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março 28, 2011

Me engana, eu gosto

_Ah, é?!
 
A Isa riu, do outro lado da linha.
 
_É... – arrastei as palavras, com os olhos fechados e indisposta – ...tava pensando agora mesmo. Onde cê tá?
_Onde eu tô? – achou graça – Por que cê quer saber?
_Ah. Curiosidade...
_Sei... – a Isa se divertia e eu tragava, me forçando àquela situação – ...mas o que eu ganho se te contar?
_Mano... – respirei fundo – ...todo o desinteresse do mundo.
_Ah, agora é fácil assim?
_É.
_O que eu quiser, então?
 
Quer que eu repita, porra?
 
_Vai... – insisti – Me fala onde cê tá.
_Hum. Tá com pressa?
_Não. Não é pressa, é só que... sei lá, agora me pareceu uma boa hora pra gente... – hesitei – ...dar aquele beijo.
_Às três da manhã?! – zombou.
_Alguma coisa contra ligações de madrugada?
_Nenhuma. É só que, né... Assim, do nada...
_Não do nada, eu... – soltei a fumaça no ar e me preparei para mentir descaradamente – ...eu meio que, sei lá, fiquei com você na cabeça, sabe... depois da gente conversar mais cedo. Fiz merda em ligar?
_Nem um pouco! – ela riu – Eu tô aqui na Hot Hot, mas tava pensando em sair logo mais...
_Saindo daí cê vai pra onde?
_Não sei. Depende. Onde cê tá?
_Na Clash. Mas tá um lixo aqui... – resmunguei – Cê tá de carro, meu?
 
Diz que sim, diz que sim... diz que sim.
 
_Tô – ela riu, de novo – Por quê? Quer que eu passe aí?!
_Não, mano... – me fiz de ofendida, sentindo a garoa na cara – ...eu me viro, aqui é completamente fora de mão pra você.
_Não, não, é de boa...
_Sério mesmo?
_Sim.
_Então já é.
_Mas espera... E se não funcionar?
_Se não funcionar o quê?
_O nosso trato... – fez graça – ...e se eu pegar o meu beijo e, de repente, quiser mais?
_Aí cê pega mais... – resmunguei – ...pega o que você quiser, meu.
 
Só me tira dessa merda dessa rua, garota.

março 24, 2011

Na Clash

Que porra eu tô fazendo aqui? Engoli o restante de álcool no fundo do copo e o deixei novamente sobre o balcão, pedindo para o barman encher mais uma vez. Não devia ter saído de casa, resmunguei para mim mesma, observando o whisky tingir o balcão de vermelho através do vidro. O cara marcou a dose na minha comanda e eu olhei para a pista. A Lê já tinha desistido de me acompanhar, arranjando uma garota qualquer no meu lugar.
 
Eu não estava no clima. Não estava no clima pra porra nenhuma.
 
Um babaca de jaqueta jeans e camiseta dos Pistols, metido a moderninho, me enchia o saco, grudado ao meu lado. E eu o ignorava. Homens são como cachorros – não importa o tamanho da migalha, se você joga um só pedacinho, eles não saem mais do lado da mesa. E assim ele insistia, depois de meia resposta minha, falando coisas como o quanto ler Kerouac mudou a sua vida no ano anterior e o caralho a quatro. Céus. Olhei por cima do meu ombro e, a alguns metros dali, a Lê seguia com as coxas metidas entre as pernas da garota. Eu tenho merda na cabeça, dei mais um gole no meu Jameson, me sentindo presa naquela droga de balada.
 
O ambiente escuro e abafado da Clash tinha me enfiado com tudo na bad e eu estava rezando, implorando para ir embora logo. Sem nenhum sinal, todavia, de uma partida iminente. Achei mesmo que isso ia me fazer bem? Puxei então o celular do bolso, praticamente num ritual autodepreciativo a que tinha me acostumado, encarando a ausência de notificações. Como se olhasse direto para o abismo que a Mia deixou para trás.
 
Que se foda, decidi, vou cair fora.
 
E saí. Sem avisar a Lê, cambaleando de bêbada. Já do lado de fora, uma garoa fria me despertou daquele inferninho. Tirei o maço do bolso e acendi um cigarro torto, meio sem jeito, protegendo a brasa do vento enquanto lutava para fazer pegar. Dei a primeira tragada e a fumaça morna se espalhou no ar gelado. Onde você tá? Por que você não me liga como liga para ele? Me esforçava para não pensar na Mia, caralho viu, tragando mais uma vez e sentindo meus braços congelarem. Mas a minha cabeça ficava voltando para a sua boca, para os seus olhos. Para a porra das suas pernas me abraçando, a sua cabeça encostada no meu ombro. Por que você não me ama de volta?
 
Engoli seco e as palavras da Marina ecoaram na minha cabeça. Devia mesmo ter sido diferente a essa altura. Suspirei e coloquei o cigarro na boca – precisava achar um jeito de sair daquele buraco na Barra Funda e voltar para a Frei Caneca. Observei o movimento na rua, me dando conta de que eu estava longe pra caralho de casa. Peguei o celular e olhei as horas – 03:17. Eu tô fodida, balancei a cabeça, sem acreditar na minha falta de sorte, e soltei a fumaça. Não queria esperar até o metrô abrir. Contei os meus trocados restantes e não tinha o suficiente para um táxi. Merda. Quis então ligar para a Marina, pedir para que viesse me resgatar.
 
Mas não tinha coragem – não àquela hora.
 
Apoiei as costas contra a parede de fora da balada, sentindo minhas pernas instáveis e embriagadas. Argh. Aí me agachei e sentei naquela calçada suja. Encostei a cabeça contra o concreto da parede e rodei a minha lista de contatos do celular com uma mão, enquanto a outra segurava o cigarro inacabado. E sem raciocinar direito, pressionei o número da Isa – que eu tinha anotado naquela tarde. Após alguns toques, madrugada adentro, ela atendeu.
 
_Então, pensei sobre aquele beijo...