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fevereiro 18, 2011

After party II

O apartamento do cara era um quarto-sala bagunçado com uma cozinha até que razoável e um banheiro apertado. Nada demais. Entramos no escuro, pisando em tudo, sem prestar atenção, até que alguém acendeu uns abajures que ficavam num dos cantos, iluminando bem mal os arredores. O cômodo estava uma zona, mas de um jeito cool. Nos sentamos todos no chão, encostados nas paredes e num sofá-cama, ao redor de uma mesinha de centro. E cada um cheirou um pouco de pó que o cara tinha. Na primeira oportunidade que teve, o Gui se trancou no banheiro com o DJ – e eu me lembrei com desgosto da bunda. Argh.
 
Depois disso, perdi a noção da hora.
 
Completamente. Parecia estar ali há uma eternidade, discutindo entusiasmada com um dos caras do casal, amigo da Isa, brisando sobre o documentário de peixes-bois que vi uns dias antes. Ele era biólogo e tinha acabado de sair da faculdade, tinha no máximo uns 25. O céu começava a clarear. A Isa se acomodou no meu ombro. Ela tinha alargadores pequenos, pretinhos, e o cabelo quase tão desbotado quanto o meu, na altura dos ombros. Passou a mão pela minha barriga algumas vezes, nuns carinhos à toa, escorada em mim – e eu sequer notei direito, distraída pela conversa –, mas aí ela colocou os dedos por baixo da minha camiseta, deslizando lentamente a palma por cima do meu umbigo, de um lado pro outro da minha barriga, até a minha cintura, numa linha horizontal. Era gostoso até. O frio do amanhecer entrava pela janela do apartamento e a mão dela, morna contra a minha pele, foi me dando certo conforto, sei lá.
 
Segui conversando, cheia de droga empolgada, e o assunto não acabava nunca. O namorado do cara estava fritando, na sua, deitado ao lado no chão. O dono da casa parecia estar há horas preparando qualquer merda na cozinha, sei lá eu – achei que fosse um narguilé, a princípio, de tanta fumaça, mas depois senti cheiro de comida. Não olhei bem, não me interessava. Absolutamente focada em tagarelar sobre mamíferos aquáticos com o cara. E antes que pudesse perceber, a, a... garota já estava com o rosto afundado no meu pescoço, começou a me dar uns beijos ali de leve. Bem de leve, pouco a pouco.
 
Continuei falando.
 
Falando e falando, sem fim, o papo estava realmente bom. Não parecia ter importância, digo, todo o resto. Mas aí ela insistiu, me beijando o pescoço com mais intenção, cada vez mais intensamente, me apertando a cintura por baixo da blusa. Cacete. Não estava realmente me dando conta do que acontecia, só fui, sei lá, deixando. E a conversa continuou. Continuou e continuou até que, uma hora, não sei bem quando, de repente, não estávamos mais conversando. Ou estávamos? Não sei, só sei que parei de falar em algum momento. Não percebi que parei, só... não dizia mais nada. Sentindo a boca da, da... como ela chama mesmo, no meu pescoço, fui perdendo a consciência das coisas.
 
A sua mão contra a minha pele, ao redor da minha cintura, foi me envolvendo, aos poucos. A sua língua subia e depois descia lentamente, entre os seus lábios, com a boca encostada na curva do meu pescoço, me dando uns arrepios. Um atrás do outro. Continuou, foi continuando, se empurrando pra cima de mim, puta que pariu. Não sei o que o cara estava fazendo a essa altura, talvez falando com o namorado ou esperando, parado ali, que eu lhe respondesse alguma pergunta que sobrou no ar. Não faço ideia. Talvez ele mesmo tivesse parado de falar comigo. Não sei mesmo, que se dane. Meu pulso ia acelerando. E eu entrei na minha própria cabeça por um instante, imersa nos beijos da, da..., brisando, enquanto olhava para algum lugar ou nenhum em particular.
 
Durou dez segundos, ou dez minutos. E eu comecei a sentir o perigo... é, mas não conseguia me mover. Ela começou a me dar mordidas, entre um beijo molhado e outro, de um jeito realmente convincente e, puta merda. Senti minha respiração pesar. Por um momento, fechei os olhos e me deixei levar, enroscando os dedos no seu cabelo, sem pensar direito, quase virando para beijá-la de vez. Por muito pouco não o fiz.
 
_N-não, meu... – murmurei para ela, sem muita convicção no que estava dizendo – ...não faz isso, vai.
 
Parte de mim queria continuar, já na dela. Por mais que eu não quisesse arranjar pra minha cabeça – e não queria mesmo. Ainda assim, por um segundo, um mínimo segundo, eu hesitei. Não, não posso. Eu sabia que ia me arrepender... e muito. Preferia evitar a ressaca moral no dia seguinte. Já tinha muito rolando na minha vida, muito mais do que eu conseguia processar naquele momento. A última coisa que eu precisava era de mais um peso na consciência. Mas ela me ignorou – e continuou.
 
