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março 25, 2010

Domingo Legal

_Que porcaria é essa que cê tá assistindo?
 
O Fer perguntou de trás do sofá.
 
_Não sei e nem quero saber – argumentei, fumando um baseado – A meta aqui é alienação completa.
_Acho que vou me juntar a você – ele riu.
_Noite difícil?
_Nossa, mano – reclamou, de saco cheio – Não sei o que rola com a Mia, porra. Tá foda. Me largou aqui sozinho ontem, meu, foi embora sem falar nada! Cê... – me olhou, desconfiado – ...cê não contou mesmo, né?
_Hein?
_Da Júlia, porra.
_Não, Fernando, não contei – resmunguei.
_É que, sei lá... Ela anda estranha. Fui tentar falar com ela hoje e ainda me deu patada!
_Vai entender...
_É... – ele bufou – Mas e você, tava onde ontem? Não vi cê chegar.
_Tava lá na Marina.
_Caralho, na Marina? Mas cês não... – ele começou a rir – ...deixa quieto, vai.
_Nem faz essa cara aí pra mim! Fui lá só pra conversar.
_Sei... – ele riu – Ah! Aliás... A Roberta passou aí ontem.
_Jesus! Cê tá de brincadeira?
_Não, passou mesmo. Até tomamos umas juntos, eu disse que cê não tava e ela ficou aí um tempo pra ver se você aparecia. Deve ter ido embora lá pra meia noite ou uma... – contou e eu sacudi a cabeça, desacreditada – Eu fui dormir logo em seguida.
_Meu deus – revirei os olhos, dando mais um trago – Qual é o problema das pessoas?
 
Disse a fracassada que ficou até 5 da manhã na calçada da Mia.
 
_Na moral, cê devia dar mais bola pra ela... Puta mina gente boa, meu.
_Não, obrigada. Tô dando um tempo de mulher.
_Ah, claro. Você?! – ele riu – Até parece.
_É sério, Fer. Pra mim chega, só me meto em furada. E além do que, meu, a Rô pode ser ótima e tudo mais, mas é meio intensona, né? Não dá... Já não era nem para ela ter vindo aqui na quinta, puta cilada que eu fui inventar. Mano, toda vez a gente treta. Toda vez! E toda vez ela fica vindo atrás. A gente já passou por isso mil vezes. Preciso parar com essas ideias idiotas...
_Como cê é sensível, hein... Parece até que não tem culpa.
_Ah! Falou o morador mais íntegro desse apartamento – o empurrei – Hein, ô adúltero de meia-tigela?
_Vai se foder.
 
Nós rimos e terminamos o baseado juntos. No fim das contas, não era tão ruim estar no apartamento com o Fer. Ainda era o Fer – o mesmo de sempre. Ruim era passar por uma noite horrível daquelas e não poder contar nada pra ele. Sempre dividimos tudo. Mas agora tinha que ficar sentada ali, do seu lado, sem me entregar. E assim ficamos, os dois, enfurnados na sala em pleno domingo à tarde. De bode pela mesma mulher.

fevereiro 09, 2010

O atraso

Na manhã seguinte, veio a ressaca – moral ou não. Abri os olhos e senti minha cabeça doer. A conta de todos os chopps da festa do Marcos chegou com tudo. Olhei para o lado e vi a Roberta deitada na minha cama, o que diabos eu fui fazer?
 
Às vezes, acho, o meu julgamento falha. Especialmente de madrugada. Não sei o que diabos acontece entre as 23h e 6h, parece que tudo ganha uma dimensão maior. Mais dramática. E eu me deixo levar, pelo meu ego, pelo desespero de não ficar sozinha, de matar o tempo, ou a dor, a qualquer custo. Caralho. Levantei da cama para desligar o alarme martelando na minha cabeça. Todas as nossas roupas estavam largadas pelo chão, as minhas e as da Roberta, como testemunhas passivas de uma série de escolhas erradas.
 
Pisei sobre elas e andei até o meu armário, tirando a primeira coisa que achei para ir trabalhar. Só então acordei a Roberta. E ela só faltou pular da cama, em pânico, assim que disse que já eram quase 7. Estava mais atrasada do que eu – dava aula numa escola pra lá da Água Branca. Nos apressamos. Numa passada rápida na cozinha para improvisar um café, nos deparamos com o outro trabalhador daquele apartamento – com um samba canção velho e olheiras imensas da bebedeira. À primeira vista, ainda bravo comigo. Ah é, além de tudo teve isso. As lembranças da noite anterior eram uma pior do que a outra, argh. O Fer olhou para a minha cara e me ignorou, tomando um gole de água apoiado na pia.
 
