a Clá, é com ela que eu quero ficar. É só que... – balancei a cabeça, confusa – ...às vezes, com a Mia, e-eu... não sei, eu não consigo evitar. Eu amei ela por, por tanto tempo e, e me fode demais a cabeça.
_Tudo bem. Mas não acho que a escolha seja só sua. Se eu estivesse no lugar da Clara, do Fer, eu ia querer saber, você não?
_Não é sempre tão simples assim.
_Céus...
_E-eu sei. Eu sei, tá? – me irritei comigo mesma – Nem eu suporto as coisas que eu tô dizendo. Mas eu não sei o que fazer, Marina!
_Escuta, vamos deixar uma coisa clara, não é um erro se continua acontecendo – sua voz ficou séria – E você precisa ser muito honesta consigo mesma sobre o que realmente foi e como você quer tratar as pessoas com quem você se importa. Se esforçar um pouco mais, sabe, não ser tão egoísta.
_Uau – deixei escapar um riso, ofendida – Valeu.
_Você sabe que é verdade. Eu não tô tentando ser escrota, flor, mas se você pensa que não tem problema só porque ninguém viu, se você acha que tudo bem sair por aí fazendo suas vontades contando que seja em segre...
_Eu não disse isso, Marina – a cortei.  
_Ótimo. Porque eu me recuso a aceitar que você queira ser essa pessoa de novo. As coisas mudaram, flor. Você tá num relacionamento. E não é porque você e a Mia se livraram uma vez, que tudo bem sair se pegando quando dá na telha. Você tem que tentar se lembrar, sabe, de como se sente depois, de como isso te destruiu, de como quase acabou com a sua amizade, de como afetou o relacionamento deles. É isso o que você quer para você e a Clara? Porque não dá para você continuar assim aí, querendo ter as duas coisas... – argumentou – ...ou alguém vai se machucar.
 
Suspirei, virando o rosto, os meus olhos inchados.
 
_E-eu... – hesitei – ...tô com a Clara.
_Espero que saiba o que vai fazer, flor.

outubro 11, 2012

O ninho

_Foi mal, demorei? – murmurei ao entrar no carro, o som do pisca-alerta tiquetaqueando no painel.
_Não, de boa...
 
Bati a porta e o Fer abaixou o freio de mão, saindo de novo com o carro. Meu estômago ainda formigando silenciosamente. Não demoramos muito para atravessar a cidade, era domingo e o trânsito paulistano deu uma trégua. Não levamos mais do que vinte minutos para chegar em Santo Amaro. O que não impediu, claro, que o pai do meu amigo nos recepcionasse com um comentário desagradável já de cara.
 
_Você disse que vinha na hora do almoço, Fernando – ele resmungou, abrindo o portão – São três e meia, sua mãe ficou esperando. Se já vai começar assim, a gente vai ter um problema...
 
O Fer não respondeu. Apenas bufou em silêncio do meu lado, sem que o velho ouvisse, conforme a gente tirava as amarras do colchão. O carro estava estacionado diretamente em frente à casa dos pais dele, numa rua calma do bairro. Descarregamos tudo em menos de meia hora e as pilhas de caixas se acumularam do lado de dentro.
 
Era estranho estar de volta ao antigo quarto do Fer, anos depois do fim do colégio. Ficamos parados, por alguns instantes, naquele cômodo vazio. Sem dizer nada. As caixas aglomeradas num canto, o sentimento de abandono no resto do quarto. O Fernando passou a mão na parte de trás da cabeça, escorregando os dedos entre os fios raspados. Visivelmente inquieto. Perguntei se queria ajuda para montar a estrutura da cama, sem querer deixá-lo sozinho, e ele topou – como quem não tem nada melhor para ocupar a cabeça.
 
Começamos a separar as vigas no chão, agachados. E o clima pesou. Era triste estar, estarmos ali depois de tanto tempo, de tudo. Olhei para cima, na direção dele, assim que começamos a montar o estrado. A ressaca enfraquecia os meus braços, encaixando peça a peça de madeira com certa dificuldade. Ele me ajudava, no lado oposto, sua expressão séria. O desgosto engasgado do peito. E eu quis desesperadamente o ter de volta no apartamento – nenhum de nós queria estar ali.
 
Arrumamos a estrutura da cama, trazendo o colchão para o quarto, sem dizer uma palavra. E ao final, sentamos para fumar um cigarro contra a parede. Esticamos as pernas no chão. Ele tirou o tênis, empurrando um pé noutro, e ficou apenas de meia. As primeiras tragadas foram ainda em silêncio. Eu observava o rodapé e o piso escuro de madeira, aquele espaço que encolhera com os anos, numa nostalgia desconfortável.
 
Aquele era o quarto onde ouvimos CDs de punk trasheira durante toda a nossa adolescência, onde fumamos maconha escondido tantas vezes. E onde falei para ele, pela primeira vez, que curtia minas. Moleque, com as pernas cruzadas e a cabeça baixa na minha frente, ele murmurou um – “pra valer?”. E eu disse que não sabia, que não tinha pensado direito a respeito. Muito tempo antes de fazer qualquer coisa a respeito. Agora, em outra realidade, com outras cabeças por completo sobre nossos ombros, dividíamos um cigarro sem falar o que tanto ele, quanto eu, queríamos de fato dizer um para o outro.
 
_V-vai ser estranho... – hesitei para começar, num sussurro relutante – ...sem v-você lá.
 
Eu falava baixo, quase para dentro. E o Fer me ouvia sem desviar o rosto do chão. Apertou os dedos ao redor do cigarro, apoiando o polegar entre os olhos. Respirando fundo, tentando engolir a tempestade que trovoava dentro dele. Nós dois éramos, provavelmente, as duas piores pessoas no mundo quando se tratava de expressar nossos sentimentos. Eu nunca dizia o quanto o amava, o quanto todos aqueles anos morando juntos me mudaram. Todo peso dele na minha vida. Você, porra, você mudou tudo. Você é o meu melhor amigo. E não o ter mais por perto todos os dias, de repente, me deixava insegura, me devastava mais do que eu era capaz de sequer entender naquele momento. Ainda assim, eu insisti:
 
_Eu sei... q-que a gente andou brigando esses tempos, que eu me afastei às vezes... – relutei em dizer, consciente de que o móvito por trás de todas as vezes que nos distanciamos nos últimos dois anos fora a Mia – ...mas, sei lá... e-eu... eu vou sentir sua falta... acho que não sei mais viver sem você no quarto do lado ou na rua debaixo, eu...
_Mano... – ele se reajeitou contra a parede e deu um trago, soltando a fumaça pro lado – ...não começa com essas bichices, velho, já... – os seus olhos marejaram, desconfortável– ...já t-tô na merda pra caralho, meu. Se logo você for...
_Hum, diz... – o empurrei com a lateral do corpo e forcei um sorriso, mudando o clima da conversa – ...cê vai chorar?
_É, vai brincando... – ele riu também, com os olhos vermelhos.
 
