_A GENTE SAI EM MEIA HORA! – o Fer gritou, avisando, ao passo em
que eu arrastava os pés pelo corredor.
Se eu
estiver viva, né, segui para o meu quarto e me joguei na cama,
derrotada. Por que diabos bebi tanto?!
Exaurida e sem energia, os meus órgãos internos pareciam ter implodido. Não restava
um ainda funcional. Os acontecimentos da noite anterior permaneciam levemente
nebulosos e eu tentava não pensar muito a respeito, para não me enfiar em
uma... argh. Tão logo tentei evitar, o pensamento me invadiu a cabeça.
Mia.
Virei o corpo, ainda deitada e apoiando apenas a nuca contra a
cabeceira, desconfortavelmente. Peguei um cigarro que restava fora do maço, na
mesa ao lado da cama, e o acendi –
sentindo a espiral de culpa disparar. Meu corpo doía. Onde eu tava com a cabeça? Dei um trago, deixando a fumaça sair dos
meus pulmões. Me lembrando de cada baixaria que fizemos no chão da sala.
À luz do dia, eu me sentia suja. E burra. Vou mesmo me meter nessa merda de novo, foder tudo com a Clara?, traguei mais uma vez, com os olhos perdidos
na parede à frente, pra quê? Pra
e-essa garota me desgraçar a cabeça de madrugada e depois ir dormir com ele, porra?
Mas – ah,
a Mia. Seu gosto, seu jeito. Nós duas
juntas.
Aquilo, meu coração hesitou, aquilo foi
diferente.
Senti dificuldade de respirar. Não. Não vou fazer isso agora,
não posso. A noite anterior não precisava significar nada, não de
imediato. Que se dane. Agora não é o momento. Eu estava de mau
humor, de ressaca, me agarrando à esperança de que aquele sentimento vazio ia
passar. Minha cabeça latejava de dor. Me levantei, apanhando as primeiras
roupas que vi no armário, com o cigarro ainda pendurado na boca, e decidi tomar
um banho rápido antes de sairmos.
Me tranquei no banheiro e deixei a água correr pela minha cabeça
por alguns minutos, levando parte da ansiedade. Quando saí, já mais desperta,
dei de cara com a Mia na cozinha. Sentada na pia, numa camiseta larga do
Fernando e os cabelos desalinhados. Ela sorriu ao me dar bom dia. E eu tentei
não agir de maneira diferente, sorrindo brevemente e logo me dirigindo até a
geladeira – tomando cinco litros do primeiro líquido gelado que encontrei. Coloquei
a caixa de suco de volta na prateleira e alcancei metade de uma maçã que não
tinha comido no dia anterior. Aí me sentei na mesa, ao lado do Fer, ainda sentindo
o meu corpo se contorcer por dentro.
_Eu passei café... – a Mia comentou, os pés descalços balançando em
frente ao armário da pia – ...se quiser.
_Mano, não... – o Fer alertou – ...não pega.
_Tá ruim assim?
_Velho, pior chá cafeinado que cê vai tomar na vida... – ele zombou
e notei a xícara semicheia à sua frente – ...na boa, não tá dando.
_Muito agradecido você, hein! – a Mia se fez de ofendida, arremessando
um pano de prato na direção dele – FAZ SEU PRÓPRIO CAFÉ DA PRÓXIMA VEZ ENTÃO,
MACHO!
_Ah, cê vai me desculpar, amor... – ele pegou o pano antes que
acertasse sua cara, rindo – ...geralmente dá pra engolir, mas hoje tá ruim
demais.
_Cala a boca!
Me diverti assistindo os dois discutirem. E o clima, aos poucos,
se tornou bom entre nós. Nós três. Uns minutos depois, nos levantamos e eu
ajudei o Fer a carregar as caixas que faltavam até o seu carro. Enquanto
descíamos de elevador, me juntei às provocações dele sobre as habilidades completamente inexistentes da Mia na
cozinha. “Que falta faz crescer tendo que passar a própria manteiga no pão de
manhã”, a gente zombava sua infância privilegiada em Higienópolis e ela se
indignava, falando que não era assim. “Tá bom, amor”, o Fer segurou o riso, “mas
fala a verdade, com quantos anos cê fez seu primeiro arroz?”. Ela revirou os
olhos e riu, mandando a gente se foder.