Mas, então, notou a Roberta entrando atrás de mim.
 
_Nossa! – sorriu, surpreso – Você eu não via fazia tempo aqui!
_Só eu que não, né? – ela o cumprimentou, rindo – Quem andou tomando café com você além de mim, hein?
_Vixi... – ele riu – Isso você esclarece com aquela ali, eu não vou me meter.
_Olha, eu não sei do que vocês estão falando... – dei de ombros – Nunca trago ninguém pra tomar café.
_Cê sabe que sempre foi minha favorita, né, Rô? – o Fer a abraçou de lado e me olhou, satisfeito – Que bom que vocês voltaram, meu!
_Nós não “voltamos” – o corrigi, rabugenta – Nós sequer “fomos”.
_Mais ou menos, não é?
 
A Roberta retrucou.
 
Só faltou me fuzilar com o olhar. Quis dizer que não namoramos, revirei os olhos, não dá para voltar se a gente nunca terminou. Os dois ficaram de gracinha por uns minutos enquanto eu passava café, me chamando de “Coração Gelado” e enchendo o saco. Matando a saudade um do outro, basicamente. Enfiei a cara na dispensa – à procura do cereal e da minha integridade. Mas logo a Roberta lembrou-se do horário e virou o café de qualquer jeito, saindo correndo pela porta. Sequer me deu um beijo. O que, admito, incomodou um pouco o meu coração gelado.
 
_Meu, na boa, você devia namorar com ela.
 
O Fer comentou, assim que ouviu a porta da frente fechar.
 
_Tô de boa, obrigada.
_Por que não?
 
Porque, Fernando, a garota que eu quero é a sua.
 
_Hein? – insistiu, diante do meu silêncio – Por que não?
_Não é da sua conta, mano. Que saco!
_Meu, nem vi ela chegar ontem... Que horas a coitada veio para cá?
_Ah... sei lá, tarde. Meia noite e pouco.
_Mano, olha isso, quinta de madrugada... A garota te adora! – se exaltou – Sério, meu, sabe-se-lá por que motivo ela é completamente idiota por você e você não está nem aí...
_Eu gosto dela, Fer, não é isso... – respondi, colocando uma colherada de cereal na boca – ...só não quero casar com a mina, porra.
_Talvez você devesse, ao invés de ficar aí pulando de galho em galho... – murmurou.
_Que é?! Deu pra dar palpite agora?
 
Me irritei. E ele balançou a cabeça, comendo o restante do café-da-manhã num silêncio pouco amistoso. Isso é retaliação, só pode.

fevereiro 06, 2010

Devaneios

Acendi um cigarro e soltei a fumaça lentamente, contemplando enquanto ela se desfazia no ar. Aquilo me dava uma certa paz. O sexo, digo. E não porque era com a Roberta – poderia ser com qualquer pessoa. Virei para o lado e olhei para ela por um instante. O seu rosto ainda estava vermelho e o quarto todo estava quente, abafado. Ela sorriu e eu sorri de volta.
 
Voltei a encarar o teto e traguei mais uma vez, segurando a fumaça por um tempo até soltar. E foi quando a Mia apareceu na minha cabeça. Suas mangas enroladas sobre os ombros, o jeito como sorria ao meu lado na varanda. Se algum dia eu te levar para a cama, garota, não vai me trazer paz nenhuma. Só a ideia fazia as minhas pernas se moverem sobre o colchão, se reajeitando. Ia acabar com a minha sanidade, isso sim, tive certeza ali mesmo. E respirei fundo.
 
_Hum. Senti falta disso...
 
A Roberta me abraçou pela barriga, encostando a cabeça no meu ombro. Não respondi, absorta nos meus pensamentos. Dei mais um trago e o meu olhar vagou pelas curvas que o seu corpo formava grudado no meu, encaixando-se com uma facilidade natural. Como alguém pode não gostar disso?, minha cabeça divagou. Não fazia sentido. Minas héteros. Caras gays. Digo, os viados ainda consigo perdoar. Mas como diabos uma mina não se sente atraída por outras mulheres?
 