E eu enxuguei os meus. Porra.
 
Uma dor aguda torceu na minha garganta. Eu sabia que voltar para a casa dos pais, em especial o convívio com o velho, não eram fáceis para o Fer engolir àquela altura. Metendo o orgulho goela abaixo, na metade dos seus vinte anos. E conforme eu me despedia dele, já na porta, a certeza de que aquilo não era tão mais fácil para mim se concretizou, como um peso que há semanas eu vinha evitando, reprimindo dentro de mim, a cada passo que eu dava em direção ao ponto de ônibus. Numa vontade angustiada de não voltar para o apê sem ele.
 
Desci até o ponto duas ruas adiante, me sentindo estranha. Terrivelmente sozinha. Maldição, passei as mãos no rosto e acendi outro cigarro. Eram talvez sete, oito da noite e Santo Amaro estava deserta. Senti uma necessidade desesperada de estar com alguém. Mas a Clara estava a quilômetros de São Paulo e eu não podia ligar para a Mia, num senso distorcido de respeito pelo Fer. Incapaz de encarar o que eu tinha feito, quem me tornei. Então digitei o número da única outra pessoa que consegui pensar. E ela logo atendeu, a sua voz preocupada do outro lado da linha ao me ouvir chorar.
 
_O que aconteceu, flor?! – a Marina se alarmou.
_Dorme comigo hoje?

agosto 06, 2012

O pó do armário

_Claro que já... – a Marina tagarelava agora, por qualquer motivo, sobre suas experiências com homens – ...eu namorava um cara antes dela.
_Na faculdade isso? – o Fernando perguntou, com a Mia já ao seu lado.
_É. Um babaca! – me intrometi.
 
Passei por cima do encosto do sofá, enquanto resmungava, deitando meio de qualquer jeito ao lado da Marina. A mera lembrança do imbecil já me dava revertério. Argh. Eu odiava o sujeito – sempre odiei. Revirei os olhos em desgosto pelo rumo que a conversa tinha tomado. “Para com isso!”, a Marina me deu um tapa de leve no ombro e eu ri, em teimosia. Aquela era uma briga antiga nossa, desde anos antes, quando a gente namorava. “Não é assim, ela não conheceu ele direito...”, justificou para os dois, sentados na poltrona. Não interessa, porra. Me irritava como ela ainda o defendia.
 
_Não sei por que cê é tão apegada a esse cara, mano... – balancei a cabeça, amarga, ainda afundada no sofá – Só porque foi seu último namorado? Porra, que importa?! Não tem mais nada a ver com você, caralho. Cê é sapatão!
_Ainda assim, é parte do meu passado, foi uma pessoa que eu amei. Não deixa de ser importante.
_Ah! Corta essa, Marina!!
_Ihh... – o Fer me zombou, rindo – ...tá ficando nervosinha, hein?!
_O cara era um idiota, mano, o único mérito dele é ter sido o último homem na vida da Marina, como se fosse uma porra dum marco social – argumentei – Me irrita. Me irrita mesmo! Puta lógica babaca, velho. Cês não ficaram nem seis meses juntos!
_Bom. Então, cê tá me dizendo... – a Marina insistiu, sem aceitar a minha posição – ...que os caras com quem você ficou, a sua vida toda, foram automaticamente menos do que as mina?
_Foram. Lógico que foram! – respondi, na mesma hora – É exatamente isso que eu tô dizendo! Nenhum deles importa, mano!
_Não é verdade. Não pode ser.
_Claro que é, Má. Eu não lembro nem o nome dos caras que peguei!
_Ah, quer que eu te lembre alguns? – o Fernando logo se voluntariou, rindo, e a Mia arregalou os olhos, dando-se conta de que estávamos falando sério.
_Você?! – nos interrompeu – Você pegou caras?
 
Gente, essa gaveta tá muito, muito lá no fundo do armário, me incomodei com toda a atenção. Vamos deixar lá, né?
 
_“Pegar”?! Ela já namorou um! – o Fer soltou a fumaça, rindo, ainda com o baseado em mãos – Um pobre coitado, como ele chamava?
_VOCÊ NAMOROU UM?!? – a Mia tentava não se exaltar, sem muito sucesso – UM CARA?!?!
_Era Lucas. Mas, ai, mano, isso faz, tipo... sei lá, muito tempo! Eu tava na sétima série, porra... Foi namoro de criança. E no ano seguinte, eu já estava andando pela escola de mãos dadas com a minha primeira namoradinha...
_Meu, não. Não dá – a Mia balançou a cabeça, inconformada – Não consigo te imaginar com um cara, não dá, é muito estranho!
 
Dei risada. Aí estiquei a mão e alcancei o maço na mesinha de centro, tirando um cigarro. Larguei o pacote sobre as pernas e dobrei uma delas em frente ao corpo, com os pés em cima do sofá. Acendi com um fósforo e calculei para não deixar a volta desigual. Aí senti os braços da Marina me rodeando, num abraço meio desajeitado.
 
_Não se preocupa... – ela fez graça pra Mia, me apertando com um beijo no rosto – ...mais sapatão que essa aqui não dá pra ficar.
_Nossa, sim. Credo! – dei um trago – O dia que eu gostar de macho, cês me internam!
 
A Marina riu, revirando os olhos, com os braços ainda ao meu redor.
 
_Sutil.

agosto 02, 2012

Uns desenterros

“Então cê não vai admitir?”, o Fernando sorria e observava a Marina gesticular, à beira do sofá, cada vez mais indignada. “Não é a mesma coisa, você não tá me escutando”. Ele tinha o baseado aceso na ponta dos dedos e se curvava na sua direção. Agora estava só eu e a Marina na sala, sentadas à sua frente – a Mia tinha levantado do braço da poltrona e ido até a cozinha. A minha ex pressionava os olhos, inconformada, e se deixava irritar. Falhando em perceber que o Fernando só provocava, sem interesse real em suas respostas sobre se eu era ruim de cama ou não.
 
