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novembro 17, 2010

Iniciativas

Quando, por fim, saí do banho mais demorado da história da humanidade, a luz do sol já perigava a desaparecer por trás do céu nublado e ia se transformando, deprimentemente, num pôr-do-sol acinzentado. Argh. Ainda me sentia um lixo. Andei pelo quarto só de cueca e moletom, procurando calças-de-ficar-em-casa que não me apertassem. Vasculhei pela pilha de roupas que se espalhava pelo chão e achei a parte de baixo dum pijama desbotado.
 
Cacete. Queria um cigarro agora.
 
Olhei pela janela, sem vontade de sair para comprar um maço na banca da esquina. Pateticamente dividida entre a moleza pós-horas-de-choro e a minha necessidade por nicotina. Me sentei na ponta da cama pelo que me pareceram minutos a fio, tomada por uma preguiça imobilizadora, até que o vício me venceu. Tá. Vou lá. Observei então o meu jeans, largado em frente à cama, e pensei no quanto andava precisando ser lavado. Que programão pra sábado, revirei os olhos. Continuei a olhá-lo ali, enrolando o máximo que me fosse possível para tomar qualquer atitude, sem coragem de trocar as calças naquele frio.  
 
Acabei enfiando um All Star velho no pé e descendo de pijama mesmo. Cruzei até a outra calçada, sentindo aquele vento gelado na cara e no cabelo molhado. Porra, São Paulo. Colabora um pouco. Contei minhas moedas em frente ao atendente da banca de jornal, para ver se conseguia pagar um Marlboro vermelho, mas o dinheiro não deu.
 
_Me vê qualquer um, então – disse, irritada.
 
Acendi o primeiro logo que virei as costas, enquanto esperava os carros terminarem de passar na minha frente. Atravessei a rua de volta, morrendo de frio, e parei no portão do meu prédio para terminar o cigarro. Por que diabos não se pode fumar em elevador? Alcancei o celular no bolso do moletom, entre um trago e outro, e reparei numa chamada não-atendida da Mia. Inferno, respirei fundo. Mais do que nunca, me incomodava com o quanto filha-da-puta eu estava sendo com o Fer, sem saber o que fazer com aquela situação toda em que me meti. 
 
Joguei a bituca fora e subi, indo direto para o meu quarto e trancando a porta atrás de mim. Sentei na cadeira do computador e olhei para um post-it amarelo grudado na torre do PC – um lembrete escrito por mim mesma, dias antes, de que meus pais me visitariam naquele domingo. Bosta, lembrei com desgosto do compromisso, que me dava mais um motivo para lavar a porcaria da roupa suja amontoada no chão. Peguei o celular na mão novamente e olhei para a chamada perdida. Mia. Sem pensar muito, apertei o botão verde sob o meu dedo, vendo o seu número chamar na tela.
 
_Oi.
_Oi...
_Cê me ligou?
_Liguei. Espera um segundo... – ouvi uma porta se fechar, do outro lado da linha – ...queria saber como que cê tá.
_Eu tô bem – sorri, sem entender – De ressaca só. Por quê?
_Ah... – a Mia hesitou – ...por causa do que rolou ontem, com o Fê. Tá tudo bem mesmo?
_Tá – respondi, um pouco incomodada com o assunto – Tá, sim. A gente conversou hoje mais cedo.
_Não era pra cê ter ido embora daquele jeito, e-eu... – ela tossiu, brevemente – ...eu fiquei muito puta com ele, a gente acabou discutindo feio ontem.
_É. Eu sei.
_Ele te contou?
_Não, só comentou por cima. Mia, olha...
 
Senti uma angústia entalar na garganta. Queria lhe dizer o quanto tínhamos passado do limite, o quanto a amizade do Fer significava para mim, o quanto tudo aquilo tinha me corroído o dia todo – mas não consegui. Ouvia a sua voz e imediatamente me lembrava da pista escura da Sarajevo, de como me sentia com ela. De como a amava. E de repente, todo aquele peso se diluía.
 
