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abril 23, 2013

As sardas e os ladrilhos

E ela ficou. Durante as horas seguintes, pelo menos – com os pés entrelaçados nos meus, o seu braço ao redor da minha cintura. Acordei, às plenas cinco da tarde, sentindo a sua pele morna contra a minha, enquanto a chuva ainda caía fininha do lado de fora, mas, não, não sei, algo. Algo ficou junto. Como um sussurro no fundo da minha cabeça, sabe, uma inquietude, me repetindo que já não era suficiente. Não mais. O meu corpo estava pesado, dolorido. Esfreguei as mãos no rosto, forçando o meu despertar, e sentei com os pés para fora do colchão. Cuidadosamente. Num esforço sincero para não a perturbar. Seu braço tatuado pendeu suavemente no colchão, a poucos centímetros das minhas pernas.
 
Senti minha cabeça dando sinais de enxaqueca. Argh. Me levantei e fui até o armário, vestindo a primeira boxer que achei na gaveta. Aí saí no corredor, silenciosamente. E assim que entrei na cozinha, para a minha surpresa, dei de cara com uma garota seminua. Mas que diabos? Uma ruiva com sardas no rosto, numa regata larga e só de calcinha, passando café. Nada simpática. Me viu passar pela porta com os peitos de fora, em toda minha glória caminhoneira, e fechou a cara na mesma hora. Estranhei a situação. O que tá acontecendo nessa casa?
 
O Du estava sentado do outro lado da mesa, sem camiseta. A garota pegou seu café e puxou uma cadeira, cruzando as pernas sobre o colo dele. Sem se apresentar ou sequer me olhar direito. Que seja. Me dirigi à geladeira e abaixei para alcançar a última lata de Coca, bem no fundo da prateleira. As horas pareciam se arrastar naquela tarde de sábado.
 
_E aí, sobreviveu ao PT? – o Du se aproximou de mim, apoiando os braços sobre a porta da geladeira e largando a mina sozinha – Não achei que cê fosse acordar do jeito que cê tava ontem, meu. A Mia veio aí?
_Veio. E... – me ergui para fofocar, falando baixo – ...quem é essa aí?
_É a Sté. Ela é da companhia – ele riu – Ela tava do seu lado no carro, mano, na volta, cê não lembra?
_Não...
_Ela tá de mau humor – resmungou, cochichando comigo por cima da porta da geladeira.
_Mau humor, por quê?
_Ah, ela... m-meio que gosta de mim. E tipo, ela sabe... – o Du fez aquela cara que todos nós fazemos quando queremos dizer “gay” sem ter que pronunciar a palavra em si – ...daí fica assim depois.
_Mas, espera... – sussurrei de volta, pasma – ...cê come ela?
_Não, meu. Só às vezes.
 
Olhei para ele e aí olhei para ela, surpresa. E então olhei para ele, de novo, e comecei a rir. Caralho, hein, cê consegue ser pior do que eu. Fechei a porta da geladeira e abri a latinha, ainda o observando, estarrecida. A garota fingia não nos ouvir. Na maior cara de pau, então, o Du se aproximou ainda mais de mim e perguntou se, “a propósito”, eu não podia inventar algo, como se tivéssemos programado qualquer coisa à noite. “Cê tá me zoando, né?”, cochichei, “não vou dar perdido nela por você”. “Por favor!”. Revirei os olhos, sem acreditar que estava sendo arrastada para o meio daquela situação, mas acenei com a cabeça. E ele voltou para a mesa.
 
_E ô, cê vai hoje, né? – perguntei alto, casualmente, enquanto me erguia na ponta dos pés para pegar uma bolacha no armário.
_Porra, claro!
_“Vai” onde? – a tal Sté se dirigiu a ele, não a mim.
_Hoje tem mais uma comemoração... – me intrometi, mentindo descaradamente – ...do meu aniversário. Mas mais família assim, sabe, jantar e bolo, essas coisas, lá em Santo Amaro na casa dos meus pais.
_Hum...
 
Ela cruzou os braços e murchou na cadeira, irritada. Você me deve uma, olhei mais uma vez para o Du, antes de os deixar a sós na cozinha. Aquela interação me lembrava desconfortavelmente de mim mesma. De dias demais como aquele, desculpas demais como aquela. Do que eu não queria mais na minha vida. Arrastei os pés de volta para o meu quarto, tentando ignorar o sentimento, mas quando entrei, o cômodo estava vazio. Dei quatro passos de volta no corredor, então, e a achei no banheiro – ah, aí tá você. Estava usando uma blusa velha minha e com as pernas descobertas, descalça, em frente à pia. Encostei no batente da porta e observei a Mia por um instante, molhando o rosto. Como se tivesse acabado de acordar. Logo que notou a minha presença, sorriu para mim, através do reflexo no espelho. E eu sorri de volta – numa espécie de não-sorrir, sem muita intenção.
 
Vê-la ali, tão confortável nas minhas roupas, no meu apartamento, me incomodava. Tinha algo de intimidade no seu jeito, algo de relacionamento na forma como nos portávamos naquele fim de tarde. Argh. O peso de horas antes continuava no meu peito. Dei um gole da Coca que peguei na geladeira e desapoiei as costas do batente, inquieta. Me sentia cansada, numa exaustão emocional que parecia perdurar nas minhas veias. Era uma ressaca das boas, das péssimas. Pois sabia que não podíamos estar, nunca, de fato, juntas. Eu e ela. E isso me matava lentamente, puta merda.
 
Suspirei, afastando aqueles pensamentos. Inferno de dia. Abaixei a cabeça por uns segundos, fechando os olhos. E a Mia me viu pelo espelho – “tudo bem, linda?”. Balancei a cabeça e disse que sim. Mas hesitei por um momento, ainda que fingisse sem esforço. Algo, é, algo me incomodava. Não sei. Me afastei da porta, como se fosse em direção ao quarto, numa vontade de sair de perto dela por um instante. Mas então voltei, num impulso:
 
_E-eu... – murmurei sem pensar, sentindo meu coração acelerar – ...e-eu não quero mais fazer isso, Mia.
_“Isso”, o quê? – ela prendeu o cabelo com as mãos e as palavras simplesmente saíram da minha boca.
_Isso. Eu e você – respondi, sincera – E-eu, eu preciso falar com o Fer, mano. Ou eu, ou você – ela olhou na minha direção, pega de surpresa – Não posso mais fazer isso enquanto vocês tão juntos.

abril 15, 2013

3 Songs – pt. 2

I wanna be forgotten and I don't wanna be reminded
You say, "please, don't make this harder"
No, I won’t yet
(The Strokes)
 
_CLARA?! – meu coração disparou – CLARA, NÃO DESLIGA! POR FAVOR, NÃO DESLIGA!!
_Por quê, meu? – a sua respiração parecia pesada – Por que cê acha que eu devia falar com você?
_Porque cê já tá falando, vai, por favor. Só me escuta! – implorei, com o telefone num dos ouvidos e a mão no outro, tentando abafar o som externo – Essa semana foi um lixo, Bi, um inferno! Eu não consigo parar de pensar em você!! LINDA, POR FAVOR! A GENTE TEM QUE CONVERSAR! – choraminguei – S-só, sabe, só sentar em algum lugar e conversar, me dá outra chance! Me deixa explicar, eu... e-eu fiz merda, porra! Eu tô desesperada!! Só a ideia de te perder... – minha boca atropelava as palavras, embriagada, e as lágrimas começaram a se formar nos meus olhos, me fazendo perder todo o controle das minhas emoções – ...e-eu não posso te perder, não posso. Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, porra. Eu te amo. Eu te amo tanto!!
_Você não superou aquela garota. Você sabe que não... – murmurou, magoada – Então por que você me liga? Por que cê tem que me fazer passar por isso?!
_Me dá uma chance, só me deixa t...
_Mano... – ela me cortou – ...cê não entende. NÃO FAZ DIFERENÇA! Você, v-você perdeu o respeito por mim. Você nunca se importou...
_NÃO! NÃO!! NÃO É VERDADE!!!
_...você não deu a mínima para como eu ia me sentir, você só, s-só faz o que faz. E eu não sou saco de pancada para esse seu jeito errado, essa sua forma torta de fazer as coisas. Você não leva NINGUÉM em consideração, porra, nada, só as suas vontades... – ela parecia chorar do outro lado e as lágrimas desataram, incontidas, pelo meu rosto – ...e eu não quero estar com alguém assim. Você tem que crescer. Encarar suas escolhas. V-você sabia, inferno, sabia que as coisas tinham mudado pra gente. Que eu tinha mudado, que eu te queria. E você, v-você vai lá e atropela tudo. Tudo! Magoa todo mundo, porra, magoa a si mesma. VOCÊ ME MAGOOU! VOCÊ ENTENDE ISSO? VOCÊ ME HUMILHOU, ME MACHUCOU DO PIOR JEITO POSSÍVEL, CARALHO!
_Clara, nã... – solucei, destruída, sem conseguir reagir.
_Olha, eu posso ter te amado... – disse, com rancor – ...mas você vai ver o quão rápido eu te esqueço.
_Por favor, não faz isso, nã...
 