“Má, tudo bem”, ele insistia, condescendente, “pode dizer”. E ela balançava a cabeça – “para, chega!”. Eu ri da determinação de ambos. Me levantei, os deixando discutir sozinhos, e fui até a cozinha. O som do rádio se afastou, contido na sala – “the way you stick out your lips and keep your hands on the hips and I’m supposed to know and I’m supposed to know”. Entrei pela porta do corredor. E por um segundo, pensei em Ortega.
 
Eu sou eu e a minha circunstância.
 
A Mia se inclinava em frente à geladeira aberta, com uma das mãos apoiadas na porta. Estava num moletom da Vice Squad, uma banda punk inglesa que eu mesma só conhecia por causa dela, e com uns shorts jeans quase imperceptíveis por baixo. Uns fios despenteados caíam do rabo improvisado sobre sua cabeça – ver a Mia descabelada sempre me fazia estranhamente feliz. Como se estivesse desarmada, confortável consigo mesma. A observei de longe, encostada no batente, com a minha cerveja vazia em mãos. Ela não notou a minha presença, em busca de algo na prateleira abaixo do freezer.
 
Andei até a pia e deixei a latinha perto do lixo, apanhando uma garrafa de rum que a própria Mia devia ter colocado sobre a mesa. Abri a tampa. E pus uns dois dedos num copo. Só então ela reparou em mim ali, levantando brevemente os olhos por detrás da porta da geladeira. “Desistiu da cerveja?”, perguntou, já com a cabeça novamente abaixada. E eu ri. “É só um pouquinho”, respondi. Fechei a garrafa de novo, a deixando de lado. E dei dois passos na sua direção, encostando no balcão à sua direita.
 
Tomei um gole.
 
Podia ouvir a Mia se mexer do outro lado da porta da geladeira. Tinha metade de um limão velho na mão esquerda. E os olhos ocupados, a boca levemente entreaberta, como fazia quando estava concentrada – às vezes a via de relance, quando balançava o corpo para trás escaneando as prateleiras. Agachou-se frente à gaveta de frutas e vegetais. E eu dei mais um passo para perto, cruzando os braços sobre a porta da geladeira para espiá-la. Achei graça nela ali – “o que diabos cê tá fazendo?”.
 
_Queria... f-fazer uma... – explicou, espaçadamente, conforme vasculhava pelos legumes – ...caipirinha. Mas não acho um limão bom, mano!
_Porque não tá aí! eu ri.
 
E indiquei para que os pegasse numa cesta dentro do armário. Não era um bom lugar para limões, admito, mas foi onde os jogamos na última compra. Ela alcançou um mais fresco e eu a observei em silêncio, enquanto o cortava na metade. Sem entender como uma atividade tão simples podia me prender tanto a atenção. Encostei de volta no balcão, dando outro gole no meu rum, olhando para os seus dedos. Senti o rum descer gelado pela minha garganta. De costas para mim e em frente à mesa, também em pé, a Mia envolveu metade do limão com a mão e o espremeu num copo, o suco escorrendo sobre o esmalte descascado das suas unhas.
 
Completou com açúcar, jogado direto do saco, e virou o rum que eu assaltara minutos antes por cima, mergulhando o indicador no copo em seguida – mexendo tudo meio de qualquer jeito. Se virou para mim, apoiada contra a beira da mesa. E cruzando as pernas em frente ao corpo, chupou o dedo molhado de caipirinha, lambendo rapidamente a pontinha dos demais, antes de tomar um gole. Meus olhos fixados na sua boca. Ainda podia ouvir o Fer e a Marina discutindo sobre sexo ao longe. Virei o que restava do meu rum no copo, ainda encarando seu rosto. E lá estavam de novo, as suas sobrancelhas arqueadas.
 
_Nós tivemos umas boas, não?
 
Perguntei e ela sorriu de volta.
 
_As melhores.
 
Fiz um gesto com a cabeça, concordando. A Mia riu, desviando o olhar por um instante. Tinha certa naturalidade, não sei, uma tranquilidade conquistada entre nós. A Mia descruzou os pés, retomando seu caminho de volta à sala, e eu cruzei os meus, ficando um pouco ali. A observei sair. Meu pensamento se demorou no jeito como aquelas duas palavras deixaram a sua boca. Sorri meio à toa. E depois segui atrás dela, nuns passos desacelerados.

julho 31, 2012

Diálogos quietos

_Outros quinhentos, Fernando... – a Marina riu.
_Quinhentos a mais ou a menos?!
_Não é assim.
 
Os dois começaram então a discutir e a trocar comentários que, de um jeito ou de outro, rodeavam o meu desempenho sexual. Que agradável. Por educação ou sinceridade, a Marina me defendia das provocações do Fernando. “Boa coisa não pode ser, né”, ele dizia, “essa aí demorou pra segurar uma que fosse!”. Ele se divertia, entre uma tragada e outra do beck, brincando com ela. “Mas você também nunca me ouviu falar! Nem dela, nem de ninguém...”, a Marina argumentava, numa tentativa diplomática, ainda um tanto acanhada pelo tema. Eu me abstinha. E foi quando, num intervalo de poucos segundos, os meus olhos cruzaram com os da Mia, agora apoiada no braço da poltrona onde o Fer estava. Ela me observava de volta, conforme os dois discutiam, com um riso escondido no olhar – como quem detém uma informação que não pode revelar. Arqueou as sobrancelhas para mim e eu achei graça.
 
Me diz você, garota.

julho 29, 2012

Por inteiro

Naquela quarta, o meu martírio domiciliar foi interrompido pela Marina.
 
_Oi! – ela sorriu e arregalou os olhos, assim que abri a porta – Nossa... Cê tá bonita, flor!
_É? – ri, apoiada no batente – E você tá mais de uma hora atrasada, o que acontece?
 
Umas duas horas antes, tinha me mandado um SMS um tanto dramático. Um “vms jantar? PRECISO te ver agora!!” que me soava como se ela tivesse algo muito importante para me contar. Se eu bem conheço a fofoqueira da Marina, não é. A real é que eu andava um tanto ausente nas últimas semanas, engolida pela situação no apartamento – da qual ela sabia meio por cima. Mas seu atraso incomum me deixou curiosa. Algo tem aí.
 