Seguia me beijando, insistindo. Agora com uma lentidão. Dessas intensas, ô inferno. Respirei fundo, ainda com uma vontade desgraçada, e aí puxei a cabeça para o lado de forma bem sutil, quase envergonhada. Ela me olhou e eu justifiquei, dizendo que não estava no clima. Minha voz saiu arrastada. E com certo esforço, então, ela pareceu entender – seus olhos com aquele brilho frouxo de quem bebeu demais. Então sossegou. Coloquei o meu braço atravessado por cima dos seus ombros, mais uma vez, e ela encostou o rosto em mim. Notei o céu já quase azul na janela e achei bonito.
 
_Olha aí, meu, já é de manhã... – comentei.
 
Fazia tempo que não via o sol nascer. Sentia falta de baladas intermináveis assim. O apartamento todo estava em silêncio agora. Eu, e-eu tenho que trabalhar daqui a pouco, pensei. O namorado do biólogo cruzou o olhar comigo, deitado no meio da sala, e eu sorri pra ele. Meu corpo amoleceu.

After party I

Uma bunda. A última maldita coisa que eu gostaria de ver passar diante dos meus olhos ao final de uma noite que parecia ter durado para sempre na pista de dança – e que agora prosseguia, interminável, na calçada imunda da Augusta – era uma bunda. E não digo uma bunda bonitinha, bunda de mina. Não, senhoras e senhores. Não. Estou falando de uma bunda realmente bunda, bunda mesmo, do tipo pálida e de homem. Eca.
 
E só de pensar que o meu infeliz amigo ia, de fato, por livre e espontânea vontade, passar o resto da madrugada desfrutando prazerosamente daquela peça lastimável que agora desfilava descoberta e embriagada metros abaixo da saída da balada – mano, não, não dá, que depressão. Nessas horas me batia uma convicção tremenda de que o que eu gostava mesmo era de mulher. Mulheres, cara, mulheres e as suas bundas bonitas, devidamente adequadas, eu divagava, caindo de bêbada, enquanto assistia o DJ ali, seminu na minha frente.
 
_O QUE DIABOS CÊ TÁ FAZENDO, SUA BICHA DOIDA?!
 
Ouvi gritarem, pouco mais acima, e do nada o Gui passou correndo rua abaixo, bem na minha frente, escandalizado e rindo, indo com pressa em direção ao seu pseudo-affair exibicionista. Eu estava parada, fumando sozinha na minha, após longas horas suando naquela balada lotada sem tocar em um cigarro sequer, apoiada contra um muro do lado de fora. Ah, minha sagrada nicotinazinha. Já passavam das cinco da manhã e eu mal me aguentava em pé, bêbada como nunca, tentando não mijar nas calças de tanto rir do pobre Gui, que agora puxava o jeans do outro pra cima, refutando seus argumentos de que ele era “um cidadão livre” e que tinha “direito sobre o seu corpo”. Os dois tagarelavam numa cena tão engraçada que eu tinha que me apoiar nos lambes encardidos da Augusta para não cair.
 
O nosso grupo havia ganhado três novos integrantes. Um outro casal – também gay – se agregou à nossa excelente companhia já quase no fim da noite, assim como um amigo estilosinho do DJ, que eu conhecia de vista da Outs. O plano era ir pra casa desse último, que estava nos acelerando a cada dois minutos. O problema é que eu mal era capaz de andar, tentando não escorregar para o chão enquanto perdia o fôlego num ataque de riso involuntário causado pelo Gui e as calças abaixadas do seu homem da vez. Mano, não dá, eu vou cair..., pensei já agachada, me apoiando contra o muro para não tombar mais, ...eu vou cair, eu vou cair, eu vou cair..., olhei então para o cigarro aceso na minha mão, na dúvida se o largava e me segurava ou se, puta merda, é agora, vou cair mesmo.
 
_Vem, sua bêbada! – a garota da pista, que até então estava ocupada conversando com o casal, apareceu rindo na minha frente, oferecendo as suas mãos para eu segurar – Eu te ajudo.
 
Estou salva. Meti o cigarro na boca – como não pensei nisso antes? – e dei as minhas mãos para ela, me levantando pouco antes de relar no chão asqueroso da Augusta. Ufa. Agora em pé, coloquei o braço por cima dos ombros e terminei de tragar, tirando o filtro da boca. Eu estava andando mais torto do que um gambá. Descíamos a rua apoiadas uma na outra. O Gui voltou empolgado até nós, passos acima, tagarelando qualquer besteira, e me abraçou do outro lado. E aí, sim, começamos a andar torto mesmo. Disse que a casa do cara não ficava longe, que já tinha ido lá e que era logo ali, na próxima esquina, e eu achei graça – estava rindo de qualquer merda que me diziam àquela altura. Então o Gui me deu um beijo, num gesto de carinho.
 
A garota arregalou os olhos.
 
