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fevereiro 10, 2010

A casa da Mia

Parei em frente a um prédio chique de Higienópolis e me senti imediatamente deslocada. Isso não vai dar certo, pensei, metida num jeans surrado com meu All Star favorito – o que imaginei ser uma roupa apropriada para passar uma “noite com as meninas” vendo UFC. O problema é que eu nunca tinha ido na casa da Mia antes. Mal sabia direito onde era, tive que jogar o endereço no Google e descobri, um pouco tarde demais, que ela morava numa fucking mansão. Ou praticamente isso.
 
Assim, não que seja difícil morar melhor do que eu e o Fernando, não é?
 
Nosso prédio ficava no meio de uma das principais bocas da cidade – e definitivamente a minha roupa era mais apropriada para aquilo do que para aquele edifício imenso que claramente tinha apenas um apartamento por andar. Onde fui me meter? Depois de uma certa espera, a mãe da Mia atendeu a porta. Fala aê, sogrinha. Sorri. E ela fez uma imediata cara de desaprovação. Era uma dessas peruas que andam por aí com lenços caros no pescoço, as unhas feitas. Sabe? E eu certamente não era o que ela esperava ver ali.
 
Cruzamos o apartamento sem trocar uma palavra. Aquele lugar devia ter alas inteiras que eu nunca veria. Me levou até o quarto onde estavam as “meninas”. Eram seis, incluindo a Mia – todas aos berros com a televisão. Eu estava claramente atrasada. As lutas já haviam começado há algum tempo. Sentei ao lado da Mia no chão e me diverti observando as reações empolgadas do grupo a cada soco ou joelhada. Sempre achei que a Mia destoava das suas amigas do Mackenzie, mas rapidamente percebi que isso era só porque não as tinha visto daquele jeito.
 
Aquilo era diversão de primeira classe.
 
A quantidade de palavrões embriagados mal cabia entre as quatro paredes da salinha. E quando digo “embriagados” é de tanta latinha de cerveja e baldes de pipoca vazios espalhados pelo chão, chutados acidentalmente cada vez que uma das garotas gritava com a televisão. Eu não sabia porra nenhuma sobre UFC. Ou qualquer outro esporte – todo o meu pouco conhecimento sobre futebol foi adquirido contra a minha vontade por convivência com o Fer e o meu velho. Mas a Mia me explicava quem eram os lutadores, as regras, cochichando por cima do meu ombro e rindo da minha falta completa de referência.
 
As horas mergulharam madrugada adentro. Em um dos intervalos, me levantei para buscar mais cerveja na geladeira – o último de muitos engradados – e me perdi pelo apartamento por um instante. Essa bagaça é um labirinto. A cozinha ficava do outro lado da sala de estar e, em minha defesa, a porta estava posicionada em um lugar que não fazia o menor sentido. Debrucei-me sobre a geladeira e, sem que a tivesse ouvido chegar, a Mia me abraçou por trás – colocou os braços ao redor do meu pescoço, apoiando-os nos meus ombros.
 
_Precisa de ajuda... – perguntou, soando bêbada e feliz – ...aí?
 
Respirei fundo. Isso acaba comigo, mano. Todo aquele contato com ela, o jeito como era comigo. E acho que a Mia sequer se dava conta – mas o meu coração disparava, toda vez. Por mais casual que fosse. A gente andava nos encostando mais nos últimos tempos. Ela me abraçava, apoiava a cabeça no meu ombro, segurava a minha mão na fucking varanda dos outros. Era quase como se estivéssemos nos esbarrando inconscientemente. E isso era um problema – dada a incapacidade do meu coração de separar as coisas.
 