_Você tá quieta...
 
A Roberta sussurrou, me observando. A fumaça formava círculos no ar e depois sumia.
 
_Tô só brisando... – murmurei de volta, tragando mais uma vez.
_Sobre o quê?
_Sobre gostar de mulher...
 
A Roberta ergueu a cabeça, me encarando.
 
_De mim?
_Não – a resposta saiu da minha boca, desatenta.
_Mano... – ela se irritou – ...cê é tão filha-da-puta às vezes, sabia?! Acho que cê nem percebe, puta merda!
_Calma, meu. Não foi isso que eu... – vi a Rô levantar e começar a vestir a calcinha – Caralho, volta para a cama, Rô. Não é isso!
_Em quem você tava pensando?
_Em ninguém!
_Me responde! – a situação saiu subitamente do controle – Gostar de quem, então?!?
_Mano, para. Peraí, vai... Porra, de ninguém, qual é!
_EU QUERO SABER!
_DE NINGUÉM, MEU!
_Você é inacreditável...
_EU?! O QUE EU FIZ? – subi de novo o tom de voz, também – Tava aqui na minha, pensando em qualquer merda, mas que inferno...
_Bom, você pode ficar “na sua” sozinha.
 
Respondeu já vestindo a blusa de qualquer jeito, como se quisesse sair o quanto antes do meu quarto. Passei as mãos no rosto, sem acreditar que tinha me metido naquela discussão sem pé, nem cabeça em plena madrugada. Entre uma peça de roupa e outra, a Roberta mal olhava na minha cara, furiosa.
 
_Rô... Rôôô... Rô, olha para mim... Roberta!
 
Mas que droga. Por que eu fui abrir a boca?
 
_Rô, me escuta, eu não quis dizer isso. Eu não tava pensando em ninguém! Mano, eu tava só... Sei lá! – comecei a me explicar, sem acreditar naquilo – T-tava, tava pensando em gostar de mulher no geral. Foi o jeito de falar! Caralho, não fiz nada... Cê vai mesmo fazer essa ceninha toda, porra, às 3 da manhã?
_CENINHA?!
 
Ela arregalou os olhos, ofendida. Merda.
 
_Rô, desculpa. Me escuta...
_Não. Não vou escutar. Não vou, tem sempre alguém. Sempre! Eu não sei por que DIABOS eu continuo saindo com você! Porque tem sempre alguma garota, outra babaca melhor para você pensar CINCO MINUTOS DEPOIS DE ME COMER! PORRA! QUAL É SEU PROBLEMA?
_NÃO FOI ISSO QUE ACONTECEU!
_Olha, quer saber? Que se dane. Sinceramente eu tenho pena de quem quer que seja, porque se relacionar com você é impossível! Eu cansei dessa merda.
_Roberta... – me levantei, abraçando-a quase à força – ...para, meu, não faz isso.
_Eu não devia ter vindo – balançou a cabeça, com os olhos marejados – Eu sou uma IDIOTA!
_Não! Claro que não. Para com isso. Porra, linda... Não tem nada a ver! Eu juro, eu não estava pensando em ninguém.
_Como você pode falar isso pra mim, mano? Depois de me chamar aqui?! Que não sou eu?!?
_Eu me expressei mal, e-eu não sei por que falei daquele jeito. Me desculpa. Não era isso! É sério. Eu não quis dizer que tava pensando em outra pessoa. Eu s-só... meu, dois segundos antes eu tava lá, olhando pra você sem roupa, o corpo no meu, e comecei a brisar sobre, s-sobre como é bom estar com mulher, gostar de mulher. Ser sapatão, sei lá! Pensei que é bizarro que existam minas héteros. Não sei. EU NÃO TAVA PENSANDO NADA COM NADA! Me desculpa. Fiz merda, Rô. Por favor, me perdoa.
 
Faço tudo errado, mas que droga, a abraçava sem desviar dos seus olhos, arrependida. A Roberta suspirou – a verdade é que uma única resposta minha vinha carregada de tantas outras. Apoiou a cabeça no meu colo, com os braços em volta de mim.
 