Escutei-a chorar, enquanto eu implorava. E então desligou o telefone.
 
Não. Entrei em desespero. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Me senti impotente, sem saída. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Todas as minhas ligações seguintes caíram na sua caixa postal. E eu perdi o controle. Esmurrei a cabine, gritando, com raiva. As lágrimas me rasgavam. As dela mais do que as minhas. Quis destruir tudo. Se algum resquício de sanidade ainda me restava quando pisei naquela balada, àquela altura já não mais. Desatei, fora de mim. Uma das funcionárias do banheiro começou a me chamar do outro lado da porta, alarmada, me mandando sair imediatamente. “FODA-SE! FODA-SE!”, eu chutava a porta de volta, aos berros. Aí ela ameaçou chamar a segurança. E eu sequer enxuguei o rosto. Saí. Furiosa. Deixando a porta escancarada para trás. E entrei na pista, absolutamente descontrolada.
 
_O que tá acontecendo? – o Fer tentou me segurar, ao trombar comigo no galpão – Você tá chorando??? O QUE ACONTECEU?!?!?!
_CADÊ A GAROTA??
_Que garota? – ele perguntou, confuso, e eu tentei me soltar dele, irritada, ainda chorando; a Mia me olhava assustada ao seu lado, todos os nossos amigos em volta – QUE GAROTA?!? O QUE ACONTECEU??! FALA COMIGO, PORRA!!
_A MERDA DA GAROTA!! A MINA QUE VOCÊS QUERIAM QUE EU PEGASSE, CADÊ A DROGA DA... DA MINA, INFERNO?!
_SEI LÁ ONDE TÁ A MINA, CARALHO! FALA COMIGO!! – ele me segurou forte, tentando me forçar aos trancos para fora do surto – QUE PORRA ACONTECEU AGORA?!?! CÊ FALOU COM A CLARA?? VOCÊ LIGOU PARA ELA?!?! O QUE ACONTECEU?!??
_ME SOLTA!! – eu chorava, gritando embriagada – EU QU... Q-QUERO...
 
Eu queria achar a garota. Qualquer garota. Queria consumir cada poro de uma porra duma estranha. Comer alguém no meio da pista, expor a minha falta absoluta de escrúpulos para o mundo. Na frente dos meus amigos, da Mia. Queria magoar os outros, me destruir, arrebentar a pior parte de mim. Acabar com todos os caminhos até o meu coração. Queria aniquilar tudo, meus sentimentos, o que passasse pela minha frente. A garota, a Mia, aquela festa, tudo. Todas aquelas pessoas, alheias à dor no meu peito. Estourar cada veia no meu corpo até estar completamente vazia. E comecei então a descontar em mim, no meu fígado. Fui gastando até o que não tinha em doses imprudentes, tão logo me soltei dos braços do Fernando. A Thaís tentou me segurar, aí a Lê, o Gui, eu não me importava. Fodia com tudo, me embriagava mais ainda. E de certa forma, funcionava. A bebida me acalmou – mas perdi todos os outros sentidos. Anestesiada e delirante. Duas ou três horas depois e eu dançava em meio à multidão da outra pista, a de trás, absolutamente alucinada. Sem noção das horas ou de onde estava. A minha consciência parecia apagar por intervalos inteiros de tempo. Por mais de meia hora, às vezes, para então ressurgir enquanto eu vomitava em pé ao lado das caixas de som. Aí voltava para a pista. Caía no banheiro. Não lembrava de rostos, nem de conversas. Discuti algo com o Fer, em algum momento. E a Mia apareceu – ou já tava lá? –, pouco depois dele sair de perto, irritado. Eu cambaleava e trombava nas pessoas, ela ficou ao meu lado. E tentou me segurar, colocando o braço ao redor do meu corpo, pedindo para que eu fosse junto com eles. Eu fechava os olhos e me mexia desenfreada, fora de mim, dançando. Quase a derrubava junto. A Mia riu e disse, com carinho, que eu devia ir. “Vem tomar um ar comigo, com todo mundo”, repetiu algumas vezes, “vamos lá pra fora, vem”. Mas eu não ia. Você..., eu a observei, sem conseguir perceber direito os arredores, ...tá...tão bonita. Eu... e-eu gosto tanto..., pensei, ...de você. Não disse nada. Não sei o que aconteceu então. Em algum momento, acho que virei as costas e simplesmente me enfiei na multidão, sumindo da sua vista e me afastando. Era tudo um borrão.
 
Já amanhecia quando me dei por mim, ao lado do Gui, fumando perto da piscina. Como vim parar aqui? O Du estava junto com ele. Comecei a falar e os dois então me convenceram a pagar e ir embora. O Fer, a Mia e o Benatti já estavam do lado de fora. Havia outros amigos meus também, mas a maioria parecia ter ido para casa. Nenhum sinal da Lê ou da Thaís. Quando me viu sair na calçada, descabelada e bêbada, o Fer caminhou até onde estávamos e me falou algo, me deu bronca. Não me lembro bem. Não discuti de volta, só ouvi, meio fora de órbita.
 
Ele e o Du trocaram algumas palavras também – mandado que me levasse direto pro apartamento e cuidasse de mim. Tive a impressão de que era isso. Me deu o seu casaco, antes de voltar para perto dos outros. A Mia estava lá. Em pé ao lado deles, me olhava à distância e sorriu, eu a observei. E aí, e aí eu, e-eu não sei. Tive um sentimento estranho, como se tivesse que ter dito alguma coisa naquela hora – mas não disse nada. Tinha sido uma idiota com ela mais cedo. E aquela estranheza ficou entalada, o sentimento que tive. A metros dela, fiquei na minha, esperando junto ao Du e ao Gui até uma outra garota chegar.
 
O nosso carro voltou duas vezes mais cheio do que na vinda. A Mia e o Fer foram noutro junto com o Benatti, que também estava fazendo aniversário. O amigo do Du tinha um Gol branco, entrei cambaleando. Me sentia tonta. Completamente fora de mim. Me espremeram contra a porta ao final do banco, diretamente atrás do motorista. Me dava certa noção de segurança por estar voltando para casa, mas a luminosidade do sábado de manhã ardia nos meus olhos. Peguei então o celular e digitei torto para a Mia – “me necotra noapto??1”. Aí desmaiei.
 
Acordei lá pela metade do caminho, com um dos amigos do Gui vomitando pela janela. A garota ao meu lado falava sem parar, uma ruiva que parecia hétero, com uma voz estridente. Ou talvez fosse toda a bebida dentro de mim, não sei. O meu estômago estava embrulhado, minha cabeça já começava a doer. Argh.

abril 09, 2013

Esquenta

Minha honrada decisão durou dois dias. Nem isso. E com a chegada da minha festa, que o Fer tinha adiado para o fim de semana seguinte à viagem e agora insistia em manter, todas as minhas promessas de ser uma pessoa melhor e dar espaço à Clara foram rapidamente diluídas em três copos de whisky, seguidos de doses colossais de desespero, com o coração destruído e a dignidade no chão, instantes antes de embarcar para uma balada do outro lado da cidade.
 
O Du terminava de se arrumar no quarto e eu o aguardava pacientemente na cozinha – isto é, virando uma dose atrás de outra e grudada àquele celular como se minha vida dependesse disso. Patética. Começava a me tornar deliberadamente inconveniente. E a Clara se mantinha em silêncio, me ignorando como fizera a semana toda. Os meus SMS iam se tornando cada vez mais apelativos – indo de “sdds :(” a “ME ATENDE, PFVR!! EU SO QRO FALAR COM VC!!! TO SENTINDO TANTO SUA FALTA, CARALHO, EU TAVA ERRADA!! EU SEI QUE TAVA, BI!! PFVR! FALA CMG!!”, em menos de quarenta minutos.
 
