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julho 19, 2012

Perfekte Welle

_Ah, porra, cês tão aí... – a Flavinha disse ao nos achar na lateral da casa – ...tô saindo daqui a pouco, cês vão querer a carona?
 
Me recuperei quase instantaneamente, sem um puto no bolso, desapoiando ambas as mãos da casinha de tijolos e erguendo o corpo, ainda um tanto zonza. A Clara estava ao meu lado, preocupada, e as duas me perguntaram sequencialmente se eu estava bem. “Aham...”, acenei, numa mentira deslavada, “só vamos”. Fechei as calças e peguei o maço no chão. O vento gelado se fazendo sentir duramente no meu corpo debilitado, argh.
 
Entramos e nos despedimos das garotas que restavam na sala, sem muitos rodeios. Abracei a Lê já na porta e nos metemos no banco de trás do carro da Flávia. Minha cabeça doía, nauseada, e o caminho de volta pareceu durar uma eternidade. Colocadas por cima das minhas, as pernas da Clara aqueciam o meu colo no banco de trás. Estava gostoso, mas as luzes de São Paulo me machucavam a vista. Ou talvez fosse enxaqueca de tanto álcool fermentado. Inferno.
 
Subimos as escadas do seu prédio com dificuldade, eu apoiada na Clara e ela cambaleando, às vezes, contra o corrimão. O seu apartamento estava silencioso e, como de costume, tinha certo charme naquela bagunça toda. Sentou-se na beira da janela do quarto, descalçando os tênis, e me observou admirá-la. Dividimos a cama, então, e dormimos sob diversas camadas de lençóis emaranhados, quase o dia todo. Só voltei para a minha casa quando já era noite do dia seguinte.
 
_Recebi seu “bilhete” – o Fernando resmungou detrás do sofá, assistindo TV na sala, assim que passei pela porta.
 
Ótimo. Revirei os olhos e fui direto para o corredor, em direção ao quarto. Só de birra, não nos falamos direito por uma semana. A namorada dele, por outro lado, numa contradição um tanto curiosa, lotaria a minha caixa de entrada no domingo seguinte. Estava com uma amiga num festival de música no interior de São Paulo. E assim que o Hole entrou no palco – ou a Mia virou sua vigésima cerveja da noite, vai saber – as notificações começaram a chegar.

julho 09, 2012

Tautologia

Qual o tamanho da merda que falei?
 
Me angustiei, a observando no meio da sala, com uma taça de vinho entre os dedos. Conversava animadamente com a Lê, a Thaís e a Ju, entre sorrisos e o trincar da garrafa na borda das taças, constantemente enchidas antes mesmo de esvaziar. Droga. Entrei na sala e a Clara sorriu ao ver eu me aproximar da roda que elas formavam, ali em pé. Apoiei suavemente a minha mão nas suas costas e ela me olhou, ao seu lado, me oferecendo um gole. Aceitei. Conforme bebia, a encarei em busca de qualquer indício de que tinha escutado a declaração que deixei escapar, minutos antes, sem intenção.
 
Ela percebeu? Percebeu ou não percebeu?!, tentava ler cada milímetro dos seus gestos, em vão, analisando o seu comportamento. Era estranho não saber – aquilo me deixava ansiosa. Mas as suas expressões permaneciam neutras, enigmáticas. Indecifráveis. Enquanto eu me torturava atrás de sinais invisíveis, a Thaís tagarelava incessantemente com a Lê na nossa frente. A Clara me encarou de volta, dando um gole no vinho. E assim que abaixou de novo a taça, sorriu discretamente na minha direção.
 
Ah, sim. Ela ouviu.
 
_Sabe... – a Clara se aproximou então do meu ouvido, cochichando, sem atrapalhar a conversa das meninas – ...eu quis te matar lá dentro.
_Desculpa – murmurei baixinho, rindo.
_Você é muito panaca!
 
