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fevereiro 23, 2010

Lei de Murphy

Sua respiração falhou como ondas quebrando nas pedras.
 
P u t a q u e p a r i u.
 
Aquele foi o melhor orgasmo da minha vida – o dela.
 
Perdi a cabeça. A noção do tempo, de tudo. Onde eu parei? Ah, é... No meio das pernas da Mia. Senti as suas mãos no meu cabelo, apertando-me com força contra seu corpo. E subi as minhas para o seu quadril, a puxando na minha direção. Prolongando a sensação. Podia ouvi-la perder o fôlego. As suas pernas tremiam. E ela se contorcia no sofá, tentando não fazer barulho. O formigamento se espalhava sob a sua pele, como a água escorrendo de volta para o mar. O seu gosto em mim.
 
E aí tudo desacelerou, flutuou.
 
Mas eu, mal esperei que se recuperasse, eu quero mais, garota. E insistente, subi pelo seu corpo, nuns beijos que a empurravam quase além do que aguentava. Ela estava inteira arrepiada. E eu não conseguia parar. A minha boca me denunciava, a fissura pela sua pele. Cada toque irradiava pelos seus poros, a ressaca depois da chuva. Um oceano de vontade. Até então, a Mia não havia encostado um só dedo em mim. Parecia não sabia direito onde colocar as mãos. E eu achava certa graça na sua heterossexualidade toda. Quanto mais minha boca subia, todavia, mais ela parecia querer. Coloquei uma perna de cada lado do seu corpo e tirei a minha camiseta. Ela desceu o olhar por mim, ainda ofegante – num misto de curiosidade e tesão. Nem um pouco hétero. E eu me inclinei para frente para beijá-la. O problema é que a droga da camiseta continuava na minha mão, preciso me livrar disso. Então, sem pensar, me inclinei de novo para trás e joguei aquele pano inútil para longe, no meio da sala escura.
 
Que idiota.
 
A blusa mal encostou no chão e, metros adiante, alguém acendeu a luz do corredor. Merda. Mil vezes merda. Me arrependi na mesma hora, me sentindo uma porra duma iniciante. A Mia me olhou, desesperada, e eu saí de cima dela em velocidade recorde. Nos atrapalhamos um pouco pela sala, ainda meio bêbadas de cerveja e adrenalina, nos trombando umas duas ou três vezes até conseguirmos nos vestir. E paramos em pé no meio da sala, descabeladas, recuperando o fôlego; camisetas ao avesso.
 
Tudo em menos de 10 segundos.

Agora agüenta...

"If people were rain,
I was drizzle and she was hurricane"
 
—via Tumblr, Looking For Alaska

fevereiro 22, 2010

Meia-noite

A essa altura, eu já havia perdido os bons modos. E todas as sutilezas. Que se dane. Lá estava ela, a mulher que eu queria. A Mia. Em cima de mim, as pernas descobertas e a boca no meu ouvido. Acho que nunca senti tanta..., meu deus. A água subia. E eu mal conseguia respirar. Assim que disse aquelas palavras, afundando a minha mão entre suas pernas, a minha língua percorreu o seu pescoço. Até morder a sua boca e a beijar, era como desembrulhar um presente pelo qual você aguardou a vida toda. Você não quer tirar fita por fita, remover cuidadosamente o papel e dobrá-lo num canto para reutilizar no próximo pacote.
 
Ah, não.
 
Você quer rasgar a porra toda.
 
E eu o fazia – a beijava como se nunca tivesse saciado a minha fome em outras garotas. E de fato, não tinha. Não era suave. Era sal e pressão e uma sensação vertiginosa de ser arrastada, assim, para o fundo. O mais fundo do mar. Você mal consegue suportar. A curva do seu pescoço, a umidade entre as suas pernas, arrastando os dentes na ponta do seu queixo e encaixando em seguida a minha boca na sua. De novo e de novo. Com a voracidade de quem quer mais, até se afogar. Nossos beijos se intensificavam, nuns exageros bêbados. A Mia me apertava para junto dela, perdíamos a mão. Deslizei as minhas pelas suas coxas até a sua cintura, levantando a sua blusa. O tecido escorregou por cima da sua cabeça e eu o segurei contra as suas costas, abraçando-a descoberta. Ela me mordia de volta, machucando os meus lábios. Como quem realmente sabia pegar pesado.
 
