Quadrados, comprimidos e amarrotados – mas chegamos.
Até que
enfim. Descemos atrapalhadamente, os quatro do banco de trás, um atrás
do outro, desesperados por um pouquinho de ar e espaço. O ar conquistamos assim
que saímos, aleluia, mas não demorou
muito para nos darmos conta que o espaço deixaria a desejar – o bar estava completamente
lotado. A fila se estendia até a esquina.
Inferno.
Destemidos, os garotos e a namorada praticamente muda do meu amigo
seguiram em direção à porta, dispostos a enfrentar a muvuca do show. Eu, por
minha vez, não estava lá muito animada em perder a liberdade conquistada nos
últimos segundos. A Mia hesitou em meio à calçada, meio perdida. Parecia não
saber direito como agir naquela situação – um fucking encontro comigo –,
mal olhando na minha direção. Eu também estava nervosa, mas certamente já tinha
tido mais encontros com garotas do que ela. A rua estava tomada de gente e pelo
som abafado da banda passando o som lá dentro. A segurei pela mão:
_Vamos dar um tempo aqui fora?
Ela me olhou, aliviada, e eu a puxei pela mão até a lateral do bar.
Encostei na parede e me curvei, na tentativa de acender um baseado contra o
vento. Quando finalmente consegui fazer a brasa pegar, levantei o rosto e olhei
para a Mia ali. Em pé, parada na minha frente. O vento cortava os nossos
braços, ambas encarando uma à outra em silêncio. No que diabos estamos nos
metendo, garota? De repente, aquilo parecia real demais. E eu tentava não
pensar no Fer – mas, é, era foda.
Respirei fundo, tentando me acalmar. Observando o seu rosto a meio
metro de distância do meu. A Mia tinha uma pintinha no canto do olho – logo
acima da curva formada pelas maçãs do seu rosto, pequenininha. Deixei escapar um sorriso. E
a Mia o devolveu, timidamente. Podia
te olhar a noite toda, sabia? A proximidade me dava vontade de beijá-la,
mas isso e a ideia de que estava indo longe demais com a namorada do meu
melhor amigo, a de que finalmente cruzava uma linha inaceitável, criavam
sentimentos contraditórios em mim e o meu estômago embrulhava.
Desviei o olhar para o chão, tentando não me precipitar. Seria um
beijo público demais para lhe pedir. Traguei mais uma vez. E assim que abaixei
a mão novamente, a encostando na parede, senti os dedos dela envolvendo os meus
e casualmente me roubando o baseado. Levantei o olhar na sua direção mais uma
vez. E sem motivo, tomadas por um nervosismo bobo, nós duas meio rimos.
A Mia apoiou então na parede ao meu lado, tragando duas ou três
vezes. Ombro a ombro comigo. O silêncio já começava a me incomodar – diz
qualquer coisa, é a Mia, porra, eu tentava me acalmar, você fala com ela
todo dia naquela droga daquele apartamento. Não entendia por que de repente
era tão difícil abrir a boca. Toda a aglomeração de pessoas se concentrava na
porta do bar e quase não passava ninguém ali onde paramos para fumar escondidas,
numa ruazinha lateral e mal iluminada do Itaim. A fumaça saía da boca da Mia e
desenhava curvas espessas no ar frio.
Me passou de volta o baseado e eu arqueei a sobrancelha, comentando
por fim:
_Hmm... E o Florian semana passada, hein?
Não. Eu não sabia quem era Florian, não fazia a
menor ideia. Duas horas antes, na maior cara de pau, joguei “UFC” e “lutas
recentes” no Google para descobrir. E a Mia mordeu a isca – o clima mudou na
mesma hora. Ela desembestou a falar sobre cada round que eu não havia visto,
com dois caras que eu desconhecia por completo, numa competição que eu mal
fazia ideia do que se tratava. E senti como se estivéssemos sentadas no sofá,
em casa, numa tarde qualquer. Todo nervosismo sumiu. Ouvi ela descrever
todos os movimentos e golpes deferidos com a mesma emoção que fãs de futebol
discutem as partidas e suas minúcias. Praticamente num monólogo. Enquanto eu dava
mais uma bola, quieta na minha, achando graça.
Após alguns minutos e sem ouvir uma só opinião sair da minha boca,
a Mia parou de repente de falar:
_Você não viu a luta, né? – se deu conta, então.
_Não.
Sequer consegui conter o riso. Desculpa, gata. E a Mia me
olhou como se fosse a última pessoa ainda segurando as cartas numa partida de
porco, quando todo mundo já abaixou as suas.
_Você é ridícula, sabia? – ela riu.
_Ih, cê não viu nada ainda. Espera só até a gente entrar e tomar
umas... – pisquei na sua direção – Vou te contar tudo o que eu aprendi hoje
sobre o “Terror”, “El Conquistador”, o “Aranha”, a internet é uma maravilha.
_Meu deus! – ela revirou os olhos, indignada.
A Mia balançou a cabeça, achando graça, como se não acreditasse na
minha honestidade. Pegou mais uma vez o baseado da minha mão e se virou na
minha direção, encostando a cabeça na parede.
_Cê gosta de tirar uma com a minha cara, né...
_Olha... – justifiquei – ...até gosto, mas também acho essa a
coisa mais sapatão que tem em você. Então sou 100% a favor.
_Jura. Mais sapatão do que estar aqui com você?
_Não – ri.
_Hum... – a Mia sorriu e falou baixinho, se aproximando do meu
ouvido – ...mais sapatão do que o que gente fez lá em casa?
Puta merda.
Antes que eu pudesse reagir – e digo, eu teria beijado ela contra
aquela parede na hora –, a Mia riu e colocou o braço ao redor dos meus ombros, me
olhando como se eu não prestasse um centavo. E eu não prestava nem meio.
_Vem, vamos entrar... – ela riu.