Referia-se à minha ceninha com a Marina na cozinha. Já tinha quase esquecido daquilo de tão preocupada que estava com a porra do “eu te amo” que soltei sem querer. , pensei, talvez ela sequer tenha ouvido. Uma pausa de milésimos de segundos do seu olhar no meu, todavia, fez com que a dúvida ressurgisse. Oscilando a cada sinal incerto. Isso é ridículo, me irritei com a minha inquietação involuntária, eu devia só perguntar logo de uma vez. E num impulso, toquei de leve no seu braço.
 
_Ei, escuta, quer sair pra fumar ou algo assim?
_Vamos.
_Tá – sorri – Vou só pegar o meu maço, espera aí... Já volto!
 
Voltei uns passos até a cozinha, onde tinha largado o meu cigarro. No caminho, trombei com outra amiga nossa, a Flavinha, que saía lá de dentro. Estava com uma regata preta e jaqueta de couro por cima – o que, junto com o cabelo Joãozinho, a deixava mais caminhão do que nunca. Assim que cruzou comigo, me segurou pelo braço por um instante:
 
_Cara, é sério que a Marina saiu com essa mina aí que cê trouxe? – falou baixo, como se fofocasse, e eu a encarei, surpresa – Cê já sabia? Faz tempo isso?!?
 
Como diabos vocês trocam esse tipo de informação em menos de cinco minutos, mano, me irritei, surpresa com tamanha boca de sacola das minhas amigas, puta merda.
 
_Sim. Não. E sim – respondi, impaciente – Quem te falou?!
_A Camila... – riu e eu fiquei ainda mais confusa, como a Camila já sabe? – ...mas e aí, mano, ela expulsou mesmo a Má depois de ter comid...?!
_Escuta – a interrompi – Não é da sua conta, é?
 
Larguei ela falando sozinha e continuei até a cozinha. Minha ex-namorada estava encostada no balcão, com as pernas cruzadas em frente ao corpo e a mão beliscando um pote de amendoins, enquanto falava com a Paula. Uma fofoca dessas, jura, logo você? Lancei um olhar indignado para ela. E peguei o maço que tinha esquecido sobre a mesa. Saí de novo para a sala e fiz um gesto para a Clara me seguir. Passamos por uma porta que dava na lateral da casa, numa espécie de quintal estreito. Alguns vasos com temperos malcuidados ocupavam o chão de ladrilho. Encostamos na parede e acendemos cada qual um cigarro.
 
_Cê já tá oficialmente conhecida entre as minhas amigas... – murmurei com o filtro ainda na boca, colocando o isqueiro de volta no maço – ...já virou a “mina que deu um fora na minha ex”.
_Nossa, hein... – a Clara arqueou a sobrancelha, irônica – Valeu!
_Quê?! Não fui eu que espalhei, meu... – achei graça – ...só tô te contando, porque vieram me falar.
_Ai, que ótimo...
 
Colocou a mão no rosto, soltando a fumaça para baixo. E nós rimos juntas. Estava frio e escuro ali, do lado de fora. Conforme tragava o meu cigarro, observei a Clara sorrir e senti verdade em cada palavra que escapou da minha boca naquela noite.
 
_Meu... – senti meu estômago embrulhar e desencostei da parede, ficando na sua frente – ...eu q-queria... falar com, com v-você.
_Sobre...?
_Ah... – peguei na sua mão, envergonhada, e os meus tênis esbarraram nos seus – ...sobre uma parada aí que... eu... m-meio que falei... antes.
_Ahm... – a Clara riu de volta – ...e o que foi que você “meio” falou antes?
_Ah... cê sabe...
_Não, não sei. O que era?
 
Agora eu tinha certeza. A desgraçada sabe. Levantei a cabeça e olhei bem nos olhos da Clara, espertos e debochados, mordendo os seus lábios à espera da minha resposta e, ah, ela sabe.
 
_Nada – respondi, a contrariando.
_Hum, sei... – ela riu junto e entrelaçou os dedos nos meus, carinhosamente – ...eu te “nada” também.