Olhei pela janela, sem vontade de sair
para comprar um maço na banca da esquina. Pateticamente dividida entre a moleza
pós-horas-de-choro e a minha necessidade por nicotina. Me sentei na ponta da
cama pelo que me pareceram minutos a fio, tomada por uma preguiça
imobilizadora, até que o vício me venceu. Tá. Vou lá. Observei então o
meu jeans, largado em frente à cama, e pensei no quanto andava precisando ser
lavado. Que programão pra sábado,
revirei os olhos. Continuei a olhá-lo ali, enrolando o máximo que me fosse
possível para tomar qualquer atitude, sem coragem de trocar as calças naquele
frio.
_Oi...
_Cê me ligou?
_Liguei. Espera um segundo... – ouvi uma porta se fechar, do outro
lado da linha – ...queria saber como que cê tá.
_Eu tô bem – sorri, sem entender – De ressaca só. Por quê?
_Ah... – a Mia hesitou – ...por causa do que rolou ontem, com o
Fê. Tá tudo bem mesmo?
_Tá – respondi, um pouco incomodada com o assunto – Tá, sim. A
gente conversou hoje mais cedo.
_Não era pra cê ter ido embora daquele jeito, e-eu... – ela
tossiu, brevemente – ...eu fiquei muito puta com ele, a gente acabou discutindo
feio ontem.
_É. Eu sei.
_Ele te contou?
_Não, só comentou por cima. Mia, olha...
_Não, nada...
_Você tá bem?
_Sim. Só meio… sei lá, estranha.
_A gen... – ela pareceu se afastar do telefone, tossindo mais
algumas vezes – ...desculpa.
_Tudo bem por aí?
_Tá. Acho que peguei muito frio ontem, meu, acordei zoada.
_É “ressaca” o nome disso, cê sabe, né? – fiz graça.
_Pois é – ela riu também – Puta merda, tudo que eu queria hoje era
dormir, mas a minha casa tá cheia de parente. Vieram comemorar meu aniversário
– suspirou, com a voz ainda embargada – E você, vai fazer o quê hoje?
_Ah, a roupa, a louça...
_Besta – ela riu – Cê não vai sair?
_Não, meu, acho que vou ficar por aqui... dar uma arrumada nas
coisas, fumar um, sei lá.
_Hum... E a Marina, não vai ficar com saudades?
_Quê?! – eu comecei a rir.
_Ué. Cê não andava “passando as noites lá”? Vai deixar ela sozinha
justo no sábado à noite?! – continuou, fazendo graça – Que maldade.
_Jesus... – balancei a cabeça, rindo, sem acreditar – ...memória
de bêbado é uma desgraça mesmo, hein?!
_Memória seletiva, meu bem...
_Cara, pra começo de conversa, não foram “noites”. Foi uma... ou
duas, no máximo. E não tem nada a ver, o Fer aumenta as coisas – resmunguei – Nem
começa.
_Não tô começando nada... – a Mia riu – ...só tava curiosa para
saber o que tem de tão interessante na casa dessa Marina aí.
_Olha, já teve muita coisa interessante... – respondi, imprestável
– Mas hoje em dia, não. Não mais.
_Sei. Então, não tem nada?!
_Tem. Tem, sim. Tem você, sua tonta – eu ri e expliquei – Ela é
uma das únicas que sabe de você.
_É? Hum, e você falou bem de mim?
_Que absurdo! – ela riu, indignada – Como não é?!
_Um dia, quem sabe...
_Um dia, o quê?
_Eu te conto. O que ando falando de você por aí...
_Não quer vir me contar hoje?
_Hoje?!
_É. De repente, cê podia vir aqui...
_Hum?
_...e me sequestrar, quem sabe.
_Hoje não dá.
_Não?
_Não, meu, já vou dormir na Marina... – comecei a rir, de novo.
_Idiota! – ela riu também.
novembro 17, 2010
Iniciativas
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Recorrente
Postado por • the girl fucking Mia • às 20:17 3 comentários
Marcadores: Músicas
novembro 11, 2010
We define our moral ground
_Não, tô de boa... – respondi, me juntando a ele naquele nosso fingimento babaca de não-aconteceu-nada – ...o meu estômago tá zoado, não sei.
_Não – ele deu um gole da cerveja, sério, entre uma garfada e outra – ...foi pra casa dela depois da Sarajevo, a gente brigou ontem.
_Brigaram por quê?
_Não, Fer...