_O quê? – estranhou, após segundos de silêncio meu.
_Não, nada...
_Você tá bem?
_Sim. Só meio… sei lá, estranha.
_A gen... – ela pareceu se afastar do telefone, tossindo mais algumas vezes – ...desculpa.
_Tudo bem por aí?
_Tá. Acho que peguei muito frio ontem, meu, acordei zoada.
_É “ressaca” o nome disso, cê sabe, né? – fiz graça.
_Pois é – ela riu também – Puta merda, tudo que eu queria hoje era dormir, mas a minha casa tá cheia de parente. Vieram comemorar meu aniversário – suspirou, com a voz ainda embargada – E você, vai fazer o quê hoje?
_Ah, a roupa, a louça...
_Besta – ela riu – Cê não vai sair?
_Não, meu, acho que vou ficar por aqui... dar uma arrumada nas coisas, fumar um, sei lá.
_Hum... E a Marina, não vai ficar com saudades?
_Quê?! – eu comecei a rir.
_Ué. Cê não andava “passando as noites lá”? Vai deixar ela sozinha justo no sábado à noite?! – continuou, fazendo graça – Que maldade.
_Jesus... – balancei a cabeça, rindo, sem acreditar – ...memória de bêbado é uma desgraça mesmo, hein?!
_Memória seletiva, meu bem...
_Cara, pra começo de conversa, não foram “noites”. Foi uma... ou duas, no máximo. E não tem nada a ver, o Fer aumenta as coisas – resmunguei – Nem começa.
_Não tô começando nada... – a Mia riu – ...só tava curiosa para saber o que tem de tão interessante na casa dessa Marina aí.
_Olha, já teve muita coisa interessante... – respondi, imprestável – Mas hoje em dia, não. Não mais.
_Sei. Então, não tem nada?!
_Tem. Tem, sim. Tem você, sua tonta – eu ri e expliquei – Ela é uma das únicas que sabe de você.
_É? Hum, e você falou bem de mim?
 
E tem outro jeito de falar, garota?
 
_Isso não é da sua conta... – disse, já achando graça na reação que ela sequer havia tido ainda.
_Que absurdo! – ela riu, indignada – Como não é?!
_Um dia, quem sabe...
_Um dia, o quê?
_Eu te conto. O que ando falando de você por aí...
_Não quer vir me contar hoje?
_Hoje?!
_É. De repente, cê podia vir aqui...
_Hum?
_...e me sequestrar, quem sabe.
_Hoje não dá.
_Não?
_Não, meu, já vou dormir na Marina... – comecei a rir, de novo.
_Idiota! – ela riu também.

Recorrente

I've come to my senses
That I've become senseless
I could give you lessons 
On how to ruin your friendships

Every last conviction 
I smoked them all away
I drank my frustrations 
Down the drain
Out of the way
So I sit and wait and wonder:
"Does anyone else feel like me?"
Someone so tired of their routines
And disappearing self-esteems

I'll sing along
Yeah, with every emergency
Just sing along
I'm the king of catastrophes
I'm so far gone
That deep down inside
I think it's fine by me

I'm my own worst enemy

(Less Than Jake)

novembro 11, 2010

We define our moral ground

O almoço – ou janta? – ficou pronto, poucos minutos depois da minha entrada triunfal. Até então, o silêncio havia dominado o espaço entre nós dois. A minha cabeça, embebida em ressaca, se recusava a pensar na confusão daquela madrugada – mas aquilo estava me machucando. E eu sabia. Sabia que, se deixasse o pensamento escapar, por um segundo que fosse, a dor e a vergonha se alastrariam pelo meu corpo inteiro.
 
E foi o que aconteceu.
 
Argh. Eu odiava brigar com o Fer. Nosso temperamento parecia provocar o pior um no outro –nunca medíamos palavras. E numa dessas, nuns surtos de raiva, acabávamos dizendo a primeira coisa que nos vinha à cabeça, nos ofendendo sem limite algum. Muita convivência tem dessas. Mas, dessa vez, eu me sentia um lixo. Tinha que fazer um esforço consciente para sequer pensar no contexto completo, porque a culpa, essa sim, ia acabar comigo. Não sabia como remediar. O que fiz, o que realmente fiz e a falsidade com que me defendi. Mal conseguia suportar a pessoa que tinha me tornado. Então me mantive quieta, olhando para a mesa, conforme o Fer colocava frente a mim uma panela com arroz requentado do dia anterior, misturado com uma lata de milho. Depois veio o seu prato, um pacote já quase vazio de batata palha, os talheres um a um, duas latinhas de cerveja e o que restava de uma salada de cenoura com tomate. Observei-o misturar tudo em cima do prato, meio de qualquer jeito.
 
_Quer? – ele perguntou, falando baixo, ao reparar o meu olhar acompanhando seus movimentos.
_Não, tô de boa... – respondi, me juntando a ele naquele nosso fingimento babaca de não-aconteceu-nada – ...o meu estômago tá zoado, não sei.
 
Ele levantou os olhos na altura dos meus, me encarando por um instante, e depois tornou a encarar o próprio prato. Sem ódio, nem remorso – apenas me olhou. E voltou a comer em seguida, quando reparei que éramos só eu e ele ali. Sozinhos. Eu com a roupa amassada da noite anterior e ele com um trapo qualquer de ficar em casa. O resto do apartamento estava vazio.
 