E o quarto ficou em silêncio de novo.

fevereiro 03, 2010

MSN

.   diz (23:38):
e ai, meu...
q ta fazendo? :)
 
[ B e r t a ] diz (23:39):
oi
td bem?
nossa.. achei q tivesse te assustado d vez
 
.   diz (23:39):
rs
de onde c tirou isso, ro?
 
[ B e r t a ] diz (23:40):
ahh sei la, vc saiu correndo no gloria
nem tive a chance de falar nd
 
.   diz (23:40):
falar oq?
 
[ B e r t a ] diz (23:43):
naum sei.. faz tempo, neh?
hhuahuahaua
 
.   diz (23:46):
liga a cam
qro te ver..
 
[ B e r t a ] diz (23:46):
naum da.. to no laptop, naum tem webcam.. so no pc
 
.   diz (23:46):
entao vem pra ca.. :-p
 
[ B e r t a ] diz (23:47):
vc eh uma figura!! hhashausahuahsua
maaano sabe q hrs sao???
 
.   diz (23:47):
qual o problema? vc n ta dormindo
 
[ B e r t a ] diz (23:49):
mas naum vou pegar o carro e ir ate a paulista essa hr!! huahauahau
meu serio.. eu trabalho amanha
 
.   diz (23:50):
eu tb
isso nunca foi problema pra gnt, foi?
vem ai, po...
 
[ B e r t a ] diz (23:51):
vc eh doidaa hhuahuahauaha
 
.   diz (23:51):
ta. deixa quieto entao..
 
[ B e r t a ] diz (23:52):
:(
 
[ B e r t a ] diz (23:54):
naum,pera.. qr saber..
aff naum acredito q to fazendo isso
ta olha, eu vou.. mas me espera ai heim
 
.   diz (23:54):
claro q espero
 
[ B e r t a ] diz (23:54):
naum vai dormir hhuahauhauaha
 
.   diz (23:55):
jamais.. rs
 
 
 
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janeiro 11, 2010

Meu passado me condena

...e infelizmente, o presente também.
 
Sabe como algumas lésbicas se consideram a “ovelha colorida” da família? Bem, digamos que eu era a galinha colorida da minha. E lugares como o Glória eram um problema – um problema considerável. Era o tipo de rolê estocado de exs e entrar lá acompanhada da Clara, que não ficava muito atrás na galinhagem, não me parecia a ideia mais sensata do mundo. Me arrependi no segundo em que chegamos. Por que eu tava com pressa de vir para cá? Impulsos suicidas?
 
Mas não tinha escolha.
 
Então entrei. Como entrei muitas vezes antes daquela e saí, horas depois, com dinheiro de menos e dor de cabeça de mais. Isso vai dar ruim. E eu não tinha a menor disposição para mais nada dando errado na minha vida. O Glória tinha esse nome porque ficava numa antiga igreja na Treze de Maio – o altar tinha sido substituído por paredes espelhadas e a pista era delineada por uns sofás largos afundados no chão, que lá pelas 4 da manhã viravam um amontoado de gente se pegando ou tentando não vomitar. Uma olhada rápida na pista e resolvi ir procurar a minha coragem no bar. Desaconselhavelmente. Duas doses de tequila depois e estava prestes a encontrá-la. De certa forma, ficar estupidamente embriagada me parecia um jeito mais fácil de estar ali.
 
_Devagar aí, gata! – a Clara disse, rindo, enquanto eu pedia a terceira dose – Quer acabar a noite na ambulância? Isso é tequila!
_Eu sei o que é – respondi, virando o copo – Vamos dançar, vem.
 
Arrastei a Clara até o meio da pista e o restante da noite me vem à memória somente em forma de flashes dispersos embaçados. Lá pelas tantas, trombamos com a ex – ou atual? – da Clara e ela me arrastou para o banheiro, aos risos, se escondendo. Fodemos em meio ao caos daquele cubículo imundo. E assim que saímos, demos de cara com a Roberta na fila. Merda. Quase me tranquei de novo na cabine. Improvisei um sorriso amarelo e, antes que pudesse trocar duas palavras com ela, a Clara me puxou para a pista – correndo para ouvir “Bucky Done Gun”. Atravessamos a multidão, nos enfiando no meio das sapatonas. E daí em diante não lembro mais porra nenhuma.
 