Não sabia o que pensar. Não depois da festa, e de como terminou. Sentia que ela tinha desenvolvido algum tipo de afeição por mim, mas que não chegava a ser romântica. Menos ainda sexual. Parecia meio, adolescente? Não sei. Sentia que, às vezes, a Mia me equiparava às suas amigas. E aí não entendia quando resolvia entrelaçar secretamente os seus dedos nos meus, por debaixo duma almofada, para que as outras não percebessem. O que você tá fazendo, garota? Eram todos aqueles sinais ambíguos demais – indiretos demais – pairando entre nós. E isso me enlouquecia. O vai-e-num-vai. Toda aquela discrição, porra. Num chove-não-molha o tempo todo.
 
Mas eu não queria que ela parasse.

Na porta do estúdio

Concluí que era a Roberta. Quem mais poderia ser? Ela morava era relativamente perto dali e algo me dizia que eu ainda não tinha sofrido todas as consequências daquela noite. Esfreguei os olhos, tentando colocar a cabeça no lugar. E respirei fundo, tá. Vamos lá. Empurrei a porta. Ao sair em frente ao estúdio, no entanto, vi a Mia.
 
Estava linda. E ali. Com o seu coturno surrado e o cabelo num rabo mal preso, fumando na calçada. Os shorts desfiados me confrontavam com todas as tatuagens que segurei nas minhas mãos no banheiro daquela festa e a regata branca deixava visível a alça de um sutiã preto por baixo. Desgraça. Tudo na Mia me atraía na sua direção, eu simplesmente não conseguia evitar. Era como olhar por tempo demais para o sol. Eu não conseguia ver mais nada depois. Ela sorriu ao me notar e eu passei as mãos no rosto, tentando disfarçar minha cara tonta de apaixonada.
 
_O que cê tá fazendo aqui?
_Vim encontrar meu irmão na Lapa e resolvi passar aí para ver como você tava... – ela deu um trago no cigarro, me observando com aqueles seus olhos castanhos.
_Ah, tô aí. Não sei, trabalhando... – ri – Puta sono.
_Cês voltaram muito tarde ontem?
_Mais ou menos.
 
Na verdade, não.
 
_Hum. E tudo bem com você e o Fê? Ele pareceu irritado no telefone hoje, mais cedo... Mas não quis me falar direito.
_Tá. A gente... a g-gente acabou discutindo ontem e aí hoje de manhã, sei lá, o clima tava uma merda – respondi, roubando o cigarro da sua mão – Mas é o Fer, né. Daqui a pouco passa.
_Hum. O que aconteceu?
 
Ah, nada, Mia, ele só deu em cima de uma ex no aniversário e eu dei chilique, fiz ele ir embora, tava completamente bêbada, chamei uma mina lá em casa, comi ela a noite toda, pensei em você, a gente brigou e hoje de manhã o Fer torrou minha paciência porque não aprova a forma como eu levo minha vida, enquanto tudo o que eu queria era estar com a namorada dele, digo, você, no caso. Refleti antes de responder à pergunta – e é, era melhor eu mentir.
 
_Ah, uma besteira aí, nem esquenta... – traguei o cigarro e devolvi para ela – A gente bebeu um pouco além da conta, sabe como é...
_Hum... – se desapontou com a escassez de informações – Entendi.
_Mas cê veio aqui só por isso?
_Não. Na real, vim te fazer um convite. Se cê tiver livre hoje...
_Ahm... – sorri na mesma hora – Que tipo de convite?
_É que vai rolar uma noite com as meninas lá em casa e, sei lá, eu achei que talvez você ia curtir.
_“Uma noite com as meninas”?
 
Comecei a rir, tentando bloquear todos os trocadilhos lésbicos sujos da minha cabeça – sem muito sucesso.
 
_Para de rir! – a Mia me deu um tapa no braço.
_D-desculpa – abaixei a cabeça, ainda achando graça – Parece legal, me conta mais...
_Ah, basicamente as minhas amigas vão dormir lá em casa e a gente vai tomar umas, ver TV. Cê gosta de luta?
_Luta?
_É, tipo UFC – continuou, dada a minha cara de surpresa – Sabe?
_S-sei...
 
Murmurei, confusa.
 