_Ah! Então quer dizer que ele pode? – contestou na mesma hora, indignada.
_Meu bem... – o Gui retrucou – Eu posso tudo! TUDO!
 
Pulou para a nossa frente, repetindo mais algumas vezes a palavra “tudo” do jeito mais afeminado e eu continuei rindo, sem discutir. A garota – que tem um nome, eu juro, e é, ela d-deve ter me falado, acho, em a-algum momento – nos olhava, indignada. O Gui riu comigo e aí seguiu para frente, descendo a Augusta nitidamente aos trancos, todo tonto de tequila, até esbarrar no seu affair e grudar nele com um abraço apertado.
 
Ah! Isa!, lembrei, é esse o nome dela.
 
_Mas você é... é... – ela se revoltava, bêbada – ...sapatão!
_Hum.
_É! Não é?!
_Sim... – eu ri.
_Então, porra! Você, v-você não pode beijar ele!
_Ah, meu, pelamor. Aquilo não foi nem um beijo!
_Sei. Se é assim... – a Isa me olhou e sorriu, mal-intencionada – ...não quer me dar um não-beijo, então?
_Não é a mesma coisa!
_Não?! – se divertiu.
_Se eu dou um beijo no Gui, é... é... sei lá, bicha. Foi meio selinho. Não significa porra nenhuma! Mas você, você é uma mina, né, meu... – me enrosquei na minha lógica bêbada – Se a gente se beijar já... tipo... já significa alguma coisa.
_Hmm... – ela saiu debaixo do meu braço, me pegando pela mão, e olhou nos meus olhos – ...e se não significar nada? Nem pra mim, nem pra você?
 
Não fala essas coisas pra mim, garota.
 
_Tá. Mas isso é... – eu sorri e tentei achar qualquer argumento, dando o último trago, antes de jogar a bituca no chão – ...é o que todo mundo diz, né, até que, de repente, começa a significar.
_Escuta... – ela me parou na rua, ficando na minha frente, e eu já comecei a rir – ...olha, eu prometo, prometo... – apoiou os antebraços nos meus ombros, fazendo questão de me olhar nos olhos, e eu coloquei as mãos na sua cintura sem pensar – ...prometo que não vou me apegar. Amanhã eu não vou nem lembrar de você. Tá bom assim?
 
A observei, de repente tentada.
 
_Um beijo, vai. Só um.
_Não... e-eu... – passei a mão no rosto, me livrando daquela má ideia, e suspirei – ...eu t-tô... é... é complicado.
_Credo. É pior do que eu imaginava! – ela riu e me olhou como se simpatizasse com o meu sofrimento – Não sei nem se eu quero saber.
_Não, vai por mim, você não quer.
 
Ri também, de novo, achando graça na minha própria desgraça, e dei uns passos mais pra frente. Ela seguiu caminhando junto comigo, ainda de mãos dadas nas minhas. Fui brincar e coloquei ela nas minhas costas, já quase no prédio do cara, montada com as pernas ao lado do meu corpo e os braços no meu pescoço. Clássica ideia idiota. Nós quase caímos, óbvio. Rindo até não poder mais, sem poder evitar, enquanto os outros nos olhavam como se fôssemos loucas e o Gui gritava qualquer coisa na nossa direção. Os vizinhos deviam nos odiar, tenho certeza, já acordando para ir trabalhar àquela hora. Mas que se dane.

fevereiro 16, 2011

"Electro Gang Bang!"

(M.O.N.T.A.G.E.)
 
_Ela tá te... – o Gui se debruçava sobre mim, rindo, tentando falar no meu ouvido no meio da pista lotada, fervendo – Não, sério... Olha, olha!
_Para de...
_Quê?!
_Para de apontar pra mina, cacete! – gritei, abaixando o seu dedo, acidentalmente empurrando o meu corpo contra o seu, os amplificadores estouravam nossos ouvidos e eu comecei a ter um ataque de riso, com o rosto colado no dele.
_...mas ela tá!
 
Eu ria tanto que meu estômago doía.
 
Ele ria mais ainda, já fora de si, sem entender porra nenhuma do que vinha da minha boca. Eu realmente me divertia com o Gui. Toda maldita vez, porra, cambaleando entre um passo de dança e outro, ao som de Joan Jett, completamente chapados e nos abraçando a cada dez segundos, na tentativa de não cair no meio daquele monte de gente no Vegas. Ele me puxava com força para si, numa indecência que fluía para fora dos seus poros, e eu sacudia a cabeça de um lado para o outro, num orgasmo rock ´n’ roll violento, acompanhando a letra de Do You Wanna Touch Me, aí ríamos e ele escorregava pelo meu corpo, rebolando até o chão, quase caindo juntos no piso sujo da balada.
 
