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fevereiro 26, 2012

Noutros cantos

Em algum momento, o meu “fico só um pouco” virou quatro da manhã. Pois é. E lá pelas tantas, já de saco cheio de reclamar do barulho, um dos vizinhos ameaçou chamar a polícia. A resposta óbvia para isso foi colocar “Mucha policía, poca diversión” para tocar e aumentar o volume no máximo. Claro. Completamente chapado, o Benatti gritava a letra do Eskorbuto de cima de uma mesa, pulando e girando a própria camiseta sobre a cabeça, encorajando os amigos a cantar junto. E todo mundo o fazia, aos berros.
 
Era tanta gente se espremendo naquele apartamento que o chão parecia tremer. Eu observava a cena, sentada no chão ao lado duns amigos, gargalhando. É hoje que a gente vai preso. A cada minuto que se passava, a festa parecia mais lotada. E fora de controle. Me levantei e tentei passar pelo corredor abarrotado de gente, num esforço para chegar até o banheiro. Aí trombei sem querer com a Mia, mais uma vez. Parecia que todas as vezes que a via, o seu copo estava sempre mais cheio – nunca mais vazio.
 
Entrei no banheiro e uma das ex-namoradas do Benatti, a Cá, entrou logo atrás. Estava com um vestido preto curto e tinha toda a cabeça raspada, exceto as costeletas, que eram tingidas de laranja. Os dois ainda eram amigos. Fazia uns anos que tinham terminado e agora, segundo começou a tagarelar, ela já não saía mais com caras. “Foi uma decisão política mesmo”, argumentou, passando lápis no olho em frente ao espelho enquanto eu mijava, “de me relacionar só com mulheres, sabe?”. Não, pensei. Mas dei descarga e sorri, sapatona de nascença, achando certa graça no papo todo.
 
Assim que abrimos a porta, demos de cara com o Fer pelado e louco correndo com outros dois amigos nossos também sem roupa – e aí, milagrosamente, dei toda razão para a Cá. Certa ela. O corredor estava com um cheiro enjoado de loló misturado com maconha. Fui até o último quarto, que ficava bem no fundo, e trombei com o Fer de novo. Agora vestindo a bermuda, meio de qualquer jeito. Assim que me viu, ele me abraçou, quase caindo de bêbado.
 
_C-cê viu a Mia? – perguntou, falando arrastado.
_Não sei. Foi pro lado da sala, acho...
 
Entrei no quarto e ele voltou pelo corredor. O cômodo inteiro estava numa marofa desgraçada. Tinha talvez dez, quinze pessoas ali. Fui caminhando no escuro, quase pisando em quem estava sentado no chão, até achar um outro amigo nosso, o Vini – que estava fumando uma ponta com a namorada na cama. Sentei do lado deles e pedi um trago, mas já estava quase queimando os dedos de tão pequena. Então comecei a bolar outro baseado. Puts. Como chama essa mina mesmo?, pensei, enquanto apertava a seda e olhava o Vini beijar a garota. Não conseguia lembrar o nome dela por nada. Acendi o baseado, dando um trago demorado.  
 
E aí... o quarto me engoliu.
 
Quando terminei, já com a cabeça tonta, a tal namorada estava sentada no colo do Vini, nuns amassos ao meu lado que nem vi quando começaram. Não sabia se tinham passado 15 ou 40 minutos. Como diabos eu vou trabalhar amanhã? Puta que pariu, passei a mão no rosto e dei uma olhada para o lado, vendo o meu amigo agarrar as coxas da garota e subir as mãos por debaixo da sua saia – e foi quando me dei conta de que ela estava sem calcinha. Ah, não. Nem a pau. Não ia dar para ficar ali de plateia.
 
Me levantei e pisoteei uns três ou quatro até chegar na porta, já consideravelmente chapada. Aí me espremi entre as pessoas no corredor. Entrei brevemente na cozinha para pegar mais uma latinha de cerveja e logo voltei para a sala, onde o rádio gritava Exploited no último volume. Virei o primeiro gole e, quando olhei para frente, vi a Mia no sofá – aos beijos.
 