É. Minha fossa estava oficialmente fora de controle.
 
_Pronto! – o Du surgiu de repente, num jeans claro e regata preta, encostado na porta que dava para o corredor – Vamos?
_Vamos, só espe... – eu terminava de digitar um último SMS para a Clara – ...ra. Tá! Vamos.
 
“To indo na gambiarra da the week”, dizia a mensagem, “qro mto te ver, pfvr. vms conversar. eu qro ir com vc, bi. COM VC!!”. E a notificação de recebimento chegou antes mesmo de entrarmos no elevador. Saber que ela tinha lido minhas mensagens e ainda não respondia me matava. Um amigo do Du veio nos buscar e estava nos aguardando, estacionado na antiga vaga do Fer na garagem. Ela agora era alugada por um cidadão do terceiro andar, que não ficava em São Paulo nos finais de semana.
 
Saímos em direção à Barra Funda. E tão logo deixamos a garagem do prédio, o meu celular vibrou. Apressei-me para ver o que era, um tanto embriagada e iludida de que talvez pudesse ser a Clara. Mas era a Mia – “Ei. ta animada? ;-) senti sua falta essa semana”. Apaguei a mensagem, num impulso amargo. Não contra a Mia, mas contra mim mesma – a minha má índole. E tão logo me arrependi de tê-lo feito. Argh. A verdade é que eu também sentia falta dela – mas não tinha certeza se queria passar a festa que o meu melhor amigo planejou assim, escondida com a sua namorada em algum canto. E por mais que o meu corpo inteiro ansiasse por curar a fossa em suas mãos, nos seus beijos, eu não conseguia. Simplesmente não conseguia.

abril 04, 2013

Moleques

_Parei já, alguém quer?
 
O Fer ofereceu da poltrona e, quando nenhum de nós se manifestou, se curvou para apagar o baseado sobre a mesa de centro. O Du arrancou os sapatos meio de qualquer jeito, visivelmente bêbado. Notei que os seus olhos se demoraram alguns segundos nas tatuagens no corpo do Fer – sentado a uns metros de nós, sem camiseta. Achei certa graça. Meu melhor amigo tinha a mania de passar a mão na parte de trás da cabeça, alisando os fios cortados na máquina, e agora ganhava um espectador. O Du o observava sem muito filtro, chapado, afundado ao meu lado no sofá. Sem perceber a atenção, o Fer reuniu as latinhas vazias sobre a mesa e levantou para buscar mais uma na cozinha.
 
Na primeira oportunidade que teve, o Du disse:
 
_Pô, gato esse seu amigo aí... – falou em tom baixo, largado contra o braço do sofá – ...num tinha reparado da outra vez que ele veio.
 
Acenei com a cabeça. E ao longe, ouvi o som das latas sendo jogadas no lixo e a geladeira se abrindo em seguida.
 
_Um cara desses... – meu roomie prosseguiu, bêbado – ...sem chance dele dar a bunda, né?
 
E pela primeira vez em dias, eu gargalhei.

abril 02, 2013

A fossa

Peguei mais uma cerveja na geladeira. E disquei o seu número – “por favor”, murmurei, com os olhos já inchados de tanto chorar. Fui até a área de serviço, tentando não fazer barulho conforme me escondia. Ouvi o telefone chamar, sem resposta. Era a minha quarta ligação em menos de duas horas. Atende, atende. A latinha suava entre meus dedos e o calor que assolava São Paulo naquela noite se esparramava janela adentro. Contra meu ouvido, os toques ecoavam ignorados. Vai, porra, atende.
 
Escutei o meu nome na cozinha e a ligação caiu mais uma vez.
 
_Caralho... – chutei um balde entulhado de produtos de limpeza no chão, apoiada nas beiradas do tanque com o celular e a cerveja em cada mão.
 
O Fernando abriu a porta atrás de mim.
 
_Mano, cê tá se escondendo?!  
_Não – retruquei, grossa.
_Para, porra... – relou na minha mão e eu saí da área de serviço, trombando no seu ombro – ...para de ligar pra ela!
 
Continuei em direção ao corredor, sem responder. Larguei a latinha sobre a mesa da sala e enfiei a cara numa almofada, me jogando no sofá. O Fer veio em seguida. Sentou na poltrona, me observando ter um ataque, e riu. Então ordenou que eu entregasse o celular. “Não” – respondi, rancorosa. E me sentei, tornando a discar o número da Clara. Ninguém atendia. O Fer se levantou, dando dois passos até mim, e tirou o aparelho do meu ouvido, “chega”. Desligou o telefone ao sentar-se de volta na poltrona e o meteu no bolso da bermuda, encerrando o assunto.
 
_Me dá, Fer. Eu não vou ligar.
_Vai, sim.
_Me dá a merda do telefone!
_Não, cara... – ele riu, de novo – Quê que cê vai conseguir com isso? Faz dias que você tá perseguindo a mina e ela num dá sinal de vida, meu... a única coisa que vai sair disso é briga.
_Dane-se! Talvez eu queira que ela brigue comigo!
_Mais?!
 
O Fer balançou a cabeça, indignado.
 
Aí puxou a camiseta por cima da nuca, a tirando. E tornou a encostar na poltrona, largando a blusa no chão e acendendo um baseado.
 
_Velho... – soltou a fumaça espessa no ar, me encarando – ...para. Cê não é assim, na boa.
_Foda-se. Eu preciso fazer alguma coisa! Qualquer coisa! Eu prefiro que ela atenda essa porra desse telefone e me xingue, que grite comigo, do que eu não ter nem chance de falar, caralho, de explicar q-que eu... porra, que eu sinto uma falta desgraçada dela!! Fer, eu, e-eu tô enlouquecendo!
_Calma, ela vai voltar... Cê tem que dar um tempo para ela, mano.
_Não. Não a Clara... – neguei e ele roubou um gole da minha cerveja, com calor – ...ela não vai me esperar. Já deve ter uma porra duma fila de mina pra curar ela de mim, cacete. Eu não posso, não posso deixar ela me esquecer. Porque eu sei que ela vai, mano! Ela não vai vir rastejando de volta, não a Clara.
_Meu, cê tá viajando, o que cês tinham não é descartável assim. Ela ama você.
_Não, Fer... Eu fodi tudo, fodi mesmo. Ela tá puta.
_Ela te levou para a Argentina, porra! Cê que não tá vendo o quanto essa mina gosta de você...
 
Balancei a cabeça, não sei se a Argentina melhora ou piora as coisas. Tomei mais um gole da minha cerveja, pensando se devia fumar também. Queria me afogar em más escolhas. Meu coração estava dilacerado. Não conseguia acreditar que tinha fodido tudo com a garota que eu amava. Sentia-me vazia sem ela do meu lado, sem seu cheiro em mim, sem os seus SMS apitando no meu celular o dia todo. Parecia que faltava algo, alguém para dividir a minha vida, a porra de existência naquele buraco de cidade. São Paulo tornava-se ainda mais cinza.
 
Argh.
 
Já era quarta-feira. E eu me deixava amargurar com o passar dos dias, a ausência dela parecia gritar dentro de mim. Eu tinha feito tudo, tudo errado. Chorei por três noites seguidas, consolada pela Marina, que dormiu comigo desde o domingo em que desembarquei no aeroporto até aquela quarta de manhã. A cada pausa que fazia no trabalho, cada segundo que tinha livre, eu mandava mensagem, ligava e checava a tela do meu celular compulsivamente. E nada.
 
Mais cedo naquela noite, o Fer me encontrou na saída da produtora, provavelmente depois de receber uma mensagem preocupada da minha ex. Contei tudo que tinha acontecido. Ou quase. Ele não entendia como eu podia ter mencionado o nome de outra garota em meio à nossa viagem em Buenos Aires. No caso, o da namorada dele – cujas mensagens eu vinha ignorando a semana toda. Eu sabia que o Fer já tinha contado para ela e que a Mia só estava preocupada, tentando me apoiar. Mas não estava com coração cabeça para lidar com o motivo personificado do meu término com a Clara. Não agora. Inferno.
 