_A Mia não tá aí?
_Não – ele deu um gole da cerveja, sério, entre uma garfada e outra – ...foi pra casa dela depois da Sarajevo, a gente brigou ontem.
_Brigaram por quê?
 
O Fer me olhou novamente. E então continuou a comer, quieto, como se não quisesse falar a respeito. Merda. Por que fui abrir a boca? Eu sabia muito bem o motivo. Não precisava ser um gênio. Mas não conseguia interpretar a atitude dele – parte de mim sentia que o Fer estava puto comigo, a outra desconfiava que ele sentia culpa pela briga com a Mia. Ou talvez fosse apenas sono, não sei. Inquieta, me movi na cadeira, me apoiando contra a parede de ladrilho. E meu amigo subiu o olhar até o meu mais uma vez, brevemente.
 
Sem que eu dissesse nada, emendou:
 
_Não foi sério, a gente só discutiu... – murmurou, já quase terminando o prato – ...mas ela ficou irritada e quis ir embora. Eu voltei sozinho depois.
 
Senti um mal-estar tomar todo meu corpo. Imaginando a discussão dos dois – regada à álcool e fora de controle, em plena madrugada. O Fer aos gritos no meio da Sarajevo, a Mia puta e indo embora do próprio aniversário. A ideia me revirou ainda mais o estômago e tive vontade de vomitar. Quis sumir. E num impulso, me levantei antes que a culpa me consumisse. Só faço merda. Apoiei a mão na mesa para sair da cadeira e o Fer me segurou no pulso – “espera”.
 
Caralho.
 
Ele respirou fundo. Parecia dividido – e visivelmente chateado.
 
_Escuta... Desculpa por ontem. Eu... – ele suspirou – ...e-eu, sei lá. Não era pra você ter ido embora.
_Não, Fer...
_Foi zoado – me interrompeu e passou a mão na cabeça, como se tudo aquilo fosse realmente difícil para ele – E-eu... eu tava chapado pra caralho, nem sei que merda eu tava falando. Quase não dormi hoje, velho, juntou com a briga com a Mia também e sei lá. Saiu de mão. Foi tudo zoado.
_Não, meu... – balancei a cabeça, inconformada comigo mesma – ...eu que tenho que te pedir desculpas, Fer.
_Para... Pedir desculpas, por quê? Não tem nada a ver!
_Tem, sim!
_Não, mano, puta lance idiota.
_Eu fiz merda, e-eu... – abaixei o olhar – Não devia ter ido tão longe, não sei o que aconteceu...
 
Inferno. Me sentia a pior pessoa do universo – mas simplesmente não conseguia admitir. Não a verdade toda. Aquilo ia destruir a nossa amizade. O Fer também hesitou, por um instante, com os olhos fixos em mim. Parte dele parecia não ter tanta certeza de que a culpa era inteira sua. E agora ele me encarava, sério, como se tivesse um conflito interno. Destruído pela situação. Droga.
 
_E-eu... sei lá, eu bebi demais também – continuei, sem pensar, num reflexo desesperado para consertar as coisas – E aí chegou uma hora que nem me dei conta de com quem eu tava dançando, Fer, acabei saindo da linha. E eu não queria, de verdade! Eu não, n-não sei, porra, não sei o que deu em mim.
_Tá tudo bem.
_Fer. É sério – fiz com que olhasse para mim, pegando em sua mão de volta – Me desculpa, por favor.
_Relaxa, meu... – ele deu meio sorriso – ...eu que fui um babaca.
 
Não consegui dizer mais nada. Nunca estive tão errada em toda a minha vida – puta merda. E a realidade me engasgou dolorosamente a garganta. Mal conseguia respirar. Ali, injustamente perdoada e incapaz de me sentir bem. Abaixei a cabeça. O Fer se voltou para o prato na mesa, continuando a comer, e eu inventei que precisava tomar um banho. Saí da cozinha o quanto antes. Mal passei pela porta e os meus olhos começaram a inchar, a doer. E o engasgo na minha garganta se tornou insuportável, se agravando conforme eu atravessava o corredor. Me fechei correndo no banheiro e tranquei a porta, largando o corpo sentado no chão. E quase imediatamente comecei a chorar.