E sinceramente? Se tivesse com mais roupa do que por sorte estava, não teria restado uma inteira no chão. Nem dela, nem minha. Podia sentir a sua respiração oscilar. A Mia se movia contra o meu corpo como a corrente, constante e intensa, forte o suficiente para devastar o mundo ao meu redor. Os meus pulmões, a minha pele. Tudo que restasse. Dezenas de flores de cerejeira desciam pelas suas costas. Até a lateral da sua barriga. Enchi as minhas duas mãos com suas curvas – e num atrevimento indecente, desci uma delas. Escorregando os dedos sobre o tecido já molhado da sua calcinha. Naquele vai e vem. Não conseguia tirar os olhos, a boca e todo o resto de cima dela. Ela me beijava com um tesão gostoso, me apertando com força. Os meus dedos encontravam caminho por dentro da calcinha. Num só movimento, virei-a contra o sofá e fiquei por cima.
 
_V-você não acha que... – ela me interrompeu, de repente.
_Mia, na boa – eu ri, beijando cada centímetro da sua pele – Cala a boca.
 
A sua respiração oscilou, ansiosa, conforme eu descia os lábios pelo seu corpo. Me deixa acalmar essa confusão dentro de você, garota. Ela me olhava de volta, fixamente. Todos os sentidos à flor da pele – eu sabia o que ela estava sentindo. Já tinha passado por aquilo. E queria mostrar como fazer para a tempestade passar. Confia em mim. Mas o seu olhar não desgrudava do meu. Atenta. Descendo comigo até a altura do seu umbigo e então mais embaixo. A Mia mordeu a boca, num nervosismo visível, acompanhando cada movimento. Lambi por cima do tecido, a maré alta. Lua cheia. E coloquei a sua calcinha para o lado, a sua respiração acelerou. Os olhos dela se fecharam. E os meus dedos deslizaram lentamente para dentro. Os subi então até a minha boca, molhados, lambendo o seu gosto antes de começar.
 
Pois é, baixaria. Eu sei.

Metáforas

Sabe quando você decide o que quer de Natal e ainda é julho?
 
Então, você espera. Chegar agosto e aí setembro e depois outubro e só após muito, muito tempo novembro? Pois bem. Dezembro. Você se acalma. Acha que está quase lá, não falta tanto, mas daí vêm aqueles 24 dias lentos de verão que parecem não passar nunca. Dia 1, 2, 3... 14, 15, 16... 21, 22, 23... Chega a porra do dia. Sua mãe coloca os presentes embaixo da árvore e você olha um por um, até achar o seu – a caixa é exatamente do tamanho do que você tanto desejou. Maravilha, você pensa, se animando por um instante. Mas a verdade é que você está sofrendo – sofrendo duma antecipação cruel. A espera é devastadora. O resto da família chega aos poucos. Vocês conversam, por horas – e o presente lá. Vocês começam a pôr a mesa, na velocidade de uma tartaruga manca ladeira acima – e o presente lá. Vocês jantam, prato por prato – e o presente lá. Aquela porra não acaba nunca, você já está quase socando a comida estômago adentro para terminar logo – e o presente lá. Vocês saem cheios da mesa, os estômagos enormes, e o babaca do seu tio resolve reunir todo mundo na cozinha para algumas piadas idiotas – e o presente lá. Eis que surge o Papai Noel, aquele benfeitor desgraçado filho de uma égua que não para de falar. Pirralho por pirralho, até o fim daquela sacola imensa – e o presente lá. Você não está mais se aguentando, já perdeu toda a paciência, não consegue mais se segurar de ansiedade e a sua mãe tem a pachorra de lhe dizer que os pacotes embaixo da árvore são só para “depois da meia noite”. São dez e meia. Dez e meia. Você perde a cabeça, grita com a sua mãe, diz que vai abrir de qualquer jeito e a família inteira te condena. Qual é. Onze horas – e o presente continua lá. Te chamando, te provocando. Te deixando louca, vai tomar no cu. Você tenta se distrair. Faz de tudo, espera uma eternidade para olhar novamente no relógio. Aí olha. Onze e meia. Arghhh! Fala sério?! Onze e quarenta. Onze e quarenta e cinco. Onze e cinquenta. Onze e cinquenta e cinco. Onze e cinquenta e seis. Onze e cinquenta e sete. Onze e cinquenta e oito. Onze e cinquenta e nove. Onze e cinquenta e nove. Onze e cinquenta e nove. Ainda onze e cinquenta e nove? Onze e cinquenta e nove, onze e cinquenta e nove, onze e cinquenta e nove... Onze e cinquenta e nove. O minuto mais longo da história se prolonga, irritantemente, e quando você olha de novo as horas – são onze e cinquenta e nove, ainda.
 