Deixamos a balada lá pelas 5 da manhã, consideravelmente mais pobres, com os braços doendo de tanto nos agarrar, numa pilantragem sem filtro. Eu estava tão bêbada que sequer contestei a quantia absurda de tequilas e vodcas que me foram cobradas. N-não bebi t-tudo isso, pensei, cambaleando para fora descabelada, c-certamente que n-não. Entrei no carro e acordei na frente de casa. Santa inconsciência.
 
Igualmente fora de controle, a Clara desceu para se despedir da minha pessoa contra o portão do edifício. E quase como se não pudéssemos evitar, demos início ao maior amasso do lado de fora do meu prédio. Pelo que acho que foram uns 20 minutos. Talvez 40? Não sei. A amiga emputecida buzinava insistentemente para que a Clara voltasse para o carro, enquanto eu me empenhava em fazê-la ficar.
 
_Vaaaamos... Eu deixo v-você ser o Bowie, eu deixo você ser q-quem você quiser... – eu argumentava, quase entrando na sua roupa, e a Clara ria, me empurrando e me puxando em seguida.
 
Por algum motivo, que não me recordo, ela não podia ficar. Talvez fosse vingança pelo meu sumiço. Que seja, pensei, recuperando momentaneamente a sobriedade – aí me despedi e subi. A minha batalha para encontrar as chaves, caída de joelhos em frente à porta do meu apartamento e tirando tudo que encontrava nos bolsos, espalhando as minhas tralhas pelo chão, é um episódio que talvez eu deva pular. É. E passar direto para a parte em que entrei em casa, sozinha e perigosamente alcoolizada.
 
Meus pés já não obedeciam direito aos meus comandos – ou talvez fossem os comandos que estivessem confusos, tanto faz – e eu mal era capaz de abrir os olhos. Parei no meio da sala, atordoada, observando tudo rodar e rodar e rodar.
 
E foi quando eu tive uma péssima, péssima ideia.

dezembro 25, 2009

Maldito silêncio

Tentei virar a chave um milhão de vezes, mas algo me impedia.
 
Tinha medo do que encontraria do outro lado. Imaginando que daria de cara com o meu melhor amigo e estimado colega de apartamento, me esperando no meio da nossa sala, puto, depois de descobrir que eu havia chegado perto o suficiente para beijar a namorada dele caso eu quisesse. E eu queria. Agora me via parada ali, no corredor, antecipando mentalmente cada insulto que ele cuspiria na minha direção. Sem conseguir abrir a maldita porta. A Roberta já tinha deixado dois recados na minha caixa postal e o meu celular registrava inúmeras ligações perdidas. Todas suas. Caralho. Só faço merda. Quando finalmente criei coragem, abri a porta e...
 
Nada.
 
Estranho. Entrei silenciosamente no escuro e, como ninguém se manifestou, acendi as luzes – o apartamento estava vazio. Sem ninguém. Nada. Sem reações explosivas, sem ciúmes, sem conclusão nenhuma para todo aquele rolo que eu havia começado de manhã. Sem porra nenhuma. Sem desfecho ou indícios do quanto havia sido falado entre aquelas quatro paredes na minha ausência. Nada. Um grande nada.
 
Ah, isso era bem pior.
 
Parte de mim, quase preferia a treta. Onde diabos eles se enfiaram? Andei pelo corredor até o quarto do Fer e a porta estava aberta. Entrei por um instante para constatar se realmente não havia ninguém ali. Os lençóis estavam desarrumados – argh. Como eu odiava aquilo. Odiava as coisas que passavam pela minha cabeça quando via a cama dele bagunçada depois da Mia ter estado lá. Sentia o meu coração rasgar; ficava inquieta, desconfortável. Sem direito nenhum, é, mas acontecia. Assim como aconteciam as minhas grosserias, as babaquices que eu fazia para lidar com o meu próprio caos.
 
A minha ansiedade tomou conta de mim. Eu queria saber. Queria ter certeza do quanto o Fer sabia. Queria olhar nos olhos da Mia e ver se tinha feito alguma besteira irreparável. Ou se todo aquele surto era resultado da minha própria paranoia. Queria alguém ali. Queria alguma certeza. Qualquer uma – mas não tinha nada.
 
Só a droga do silêncio.

dezembro 19, 2009

Indesculpável

_Nossa, isso foi... intenso... – suspirou a Roberta, enquanto eu retomava o fôlego – Cê não costuma ser tão... Ahm...
 
