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maio 18, 2011

As reticências

Na quarta-feira, a garota voltou. Dei de cara com a dita cuja de manhã na cozinha, quando estava saindo para o trabalho, e presumi ser a mesma de uns dias antes. Estava com as pernas de fora num camisetão do Fer e os pés descalços, distraída, observando as fotos presas por ímãs na nossa geladeira. As imagens já começavam a desbotar. Bagunçado, o seu cabelo castanho batia na altura do ombro. Tinha tatuagens por todo o corpo e dois alargadores enormes – bem maiores do que os da Mia. Tinha cara de body piercer ou sei lá, algo que combinasse com aquele visual. Assim que entrei pela porta, ela se virou e me cumprimentou, meio sem jeito. Deve achar que sou uma louca que fica gritando com o Fer no corredor, pensei.
 
Comentei que ia fazer café e perguntei seu nome, tentando ser simpática. “Helena”. Alguns minutos depois, o Fer apareceu na cozinha e a beijou brevemente contra a porta da geladeira. Fiquei olhando os dois enquanto terminava de passar o café na pia. Não sabia onde ele havia arrumado aquela garota, tampouco me importava muito. Passaram mais tempo dentro do quarto do Fer do que pela casa. E ela até parecia gente boa – só não sei como não percebia as intenções do meu amigo.
 
Meu bem, lamentei, você é o step.
 
Acabei a minha xícara e saí de casa, sem intenção de voltar tão cedo. De hoje não passa. Tinha passado a madrugada toda fumando um cigarro atrás do outro, angustiada, sentada sozinha no meu quarto – pensando na Mia e na minha tendência estúpida de machucar todo mundo à minha volta. Ela, a Marina, o Fer. Argh. Acordei de saco cheio de mim mesma, do meu sofrimento arrastado, eu não aguentava mais me sentir daquele jeito. Algo precisava mudar.
 
Fui para o trabalho e esperei o dia se arrastar, entre uma mensagem e outra para a Mia, sendo ignorada. E assim que deu seis da tarde, subi num ônibus para Higienópolis. Assisti as ruas passarem, naquela lentidão do engarrafamento paulistano, até as redondezas do prédio da Mia. Quando cheguei no portão, uma madame estava saindo com um cachorro na coleira. Aproveitei para entrar. “Você vai lá na Mia, num é?”, o porteiro sorriu, me reconhecendo. Pediu para esperar ali, ao lado da guarita, enquanto confirmava se eu podia subir.
 
_Tudo bem, senhora, sim, eu aviso – ouvi ele dizer e imediatamente soube que ela não ia descer – Está bem, está bem. Sem problemas.
 
Nem a pau.
 
_Dá aqui, deixa eu falar eu com ela... – peguei o interfone da mão dele, grosseiramente – ...Mia?!
_...
_Mia!
_Oi...
_Olha, eu não vou fazer uma ceninha. Só quero falar com você, mano!
_E-eu não tô bem, eu... – murmurou baixinho, do outro lado – ...por favor, n...
_Que custa, porra?! – a cortei – Dois minutos e eu vou embora, prometo. Já vim até aqui, pô... Desce aí!
_... – suspirou – Tá.
 
Estiquei o interfone de volta para o porteiro, que agora já não sorria mais para mim, resmungando que eu podia ter causado um problema para ele. Tentei me desculpar e fui expulsa da guarita. Cacete. Só faço merda. Esperei por longos quinze minutos com os antebraços apoiados na grade do jardim do prédio, fumando um cigarro. Cheguei a pensar que ela não viria. Mas então ouvi seus passos atrás de mim, me virei.
 
Ela estava maravilhosa – inferno.
 
Senti como se eu não a visse há meses. Por tempo demais. Dei um último trago, jogando a bituca no chão. Os meus olhos agora fixos nela. Estava num moletom cinza, desses de ficar em casa, com cara de quem também tinha passado aquelas últimas semanas chorando; o esmalte preto já descascado nas unhas roídas, as olheiras fundas, provavelmente sem qualquer intenção de estar bonita. Mas estava, puta merda.

abril 20, 2011

A intromissão

_Fer! – o chamei, indo atrás dele no corredor numa arrogância embriagada – Tem alguém aí??
_Não interessa!
 
Ah, tem.
 
_Quem é?!
_Já falei, porra, não se mete! – retrucou, grosso, indo em direção à porta do seu quarto.
_Que foi agora, Fernando?! O apartamento é meu também, caralho! Não tenho direito de saber?!
_Cara, alguma vez já me intrometi na sua vida?!?? – se virou para mim, sem paciência – Já?! Já fiquei perguntando quais as minas que cê traz aí, porra?!
_Foda-se! Tô perguntando agora!!
_VAI ARRANJAR O QUE FAZER, INFERNO!
_AH, É! PORQUE VOCÊ PELO JEITO JÁ ARRANJOU, NÉ...
_Se a Mia pode, também posso – resmungou.
 
E bateu a porta na minha cara, puto.