_Então, a gente costuma ver às vezes, quando dá para juntar todo mundo e...
_Espera – ri – Cê tá falando sério?
_Não faz essa cara! É divertido, juro! – garantiu e eu levantei as sobrancelhas, incrédula – A gente enche a cara e fica bem louca enquanto um monte de homem se bate na TV. Você vai gostar!
_Que eu vou gostar, eu sei. Já as suas amigas...
_Mano! – segurou o riso, ofendida – Você acha que eu ando com quem?!
_Ah, sei lá, você fica saindo com essas patricinhas aí do Mackenzie...
_Olha, pra sua informação... – retrucou, num tom indignado – Nem toda mina que faz Mackenzie é uma fresca do caralho.
_Não. Imagina... – provoquei – Que é isso!
_Idiota.
_Tá, até pode ser, mas também não é como se eu te imaginasse como fã de... tipo, MMA.
_Olha, você se surpreenderia... – fez graça – ...eu sei pegar bem pesado.
 
Não me fala essas coisas, mulher.
 
_Ok – eu ri – Tô dentro.

fevereiro 09, 2010

Produtividade zero

Nem duas da tarde e eu já tava exausta. Meu chefe enlouquecia numa sessão interminável de fotos e eu era constantemente despertada, aos berros, do meu estado semivegetativo. Preciso dormir, suspirei, já quase fechando os olhos de novo, urgentemente. E pela milésima vez só naquela última hora, avisei que precisava ir ao banheiro. A minha necessidade real por litros e litros de água devido à ressaca até que encobria bem os minutos que eu passava sentada no chão do banheiro cochilando. Logo, no entanto, eu precisaria de outra desculpa para fugir do batente. Não aguento mais. O dia não acaba, mano. Em retrospectiva, passar a noite acordada no último dia da semana não foi minha ideia mais brilhante. Tranquei a porta do banheiro mais uma vez e me sentei no piso frio, encostando o corpo contra a parede. Senti a minha cabeça rodar.
 
(...)
 
Merda.
 
Acordei assustada. Olhei no celular e já haviam se passado dezoito minutos. “Merda! Merda! Merda!”, xinguei em voz alta. E saí do banheiro rapidamente, forçando uma cara de doente, tentando dar a entender a todos que eu estava realmente passando mal – não apenas colhendo os frutos dos meus equívocos noturnos.
 
Voltando dei de cara com a secretária do meu chefe, uma garota miúda e irritantemente bem-humorada. Por algum motivo, ela me observava fixamente, como se me esperasse. Lá vem a bronca, logo pensei, devem achar que eu tô indo cheirar a cada dez minutos no banheiro.
 
_Tem uma garota esperando você, lá na frente.
 
Disse calmamente, como se fosse cotidiano.
 
_Eu?! – arregalei os olhos, surpresa.

O atraso

Na manhã seguinte, veio a ressaca – moral ou não. Abri os olhos e senti minha cabeça doer. A conta de todos os chopps da festa do Marcos chegou com tudo. Olhei para o lado e vi a Roberta deitada na minha cama, o que diabos eu fui fazer?
 
Às vezes, acho, o meu julgamento falha. Especialmente de madrugada. Não sei o que diabos acontece entre as 23h e 6h, parece que tudo ganha uma dimensão maior. Mais dramática. E eu me deixo levar, pelo meu ego, pelo desespero de não ficar sozinha, de matar o tempo, ou a dor, a qualquer custo. Caralho. Levantei da cama para desligar o alarme martelando na minha cabeça. Todas as nossas roupas estavam largadas pelo chão, as minhas e as da Roberta, como testemunhas passivas de uma série de escolhas erradas.
 
