- »
Mostrando postagens com marcador Gabriel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gabriel. Mostrar todas as postagens

junho 04, 2010

Amassando o resto

Matematicamente falando, não faz o menor sentido. Já não tinha lá muita lógica antes e aí só piorou. Ainda assim, quando sentamos no banco de trás daquele carro ao sair do bar, no mesmo lugar onde mal couberam quatro pessoas na ida fomos capazes de encaixar a mesma quantidade de pernas e...
 
...mais duas mãos dadas.
 
Espremidas entre as nossas pernas, a minha e a da Mia. Consequentemente, espremendo ainda mais o resto dos passageiros naquele pequeno carro. E o mais impressionante é que ninguém reclamou dos centímetros a mais de espaço ocupado. Pelo contrário, nós quatro voltamos mais felizes e animados do que antes no banco de trás. Embriaguez é uma benção. Bastou um pouquinho de ar fresco, assim que pisamos para fora do bar, e todo mundo despertou magicamente. Aí, claro, voltamos o caminho inteiro atazanando o pobre do nosso motorista, o Gabriel.
 
Anestesiados de qualquer tipo de dor ou incômodo, devido a toda tequila, éramos pura encheção de saco. Em alto e bom som. Até a Mia deu uma acordada e, sob o efeito da saideira, também tomou a liberdade de aborrecer o meu querido amigo junto a mim e os seus colegas publicitários. Não me lembro bem qual era a piada – aliás, mal lembro do caminho de volta –, mas envolvia gritos súbitos e a probabilidade séria de um acidente automobilístico caso tivéssemos sucesso em assustar nossa infeliz vítima ao volante.
 
Quando chegamos em frente ao prédio da Mia, estávamos todos rindo mais do que o normal. Menos o Gabriel – que revirava os olhos para nós pelo retrovisor e apressou a descida da Mia do carro. Rabugento, depois de tanta asneira gritada em seu ouvido, sugeriu que nós três também saíssemos junto e aproveitássemos para ir à merda. Aparentemente a nossa má companhia já não era bem-vinda. Mas todo mundo ignorou o seu mau-humor e ficou. Inclusive eu.
 
Não – espera.
 
Não sei se as coisas aconteceram rápido demais ou se foi culpa da bebida, mas quando dei por mim, a Mia já havia me dito “tchau” e o meu amigo impaciente estava prestes a sair de novo com o carro. Merda. As rodas chegaram a soar no asfalto, antes que eu caísse na real e ordenasse desnorteada para ele parar, freando nem um metro depois. O Gabriel soltou o volante e se virou para o banco de trás, com raiva, me fuzilando com os olhos.
 
“Deixa eu sair”, pedi, às pressas. A sua namorada desceu do carro e abaixou o banco, me deixando passar. Desci correndo, com o motor ainda ligado, e fui atrás da Mia na calçada. Ela estava a alguns metros mais para frente.
 
_Ei – enfiei as mãos nos bolsos e a chamei – Não ganho um beijo de despedida, meu?

junho 02, 2010

A resistência

A tiazinha da limpeza já começava a varrer o chão do bar e os atendentes empilhavam os copos molhados no balcão. Mas nós continuávamos lá, resistindo. A Mia tinha a cabeça encostada na mesa, ouvindo a discussão fervorosa – sem sentido – que eu estava tendo com o Gabriel. Os outros nos ignoravam em conversas paralelas, igualmente embriagados. Fim de festa, aquela decadência. As luzes acesas destruindo completamente o clima. E a gente ali, insistindo, abusando da paciência do segurança, que nos olhava feio a cada dez segundos.
 
Virei para trás, puxando um cigarro do maço e implorei para o tal segurança – com os olhos e um gesto torto, mais ou menos compreensível – para que me deixasse acender lá dentro. Ele negou, claro. E eu acendi mesmo assim. Traguei três ou quatro vezes rapidamente, antes que ele atingisse a mesa e ordenasse grosseiramente que eu o apagasse. Droga. Esses seguranças de bar parecem aqueles assassinos em filmes de terror, que andam numa lentidão constante e macabra, mas ainda assim conseguem te pegar. Não importa quanto você corra – eles sempre te alcançam. 
 
