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março 03, 2010

Não é por mal...

Até que, finalmente, a Mia deu sinal de vida: mandou uma mensagem.
 
Mas não para o Fernando, cujo celular – assim como o seu dono, esquecido pela namorada – ficou ao meu lado o tempo todo na sala. O seu telefone não vibrou uma só vez. Nenhuma. O recado era para mim. E só para mim. Nele, a Mia me perguntava simples e direta quais eram os meus planos para aquela noite. Sem beijo e nem sorrisinho – só a pergunta e uma possível segunda intenção.
 
Vou sair com vc”, respondi.
 
Com certa arrogância. E esperei a sua resposta. Olhei para o Fer naquele meio tempo, sentado ali ao meu lado, me fazendo arrepender brevemente. O que eu estou fazendo? Passei o dia me sentindo mal, pensei. Segundos depois, porém, a tela do meu celular piscou com uma confirmação e um sorriso dela – e eu simplesmente esqueci de me sentir culpada.
 
Passo ai as 23h ;)”, digitei e mandei.

março 02, 2010

Os pilantras

_Não sei o que me deu – o Fer reclamou, arrependido – Burrice, só pode!
_Relaxa, meu... O que cê vai fazer? Agora já foi, né?!
_Eu sabia, sabia que tava fazendo merda. Devia ter ignorado, velho. Ela me mandou mensagem ontem e e-eu... Caguei tudo! Burro do caralho. Agora a Jú vai ficar aí cheia de nhé-nhé-nhé para cima de mim, me enchendo o saco e a Mia... Puta merda, vai ser um inferno! – passou a mão no rosto, nervoso – Eu sou um idiota, mano.
_Calma, Fer, também não é o fim do mundo. Foi uma vez. Logo passa... Só não vai dar uma de honesto agora e ir lá contar, meu, a Mia ia ficar arrasada – me estiquei até a ponta do sofá e alcancei o meu maço, tirando um cigarro e o isqueiro lá de dentro – Juro. Eu te arrebento.
_Cê tá doida?! Óbvio que eu não vou contar!
_Acho bom mesmo...
_Mas, porra... Se esse negócio vazar...
_Não vai vazar.
_É, mas se...
_Não vai, cacete!
 
O interrompi, garantindo.
 
_Argh, sei lá. É foda. Vou ter que prestar atenção no que eu falo daqui para frente – ele roubou o cigarro da minha mão e deu um trago – Acho que a Jú não vai fazer nada, né?
_Olha... Daquela ali eu não duvido bosta nenhuma.
 
O Fer arqueou a sobrancelha, rindo. Nós dois sabíamos como tinha sido o relacionamento deles na adolescência – e não foi coisa boa. Ficamos em silêncio por um tempo. Ainda me sentia sonolenta, afundada no sofá fumando.
 
_As suas minas não ficam sabendo, não? – o Fer me observou, curioso.
_Quem? – estranhei, sem entender – Sabendo do quê?
_Como “do quê”?! – riu – Nunca vi ninguém ir e vir de uma para outra que nem você e suas amigas, mano... Sapatão num sossega, velho. Elas não ficam sabendo, não? A Rô? A Aninha? Porque, porra, não é possível!
_Ah, sei lá... Às vezes dá ruim – dei de ombros e fiz graça, piscando – Mas todas acabam voltando para mim.
_Ah! Tá bom! Vai nessa...
 
Ele começou a rir. Era a maior besteira que eu já tinha falado e ele sabia.
 
_Ah, me poupa, Fernando... Você só tá bravinho aí porque quer fazer merda e não aguenta! – provoquei – Agora tá todo preocupado se a namorada vai descobrir...
_Desculpa aê, Rainha do Vacilo... – me zombou.
_Cala a boca, babaca! – dei um soco no seu braço, rindo – Mas, vai, agora falando sério: por que diabos cê foi comer essa mina? A Júlia já tava até com poeira de tanto tempo que cês terminaram. Que raios deu na sua cabeça pra ir mexer nesse rolo, meu?
_Ah, meu... sei lá, é que... faz, o quê? Um ano que eu tô aí com a Mia e... tipo, é só a Mia, tá ligado? O tempo inteiro – nossa, eu te odeio – Daí eu vi a Júlia lá no Marcos e ela tava toda, sei lá, mano, ficou dando mole. E, porra... Não sei, eu não pensei muito na hora! Só queria fazer uma graça. Dar corda para ver onde chegava – ele esfregou o rosto, angustiado – Mas, quando eu fui ver, já tinha feito a merda, meu.
_Sei. E valeu a pena, pelo menos?
_Não – ele riu, dando um trago – Foi um lixo.
_Mano, como você é idiota.
_É – apertou os olhos e me devolveu o cigarro – Mas, e aí? Foi legal lá ontem? O que vocês fizeram?
_Ah, nada. A gente viu as lutas e bebeu, ficou conversando...
_Nossa, a Mia sumiu, porra... Deve ter sido bom o negócio, não?
 