A gente tinha uma puta química. Ninguém entendia quando, aí, o affair dele, um DJ de uns quase trinta, resolvia se juntar a nós e os dois se agarravam loucamente. Comigo logo ali, no meio, entre os braços másculos e uns beijos de língua exagerados, aquela viadagem toda, sendo que dez segundos antes qualquer um ao redor poderia jurar que eu e o Gui é que íamos nos pegar. Eu gostava de foder com a opinião alheia, de dançar atracada com os meus amigos viados a noite toda e depois ir lá mostrar algum canto escuro da balada para alguma garota. Nessa coisa meio genderfuck. Eu adorava – e o Gui não era diferente.
 
_Ei... – senti uma mão em mim – ...posso dançar com você?
 
Eu estava viajando, o rosto suado virado para cima e os olhos fechados, alucinando no setlist que saía das caixas altíssimas de som – tanto que sequer a notei aparecer na minha frente. Desci o queixo com certo atraso e a encarei. Era a loira que o Gui apontou, minutos antes. A tal garota que me queria, segundo ele. E sem querer, como se a percepção fizesse cócegas na minha crise de riso de antes, olhei para a cara dela e comecei a rir de novo.
 
_O que foi? – ela perguntou e eu ria ainda mais, apoiando a cabeça no seu ombro, e sem entender nada, ela começou a achar graça na minha reação – O que foi, meu?!
_Nada, nada... – tentei recuperar o fôlego – ...pode, pode.
 
Coloquei minhas mãos na sua cintura e ela continuou me olhando, rindo do meu riso. Puxei-a mais para perto. O set mudou para qualquer electro-funk moderninho. E aos poucos, os nossos quadris acertaram o ritmo um do outro. Uns minutos depois, enfim, o meu amigo soltou da boca do DJ para respirar e o seu date se virou para enfrentar a multidão até seja-lá-onde-que-ele-ia. Quando o Gui se juntou a nós duas, as pernas da garota já estavam metidas no meio das minhas, os meus braços ao redor dela e nós três, bêbados, perdendo a linha nas batidas do Vegas. Sentia o ar entrando quente e abafado nos meus pulmões. Qual é a das baladas e a ausência completa de ventilação, mano?, eu suava. Puta calor desgraçado.
 
_Meu, vou pegar alguma coisa pra beber... – avisei no ouvido do Gui, ofegante – ...não tá dando.
_Beleza. Ô... – me segurou, antes que eu me virasse – Quer que eu dou um perdido na mina?
_Não, meu... de boa.
_Vai pegar?
_Não. Claro que não! – olhei para ele, sem entender.
 
Cortei caminho pelo meio das pessoas que lotavam o Vegas – o que, para uma quinta-feira, era impressionante – e me apoiei contra o bar, pedindo uma dose de vodka e uma Coca-Cola. O Gui apareceu pouco tempo depois ao meu lado, me olhando esquisito, como se tivesse algo para falar. Alguns passos atrás, surgiu a garota da pista, meio de gaiato ali, e cada um encostou em um lado oposto de mim no balcão – ela, na direita e ele, na esquerda. Ambos pediram uma tequila, achando graça na escolha, e eu recebi a minha dose. Virei sem os esperar. Abri a minha latinha em seguida, ansiosa por qualquer coisa gelada, e o Gui grudou no meu ouvido:
 
_Dá pra você esquecer essa filha-da-puta? – argumentou – Hein?! Só por uma noite?
_... – tirei a lata da boca e o fuzilei com os olhos, em silêncio.
_O quê?! – se irritou – Não quer ouvir, é?!
_Ela não é filha-da...
_Do que cês tão falando? – a garota se intrometeu.

fevereiro 14, 2011

Foda-se

Que venha o Vegas e a dor de cabeça!
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Impertinência

O silêncio do outro lado da linha fazia eu me arrepender de ter ligado. O que eu tô fazendo, meu deus? Minha mão apertava o celular, com os olhos fechados, e os meus ouvidos escutavam o impasse na garganta da Mia. Nenhuma palavra. Ela hesitava em me responder a mais simples das perguntas. Como se qualquer coisa entre nós fosse simples.
 
_E-eu só liguei... – murmurei, interrompendo o silêncio e encarando o maço vazio entre meus dedos – ...porque queria saber como cê tava. E pra te dizer que, q-que aquele dia foi...
_Eu sei.
_Não, eu não sei se você sabe de verdade, Mia – quis confessar meu amor por ela, num impulso, mas ela me interrompeu.
_Não vamos falar disso agora...
_Você não tá bem, meu.
_Eu não disse isso.
_Mas também não disse nada, porra...
_É porque eu... e-eu não sei, não sei mesmo. Eu... – respirou fundo – ...não sei.
_Não sabe se tá bem ou não?!
_Não. Quer... q-quer dizer, sim.
_Mano, por favor... não faz isso – implorei – Fala comigo. Eu sei que ontem deve ter sido um dia confuso pra você, sei que deve tá passando mil coisas pela sua cabeça, mas conversa comigo, não me deixa sem saber.
_Não tem nada passando pela minha cabeça...
_Ah, não?! Então, nós estamos bem?
_“Nós”?
 
