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fevereiro 01, 2010

Old school

Na quinta-feira, foi a comemoração do aniversário do Marcos. O cara era um dos melhores amigos do Fer – nós três estudamos juntos – e esse era um dos únicos motivos que me fariam pisar num barzinho hétero da Vila Olímpia por escolha própria. Poucas coisas nesta vida me dão mais preguiça do que os publicitários e os jovens empresários da Berrini amontoados em um só lugar. Cruzes.
 
Pra variar, eu estava sem grana para comprar um presente. Então descolei uma fotografia cool nas sobras do estúdio e escrevi um pequeno depoimento – de coração – por cima da imagem, usando-a como cartão. O Fer passou para me pegar no trabalho e fomos de carro até lá. Ao contrário de mim, ele levava um pacote quadrado e fininho embrulhado no banco de trás. Algum vinil raro, presumi. Depois do Fernando, o Marcos era provavelmente o segundo maior colecionador entre nossos amigos.
 
Chegamos com um atraso significativo no bar, ainda que eu e o Fer tivéssemos nos empenhado em afugentar todos os pedestres e demais motoristas do nosso caminho – com palavrões aos berros e gestos obscenos. É. O Fer era um tanto quanto “esquentado” no volante e eu me juntava aos resmungos por diversão. Apesar das muitas buzinas, todavia, a nossa entrada triunfal no aniversário ainda aconteceu uma hora após o início do happy hour.
 
A mesa estava lotada. Aquilo parecia uma viagem ao passado – incluindo todas as garotas que eu havia corrompido durante o colegial, agora sentadas ao lado dos seus respectivos namorados. Também estavam lá todos os nossos amigos antigos, ex-punks convictos e atuais assalariados responsáveis. Ou quase.
 
Com exceção do aniversariante da noite e alguns poucos, a maioria ali não me interessava muito. Já o Fer rapidamente se mostrou interessado na garota sentada ao seu lado – a idiota da Júlia, uma ex-namorada que ele não via há um tempo e de cuja existência me recordei com bastante desgosto. Era um antigo “grande amor” do Fer que tentou afastar ele de todas as suas amigas mulheres, o que me incluía. Para piorar, a infeliz tinha se tornado uma dessas minas indies, sabe, com alargadores pequenos e o corte de cabelo Playmobil. Que ranço.
 
A noite estava só começando. Começamos a beber para alcançar os demais e, por algum tempo, as conversas saudosistas na mesa me distraíram – mas algo começou a me incomodar.

janeiro 31, 2010

Sozinha na sala

Ouvir a Mia se trancar no quarto com o Fer naquela noite foi… insuportável. 

janeiro 30, 2010

Meu ex-armário

A Mia se virou para frente, a cabeça apoiada contra a parede, observando a rua entre as grades da varanda. E eu a admirei, com o cigarro já quase terminado na boca. Se toda essa gente não estivesse aqui, garota, suspirei, juro que te beijava. Ficamos em silêncio por um tempo, mergulhadas em nossos pensamentos. Traguei uma última vez, soltando a fumaça para cima, e encarei uma das janelas no prédio da frente – as plantas tinham tomado conta de todo vão.
 
Foi quando, de repente, senti a mão da Mia encostar na minha.
 
Entre as nossas pernas. Como um segredo bem guardado pelas nossas coxas, apoiadas lado-a-lado sobre os ladrilhos da varanda. O meu coração acelerou.
 
_O que exatamente você disse?
 
Ela perguntou então, sem me olhar.
 