Pisei sobre elas e andei até o meu armário, tirando a primeira coisa que achei para ir trabalhar. Só então acordei a Roberta. E ela só faltou pular da cama, em pânico, assim que disse que já eram quase 7. Estava mais atrasada do que eu – dava aula numa escola pra lá da Água Branca. Nos apressamos. Numa passada rápida na cozinha para improvisar um café, nos deparamos com o outro trabalhador daquele apartamento – com um samba canção velho e olheiras imensas da bebedeira. À primeira vista, ainda bravo comigo. Ah é, além de tudo teve isso. As lembranças da noite anterior eram uma pior do que a outra, argh. O Fer olhou para a minha cara e me ignorou, tomando um gole de água apoiado na pia.
 
Mas, então, notou a Roberta entrando atrás de mim.
 
_Nossa! – sorriu, surpreso – Você eu não via fazia tempo aqui!
_Só eu que não, né? – ela o cumprimentou, rindo – Quem andou tomando café com você além de mim, hein?
_Vixi... – ele riu – Isso você esclarece com aquela ali, eu não vou me meter.
_Olha, eu não sei do que vocês estão falando... – dei de ombros – Nunca trago ninguém pra tomar café.
_Cê sabe que sempre foi minha favorita, né, Rô? – o Fer a abraçou de lado e me olhou, satisfeito – Que bom que vocês voltaram, meu!
_Nós não “voltamos” – o corrigi, rabugenta – Nós sequer “fomos”.
_Mais ou menos, não é?
 
A Roberta retrucou.
 
Só faltou me fuzilar com o olhar. Quis dizer que não namoramos, revirei os olhos, não dá para voltar se a gente nunca terminou. Os dois ficaram de gracinha por uns minutos enquanto eu passava café, me chamando de “Coração Gelado” e enchendo o saco. Matando a saudade um do outro, basicamente. Enfiei a cara na dispensa – à procura do cereal e da minha integridade. Mas logo a Roberta lembrou-se do horário e virou o café de qualquer jeito, saindo correndo pela porta. Sequer me deu um beijo. O que, admito, incomodou um pouco o meu coração gelado.
 
_Meu, na boa, você devia namorar com ela.
 
O Fer comentou, assim que ouviu a porta da frente fechar.
 
_Tô de boa, obrigada.
_Por que não?
 
Porque, Fernando, a garota que eu quero é a sua.
 
_Hein? – insistiu, diante do meu silêncio – Por que não?
_Não é da sua conta, mano. Que saco!
_Meu, nem vi ela chegar ontem... Que horas a coitada veio para cá?
_Ah... sei lá, tarde. Meia noite e pouco.
_Mano, olha isso, quinta de madrugada... A garota te adora! – se exaltou – Sério, meu, sabe-se-lá por que motivo ela é completamente idiota por você e você não está nem aí...
_Eu gosto dela, Fer, não é isso... – respondi, colocando uma colherada de cereal na boca – ...só não quero casar com a mina, porra.
_Talvez você devesse, ao invés de ficar aí pulando de galho em galho... – murmurou.
_Que é?! Deu pra dar palpite agora?
 
Me irritei. E ele balançou a cabeça, comendo o restante do café-da-manhã num silêncio pouco amistoso. Isso é retaliação, só pode.

fevereiro 06, 2010

Devaneios

Acendi um cigarro e soltei a fumaça lentamente, contemplando enquanto ela se desfazia no ar. Aquilo me dava uma certa paz. O sexo, digo. E não porque era com a Roberta – poderia ser com qualquer pessoa. Virei para o lado e olhei para ela por um instante. O seu rosto ainda estava vermelho e o quarto todo estava quente, abafado. Ela sorriu e eu sorri de volta.
 
Voltei a encarar o teto e traguei mais uma vez, segurando a fumaça por um tempo até soltar. E foi quando a Mia apareceu na minha cabeça. Suas mangas enroladas sobre os ombros, o jeito como sorria ao meu lado na varanda. Se algum dia eu te levar para a cama, garota, não vai me trazer paz nenhuma. Só a ideia fazia as minhas pernas se moverem sobre o colchão, se reajeitando. Ia acabar com a minha sanidade, isso sim, tive certeza ali mesmo. E respirei fundo.
 
_Hum. Senti falta disso...
 