Inferno.
 
Afundei a brasa na sola do meu All Star, numa cara de merda, e enfiei o cigarro inacabado de volta no maço. Recomecei então a minha briga com o Gabriel, ignorando o pedido do cara para que pagássemos logo e nos retirássemos do bar. Se eu não posso fumar, vou ficar mais quarenta minutos nessa porra, dei de ombros. Que se foda. A nossa permanência, afinal, era favorável para o estabelecimento. Dada a quantidade absurda de álcool que nós seis consumimos nas horas anteriores, se o bar nos expulsasse antes de pagarmos certamente perderiam metade da arrecadação da noite.
 
_Primos, talvez – continuei, tirando com a cara do Gabriel.
_Que seja. Mas você tem que admitir o parentesco!
_Óbvio que não, mano!
_Tem sim, porra. São irmãos!
_A She-Ra e o He-Man?! – eu o olhei, desconfiada.
_Gêmeos, caralho! Pode ver... O cabelo é igual. Eles lutam igual. O jeito é igual. Até os traços são parecidos!
_O que isso tem a ver, mano?! É o mesmo artista! Só por isso eles são irmãos?! Nessa sua lógica aí, o Mickey é irmão da Minnie...
_Não – revirou os olhos, se irritando – Eu li isso em algum lugar, são mesmo...
_Onde?
_Não sei, meu, não lembro! Na internet!
_Ah, nossa, que fonte confiável... – retruquei, irônica.
_Eles são irmãos, mano... É real. Tô falando!
_Se eles são irmãos, qual é o sobrenome deles?
_Sobrenome?
_É!
_Não tem sobrenome, isso n...
_AÍ, Ó! – interrompi, bêbada, como se aquilo nitidamente demonstrasse que ele estava errado e eu, certa – TÁ VENDO?!
_Cê tá viajando! Nenhum personagem assim tem sobrenome. É desenho de criança!
_Novamente, Mickey... “Mouse” – argumentei.
_Tá. Mas, tipo, o pai deles era um rei e eles foram separados quando eram pequenos, então não tem sobrenome...
_Mano, eu assisti esse desenho minha infância inteira. Cê acha que eu não ia saber duma coisa dessas?!?!
_São, sim! Eles são, tipo, um príncipe e uma princesa... Mas ela foi roubada bebezinha para ser uma discípula do Mal!
_Aham, “Cláudia”, senta lá.
_Ah, mano... – ficou nervoso – Não dá pra discutir com você!
 
Cruzei os braços, achando graça, enquanto um Gabriel trêbado ia reclamar de mim para a namorada. Cambaleando até a mesa ao lado. Olhei então para a Mia, ainda deitada ao meu lado, e encostei a cabeça na mesa – ficando no mesmo nível que ela. Horizontais. Observei, por uns segundos, os seus olhos quase fechando sobre a madeira.
 
_Oi – ela sorriu para mim.
_Oi – eu sorri de volta.

maio 23, 2010

Mojo

Os primeiros shots foram fáceis. Sal. José. Limão. Colocamos nossos copos vazios de volta no bar e nos olhamos, a Mia arqueou a sobrancelha na minha direção. I m p r e s t á v e l. Os segundos vieram logo em seguida, num impulso irracional – e corajoso – dela. Eu me obriguei a acompanhar. Para não ficar feio, né. Já os terceiros foram sugeridos intimados pelo Gabriel uns quarenta minutos depois, um pouco antes da banda entrar no palco. Eu e a Mia combinamos de dividir o copo, já consideravelmente bêbadas. O nosso plano, todavia, acabou sendo descoberto e o grupo inteiro reclamou da nossa covardia. Merda.
 
_Que se dane, vamos lá... – eu respirei fundo e virei tudo de uma vez.
 