Ah, você não faz ideia.

Enfim

Assistir televisão de fim de semana é suicídio intelectual. Sábado à tarde e nada passando. Não importava quantas vezes eu mudasse de canal. O tédio tava me irritando profundamente, quase mais do que a presença daquela imbecil no meu apartamento – a tal da Júlia estava na cozinha, terminando de tomar café com o Fernando. Coloquei na MTV e abandonei o controle ao meu lado, enquanto tentava dormir ao som de qualquer lixo musical. 
 
Minutos ou horas depois, não sei bem, ouvi a porta abrir e acordei. Olhei para cima e o Fer estava em pé, com uma expressão desconfortável, despedindo-se da idiota no batente. Ela me encarou por um instante, a metros de mim, ainda raiva pela minha grosseria mais cedo. Já vai tarde, pensei e deitei a cabeça de novo no sofá. Eles se beijaram, pelo que pude ouvir, mas não consegui distinguir de olhos fechados se foi significativo ou não. A porta se fechou.
 
Só nós dois novamente. Constrangedor.
 
O Fer sentou do meu lado, a alguns centímetros dos meus pés, e suspirou. Abri os olhos e o encarei por um tempo. Senti dó, por algum motivo totalmente incompreensível e desconhecido a mim, mas senti. Acho que eu o entendia, de certa forma. Esse tipo de inconsequência era algo que eu podia entender. E afinal, nós éramos amigos – há mais tempo do que eu podia me lembrar. Parte de mim queria protegê-lo do problema que ele criou.
 
_Eu fiz merda, não fiz? – me olhou então, ciente da besteira que tinha cometido.
_É, fez.

março 01, 2010

O pau oco

_Eu quero falar com você.
 
Passei entre o Fernando e a idiota da sua ex, trombando nos dois da forma mais grosseira possível. Entrei no meu quarto e esperei que ele viesse atrás. Alguns segundos depois, o meu amigo apareceu, já estressado pela minha ceninha. Bateu a porta atrás de si, pronto para a discussão barulhenta que eu estava prestes a começar. Mas aí eu olhei para ele e... e não consegui. Travei. Estava possessa, como poucas vezes fiquei, mas não conseguia emitir um ruído sequer. Inferno.
 
_O que foi, PORRA? – o Fer me encarou, impaciente – NÃO VAI FALAR?!
 
Cruzei os braços e olhei para o chão, mordendo a boca de raiva. Não. Era incapaz de articular uma porra de uma palavra. Aquilo me destruiu por dentro, numa culpa desgraçada. Eu sou uma puta de uma hipócrita, a realidade me doeu. O silêncio foi crescendo e a cada segundo que se passava eu sentia o descontentamento do Fernando piorar. O ar ficou pesado, insuportável. E eu não conseguia dizer porcaria nenhuma.
 
_AH! VAI SE FODER, MANO! Na boa, se você tem algum problema, não fica fazendo teatrinho na frente dos outros pra depois não me dizer nada – se irritou e eu o encarei, muda – O QUÊ, PORRA? Hein?! Perdeu a coragem?! FALA LOGO! FALA O QUE VOCÊ QUER FALAR! FALA QUE NÃO GOSTOU, QUE NÃO QUER ELA AQUI. VAI, FALA! – o Fer berrava na minha direção e eu seguia covardemente quieta – Sabe qual é o problema? Não é falta de coragem, não, é FALTA DE MORAL pra falar qualquer merda de mim – podia sentir a vontade de gritar subindo a minha garganta – Porque de todas as pessoas do mundo, TODAS, cê é a que menos tem direito de vir me dar esporro. Pode fazer cara feia aí, pode não gostar, pode reclamar à vontade, que no fundo cê não tem argumento NENHUM e você sabe! Cê faz merda com todas as meninas que cê pega, mano!! – me atacou, como se isso o livrasse da culpa – QUEM CÊ ACHA QUE É PARA ENTRAR AQUI E DAR ESSE CHILIQUE AGORA?! NÃO VEM BANCAR A CHEIA DE MORAL E VIR QUERER "FALAR COMIGO" QUE SOMOS DOIS NESSA PORRA DE VIDA HEDONISTA DO CARALHO!
 