A Roberta me abraçou pela barriga, encostando a cabeça no meu ombro. Não respondi, absorta nos meus pensamentos. Dei mais um trago e o meu olhar vagou pelas curvas que o seu corpo formava grudado no meu, encaixando-se com uma facilidade natural. Como alguém pode não gostar disso?, minha cabeça divagou. Não fazia sentido. Minas héteros. Caras gays. Digo, os viados ainda consigo perdoar. Mas como diabos uma mina não se sente atraída por outras mulheres?
 
_Você tá quieta...
 
A Roberta sussurrou, me observando. A fumaça formava círculos no ar e depois sumia.
 
_Tô só brisando... – murmurei de volta, tragando mais uma vez.
_Sobre o quê?
_Sobre gostar de mulher...
 
A Roberta ergueu a cabeça, me encarando.
 
_De mim?
_Não – a resposta saiu da minha boca, desatenta.
_Mano... – ela se irritou – ...cê é tão filha-da-puta às vezes, sabia?! Acho que cê nem percebe, puta merda!
_Calma, meu. Não foi isso que eu... – vi a Rô levantar e começar a vestir a calcinha – Caralho, volta para a cama, Rô. Não é isso!
_Em quem você tava pensando?
_Em ninguém!
_Me responde! – a situação saiu subitamente do controle – Gostar de quem, então?!?
_Mano, para. Peraí, vai... Porra, de ninguém, qual é!
_EU QUERO SABER!
_DE NINGUÉM, MEU!
_Você é inacreditável...
_EU?! O QUE EU FIZ? – subi de novo o tom de voz, também – Tava aqui na minha, pensando em qualquer merda, mas que inferno...
_Bom, você pode ficar “na sua” sozinha.
 
Respondeu já vestindo a blusa de qualquer jeito, como se quisesse sair o quanto antes do meu quarto. Passei as mãos no rosto, sem acreditar que tinha me metido naquela discussão sem pé, nem cabeça em plena madrugada. Entre uma peça de roupa e outra, a Roberta mal olhava na minha cara, furiosa.
 
_Rô... Rôôô... Rô, olha para mim... Roberta!
 
Mas que droga. Por que eu fui abrir a boca?
 
_Rô, me escuta, eu não quis dizer isso. Eu não tava pensando em ninguém! Mano, eu tava só... Sei lá! – comecei a me explicar, sem acreditar naquilo – T-tava, tava pensando em gostar de mulher no geral. Foi o jeito de falar! Caralho, não fiz nada... Cê vai mesmo fazer essa ceninha toda, porra, às 3 da manhã?
_CENINHA?!
 
Ela arregalou os olhos, ofendida. Merda.
 
_Rô, desculpa. Me escuta...
_Não. Não vou escutar. Não vou, tem sempre alguém. Sempre! Eu não sei por que DIABOS eu continuo saindo com você! Porque tem sempre alguma garota, outra babaca melhor para você pensar CINCO MINUTOS DEPOIS DE ME COMER! PORRA! QUAL É SEU PROBLEMA?
_NÃO FOI ISSO QUE ACONTECEU!
_Olha, quer saber? Que se dane. Sinceramente eu tenho pena de quem quer que seja, porque se relacionar com você é impossível! Eu cansei dessa merda.
_Roberta... – me levantei, abraçando-a quase à força – ...para, meu, não faz isso.
_Eu não devia ter vindo – balançou a cabeça, com os olhos marejados – Eu sou uma IDIOTA!
_Não! Claro que não. Para com isso. Porra, linda... Não tem nada a ver! Eu juro, eu não estava pensando em ninguém.
_Como você pode falar isso pra mim, mano? Depois de me chamar aqui?! Que não sou eu?!?
_Eu me expressei mal, e-eu não sei por que falei daquele jeito. Me desculpa. Não era isso! É sério. Eu não quis dizer que tava pensando em outra pessoa. Eu s-só... meu, dois segundos antes eu tava lá, olhando pra você sem roupa, o corpo no meu, e comecei a brisar sobre, s-sobre como é bom estar com mulher, gostar de mulher. Ser sapatão, sei lá! Pensei que é bizarro que existam minas héteros. Não sei. EU NÃO TAVA PENSANDO NADA COM NADA! Me desculpa. Fiz merda, Rô. Por favor, me perdoa.
 