_Pelo menos deixa ligada essa merda, meu! – me inquietei no sofá – Vai que ela responde...
_Não vou ligar, cacete. Esquece!
_Fernand... – interrompi meu próprio resmungo, nervosa.
 
Ele me observava, inabalado. E me vi obrigada a ceder – não estava desesperada o bastante para ir, de fato, até lá e tirar o celular à força do bolso dele. De repente, ouvimos a porta da frente abrir. Era o Du. Chegando de algum happy hour, com cheiro de bar. O Fer se virou para ver quem entrava, estendendo-lhe a mão por cima do encosto da poltrona.
 
_E aí, velho? Beleza? – ambos se cumprimentaram e o Du largou uma sacola da Livraria da Vila sobre a mesinha à minha frente.
_Que cês tão fazendo aí?
 
Perguntou ao sentar na ponta oposta do sofá, largado a meu lado. Revirou então os olhos e riu, de bom humor, assim que o Fernando explicou – “curando a fossa dessa aí”.

janeiro 27, 2013

Outras mortes

Acordei na tarde seguinte com o sol atravessando a janela aberta, aterrissando direto na minha cara e já me queimando de tão quente. A primeira coisa que avistei ao abrir os olhos foi o cinzeiro sobre a mesinha de cabeceira – as incontáveis bitucas apagadas pela metade no surto da noite anterior. Não sei quanto tempo se passou naquele quarto vazio depois que desligamos, um cigarro atrás do outro, até que eu conseguisse fechar os meus olhos. Mas foi bastante.
 
Levantei com certa dificuldade, a minha cabeça e o meu corpo doíam ao menor movimento, como dobradiças enferrujadas. Exaustas. Argh. Meti nas pernas a primeira cueca que achei na gaveta e fui até a cozinha. Com umas olheiras tremendas, o cabelo detonado. O Fer estava sentado frente à mesa, sem camisa, como se nunca tivesse deixado aquele apartamento. Me bateu uma puta nostalgia ao vê-lo ali.
 
_Bom dia, ressaca! – ele riu, ao me ver passar pela porta, destruída.
_Argh. Bom dia.
_Ô, não sabia se você ou o maluco aí tinham comprado... – comentou, comendo uma tigela de sucrilhos com leite – ...mas peguei, tem problema?
_Não. De boa. O Du mal come aí, velho, só fuma uns o dia inteiro.
_Nossa, mas... – hesitou – ...isso não faz sentido.
 
Estranhou e eu ri, concordando.
 
_É. Não mesmo.
 
Me juntei a ele, puxando uma cadeira. E comemos o café-da-manhã, conversando à toa, como se ele ainda morasse ali. O Fer fazia sentido naquela cozinha. Senti saudades de passar tempo com ele assim. Por mais contraditório que fosse, a sua presença fazia com que eu não pensasse na Mia. E pelo resto da tarde, nos sentamos no sofá e assistimos qualquer merda na TV juntos, bolando um baseado e fumando até escurecer do lado de fora – evitando ao máximo voltar para a casa dos pais naquele fim de domingo.
 
Quando, enfim, ele foi, eu restei. Sentada na sala, cercada de latas vazias de cerveja, vendo a reprise de algum reality show muito ruim na MTV. O Du chegou cerca de meia hora, quarenta minutos depois. Tinha dois pedaços da pizza que pedi com o Fer mais cedo e um resto de baseado sobre a mesa de centro. Ele sentou ao meu lado no sofá, passando o olhar pelas evidências de que mais alguém estivera ali.
 
_A Clara veio aí?
_Não. Tava com o Fer... – disse, afundada contra o encosto – Cê já comeu? Se quiser, pode pegar aí.
 
O Du se esticou sobre a mesa, alcançando um dos pedaços com a mão.
 
_E você, tava onde?
_Dormi na casa dum boy aí.
_Hum...
_Escuta, q-qual... – se virou pra mim enquanto mastigava, curioso – ...qual o seu lance com a Clara e a Mia?
_Ah, mano... – resmunguei, indisposta – ...hoje não é um bom dia pro cê me fazer essa pergunta.
_Desculpa – o Du riu – É que sempre vejo elas aí e fico na dúvida, elas sabem uma da outra?
_Cê tá querendo me foder a vida, né? – o empurrei pro lado, rabugenta, e ele achou graça – A essa hora dum domingo, porra, vindo com essas perguntas cretinas...
_Então “não”?
_A Mia sabe.
_Hum. Cê namora a Clara, é isso?
_É. E a... – hesitei – ...a Mia namora o, o Fer. 
 
O Du balançou a cabeça – “puta merda”, se divertiu com a minha falta de vergonha na cara. E aí afundou no sofá, que parecia nos engolir, num cansaço misturado com marofa e a noite abafada, assistindo reality na TV. Ele estava com uma bermuda jeans, mais curta do que outros caras normalmente usariam, e tinha uma chave-de-fenda acima do joelho – suas tatuagens aleatórias me faziam sorrir.
 
_Cê acredita que alguém pode realmente... – perguntei, olhando meio distraída para a TV, sem saber ao certo se falava de mim ou da Mia – ...amar duas pessoas ao mesmo tempo?
_Não sei. Depende do que você considera “amar”...
_Acho que é se sentir esmagado o tempo todo, seu coração... – respondi e agora, sim, falava de mim – ...seu corpo. De cima para baixo, sabe, como se o céu te empurrasse pra dentro de você.
_Olha, não acho que dá para amar duas pessoas assim, com essa intensidade – disse e me observou, ao seu lado – Por quê? Cê tá nessas?
_Eu não sei, e-eu... – passei a mão no rosto, respirando fundo – ...só sei q-que tô prometendo uma coisa pra uma, pedindo o contrário pra outra, tá me fodendo a cabeça e eu, não sei, e-eu não aguento mais.

janeiro 03, 2013

Luto breve

_E aí, meu? – o Fer riu, assim que me viu chegar – Resolvi dar uma passada pra ver a cara do panaca que tá morando com você...
_Cala a boca.
 
Puxei-o pela mão e nos abraçamos forte, sorrindo. Fazia umas semanas que a gente não se via – a última vez foi numa sexta, quando o sequestrei em Santo Amaro para fumar um na rua de trás. Fiquei feliz de trombar com ele ali. Filho da mãe, que saudade. Sugeri que a gente subisse, falando para ele se comportar perto o Du. O Fer riu e acenou com a cabeça, me oferecendo um trago antes de jogar a bituca fora. Aceitei e ele pegou a mochila que estava no chão, encostada contra a grade do prédio. Dei um trago e apaguei o resto do cigarro num poste, soltando a fumaça para o lado. Aí subimos.
 
Abri a porta do nosso apartamento, indo adiante do Fer, e ele largou a mochila de qualquer jeito na sala, perto da entrada. Aquela ainda era a sua casa. Seguimos até a cozinha e logo esbarramos no meu novo roomie. Sentado sobre a mesa, o Du dividia uma cerveja com outro cara, ambos sem camisa, naquele calor desgraçado. Apresentei o Fer e ele cumprimentou o Du com um breve aperto de mão.
 
_Esse é o meu amigo que morava aqui e esse é o Du – os introduzi, aí olhei para o date dele – E você, sei lá, não sei quem você é...
 
O cara riu e me falou seu nome, que eu esqueci nos três segundos seguintes. Peguei uma garrafa de água na geladeira, ainda cansada da caminhada, e tratei de tirar logo o Fernando dali – antes que fizesse algum comentário engraçadinho pro Du. Nos largamos sentados no sofá da sala. E o Fer deu uma olhada ao redor, estranhando o vazio deixado pelos seus vinis e a sua vitrola, que antes ocupavam uma parede inteira.
 
_Mas e aí, que cê tá fazendo por esses lados? – perguntei, enquanto descalçava os tênis.
_Vim numa entrevista aí na Haddock.
_Nossa, mas num sábado?
_Ah, o velho que arranjou... É um conhecido dele. Fui encontrar ele numa padaria, cedo pra caralho. O cara me aparece com roupa de correr no Ibira, com um daqueles relógio que mede batimento cardíaco no pulso, saca...
_Credo.
_É. Esse tipo de mano – riu, afundado contra o encosto – Deve ser puta trampo de engravatado. Mas paga, né. Sei lá, vamos ver... Falei com a Má também, ela disse que vai passar meu currículo pro chefe na segunda.
_Vai dar certo, Fer. Algum desses vai rolar!
_Tomara. Num vejo a hora de sair daquela casa, mano. Tá foda de aguentar – esfregou a mão na cara – E você, tava onde agora de manhã?
_Dormi lá na Clá, a gente foi numa festa em Pinheiros ontem...
_Boa?
 
