Qual o
tamanho da merda que falei?
Me angustiei, a observando no meio da sala, com uma taça de vinho
entre os dedos. Conversava animadamente com a Lê, a Thaís e a Ju, entre
sorrisos e o trincar da garrafa na borda das taças, constantemente enchidas antes
mesmo de esvaziar. Droga. Entrei na sala e a Clara sorriu ao ver eu me aproximar
da roda que elas formavam, ali em pé. Apoiei suavemente a minha mão nas suas costas
e ela me olhou, ao seu lado, me oferecendo um gole. Aceitei. Conforme bebia, a encarei
em busca de qualquer indício de que tinha escutado a declaração que deixei escapar,
minutos antes, sem intenção.
Ela
percebeu? Percebeu ou não percebeu?!, tentava ler cada milímetro dos seus
gestos, em vão, analisando o seu comportamento. Era estranho não saber – aquilo
me deixava ansiosa. Mas as suas expressões permaneciam neutras, enigmáticas. Indecifráveis.
Enquanto eu me torturava atrás de sinais invisíveis, a Thaís tagarelava
incessantemente com a Lê na nossa frente. A Clara me encarou de volta, dando um
gole no vinho. E assim que abaixou de novo a taça, sorriu discretamente na
minha direção.
Ah, sim. Ela
ouviu.
_Sabe... – a Clara se aproximou então do meu ouvido, cochichando,
sem atrapalhar a conversa das meninas – ...eu quis te matar lá dentro.
_Desculpa – murmurei baixinho, rindo.
_Você é muito panaca!
Referia-se à minha ceninha com a Marina na cozinha. Já tinha quase
esquecido daquilo de tão preocupada que estava com a porra do “eu te amo” que
soltei sem querer. Tá, pensei, talvez
ela sequer tenha ouvido. Uma pausa de milésimos de segundos do seu olhar no
meu, todavia, fez com que a dúvida ressurgisse. Oscilando a cada sinal incerto.
Isso é ridículo, me irritei com a minha inquietação
involuntária, eu devia só perguntar
logo de uma vez. E num impulso, toquei de leve no seu braço.
_Ei, escuta, quer sair pra fumar ou algo assim?
_Vamos.
_Tá – sorri – Vou só pegar o meu maço, espera aí... Já volto!
Voltei uns passos até a cozinha, onde tinha largado o meu cigarro.
No caminho, trombei com outra amiga nossa, a Flavinha, que saía lá de dentro. Estava
com uma regata preta e jaqueta de couro por cima – o que, junto com o cabelo
Joãozinho, a deixava mais caminhão do que nunca. Assim que cruzou comigo, me
segurou pelo braço por um instante:
_Cara, é sério que a Marina saiu com essa mina aí que cê trouxe? –
falou baixo, como se fofocasse, e eu a encarei, surpresa – Cê já sabia? Faz
tempo isso?!?
Como
diabos vocês trocam esse tipo de informação em menos de cinco minutos, mano, me
irritei, surpresa com tamanha boca de sacola das minhas amigas, puta merda.
_Sim. Não. E sim – respondi, impaciente – Quem te falou?!
_A Camila... – riu e eu fiquei ainda mais confusa, como a
Camila já sabe? – ...mas e aí, mano, ela expulsou mesmo a Má depois de ter
comid...?!
_Escuta – a interrompi – Não é da sua conta, é?
Larguei ela falando sozinha e continuei até a cozinha. Minha
ex-namorada estava encostada no balcão, com as pernas cruzadas em frente ao
corpo e a mão beliscando um pote de amendoins, enquanto falava com a Paula. Uma fofoca dessas, jura, logo você? Lancei
um olhar indignado para ela. E peguei o maço que tinha esquecido sobre a mesa.
Saí de novo para a sala e fiz um gesto para a Clara me seguir. Passamos por uma
porta que dava na lateral da casa, numa espécie de quintal estreito. Alguns
vasos com temperos malcuidados ocupavam o chão de ladrilho. Encostamos na
parede e acendemos cada qual um cigarro.
_Cê já tá oficialmente conhecida entre as minhas amigas... – murmurei
com o filtro ainda na boca, colocando o isqueiro de volta no maço – ...já virou
a “mina que deu um fora na minha ex”.
_Nossa, hein... – a Clara arqueou a sobrancelha, irônica – Valeu!
_Quê?! Não fui eu que espalhei, meu... – achei graça – ...só tô te
contando, porque vieram me falar.
_Ai, que ótimo...
Colocou a mão no rosto, soltando a fumaça para baixo. E nós rimos
juntas. Estava frio e escuro
ali, do lado de fora. Conforme tragava o meu cigarro, observei a Clara sorrir e
senti verdade em cada palavra que escapou da minha boca naquela noite.
_Meu... – senti meu estômago embrulhar e desencostei da parede,
ficando na sua frente – ...eu q-queria... falar com, com v-você.
_Sobre...?
_Ah... – peguei na sua mão, envergonhada, e os meus tênis
esbarraram nos seus – ...sobre uma parada aí que... eu... m-meio que falei...
antes.
_Ahm... – a Clara riu de volta – ...e o que foi que você “meio” falou
antes?
_Ah... cê sabe...
_Não, não sei. O que era?
Agora eu tinha certeza. A
desgraçada sabe. Levantei a cabeça e olhei bem nos olhos da Clara, espertos
e debochados, mordendo os seus lábios à espera da minha resposta e, ah,
ela sabe.
_Nada – respondi, a contrariando.
_Hum, sei... – ela riu junto e entrelaçou os dedos nos meus, carinhosamente
– ...eu te “nada” também.