Faço tudo errado, mas que droga, a abraçava sem desviar dos seus olhos, arrependida. A Roberta suspirou – a verdade é que uma única resposta minha vinha carregada de tantas outras. Apoiou a cabeça no meu colo, com os braços em volta de mim.
 
E o quarto ficou em silêncio de novo.

fevereiro 03, 2010

O meu problema

É que eu gosto de arranjar sarna pra me coçar.

MSN

.   diz (23:38):
e ai, meu...
q ta fazendo? :)
 
[ B e r t a ] diz (23:39):
oi
td bem?
nossa.. achei q tivesse te assustado d vez
 
.   diz (23:39):
rs
de onde c tirou isso, ro?
 
[ B e r t a ] diz (23:40):
ahh sei la, vc saiu correndo no gloria
nem tive a chance de falar nd
 
.   diz (23:40):
falar oq?
 
[ B e r t a ] diz (23:43):
naum sei.. faz tempo, neh?
hhuahuahaua
 
.   diz (23:46):
liga a cam
qro te ver..
 
[ B e r t a ] diz (23:46):
naum da.. to no laptop, naum tem webcam.. so no pc
 
.   diz (23:46):
entao vem pra ca.. :-p
 
[ B e r t a ] diz (23:47):
vc eh uma figura!! hhashausahuahsua
maaano sabe q hrs sao???
 
.   diz (23:47):
qual o problema? vc n ta dormindo
 
[ B e r t a ] diz (23:49):
mas naum vou pegar o carro e ir ate a paulista essa hr!! huahauahau
meu serio.. eu trabalho amanha
 
.   diz (23:50):
eu tb
isso nunca foi problema pra gnt, foi?
vem ai, po...
 
[ B e r t a ] diz (23:51):
vc eh doidaa hhuahuahauaha
 
.   diz (23:51):
ta. deixa quieto entao..
 
[ B e r t a ] diz (23:52):
:(
 
[ B e r t a ] diz (23:54):
naum,pera.. qr saber..
aff naum acredito q to fazendo isso
ta olha, eu vou.. mas me espera ai heim
 
.   diz (23:54):
claro q espero
 
[ B e r t a ] diz (23:54):
naum vai dormir hhuahauhauaha
 
.   diz (23:55):
jamais.. rs
 
 
 
fiona_apple_mistake.mp3

fevereiro 02, 2010

Maldita dicotomia

Deitei a cabeça no travesseiro e dobrei as pernas, com os pés descalços apoiados sobre a cama. Estava inquieta. Acendi um cigarro e passei a mão no rosto, de barriga pra cima – odiava brigar com o Fer. Me fazia um mal tremendo. Nossos estranhamentos sempre foram motivados pelo desgaste cotidiano, nunca por uma razão realmente válida. E por mais idiotas que fossem nossas tretas, uma vez começadas ninguém pedia desculpas.
 
Orgulho em excesso, pois é. Transbordando pelas janelas daquele apartamento.
 
A minha raiva por vê-lo dar em cima da Júlia sequer fazia sentido. Não suportava a ideia dele machucando a Mia, mas também nunca fui altruísta a esse ponto. O Fer perdeu a noção, pensei. Quem preferiria aquela playmobil à Mia? Quem preferiria qualquer garota à Mia? Talvez eu só quisesse descontar nele o meu rancor, não sei. Devia era agradecer, revirei os olhos, não sair armando barraco. Levei a mão mais uma vez até o rosto e traguei novamente, encarando o teto.
 