_O que eu disse quando?
_Pros seus pais, quando você contou...
_“Pai, mãe, sou sapatão!” – eu ri e aí ela me encarou, como se não acreditasse.
_Tenho certeza que não foi isso...
_Não foi – balancei a cabeça, achando graça – Eu namorava uma menina na época e... sei lá, ela vivia indo lá em casa e a gente tinha que ficar se escondendo, dormia sempre de porta trancada, saca? E isso começou a incomodar os meus pais. Começaram a me encher e toda vez era “o que que vocês ficam fazendo no quarto”, “essa sua amiga nunca fala com a gente”, perguntando se a gente tava usando droga, juro, todo tipo de merda – revirei os olhos – E a real é que eu também já tava de saco cheio. Então, um belo dia, falei: “olha, a verdade é que ela não é minha amiga, a gente namora. E eu não queria ter que fechar a minha porta toda vez que ela vem aqui, mas eu não sabia o que fazer e tava com medo de contar pra vocês”.
_Hum – a Mia pareceu refletir – E o seu pai realmente ficou sem falar com você todo aquele tempo?
_Ficou. Acho que a minha mãe chorou por uma semana. Eu chorei por um mês, ou mais.
_Sério?!
_Ah, mano, eu me sentia uma puta decepção para eles. Foi foda. Não sabia o que sei hoje, não tinha a confiança que tenho. Tinha uma puta vergonha. Comecei a evitar ir para a casa, fazia qualquer coisa pra não ver eles, ia dormir na minha ex ou no Fer, ficava até tarde na rua, mas toda vez que voltava me olhavam como se eu tivesse partido o coração deles... E foi uma merda, por um tempo.
 
A Mia olhou para baixo, desconfortável.
 
_Deve ser difícil... Ter que encarar sua família assim.
_Ah... Podia ser pior, sabe? Conheço gente que sofreu muito depois de sair do armário. Cê lembra do Gui, meu amigo?
_O que tava na festa?
_É. O pai batia nele desde pequeno por ser afeminado, meu. E um dia, quando ele era adolescente, pegou ele na rua junto com um cara. Até hoje eles não se falam.
_Sério?
_Sim, meu, e o pior é que todos os irmãos são evangélicos, volta e meia um liga para dizer que o Gui vai matar a mãe de desgosto. Ele não tem ninguém na família. Nenhum apoio. É totalmente sozinho.
_Mano, me dá tanta raiva essas coisas – a Mia esfregou o rosto com as mãos – É muito escroto.
_Muito. E tem gente que acha que ser viado é ser fraco! Só o que a gente aguenta de insulto e porrada da vida, mano...
 
Isso, sua idiota, vai. Enfia a Mia com tudo no armário mesmo.
 
Fechei os olhos brevemente, arrependida. E o silêncio cresceu entre nós. O som da zona que os caras faziam na sala era barrado parcialmente pela porta de vidro, exceto por alguns gritos mais altos, nos isolando naquela pequena varanda. A respiração da Mia parecia pesar. Deslizei dois dedos da minha mão sobre os dela – e ela olhou para as nossas mãos ali, entrelaçadas sobre o chão. Depois olhou para mim.
 
_V-você... – perguntou, baixinho – ...a-alguma vez já quis não gostar de minas?
_Não.
_Nem quando você ainda tava, sei lá, se descobrindo ou...
_Não.
_Nunca?
_Mia, escuta, eu não trocaria meu coração por um hétero nem por um milhão de reais – garanti – Eu amo ser sapatão, é a melhor parte de mim.
 
Ela suspirou, tirando a mão da minha e a colocando sobre seus joelhos dobrados, encarando-a ali. O som dos carros passando na rua se misturava com o silêncio entre nós. Me diz o que você tá pensando, garota, a observava atentamente, sem entender o que a angustiava. Os seus olhos ergueram-se brevemente na minha direção e depois tornaram a encarar suas próprias mãos.
 
_M-meus pais morreriam – disse então, noutro suspiro.
_Não é verdade...
_É sério. Acho que me expulsariam de casa na mesma hora.
_Bom... – fiz graça, quebrando o clima pesado – Também já tá meio na hora de você sair, né? Vinte anos nas costas, meu...
_Cala boca... – riu.
_O problema é só que não sabe nem fritar um ovo direito!
 
Insisti, a zoando, e a Mia começou a me encher de tapa no braço.
 
_Trouxa!

A varanda

No caminho de volta para casa, a Mia já estava presente em cada pensamento que passava pela minha cabeça. Por mais que nós nos metêssemos em situações confusas e às vezes acabássemos nos desentendendo, eu não conseguia tirar ela dos meus pensamentos. Ela continuava lá. E eu ali, constantemente presa àquele sentimento, àquele impulso na sua direção. Inferno. Nos últimos dias tinha ficado claro que ela gostava de mim, de uma forma ou de outra. O problema é que eu não sabia qual – e isso me perturbava.
 