Egoísta?
 
_...sei lá. Tão “intensa” – ela riu, se repetindo, sem achar outra palavra.
_Hum... – hesitei, olhando para ela do meu lado.
 
Sorri rapidamente de volta, sem conseguir disfarçar bem. A verdade é que aquilo não tinha adiantado de nada. Porra nenhuma. Eu tentei, tentei mesmo, tentei ao máximo tirar a Mia da minha cabeça. Tentei por horas seguidas arrancá-la, à força, de dentro de mim. À exaustão – mas ela simplesmente não foi embora. Alheia ao meu tormento, a Roberta se sentou no colchão e alcançou o dichavador que estava no chão do quarto, perto da cama.
 
_Ei... – me olhou de canto de olho e brincou, enquanto bolava um baseado – Até que a gente não é nada mal juntas, hein?
_É – forcei outro meio sorriso, com a cabeça cheia.
_Hum, e quando você vai me fazer sua namorada?
_E por que eu que tenho que fazer alguma coisa?
 
Me arrependi assim que falei.
 
Merda. A Roberta desviou o olhar, aborrecida – por aquela minha atitude estúpida de quem não tem nada a ver com o assunto. E eu me senti péssima. Deitada ali na sua cama, sem sequer conseguir a dignar com uma resposta melhor. O que diabos eu tô fazendo?, esfreguei a mão no rosto, arrependida. Talvez eu devesse ter percebido mesmo, talvez eu devesse ter me importado mais. E talvez não fôssemos só duas pessoas que se ligam para transar. Mas que merda. É.  No fim das contas, fingir amor com boas intenções é mais íntegro do que ser sinceramente filha-da-puta?
 
Não importa. A verdade é que eu tinha que aprender a deixar as pessoas em paz. Longe da minha confusão. Da minha grosseria. Beijei-a carinhosamente no rosto. E suspirei, sentindo o meu amor por outra entalado na garganta. Então deitei de novo no travesseiro, encarando o teto. Mas, de repente, não conseguia mais ficar ao seu lado. Eu tinha feito tudo errado. Tudo aquilo – cada movimento, cada palavra. E a culpa era minha. Inteira minha. Droga.
 
_Desculpa. E-eu... – me inquietei, subitamente – Isso tá errado, e-eu... – levantei da cama, me vestindo – ...eu não devia ter vindo aqui hoje, m-me... desculpa, Rô.

Medidas drásticas

40 minutos, 2 sanduíches e muitos cigarros depois e nós estávamos de novo no apartamento. A fome da Roberta foi embora, levando junto alguns dos meus poucos reais restantes, que gastei num novo maço no caminho de volta. Mas, enfim, de volta. O apartamento dela quase não tinha móveis. Numa pegada meio industrial, minimalista. Eu a observava dançar distraída pela sala, lentamente. PJ Harvey, "Beautiful Feeling". A música pesada, de alguma forma, se misturava com a sua personalidade. As cortinas escureciam todo o cômodo, mas eu conseguia vê-la, de costas para mim, movendo-se de um lado para o outro. Com os pés descalços soltos no chão. Ela tinha uma linha reta tatuada no meio do indicador, que subia por todo o braço e até a nuca. Outra vinha do seu calcanhar até o meio da coxa. Ela se virou e sorriu para mim, de longe. Eu podia me apaixonar por você, garota, pensei. E por um instante, me esqueci do que me levara até a casa dela mais cedo naquele dia. Me esqueci dos motivos, do meu único motivo. Me esqueci dela.
 
A Mia.
 
Do nada, ela voltou. Por que eu fui pensar nisso?! Mia. Mia. Mia – argh. De repente, a desgraçada tomou conta de todos os meus pensamentos. De novo e de novo. Contra a minha vontade. Você tá estragando isso, inferno, me irritei. E ela estava. A Mia estragava a Roberta, estragava tudo. E sabe, se a namorada hétero do seu amigo é capaz de arruinar uma garota dessas dançando sem roupa numa sala vazia, meu bem, você tá perdida. E eu já era.
 