Indistinto

Caralho. Minha cabeça doía. Meus olhos se abriram, lentos e desnorteados, feridos pela luz que invadia o cômodo. Os raios cinzentos de sol entravam frios pela janela, machucando os meus olhos e piorando aquela dor aguda que irradiava por todo o meu cérebro. A agonia – por qualquer líquido que fosse – se alastrava pelas minhas veias, me dobrava o estômago no meio do caminho e chegava seca à minha garganta. Completamente desidratada, após uma noite daquelas.
 
 
Senti vontade de vomitar e ignorei. Foda-se. Continuei deitada, imóvel. Minha posição me incomodava de alguma forma, porém demorei um certo tempo para perceber, toda torta e largada no sofá. Espera, sofá? Olhei em volta, movendo apenas as pálpebras, judiadas pela noite mal dormida, e nem um só músculo do corpo ou rosto. Tudo parecia se mover em mareada câmera lenta. Meus pés continuavam calçados com os Nikes preto e vermelhos sobre uma almofada e o azul-marinho do sofá. Estranho. A minha jaqueta me apertava e o encosto me impedia de deitar com ambos os ombros confortavelmente acomodados.
 
Puta merda, eu tinha mesmo desmaiado na sala. Em algum momento da madrugada anterior. Forcei minha mente, sonolenta, tentando refazer os meus passos Augusta abaixo e até a porta de casa. Não consegui. Porra. Um pedaço me faltava na memória. Passei as mãos pesadas pelo rosto e suspirei, me virando e esticando um dos braços em seguida para a mesinha de centro, onde aglomeravam-se o meu celular, um maço e as chaves de casa.
 
Peguei o telefone: nenhuma mensagem. Ufa. Para minha sorte, a caixa de saída estava vazia. E o maço também, merda. Meu estômago se revirava, oco, como se fosse dar a volta em si mesmo, de fora para dentro. Quis vomitar, de novo. Não... não, caralho. Num ato de protesto comigo mesma, levantei o corpo e arranquei a jaqueta, largando-a longe, já sentada na beirada do sofá. Me forcei então a ficar bem. Era só uma droga de uma ressaca, eu sabia e resistia ao mal-estar, teimosa. Já passei por pior.
 
Um cheiro enjoado vinha da cozinha. As luzes estavam todas acesas, do corredor para lá, e um barulho de panelas me irritava os sentidos – que horas são? Me sentia confusa quanto à linha temporal daquele fim de semana. Aquilo devia ter me acordado, o cheiro ou o som, mas que inferno. Levantei-me, meio rabugenta, a cabeça pesada e o corpo esvaziado. Caminhei pela sala na máxima velocidade que aquela ressaca desgraçada dor de cabeça me permitia. Ou seja, tropeçando nos meus próprios pés. Patética.
 
Encostei com as duas mãos no batente da cozinha. O Fer estava cozinhando no fogão, de costas para mim, com uma calça de moletom cinza e uma camiseta velha de dormir. Olhei-o por dois segundos, indiferente à nossa discussão na noite anterior. Não era apatia minha, sei lá, era algo diferente. Entrei e sentei numa das cadeiras em frente à mesa. O som do metal contra o piso frio denunciou a minha presença e fez com que ele me notasse, olhando brevemente por cima do ombro. Sem querer me dar atenção, continuou cozinhando e eu desabei de cansaço, apoiada nas minhas palmas, com os cotovelos sobre a mesa e o rosto metido no meu próprio cabelo. Fisicamente exausta, que merda.

novembro 09, 2010

Os bem-educados

_Tá se divertindo?!
_Oi?!
_Perguntei se cê tá se divertindo, porra!! – perguntou, me olhando direto nos olhos.
_Que foi, Fernando?! – retruquei, ofendida com o tom de voz dele – Sei lá, meu... tô, t-tá normal.
_É, tô vendo que tá mesmo... – resmungou.
_Que foi, mano??
_Como o que foi? – bateu no balcão, se virando de frente pra mim – COMO O QUE FOI, PORRA?!?
_TÁ LOUCO, FERNANDO?!
_EU?! CÊ TÁ LÁ DANÇANDO COM A MIA, CARALHO, C-COMO SE...
_COMO SE O QUÊ?! – o confrontei, brigando de volta – HEIN?!
_VOCÊ SABE POR QUE EU TÔ PUTO, SABE MUITO BEM! NÃO VEM SE FAZER DE DESENTENDIDA, NÃO!
_QUAL É, FERNANDO?! PORRA, A GENTE TÁ SÓ DANÇANDO!!
_SÓ “DANÇANDO”?? – ele gritou ainda mais alto – SÓ FALTOU VOCÊ ENTRAR DENTRO DA ROUPA DELA, CARALHO!!
_Ah, mano... – eu ri, debochando – ...para, na boa. Puta nóia!
_CÊ NÃO FICA RINDO AÍ, NÃO! – ele me apontou, nervoso, e as pessoas em volta começaram a olhar – Cê sabe MUITO BEM o que tava fazendo de errado!
_Você fumou, caralho?! Tá louco?! “O que eu tava fazendo de errado”?! Eu não fiz nada!! A GENTE SÓ TAVA DANÇANDO, FERNANDO, PELO AMOR DE DEUS!
_SÓ DANÇANDO?! VOCÊ CHAMA AQUILO DE DANÇAR?? CÊ TAVA QUASE COMENDO ELA NO MEIO DA PISTA! É MINHA MINA, PORRA!! – se irritou, berrando tão embriagado quanto eu – VOCÊ NÃO TEM RESPEITO, VELHO?!?!
_MAS EU NÃO TAVA FAZENDO PORRA NENHUMA!
 