É. Você está certo, Fernando. E aliás, eu peguei a sua mina.
 
Não havia momento melhor para admitir tudo e tirar aquela traição de merda da minha consciência. Mas não, n-não consigo. E-eu não posso fazer isso. Ele ia me odiar como nunca odiou ninguém antes – ele não ia entender. E eu não podia perder o Fernando. A maioria das pessoas que eu conhecia lidava com as suas dores até não aguentar mais e explodir, mas o Fer, não. Ele partia pra cima na primeira pedra atirada contra ele. Eu sabia disso – sabia, porque eu era igual. Nunca processamos porra nenhuma, reagindo sem pensar e piorando tudo, num esforço fenomenal de foder com a porra toda.
 
E era isso que ia acontecer – e era isso que eu queria evitar.
 
_CÊ NÃO VAI FALAR NADA, PORRA? – gritou comigo, após mais algum tempo.
 
E eu olhei nos seus olhos, mantendo a calma:
 
_Eu não preciso falar nada – disse, firme – Você sabe que está errado. E talvez eu não seja a melhor pessoa pra te dar lição de moral mesmo. Aliás, eu sou a pior pessoa e eu sei disso, sei melhor do que você. Mas isso não muda o fato de que você tá errado. Você cagou tudo. Foi burro. A Mia é uma mina maravilhosa e você é um babaca se perder ela para aquela idiota na sala.
 
Podia ver nos seus olhos a ficha caindo.
 
_A, a gente não... – deu para trás, abaixando a voz – ...nós s-só... ficamos conversando e ela a-acabou dormindo aí, não f-foi como se... – tinha os gestos nervosos – Escuta, não comi a mina, tá legal?
_Ah! Fernando... Porra, mano! – reclamei – Qual é? Vai mentir na minha cara?!
_Tá bom! Tá bom! Comi, sim! – admitiu – MAS QUE INFERNO! Eu n-não... Eu não queria que... Não foi planejado, e-eu... MERDA! – sentou na minha cama e passou a mão na cabeça, se arrependendo – Eu tô fodido. Fodido. A Mia vai me matar se ficar sabendo!
_Velho, por que cê foi fazer isso?!
_Sei lá, caralho! Você... v-você não pode falar nada pra ela. Tá me ouvindo? Nada!
 
Mais uma vez, as palavras fugiram da minha boca. Como se eu precisasse de mais um segredo para guardar. Argh. A impotência acabava comigo. Incapaz de sair do caos que eu tinha começado. Virei de costas para o Fer e me apoiei na janela, respirando fundo. Então peguei o maço no bolso, acendendo um cigarro e soprando a fumaça para fora da janela. Mas que droga. Não conseguia acreditar no rolo em que eu tinha me metido.

fevereiro 26, 2010

Amigo de peixe, peixinho é?!

O ônibus de volta para Jardins estava vazio. Ou quase. Um playboy babaca falava irritantemente no celular, em alto e bom som, ao lado do coitado do cobrador. Maravilha, pensei sarcasticamente, ao passar pela catraca. Sentei o mais longe que pude, no fundo, e apoiei os pés no banco da frente. Olhei para o lado e um velhinho me encarava, como se desaprovasse o meu descaso com os meios de transporte público. O encarei de volta, algum problema? E para a minha surpresa, ele levantou as sobrancelhas, impaciente, indicando o moleque com os olhos. Comecei a rir e concordei com a cabeça. Velhinho simpático. Coloquei os fones de ouvido e deitei a cabeça para trás, numa tentativa inútil de descansar o que não havia conseguido naquela noite.
 
Fracasso total.
 