E essas foram as minhas últimas palavras sãs da noite. O que se seguiu foi uma gritaria crescente, competindo com os músicos, Peixoto & Maxado, naquela zona caótica dos bares paulistanos. Entre as cinco ou seis conversas paralelas que rolavam simultaneamente, indo e vindo de um lado para o outro nas rodinhas, me mantive constantemente virada para a Mia – ocupada em entretê-la com as minhas histórias e o meu papo furado. E ela ria. Está funcionando, surpreendentemente. Ou estaria, não é, não fosse pelo babaca parado do outro lado dela. Um idiota que insistia em puxar assunto, interessado nela. Homens e a sua ausência completa de noção.
 
Argh. Não tá vendo que ela veio comigo?
 
Odeio quando pressupõem amizade entre duas mulheres – ou pior, tratam nossa sexualidade como se fosse isca para macho. Aquilo me tirava do sério. Eu só queria que ele vazasse. Ignorando as investidas dele, os olhos da Mia buscavam os meus em meio àquele caos. E ela se movia perigosamente para perto. Espremidas entre tanta gente desconhecida, o calor da multidão e o cheiro de cerveja, de tequila, tudo parecia nos empurrar para mais perto uma da outra. Ela cochichava no meu ouvido, a mão apoiada no meu ombro, e eu podia quase sentir o seu gosto. Mas – tenho que fazer isso direito, pensei. Não sabia quando ia ter outra chance de estar assim com ela. E não queria só a sua boca – queria mesmo era a sua cabeça, entrar nos seus pensamentos, no seu coração. Entrar e ficar, sabe? E isso não era tão simples.
 
Mais ainda com aquele inconveniente empatando.
 
Saco. Não dá para entender essa incapacidade biológica dos homens de notar quando as minas simplesmente não tão afim. Toda a linguagem corporal da Mia o ignorava. O seu corpo estava inteiro voltado para mim. Os seus olhos desviavam toda vez que ele abria a boca. E ela o fuzilava com o olhar cada vez que ele a tocava para falar algo. Mas o trouxa continuava lá, inabalado, se achando a pica das galáxias. Chega. Não tinha mais paciência para aquilo. E como já estava no pique de tirar a Mia dali sair para fumar, sugeri que fôssemos dar uma volta sozinhas lá fora.
 
(...)
 
É. O imbecil não captou a parte do “sozinhas”.

maio 22, 2010

Conspirando

Quadrados, comprimidos e amarrotados – mas chegamos.
 
Até que enfim. Descemos atrapalhadamente, os quatro do banco de trás, um atrás do outro, desesperados por um pouquinho de ar e espaço. O ar conquistamos assim que saímos, aleluia, mas não demorou muito para nos darmos conta que o espaço deixaria a desejar – o bar estava completamente lotado. A fila se estendia até a esquina.
 
Inferno.
 
Destemidos, os garotos e a namorada praticamente muda do meu amigo seguiram em direção à porta, dispostos a enfrentar a muvuca do show. Eu, por minha vez, não estava lá muito animada em perder a liberdade conquistada nos últimos segundos. A Mia hesitou em meio à calçada, meio perdida. Parecia não saber direito como agir naquela situação – um fucking encontro comigo –, mal olhando na minha direção. Eu também estava nervosa, mas certamente já tinha tido mais encontros com garotas do que ela. A rua estava tomada de gente e pelo som abafado da banda passando o som lá dentro. A segurei pela mão:
 
_Vamos dar um tempo aqui fora?
 
Ela me olhou, aliviada, e eu a puxei pela mão até a lateral do bar. Encostei na parede e me curvei, na tentativa de acender um baseado contra o vento. Quando finalmente consegui fazer a brasa pegar, levantei o rosto e olhei para a Mia ali. Em pé, parada na minha frente. O vento cortava os nossos braços, ambas encarando uma à outra em silêncio. No que diabos estamos nos metendo, garota? De repente, aquilo parecia real demais. E eu tentava não pensar no Fer – mas, é, era foda.
 