Chegando na estação Consolação, parei numa banca para comprar um chiclete e, enquanto esperava o troco, recebi uma mensagem do Fer. Ele estava na casa duns amigos ali perto, na Matias Aires. Mais amigos dele do que meus. Era um apartamento velho e grande dividido por um número sempre flutuante de moradores – eram cinco? Oito? Difícil dizer. A cada semana o sofá da sala era ocupado por algum estranho alcoolizado ou estudante de Filosofia da USP qualquer, que não tinha onde pregar os olhos ou comer a namorada. Parecia uma república coletiva de toda a Augusta.
 
Entrei no apartamento dos moleques e joguei minhas tralhas no sofá. A sala estava sob uma marofa descomunal. Vi o Fer sentado no chão jogando videogame com outro cara, que eu não conhecia, em meio à uma roda de pessoas que conversavam aos gritos, que eu também não conhecia. Ele me cumprimentou de longe – sem tirar os olhos da TV. E eu imediatamente me arrependi de ter ido naquele rolê errado.
 
Pensa numa desculpa pra ir embora, resmunguei pra mim mesma, qualquer uma. Mas foi quando reparei na Mia, num jeans preto e com as mangas da camiseta enroladas, com as tatuagens à mostra, fumando sozinha na varanda. Quer dizer, talvez eu possa ficar uns minutinhos...
 
_Oi... – eu disse, fechando a porta de vidro atrás de mim.
 
Ela sorriu de volta, com uma das mãos apoiada na beirada da varanda. E o meu coração pulou uma batida, inferno.
 
_Não sabia que cê ia colar aí...
_É. O Fer me mandou mensagem agora, tava saindo do metrô... – roubei o cigarro das mãos dela, apoiando os antebraços na grade – E você, tá escondida aqui por quê?
_Ah, mano – a Mia revirou os olhos – Muito chato lá dentro, num dá...
 
“Tá foda”, ri. E traguei uma vez, antes de devolver o cigarro para ela. A Mia observava o movimento da rua – os restaurantes tiravam as cadeiras da calçada e preparavam-se para fechar. Ela colocou o cigarro na boca, se curvando para ver mais embaixo. Me juntei a ela. E ficamos ali por um tempo, observando as pessoas que passavam na calçada.
 
_Será que se todo mundo vivesse à noite... – ela comentou, do nada, como se pensasse em voz alta – ...a gente ia querer ficar acordado de dia?
 
Achei graça. E sorri – “eu ia”. Ela me passou o cigarro e sentou no chão, com as costas apoiadas contra o vidro da porta. Sentei ao seu lado e a observei, rindo de novo.
 
_Quê?!
_Cê parece entediada até a morte, meu.
_E tô mesmo. Esse rolê tá um porre, mano.
_Como assim?! – dei um trago e forcei uma voz indignada, irônica – Você não quer assistir dois caras jogarem FIFA pela vigésima vez seguida?!
_Céus, não – ela riu.
_Osso.
_Pelo menos tem pizza – a Mia pegou o cigarro e me olhou – Cê já jantou?
_Já... Meu pai passou perto do meu trampo hoje e fomos num restaurante por lá – respondi – Meu, toda vez que saímos juntos é a mesma conversa... Ele acha que eu e o Fer somos casados ou algo do tipo.
_Você e o Fê? – ela gargalhou.
_Juro. É ridículo.
_Mas, espera, ele não sabe que você...?
_Sabe – balancei a cabeça, enquanto ela soltava a fumaça entre os lábios – Só ignora.
_Que bizarro... Faz quanto tempo que ele sabe?
_Uns seis, sete anos. Deixa eu pensar... – calculei rapidamente – É, quase sete. Eu tinha de 16 pra 17 quando contei.
_E o que ele disse?
_Nada.
_Nada?
_É, por uns dois meses – ri.
_Isso é horrível!
 