Puta que pariu.

fevereiro 19, 2010

De volta ao sofá

_Quão pesado os seus pais dormem?
 
Perguntei, entre um beijo e outro, me agarrando com a Mia em meio à sala.
 
_Bem pesado – ela respondeu, ofegante – Mas a gente... – emendou, antes de outro beijo – ...a gente não pode fazer barulho.
_Olha, vai ser meio difícil...
 
Joguei-a contra o sofá, ainda em pé na sua frente.
 
_Um pouco convencida, não acha? – a Mia riu.
_Não foi isso que eu quis dizer – revirei os olhos e me dobrei para frente, segurando-a com as duas mãos – Se bem que... – a beijei, falando entre um beijo e outro, com o meu joelho apoiado sobre o sofá – ...veremos, né.
 
Ela riu, indignada, me dando um tapa no braço. E a beijei de novo. Suas mãos seguraram o meu rosto e eu a puxei novamente na minha direção, subindo em cima dela. Rolamos pelo sofá. Ela ficou em cima. Colocou uma perna de cada lado do meu corpo, numa camiseta velha do Concrete Sox. Puta que pariu. Ela se abaixou para me beijar e eu empurrei as suas coxas, fazendo com que se encaixasse direito. Nuns beijos que começavam como a maré subindo. Entrelaçou os dedos no meu cabelo, me segurando com vontade. E eu subi as mãos por debaixo da sua camiseta.
 
_Espera, espera... – a Mia hesitou, tirando as minhas mãos – E se alguém pegar a gente, meu?
_Ninguém vai pegar a gente... – achei graça – ...vem cá.
 
São três e meia da manhã.
 
“É sério”, Mia me beijou de volta e eu murmurei, “relaxa”. “Não consigo”, ela riu. . Recuei e me apoiei nos meus cotovelos – “olha, nós somos minas”, argumentei, “e minas tão juntas o tempo todo... eu usei essa desculpa a minha adolescência inteira”.
 
_Mas os meus pais tão logo ali no quarto!
_Esse apartamento é imenso, meu. E outra, mesmo que seus pais entrassem aqui... Eles vão achar que a gente tava fazendo qualquer outra coisa, não vão suspeitar de uma amiga que você trouxe para passar a noite com todas as outras.
_Eles vão, sim... – ela riu – ...se a amiga for você.
_Ah, é? – levantei as sobrancelhas, rindo – E o que isso quer dizer?
_Você sabe o que quer dizer.
_Quê?! Eu sou sapatão demais para ser só sua amiga?!
_É... – a Mia fez graça, mordendo a ponta da língua – ...mas eu gosto.
_Gosta?
 
Ela curvou o corpo e se aproximou, descendo a minha mão até a sua calcinha molhada, cochichando no meu ouvido – “me diz você”.
 