Senti vontade de ir embora na mesma hora, mas o encarei. E baixei a voz – numa tentativa de acalmar os ânimos.
 
_Fer, me escuta. Eu não fiz nada – ele balançou a cabeça, puto, sem acreditar numa só palavra – Olha para mim! A gente estava só dançando, eu juro. Cê acha que eu ia pegar a sua mina? A sua mina, porra?! Na sua frente, mano?! Eu nunca ia fazer isso, Fer. NUNCA!
_N-não sei... – ele se virou e apoiou de novo no balcão, respirando fundo – ...por que cê foi lá dançar com ela, então, caralho?!
_Por que eu não iria dançar com ela?! – retruquei, indignada – É ANIVERSÁRIO DELA! Fer, qual é, todo mundo tá dançando com a Mia. Todo mundo! Aliás, aquelas amigas dela... né, vamos concordar? Mano, até selinho elas tavam dando e cê vem encanar JUSTO COMIGO, PORRA?!?
_Cê acha, meu... AQUILO NÃO É NADA! – se virou de novo para mim – Elas tão de graça, mano...
_AH, E ELAS PODEM?? Elas podem fazer graça com a sua mina e cê não tá nem aí?? É isso?! – argumentei, com a pachorra de ainda me achar a certa na história – ISSO É UMA PUTA HIPOCRISIA E VOCÊ SABE!! Porra, Fernando, SÉRIO MESMO?! Cê vem esquentar para cima de mim, que não fiz merda nenhuma, QUE EU SOU SUA AMIGA, MANO!! – me exaltei – As meninas tavam fazendo mil vezes pior! Eu só dancei duas, três músicas com a Mia...
_Duas ou três músicas COM A MÃO METIDA NAS COXAS DELA, CARALHO!! – tornou a levantar a voz, bravo – Posso GARANTIR que as amigas da Mia não tavam dançando com ela DO JEITO QUE CÊ TAVA!
_CLARO QUE TAVAM!! CÊ É CEGO, PORRA?? – gritei e ele me encarou, puto da vida – CLARO QUE TAVAM!!
_FODA-SE! FODA-SE!! NENHUMA DELAS TÁ INTERESSADA NO QUE a mia TEM NO MEIO DAS PERNAS!
_EU TAMBÉM NÃO, PORRA!!! TÁ LOUCO?? – cheguei perto da cara dele, revoltada, olhando-o nos olhos – Você está levando isso pro lado pessoal, Fernando... Sério, porra!! NINGUÉM FEZ NADA! QUAL É O SEU PROBLEMA COMIGO?!?
_MEU PROBLEMA COM VOCÊ É QUE CÊ NÃO TEM LIMITE!
_NÃO TENHO LIMITE, CARALHO?? SEMPRE TIVE O MAIOR RESPEITO PELA SUA MULHER, MEU! CÊ TÁ ACHANDO QUE EU SOU QUEM?? PUTA PARANÓIA, MANO! PUTA MERDA, QUE É ISSO AGORA?! EU E A MIA SOMOS AMIGAS!
_NÃO! NÃO!! – ele me cortou – EU E VOCÊ SOMOS AMIGOS, EU E VOCÊ. ENTENDEU, PORRA?! – me ameaçou – ENTÃO CÊ TOMA MUITO CUIDADO COM O QUE VAI FAZER DAQUI PRA FRENTE!
_Eu não preciso ficar aqui ouvindo essa merda... – peguei minha comanda no balcão e o encarei – ...na boa, vai tomar no meio do seu cu, Fernando!
 
Me virei e saí andando, deixando-o falar sozinho.

É

Me fodi legal agora.

