De repente, ela surgiu. O sol já começava a nascer, iluminando
cada rachadura e prédio da rua em tons de cinza e revelando toda a sujeira de
São Paulo, que se acumulava nos botecos, puteiros e bueiros. A Rua Augusta
amanhecia junto com o dia, tomada por sua insônia usual e centenas de pessoas
que se recusavam a ir para casa. Inclusive nós.
Vi a Dani descer do seu carro do lado oposto da rua e deslizar
entre o trânsito na direção do Santa Augusta. Fiquei em pé, para que ela me
visse no meio daquela pequena aglomeração, com um cigarro quase acabado na mão.
Ela sorriu para mim e eu fingi que não notei, ainda de longe. Continuava com
raiva dela, mas não queria ficar nem um segundo a mais sozinha naquela sarjeta
enquanto o Fer praticamente comia a Mia na minha frente. Então, assim que a
Dani chegou do nosso lado da rua, coloquei meu braço ao redor da sua cintura.
A apresentei rapidamente para os demais. Sem cerimônias. O Fer ela
já conhecia de outros erros passados. A Mia me olhou e virou a cara, amarga, na
mesma hora. Já o Rafa moveu-se um pouco mais para cima na sarjeta, encarando as
pernas da Dani conforme nos sentamos no meio do grupo. Comentei qualquer coisa
idiota que me veio à mente e, já logo na primeira frase, me confundi e troquei
uma palavra por outra.
_Caralho – a Dani riu, meio babaca – Passou da conta, gata?
A pergunta foi retórica, mas não gostei da cutucada.
_Pois é... – traguei mais uma vez o cigarro e joguei a bituca no
chão – Sorte a sua.
E a puxei para perto de mim, num beijo quase sem vontade. Só me
faz esquecer. Daí para frente, exceto pelo que agora me falha à memória,
não desgrudamos mais. Como duas adolescentes, bêbadas, é, nos agarrando
pela roupa, descaradamente, perdendo a noção do limite, montadas uma em cima da
outra naquela calçada suja. Logo nos tornamos o sucesso de todos os passantes
da Augusta – mas eu não estava ligando ou sequer ouvindo o que os outros diziam.
Ia me atracar com a Dani com toda determinação, sim. E com todas minhas frustrações
também.
O Fer comentou qualquer coisa a respeito, me zombando, olha quem fala. Mas depois de um tempo,
se viu obrigado a dar atenção para o nosso amigo, plantado ali de vela,
largando um pouco a Mia de lado. Parece
que o jogo virou, não é mesmo? Doce
vingança. A cada beijo de tirar o fôlego que eu emendava na Dani,
podia sentir a raiva da Mia na nossa direção. Frustrada com o fracasso do seu
planinho de merda para me torturar a manhã toda. E eu estava adorando cada
segundo daquilo. O único problema é que as minhas mãos...
...estavam na garota errada.
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abril 08, 2010
Desculpa (ou não)
Postado por • the girl fucking Mia • às 14:19 28 comentários
Marcadores: Dani, Fer, Mia, SantaAugusta
abril 07, 2010
Santa Augusta
Quase cinco da manhã e nós persistíamos na Augusta, como quatro
gambás bêbados, sentados numa sarjeta imunda qualquer. O nosso porto seguro, o
Ibotirama, havia fechado algumas horas antes e nos expulsado educadamente junto
com alguns dos últimos clientes. O caos de sexta à noite dominava a rua em alto
e bom som.
Entre um bar superlotado e outro, os meninos cometeram a besteira
de comprar dois litros de vodka barata – e eu cometi a besteira ainda maior de
ajudar a virar toda aquela dor-de-cabeça engarrafada. Após algumas pequenas
confusões quase propositais, cambaleando pela rua, e muitos novos amigos
conhecidos no meio do caminho, sentamos acabados em frente ao Santa Augusta,
atraídos pela movimentação constante.