Ela começou a rir e eu concordei, é. Foi.
 
_Mas depois vocês ficaram bem, não?
_Ah, sim – peguei o cigarro e dei mais um trago – Sei lá, meu, acho que por mais difícil que seja, as pessoas que realmente te amam acabam entendendo. E nunca deixam de te amar, sabe? Em algum momento, elas percebem que você não pode ser feliz de outra maneira.
_Mas seu pai não aceitou totalmente... Digo, por causa desse lance do Fê e tudo mais.
_Ele fala mais por brincadeira... No fundo, ele sabe que não é assim. Já conversamos muito, ele conheceu as minas que eu namorei, acho que s-só não perde totalmente as esperanças de um dia me ver casando, tendo filho, sabe? Ao lado dum bom rapaz e o caralho a quatro.
_Olha, o Fê não é exatamente o que eu chamaria de um “bom rapaz”.
_É, cê tem razão... – eu ri.

Os mal-entendidos de sempre

Não vi a Mia por uns três dias e, na quarta-feira, meu pai me ligou. É, o meu pai. Aquele bonachão adorável e ocupado que raramente entrava em contato comigo. Não que nós tivéssemos motivos para não ligarmos um para o outro – nós dois simplesmente não gostávamos de telefone. Sempre restringi o meu uso a situações de real necessidade, um hábito que certamente puxei dele já que a minha mãe era a própria reencarnação duma telefonista.
 
Sendo assim, me surpreendi ao ver o número do meu pai piscando na tela do celular. Larguei o trabalho e o atendi. Estava com saudades de ouvir sua voz. Já logo na primeira frase fui intimada a encontrá-lo para jantar. A ligação chegou em boa hora – eu estava faminta e a quantidade absurda de álcool comprada para a festa havia acabado com todos os meus últimos centavos.
 
O meu pai era um paulistano convicto – ainda que sequer tenha nascido no estado. Veio para São Paulo uns anos antes de conhecer a minha mãe e, desde então, raramente pisava para fora do seu mundinho em Santo Amaro. Era um tanto bairrista. Mas aquela quarta-feira era uma exceção: um fornecedor qualquer o arrastou para as redondezas do estúdio onde eu trabalhava. Eis o porquê do telefonema, concluí. E sem pensar duas vezes fui encontrá-lo num restaurante a poucas quadras dali, assim que terminou meu expediente.
 
_E então... – perguntou, pouco tempo depois de começarmos a comer – Como vai no emprego?
_Vai bem. Sei lá, normal. Muita coisa para fazer...
_E em casa, tudo bem?
_Tá, sim.
_Como vão as coisas entre você e o Fernando? – ele me olhou, forçando um olhar de “sogro” na minha direção – Hum?!
_Pai... O Fernando não é meu namorado, você sabe disso. Nós somos só amigos.
_Isso é o que você continua me dizendo, mas aquele garoto gosta de você – ele continuou, como se estivesse coberto de razão – Confia no que eu estou te dizendo. Eu sei como é...
_Não – eu ri – Escuta você o que eu estou dizendo: o Fernando gosta de garotas que gostam de garotos, como ele. E não de outras minas, que nem eu.
_Ah. Por favor! – me zombou – Vocês não desgrudam desde que eram pivetes!
 
Cê também não desgruda do pai dele, o encarei, achando graça, e nem por isso eu tô aqui fazendo planos pro casamento de vocês. A piada era antiga entre as nossas famílias. Todo mundo sempre achou que íamos acabar nos casando. E apesar de ser o maior sonho do meu pai, na esperança de que alguém me salvasse da sapatonice, provavelmente era o pior pesadelo do pai do Fer. Os dois se conheciam através dum primo do meu velho, que eu mesma nunca conheci. Meus pais ajudaram a família o Fer a se instalar na cidade quando eles se mudaram para São Paulo, quando o Fer tinha 9 anos, e desde então ficou todo mundo muito amigo. Dois anos depois, ele passou a estudar na mesma escola que eu e nos tornamos inseparáveis. E terríveis.
 