Droga. Larguei o cigarro, incomodada, e me levantei do sofá. Vamos lá. Eu consigo fazer isso. Fui até o meio da sala e segurei a Roberta com todas as minhas melhores piores intenções. As suas mãos subiram a camiseta pelas minhas costas. Mordi seu queixo e subi a minha boca até a sua. No entanto, quanto mais eu a beijava, mais a Mia invadia a minha cabeça. Os meus dedos a seguravam com vontade e apertavam a sua pele, numa tentativa de fazer com que a porra da Mia desaparecesse. Eu queria que ela desaparecesse. Que sumisse de todas as extensões do meu corpo, de cada veia sob a minha pele. E do meu coração – sobretudo do coração. Mas não. Nada. Ela continuava lá. Em mim. Insistentemente. Mia. Mia. Mia. Mia. Mia. Argh.
 
Mas resisti.
 
Eu vou fazer você sumir, porra.

dezembro 18, 2009

Roberta

Desembarcamos, eu e as minhas más intenções, numa ruazinha inclinada de Perdizes. Apto 42. Roberta. Esse era o nome da garota que eu estava prestes a sacanear por motivos totalmente egoístas. A mesma que provavelmente me chutaria de volta para Baixo Augusta caso descobrisse que alguma vez a imaginei como uma vítima indefesa da minha própria falta de integridade – que era exatamente o que eu estava pensando, parada em frente ao interfone do seu prédio.
 
Quarto andar e nem um fucking elevador. Como eu odeio esses prédinhos namastê de Perdizes. Muitos degraus depois e a Roberta abriu a porta. Encostou no batente como se já me esperasse há algum tempo e eu sorri. Um sorriso sincero, feliz por revê-la. A Rô tinha aquele jeito dyke de ser, cabelo curtinho descolorido e uns braços fortes. Irresistível. Com o tempo, desenvolvemos certa cumplicidade, mas algo me impedia de estar realmente com ela. A minha falta de maturidade, provavelmente.
 
Era uma dessas minas pós-punk que ouvem EBM. Sabe? Dessas que cresceram no interior escutando uns Front 242 baixado ilegalmente no Napster, depois veio morar na capital e entrou na cena hardcore eletrônica. Uns anos depois, ela acabou caindo nuns sons experimentais depressivos, e densos, tinha um projeto de discotecagem com um amigo que fui ouvir uma vez numa quebrada no centro de São Paulo, não sei bem explicar. Mas eu gostava. Gostava de tudo nela. E o sexo era, meu deus. Gostava também de pensar que era para isso que nos ligávamos, de tempos em tempos, ainda que provavelmente essa fosse só a minha perspectiva. Não a dela.
 
_Então quer dizer que cê ainda tá viva?
 
Cruzou os braços, rindo, encostada no batente.
 
_É... E-eu, eu andei meio ocupada – menti – Correria no trampo.
 
A Rô levantou a sobrancelha, como se não acreditasse, e em resposta a beijei contra o batente. Puta merda, como eu precisava disso. Tem umas bocas que simplesmente se encaixam. E a da Roberta me fazia esquecer de todos os desencontros da minha vida. Me afundei no seu gosto e ela me puxou na sua direção. Eu sorri entre os seus lábios.E aí, posso entrar?”, fiz graça, já me dirigindo para dentro do apartamento, certa da resposta.
 
_Na verdade... – ela me segurou, tirando as chaves do bolso – Eu tava saindo pra almoçar, quer vir?
 
Espera. Quê?
 
Fiquei parada ali. Não. Não, não, a encarei sem reação, pega de surpresa. Não, não, não, você não tá entendendo, gata. Eu preciso de horas intermináveis de sexo da mais baixa categoria e você quer ir comer? Mas nem a pau.
 
_Pode ser. Mas... – a encostei de volta contra o batente da porta, sem me dar por vencida – ...p-primeiro, vamos lá dentro comigo um pouquinho, vai? Pra gente decidir direito o que vai comer...
 
Cafona, é, eu sei. Mas a Roberta riu e colocou os braços ao meu redor de novo, me beijando demoradamente. E pareceu funcionar. Danem-se os vizinhos e os bons modos, a porra toda. Estava pronta para tirar a roupa ali mesmo. Desesperada por qualquer coisa que me ocupasse a boca mãos mente corpo o coração naquele momento. Fui descendo pelo seu pescoço, deslizando os lábios na sua pele. E a Roberta mordeu a pontinha da minha orelha. Aí aproximou a boca do meu ouvido:
 
_Eu tô com muita fome... – arrastou as palavras lentamente, me provocando, e aí segurou o riso, se afastando – É sério. Eu tô morrendo de fome, vamos?!
 