A Mia continuava na minha cabeça. Não conseguia tirá-la de lá – revivendo cada segundo da noite anterior. Mas algo me incomodava. Me sentia estranhamente irritada. Talvez porque não havia dormido nem meia horinha ou talvez fosse o cara que não calava a porra da boca; ou quem sabe fosse por causa da Michelle, que resolveu passar o sábado com a minha garota. Minha? Fui praticamente enxotada do apartamento quando a infeliz resolveu arrastar a Mia para a sua casa e não me convidou. Babaca. Agora eu voltava, desacompanhada e com um sono desgraçado, para a Frei Caneca.
 
Puta merda! – o ônibus passou por um buraco do nada e eu bati a nuca violentamente no banco. Sentei reto e decidi não tentar mais dormir, a fim de preservar a minha integridade física. Sabe como é. Argh. Dava tudo para estar com a Mia agora, lamentei. O problema era que, de repente, a noite anterior já não parecia mais as mil maravilhas que foi. Talvez fosse a ressaca ou o meu azedume matinal, resultado direto da amiga empata-foda e do playboy que coexistia escandalosamente comigo no ônibus, não sei. Mas algo revirava o meu estômago. É. À luz do dia, a imagem da Mia se misturava com a do Fernando.
 
E eu me sentia um lixo. A pior amiga do universo.
 
Não tinha desculpa para aquela filha da putice sem tamanho, sem escrúpulos, não desta vez – essa foi pra valer, pensei. E me incomodei comigo mesma. Sentada no banco do ônibus, sem conseguir lidar com o que eu tinha feito: após meses de negação e investidas frustradas, eu finalmente tinha pegado a namorada do meu melhor amigo. Que merda eu fui fazer? Balancei a cabeça, tentando fugir da responsabilidade.
 
Desci na Paulista e caminhei até a minha rua, sentindo o peso de cada tonelada da minha consciência. Os meus passos pareciam afundar o chão. Acendi um cigarro e, antes que o acabasse, já tinha chegado na porta do prédio. Respirei fundo. Joguei a bituca ainda acesa na sarjeta e entrei. Não estava pronta para encarar o meu melhor amigo. Droga. O nervosismo me embrulhava o estômago. No elevador, tudo o que eu conseguia pensar era na cara do Fernando e na porra do orgasmo da Mia. A culpa era minha – em todos os sentidos. Parei na frente do nosso apartamento e ouvi algum som qualquer ao fundo. Isso é...
 
Sepultura?, estranhei.
 
A música indicava que o Fernando estava em casa, argh. O que diabos eu vou falar? Passei a mão no rosto, ansiosa. Bosta. O problema não era mentir. Eu sabia mentir, podia mentir facilmente para qualquer garota, pai, mãe, chefe ou segurança inconveniente de balada – mas pro Fernando, não. Menos ainda nessas circunstâncias. Abri a porta. Sentindo todas as minhas entranhas se contorcerem, angustiada. O som do rádio dominava a sala inteira, num volume inacreditável. É, confirmei mentalmente, é Sepultura.
 
Como não vi ninguém ali, gritei qualquer coisa à procura de quem quer que estava ouvindo àquela barulheira, pedindo para que desligasse. E o Fer logo apareceu do corredor. Estava só de jeans e com uma cara de quem havia acabado de acordar. Ou... Seus olhos pareciam surpresos em me ver ali. E foi quando, atrás dele, vi a Júlia – a hipsterzinha de merda.
 
Ahh, cachorro.

fevereiro 25, 2010

4:20

Aquele telefone demorou uma eternidade para tocar – mas uma hora, tocou.
 
Aleluia.
 
A Michelle atendeu o celular dando uns passos adiante. A gente tinha esquematizado uma rodinha não muito discreta no canto do pátio. Eu estava sentada na mureta do parquinho, com as mãos apoiadas na borda e a Mia ao meu lado, distraída, encarando os próprios pés suspensos no ar. Observei sua amiga indo em direção ao estacionamento e se afastando de nós. Até que finalmente ficamos sozinhas. Nos olhamos e sorrimos, então a Mia deu um trago demorado e abaixou a cabeça.
 