Ah, garota. Você não devia ter feito isso.

Encontros e desencontros

Perdi a conta, e a cabeça.
 
Não faço ideia de quanto tempo ficamos ali. Num beijo atrás do outro, no maior silêncio que conseguíamos. Aí outro. E mais dez, vinte minutos. Numa dificuldade cada vez maior de não fazer barulho. Meu deus, me faltava o ar e eu sentia os nossos lábios se encostando de novo. Repetidas vezes. Nos perdíamos no colchão e nos encontrávamos, mais uma vez, como se nossas bocas soubessem o caminho uma até a outra no escuro. Instintivamente. E o meu coração doía com o que os meus lábios não eram capazes de dizer – eu sou completamente apaixonada por você, garota.
 
Para a Mia, eu provavelmente não passava de uma aventura que ela curtia pelos cantos do meu apartamento com o Fer. Um flerte. Uma brincadeira boba em uma festa de pijama. E eu sei – tá. Mas naquele momento, eu não me importava. Beijava-a com toda vontade que tinha dentro de mim. E nessas, tentava trazê-la para cima do meu corpo, vez atrás de outra. Mais uns beijos. Fazia um movimento para cima dela e ela me empurrava de volta para o colchão, rindo. Puxava-a contra mim e tentava virar de novo, mas caía sozinha encostada na cama. Droga. A Mia persistia ali, perpetuamente do meu lado. Mas com a boca invariavelmente na minha.
 
_Vem aqui... – eu sussurrava e a beijava de novo, pressionando-a contra o lençol, subindo em cima dela com as mãos na sua cintura, entre as suas pernas, tanto faz.
_As meninas vão ver... – ela ria e me empurrava de volta.
_Elas tão dormindo, Mia... – a persuadia – ...vem cá.
_Não, não... Não.
 
Fazia graça. E cada beijo fazia as minhas coxas se contorcerem. As dela também. Acho que não passava tanta vontade assim do lado de uma garota desde, sei lá, o ensino médio. Encostei as costas no colchão, respirando fundo, e passei as mãos no rosto. Tentando recuperar o fôlego. Isso vai acabar comigo, suspirei. Aí os dedos da Mia tocavam a pele entre a minha cueca e a camiseta, deslizando a mão lentamente, ensaiando entrar ali, e o meu corpo todo tremia. Caralho. Ela me abraçava pela cintura e voltava a me agarrar, nuns beijos cada vez mais molhados. Caralho. Caralho. Mas me afastava. Puta merda. Toda vez. Para depois encostar a boca no meu pescoço e vir, me torturando de novo.
 
_Meu, n-não dá. Não dá mais – levantei de repente, numa tentativa esfriar a cabeça – Olha, eu... e-eu vou pra sala. Eu vou dormir lá, tá?
 
A Mia se apoiou na cama, me olhando surpresa. E eu saí. Fechei a porta atrás de mim, deixando-a no quarto. Cacete. O corredor estava ainda mais escuro e a casa completamente morta, o silêncio dominava todos os cômodos. Deitei no maior sofá da sala e esperei ali, sozinha. Nada se movia. Pelo amor de deus, desejei, só vem. Não me deixa aqui sozinha. A ansiedade me consumia violentamente. E as minhas mãos judiavam do meu cabelo, segurando-o entre os dedos no topo da cabeça, tentando conter os ânimos. Em vão. Encarava fixamente o corredor.
 
E a Mia não aparecia. Devia ter ficado lá, me arrependi no segundo seguinte. Do que diabos eu tô reclamando? Devia tá de joelhos por essa mina, só por ela tá me beijando assim. Mas logo todo meu conformismo sucumbia à ideia de estar efetivamente de joelhos entre as suas pernas. Meu deus, eu ri, sozinha, olha a ganância. Decidi então que precisava mesmo era de um cigarro. O único problema é que eu havia deixado o meu maço no quarto – junto com as minhas calças e a vergonha na cara. E não queria voltar para pegar.
 