_Hein? – insisti, com os braços de fora numa regata butch preta.
_Já te conto... – ela foi marchando apartamento adentro, daquele seu jeito – Como tão as coisas com você? Já achou alguém pra dividir?
_Não. Nem fui atrás...
 
Me olhou por trás dos seus óculos pretinhos. E me repreendeu – “flor, você não pode ficar adiando isso!”. “Eu sei”. “É sério, linda, você vai se afundar em dívida assim”. “Me deixa, Má”, resmunguei, “vou lidar com isso no meu tempo”. Ela se limitou a revirar os olhos e seguiu andando pelo apartamento, em direção à cozinha. Estava estranhamente acelerada.
 
Se serviu um copo de água da jarra na geladeira e aí logo voltou para a sala – eu a seguia como uma barata tonta. Se sentou por fim no sofá e descalçou os sapatos para cruzar as pernas em frente ao corpo. Estava com uma saia mostarda dessas bem esquerdista, com cara de acabei-de-sair-dum-filme-cult-no-Belas-Artes, que batia abaixo do seu joelho, e uma blusa preta de alcinha metida por dentro da cintura alta. Ah é, e com o cabelo solto – o que, em termos de Marina, era tão raro quanto o atraso. O que diabos tá rolando?
 
Talvez qualquer outra pessoa sequer se desse conta. Não era nada realmente explícito. Mas sabe quando você conhece alguém bem demais para se deixar enganar pela aparente normalidade? Pois é. Algo tinha ali. Estava com um ânimo diferente, não sei. Observei-a tomar um gole da água, enquanto me juntava a ela no sofá e abria uma cerveja que peguei na nossa rápida passagem pela cozinha. Achei certa graça na agitação toda.
 
_E então?
_Ai... – cobriu o rosto com a mão, se contendo – ...eu conheci alguém.
_Ah, jura? – ri – Dá para perceber, né, Marina.
_Dá?
_Vai, me conta.
_E-ela... – sorriu, mal se aguentando de felicidade, mordendo a ponta do dedo – ...chama Vivian. E, e a gente saiu quatro vezes.
_Hum...
_Não, não, cinco! – corrigiu e confessou – Vi ela rapidinho antes de vir pra cá.
_Ah, entendi tudo agora... – comecei a rir, de novo, imaginando o motivo do atraso – ...mas e aí? Tá sério já, cê já tá apaixonada assim?!
_Flor, você não tá entendendo. Eu nunca, nunca saí com ninguém assim. E-ela... – suspirou – ...ela é tão, tão bonita e, e inteligente. É advogada de, d-de direitos humanos, a, a gente se conheceu n-numa... – se enrolava para falar, emocionada – ...coletiva de imprensa. E, e ela me chamou pra tomar uma cerveja depois, a gente conversou a noite toda e, e d-depois ela me... m-me beijou contra o carro, quando a gente tava indo embora. E e-eu... meu, não sei nem explicar!
_Eita, Marina.
_Não. Cê não tem ideia! Sabe tudo o que eu passei com a Bia?
 
Revirei os olhos com a mera lembrança, acenando.
 
_Não tem nada daquilo. Zero! Sabe quando você não tem que ficar indo atrás? Quando as duas se querem do mesmo jeito? – apoiou a cabeça no encosto do sofá por um instante, toda boba-alegre – Mano, a gente troca mensagem o dia todo, e-ela se interessa por tudo o que eu falo, pelo meu trabalho, me liga para saber minha opinião toda vez que surge algum debate interessante no escritório dela. A gente, meu, juro, a gente fica horas no telefone!
 
Nunca vi ninguém gostar tanto de telefone quanto a Marina.
 
_Ok, tô convencida. É o amor da sua vida.
_Muito engraçadinha.
_Não tô fazendo graça, Má, ela parece maravilhosa mesmo – sorri.
_Ela é! – ela sorriu também – Linda, juro, e-eu nem sabia que podia ser assim. Sempre me senti tão insegura nos meus relacionamentos, você sabe... dava tudo de mim e ficava recebendo migalha em troca. E a Vi, mano, ela parece que me enxerga, sabe? Fora que, né, a diferença absurda que faz estar com outra mina preta. A gente tem conversado muito sobre isso e, meu... para ela tá sendo o mesmo processo, não sei, é como se a gente fosse construindo tudo juntas. É tão bom, flor!
_Espera. Como assim? Cês já tão construindo uma porra dum relacionamento e eu só tô ouvindo sobre essa mina agora? Olha, Marina, tô meio ofendida... – ri – ...eu te conto tudo sabe.
_Ai, não, e eu nem contei de ontem!
 
Me pegou pela mão, empolgada.
 
_Ontem?
_É. A Vi dormiu em casa.
_Hum... – arqueei as sobrancelhas – ...e?
_E meu, foi intenso. Nossa, f-foi como... – se ajeitou no sofá, cruzando os braços em volta das pernas – ...não sei, o jeito que ela me pegou, que ela me olhava enquanto a, a gente... flor. Juro. Tô desconcertada até agora. Foi muito perfeito. O beijo dela... e-eu não sabia nem quem eu era mais de tão, tão intenso, tão perdidas uma na outra que a gente tava...
_Hum, quem é essa aí? – de repente, o Fer perguntou.
 
Olhamos para trás e ele vinha pelo corredor, rindo da descrição entusiasmada da Marina. Ver o Fer assim, andando pela casa, fazia parecer como se ele fosse estar sempre ali – ainda era difícil encarar a realidade. Argh. A cumprimentou com um beijo no rosto, por cima do encosto. Mas, a essa altura, a Marina já estava toda constrangida. Muda e retraída no sofá. Eu ri do seu susto, pega desprevenida falando tão apaixonadamente sobre uma mulher. Desviei os olhos e aí vi a Mia, vindo alguns metros atrás do namorado.
 
_Quem é quem?! De quem cês tão falando? – ela chegou, desavisada, enquanto prendia o cabelo, e notou a Marina ali – Ah, oi!
_Oi... – a minha ex murmurou, querendo cavar um buraco no chão pra se esconder.
 
Eu ri ainda mais. O Fer sentou na poltrona ao nosso lado, curioso, acendendo um baseado.
 