_Como eu faço... – soltou a fumaça e me olhou de novo, passando o baseado – ...pra fazer o que cê fez?
_Como assim?
_Ah, cê sabe... – se constrangeu, contendo um sorriso – ...o, o que você fez... o-ontem... – explicou desarticuladamente – ...quer dizer, eu sei o que você fez e como, mas... e-eu, sei lá, n-não sei se saberia fazer de volta.
_...hum, e queria?
 
Achei graça, tragando e segurando a fumaça enquanto a observava.
 
_Ah, sim, né...
_Em mim?
_É, sua tonta! – a Mia balançou a cabeça, envergonhada – Você entendeu...
_Ok – ri – Eu te mostro...
_Você tá tirando com a minha cara, não tá?
_Não – sorri e passei de novo para ela – É que cê tá uma graça aí, toda girininha...
_“Girininha”?
_É, é o estágio antes de ser sapa.
_Vai se foder! – me empurrou, rindo.
_Ah. A gente chega lá, gata...
 
Nós duas rimos. A Michelle continuava falando no celular, ao longe, e o vento começava a arrepiar nossas pernas. Era uma manhã cinzenta e tipicamente paulistana. Tínhamos descido só com os camisetões que usamos de pijama e sem as calças, claro. Uma decisão que eu agora repensava. Um tanto quanto desprovida de roupa para o clima. O que não é uma boa também quando se está cometendo uma atividade ilegal a pleno céu aberto e do lado da única área infantil do prédio – chama muita atenção. Até então, no entanto, salvos alguns olhares de desaprovação duns vizinhos antipáticos de meia-idade, ainda não tínhamos sido perturbadas.
 
_Ontem foi tão...
 
A Mia retomou baixinho, encarando o chão. E sorriu, sem terminar a frase.
 
_Tão...?
_Não sei, incrível – fechou os olhos, já levemente chapada, e tragou mais uma vez antes de me olhar de volta – Num foi?
 
Sorri – “pra caralho”.
 
_Meu – ela riu – Eu devo ter sido a pior trepada da sua vida!
_Mia, ontem... – a encarei, achando graça – ...não foi uma trepada.
_Não?
_Claro que não!
_Como “claro que não”? E o que mais vocês fazem, então?
_Mano...
 
Eu comecei a rir muito. Um dia você ainda descobre, garota.

fevereiro 24, 2010

As velas

O sol se levantou e eu não havia sequer fechado os olhos. Continuava deitada ali, ocupando obsessivamente meus pensamentos com o que rolou no sofá. Foi mesmo real? Parte de mim não conseguia acreditar. Todas as meninas já tinham acordado àquela altura, falando aqui e ali ainda deitadas. A Mia era a única que seguia dormindo. Fiquei esperando, esperando que acordasse. Ansiosamente. Como se precisasse de um sinal de que não fora um sonho ou apenas imaginação – algum delírio bêbado de madrugada.
 
Depois de inúmeros resmungos e uns bocejos preguiçosos, as outras finalmente se levantaram. E antes de saírem para a sala, tentaram acordar a Mia – já eu fiquei no quarto. Com saudade de estar sozinha com ela. Apoiei os meus braços no seu colchão e encostei a cabeça de lado. Sonolenta, desperta pela movimentação toda, a Mia enrolava para abrir de vez os olhos e eu a observava. Tinha os cabelos castanhos caídos sobre as bochechas e o nariz. E uma das mãos no rosto. Três pequenos pontinhos tatuados em um dos seus dedos, entre o do meio e o indicador. Ah, garota, suspirei.
 
_Oi... – ela despertou, ainda sonolenta.
_E aí, bonita... – cochichei de volta e sorri, ela afundou o rosto no travesseiro.
 
Sem a bebida e o véu da madrugada, todavia, algo agora me incomodava por dentro. O que diabos eu vou dizer para o Fer, senti o meu peito doer. Foi quando a tal da Laura nos interrompeu, entrando no quarto novamente para ver se a Mia já tinha levantado. Ela e a Michelle estavam com fome, disse. Empata-foda. Saí de lá, deixando as duas, e fui até o banheiro lavar o rosto – já emburrada. Sem esperanças de ter mais um segundo sozinha com a Mia. Me olhei no espelho, com o cabelo amassado e a raiz por fazer debaixo daquele descolorido tosco, e tive a certeza de que a ausência de horas dormidas naquela noite não poderia ser disfarçada. Estava estampada na minha cara, com duas olheiras enormes.
 