E aí o som sumiu de mim, garganta abaixo – senti escorregar para dentro do meu estômago, o revirando, enquanto eu permanecia muda. E machucada. Como assim? Nós. Nós, oras!, a ausência de voz me secava a boca e a minha cabeça disparava, acelerando o meu coração. Nós duas, porra. Por quê? Disse alguma coisa errada?! Nós. Eu e você, a gente, se pegando e fodendo e tatuando e saindo pra se ver e se beijando pelas ruas do Itaim e se pegando pelos cantos esse tempo todo, caralho. Ou não somos “nós”?! Não temos nada?! Tive vontade de desligar o telefone. Mandá-la à merda. Tirar de mim toda aquela angústia ridícula que vinha carregando nos últimos dois dias. Surtar, sei lá, ser realmente grossa. Mas não – respirei fundo.
 
_Escuta... – falei – O que cê vai fazer hoje?
_...
_Cê vai ver ele?
_Não.
_Não?
_Não, os... os meninos vão lá. Aí. Na casa de vocês, quer dizer. E eu... – hesitou – ...e-eu ainda não sei o que vou fazer.
_Eu quero te ver.
_Não, eu... e-eu não sei. Eu acho melhor eu... – suspirou – ...sei lá, ficar sozinha um tempo. Eu preciso pensar, sabe. Na minha vida, em tudo isso. Não sei se é a melhor coisa você vir aqui e...
_Mas eu não preciso ir aí, meu... a gente... a, a gente não... n-não precisa nem... – me enrolei para falar – ...olha, eu só quero te ver, Mia. Ver que cê tá bem, meu. Eu sei que rolou muita coisa essa semana e na semana passada, que você quer ficar sozinha, mas vamos... vamos só... só sair, meu. Ficar de boa, é sério, sem segundas intenções, nem... n-nem nada – continuei – Eu combinei de ir no Vegas hoje com um amigo. De repente, cê podia ir também e, sei lá, a gente só toma umas e dança um pouco, esquece desse rolo todo. Aí amanhã... – passei a mão no rosto, ansiosa – ...a-amanhã cê pensa nisso, vê o que quer fazer.
_Amanhã eu vou sair com o Fer.
 
Fantástico.
 
_Mia, olha, eu não quero complicar a sua vida – disse, tentando ser o mais sincera e racional possível – Eu gosto de estar com você, mesmo que a gente não esteja juntas. Gosto mesmo! E eu ia ficar feliz se cê fosse hoje, eu... só queria te ver, meu, só isso.
_Ah, mano, eu... não sei. Não sei mesmo.
_Por quê?
_Porque... Não sei se é uma boa ideia e... e eu não tô legal, sabe, não queria ir pra Augusta e nem...
_A gente não precisa ir pra Augusta! – a interrompi, na mesma hora – Eu desmarco, não tem problema! A gente vai pra outro lugar, qualquer lugar, meu...
_Não, escuta – respirou fundo – Sai com o seu amigo, vai lá hoje, se diverte e, sei lá, a gente se vê no fim de semana, quando eu me resolver direito com o Fê. Eu quero te ver também, só preciso de um tempo. É... é, é muita coisa de uma vez só.
_Eu sei, mas...
_Não esquenta com isso, meu. Sério, tá tudo bem... eu acho.
 
Ahh... Você acha?

fevereiro 11, 2011

Ostras, ostras

A quinta-feira chegou e eu ainda não tinha recebido notícia da Mia. Ou do Fer, por sinal. Aquilo estava acabando comigo. Só não tinha perdido a cabeça de vez, porque sabia que ele tinha dormido em casa – e sozinho. Estava acordada quando ele chegou de madrugada. Não tinha conseguido dormir, porra nenhuma, fumando um cigarro atrás do outro. E ao ouvi-lo chegar, não me aguentei: abri a porta do quarto para perguntar como havia sido por lá. “Foi bem”, disse, cansado, e foi direto para a cama sem comentar o assunto.
 
Ótimo.
 
Mais uma série de cigarros começados e esmagados no cinzeiro antes do fim. Nada na internet, nada pra fazer naquela merda de apartamento. E como a minha cabeça se recusava a pegar no sono, repetidamente, acabei acordando atrasada no dia seguinte. Por muito pouco, perdi o meu colega de apê – e o relatório completo do encontro – no café-da-manhã. Para piorar, ainda ganhei uma bronca do meu chefe. Óbvio. Aquela já se encaminhava para ser a pior quinta-feira de todos os tempos.
 
Contando com uma mensagem na madrugada anterior e uma de manhã, a Mia já havia ignorado dois SMS meus perguntando se estava tudo bem e, agora, eu me sentia uma neurótica descontrolada por tê-los sequer enviado. Fora isso, a Marina se recusava a dar sinal de vida e a única mensagem recebida no meu celular era do Gui, completamente alheio à situação, me lembrando do nosso combinado de ir ao Vegas naquela noite.
 