Portanto, bandeira branca

Não é como se eu quisesse, de fato, ficar em cima da Mia. Em meio à pista mais subversiva da Sarajevo, entre tanta gente se movendo junta e se agarrando. Não – eu não queria. Mas assim que ela parou no meio da multidão e se virou na minha direção, apoiando as mãos atrás do meu pescoço, os meus pés se rebelaram e as minhas mãos desaprenderam a me obedecer. Já os meus olhos, bom, esses eu nunca consegui tirar dela mesmo. E antes que eu pudesse perceber, as minhas pernas já estavam entre as suas e o meu corpo perto demais. Para nos foder de vez, o DJ ainda mandou uma pesada do Tricky. É“Hell is round the corner”. É exigir muito do meu autocontrole, porra, ter aquela mulher nas minhas mãos e a segurar de qualquer forma que não fosse aquela. Com todo o respeito.
 
Isto é, mais ou menos.
 
Mas não beijei, ok? Em momento algum. Nem de relance, nem um pouco, nem por um instante encostei na boca da Mia. Naquela boca. Aquela. Sabe, aquela... boca. Com aqueles lábios que me destruíam a sanidade. “We're hungry, beware of our appetite" – a música ecoava numas batidas graves e eu suava frio, puta que pariu, enquanto a olhava descer, rebolando, deslizando aquela raba desgraçada pelo meu corpo e se virando para mim, com a boca logo ali, na minha cara, a três centímetros da minha, porra. Porra. Um só movimento, um milésimo de segundo, e eu poderia beijá-la.
 
Mas não – eu não fazia nada. Nada. Cacete. Só a olhava, ali, me olhando de volta, virando de costas e deixando o rosto de lado, com as mãos para trás e o corpo encostado em mim, segurando nos meus braços e escorregando as mãos para a minha cintura, pelas minhas pernas, conforme abaixava na minha frente, deslizando o seu jeans no meu. De novo e de novo. Perdendo qualquer noção de autopreservação. Caralho, garota, cê vai me enlouquecer assim. Dava vontade de matar – só por existir do meu lado assim, tão perfeita. Era isso ou fugir o quanto antes dali. Todavia, eu sempre ficava. Com o coração na garganta, aquele verão de 40º nas calças e os olhos irremediavelmente nela.
 
Tem gente que rouba o seu ar e nem percebe.
 
Agora a Mia começava a perceber o que fazia comigo e a desgraçada gostava – podia ver ela se divertindo em como me deixava completamente babaca. E eu continuava ali, dividida entre amá-la ou odiá-la por isso – porque bom é, né? Mas aquela impotência acabava comigo. Puta merda. Chega a doer, viu, com pontadas agudas no peito, ter a garota que você quer nas suas mãos e, por motivo de amigo força maior, não poder fazer nada. Argh. O absurdo é tanto que, uma hora, de repente, você simplesmente precisa sair de perto. Ir tomar um ar, esfriar a cabeça, fumar um cigarro, qualquer porra que seja. Sei lá. Qualquer merda que tire ela da sua cabeça. Das suas mãos.
 
E foi o que eu fiz – “já volto”, disse no seu ouvido e a larguei sozinha na pista. Apenas o ato de sair daquele aglomerado de calor humano já me fez respirar melhor, ainda que eu soubesse que a culpa ali era de uma só pessoa. Encostei no balcão do bar que ficava perto da entrada, sentindo uma leve corrente de ar vinda da porta, e pedi uma cerveja gelada para o cara de dreadlocks que me encarava à espera do que marcar na minha comanda. O primeiro gole foi como sentir o paraíso descer frio – e gostoso – por todas as paredes de fogo do meu corpo. Acalmando vagarosamente aquele inferno ali dentro.
 
Ah, eu precisava disso.
 
Suspirei, aliviada, olhando para a garrafa e a abaixando de volta no balcão. Mal a encostei e já subi mais uma vez, tomando outro gole, sedenta. Abaixei a cerveja e os olhos novamente, quando senti que alguém me observava. De canto de olho, vi um braço tatuado emparelhado com o meu, apoiado no balcão. Então subi o olhar. E dei de cara com o Fer, me encarando, puto. A dez centímetros de mim.

novembro 04, 2010

Rendida

_Onde cê tava, mano? – a Lê perguntou, embriagada, com os braços ao redor da possível fefelechiana de antes – Cê sumiu!
_Ahh, meu, por aí...
 
Eu sorri e apoiei os cotovelos no balcão do bar, de costas.
 