Respirei fundo, tentando me acalmar. Observando o seu rosto a meio metro de distância do meu. A Mia tinha uma pintinha no canto do olho – logo acima da curva formada pelas maçãs do seu rosto, pequenininha. Deixei escapar um sorriso. E a Mia o devolveu, timidamente. Podia te olhar a noite toda, sabia? A proximidade me dava vontade de beijá-la, mas isso e a ideia de que estava indo longe demais com a namorada do meu melhor amigo, a de que finalmente cruzava uma linha inaceitável, criavam sentimentos contraditórios em mim e o meu estômago embrulhava.
 
Desviei o olhar para o chão, tentando não me precipitar. Seria um beijo público demais para lhe pedir. Traguei mais uma vez. E assim que abaixei a mão novamente, a encostando na parede, senti os dedos dela envolvendo os meus e casualmente me roubando o baseado. Levantei o olhar na sua direção mais uma vez. E sem motivo, tomadas por um nervosismo bobo, nós duas meio rimos.
 
A Mia apoiou então na parede ao meu lado, tragando duas ou três vezes. Ombro a ombro comigo. O silêncio já começava a me incomodar – diz qualquer coisa, é a Mia, porra, eu tentava me acalmar, você fala com ela todo dia naquela droga daquele apartamento. Não entendia por que de repente era tão difícil abrir a boca. Toda a aglomeração de pessoas se concentrava na porta do bar e quase não passava ninguém ali onde paramos para fumar escondidas, numa ruazinha lateral e mal iluminada do Itaim. A fumaça saía da boca da Mia e desenhava curvas espessas no ar frio.
 
Me passou de volta o baseado e eu arqueei a sobrancelha, comentando por fim:
 
_Hmm... E o Florian semana passada, hein?
 
Não. Eu não sabia quem era Florian, não fazia a menor ideia. Duas horas antes, na maior cara de pau, joguei “UFC” e “lutas recentes” no Google para descobrir. E a Mia mordeu a isca – o clima mudou na mesma hora. Ela desembestou a falar sobre cada round que eu não havia visto, com dois caras que eu desconhecia por completo, numa competição que eu mal fazia ideia do que se tratava. E senti como se estivéssemos sentadas no sofá, em casa, numa tarde qualquer. Todo nervosismo sumiu. Ouvi ela descrever todos os movimentos e golpes deferidos com a mesma emoção que fãs de futebol discutem as partidas e suas minúcias. Praticamente num monólogo. Enquanto eu dava mais uma bola, quieta na minha, achando graça.
 
Após alguns minutos e sem ouvir uma só opinião sair da minha boca, a Mia parou de repente de falar:
 
_Você não viu a luta, né? – se deu conta, então.
_Não.
 
Sequer consegui conter o riso. Desculpa, gata. E a Mia me olhou como se fosse a última pessoa ainda segurando as cartas numa partida de porco, quando todo mundo já abaixou as suas.
 
_Você é ridícula, sabia? – ela riu.
_Ih, cê não viu nada ainda. Espera só até a gente entrar e tomar umas... – pisquei na sua direção – Vou te contar tudo o que eu aprendi hoje sobre o “Terror”, “El Conquistador”, o “Aranha”, a internet é uma maravilha.
_Meu deus! – ela revirou os olhos, indignada.
 
A Mia balançou a cabeça, achando graça, como se não acreditasse na minha honestidade. Pegou mais uma vez o baseado da minha mão e se virou na minha direção, encostando a cabeça na parede.
 
_Cê gosta de tirar uma com a minha cara, né...
_Olha... – justifiquei – ...até gosto, mas também acho essa a coisa mais sapatão que tem em você. Então sou 100% a favor.
_Jura. Mais sapatão do que estar aqui com você?
_Não – ri.
_Hum... – a Mia sorriu e falou baixinho, se aproximando do meu ouvido – ...mais sapatão do que o que gente fez lá em casa?
 
Puta merda.
 
Antes que eu pudesse reagir – e digo, eu teria beijado ela contra aquela parede na hora –, a Mia riu e colocou o braço ao redor dos meus ombros, me olhando como se eu não prestasse um centavo. E eu não prestava nem meio.
 