Ao voltar do almoço, sem ter comido nem meio prato direito e me deparando com a caixa de mensagens vazia, de novo, me senti a pessoa mais sozinha do mundo. Por que ninguém fala comigo, porra?!, empurrei o celular na mesa do computador, me deixando chatear. Que inferno. Estava quase ligando para o Fer para perguntar o que diabos estava acontecendo. Quase.
 
Atende, Marina, atende, tentei mais uma vez, algumas horas depois, numa insistência desesperada. E – nada. Caixa postal. Larguei o telefone na mesa à minha frente, com desgosto, e subi para buscar a minha vigésima xícara de café do dia na cozinha. Aproveitando o rolê dos maus hábitos, dei uma passadinha do lado de fora, em frente ao estúdio, onde fumei mais um cigarro. Preciso comprar um maço novo, encarei o meu já quase vazio nas minhas mãos, não posso esquecer. Troquei três palavrinhas com a mina da recepção, acerca de nem-lembro-o-quê, e desci novamente. Nada ainda no celular.
 
Mas que droga.
 
O relógio já marcava quatro-e-vinte passadas, quando resolvi ligar de uma vez por todas para a Mia e perguntar o que diabos estava rolando. Não é como se me sobrasse vergonha na cara, não é? Só que... Não. Não, meu, eu não posso fazer isso, repensei no mesmo instante, certa de que ela ia sacar o quanto eu estava surtando com a história toda. Tá. Mas eu tô surtando mesmo, porra. E uma vez na vida seria bom poder compartilhar isso com ela ao invés de pisar em ovos. Sentia que algo não estava bem. Esfreguei as mãos na cara, frustrada. As duas últimas semanas tinham sido diferentes entre nós e de repente sentia que eu podia perdê-la, num piscar de olhos, a sentindo escorregar por entre os meus dedos e de volta para ele. Argh.
 
_Oi? Mia?

fevereiro 09, 2011

À labuta

Responde. Responde. Responde. Eu olhava fixamente para a tela do celular, apoiado na mesinha de provas, mordendo a ponta do meu pobre dedo polegar. A Mia já tinha saído da faculdade há horas, tempo suficiente para voltar para casa e almoçar dez vezes com a família se quisesse – o que evidentemente acabava com a teoria à qual me apeguei a manhã toda, a de que ela não tinha levado o celular para a aula ou o deixara desligado o tempo todo. Puta que pariu, por que você não me responde?
 
_Não tem trabalho pra fazer, não? – um dos fotógrafos freelancers do estúdio passou por mim e riu.
_Não – murmurei, obcecada, sem tirar os olhos da mesa ou a mão da boca.
_Tá fácil essa vida de assistente, hein...
_Não enche... – curvei as sobrancelhas em desaprovação.
_Ô, bravinha... – jogou um cartão de memória na minha frente – ...descarrega isso aqui pra mim, vai!
 
A contragosto, peguei o cartão, levantando da cadeira, e o coloquei para baixar num computador a poucos metros dali. Assim que comecei a passar os arquivos, ele me chamou – “seu celular piscou aqui”. Voltei no mesmo segundo em direção à mesa, apressada, e peguei o telefone. Ouvi-o me zombar, ao fundo, sem prestar realmente atenção, conforme lia a resposta tardia da Mia.
 
Ah. Vai se foder!
 
Respirei fundo e olhei de novo para a mensagem, sem acreditar. Caminhei de volta à mesa do computador, irritada, enfiando o celular no bolso, e chequei se as fotos já tinham descarregado. Retirei o cartão de qualquer jeito do leitor e o devolvi na mão do idiota do fotógrafo, saindo em direção à escada. Me refugiei na cozinha e disquei para a Marina. Deu caixa postal, duas vezes. Inferno. Aí liguei para a segunda mais inteirada do assunto, a Lê, que atendeu no terceiro toque.
 