_Sei... – ela sorriu, me olhando desconfiada, e deu um gole numa cerveja já pela metade – A gente tava indo pra pista, vamos?!
_Não, meu... – balancei a cabeça – ...deixa, vou dar um tempo aqui.
_O que cê aprontou, hein?
_Nada.
_Nada?! – a Lê achou graça, sem acreditar.
_Eu... – me aproximei do seu ouvido, de lado, para cochichar – ...peguei a Mia na pista de cima, meu.
 
A Lê afastou o rosto, arregalando os olhos, e então começou a rir. A garota ao seu lado ficou boiando, sem entender do que diabos estávamos falando. Já a minha amiga continuava me encarando, desacreditada, como se não pudesse aceitar. Reafirmei a veracidade dos fatos com a cabeça, com toda minha credibilidade bêbada.
 
_Cê é doida! Sério, cê tem problema... – riu – ...puta merda.
_Quê? Ninguém viu, meu.
_Não, vem, vou te pagar uma bebida... – ela se divertia – Você merece.
_Não, não... Para! Já tô alta pra caralho, mano. Se eu beber mais, vou passar mal aqui...
_Larga de cu doce, vai, meu, diz aí o que cê quer.
 
. Pedi um rum com gelo, sabendo que não deveria. Fazer o quê, né? E a Lê terminou sua long neck, enquanto eu virava a minha dose de arrependimento-programado. Só depois me apresentou propriamente a garota. E claro – ela fazia Letras na USP. Eu sabia. Conversamos por um tempo, as três, sobre qualquer coisa que a embriaguez logo me fez esquecer. E quando, enfim, saímos para a pista, uns bons vinte minutos mais tarde, minha percepção da realidade já estava consideravelmente prejudicada. Fui olhando o mar de gente à minha volta, caminhando, trombando para todos os meus lados, sem conseguir, de fato, raciocinar. Caralho, mano.
 
Sempre me orgulhei da minha capacidade de perceber o quão bêbada eu estava antes de realmente afundar o pé na jaca – só que esse momento já tinha passado há um bom tempo. E eu não fiz nada a respeito. Estava ocupada demais pegando a Mia no dark room da Sarajevo. Então, quando cheguei na pista principal, já não conseguia delinear uma pessoa sequer ao meu redor, com o corpo leve e a cabeça pesada, bastante tonta. Para piorar, a Lê, aquela amiga da onça, logo se pôs a dançar exclusivamente com a tal da fefelechiana.
 
E eu, óbvio, sobrei.
 
Sem outra opção, apanhei a garrafa ainda fechada que ela segurava nas mãos e procurei me distrair com a cerveja dentro. Que se dane, já tô na merda mesmo. Poucos minutos depois, quando o DJ embalou um Seu Jorge remixado e eu fiz uma careta de desgosto, a Mia apareceu dentre as pessoas ao meu lado. Lá vem merda, pensei assim que a vi, toda irresistível, com medo da minha falta de controle naquele estado.
 
_Cê não vai dançar comigo?
 
Ela perguntou, já me pegando pela cintura.
 
Possivelmente mais bêbada do que eu. Apenas acenei que “não” com a cabeça, sorrindo para ela. E ela insistiu, como uma criança mimada, me segurando pela mão quando tentei me afastar. Caralho, viu. Estava maravilhosa ali. Olhei em volta, à procura do Fer, e passei a outra mão na nuca, preocupada. Isso não vai dar certo.
 
_Cadê o seu namorado? – questionei, no seu ouvido.
_Tá com os amigos dele... Já fui lá, tava com ele até agora, meu – respondeu e sorriu para mim, me puxando – Veeem...
 
Mais uma vez, fiz que “não” com a cabeça, relutante – mas os meus pés cederam na sua direção. A Mia me olhou, já quase me convencendo, e sorriu. Você é bonita demais, garota, puta que pariu, eu a observava fazendo graça para mim, com consciência de que aquela guerra estava perdida antes mesmo de começar. Diabo de mulher. E foi quando ela se virou, ainda com as mãos nas minhas, e começou a se enfiar no meio daquela bagunça da Sarajevo, me puxando por entre as pessoas. Hesitei, por alguns segundos, em pensamento, mas as minhas pernas já a estavam seguindo. Não estava realmente em condições de lhe negar qualquer coisa. Então que se dane.