Ô, arqueei as sobrancelhas, irônica.
 
_Quê?! Tava zoado?
_Não, a festa foi boa. Eu é que... q-que fiz merda.
_Ê, pilantra! – deu um tapa atrás da minha cabeça – Fala aí, que cê fez?
_Ah. Nem foi uma merda tão grande, é só que... – murmurei, sem muito orgulho do meu comportamento na noite anterior – ...eu meio que... dei em cima de, de outra mina lá. Quer dizer, deixei ela dar em cima de mim. E a Clara não gostou muito.
_“Não gostou muito”? – se divertiu com o eufemismo.
_Ah, velho... nem me dei conta do que tava fazendo! A gente tinha bebido pra caralho e ela quis brigar na saída, meu, aí acabei discutindo de volta e foi uma bosta. Ela foi embora, eu fui atrás... não queria me deixar subir no prédio. Na boa, puta rolo!
_Mas cê também, hein?!
_Eu?! Foi culpa sua! – resmunguei – Fica aí me mandando mensagem falando que tá com saudade, porra! Nem ia falar com a mina lá ontem, ela que puxou assunto quando viu seu nome no meu celular...
_Ah, é. Foi “culpa minha”, sim – ele riu ainda mais, passando a mão na nuca – Nossa, mas ontem foi foda. Também tive mó noite de merda. Cheguei em casa louco pra falar com você, mano. É estranho demais morar com os velhos, na puta que pariu, meu, não tem com quem trocar ideia...
_Mas, espera... Noite de merda, por quê?
_Ah, sei lá. A Mia começou com aquelas paradas de novo. Já faz um tempo já. Tá chata, acha tudo o que eu faço ruim, não sei explicar – talvez eu saiba – Ficou implicando com cada coisa que saía da minha boca ontem, mano, me enchendo o saco. Aí não queria ir dormir lá em casa... sei lá, meu. Não ando com paciência pra essas merdas dela...
 
Fiquei quieta. Sabia a minha participação naquilo – mas desviei o olhar do Fer e não disse nada, alcançando o meu maço na mesa. O pior é que todo desinteresse da Mia por ele, numa filha-da-putice sem tamanho, balançava as promessas que fiz para a Clara na madrugada anterior. Qual é o meu problema?, me frustrei com meus próprios sentimentos confusos.
 
_Mas, e aí... – ele se reajeitou no sofá, ao meu lado, mudando de assunto – E o aniversário, já sabe o que vai fazer?
_Não... – abaixei a cabeça, colocando um cigarro na boca.
_Ah, pode parar! Se cê não fizer nada esse ano, eu vou organizar e cê não vai poder dar um piu! Te obrigo a aparecer, mano. Cê nunca quer fazer nada, porra...
_Por um motivo...
_Ou motivo nenhum.
_Fernando, todo ano essa discussão? Eu não gosto de aniversário, só me fodo – insisti – Nem vem com ideia.
_Qual é! Cê vai fazer vinte e cinco, cacete!
_E daí?!
_Cara, você não tem escolha... – ele riu.
 
Ah, pronto.

dezembro 06, 2012

Bons começos

Morar com o Du foi estranho nos primeiros dias. Aquilo era diferente de todas as vezes em que eu e o Fer cedemos o nosso sofá a algum amigo temporariamente sem teto – brigado com a namorada ou desistente de qualquer perspectiva de vida, o que fosse. Aquilo parecia mais permanente. E o meu cérebro precisava dum tempo para o associar à luz acesa quando entrava no apartamento. Na primeira noite em que voltei do trabalho, tomei um susto quando trombei com ele no meio da sala.
 
Já o Du, por sua vez, precisou de alguns dias para se acostumar com a minha aversão a calças, ou roupas em geral. Éramos dois estranhos num ninho, dividindo panelas e cômodos. Não demorou muito para que o Du conhecesse a outra garota que frequentava o meu quarto. A Clara veio no domingo e ele a cumprimentou com um sorriso no rosto, na sala, me olhando fixo em seguida. Eu sei o que cê tá pensando, o encarei de volta, mas juro que não é assim. E implorei com os olhos para que ele não comentasse nada. O Du apenas riu. No dia seguinte, quando nos encontramos sozinhos na cozinha, ele não me perguntou nada.
 
E tá – era para ter parado por aí.
 
Mas aí a Mia reapareceu na terça. Numa passada rápida por lá, antes de encontrar o Fer em Santo Amaro, sob o pretexto de me deixar a camiseta que emprestou no sábado. E a gente acabou se comendo contra a parede do quarto, de leve. A Clara veio na quinta e então ficou até sábado. Pouco antes dela ir para trabalhar, o Du saiu do quarto acompanhado dum cara que deve ter arranjado na Gambiarra. Nos trombamos no corredor. Ele olhou para mim e eu não sabia onde enfiar a minha cara de pau.
 
E sabe, eu bem queria poder culpar outra pessoa pelo que eu estava fazendo. Pelos meus erros, a minha calhordice. Mas a verdade é que não tinha nenhuma justificativa. Nenhuma porra de alívio moral. Nada. Era egoísta – e eu sabia. Sabia toda vez que procurava a Mia e sabia, semana atrás de semana, a cada vez que não contava para a Clara. Ou para o Fer. Era egoísta, sim, mas o egoísmo agora era outro. Não como outras vezes em que traí outras namoradas, anos antes, numa arrogância adolescente e entediada. Desta vez, não. Desta vez, o que eu queria era tempo.
 
Esse era o meu egoísmo.
 
E sequer era para ter durado tanto, eu é que perdi o controle. Passou um mês. Depois outro. E eu continuei, me metendo cada vez mais naquele buraco, com a lama até o pescoço e sem conseguir parar de cavar. Até chegar ao ponto em que falava com a Mia todo maldito dia, me deixando apaixonar de novo, mas sem conseguir imaginar a minha vida sem a Clara. Cacete. O meu coração estava uma bagunça. E eu enrolava, covardemente, sabendo que uma hora o buraco ia começar a desbarrancar.

dezembro 04, 2012

Leves

Ainda rindo, a Mia balançou a cabeça e disse que precisava ir ao banheiro, fugindo da perguntando. “Isso é um não?” – o Du achou graça, nos observando juntas no corredor.
 
_Isso é um “bem que ela gostaria” – a Mia zombou.
_Vai se foder!
 
Eu ri. Tá engraçadinha, é? E ela entrou no banheiro. Me virei para terminar de empurrar o maldito colchão com o Du. Não dormi o suficiente pra estar carregando isso, resmunguei mentalmente. Meu novo colega de apartamento se pôs, então, a organizar as suas coisas no antigo quarto do Fer e eu voltei sozinha para o corredor. Podia ouvir a água correndo na pia do banheiro. Caminhei até a porta entreaberta e espiei a Mia ali dentro, enquanto ela molhava o rosto – as pernas de fora numa camiseta minha que sempre disse que ia roubar, com a capa do “Power Never Die” do The Comes e uns furos de traça de tão velha.  
 
_Que foi? – a Mia perguntou, ao me notar pelo reflexo do espelho.
_Nada, só que... – sorri – ...cê fica bem assim.

dezembro 02, 2012

Uns não-relacionamentos

O som do meu celular me perturbou os ouvidos. Abri os olhos, sentindo minha cabeça pulsar pelas horas não dormidas. Uma das pernas da Mia estava entrelaçada na minha e os lençóis emaranhados entre nós, desconfortáveis, retorcidos contra a minha pele. O telefone ainda gritava e a Mia se moveu ao meu lado, inconsciente, afundando-se em meio aos seus próprios cabelos bagunçados no travesseiro que dividíamos. Demorei alguns segundos para me situar, o barulho também me incomodava.
 
Quem diabos tá lig...?
 