_Eu nunca vejo ele com outra garota – meu pai retomou – Tá sempre aí, com a minha filha linda, é ou não é?
_Nossa, pai... – balancei a cabeça, com uma careta de quem acabou de ouvir a maior besteira – Que absurdo. O Fer tá sempre com alguém, meu. Inclusive tá namorando!
_E quando vocês casam? – sorriu, com uma certa ironia.
_Não comigo... O nome dela é Mia.
_Mia? – ele colocou mais uma garfada na boca, falando de boca cheia – Sou mais a minha filha.
_Céus...
_Mas essa tal de Mia aí, você gosta dela?
 
Eita, quem te contou?
 
Me diverti em pensamento, o olhando à espera da resposta – era estranho ter que explicar quem era a Mia para o meu pai. Deixa eu ver, refleti, como posso resumir? Gosto, pai, gosto mais do que deveria, muito mais, passo o dia inteiro pensando nela, obsessivamente, é uma pena que o Fer chegou primeiro e, sim, estou apaixonada, perdidamente apaixonada, a gente até já se pegou uma vez e agora não estamos nos falando direito, mas sabe como é, né pai, coisa de amiga.
 
_Ah... – disse, por fim, evitando qualquer resposta sincera – É boa gente, sei lá. Normal.
_Sei.
_Nada demais.
_Eu sabia! – ele riu – Sabia! Me diz se isso não é ciúmes do Fernando? Tá na cara!
_Pois é, pai, pois é...
 
Concordei, rindo, a fim de não prolongar o assunto. E voltei a encarar a comida no meu prato, involuntariamente pensando na Mia. De novo. Droga.

janeiro 25, 2010

Banheiro

_Você não devia ter bebido tanto... – a Mia falou, agachada na minha frente.
 
Eu ri brevemente da minha própria desgraça, exausta demais para conversar. Ela passou a mão no meu rosto e tirou meu cabelo da frente dos meus olhos. Fiquei em silêncio, destruída e sem energia. A minha cabeça doía ainda mais depois de vomitar tanto, sentia como se todo o sangue do meu corpo tivesse se esvaziado. Ressaca da porra. E a Mia me observava com um quê de pena.
 
_D-desculpa... – ela disse, pegando na minha mão – ...sinto como se parte disso fosse culpa minha. Não sei, e-eu só... Não queria que você pensasse q-que eu faço de propósito. Eu n-não queria te machucar, é que...
_Não é culpa sua – a cortei, sem paciência.
 
Aquilo me provocou um desconforto horrível. Eu odiava me sentir frágil, como se ela tivesse esse poder sobre mim. Quis me levantar, a fim de mostrar que já estava melhor e que não precisava mais da sua ajuda, mas ainda me sentia mal. Então continuei ali no chão. Exausta. Olhei para a Mia e ela ainda me observava, preocupada.
 
_Talvez fosse melhor você tomar um banho...
 
Ela sugeriu – e imediatamente me veio à cabeça uma resposta indecente. Nem nos meus sonhos, comecei a rir de mim mesma. A Mia notou, facilmente se dando conta das minhas segundas intenções, e forçou uma cara de indignação.
 
_Eu não vou te ajudar... – ela disse, levantando a sobrancelha – ...nem adianta tentar.
_Eu não disse nada... – sorri.
_Mas pensou.
_Ah, acredite, eu já pensei coisa pior...
 
Ela começou a rir e eu cobri o rosto com uma das mãos, envergonhada. Então ela projetou o corpo para frente, com as mãos apoiadas no chão, e me deu um beijo demorado na bochecha. Olhei para ela e pisquei, fazendo graça.
 
_Você não presta... – ela sorriu e balançou a cabeça.
 
E eu concordei, rindo.

Café-da-manhã

Observava as rosquinhas cor-de-mel afundadas no leite. O conjunto me parecia algo semelhante a vômito. Colocava algumas rodelas ensopadas na colher e logo despejava-as de volta ao prato. Que asco, eu pensava, enojada. O Fer tagarelava empolgado, comentando os acontecimentos da festa, enquanto eu o ignorava – expressando fisicamente a minha repulsa pelo cereal disposto na minha frente.
 