É. De uma forma ou de outra, o Fer era o problema. O namorado, o empecilho, a pedra no meio da porra do caminho. Mas desejar o fracasso do relacionamento deles era egoísta demais – até para mim. Não queria que isso. Nunca quis – nem por um segundo. Gostava demais dos dois para desejar qualquer mal a eles. A mera perspectiva de que ficassem juntos para sempre, por outro lado, me apertava o coração.
 
Não era tão simples. Antes dos beijos e das conversas cochichadas no corredor, eu estava conformada com a ideia de nunca ter a Mia. Agora, a possibilidade era insuportável. Me sentia dividida: se ficasse com ela e o Fer descobrisse, ele ia me matar. E se eles continuassem juntos, eu provavelmente começaria muitas outras brigas como aquela e acabaríamos nos matando de toda forma. Ou seja, a previsão não era muito melhor do que o fim dum filme do Tarantino. E eu definitivamente não queria perder a cabeça amizade com o Fer. Menos ainda por uma garota.
 
Só que não é qualquer garota, meu coração contestou, é a Mia.
 
Argh. Senti um incômodo. Tentei me ajeitar no colchão, mas sabia que o problema não estava na cama. Nem no travesseiro. Isso não vai dar certo, suspirei. Eu sabia que não ia conseguir dormir, não por algum tempo. Apaguei o cigarro, me levantei e andei pelo quarto – já era quase meia noite. Sentei na cadeira do computador e liguei o MSN, apoiando os pés na mesa. Aí fui passando pelos nomes na minha lista, meio bêbada.

fevereiro 01, 2010

Desastre

Quando atingimos a marca do oitavo ou nono chopp, eu já estava consideravelmente fora de mim. Olhei na direção do Fer e o vi ali, completamente bêbado, debruçado sobre a tal da Júlia. Numa intimidade que beirava o perigo. Ambos riam de qualquer coisa, próximos demais. Abaixei o olhar e vi a mão dele apoiada na perna dela. Ah, desgraçado. Levantei imediatamente, tomada por uma revolta infundada, e fui até eles. Puxei o Fernando para fora da mesa, fazendo com que me seguisse até a lateral do bar.
 
E assim que nos afastamos de todos, me virei na sua direção:
 
_O que diabos cê tá fazendo??
_O que diabos VOCÊ tá fazendo? – ele retrucou, sem entender porra alguma.
_COM AQUELA GAROTA, FERNANDO!
_Nada, caralho. Tamo conversando!
_CONVERSANDO?! COM A MÃO NA PERNA DELA?
_QUAL É O SEU PROBLEMA, PORRA?!
_E a Mia? – o encarei, furiosa.
_O que tem a Mia?!
_Como o que tem, mano?!
_Velho, eu não tô fazendo nada! – contestou – Me deixa...
_CÊ TÁ PRATICAMENTE COMENDO A MINA NA FRENTE DE TODO MUNDO!
_E POR QUE CÊ SE IMPORTA, CARALHO?
_PORQUE A MIA NÃO MERECE ESSA MERDA!
_Mano, qual é a sua?! Juro que não entendo... – ele riu, contrariado – Cês duas vivem brigando, porra, agora cê vai agir como se desse a mínima e vir com esse discursinho para cima de mim?!?! É de foder!
_Quê?! A gente não vive brigando! – me indignei – De onde você tirou isso?
_Sei lá, porra! Primeiro ela tá falando com você e depois não tá mais falando e aí vocês são melhores amigas de novo e depois brigam e então fazem as pazes… – começou a resmungar, bêbado – Nunca vi tanto drama!
_E o que isso tem a ver com a Júlia, mano?!
_NADA! Essa é a questão! – ele riu, nervoso – Por que cê tá tão brava, meu?
_Só não quero que você faça nenhuma besteira.
 
Cruzei os braços, no auge da minha hipocrisia.
 