Sonolenta, olhei para o relógio e o visor marcava 8:03. Foi aí que caiu a ficha. Puta merda! O Du, caralho, saltei e tropecei para fora do colchão, desnorteada. Aparentemente a gente tinha dormido invertidas na cama, com o travesseiro jogado onde deveriam ficar os pés e os lençóis soltos. Meu cérebro não estava entendendo nada. Droga. O telefone seguia se esgoelando. Droga, droga. Alcancei-o na mesa de cabeceira:
 
_Alô, alô! – atendi, atrapalhada – Pronto. Oi. Desculpa!
_Bom dia... – o Du riu – Escuta, tô aqui embaixo. Tava tentando o interfone, mas ninguém aten...
_E-eu, eu sei, desculpa. É que fui dormir tarde ontem e, e capotei, não escutei, meu. Foi mal! Pode subir, eu... – esfreguei a mão no rosto, ainda desorientada, atropelando as minhas palavras – ...e-eu vou ligar na portaria pra te liberar, peraí!
 
Desliguei num suspiro, ainda azucrinada. Já estava quase largando o moleque com toda a mudança no meio da calçada da Frei Caneca. Grande primeira impressão, hein. Tirei o cabelo bagunçado da cara, tentando me concentrar. Tá, o que era mesmo que eu precisava fazer? Respirei fundo, confusa. Interfonar para a portaria, me lembrei, é isso. Ainda sem uma roupa no corpo, fui até a cozinha e liberei a entrada do “Eduardo”. Sabe-se-lá quanto tempo o coitado já estava esperando lá embaixo. Então abri a geladeira e dei um gole ou dois na garrafa de água, sentindo a minha boca seca. O dia estava ensolarado. Voltei para o quarto e vesti a primeira boxer que peguei na gaveta. A Mia seguia desmaiada na cama e eu senti uma vontade desgraçada de me afundar com ela ali e não fazer mais nada naquela manhã. Argh, não. Preciso botar uma roupa.
 
Coloquei uma camiseta larga, me resignando a admirar a Mia à distância. Aí a campainha tocou. O Du. Saí do quarto e atravessei a sala para abrir a porta. O coitado estava soterrado em malas e sacos amarrados uns nos outros. O cumprimentei, achando graça na desorganização, e ajudei a carregar tudo até o quarto do Fer. Meti as mesmas calças do dia anterior, largadas em frente ao sofá, e calcei um chinelo perto da porta para ajudar a pegar o que faltava no carro do amigo dele. Descemos com o elevador. E o tal amigo me estranhou – descabelada e sem sutiã naquela camiseta branca, em plena luz do dia. São peitos, cara, supera. Tiramos tudo que deu do carro. E antes que o amigo fosse embora, o Du se curvou sobre a janela aberta e o agradeceu com um beijo.
 
_E aí... – perguntei, me espremendo com ele e todas as tralhas no elevador – ...é seu namorado?
_Quem? O Caio?! – estranhou – Não.
_Não?!
_Bom... – o Du riu – ...não exatamente.
 
E aí eu entendi.
 
_Hum... – a porta do elevador abriu e empurramos o colchão e todo resto para o corredor – Então ele é o cara com carro?
_É. Mais ou menos isso...
 
Ele riu de novo e aquilo me fez gostar do Du – pelo que provavelmente eram os motivos errados. Carregamos o colchão até o apartamento, tentando não fazer barulho enquanto passávamos pelo corredor. Mas aquele diacho insistia em escorregar das minhas mãos e eu dava com o colchão entre os pés, tropeçando a cada dez centímetros. Ô inferno. Meus braços ainda sentindo o baque da noite anterior. Avançamos entre um xingo e outro meu. E quando já estávamos quase dentro do quarto do Fer, a Mia abriu a porta do meu. Nos observando ali no corredor.
 
_Te acordei?
 
Perguntei e ela negou com a cabeça, veio caminhando até mim e me deu um beijo rápido. Tinha os cabelos desarrumados e os pés descalços, com uma camiseta minha. O Du a cumprimentou à distância, nos assistindo do outro lado do colchão.
 
_É sua namorada?
 
Eu ri e eu encarei a Mia, arqueando as sobrancelhas.
 
_E aí, o que eu digo?

novembro 13, 2012

Sumiço

“E ai, sapatao?? ta viva??”, o Gui me mandou na sexta, depois de eu não desgrudar da Clara por dias, apaixonadas e obsessivas, engolidas em nosso mundinho, como se precisássemos compensar todo tempo longe. Tinha acabado de responder um SMS do Du, confirmando a sua mudança no dia seguinte, quando recebi a mensagem do meu amigo lá pelas seis e pouco. Estava a caminho do metrô na saída do trabalho e digitei, achando graça – “bora fazer qqr coisa hj? avisa qdo tiver livre”.
 
Não me respondeu de imediato. Mas, duas estações e algumas quadras depois, cheguei em casa já sem intenção de ficar muito. Tomei um banho rápido e coloquei um pedaço de lasanha no forno para tapar o estômago. Depois voltei para o quarto para me trocar. Seja qual for a ocasião, melhor ficar pronta. Já estava terminando de fechar o cinto, por cima dum jeans e uma camiseta branca, quando a campainha tocou.
 
Mas que...?
 

setembro 08, 2012

Ganja

O restante do dia correu abarrotado de tarefas para fechar o ano. Entre uma crise e outra, troquei mensagens com o Gui para me assegurar da sanidade do Du e, horas depois, quando encontrei com a Clara na saída de casa, já havia me decidido por ele. “Tem certeza?! Não é melhor procurar mais um pouco, Bo?”, ela me perguntou, fumando ao meu lado na rua. Mas eu não queria ter que ficar procurando gente para entrar no lugar do Fer – não tinha paciência ou emocional para isso – e achei que o melhor era aceitar o que o destino me arranjou.
 
Liguei para o Du quando cheguei no apê e combinamos que ele traria suas coisas depois do Ano Novo, assim que voltasse do interior. Desliguei com a sensação de tirar um peso das costas. “Resolvido. Num só impulso, joguei o celular sobre o travesseiro e a Clara deslizou pelas minhas pernas, subindo pelos meus joelhos até as coxas. Acomodou-se entre elas. E os seus dedos foram me fazendo cócegas, me arrepiando, escorregando lentamente por debaixo da minha blusa. Meio assim, à toa. Passamos as horas seguintes daquele jeito. Nuns carinhos distraídos, numa sacanagem boba. Na pele uma da outra. Com aquela calma de quem tem todo tempo do mundo pela frente. Como eu gostava de passar o tempo do lado daquela mulher – puta que pariu.
 
Lá pelas dez, ouvimos alguém chegar. Estávamos as duas afundadas na minha cama, fumando haxixe e ouvindo o Maxinquaye no último. Bem legalizadas, é. Passei o baseado para a Clara assim que escutei a porta da frente – “é o Fer”, murmurei, me levantando do colchão, “preciso falar com ele”. O meu corpo parecia pesar três vezes mais. Eita. A Clara resmungou, de sutiã e sem calcinha, com a ponta na mão. “Não vai...”, miou e eu sorri para ela, vestindo a mesma camiseta desbotada de horas antes só para sair do quarto. Abaixei e lhe dei um beijo rápido, “já volto”.
 
Fui até a sala e o Fer estava em pé na frente do sofá, abrindo uma correspondência qualquer.
 
_E aí, meu... – apoiei o joelho numa das almofadas, meio chapada – ...deixa eu falar, fechei hoje com um moleque aí, amigo do Gui, pra vir morar aqui. Gente boa. Combinamos dele mudar quando virar o ano, pode ser?
 
O Fer me olhou de volta, pego de surpresa pelo assunto – ou a rapidez com que as coisas se acertaram, não sei bem. Me senti subitamente mal pela forma como lhe dei a notícia. Delicada que nem um rinoceronte. Droga. Não esboçou reação alguma, mas podia ver que tinha se incomodado. Sabia quando o Fernando não estava bem e os seus olhos transpareciam certa frustração.
 
_Sei – ele cruzou os braços, abaixando a cabeça – Deu certo, então...
 
Droga. Argh. Eu tenho merda na cabeça ou o quê?, me condenei. Tentei forçar os meus dois únicos neurônios sóbrios a formular qualquer resposta, buscando desesperadamente alguma maneira de consertar o clima que causei, mas o que diabos eu posso dizer agora? Já tinha combinado, o cara vinha mesmo. Em pouco mais de duas semanas. Duas semanas, caralho. Caralho. O pânico começou a tomar conta de mim, enquanto eu olhava para o Fer ali – foi cedo demais? Me precipitei? Tentava articular qualquer frase para falar, mas não conseguia, chapada, não saía nada da minha boca. Nada. O meu pensamento tão lento que quase parava, afogado pela fumaça nos meus pulmões. Cacete. Só fala qualquer coisa.
 