_Mano... – ele reclamou, interrompendo o assunto aos risos, indignado – Só come logo!
_Não quero comer isso.
_Você tem que comer alguma coisa, meu, senão vai ficar zoada o resto do dia todo...
 
Que se dane. Eu aguento, me convenci mentalmente, é melhor do que engolir isso. Argh. O domingo já estava quase no fim, mas a minha ressaca estava realmente zoada. Tá. Talvez eu não aguente. Minha cabeça parecia prestes a explodir. Sentia meu corpo inteiro contorcer-se internamente, meus olhos inchados, meus braços doloridos e qualquer ruído mínimo na cozinha despertava a pior dor de cabeça do século. A culpa era toda minha, do Jameson e da vodca de 4,99.
 
E da Mia, claro, que estava sentada na sala. Me ignorando.
 
Respirei fundo e enfiei aquela gosma nojenta para dentro da boca. Mastiguei a papa mole cor-de-vômito-com-mel e engoli, fazendo uma careta involuntária. Credo. O Fer resmungava qualquer coisa sobre como eu era “fresca” e ria da minha desgraça. Contra a minha vontade, forcei mais uma colherada goela abaixo e senti cada pedacinho de rosquinha mastigada e diluída em leite sendo digerido pelo meu estômago, em meio aos litros e mais litros de porcarias alcoólicas que eu havia ingerido na noite anterior.
 
Não. Merda, vou vomitar.
 
Saí correndo em direção ao banheiro, às pressas, e coloquei a cara na privada. O Fer entrou, assustado, logo em seguida:
 
_Cê tá bem?
_Tô! Cai fora! – reclamei, engasgada, e comecei a vomitar.
_Puta que pariu... Não devia ter feito você comer, desculpa. Merda! – o Fer se desesperou – E-eu... eu vou chamar a Mia, meu, aguenta aí!
 
Não. Isso não. O Fer saiu correndo e senti que ia vomitar mais uma vez, sem conseguir evitar que ele a chamasse, porcaria. Ele não conseguia ficar perto de outras pessoas vomitando sem sentir ânsia também – o que frequentemente era o caso nas nossas festas. Pouco tempo depois, ouvi a porta se fechando. A Mia ajoelhou ao meu lado e segurou o meu cabelo para cima. Senti a mão dela molhando a minha nuca. E aquilo ajudou. Logo quando eu achava que ia ficar bem, a ânsia voltou e começou tudo de novo. Os meus olhos lacrimejavam. E eu me contorcia violentamente, a cada episódio, durante uns 10 minutos seguidos. Sexy.
 
Tudo aquilo me deixou exausta. Encostei na parede do banheiro, sentada no chão, e a Mia me deu um pano molhado. Limpei o rosto e deixei as mãos caírem sobre as minhas pernas, me sentindo fraca.

janeiro 24, 2010

8:14

Quase peguei no sono.
 
Não. Não posso dormir, pensei, tentando me manter acordada com certa dificuldade. Preciso tirar ela daqui antes. Olhei para o meu lado e a Aninha dormia, debruçada no meu travesseiro, com o rosto virado para a parede. Suas costas eram repletas de pintinhas – e eu até que gostava. Hum. Estiquei-me na beirada da cama, alcancei o meu maço no bolso de uma calça e acendi um cigarro. Minha embriaguez havia sido substituída por uma enxaqueca arrasadora. Caralho. Ainda não havia atingido o estado completo de ressaca, contudo – sentia meu corpo tremer e suar frio. Sabia que permaneceria ligeiramente bêbada até finalmente dormir.
 
Levantei e coloquei a primeira blusa que vi, vestindo a boxer de novo. Estava me sentindo realmente mal fisicamente. Curvei-me sobre a cama, acordando a Aninha e pedindo para que fosse embora. Ela abriu os olhos e acenou, sonolenta. Indiferente. Ela estava me usando, como eu usei a Roberta. Como todos usamos uns aos outros para preencher o tempo. Ou a cabeça. Caminhei descalça pelo quarto, fumando; a minha cabeça doía. Não tinha memória do que acontecera nas últimas horas – só um sentimento confuso. Talvez tenha dormido e transado algumas vezes, não sei. O meu corpo doía. Olhei o relógio na mesa e não consegui registrar direito as horas. Inferno.
 
