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abril 08, 2010

Desculpa (ou não)

De repente, ela surgiu. O sol já começava a nascer, iluminando cada rachadura e prédio da rua em tons de cinza e revelando toda a sujeira de São Paulo, que se acumulava nos botecos, puteiros e bueiros. A Rua Augusta amanhecia junto com o dia, tomada por sua insônia usual e centenas de pessoas que se recusavam a ir para casa. Inclusive nós.
 
Vi a Dani descer do seu carro do lado oposto da rua e deslizar entre o trânsito na direção do Santa Augusta. Fiquei em pé, para que ela me visse no meio daquela pequena aglomeração, com um cigarro quase acabado na mão. Ela sorriu para mim e eu fingi que não notei, ainda de longe. Continuava com raiva dela, mas não queria ficar nem um segundo a mais sozinha naquela sarjeta enquanto o Fer praticamente comia a Mia na minha frente. Então, assim que a Dani chegou do nosso lado da rua, coloquei meu braço ao redor da sua cintura.
 
A apresentei rapidamente para os demais. Sem cerimônias. O Fer ela já conhecia de outros erros passados. A Mia me olhou e virou a cara, amarga, na mesma hora. Já o Rafa moveu-se um pouco mais para cima na sarjeta, encarando as pernas da Dani conforme nos sentamos no meio do grupo. Comentei qualquer coisa idiota que me veio à mente e, já logo na primeira frase, me confundi e troquei uma palavra por outra.
 
_Caralho – a Dani riu, meio babaca – Passou da conta, gata?
 
A pergunta foi retórica, mas não gostei da cutucada.
 
_Pois é... – traguei mais uma vez o cigarro e joguei a bituca no chão – Sorte a sua.
 
E a puxei para perto de mim, num beijo quase sem vontade. Só me faz esquecer. Daí para frente, exceto pelo que agora me falha à memória, não desgrudamos mais. Como duas adolescentes, bêbadas, é, nos agarrando pela roupa, descaradamente, perdendo a noção do limite, montadas uma em cima da outra naquela calçada suja. Logo nos tornamos o sucesso de todos os passantes da Augusta – mas eu não estava ligando ou sequer ouvindo o que os outros diziam. Ia me atracar com a Dani com toda determinação, sim. E com todas minhas frustrações também.
 
O Fer comentou qualquer coisa a respeito, me zombando, olha quem fala. Mas depois de um tempo, se viu obrigado a dar atenção para o nosso amigo, plantado ali de vela, largando um pouco a Mia de lado. Parece que o jogo virou, não é mesmo? Doce vingança. A cada beijo de tirar o fôlego que eu emendava na Dani, podia sentir a raiva da Mia na nossa direção. Frustrada com o fracasso do seu planinho de merda para me torturar a manhã toda. E eu estava adorando cada segundo daquilo. O único problema é que as minhas mãos...
 
...estavam na garota errada.

abril 07, 2010

Santa Augusta

Quase cinco da manhã e nós persistíamos na Augusta, como quatro gambás bêbados, sentados numa sarjeta imunda qualquer. O nosso porto seguro, o Ibotirama, havia fechado algumas horas antes e nos expulsado educadamente junto com alguns dos últimos clientes. O caos de sexta à noite dominava a rua em alto e bom som.
 
Entre um bar superlotado e outro, os meninos cometeram a besteira de comprar dois litros de vodka barata – e eu cometi a besteira ainda maior de ajudar a virar toda aquela dor-de-cabeça engarrafada. Após algumas pequenas confusões quase propositais, cambaleando pela rua, e muitos novos amigos conhecidos no meio do caminho, sentamos acabados em frente ao Santa Augusta, atraídos pela movimentação constante.
 
O convívio com a Mia até aquela altura estava sendo bastante simples: ela me ignorava e eu engolia, calada, com o rabo entre as pernas. Algo próximo do tolerável. Ao chegar no Santa Augusta, ela entrou para usar o banheiro e eu fui um tempo depois para buscar uma cerveja, munida com o dinheiro do Fer. Dei de cara com a Mia no meio da muvuca, assim, de repente, enquanto ela voltava para o lado de fora e eu entrava. Olhei para a cara dela e a Mia olhou imediatamente para baixo, incomodada com a minha presença. Merda. Desviei dela, evitando qualquer constrangimento desnecessário, e me pus a caminho do bar. O que mais eu poderia fazer?
 
De volta à calçada, matei a garrafa com o Fer e começamos a comentar sobre um amigo em comum com o Rafa, detalhando os absurdos do passado duvidoso dele. O Fer ria tanto, mas tanto, que chegou a tombar duas ou três vezes para trás, esbarrando no cara parado atrás dele, o irritando. Quase deu briga. Não que o meu estado fosse tão melhor, afinal, esquecia uma de cada três palavras e já não fazia mais sentido em nada do que eu dizia. Enquanto isso, a Mia ficava cada vez mais soltinha e, consequentemente, cada vez mais em cima do Fer. Literalmente em cima. Argh. Aí, sim, começou a me incomodar. Nuns beijos empolgados, sentada no colo dele, beirando o insuportável. Desgraçada. E no auge da minha irracionalidade alcoólica, eu não podia evitar senão ficar encarando enquanto os dois se pegavam na sarjeta, completamente mordida de ciúmes, ignorando o que o Rafa tagarelava bêbado ao meu lado.
 
Para de olhar. Para de olhar. Para de olhar.
 
Argh. Não dava. Quanto mais eu me esforçava para recuperar parte da minha sobriedade, virar a cabeça e encarar a porra do chão, mais indiscreta eu ficava. Olhando fixamente para as mãos do Fer, agarrando as coxas da Mia naquela meia-calça arrastão rasgada. As mesmas pernas que estiveram sob os meus dedos naquela noite no sofá da casa dos seus pais. Por sorte, meu amigo estava tão bêbado e tão ocupado em pôr as mãos nela, que não percebeu. A Mia, por outro lado, fazia questão de virar os olhos sutilmente na minha direção, de tempos em tempos, para checar se eu estava prestando atenção suficiente – e eu estava, é claro. Porcaria.
 
Por volta das cinco e quarenta, o meu celular tocou. Eu não percebi logo de início, hipnotizada pela ceninha desconcertante da Mia e do Fer. Só fui ver alguns minutos depois. Quando olhei o visor, meu telefone já registrava duas chamadas não atendidas. Liguei de volta e, para a minha surpresa, era a Dani.
 
_Seguinte, não tô afim de ir pra Lari. Quero te encontrar – soou arrependida – Onde cê tá? Eu tô saindo daqui agora, posso ir aí? 
 
Não. Não pode. Não pode. Não pode, nem pensar.
 
_Tá. Que se dane. Tô no Santa Augusta, vem aí.