_Deu, e-ele fa...
_Ok – o meu melhor amigo me interrompeu, grosseiramente.
_Fer, por favor, e-eu... – me angustiei, sem saber direito o que falar.
_Não, não. Tudo bem! De boa.
_Mas eu não... m-merda, eu, e-eu não...
_Cara, foi isso que a gente combinou, não foi?! Então tá certo, porra.
_Mas v-você não... e-eu... Fer, é q-que... argh! – me enrolei, lesada, e me irritei comigo mesma – É q-que, sei lá... e-ele já tava, t-tava afim de vir logo e vai virar o mês também e aí eu pensei q-que...
_Relaxa. De boa, mano. É isso, vai fazer o quê... – resmungou, deixando escapar certa agressividade – Pode deixar que tiro minhas tralhas e libero o quarto pro moleque entrar.
 
Largou a carta que estava olhando em cima do sofá, amassada, e aí saiu em direção à cozinha. Bosta.

setembro 04, 2012

Prazer, Du

Estava entre a diretora de arte da produtora e uma das atrizes no set, quando senti o celular vibrar no meu bolso. Tirei-o discretamente da calça e espiei – “e oq era? :3”, a Mia respondeu. “Dps t conto”, digitei brevemente e tornei a focar os meus olhos na prancheta cheia de rabiscos, sem dar bandeira. A gravação daquela manhã parecia durar para sempre.
 
Céus. Não é possível que achem isso ‘cool’, julguei silenciosamente, observando com certo desgosto as escolhas trágicas da equipe de figurino. Umas roupas pretensiosas que contrastavam escandalosamente com a calçada suja e aquele charme urbano de São Paulo. Mas, né, quem era eu pra falar, metida numa bermuda e com a mesma camiseta desbotada de quatro dias antes.
 
Esperei as coisas acalmarem um pouco e dei uma escapada para fumar. Fiquei fofocando com uma das assistentes, entre uma tragada e outra, do lado de fora. Ela ria dos meus comentários sobre o figurino. A gravação, claro, estava atrasada. Quando olhei no meu relógio, faltavam menos de vinte minutos para as 14h – merda, merda. Joguei a bituca no chão, com pressa, apagando a brasa com a ponta do meu All Star encardido. Corri até a tenda onde estava o restante da equipe e avisei que ia tirar o meu horário de almoço, largando a prancheta com um estagiário.
 
Subi então para o metrô, descendo na Consolação e cruzando a pé para a Frei Caneca, de olho no horário. 14:07. A menos de um quarteirão do nosso prédio, vi um cara de cabelo loiro escuro parado em frente ao portão. Vestia uma calça saruel preta e tinha uns óculos escuros Clubmaster. A regata branca com o corte fundo na lateral o denunciava como amigo do Guilherme. 100% viado.
 
_E aí, beleza? – me aproximei, o cumprimentando – Você que é o Du?
 
Ele sorriu e se apresentou, pegando a mochila que estava no chão; tinha umas tatuagens esquisitas no braço – dessas propositalmente toscas e aleatórias, não sei bem explicar. Fomos juntos até o elevador do prédio. E apertei para o nosso andar, enrolando as mangas da camiseta sobre o ombro, cansada da descida em ritmo apressado até a Frei. Me sentia confortável ao lado dele, bom sinal. Agora que o via mais de perto, todavia, não me parecia ser mesmo gay. Ou será que é?, me ocupei com o meu radar por um instante, distraída.
 
Andamos até a porta do apartamento e eu entrei, largando minhas chaves na mesa e chamando o Fer para checar se estava em casa, mas ele não respondeu – o apê estava vazio. Fui na frente, mostrando o espaço e puxando assunto, sondando mais sobre o Du. Ele era ator de teatro, assim como o Gui, só que de uma outra companhia que eu nunca tinha ouvido falar. Trabalhava dando aula e fazia mestrado, tinha 26 anos. A princípio parecia meio quietão, na sua, não abriu muito a boca, mas algo me dizia que era debochado.
 
_E cê tá querendo sair lá de onde cê mora?
_É. Moro com uma família no Santa Cecília, tenho um quarto alugado – o Du olhava os cômodos conforme a gente ia andando – Mas é ruim lá, meu, não tenho privacidade e ficam cagando regra. Não funciona.
_Não te deixam levar gente ou o quê?
_Ah, entre outras coisas... – riu, erguendo os óculos sobre a cabeça – ...mas, assim, já fodi meio Vale escondido enquanto eles ouviam louvor no andar de baixo.
 
E aí estava, o deboche.
 
Achei graça. Vamos nos dar bem. Chegamos, enfim, ao quarto que ele ocuparia caso resolvesse se mudar pra lá e eu afastei a bagunça do Fernando com os pés para que pudéssemos entrar direito. Expliquei que aquele era ligeiramente maior que o meu, então o aluguel não seria dividido exatamente na metade. E que a maioria dos móveis iam sair – tudo o que o Fer não fosse levar, ele ia tentar vender, então não ia sobrar muita coisa. Nem a cama.
 
_Hum. E o seu amigo tem planos de voltar quando?
_Então, daqui uns meses, acho. Assim que ele arranjar um trampo e juntar uma grana, se estabilizar, aí ele vem de novo. Mas dá pra ir conversando... – cocei a nuca, já voltando pra sala – Quanto tempo cê acha que ia precisar aí?!
_Ah, meu... uns sete, oito meses. Tô tentando uma bolsa na gringa, a ideia é fazer uma parte do meu mestrado fora, mas isso deve rolar só lá pra julho, agosto... O que der pra eu ficar aí antes já ia ser perfeito. O apê de vocês é do caralho, meu...
 
Sorri e encostei contra o apoio do sofá, ainda em pé. Ele parecia mesmo o tipo de cara que frequentava a Society – que ficava a 500 metros do nosso prédio –, senti que se mudaria imediatamente para o quarto do Fer se pudesse. Estava visivelmente animado. Cruzei os braços, o observando. Talvez eu devesse falar mais alguma coisa, não sei, mas a verdade é que eu não sabia muito bem como diabos entrevistar alguém para dividir um apartamento. Literalmente só tinha morado com o Fer desde que saí da casa dos meus pais.
 
_E... c-cê tem alguma pergunta? – questionei, sem muitas ideias de como prosseguir.
_Não. Ou melhor... – o Du riu – ...só por precaução, quais as regras?
_Olha, não muitas – ri também – A gente divide as contas e dá uma faxinada a cada semana, quinze dias, sei lá. Eu passo a maior parte do tempo fora, então nem vou ficar muito aí. Quando venho geralmente tô trancada no quarto... E de resto é bem de boa. Traz quem cê quiser, faz o que quiser, tô pouco me fodendo. Só não largar prato sujo por três dias na pia que tá tranquilo.
_Pode crer. E assim, é “legalizado”?
 
O encarei como quem diz “meu bem, olha pra minha cara de maconheira, né”. Gostei de você.

setembro 01, 2012

AM

_Bi... – ri, enchendo o seu rosto de beijo – ...acorda!
 
Já tinha me levantado há quase 40 minutos, tomado banho, escovado os dentes, feito café e a Clara continuava desmaiada entre os lençóis. Balancei os cabelos molhados, os bagunçando com a mão, para que respingassem na sua cara. Nada. Uma careta aqui, outra ali, e ela se afundou ainda mais no travesseiro. “A gente vai se atrasar”, subi então em cima dela, cochichando. Mas nada feito.
 
Na noite anterior, fumamos um baseado e acabamos nos enroscando no sofá, assistindo um filme qualquer na TV enquanto a Luna passava inconvenientemente em frente à tela. Afundei-me nos seus braços e nos ajeitamos deitadas, levemente tortas, naquele pequeno espaço. Até que começamos a nos cutucar por baixo das nossas camisetas, como duas bobas, e a brincadeira virou uns amassos meio adolescentes – que logo se transformavam num passatempo um pouco mais adulto. Dessa vez, com sucesso. E o que começou no sofá da sala, uma hora passou para o quarto. Lá pelas tantas da madrugada.
 