_Foi zoado – me interrompeu e passou a mão na cabeça, como se tudo aquilo fosse realmente difícil para ele – E-eu... eu tava chapado pra caralho, nem sei que merda eu tava falando. Quase não dormi hoje, velho, juntou com a briga com a Mia também e sei lá. Saiu de mão. Foi tudo zoado.
_Não, meu... – balancei a cabeça, inconformada comigo mesma – ...eu que tenho que te pedir desculpas, Fer.
_Para... Pedir desculpas, por quê? Não tem nada a ver!
_Tem, sim!
_Não, mano, puta lance idiota.
_Eu fiz merda, e-eu... – abaixei o olhar – Não devia ter ido tão longe, não sei o que aconteceu...
_Tá tudo bem.
_Fer. É sério – fiz com que olhasse para mim, pegando em sua mão de volta – Me desculpa, por favor.
_Relaxa, meu... – ele deu meio sorriso – ...eu que fui um babaca.
Postado por • the girl fucking Mia • às 23:53 23 comentários
Indistinto
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Marcadores: Fer
novembro 09, 2010
Os bem-educados
_Oi?!
_Perguntei se cê tá se divertindo, porra!! – perguntou, me olhando direto nos olhos.
_Que foi, Fernando?! – retruquei, ofendida com o tom de voz dele – Sei lá, meu... tô, t-tá normal.
_É, tô vendo que tá mesmo... – resmungou.
_Que foi, mano??
_Como o que foi? – bateu no balcão, se virando de frente pra mim – COMO O QUE FOI, PORRA?!?
_TÁ LOUCO, FERNANDO?!
_EU?! CÊ TÁ LÁ DANÇANDO COM A MIA, CARALHO, C-COMO SE...
_COMO SE O QUÊ?! – o confrontei, brigando de volta – HEIN?!
_VOCÊ SABE POR QUE EU TÔ PUTO, SABE MUITO BEM! NÃO VEM SE FAZER DE DESENTENDIDA, NÃO!
_QUAL É, FERNANDO?! PORRA, A GENTE TÁ SÓ DANÇANDO!!
_SÓ “DANÇANDO”?? – ele gritou ainda mais alto – SÓ FALTOU VOCÊ ENTRAR DENTRO DA ROUPA DELA, CARALHO!!
_Ah, mano... – eu ri, debochando – ...para, na boa. Puta nóia!
_CÊ NÃO FICA RINDO AÍ, NÃO! – ele me apontou, nervoso, e as pessoas em volta começaram a olhar – Cê sabe MUITO BEM o que tava fazendo de errado!
_Você fumou, caralho?! Tá louco?! “O que eu tava fazendo de errado”?! Eu não fiz nada!! A GENTE SÓ TAVA DANÇANDO, FERNANDO, PELO AMOR DE DEUS!
_SÓ DANÇANDO?! VOCÊ CHAMA AQUILO DE DANÇAR?? CÊ TAVA QUASE COMENDO ELA NO MEIO DA PISTA! É MINHA MINA, PORRA!! – se irritou, berrando tão embriagado quanto eu – VOCÊ NÃO TEM RESPEITO, VELHO?!?!
_MAS EU NÃO TAVA FAZENDO PORRA NENHUMA!
_N-não sei... – ele se virou e apoiou de novo no balcão, respirando fundo – ...por que cê foi lá dançar com ela, então, caralho?!
_Por que eu não iria dançar com ela?! – retruquei, indignada – É ANIVERSÁRIO DELA! Fer, qual é, todo mundo tá dançando com a Mia. Todo mundo! Aliás, aquelas amigas dela... né, vamos concordar? Mano, até selinho elas tavam dando e cê vem encanar JUSTO COMIGO, PORRA?!?
_Cê acha, meu... AQUILO NÃO É NADA! – se virou de novo para mim – Elas tão de graça, mano...
_AH, E ELAS PODEM?? Elas podem fazer graça com a sua mina e cê não tá nem aí?? É isso?! – argumentei, com a pachorra de ainda me achar a certa na história – ISSO É UMA PUTA HIPOCRISIA E VOCÊ SABE!! Porra, Fernando, SÉRIO MESMO?! Cê vem esquentar para cima de mim, que não fiz merda nenhuma, QUE EU SOU SUA AMIGA, MANO!! – me exaltei – As meninas tavam fazendo mil vezes pior! Eu só dancei duas, três músicas com a Mia...