O convívio com a Mia até aquela altura estava sendo bastante
simples: ela me ignorava e eu engolia, calada, com o rabo entre as pernas. Algo
próximo do tolerável. Ao chegar
no Santa Augusta, ela entrou para usar o banheiro e eu fui um tempo depois para
buscar uma cerveja, munida com o dinheiro do Fer. Dei de cara com a Mia no meio
da muvuca, assim, de repente, enquanto ela voltava para o lado de fora e eu
entrava. Olhei para a cara dela e a Mia olhou imediatamente para baixo, incomodada
com a minha presença. Merda. Desviei
dela, evitando qualquer constrangimento desnecessário, e me pus a caminho do
bar. O que mais eu poderia fazer?
De volta à calçada, matei a garrafa com o Fer e começamos a
comentar sobre um amigo em comum com o Rafa, detalhando os absurdos do passado
duvidoso dele. O Fer ria tanto, mas tanto, que chegou a tombar duas ou três
vezes para trás, esbarrando no cara parado atrás dele, o irritando. Quase deu
briga. Não que o meu estado fosse tão melhor, afinal, esquecia uma de cada três
palavras e já não fazia mais sentido em nada do que eu dizia. Enquanto isso, a
Mia ficava cada vez mais soltinha e, consequentemente, cada vez mais em cima do
Fer. Literalmente em cima. Argh. Aí, sim, começou a me incomodar. Nuns beijos
empolgados, sentada no colo dele, beirando o insuportável. Desgraçada. E no auge da minha irracionalidade alcoólica, eu não
podia evitar senão ficar encarando enquanto os dois se pegavam na sarjeta,
completamente mordida de ciúmes, ignorando o que o Rafa tagarelava bêbado ao
meu lado.
Para de olhar. Para de olhar. Para de olhar.
Argh. Não dava. Quanto mais eu me esforçava para recuperar parte da minha sobriedade, virar a cabeça e encarar a porra do chão, mais indiscreta eu ficava. Olhando fixamente para as mãos do Fer, agarrando as coxas da Mia naquela meia-calça arrastão rasgada. As mesmas pernas que estiveram sob os meus dedos naquela noite no sofá da casa dos seus pais. Por sorte, meu amigo estava tão bêbado e tão ocupado em pôr as mãos nela, que não percebeu. A Mia, por outro lado, fazia questão de virar os olhos sutilmente na minha direção, de tempos em tempos, para checar se eu estava prestando atenção suficiente – e eu estava, é claro. Porcaria.
Por volta das cinco e quarenta, o meu celular tocou. Eu não
percebi logo de início, hipnotizada pela ceninha desconcertante da Mia e do
Fer. Só fui ver alguns minutos depois. Quando olhei o visor, meu telefone já
registrava duas chamadas não atendidas. Liguei de volta e, para a minha surpresa,
era a Dani.
_Seguinte, não tô afim de ir pra Lari. Quero te encontrar – soou
arrependida – Onde cê tá? Eu tô saindo daqui agora, posso ir aí?
Não. Não pode. Não pode. Não pode, nem pensar.
_Tá. Que se dane. Tô no Santa Augusta, vem aí.
Para de olhar. Para de olhar. Para de olhar.
Argh. Não dava. Quanto mais eu me esforçava para recuperar parte da minha sobriedade, virar a cabeça e encarar a porra do chão, mais indiscreta eu ficava. Olhando fixamente para as mãos do Fer, agarrando as coxas da Mia naquela meia-calça arrastão rasgada. As mesmas pernas que estiveram sob os meus dedos naquela noite no sofá da casa dos seus pais. Por sorte, meu amigo estava tão bêbado e tão ocupado em pôr as mãos nela, que não percebeu. A Mia, por outro lado, fazia questão de virar os olhos sutilmente na minha direção, de tempos em tempos, para checar se eu estava prestando atenção suficiente – e eu estava, é claro. Porcaria.
Não. Não pode. Não pode. Não pode, nem pensar.
Postado por • the girl fucking Mia • às 18:58 14 comentários
Marcadores: Benatti, Dani, Fer, Ibotirama, Mia, SantaAugusta
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