_Num é, é que a Marina tava aqui me contando sobre um encontro que ela teve essa semana – comentei – Não sei se você reparou, né, no calor todo que fez ontem em São Paulo...
_É, pelo jeito, devia tá bom mesmo... – ele deu um trago – ...porque, olha, nunca ouvi ela falar assim de você, não.
 
Ah, vá. Idiota.

julho 13, 2012

Meio fim de festa

Logo fomos interrompidas. Já no segundo cigarro e milésimo beijo, amassadas contra a parede e testando os limites da boa conduta na casa dos outros. “Epa, epa, vamos parar de baixaria aqui?”, a Thaís falou bem alto, rindo, assim que nos encontrou na lateral da casa. A Clara rapidamente a mandou tomar no cu. Numa intimidade conquistada nos últimos meses – de tanto me acompanhar na casa da Thaís para fumar uns, já que eu andava evitando rolê para economizar dinheiro, as duas acabaram se tornando amigas.
 
Voltamos para a sala pouco depois dela, levemente descabeladas e guardando os nossos maços nos bolsos. Ainda sentia as minhas bochechas levemente vermelhas de tanto, ahm, passar calor. Sentamos na mesa e nos pusemos a comer aquele “jantar”, tão atrasado que estava começando à 1 da manhã. Pelas horas seguintes, pratos e tigelas amontoados, com apenas restos, foram se acumulando à nossa frente. Mesmo quando acabou a comida, continuamos à mesa e as taças de vinho seguiram fluindo tão bem quanto a conversa.
 
Propus um brinde ao aniversário da Jéssica – que, a essa altura, já estava sentada no colo da Lê nuns beijos embriagados. O álbum do Uh Huh Her tocava sem parar. No auge da sapatonice. Ficamos todas tão bêbadas, de uma garrafa chilena atrás da outra, que eu e a Thaís nos debruçávamos sobre a mesa, rindo, sem nem saber de quê. Até a Clara estava tagarelando com a Marina, agora sentada ao seu lado. E é, verdade, eu devia tá ouvindo aquilo – mas já não conseguia prestar atenção em mais nada. Outra meia hora e aquela era a 3ª vez que escutava “I'm better than the other one, you're a harder chase” sair do rádio. Mais dez minutos, outras duas taças. E eu discutia, aos gritos, com a Camila na outra ponta da mesa. Entre um verso e outro da música alta, fora de mim, enquanto a Clara me puxava pela camiseta e me mandava sentar de novo, ordenando que parasse de fazer cena.
 
_CÊ TÁ OUVINDO O QUE ESSA IDIOTA TÁ FALANDO?! – bati na mesa, indignada, e voltei a atacar a Camila – CÊ TÁ MUITO LOUCA, MANO!!
 
Alguns minutos antes, ela defendeu que a versão traduzida de “Starman” era melhor que a do Bowie. E eu perdi a cabeça em meio segundo. Não satisfeita, a minha amiga tomou as dores do rock nacional e começou a gritar de volta comigo, irritada, me acusando de ser uma fã chata. A Thaís me forçou de volta à cadeira e encerrou de vez a briga. “You're fast against mine, I will tear you from the...”, quarta vez. Pazes feitas, todas amigas de novo. Rodamos uma garrafa vazia, deitada, no centro da mesa e nos desafiamos a contar nossos piores podres umas para as outras. A Clara se divertia com os meus. E a Marina, já quase sem fôlego de tanto rir, confirmava tudo com a cabeça. Seus óculos já estavam abandonados sobre a mesa. Deus, eu me afundava na cadeira, cobrindo a minha cara de pau, ainda bem a Clara não vai lembrar metade disso amanhã.
 
_Vem – disse, então, no ouvido dela – Vamos cair fora um pouco.
 
E aí escapamos, enquanto as meninas tentavam descoordenadamente abrir a sei-lá-qual rolha da madrugada. Já tinha perdido a conta. Cês são loucas de beber mais vinho, meu deus. Rindo, trombamos na porta da lateral e fugimos com sucesso para o nosso cantinho de antes. O quintal continuava escuro – o sol ainda não tinha nascido e uma umidade meio fria das 5 e pouco se alastrava no ar. Nos escondemos atrás da casinha onde ficava o botijão de gás, acoplada à lateral da casa. Beijei a Clara com uma vontade embriagada, quase incontrolável.
 
Aí nos enroscamos – os seus braços subiram até os meus ombros, eu desci as minhas mãos. E a empurrei contra a parede. Não conseguia me concentrar em nada. Eram momentos desconexos, nuns lapsos de memória que, de alguma forma, faziam sentido quando fluíam assim, cada beijo, cada chupão, as mãos dela, a pressão nos meus lábios, as mordidas, o seu corpo pesando no meu, nuns toques indelicados – como se eu fechasse e abrisse os olhos, o tempo todo, repetidas vezes. A minha cabeça rodava. E a Clara tinha as mãos metidas no meu jeans. Roubava-lhe um beijo e nos contorcíamos, juntas. Tell me I’m the only one, the only one”, soava ao fundo – aquela era a quinta vez. Ri sozinha ao reparar e a beijei logo em seguida. Enfiei as minhas mãos no seu cabelo, a segurando com vontade enquanto a beijava, esquecendo de respirar. Desci um dos meus braços até um dos botões da sua calça, dois, o zíper, o lance todo. Apoiei a testa no seu ombro, por um segundo, buscando um pouco de estabilidade – tentando voltar à realidade, ao mínimo de consciência. Numa tontura alcóolica, o fogo queimando, desnorteada.
 
Caralho.
 
A Clara encostou a boca no meu ouvido, “vamos voltar pra casa, quero você sentada na minha cara enquanto eu...”, e foi deslizando os dedos para dentro de mim, me falando cada obscenidade que estava com vontade de fazer ali e não podia. Puta merda. Tudo o que eu queria era uma cama, porra. E sobriedade. Senti que ia passar mal. Nem pensar, se controla, era o único pensamento que a minha cabeça conseguia formular, você consegue. Aceleramos então, a intensidade, tudo. Os beijos se multiplicaram, o calor, nossos corpos arrastados, tudo. Tudo confuso – e gostoso. Sentia como se estivesse prestes a explodir. Tell me I'm the only one, the only one...”, ouvia Uh Huh Her cantar, repetidamente. Nuns orgasmos simultâneos. Perdi o fôlego por um instante, meu corpo inteiro em êxtase. A Clara beijava o canto da minha boca, entreaberta, sentindo cada pedacinho das nossas peles se tocando. Cacete.
 