_Quanto tempo demora pra digitar quatro letras?!
_O quê?
_Quatro letras no celular. Quanto tempo demora, Lê?!
_Ihh... já tá brigando? – ela riu – Que foi que eu fiz, meu?!
_Você, nada. A Mia... – passei a mão no rosto, indignada, sem conseguir continuar – ...mano, eu mandei uma mensagem pra ela faz... – olhei rapidamente no visor e calculei de cabeça – ...meu, mais de seis horas e sabe o que ela me manda de volta?! Quatro letras. Quatro!! – me alterei – Mano, dá vontade de dar com a cabeça na parede! Cê tem noção? Eu passei a manhã inteira grudada nessa porra desse celular, surtando, e pra quê?! Pra receber quatro... Ok, sete, se contar as reticências... Mas que se foda, sete míseros dígitos. Sete, mano. Eu vou matar a Mia, tô te falando. Você vai ter que me buscar na droga da DP, cara, eu vou matar ela! Quatro vezes! Uma pra cada droga de letra!
_Não entendi nada, calma. Qual era a mensagem?
_“Você também”.
_Isso dá mais de quatro letras...
_Abreviado, né, porra. Ainda por cima foi abreviado!
_Ok – ela riu – Mas “você também”, o quê?
_...não sai da minha cabeça.
_E isso não é bom?
_Não! Claro que não! – discuti – Ela vai ver o Fer hoje, mano, isso... i-isso é péssimo! Ela tinha que responder, sei lá... “Ontem à noite foi a melhor noite da minha vida”, “eu gosto de você pra caralho”, qualquer coisa menos isso. Qualquer merda que não fosse simplesmente concordar comigo, tipo, muito, muito vagamente. Sério, Lê, isso é uma catástrofe. Eles vão voltar ao normal hoje. Eu sei que vão. Eu já tô sentindo tudo acontecer... Vai ser o pior dia da minha vida.
_Voltar? Mas desde quando eles brigaram, meu?
_Ah, na festa, sexta. Não tenho tempo pra ficar te explicando tudo, meu, presta atenção! Eles brigaram e eu passei a noite com a Mia ontem e foi o máximo, sério, o máximo, a gente se tatuou, se comeu sem fim, trocou ideia a madrugada toda, mas agora ela vai ver o Fer e vai ficar toda apaixonada de novo e vai estragar tudo. Já tá estragando, mano... Ela tá esquisita o dia todo!
_Nossa...
_E o que diabos quer dizer “vc tb...”, afinal?! “Você também e queria te ver de novo”? “Você também, mas tenho muita coisa pra pensar”? “Você também e só”?!? “Você também... mas tô pensando em você, no Fer, na torcida inteira do Corinthians...”?!?! – me irritei – Sério, me explica. Que merda ela quis dizer com isso?!
_Mano... Cê percebeu que cê tá tendo um surto, né?
_Não enche, Letícia.
_Quer dizer que ela também tá pensando em você!! Cara... relaxa. Ou manda outra mensagem pra ela, sei lá – resmungou – Como você é complicada, credo! Só se mete em rolo.
_Olha, sem ofensas, mas você definitivamente não serve como Marina.
_O quê?
_Nada. Preciso desligar... – murmurei, inquieta – Mas valeu.
_Tá. Um beijo... – a Lê riu.

fevereiro 03, 2011

Sintaxe complicada

“Ei...”, comecei a escrever no celular e me contive. Não queria me intrometer, o assunto era deles. Não podia fazer isso, sair surtando por causa de meias palavras ditas num café-da-manhã – mas, droga, como não? O nome da Mia aguardava no campo do destinatário, acima da mensagem quase vazia. E a porra da ansiedade me tomava a cabeça, o corpo. Sentada à beira da cama, os olhos fixos no seu nome na tela e judiando cruelmente dos meus lábios, nervosa.
 
Merda.
 
Tornei a digitar, sentindo uma necessidade desesperada de tomar alguma atitude, de fazer qualquer coisa a respeito. Argh. Precisava completar a frase, as reticências imploravam por alguma verdade minha – “eu te amo”. Essa era a verdade. Mas, não. Olhei aquelas três palavras digitadas e as apaguei imediatamente, num impulso covarde. Inferno. Me sentia exposta, exposta demais – me declarar assim me deixava mais insegura do que eu era capaz de suportar. Respirei fundo e encarei o meu quarto, as roupas jogadas pelo chão e o samba-canção do Fer, agora largado ao meu lado no colchão.
 
Diz alguma coisa, imbecil... Cê precisa dizer alguma coisa. E naquele momento, qualquer frase pronta serviria – “mal posso esperar para te ver de novo”. Não. “Gosto tanto de você”. Não, também não é isso. Não era nada daquilo. Argh, como eu odiava não poder simplesmente dizer não-quero-que-você-fique-com-ele, pedir para que ficasse comigo. Que pensasse em mim, e em mim, até aquele dia acabar. Que deixasse o resto do mundo para lá, esquecesse os horários marcados e a conversa e o namorado, que fosse minha, inferno, e não dele.
 
Mas... não posso. Pedir assim me parecia hipocrisia. Pois é, hipocrisia. Porque antes de nós duas, existiam eles dois – e eu sempre soube. Não podia sequer fingir o contrário, já que dormia ao lado da porra da evidência. Desgraça. Os minutos se esticavam, aumentando, rodando no pequeno relógio no canto direito da tela. O Fer já tinha deixado o apartamento há algum tempo e eu restava ali, com o estômago embrulhado, sofrendo por antecipação. Pela tarde que sequer acontecera ainda. Tentei forçar um pouco de coerência goela abaixo, não entrei nessa sem noção do contexto dela. As minhas mãos podiam, sim, estar amarradas desde o começo – mas os meus olhos sempre estiveram abertos. E eu sabia. Sempre soube. Não me cabia agora pedir o contrário dela, da vida dela.
 
Então fica quieta, caralho.
 