Minutos depois, a Aninha se aproximou, já vestida, e me beijou no rosto. Depois saiu pela porta. Fiquei sozinha no quarto. Dei uma última tragada e joguei o cigarro pela janela. Aí voltei para a cama.
 
Que lixo.

A Festa 5

Atravessei o corredor, empurrando e desviando dum grande número de pessoas, que se amontoavam pelos cantos do meu apartamento. Inconvenientes. Estava puta. E não sei se a culpa era da quantidade absurda de álcool nas minhas veias ou o fato de que tinha estragado a minha chance com a Mia, sem nem saber como – mas, de um jeito ou de outro, eu estava realmente irritada. E a festa, de repente, se tornou insuportável.
 
Com todas as minhas forças, almejei que todo mundo fosse embora e magicamente me deixasse sozinha. No entanto, a cada passo que eu dava, eu trombava com algum exemplo completamente bêbado de que meu desejo não havia sido atendido. Ainda eram 3 da manhã. E eu sabia que ninguém ia deixar a droga daquela festa até a dali, pelo menos, uma ou duas horas. Maldição. Me dirigi até a sala – mas logo percebi que aquele era o cômodo mais lotado da casa toda e eu não queria ficar ali. Então, voltei. E me espremi cozinha adentro, com bastante dificuldade
 
Sentei na pia, rodeada de gente, torcendo mentalmente para que ninguém viesse me encher o saco. O primeiro babaca que falar comigo, morre, jurei. Pelo bem da minha ficha criminal, quem apareceu foi o Gui – e eu não estava disposta a matá-lo. Afinal, , era um dos meus melhores amigos. Completamente desavisado, ele se aproximou do ser rabugento que eu era naquele momento, me zombando.
 
_E aí, já recuperou o bom senso?
_Não quero falar sobre isso – o cortei.
 
Peguei o copo de uma bebida não-identificada qualquer que estava na sua mão, sem paciência, e empurrei tudo garganta abaixo. De uma só vez.
 
_Nossa! O que foi? – ele riu – Tomou um fora, é?
_Não.
_Hum, e tá bravinha por que então? – ele riu ainda mais – Um pouco de humildade faz bem, viu, ô...
_Já disse que não foi isso, porra.
_Ah, então você quer me convencer de que deu certo seu plano e você conseguiu tudo o que queria?
 
Não tudo.
 
_Hein?! – o Gui levantou a sobrancelha, me provocando, e aquilo agravou ainda mais o meu mau humor.
_Consegui, Guilherme. Consegui até mais do que eu queria.
_Ui... Cuidado para não morrer de tanta felicidade, hein? – achou graça.
_Vai se foder!
 
Levantei e esbarrei no seu ombro, irritada, saindo em direção ao inferninho que havia se tornado a minha sala. No caminho, descolei uma garrafa quase cheia de vodka barata e resolvi me embebedar ainda mais – o que nunca é uma boa ideia quando o seu estado emocional se encontra rasgado em mil pedaços no meio de uma pilha enorme de lixo. Pelo menos, fui sensata o suficiente para recusar pó no meio do caminho. Isso, sim, teria sido uma péssima ideia naquele momento.
 
Algumas horas ou minutos depois e eu me encontrava jogada no chão da sala, sentada de costas para a parede, quase apagando de tão chapada. Não me recordo bem o que me levou até aquele canto, mas tenho uma vaga lembrança de ter encontrado a Mia no meio do trajeto.
 
Ela não estava falando comigo, aparentemente. A única pessoa que estava, naquele momento, era a Aninha. Sabe-se lá como, mas aquela garota me achou no meio de todas aquelas pessoas e agora tagarelava sentada ao meu lado, me dando umas indiretas – bem diretas – de que queria ir pro quarto. Aquilo estava me causando uma séria dor de cabeça. Ou talvez fosse a vodca de R$ 4,99.
 