Assim que caí de novo em mim, me senti mal. Dei dois passos para trás no breu e me virei rapidamente, apoiando a mão nos tijolos da casinha do gás.
 
_Cê tá bem, Bo? – a Clara se assustou, vindo na minha direção.
 
Colocou a mão no meu ombro, preocupada. E tão logo respondi “n-não muito”, engasgada e sem ar, foi o que bastou para o meu estômago se revirar por completo. Vomitei duas vezes, todo o maldito vinho. Gran finale.

julho 09, 2012

Tautologia

Qual o tamanho da merda que falei?
 
Me angustiei, a observando no meio da sala, com uma taça de vinho entre os dedos. Conversava animadamente com a Lê, a Thaís e a Ju, entre sorrisos e o trincar da garrafa na borda das taças, constantemente enchidas antes mesmo de esvaziar. Droga. Entrei na sala e a Clara sorriu ao ver eu me aproximar da roda que elas formavam, ali em pé. Apoiei suavemente a minha mão nas suas costas e ela me olhou, ao seu lado, me oferecendo um gole. Aceitei. Conforme bebia, a encarei em busca de qualquer indício de que tinha escutado a declaração que deixei escapar, minutos antes, sem intenção.
 
Ela percebeu? Percebeu ou não percebeu?!, tentava ler cada milímetro dos seus gestos, em vão, analisando o seu comportamento. Era estranho não saber – aquilo me deixava ansiosa. Mas as suas expressões permaneciam neutras, enigmáticas. Indecifráveis. Enquanto eu me torturava atrás de sinais invisíveis, a Thaís tagarelava incessantemente com a Lê na nossa frente. A Clara me encarou de volta, dando um gole no vinho. E assim que abaixou de novo a taça, sorriu discretamente na minha direção.
 
Ah, sim. Ela ouviu.
 
_Sabe... – a Clara se aproximou então do meu ouvido, cochichando, sem atrapalhar a conversa das meninas – ...eu quis te matar lá dentro.
_Desculpa – murmurei baixinho, rindo.
_Você é muito panaca!
 
Referia-se à minha ceninha com a Marina na cozinha. Já tinha quase esquecido daquilo de tão preocupada que estava com a porra do “eu te amo” que soltei sem querer. , pensei, talvez ela sequer tenha ouvido. Uma pausa de milésimos de segundos do seu olhar no meu, todavia, fez com que a dúvida ressurgisse. Oscilando a cada sinal incerto. Isso é ridículo, me irritei com a minha inquietação involuntária, eu devia só perguntar logo de uma vez. E num impulso, toquei de leve no seu braço.
 
_Ei, escuta, quer sair pra fumar ou algo assim?
_Vamos.
_Tá – sorri – Vou só pegar o meu maço, espera aí... Já volto!
 
Voltei uns passos até a cozinha, onde tinha largado o meu cigarro. No caminho, trombei com outra amiga nossa, a Flavinha, que saía lá de dentro. Estava com uma regata preta e jaqueta de couro por cima – o que, junto com o cabelo Joãozinho, a deixava mais caminhão do que nunca. Assim que cruzou comigo, me segurou pelo braço por um instante:
 
_Cara, é sério que a Marina saiu com essa mina aí que cê trouxe? – falou baixo, como se fofocasse, e eu a encarei, surpresa – Cê já sabia? Faz tempo isso?!?
 
Como diabos vocês trocam esse tipo de informação em menos de cinco minutos, mano, me irritei, surpresa com tamanha boca de sacola das minhas amigas, puta merda.
 
_Sim. Não. E sim – respondi, impaciente – Quem te falou?!
_A Camila... – riu e eu fiquei ainda mais confusa, como a Camila já sabe? – ...mas e aí, mano, ela expulsou mesmo a Má depois de ter comid...?!
_Escuta – a interrompi – Não é da sua conta, é?
 
Larguei ela falando sozinha e continuei até a cozinha. Minha ex-namorada estava encostada no balcão, com as pernas cruzadas em frente ao corpo e a mão beliscando um pote de amendoins, enquanto falava com a Paula. Uma fofoca dessas, jura, logo você? Lancei um olhar indignado para ela. E peguei o maço que tinha esquecido sobre a mesa. Saí de novo para a sala e fiz um gesto para a Clara me seguir. Passamos por uma porta que dava na lateral da casa, numa espécie de quintal estreito. Alguns vasos com temperos malcuidados ocupavam o chão de ladrilho. Encostamos na parede e acendemos cada qual um cigarro.
 
_Cê já tá oficialmente conhecida entre as minhas amigas... – murmurei com o filtro ainda na boca, colocando o isqueiro de volta no maço – ...já virou a “mina que deu um fora na minha ex”.
_Nossa, hein... – a Clara arqueou a sobrancelha, irônica – Valeu!
_Quê?! Não fui eu que espalhei, meu... – achei graça – ...só tô te contando, porque vieram me falar.
_Ai, que ótimo...
 
Colocou a mão no rosto, soltando a fumaça para baixo. E nós rimos juntas. Estava frio e escuro ali, do lado de fora. Conforme tragava o meu cigarro, observei a Clara sorrir e senti verdade em cada palavra que escapou da minha boca naquela noite.
 
_Meu... – senti meu estômago embrulhar e desencostei da parede, ficando na sua frente – ...eu q-queria... falar com, com v-você.
_Sobre...?
_Ah... – peguei na sua mão, envergonhada, e os meus tênis esbarraram nos seus – ...sobre uma parada aí que... eu... m-meio que falei... antes.
_Ahm... – a Clara riu de volta – ...e o que foi que você “meio” falou antes?
_Ah... cê sabe...
_Não, não sei. O que era?
 
Agora eu tinha certeza. A desgraçada sabe. Levantei a cabeça e olhei bem nos olhos da Clara, espertos e debochados, mordendo os seus lábios à espera da minha resposta e, ah, ela sabe.
 
_Nada – respondi, a contrariando.
_Hum, sei... – ela riu junto e entrelaçou os dedos nos meus, carinhosamente – ...eu te “nada” também.

julho 02, 2012

A petulante

_E aí, meu... tá bonita!
_Você disse que não vinha! – a Marina sorriu, surpresa – O que aconteceu?!
 
