Em algum momento, o meu “fico só um pouco” virou quatro da manhã. Pois
é. E lá pelas tantas, já de saco cheio de reclamar do barulho, um dos
vizinhos ameaçou chamar a polícia. A resposta óbvia para isso foi colocar “Mucha
policía, poca diversión” para tocar e aumentar o volume no máximo. Claro.
Completamente chapado, o Benatti gritava a letra do Eskorbuto de cima de uma
mesa, pulando e girando a própria camiseta sobre a cabeça, encorajando os
amigos a cantar junto. E todo mundo o fazia, aos berros.
Era tanta gente se espremendo naquele apartamento que o chão
parecia tremer. Eu observava a cena, sentada no chão ao lado duns amigos,
gargalhando. É hoje que a gente vai preso. A cada minuto que se passava,
a festa parecia mais lotada. E fora de controle. Me levantei e tentei passar
pelo corredor abarrotado de gente, num esforço para chegar até o banheiro. Aí trombei
sem querer com a Mia, mais uma vez. Parecia que todas as vezes que a via, o seu
copo estava sempre mais cheio – nunca mais vazio.
Entrei no banheiro e uma das ex-namoradas do Benatti, a Cá, entrou
logo atrás. Estava com um vestido preto curto e tinha toda a cabeça raspada,
exceto as costeletas, que eram tingidas de laranja. Os dois ainda eram amigos. Fazia
uns anos que tinham terminado e agora, segundo começou a tagarelar, ela já não
saía mais com caras. “Foi uma decisão política mesmo”, argumentou, passando
lápis no olho em frente ao espelho enquanto eu mijava, “de me relacionar só com
mulheres, sabe?”. Não, pensei. Mas dei descarga e sorri, sapatona
de nascença, achando certa graça no papo todo.
Assim que abrimos a porta, demos de cara com o Fer pelado e louco
correndo com outros dois amigos nossos também sem roupa – e aí, milagrosamente,
dei toda razão para a Cá. Certa ela. O corredor estava com um cheiro enjoado
de loló misturado com maconha. Fui até o último quarto, que ficava bem no
fundo, e trombei com o Fer de novo. Agora vestindo a bermuda, meio de qualquer
jeito. Assim que me viu, ele me abraçou, quase caindo de bêbado.
_C-cê viu a Mia? – perguntou, falando arrastado.
_Não sei. Foi pro lado da sala, acho...
Entrei no quarto e ele voltou pelo corredor. O cômodo inteiro
estava numa marofa desgraçada. Tinha talvez dez, quinze pessoas ali. Fui
caminhando no escuro, quase pisando em quem estava sentado no chão, até achar
um outro amigo nosso, o Vini – que estava fumando uma ponta com a namorada na
cama. Sentei do lado deles e pedi um trago, mas já estava quase queimando os
dedos de tão pequena. Então comecei a bolar outro baseado. Puts. Como chama
essa mina mesmo?, pensei, enquanto apertava a seda e olhava o Vini beijar a
garota. Não conseguia lembrar o nome dela por nada. Acendi o baseado, dando um
trago demorado.
E aí... o quarto me engoliu.
Quando terminei, já com a cabeça tonta, a tal namorada estava
sentada no colo do Vini, nuns amassos ao meu lado que nem vi quando começaram.
Não sabia se tinham passado 15 ou 40 minutos. Como diabos eu vou trabalhar
amanhã? Puta que pariu, passei a mão no rosto e dei uma olhada para
o lado, vendo o meu amigo agarrar as coxas da garota e subir as mãos por
debaixo da sua saia – e foi quando me dei conta de que ela estava sem calcinha.
Ah, não. Nem a pau. Não ia dar para ficar ali de plateia.
Me levantei e pisoteei uns três ou quatro até chegar na porta, já
consideravelmente chapada. Aí me espremi entre as pessoas no corredor. Entrei
brevemente na cozinha para pegar mais uma latinha de cerveja e logo voltei para
a sala, onde o rádio gritava Exploited no último volume. Virei o primeiro gole
e, quando olhei para frente, vi a Mia no sofá – aos beijos.
Com outra garota.
_Não sei. Foi pro lado da sala, acho...
E aí... o quarto me engoliu.
Com outra garota.