Vai parecer que eu fui lá fazer ceninha, hesitei. Não ia pegar bem. Se a Mia não ia mesmo vir para a sala, o melhor era não encontrar com ela de novo. Não queria que se sentisse pressionada – o problema é que eu realmente precisava de um cigarro. Argh. Me levantei, após alguns segundos de indecisão. Se eu for rapidinho, talvez ela nem note? Fui na direção do corredor e, do nada, trombei com a Mia no meio do caminho. Literalmente nos trombamos – o meu corpo esbarrou no dela, desajeitadamente. No breu. Estava escuro demais para enxergar qualquer coisa.
 
_O que cê tá fazendo?!?
_Eu ia pegar um cigarro... – cochichei de volta – O que você tá fazendo?!
_E-eu ia te encontrar. Não era... – relutou, como se tivesse feito algo errado – ...p-pra te encontrar?
_Sim – sorri, aliviada – Claro que sim.
 
Ela veio.

fevereiro 18, 2010

No escuro

Ficamos quietas pelo que me pareceu uma eternidade. Todas as luzes estavam apagadas. A Mia tinha arrumado os colchões no chão do seu quarto e o meu estava ao lado da sua cama. Duas garotas foram embora e as outras três capotaram numa rapidez que só era possível dada a quantidade abismal de cerveja consumida nas horas anteriores. Eu estava exausta também – mas o meu coração não me deixava dormir. Restava agora saber se o álcool teria o mesmo efeito na Mia que teve nas amigas ou se, como eu, ela também não conseguia pregar os olhos.
 
Então esperei. Não posso parecer desesperada, hesitei, insegura. E continuei ali, deitada, olhando para a luz que vinha da janela. Os minutos se prolongavam. E eu estranhava o quão silencioso era aquele apartamento – acostumada a dormir num quarto que, todas as noites, era invadido pelos ruídos ensurdecedores de carros e viaturas e viados e a juventude porralouca que ocupava os bares da Augusta. A calmaria dos bairros residenciais me inquietava. Me sentia como se tivesse 15 anos de novo, deitada no meu quarto, numa rua excessivamente tranquila em Santo Amaro.
 
Foi quando ouvi um barulho.
 
Do nada, como se alguém se mexesse no escuro, na minha direção. Olhei para cima, mas ela não veio. A sua cama continuava a mesma, a poucos centímetros acima de onde eu estava deitada. Estática. A única diferença é que agora a mão da Mia pendia no ar, ali, sobrando para fora do colchão. Quase em cima de mim. Observei os seus dedos no escuro, contemplando a forma como a luz que vinha da rua tocava a sua mão discretamente. E o meu coração acelerou. Me senti uma idiota, como se estivesse na terceira série e quisesse pegar na mão de alguma garota da minha classe – sabe aquele medo bobo e infantil? Pois é. Parada ali, completamente imobilizada, olhando para os seus dedos, o seu pulso suspenso no ar. A que ponto eu cheguei, suspirei. E me forcei a engolir a minha ansiedade. Eu consigo fazer isso.
 
Levantei o braço e... segurei sua mão.
 
Nisso, ouvi a Mia falar baixinho no escuro – “você tá acordada?”.
 
_Tô...
 
Ficamos em silêncio por um instante. A sua mão entrelaçada na minha. Em meio ao breu. Então tomei coragem. Ergui o corpo e sentei no meu colchão, prestando atenção se alguma das outras garotas se movia, se haviam ouvido. E sem fazer o mínimo ruído, subi na cama da Mia. Às escondidas. Me deitei ao seu lado e os olhos dela me encontraram no escuro. Ela se moveu para perto de mim e apoiou a cabeça no meu ombro, enquanto eu colocava o braço ao seu redor. Senti o seu sorriso contra a minha camiseta. E as nossas mãos se entrelaçaram de novo.
 