Dei-lhe um beijo no rosto, afastando-me em seguida e ela logo voltou os seus olhos para a Clara, na sua camiseta do Billy Idol e jaqueta larga, em pé ao meu lado. “Mudei de ideia e resolvemos vir...”, respondi, a observando atentamente. Agia normalmente, ainda que a reconhecesse – eu podia perceber. Sorri e as apresentei, então, como se não soubesse de nada.
 
_Essa é a Clara, aliás!
_Oi...
_A... a gente se conhece – a Marina se constrangeu, virando-se para a Clara – E aí, tudo bem?
_Tudo. E você?
_Uhum.
_Nossa, mas... – as interrompi, com um sorriso no rosto – ...se conhecem de onde?
 
A Clara me lançou um olhar na mesma hora, me repreendendo. Quê?
 
Atrás de nós, as garotas seguiam cozinhando o que eu agora confirmara ser mesmo um molho de tomate bastante cheiroso. Uma travessa de lasanha descansava, crua e com muitas camadas diferentes, sobre um balcão próximo de nós. Cumprimentei a Jéssica com um gesto, por cima do ombro da minha ex, gesticulando um "parabéns" silencioso com a boca e sorri.
 
A Marina fechou os olhos, confusa.
 
_A, a gen... – ela hesitou, atrapalhada na própria explicação, e eu me diverti – ...quer dizer...
_Hum?!
_É que... a, a ge...
_Ela é amiga da irmã da minha melhor amiga – a Clara se adiantou.
 
Ah, jura, a olhei de volta, com um sorriso no canto da boca, não acaba com a graça.
 
_É. A, a gente saiu, uns anos atrás.
_Quê?! – me fiz de surpresa ao ouvir a minha sempre honesta ex-namorada contar o que eu tinha descoberto cinco minutos antes – Vocês duas?! Vocês ficaram??
_Foi u-uma vez.
_Como assim, Marina?!
_A, a gente... – ela se enrolou, de novo – ...só se v-viu...
_Ela sabe.
 
Silêncio, Clara.
 
_Eu contei assim que te vi, agora pouco – continuou, cortando meu barato.
_Ah! É claro que já você sabe... – a Marina revirou os olhos para mim, num suspiro irritado.
_Enfim, bom te ver... – a Clara encerrou o assunto e se virou para mim – ...eu vou buscar mais vinho, tá?
_Não, Bi, espera...
 
Droga. Ambas me deram as costas, cada uma indo para um lado. Por que estragar o momento, gente? A Marina deixou de lado um pano de prato, o apoiando sobre a pia e indo em direção à geladeira; e a Clara retirou-se novamente para a sala, fugindo para bem longe da minha inconveniência. Ah. Qual é, meninas?! Mantive o meu espírito esportivo, de bom humor, ainda sorrindo. Corri uns três passos para alcançar a Marina no outro canto da cozinha, encostando o antebraço no alto da Cônsul antiga da Lê e a encarando.
 
_Quer dizer, então... – sorri – ...que vocês duas, hum... hein?
_Você tá adorando isso, né? Eu já devia saber... – desviou o olhar de mim, abrindo a porta da geladeira, revoltada com a forma como as minhas pupilas brilhavam com a informação – ...é a sua cara mesmo, se divertir com uma coisa dessas.
_Ah, vai...
_Quieta!
_O quê?! Eu não posso achar nada? Nem um pouco... – pausei – ...interessante?!
_Não. Você tá imaginando nós duas na cama, que eu sei. E isso é ridículo!
_Olha, não tava... – achei graça – ...mas agora que você disse.
_É. “Agora”, né. Sei.
 
Fechou a porta da geladeira com uma peça pequena de parmesão nas mãos, se voltando para a mesa bagunçada ali ao lado. A Paula tinha uma faca em mãos, ao nosso lado, picando framboesas para o que parecia ser uma possível calda, cortando-as na mesa e enchendo uma panela. Hum, vai ter sobremesa então. A Marina se acomodou ao seu lado, colocando o queijo entre os ingredientes do molho. Eu ainda me divertia.
 
_Mas, e aí? – insisti, a perseguindo pela cozinha – O que aconteceu entre vocês?!
_Nada. Você já sabe o que aconteceu...
_Tá, mas...
_“Mas” nada, chega.
_Mas eu quero saber o quê, como, a sua opinião sobre a Clara. Sei lá!
_Eu não vou dizer a minha opinião, foi anos atrás. E meu, que diferença faz agora? Você gosta dela, eu não vou ficar aqui falando da menina.
_Gosto. Gosto mesmo.
_Então, pronto!
 
A Marina virou o rosto, como se encerrasse o assunto. Tá, tá. Não tá mais aqui quem falou, ergui as mãos e me abstive de qualquer outro comentário, ainda rindo. Era uma graça como a Marina apertava os olhos toda vez que estava irritada, o fazia com frequência na minha direção. Tentou se concentrar então em ralar o parmesão dentro de um pote. As raspas caíam finas e delicadas, com leves curvas nas pontas, umas sobre as outras. Bati os meus dedos sutilmente na superfície de madeira. E foi quando, do nada, dois segundos da minha conversa com a Clara voltaram, frescos, à minha memória. Mas o quê...?, apoiei a palma da mão sobre a mesa, confusa.
 
_Na verdade, eu... – o meu cérebro só então processou e murmurei, atordoada pela lembrança – ...eu acho que, q-que eu... d-disse uma... coisa, merda. Já volto!

junho 23, 2012

Os casos

_Você?! E a Má?! – questionei e a Clara acenou um ‘sim’ envergonhado com a cabeça, os olhos ainda escondidos entre os dedos – V-vo... VOCÊS DUAS, MANO?!
 
Dei um passo para trás, com uma das mãos sobre a testa, e comecei a rir ainda mais. No máximo de silêncio que conseguia, claro, para não chamar atenção. A festa seguia atrás de nós desavisadamente. Constrangida, a Clara me encarou, fazendo um gesto com as mãos como se dissesse “e agora?”, mas tudo o que eu conseguia fazer era rir. Não, não é possível, balancei a cabeça. A Marina não tem NADA A VER com a bandida da Clara, porra. Estiquei o pescoço novamente para a cozinha e observei a minha ex em seu vestidinho preto, sapatos de boneca e os seus olhos atentos ao fogão, por detrás dos óculos pretinhos.
 