Deus. Quem come croissants de café-da-manhã?, me surpreendi, instantes depois, entrando na cozinha e encarando a cesta de pães em cima da mesa. Aquilo parecia cena de novela. Na verdade, a casa inteira da Mia parecia ter saído do horário nobre da Globo. Desviei o meu olhar dos pães e dos talheres bonitos e notei que, do outro lado da mesa, a Mia me olhava. O meu coração disparou na mesma hora. Me esforcei para conter um sorriso e não revelar às outras o nosso pequeno e fantástico delito daquela noite.
 
Após o café, descemos para parte de trás do pátio do prédio para fumar um e a Laura precisou ir embora. A tal da Gi disse que ia junto. Elas iam para o centro de São Paulo, passando quase do lado do meu apartamento, mas insisti que não precisava de carona. Mentira. Tudo o que eu queria era ficar mais um tempo com a Mia antes de ser jogada de volta à realidade. No final, restamos só nós e a outra amiga. Não via a hora de me livrar da Michelle, mas a garota parecia obstinada a não ir a lugar algum. Nossa ressaca estava insuportável. Expulsamos umas crianças do parquinho do prédio e ocupamos as balanças que ficavam no pátio. A Michelle sentou no chão para bolar um. O tempo todo, a Mia dava um jeito de me espiar e eu a olhava de volta, sem falar nada. Apenas sorríamos.
 
Mas a porra da amiga continuava lá.

REPORTAGEM ♥

Sapatonas do meu coração, 

O site Dykerama – que, tenho certeza, todos vocês já conhecem – fez uma matéria lindíssima comigo sobre o blog! Gostaria muito que vocês prestigiassem o Fucking Mia lá, lessem a reportagem e comentassem! :') 


E aproveitando, muito obrigada por acompanharem a história e pelos comentários maravilhosos. Obrigada mesmo!  

Quase dia

E quem disse que eu conseguia dormir? A Mia e cada segundo daquela noite não saíam da minha cabeça, meu deus.

Busted!

_O que vocês estão fazendo?
 
A mãe da Mia perguntou, amarrando um roupão por cima da camisola, ao acender a luz da sala – “por que tá tudo escuro aqui?!”
 
_Nada, mãe... – a Mia resmungou, numa atuação brilhante de última hora – A gente foi na cozinha só...
_Já está tarde... – nos olhou ali, ofegantes e descabeladas, desconfiada – O que aconteceu aqui?
_Como assim?
_Como “como assim”, filha? – se irritou – O que vocês duas estavam fazendo?
_Mãe, mas que droga... Qual é a sua, porra? Não tem nada rolando!
_Não precisa ser grossa na frente da sua amiga, Mia – ela falou, educadamente, e olhou para mim, que sorri amarelo – E vocês não vão dormir, não?
_Vamos, vamos. Já estamos indo...
 
Eu e a Mia dissemos “boa noite” em coro, como duas adolescentes pegas no flagra. E entramos no corredor, conforme a sua mãe se dirigia à cozinha. Peguei na sua mão e olhei para a Mia, depois espiei para trás, me assegurando de que já estávamos sozinhas. Assim que chegamos na porta do quarto, a coloquei contra a parede e a segurei pela cintura, com uma vontade desgraçada de continuar.
 
_Cê tá louca?! – ela cochichou, rindo – Minha mãe tá acordada!
_Tô. Tô louca por você, sabia?
_Nossa. Como você é brega...
_Tô nem aí!
 
Eu ri e a beijei rapidamente, me divertindo. Assim que nossos lábios se afastaram, sorrimos e nos apressamos para abrir a porta. Atravessamos o quarto no escuro, tentando não fazer barulho. A Mia sentou no meu colchão, antes de subir para a sua cama, e ficamos ali por um tempo. De mãos dadas.
 
_Fazia tempo que eu não era flagrada por uma mãe...
_Ai, que vergonha... – a Mia apoiou a cabeça no meu ombro – Nem me fala.
_Me sinto com 14 anos de novo, pegando meninas em banheiros, tendo que fugir de pai e mãe, dando beijo escondido...
_Olha, você não tá ajudando a situação – ela riu, constrangida.
_Vem – disse baixinho e sorri, beijando-a no rosto – Vamos dormir...