_Vem, vamos entrar... – ela riu.

maio 18, 2010

A agonia dos sem carro

Quinta-feira à noite e o menor ponteiro do relógio da cozinha escorregava vagarosamente para o número 10. Eu o encarava, impaciente, abrindo o quarto maço desde segunda com as mãos ansiosas. Vestia a minha melhor regata preta por cima de um skinny jeans surrado que beirava a piranhagem caminhão, com os braços e as tatuagens de fora. E o cabelo naquele desbotado-grunge feito em casa de qualquer jeito, bagunçado como sempre. Pronto.
 
Na verdade, estava “pronta” já há quase vinte minutos. Cadê a porra do Gabriel, mano?, eu apoiava os cotovelos na mesa e tragava o cigarro, olhando para o relógio na parede. O combinado era que ele passaria com o carro para me pegar às 21:45 e eu, que nunca fui pontual, estava milagrosamente a postos muito antes disso. Agora esperava ansiosamente pela minha carona, a um minuto de distância de um enfarte.
 
O apartamento estava vazio e silencioso. E era bom que estivesse – eu não queria encontrar com o Fer. Nos falamos horas antes, por SMS, e ele avisou que chegaria só mais tarde, mas não disse quando. E “mais tarde” já poderia ser naquele exato momento. Isso não é bom, eu me precipitava. Torcendo com todas as minhas forças para que o Gabriel chegasse antes dele e, assim, me evitasse um encontro constrangedor com o namorado da garota que eu estava prestes a levar para sair. A culpa acabaria com a minha noite – e eu não conseguia evitar senão pensar que, se isso acontecesse, seria um puta de um desperdício.
 
E o prêmio de “Canalha do Século” vai para...
 
...enfim, o meu telefone tocou. Para a minha sorte, era minha carona. Saí com pressa da cadeira, sem gastar mais um segundo naquele apartamento. Apaguei todas as luzes rapidamente, coloquei o celular no bolso e peguei as chaves de casa antes de sair. Eu gostava de andar por aquele corredor sem saber quando iria voltar. Com sorte, na manhã seguinte. Atravessei o meu andar em direção ao elevador, tentando terminar o cigarro antes de chegar na porta metálica.
 
A rua estava quase vazia, ocupada por um vento leve e frio tipicamente paulistano, e o carro do meu amigo se mostrou mais cheio do que o esperado. Dividi o banco de trás com dois colegas de faculdade dele – futuros publicitários, um deles viado – enquanto o Gabriel assumia a direção com a namorada ao seu lado. E ainda faltava a Mia. Como diabos vamos caber todos nesse carro?, calculei. E rapidamente cheguei à conclusão de que só sobrava lugar no meu colo.
 
Vai caber certinho.
 
Não via o Gabriel há uns bons meses. Ele era um amigo meu de alguns anos já e um dos poucos que não tinha em comum com o Fernando. A gente tinha se conhecido ao acaso num buraco indie chamado Atari e desde então mantivemos contato esporádico. Na época, eu estava me separando de uma garota-problema que arranjei, numa das piores decisões da minha vida, para me distrair após o fim turbulento e bem mal resolvido do meu namoro de onze meses com a Marina. O resultado foi um caos. Foram algumas semanas infernais desastrosas atravessadas graças a uma quantidade inacreditável aspirinas, uma ressaca após a outra, atormentada por centenas de ligações psicopatas para o meu celular numa indignação pelo término daquele casinho-de-consolo que mal começou. Quando saía para espairecer não podia nem ver mulher na minha frente e, numa dessas, acabei trombando com um Gabriel extremamente bêbado no Atari. Foi amizade instantânea.
 
Agora, apesar da grande consideração que ele havia adquirido por mim ao longo dos anos e de todas as furadas amorosas que enfrentamos, não estava sendo fácil convencê-lo a buscar minha garota lá em Higienópolis. Sendo que, , o bar ficava pros lados do Itaim. Era até sacanagem fazer um pedido desses. E eu podia sentir o ódio-mudo de cada integrante daquele carro enquanto seguíamos na direção totalmente oposta por longos minutos.
 