_Gostou de hoje? – cochichou, para que apenas eu escutasse.
_Muito.
_Você devia vir mais vezes...
_Todas as que você quiser – respondi, baixinho.
 
E desci a mão pelo seu rosto, a admirando.
 
_Você... – sussurrou – ...v-você faz eu me sentir estranha.
_Estranha?
_É. E-eu... fico nervosa quando, q-quando tô com você.
_Eu também.
_Mas é diferente. E-eu, sei lá... – confessou – ...não sei o que fazer, como agir. Me sinto uma criança, às vezes.
 
Comecei a rir, em silêncio.
 
_O que foi?
_É que eu tava pensando isso, nem cinco minutos atrás.
_Você? – me olhou de volta, eu conseguia ver apenas alguns de seus traços no escuro – Por quê?
_Porque eu queria segurar a sua mão e não sabia como.
_Mas agora você tá segurando...
_Agora eu não tô mais nervosa – cochichei.
 
E me aproximei do seu rosto, encostando a pontinha do meu nariz no seu. Meu rosto se inclinou lentamente, como se deslizasse pelo seu. Nossos movimentos ocultados pelo breu. Senti a sua respiração morna e fechei os meus olhos, num beijo em segredo.
 
E é. Era mentira – eu tava nervosa pra caralho.

fevereiro 16, 2010

Infalível?

Olhei no relógio da televisão e já eram mais de 2 da manhã. As garotas estavam deitadas ao redor de uma panela de brigadeiro feita dez minutos antes, num clichê que transparecia o outro lado das suas personalidades, fofocando sobre um cara que eu desconhecia. Uma delas saiu com ele por um tempo na faculdade. Tagarelavam todo tipo de baixaria e eu observava a conversa de cima do sofá, fumando perto da janela. Os meus olhos se direcionavam obsessivamente à Mia, pensando no que disse horas antes.
 
“Talvez”.
 
A possibilidade me consumia, numa fixação que ocupava cada segundo da minha presença naquele apartamento. Precisava descobrir o que diabos a Mia quis dizer com “talvez”. E precisava descobrir logo. A minha estratégia era infalível. Isso tem que dar certo, implorei mentalmente. Esperei que ficasse sozinha e casualmente puxei assunto, sem as suas amigas por perto. A Mia estava colocando a panela suja na pia e eu me aproximei, me apoiando na bancada.
 
_Sabe, eu tô com um problema...
_Eeeiiita – ela falou prolongadamente, bêbada, distraída com a torneira – O que é?
_Bom, como você sabe, o metrô já fechou...
_É.
_E também não tem ônibus...
_Não.
_E não tenho como voltar até a Paulista a pé, né...
_Ai! Quer que eu veja se alguma das meninas pode te dar carona?
 
Não, Mia. Obviamente que não.
 
_Na verdaaade... e-eu estava pensando se eu não podia... – ela levantou as sobrancelhas, finalmente percebendo as minhas intenções – ...sei lá, dormir aqui, talvez?
_“Talvez”?
 
A Mia riu.
 
_É. Talvez.
_Sei.
_E aí, que cê acha?
_Olha, você até pode, o problema... – ela me olhou, contendo um sorriso – ...é só que... – segurou suavemente na barra da minha camiseta – ...você não foi a primeira a pedir.
_Cê tá zoando – ri.
_Não. Eu e você... – continuou, puxando a minha camiseta de leve – ...vamos ter que dividir o quarto com a Laura... e a Gi... e a Mi também.
 
Merda. Não consegui esconder minha decepção. E a Mia se divertiu com a frustração que rapidamente tomou o meu rosto – é disso que cê gosta, né, desgraça?, pensei. De me ver sofrer. E não que eu me orgulhe das minhas intenções ali. Mas, inferno, precisava virar a porra da festa do pijama?

fevereiro 12, 2010

Catfight!