Mano, tornei a encarar a Clara, ainda desacreditada, essa é a melhor fofoca do ano.
 
_Não. Fala sério. Você?! – repeti, abismada – Com, com a minha Marina?!
_“Sua”?
_É. Ela... – expliquei, rindo – ...é minha ex. Eu te falei dela!
_E-eu achei que v-vocês fossem... amigas, não?!
_Não, nós namoramos uns anos atrás. Mas agora a gente é tipo muito, muito amiga.
_Tá me zoando, né?!
_Não. Eu fui a primeira namorada dela – ri.
_Inferno... – a Clara se desesperou, subindo as mãos novamente ao rosto – ...merda! Eu não sab...
_Como? – continuei me divertindo, a interrompendo – Quando? Quando vocês duas, digo, COMO?! COMO É POSSÍVEL?!
_Não... – choramingou, se recusando a falar, sem conseguir rir junto – ...para, não piora tudo, mano. Por favor!
 
A puxei então pela mão, para entrarmos de vez na cozinha. Vamos acabar logo com isso, pensei, indo cumprimentar as meninas. Mas a Clara grudou as costas na parede, a menos de um metro da porta – “não posso entrar aí!”. E eu não pude evitar senão rir ainda mais da situação. “Isso é ridículo, relaxa!”, cochichei, “ela não vai te morder, mano, todo mundo aqui já saiu uma com a outra! Vem!”. “Não!”. A Marina seguia cozinhando, inadvertidamente, junto às meninas. E não havia argumento que convencesse a Clara a entrar lá do meu lado.
 
Foi quando, de repente, me deu um estalo:
 
_Voc... v-você deu bolo nela! – a olhei, como se desvendasse um grande enigma – Filha da mãe! Você deu perdido na Marina!
_Eu não dei bolo em ninguém – me desprezou com os olhos.
_Alguma coisa! Alguma coisa você fez, mano, pra tá agindo assim... – gargalhei – Você não consegue nem esconder. Olha o medo na sua cara, meu! Vai, só fala. O quê?! O que você fez? – me aproximei da Clara, sem conter a curiosidade – Juro que não falo pra Má que cê falou, mas conta, vai, o que foi?! – ela virou o rosto e eu a apertei contra a parede, insuportável – Você deu bolo nela, não deu? Deu?!
_Não! Não dei, para... – sussurrou – ...e-eu, eu só nã...
_O quê? O quê?!
_Não fica aí pulando de felicidade, mano! – me deu bronca, fugindo do assunto, e eu revirei os olhos, nem aí, voltando a rir – Para!
_Só me conta logo!
_Não.
_Por favor, Bi!
_Quieta!
_Por favoooooor!
_Tá. Mas é que... f-faz muito tempo... – hesitou – U-uns, uns dois anos já. Três, sei lá! A gente só saiu uma vez, ela é amiga da irmã da Lu. A gente se pegou numa festa e e-ela dormiu lá em casa depois e eu... meio que... – a Clara suspirou, sem conseguir me olhar direito – ...namorava outra menina, na época. Só que aí ela... a-apareceu do nada, no dia seguinte, e eu tive que ir correndo pedir pra, p-pra Marina sair.
_DA SUA CAMA?! – quase gritei – Espera, espera, você acordou a Marina e pediu pra ela sair?!?
_Ela já tava acordada, idiota, eu s-só...
_Ainda assim! – eu me diverti – Que desgraçada!
_Você quer o quê?! Deixar pior do que já é?!?
_Cara... – ri ainda mais – ...eu tô te odiando muito agora. Cê tem noção?
 
A Clara enfiou o rosto nas mãos, mais uma vez, constrangida. E então me olhou, desesperada por qualquer salvação daquela festa, sem querer estar ali. Comigo, ainda por cima. Eu não conseguia parar de rir, sem qualquer intenção de ajudá-la a sair daquela. Tomada pelo absurdo do rebuceteio paulistano. Ela também ria, de tempos em tempos. Eu tirava sarro da sua cara e ela me dava tapas no braço, implorando para que eu parasse.
 
_Ela me mandou à merda, cê sabe, né... – comentou, apoiada contra a parede comigo.
_Merecido. Porra, mano, é a, a Marina!
_É, bom. Se eu soubesse...
 
Ela riu, arqueando as sobrancelhas de leve.
 
Não é fácil, eu sei. Ficar conhecida como “a mina que deu um puta fora na Marina” entre as minhas amigas certamente era a última coisa que a Clara esperava daquela noite. Levou uma das mãos ao topo da cabeça, entrelaçando os dedos no cabelo, como se tomasse coragem. E aí me olhou, determinada – “tá, vamos entrar logo”. Desencostou da parede e eu segurei a sua mão. Mas bastou um passo para ela mudar de ideia. “Não dá, isso vai ser muito feio”, voltou atrás. “Não vai, só vem”. “Não consigo”, hesitou, balançando a cabeça. “Cara, ela não vai falar nada! A Má é a pessoa mais de boa que existe!”, argumentei e a Clara me contrariou imediatamente com os seus olhos castanhos. “É sério”, reafirmei, rindo. “Muito fácil pra você dizer, né...”. “Eu conheço ela, besta”, cochichei, “tô te falando”. “Mano, por que? Por que ela?? Cê não podia ter namorado outra pessoa??”. “Olha quem fala!”. “Não acredito nisso... por quê?? Por que comigo??”, irritou-se. “Calma”, ri. “Calma nada, como é que eu vou entrar ali?”. “Vai ficar tudo bem”. “Argh”. “Vem, vamos só entrar, eu te protejo...”, tentei puxá-la pela mão. “Não, não. Não dá, meu!!”. “Não vai acontecer nada, Clá”. “Eu quero morrer”. “Só vem”. “Não”. “Vai ficar tudo bem! Olha, eu te amo, aconteça o que acontecer. Só vamos!”, ri do seu nervosismo. Ela suspirou. E os nossos pés lentamente foram se afastaram da parede. “E se ela ainda tiver puta comigo?”, sussurrou. “Não vai estar”. “Promete?”. “Prometo”, sorri.
 
Corajosamente, fizemos as nossas melhores caras de não-era-a-gente-que-tava-discutindo-por-dez-minutos-atrás-dessa-parede para entrar na cozinha. A um passo da porta, a Clara apertou a minha mão e eu fui na frente.
 
_Flor!