Filha da puta.
 
Aquilo era vingança. Eu podia ver ela se divertindo com a situação e com a minha nítida cara de frustração. Isso que dez minutos antes eu estava plantada em frente ao seu prédio imaginando-a como uma vítima indefesa da minha arrogância. Pois é. Agora eu é que era arrastada para um almoço inoportuno, a três quadras dali, com um fogo desgraçado e a cara mais emburrada do mundo. Isso não tá acontecendo, me indignei.

dezembro 15, 2009

Merda, merda

Não sabia por que estava tão irritada. Sentia que tinha feito besteira, uma besteira grande. Maldição. Acendi um cigarro e tentei não me preocupar. Em vão. A minha cabeça estava cheia d-da, da Mia, da porra da Mia, e como tínhamos ficado próximas nos últimos meses e como, caralho, c-como pude interpretar as coisas de forma tão equivocada. Mas... m-mas estou mesmo tão errada assim? Nunca tinha me enganado antes, não desse jeito. Que diabos a Mia tem que me confunde tanto?
 
Não.
 
Não, não. Não. Não interessa, me forcei a esquecer aquilo. Não importa se tô certa ou errada, é uma péssima ideia. Eu sabia que não podia dar em cima da mina do Fernando – o que me perturbava era o quanto eu não conseguia evitar. Meti os fones do meu MP3 no ouvido e desci a rua nervosa, fumando compulsivamente e judiando dos meus lábios, que eu mordia entre uma tragada e outra. Eu tô exagerando, pensei, tentando me acalmar, é só uma garota.
 
“Só uma garota” – argh.
 
Era a pior garota. Inferno. Por que diabos fui gostar logo dela?, era tudo o que vinha na minha cabeça enquanto eu descia a Frei Caneca. Ela namora, insisti mentalmente, com meu melhor amigo, cacete. Mas quanto mais eu tentava não pensar em mulher nenhuma, mais a minha cabeça se enchia com cada pedacinho da única que eu realmente queria – a sua boca, o seu cheiro, o jeito como se movia quando falava ou como deitava ao meu lado na cama, descascando o esmalte preto das unhas enquanto a gente ouvia música, as suas pernas esbarrando nas minhas, numa vontade inexplicável de estarmos juntas, caralho. “And I want you now, I want you nooow”, o Muse gritava no meu ouvido, agravando o aperto no meu coração, “I feel my heart implooode”. Estava prestes a enlouquecer.
 
Parei de repente de andar e respirei fundo, tirando os fones. Estava em uma esquina e a senhora ao meu lado me olhava esquisito, como se eu fosse descontrolada. Ótimo, revirei os olhos, tô assustando velhinhas agora. Olhei em volta e vi que havia descido mais do que imaginava, já quase no buraco sujo da Rua Augusta que segue o final da Frei Caneca. O sol indicava impiedosamente que já passava de meio dia. Merda. Vou ter que subir tudo de novo nesse calor insuportável.
 
O pessimismo e um desânimo preguiçoso, resultante da minha vida como uma paulistana sedentária cujo esforço físico se limitava a levantar copo de cerveja e foder em banheiro de balada, afastaram meus pensamentos inapropriados por um instante. Mas eles logo voltaram, empurrando mais um cigarro para dentro da minha boca. Preciso esquecer ela, concluí. E precisava esquecer naquele segundo. Analisei rapidamente as minhas opções, peguei o celular e, após minha segunda ligação, subi no primeiro táxi que parou.
 
_Perdizes, por favor.
 
Não, eu não tinha dinheiro para aquilo. Digo, não para o que eu estava prestes a cometer – uma fuga desnecessária para o apartamento de um casinho que não tinha culpa naquela história e a quem eu provavelmente ia acabar machucando. É. Eu poderia pensar em um milhão de maneiras de gastar melhor o meu restrito dinheirinho do que naquele táxi – mas me enrolar nas pernas de uma garota era a melhor forma de tirar a boca e todo o resto de outra da cabeça. Foda-se, contestou o meu ego ferido, é uma emergência.
 
Perdizes, baby, aqui vou eu.