Não sei ao certo.
 
Vencida pela exaustão e pela minha incapacidade completa de raciocinar, concordei em ir "conversar" num lugar mais reservado. Eu vou me arrepender disso, lamentei enquanto me levantava com certo custo, me apoiando na parede. Minha ex-semi-fixa-sei-lá-o-que-ela-era me olhava satisfeita, alheia à minha cara de poucos amigos. Achando que ia se dar bem. Mal consigo ficar em pé e a garota realmente espera que eu coma ela nesse estado, pensei. E comecei a rir sozinha. Ela deve estar pior do que eu.

janeiro 23, 2010

A Festa 4

_N-não – me empurrou para trás, de repente – Para. Para!
 
E eu parei, olhando para a Mia enquanto recuperava o ar. O que aconteceu?, buscava qualquer explicação em seu rosto no escuro, a menos de um passo dos seus pés. Nossas roupas estavam bagunçadas e a sua respiração ofegante, confusa.
 
_P-por que você tá fazendo isso comigo?
_Eu?!
 
Parecia hesitar, como se de repente tivesse caído em si, recuperado a consciência. E por um breve momento, tive medo de que a culpa fosse minha. Não faz isso, garota, toquei o seu braço levemente com a mão e ela abaixou os olhos para o chão. Não se perde de mim, não agora. Ela ficou quieta. Ergui o seu rosto e ela se forçou a me encarar de volta, consternada. Tinha os olhos marejados, como na madrugada que bateu no meu quarto. Por favor, a olhei, com medo de que fosse se afastar mais uma vez e aquilo tudo não passasse de um sonho que mal começou.
 
Mas, no instante seguinte, sem qualquer explicação, a Mia me beijou.
 
Porra. Aquilo ia acabar comigo. Com a pouca sanidade que o whisky deixara para trás. Apertou o corpo contra o meu e voltamos a nos pegar, desta vez mais forte. Encostei-a contra a parede mais uma vez e ela me agarrou pela camiseta, mordendo a minha boca, nuns beijos tão intensos que, puta que pariu. Colocou a mão sob o tecido, subindo pela minha cintura, pela minha pele – e eu senti tudo arrepiar, todo o álcool que corria nas minhas veias. Sem tirar a boca da sua, deslizei as mãos pelas suas pernas e levantei o seu vestido, sentindo as suas coxas entre os meus dedos, cada centímetro que tocavam, a subindo no meu colo.
 
Nisso, as mãos dela me seguraram. E a Mia me afastou.
 
_Porra... – encostei na parede oposta do banheiro, rindo – Isso é tortura, meu.
 
As suas pernas ainda estavam descobertas e o vestido erguido até a calcinha, logo acima dumas tatuagens old school que ela tinha nas coxas. Ela cruzou os braços. À meia-luz do banheiro, era ainda mais bonita. Cacete.
 
_Sabe... v-você... – eu sorri, ofegante – ...vai me matar do coração assim. Não é justo, garota.
_O que você quer de mim?
 
Retrucou, ríspida, como se eu a tivesse ofendido. E o sorriso logo sumiu do meu rosto – espera, a olhei de volta, achei que a gente estava fazendo isso juntas. Não?
 
_Como assim?!
_Cê quer que eu seja justa? Nada disso não é "justo" – ergueu a voz, bêbada, se afligindo do nada – Não é certo. Comigo, com você, com o Fê! – se angustiou – Eu sou uma idiota, e-eu... eu nunca devia ter te falado nada!
_Mia...
_Não sei por que eu fui entrar nesse banheiro, e-eu...
_Espera. Cê tá falando sério?
_Na boa, eu não sei o que você quer de mim.
_Eu não quero nada de você, e-eu só...
_Ótimo – fechou a cara – Então vamos acabar de vez com isso antes que se torne um absurdo ainda maior.
_Do que você tá falando, meu?!
 
Perguntei, mas a Mia virou o rosto. E não respondeu, encarando o chão.
 
_Mia?
_...
_Mia.
_...
_Tá. Que seja – resmunguei.
 
E saí do banheiro, de saco cheio.