_Sabe, o meu irmão é chefe de cozinha! – argumentou.
_Mas isso é porque rico ou num sabe cozinhar ou tem que transformar
em profissão – tirei sarro – Não tem meio termo.
_Eu sei cozinhar.
_Amor... – o Fer tocou suavemente o seu braço com um olhar de “seja
sincera”.
_Quê?! Você gosta do meu bolo de chocolate!
_Eu gosto de qualquer coisa depois de fumar um.
Saímos do elevador com a Mia esbravejando que nunca mais ia pisar
numa cozinha. “Graças aos céus”, o Fernando ergueu as mãos e ela o encheu de
tapas, aos risos. “Eu cozinho pra você, amor”, ele tentou reparar, a abraçando
forçadamente, “você não quer um cara romântico?”. A beijou enquanto ela ainda o
empurrava, os dois rindo. E então o beijo virou beijo de verdade. E eu virei pro
outro lado, em direção ao carro.
Vinte minutos depois, colocamos a última caixa no chão sujo da
garagem. Empilhada sobre as outras que já tínhamos levado. Estava tudo lá. Cinco
anos e meio de apartamento dividido em algumas caixas. Parecia agora tão pouco.
Demos início então a um balé confuso, na tentativa logística de ocupar todo o
espaço disponível no carro, fazendo pilhas de caixas de papelão caberem no
banco de trás e no porta-malas. Ao final da árdua tarefa, o reles automóvel do
Fer mais parecia uma carreta – com um fio passando, nada discreto, pelas
janelas para segurar o colchão sobre o teto, embrulhado em sacos de lixo
colados com fita.
Sentei no banco da frente, cumprindo meu papel de caminhão-amiga,
cuja presença seria necessária para ajudar a descarregar e montar tudo na casa
dos pais dele. Já estava prestes a fechar a porta, quando a Mia deu dois passos
e me impediu. Parada do lado do carro, com os braços tatuados apoiados na
janela, como se esperasse algo de mim. Você
só pode tá brincando, não é?, olhei para o Fer, na mesma hora.
_Qual é, a casa dela é aqui do lado! – ele argumentou – É
rapidinho!
E eu suspirei, abrindo o resto da porta para que ela se sentasse
no meu colo. Que situação. Era o
cúmulo – nós duas nos amassando ali com o Fernando bem do lado. Eu quero morrer. Depois de toda
sacanagem daquela madrugada, não era tarefa fácil não parecer me sentir culpada.
Não com as suas pernas sobre as minhas. Como diabos isso continua
acontecendo? Desviei os olhos e mantive as mãos bem longe da Mia durante
todo o percurso, ignorando seu pescoço assim, a meio centímetro da minha cara, até
chegarmos em Higienópolis e ela finalmente sair do carro.
Ufa.
Podendo voltar a respirar com naturalidade, me acomodei
confortavelmente no banco e o Fernando baixou mais uma vez o freio de mão.
Começamos a atravessar a Avenida Angélica quando, de repente, senti a lateral
do meu banco vibrar. “Panic!” – gritou
a voz da Chitose, a vocalista do The Comes, seguida duma guitarra rapidinha e
mais um “Panic!”. Aquele era o toque da Mia. Droga. Alcancei o celular, que tinha caído no vão da porta, e o
atendi, conforme o Fernando já fazia o caminho de volta. “Mia?”. “Ai, que bom!
Tá no carro!”, ela disse, aliviada, do outro lado da linha, “tava com medo de
ter deixado no apê”. “Êê trouxa”, eu ri, “tamo indo levar aí”.
Em menos de cinco minutos, paramos de novo em frente ao seu
prédio. “Vai lá!”, o Fer falou, estacionando o carro sem desligar o motor. Abri
a porta e dei uma corrida até a portaria, apontando o celular em mãos para que
abrissem. E abriram, para minha surpresa. A Mia avisou. Atravessei o
jardim que ocupava o recuo do prédio num só fôlego e subi os três, quatro
degraus que davam no hall de entrada. A Mia já estava lá, com o mesmo camisetão
e o maldito shorts da noite anterior, chinelo no pé. Sorriu ao me ver. Veio na
minha direção, com a mão esticada para pegar o telefone, mas assim que o alcançou
me puxou num rápido movimento.
Colocou os braços ao redor do meu pescoço e me beijou.