_Besteira? VOCÊ não quer que eu faça alguma besteira? Falou a integridade em pessoa!
_Cê tá bêbado, Fernando…
_VOCÊ TAMBÉM TÁ!
_BOM, PELO MENOS, EU NÃO TÔ ME JOGANDO EM CIMA DE UMA IDIOTA QUALQUER!
_É! POIS É, O QUE ACONTECEU? TÁ DOENTE POR ACASO?! – tirou com a minha cara – Porque, olha, não faz muito o seu tipo...
_Vai se foder.
_MANO, VAI SE FODER VOCÊ! POR QUE CÊ TÁ BRAVA COMIGO? NÃO FIZ NADA, CARALHO!
_AINDA, NÉ?! AINDA!
_CUIDA DA SUA VIDA, MANO!
 
Fiquei quieta. Ele tinha razão – eu devia mesmo cuidar da minha própria vida e não ficar me metendo na dele. Não sabia por que estava tão irritada de ver ele se engraçando com alguma ex qualquer. O problema era que eu conhecia o Fernando e sabia que ele não era a pessoa mais confiável do mundo quando se tratava de autocontrole e Júlias-da-vida. Aquilo era sacanagem com a Mia e eu sabia.
 
O que eu não entendia era como eu – logo eu – me incomodaria com um possível problema no relacionamento deles. Eu devia tá incentivando, pensei. Mas eu simplesmente não conseguia. Parte de mim não queria que a Mia passasse por isso. Que ironia, não é?
 
_Eu quero ir embora. Agora. E você vai junto – decidi.
_Tá, que se dane! Cê já estragou essa bosta mesmo...
 
Entramos no carro, batendo as portas. E não trocamos uma só palavra até a Frei Caneca.

Old school

Na quinta-feira, foi a comemoração do aniversário do Marcos. O cara era um dos melhores amigos do Fer – nós três estudamos juntos – e esse era um dos únicos motivos que me fariam pisar num barzinho hétero da Vila Olímpia por escolha própria. Poucas coisas nesta vida me dão mais preguiça do que os publicitários e os jovens empresários da Berrini amontoados em um só lugar. Cruzes.
 
Pra variar, eu estava sem grana para comprar um presente. Então descolei uma fotografia cool nas sobras do estúdio e escrevi um pequeno depoimento – de coração – por cima da imagem, usando-a como cartão. O Fer passou para me pegar no trabalho e fomos de carro até lá. Ao contrário de mim, ele levava um pacote quadrado e fininho embrulhado no banco de trás. Algum vinil raro, presumi. Depois do Fernando, o Marcos era provavelmente o segundo maior colecionador entre nossos amigos.
 
Chegamos com um atraso significativo no bar, ainda que eu e o Fer tivéssemos nos empenhado em afugentar todos os pedestres e demais motoristas do nosso caminho – com palavrões aos berros e gestos obscenos. É. O Fer era um tanto quanto “esquentado” no volante e eu me juntava aos resmungos por diversão. Apesar das muitas buzinas, todavia, a nossa entrada triunfal no aniversário ainda aconteceu uma hora após o início do happy hour.
 
A mesa estava lotada. Aquilo parecia uma viagem ao passado – incluindo todas as garotas que eu havia corrompido durante o colegial, agora sentadas ao lado dos seus respectivos namorados. Também estavam lá todos os nossos amigos antigos, ex-punks convictos e atuais assalariados responsáveis. Ou quase.
 
Com exceção do aniversariante da noite e alguns poucos, a maioria ali não me interessava muito. Já o Fer rapidamente se mostrou interessado na garota sentada ao seu lado – a idiota da Júlia, uma ex-namorada que ele não via há um tempo e de cuja existência me recordei com bastante desgosto. Era um antigo “grande amor” do Fer que tentou afastar ele de todas as suas amigas mulheres, o que me incluía. Para piorar, a infeliz tinha se tornado uma dessas minas indies, sabe, com alargadores pequenos e o corte de cabelo Playmobil. Que ranço.
 
A noite estava só começando. Começamos a beber para alcançar os demais e, por algum tempo, as conversas saudosistas na mesa me distraíram – mas algo começou a me incomodar.