Com outra garota.

julho 16, 2010

Birra

_Nossa, “mãe”, fiz alguma coisa errada?! – ele começou a rir – Que cara é essa, meu?
_Nada... – voltei ao meu prato, irritada – Foi só uma pergunta, Fernando.
_“Fernando”?
_“Fer”, tá, que diferença faz?
_Mano, que bicho te mordeu...? – ele riu.
_Não enche! – respondi sua provocação, rancorosa, e enfiei o macarrão na boca, tentando sair dali.
_Ihhh... que foi? – zombou minha irritação – Comeu e não gostou?
 
Olha, pelo contrário.
 
_E-eu tô... tô... – eu me preparei para mentir, descaradamente, na tentativa de deixar as coisas melhores – ...com uns problemas aí. Deixa quieto, não tô bem hoje.
_Quer conversar, meu?
_Não, de boa.
_Beleza... – ele pegou na minha mão, como se me apoiasse silenciosamente, e aquilo simplesmente acabou comigo.
 
Escondi o olhar e a minha própria vergonha no maldito prato de macarrão, odiando toda aquela situação. Odiando o Fer por sabe-se-lá o que tinha feito com a Mia na noite anterior e odiando a mim mesma, acima de tudo. Afinal, ele podia não ser o melhor namorado do mundo, mas valia mil vezes mais do que eu como amigo. Merda. Eu tossi, rapidamente – estava comendo apressada demais e aquilo começava a não me fazer bem.
 
_Então, meu... – ele retomou, mudando de assunto numa tentativa de acabar com o climão – ...ontem fomos na festa do Vini. A Mia tava vendo umas poscas lá, que a mina do Vini comprou e tava mostrando. Ela curtiu pra caralho. Pensei em dar umas para ela de aniversário... Que cê acha? Sabe qual é?
_Hum...
 
A primeira menção à Mia embrulhou meu estômago na mesma hora.
 
_Foda só que é caro – suspirou – Preciso ver quanto tenho de grana ainda. Manja qual caneta que é, né?
 
Acenei que “sim” com a cabeça, sem dizer nada, sentindo uma contradição violenta de emoções dentro de mim e me segurando para não levantar e ir almoçar em outro lugar.
 
_Sei lá, é só uma ideia... – murmurou e então me olhou – Você vai, né?
_Vou onde?
_No aniversário.
_Não sei – abaixei a cabeça, me resumindo à minha insignificância – Não tô sabendo de nada.
_Hum... – ele desviou o olhar para o lado, como se pensasse em outra coisa, mas depois voltou ao papo de elevador – Foi legal ontem... tava maior galera lá.
_É? – murmurei, sem muito interesse.
_Não te chamaram, meu?
_Chamaram. Acho que sim... Eu é que esqueci, sei lá. O Vini me mandou um lance no Facebook semana passada, mas eu nem vi... Não me toquei que era ontem.
_A Mia me perguntou se cê não ia... – meu interior se contorceu de novo – ...os caras também, a Bruna...
_Perguntou? – retruquei, interessada no interesse da Mia.
_Perguntou o quê?
_Se eu ia?!
_Quem?
_Não... – caí em mim – ...nada, esquece.
_Mano, espera... você pegou a Bruna?? – o Fer riu.
_O quê?! Não!!
_Não entendi, então...
_Não entendeu o quê?!
_Do que você tava falando.
_Do que você tá falando?? – eu forcei um tom de indignada – E meu, por que cê sempre acha que eu peguei as minas que a gente conhece, mano?!
_Não, só presumi... – ele riu, mais uma vez – Achei que cê tava aí curiosa dela ter perguntado sobre você.
_Pois presumiu errado.
_Tá, é só que... – o Fer continuou de gracinha e aquilo me irritou de verdade – Cê sabe, né...
_Não, não sei.
_Vai, concorda comigo que era no mínimo “possível”.
_Eu?! – olhei para ele, puta – E a Bruna? Eu e a Bruna?! Tá.
_O que? É possível!
_Vai se foder, meu.
_O que foi?! – ele riu.
_Ela sequer pega mina, porra... O que tem a ver??
_Ah! Como se isso impedisse! – ele tornou a rir.
_Olha... Eu não peguei ninguém, Fernando.
 
Me levantei bruscamente e tirei o meu prato da mesa, colocando-o de qualquer jeito na pia.
 
_Êê... Tá difícil hoje, hein? – ele se encheu – Não dá nem pra brincar, meu!
_Tá, tá mesmo.
 
Resmunguei e saí.