_É aqui! – anunciei, assim que avistei o prédio da Mia.
 
Dei um toque no celular dela e ela logo saiu pelo portão, como se já estivesse esperando lá embaixo há algum tempo. A namorada do Gabriel me deu passagem e eu desci do carro, ganhando um sorriso da Mia assim que ela me viu. Ela atravessou a calçada naquele vestido curtíssimo, perfeita, com as pernas me matando lentamente. O meu coração não ia aguentar.

maio 14, 2010

R$ 4,10

Dei uma nota de cinco para o tiozinho do caixa e disse que ele poderia guardar o troco. Saí andando pela calçada, sem pressa, com um cigarro numa das mãos e o celular na outra. Nenhuma resposta ainda. Entre uma tragada e outra, caminhando de volta para o estúdio, eu olhava para a tela para me certificar se o alerta de um novo SMS não teria passado despercebido por mim. Mas, nada. Droga. Depois de dez segundos, checava de novo. E de novo. Obsessivamente.
 
Apesar dos passos lentos, cheguei no estúdio antes de terminar o meu cigarro, timing ruim, e fui obrigada a parar na porta por algum tempo. Por fim, joguei a bituca na rua e me preparei para voltar ao trabalho. Quando estava passando pelo corredor, meu celular vibrou e a minha cabeça foi a mil no mesmo segundo. Olhei apressada para a tela e me deparei com um SMS aleatório de um amigo meu, me convidando para um show naquela quinta.
 
Não respondi, só de birra.
 
Trabalho, trabalho, trabalho. Mia, Mia, Mia. Mais trabalho. Quinze minutos de labuta depois e nada, resolvi desistir e parar de encarar meu telefone a cada segundo. Como diria minha avó, “se ficar espiando o forno, o bolo não cresce”. E assim sendo, voltei aos meus afazeres rotineiros. Tentando ao máximo não pensar naquela tela virada para baixo contra a minha mesa. E não demorou muito para a sabedoria da vó se provar verdadeira e o nome da Mia piscar na minha tela, iluminando a superfície ao redor – “eu tb. qria sair qqr dia so eu e vc... pra qqr lugar, vms?”.
 
Sorri na mesma hora, sentindo uma felicidade boba encher meu estômago de borboletas. Ô, se vamos. Coloquei minha cabeça para pensar, urgentemente, em qualquer programa que soasse legal. Não queria pedir que ela desse as cartas, queria mostrar que eu sabia jogar. O problema era que todos os lugares que eu frequentava estavam abarrotados de conhecidos, meus e do Fer. E isso incluía todas as baladas e casas de show e bares próximos do nosso apartamento.
 
Droga.
 
A questão, mesmo que não colocada dessa forma, é que aquele seria o meu primeiro encontro com ela. E era ela. A Mia. E como todas as coisas relacionadas a ela, uma simples mensagem se tornou um grande problema. Sabia que podia levá-la para qualquer lugar, ela não era do tipo que ligava para essas coisas. A Mia estava pouco se fodendo – era capaz de se entreter por horas na sarjeta suja da Augusta, munida só de cerveja barata e uma disposição infinita para encher o saco dos amigos headbangers do Fer que se levavam a sério demais. Não precisava de muito. Mas, sei lá, queria que ela realmente se divertisse. E que quisesse sair comigo de novo – então precisava fazer direito.
 
Um jantar? Sem graça. Sinuca? Não, ela não tá pronta para essa sapatonice toda, me diverti. Cinema? Acaba rápido demais. Barzinho? Não, também não, puta coisa playboy. Boteco? Mano, não é possível que eu não consiga pensar em nada melhor que isso. A tarefa começou a se revelar mais difícil do que o esperado. Até que, de repente, me lembrei da mensagem do meu amigo – a que eu ignorara meia hora antes. É, essa. Ela resolvia todo o problema.
 
Porra, como não pensei nisso?