Ao final das lutas e de todas as bebidas que conseguimos achar naquele apartamento, nos encontrávamos numa brisa boa, caídas no tapete felpudo do quarto de televisão. O que eu não daria por um baseado agora. Todas as meninas estavam descalças e deitadas, olhando para o teto enquanto a gente conversava, à toa. Algo sobre quem sobreviveria mais tempo num apocalipse zumbi. Coisa da Mia. Foi quando uma das suas melhores amigas, a Michelle, sugeriu a si mesma como a resposta óbvia.
 
E deu-se início a uma gritaria.
 
“Você não consegue matar nem uma barata”, “não ia durar dois dias”, “cê sabe que não ia ter delivery, né?”, “cala a boca” – as acusações voaram. Todas bêbadas e discordando entre si. Eu só ria, ciente de que seria a primeira a arregar, a pular dum prédio, sei lá. Doar meu cérebro voluntariamente pra não ter que lidar com a ansiedade. Com o intuito de se provar, a Michelle começou uma briga desajeitada com uma outra garota. E as duas começaram a rolar pelo tapete, nos atropelando, numa demonstração gratuita de violência que nos obrigou a levantar e dispersar.
 
Me sentei mais adiante no chão, ao lado da Mia, apoiando as costas de novo contra o sofá. E ficamos observando a disputa, nos divertindo. Era meio de brincadeira, claro, mas elas se desequilibravam e acabavam deferindo golpes reais por acidente. Aí se xingavam de verdade.
 
_Hum – cutuquei a Mia, de olho na briga – A gente devia fazer isso qualquer dia, eu e você...
 
Ela começou a rir. Sem precisar de muito para que soasse como sacanagem.
 
_Tá achando interessante?
_Opa... – fiz graça, me afundando ainda mais contra o encosto – ...se soubesse que ia ter luta de verdade nem tinha me atrasado.
_Ah! Então, quer dizer que cê veio pelas minhas amigas? 
_Não – retruquei – Eu vim por você, Mia.
 
Ela sorriu, satisfeita. E eu quis cavar um buraco para enfiar a minha sinceridade alcoolizada, argh. A briga seguia à toda. A tal da Michelle conseguiu errar um chute e cair sozinha em cima do tapete – e do próprio braço. Ui. Que dor. Com o canto do olho, reparei que a Mia ainda me observava e virei o rosto na sua direção. Ela sorriu mais uma vez, eu perguntei o que era. Ela só balançou a cabeça, como se fosse besteira – “nada”. Hum. Nisso, a outra menina se enroscou com a Michelle no chão de novo, empurrando outra delas, a Laura, que resmungou e entrou no bolo – era mão e perna para todo lado.
 
_Hum. Talvez a gente... – a Mia comentou, baixinho – ...devesse mesmo fazer isso, dia desses.
_Oi? – olhei para ela, na hora.
_Você sabe... – mordeu a pontinha da língua, flertando de leve – ...eu e você, pra ver quem ganha.
_É? – sorri de volta.
_Depende. Cê é boa de luta?
_Olha, não sei... – fiz graça – ...mas, né, eu tento treinar sempre que posso.
_Ah, eu imagino... 
 
Imagina?
 
_Hum – arqueei a sobrancelha – Imagina como?
_Larga de ser tonta... – ela riu e me afastou dela, constrangida – Não desse jeito!
_Aham. Eu sou tonta, mas cê que tá aí querendo brincar de lutinha comigo... 
_Que absurdo! Foi você que começou!!
 
Me deu um tapa na barriga, revirando os olhos, e eu rachei o bico. Mais adiante, suas amigas finalmente começavam a desistir da disputa, se ajudando a ficar em pé. Os meus olhos voltaram de novo para a Mia.
 
_Se eu te chamar, um dia desses... – tomei coragem e perguntei – ...você vai?
_E-eu... – ela hesitou – ...n-não posso.
_E se eu te chamasse hoje?
 
A Mia me encarou por um instante.
 
_Talvez.

fevereiro 10, 2010

Oh, fuck...

She suffocates me,
She suffocates me with suggestion.

(Tricky)