_Duas ou três músicas COM A MÃO METIDA NAS COXAS DELA, CARALHO!! – tornou a levantar a voz, bravo – Posso GARANTIR que as amigas da Mia não tavam dançando com ela DO JEITO QUE CÊ TAVA!
_CLARO QUE TAVAM!! CÊ É CEGO, PORRA?? – gritei e ele me encarou, puto da vida – CLARO QUE TAVAM!!
_FODA-SE! FODA-SE!! NENHUMA DELAS TÁ INTERESSADA NO QUE a mia TEM NO MEIO DAS PERNAS!
_EU TAMBÉM NÃO, PORRA!!! TÁ LOUCO?? – cheguei perto da cara dele, revoltada, olhando-o nos olhos – Você está levando isso pro lado pessoal, Fernando... Sério, porra!! NINGUÉM FEZ NADA! QUAL É O SEU PROBLEMA COMIGO?!?
_MEU PROBLEMA COM VOCÊ É QUE CÊ NÃO TEM LIMITE!
_NÃO TENHO LIMITE, CARALHO?? SEMPRE TIVE O MAIOR RESPEITO PELA SUA MULHER, MEU! CÊ TÁ ACHANDO QUE EU SOU QUEM?? PUTA PARANÓIA, MANO! PUTA MERDA, QUE É ISSO AGORA?! EU E A MIA SOMOS AMIGAS!
_NÃO! NÃO!! – ele me cortou – EU E VOCÊ SOMOS AMIGOS, EU E VOCÊ. ENTENDEU, PORRA?! – me ameaçou – ENTÃO CÊ TOMA MUITO CUIDADO COM O QUE VAI FAZER DAQUI PRA FRENTE!
_Eu não preciso ficar aqui ouvindo essa merda... – peguei minha comanda no balcão e o encarei – ...na boa, vai tomar no meio do seu cu, Fernando!
Postado por • the girl fucking Mia • às 12:36 36 comentários
Portanto, bandeira branca
Suspirei, aliviada, olhando para a garrafa e a abaixando de volta no balcão. Mal a encostei e já subi mais uma vez, tomando outro gole, sedenta. Abaixei a cerveja e os olhos novamente, quando senti que alguém me observava. De canto de olho, vi um braço tatuado emparelhado com o meu, apoiado no balcão. Então subi o olhar. E dei de cara com o Fer, me encarando, puto. A dez centímetros de mim.
novembro 04, 2010
Rendida
_Ahh, meu, por aí...
_Não, meu... – balancei a cabeça – ...deixa, vou dar um tempo
aqui.
_O que cê aprontou, hein?
_Nada.
_Nada?! – a Lê achou graça, sem acreditar.
_Eu... – me aproximei do seu ouvido, de lado, para cochichar – ...peguei
a Mia na pista de cima, meu.
_Quê? Ninguém viu, meu.
_Não, vem, vou te pagar uma bebida... – ela se divertia – Você
merece.
_Não, não... Para! Já tô alta pra caralho, mano. Se eu beber mais,
vou passar mal aqui...
_Larga de cu doce, vai, meu, diz aí o que cê quer.
_Tá com os amigos dele... Já fui lá, tava com ele até agora, meu –
respondeu e sorriu para mim, me puxando – Veeem...
O troco
Postado por • the girl fucking Mia • às 18:18 3 comentários
novembro 02, 2010
Matemática
Podia senti-la movendo-se no breu, mas não via. Nada. Absolutamente nada. Ainda assim, de alguma forma, eu sabia, ah, sabia. E foi aí que, de repente, antes de qualquer parte do seu corpo, a sua boca tocou o canto da minha. Senti então a sua blusa amassar-se contra a minha, algodão com algodão, e os seus lábios deslizaram, se acertando nos meus. Havia mãos demais entre os nossos rostos – duas minhas, duas dela – e pouco espaço entre nós. Quis dar-lhe passagem, então desci as minhas. Contornando a sua silhueta no escuro até alcançar a sua cintura. E num só gesto, a trouxe para mais perto ainda. A sua boca abriu a minha e as suas curvas se moveram sob os meus dedos. Porra. Sentia a minha sanidade se perdendo, afundando no seu gosto, misturado com o álcool e com aquela vontade de tê-la comigo.
As mãos da Mia me puxaram mais ainda para si. E os nossos beijos se tornaram mais intensos, sua boca voltou para a minha e minhas pernas, metidas entre as dela, já quase sustentavam o seu corpo contra a parede. Minhas mãos a seguravam firme, levantando-a no meu colo. Que vontade de te levar para a cama, garota.