Agora eu lutava para tirar a Clara da cama. Foi um parto. E quando finalmente consegui, não deu tempo nem de comer qualquer coisa – saímos correndo, atrasadas e rindo, derrubando o café pelo corredor do prédio e tropeçando nos nossos próprios passos para descer as escadas. Corri até a estação Sumaré e peguei o metrô lotado para a Brigadeiro. Assim que desci na Paulista, chequei um relógio eletrônico de rua e o visor já marcava 09:11.
 
Acendi um cigarro, apressada, e peguei o meu celular para enviar uma mensagem ao tal do Du, conforme descia a rua. “Oi, o gui me passou seu numero. Ce quer ir hj ver o apto? Pode ser umas 18?”, digitei. E ainda estava descendo a calçada da Brigadeiro quando ele me respondeu – “preciso ta na rodoviária as 5, passo o Natal com minha família no interior :/”. Aquele era o último dia antes do recesso e eu tinha que acompanhar uma gravação até às 13 na Liberdade. “Pode ser dps do almoço? 14?”, perguntei a contragosto, já calculando o corre que ia ser sair do set para ir até em casa. “Sim, com ctz!”, piscou na minha tela segundos depois.
 
.
 
Passei o endereço e ia guardar o telefone de volta no bolso, mas, por algum motivo, mudei de ideia. E foi assim, numa idiotice impulsiva, a poucos passos da entrada da produtora, que abri mais uma vez a caixa de mensagem. Vejam bem, não foi planejado, foi... n-não sei o que foi. Foi um “pensei em vc do nd ontem meu... na pior hr... rs”, escrito sem pensar, conforme dava um último trago no cigarro. Apertei enviar antes que pudesse me dar conta do que estava fazendo. E na mesma hora, senti um leve revirar no estômago. Não queria passar a impressão errada para a Mia, nem desencadear nada. Não sei que porra queria. Numa vontade boba de lhe mandar algo, de falar com ela. Pra quê?, me incomodei comigo mesma.

agosto 08, 2012

2 pais e 1 amigo gay

No dia seguinte, o meu pai me ligou. No exato momento em que eu me desdobrava, descoordenadamente, entre enviar um SMS para a Clara e a desajeitada tarefa de segurar a mochila para frente ao sair pela catraca do metrô. Coloquei o celular entre o ombro e o ouvido, apoiando-o enquanto usava as mãos para desvirar a mochila e vestir as alças novamente nas costas.
 
_Como tá indo a mudanç... – ele interrompeu a fala, me ouvindo em meio ao caos – ...onde você tá?
_Saindo do metrô. Só um segundo.
 
Subi as escadas num impulso e acendi um cigarro já do lado de fora, na frente da estação Sumaré. Com o filtro na boca, tornei a colocar o telefone no ouvido e o incentivei a continuar – “fala”. A saída do metrô estava movimentada e a noite agradável.
 
_Olha, a sua mãe tá preocupada com quem você vai enfiar nesse apartamento para morar com você. Ela disse qu...
_Claro que ela tá, meu. Ela odeia a Augusta!
_É, mas talvez seja uma oportunidade para você repensar isso, minha filha. Achar alguma coisa mais bem localizada, fora da muvuca, alugar uma kitnet.
_Não quero, já falei para vocês. Eu gosto de morar lá – argumentei, conforme olhava para o lado antes de atravessar a rua – E outra, o Fernando vai voltar. É só por uns meses até ele conseguir um emprego. Depois do Ano Novo, capaz de aparecer mais coisa...
_Ainda assim, não sei se é boa ideia você deixar qualquer um ir morar assim com você. Depois a pessoa é estranha, mexe nas suas coisas, pode levar gente perigosa pro apartamento. Você sabe como essas coisas são... – ele resmungou, contrariado, e eu ouvi a minha mãe gritar algo ao fundo – ...a sua mãe quer falar, peraí.
 
Lá vem, suspirei e revirei os olhos, já me aproximando do prédio da Clara. Um baixinho de poucos andares e com varandas minúsculas, a dois quarteirões dali. Quanto antes chegasse, antes me livraria dos palpites da minha mãe.
 
_Você ligou para a sua prima, como eu te pedi?
_Não.
_E por que não?!
_Mãe, pela milésima vez, eu não vou morar com a Nádia. Ela fica na porra do Morumbi! Que merda eu vou fazer lá, me diz?! – me estressei com a insistência; fazia dias que ela me enchia com aquilo – Fora que, né, a gente não tem nada a ver uma com a outra.
_Como não? Vocês duas eram tão grudadas...
_Quando eu tinha 8 anos, né... – revirei os olhos, tentando entender o que a minha mãe enxergava em comum entre a filha caminhão e a sobrinha hétera-top que fazia aula de Zumba – Não, não dá, mãe. Imagina eu aparecendo lá no flat da menina com meus amigos viados, levando a Clara para dormir lá, que maravilha ia ser.
_Você também não precisa agir desse jeito.
_Hum, fala... – me incomodei com o comentário – ...de que jeito?!
_Não foi o que eu quis dizer e você sabe.
_Tá, tá. Olha, mãe, preciso desligar... – a cortei – ...tô chegando no prédio da Clá já, depois a gente se fala!
 
Desliguei às pressas, antes mesmo de terminar o primeiro quarteirão. Aí desci os metros que faltavam e toquei a campainha ao chegar, terminando o cigarro o mais rápido que deu e subindo depois pelas escadas. Tão logo a Clara abriu a porta, arranquei a camiseta que eu estava usando e a larguei no chão. Ela sorriu, me beijando, enquanto desabotoava a minha calça e descia o meu zíper – o seu SMS, uns quarenta minutos antes, tinha sido bastante específico quanto ao que ela queria fazer naquela noite. É. E ia acontecer ali mesmo, no meio da sala.
 
Sorri, imprestável, com uma saudade desgraçada dela. E em menos de dois minutos, o meu rosto já estava metido entre as suas pernas, deitadas no chão – a sua calcinha amassada na minha mão direita e seu vestido erguido até a cintura pela esquerda. Mas aí o meu telefone começou a tocar de novo. Inferno. Depois parou. E então começou mais uma vez. “Você quer atender?”. “Não”, murmurei, tirando a boca dela por um segundo, “são meus pais, deixa quieto”. Voltei ao que estava fazendo. E senti o seu corpo inclinar, logo em seguida, droga.
 
_Hum. Aqui tá dizendo ‘Gui’... – a Clara riu, com o celular já em mãos.
 
Por que não deixou no chão, porra?
 
Me sentei no vão entre as suas pernas, inconformada, a olhando de volta. E ela me esticou o telefone, o qual atendi emburrada. “Temos tempo”, a Clara gesticulou com a boca em silêncio, e eu a beijei com vontade – conforme o Gui tagarelava, afetado, do outro lado.
 
_Amiga! Revolvi seu problema!
 
Duvido, pensei, interrompida.
 
_Eu tô aqui na Fradique, numa mesa de bar... – quase gritava no meu ouvido, rindo – ...com três bichas maravilhosas e um boy que nunca comeu uma bunda e só por isso não sab... – céus, isso vai levar uma eternidade – ...ai, não me belisca! Para! – ele se distraiu, por um instante, e eu podia ouvir o restante da mesa rindo, entre comentários e xingamentos trocados longe do telefone – ...e enfim, um deles tem um amigo... que sempre vai na Society com a gente, o Du, e ele tá super precisando de lugar para ficar... – o Gui pausou para chamar o garçom, aos berros – ...mas então, ele é ator também... e ele quer fugir de uma pensão uó que ele fica, na casa de uma família lá no Santa Cecília, péssima... mas parece que ele quer um lugar temporário mesmo... e aí eu vi seu recado e já mandei mensagem para ele, ele disse que pode passar aí amanhã! – anunciou, convicto da boa ideia que tivera – Fala sério... me diz, você me ama ou não?
 
Não. Argh, não sei. Passei a mão no rosto, suspirando, confusa. A verdade é que eu não sabia se era mesmo aquilo que eu queria. Nem se estava pronta para, de fato, achar alguém para colocar no lugar do Fer. Todavia, o Gui aguardava, empolgado, do outro lado da linha.
 
_Amo, amo – respondi, me dando por vencida, e ri – Escuta, passa o telefone dele pra mim por mensagem e eu vejo, depois a gente se fala. Tô no meio de uma parada aqui e é importante... tá?