O troco

E assim, ela perdeu Distillers para mim. Por longos minutos, na pista escura da Sarajevo. Não ganhei de volta os meus Bowies e nem álbuns inteiros perdidos por ela, é verdade, mas... Um só beijo daquela garota e, de repente, que me importava a porra da trilha sonora?

novembro 02, 2010

Matemática

É simples. O escuro aumenta a estática. E quanto mais escuro, maior a estática. Um corpo busca o outro, às cegas, em constante estado de alerta – naquela expectativa entorpecente de, enfim, esbarrar. Se encontrar. A qualquer momento, a minha respiração acelerava, oscilando entre uma batida e outra da caixa de som. Perdidos no breu, os meus olhos abertos encaravam a ausência completa de formas, dela, à minha frente. Mas sentia a sua presença nas mínimas partículas de ar que separavam o seu corpo do meu. O álcool atrapalhava o cálculo. E quanto mais álcool, maior era a imprevisibilidade do encontro. Solta ali no espaço, no vazio. Mas ela vem, eu confiava, hoje ela vem. E o importante era que vinha – não quando e nem de onde. Isso já não dava para calcular. Sem referência alguma, naquela pista completamente escura. Em contrapartida, a minha pele era tomada por uma ultrassensibilidade visceral. À espera dela. E quanto mais arriscada a situação, mais longa parecia a espera.
 
C a r a l h o.
 
O meu coração batia inevitavelmente mais rápido e o sangue parecia deixar todo o meu corpo. Os meus dedos frios seguravam o seu rosto e desenhavam-no na minha imaginação. Pouco a pouco, cedendo espaço. Ali, no escuro, sentia-a vindo cada vez mais na minha direção. Até que as suas mãos encontraram os meus ombros. Deslizaram, escorregando pela minha camiseta e – enquanto o meu coração disparava – subiram pelo meu pescoço, numa intimidade conquistada nos últimos dias, cruzando-se brevemente atrás da minha nuca e depois continuando, pele acima. Subiram, se emaranhando no meu cabelo e contornando a parte de baixo das minhas orelhas, passeando pela lateral do meu rosto até encontrarem os meus lábios. Aí correram pela minha boca, num toque leve, antes de voltar para a lateral do meu rosto, me fazendo arrepiar.
 
Ali, à mercê dela.
 
Podia senti-la movendo-se no breu, mas não via. Nada. Absolutamente nada. Ainda assim, de alguma forma, eu sabia, ah, sabia. E foi aí que, de repente, antes de qualquer parte do seu corpo, a sua boca tocou o canto da minha. Senti então a sua blusa amassar-se contra a minha, algodão com algodão, e os seus lábios deslizaram, se acertando nos meus. Havia mãos demais entre os nossos rostos – duas minhas, duas dela – e pouco espaço entre nós. Quis dar-lhe passagem, então desci as minhas. Contornando a sua silhueta no escuro até alcançar a sua cintura. E num só gesto, a trouxe para mais perto ainda. A sua boca abriu a minha e as suas curvas se moveram sob os meus dedos. Porra. Sentia a minha sanidade se perdendo, afundando no seu gosto, misturado com o álcool e com aquela vontade de tê-la comigo.
 
Aquilo foi me dando um calor desgraçado, meu deus. Sentia minha falta de controle latejar em cada célula do meu corpo. As suas mãos me apertavam cada vez mais e as minhas a ela. Respirando juntas. O meu peito contra o dela, abraçadas, nos movendo em sincronia no vazio. Coloquei-a contra a parede e abri caminho entre as suas pernas, meus Nikes esbarraram nos coturnos dela, as nossas coxas se enroscaram. E minhas mãos desceram até os bolsos de trás da sua calça, segurando-a contra mim, enquanto a beijava com força. Com a intensidade de quem não tem tempo a perder.   
 
Anônimas, as pessoas passavam por detrás de nós duas, trombando vez ou outra na gente, na escuridão daquela pista de cima da Sarajevo. Os braços da Mia subiam agarrados pelas minhas costas e eu a apertava mais ainda, a cada mínimo empurrão de corpos alheios – como se não quiséssemos nos perder uma da outra. Uma massa indistinguível de pessoas dançava ao nosso redor. E a boca da Mia percorria a lateral do meu rosto, descendo pela minha pele até o meu pescoço. Senti vontade de lamber o seu corpo inteiro, as suas pernas, de colocá-la de vez contra a parede. Meu coração estava saltando pela minha boca, entalado na minha garganta. Subi as mãos pelas suas costas descobertas e encostei o meu rosto no seu, apoiando a boca em seu ouvido:
 
_“Baby, you make my heart beat faster” – sussurrei a letra da música que roubei – “I know”.
 
As mãos da Mia me puxaram mais ainda para si. E os nossos beijos se tornaram mais intensos, sua boca voltou para a minha e minhas pernas, metidas entre as dela, já quase sustentavam o seu corpo contra a parede. Minhas mãos a seguravam firme, levantando-a no meu colo. Que vontade de te levar para a cama, garota.