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março 30, 2011

A carona

O ar passava gelado entre os meus dedos, voando leves ao som do álbum experimental que tocava no carro. Cex, “Actual Fucking”. Minha cabeça seguia apoiada na janela aberta, o antebraço todo para fora e os dedos suspensos no ar. Eu estava bêbada, realmente bêbada – tinha aberto a janela para não vomitar ali dentro, enjoada pelas voltas que demos pela Lapa para deixar um amigo da Isa em casa. Agora o carro seguia em linha reta pela Heitor Penteado. Só eu e ela. Mas a minha mente e o meu olhar estavam longe.
 
Na Mia, é.
 
Eu sabia o que a Isa queria. Sabia exatamente o que ela estava pensando, sentada ali ao meu lado, fumando um cigarro e me observando vez ou outra, com o canto do olho, murmurando a melodia insinuante que saía do rádio. Sabia porque aquele era o papel a que eu me acostumara. A ser a garota que liga para outra às três da manhã. A atravessar a cidade para foder alguém que não ia encostar um dedo sequer em mim. A não significar. A não ser ninguém. E sabia, antes de mais nada, porque sabia o que eu tinha feito aquela “carona” parecer ao telefone.
 
Mas, àquela altura, eu estava pouco me fodendo.
 
Brisava nas batidas em downtempo da música e nos meus dedos no ar, olhando a cidade passar por detrás. Ajeitei o rosto, apoiando o queixo sobre o braço que pendia para o lado de fora. E ao notar o mínimo movimento meu, a Isa puxou assunto. Coloquei os ouvidos do lado de dentro do carro – “quê?”, pedi para ela repetir. E encostei o corpo contra o assento, colocando os pés no painel e escorregando no banco, com os joelhos na altura do rosto.
 
_Eu perguntei... – ela sorriu – ...no que cê tá pensando aí?
_Em nada... – murmurei, largada no banco do passageiro – ...sei lá. Em parar pra comer, talvez.
_Pra comer?
_É – sugeri, a poucos quarteirões de casa, sem vontade alguma – Tá com fome?
_Olha, até comeria... – sorriu – Mas só vai ter boteco aberto essa hora!
_Não. Vamos no Prime Dog, meu.
 
Passamos reto pela Augusta, atravessando até o final da Paulista. É – eu estava enrolando. Descaradamente. Ganhando tempo ali, sem fome mesmo, enfiando um hambúrguer vegano goela abaixo. Enrolando pois sabia que, assim que descesse na porta do meu modesto edifício, ela ia querer subir comigo. E eu não queria ser a filha-da-puta que, além de pegar carona a troco de beijo nenhum, também diz estou-cansada-deixa-para-outro-dia. Mas não estava afim. Então precisava criar, no mínimo, a ilusão de que aquilo tinha sido um encontro.
 
Sentada naquela cadeira gelada do Prime Dog, rodeada de outros bêbados que começavam a sair das baladas, eu a escutava tagarelar. E entrava numa bad cada vez maior. A Isa encostava sua mão na minha, debaixo da mesa, e eu apoiava ambas ao lado do prato. Aí ela pegava discretamente na minha perna e eu a cruzava, dois segundos depois. Vez atrás de outra. Ia desviando das suas tentativas de criar qualquer clima para um possível beijo e ela percebia, achando graça, como se eu estivesse me fazendo de difícil.
 
Me deixa, implorava para que ela magicamente se desinteressasse. Mas assim que levantamos da mesa, ela tentou me convencer a tomar uma saideira do outro lado da avenida. Ficou pulando na minha frente com as pernas descobertas num vestidinho preto amarrotado e uma jaqueta jeans dez vezes maior do que seu tamanho. Argh. Depois de toda aquela comida, eu já estava levemente mais sóbria – o suficiente para saber que não tinha dinheiro para mais nada. Me restavam menos de dois reais em moedas.
 
_Não, mano – argumentei – Nem tenho grana mais.
_Ah vem, vai... – a Isa insistiu, rindo – ...eu peço uma tequila e a gente divide!
 
Céus.