Passei a mão na boca, no queixo. E a desci pelo pescoço, tentando controlar um nervosismo descabido. Sequer sabia no que aquela conversa ia dar. Talvez o Fer não a conhecesse assim tão bem – certamente não a conhecia como eu. Mas mal me aguentava, sentada ali e impotente, desejando que as coisas fossem diferentes. Que ela não precisasse sequer se encontrar com ele. “Vc ñ sai da minha cabeça”, digitei por fim. E num gesto impensado, idiota, enviei. No segundo seguinte, claro, me bateu um desespero. Merda, o que foi mesmo que eu escrevi?, tentei lembrar ao ver, piscando na tela, uma mensagem automática – “envio concluído com sucesso”.
 
Entrei, apressada, na caixa de saída e reli a frase. Tá. Aquilo me tranquilizou, não tinha sido tão ruim assim. Agora já chega, respirei fundo mais uma vez e larguei o celular na cama, decidida a ir trabalhar. Precisava achar qualquer outra cueca.

fevereiro 02, 2011

Do lado de lá

Um Mississipi, dois Mississipi, três Mississipi... doze Mississipi, treze Mississipi, quatorze Mississipi, quinze Mississipi... e vira. Um Mississipi, dois Mississipi... quatorze Mississipi, quinze Mississipi... e vira, de novo. Assim eu seguia, milagrosamente em pé antes da hora, no meu ritual rumo ao perfeito queijo quente de frigideira, contando segundos como os personagens dum filme que vi quando era pequena. Vestida num samba-canção que roubei do Fer uns anos antes, com uma regata branca velha e um humor excelente – acordar com tempo suficiente para um café-da-manhã decente era tão raro na minha vida que, né, tais ocasiões mereciam pequenas recompensas. Mesmo que elas gerassem grandes louças.
 
Foda-se, tenho tempo, sorri e virei novamente o meu sanduíche.
 
Olhei mais uma vez para o relógio na parede, entre quinze Mississipis e outros quinze do lado oposto, e notei as horas. 7:04. Sequer lembrava quando fora a última vez que pulei da cama assim tão cedo. Ainda mais depois de ter adormecido às 4-e-sei-lá-quantas, falando com a Mia no telefone. Hum, sorri. As fatias de pão-de-forma já mostravam os primeiros sinais de que iam dourar por fora e o queijo começava a derreter entre elas, me deixando realmente com fome. No meio do processo, ouvi o Fer entrar pela porta que dava no corredor.
 
_O que cê tá fazendo aí? – percebi ele se aproximar, atrás de mim.
_Pode tirar o olho, hein, é meu café-da-manhã...
_Não falei nada... – ele riu e veio para o meu lado, se apoiando na pia e roubando um pedaço do queijo que eu deixei para fora da geladeira; enrolou uma fatia, olhando sei-lá-por-quê para a minha roupa, e depois comeu um pedaço – ...ô, essa aí não é minha?
_O quê? A cueca?!
_Acho que é, não é? – perguntou, mais interessado no queijo do que na resposta.
_É, sim.
_Espera... e isso aqui? – empurrou as pontas do meu cabelo para trás, descobrindo o meu pescoço, e riu, sentando-se na pia quase de frente para mim – Isso aí não é meu. De quem é?
_Cala a boca. De ninguém, babaca.
_O quê? – ele riu, pegando mais uma fatia do queijo e me enchendo de propósito – Vai dizer que cê se queimou com a frigideira?
_Mano, sai daqui, vai... – eu o expulsei, ameaçando-o com a espátula suja, sem vontade alguma de discutir o chupão que a sua namorada tinha me deixado na noite anterior.
 
O Fer achou graça, desavisado da verdade. Desceu da pia e deu alguns passos atrás de mim, até a geladeira, tirando um resto de suco da prateleira de baixo. Deu uns goles direto da caixa, enquanto procurava pelo cereal no armário. Já estava pronto para sair para o trabalho e mais arrumado do que o normal para uma manhã de quarta-feira – com um jeans limpo, a barba feita, regata branca e uma camisa aberta por cima. Achei estranho.
 
Mais uma rodada de Mississipis e... pronto! Retirei o sanduíche da frigideira com a espátula e o coloquei num prato vazio que aguardava na pia, ao meu lado. Aí peguei umas folhas de papel toalha e me sentei com o Fer na mesa, esnobando o seu reles café-da-manhã industrializado com o meu lindo queijo quente.
 
_Acordou cedo por quê?
_Sei lá, caí da cama. Levantei tão de boa hoje, meu, o despertador mal tocou e eu já tava em pé... – mordi o primeiro pedaço do meu lanche magnífico, aí olhei para o Fer, conforme mastigava – E você? Tá todo arrumado aí, por quê? Foi promovido?!
_Promovido a ficar no mesmo cargo por mais dois anos, né, só se for... – revirou os olhos, frustrado com a absoluta falta de perspectiva no emprego – ...nem, meu. Vou encontrar a Mia mais tarde, pra conversar.
 
Inferno. Como eu fui me esquecer?
 
_Hum... – tentei soar natural – ...boa sorte com, c-com ela.
_Valeu, meu.
_Vocês... – continuei, sem ter certeza se queria ouvir a resposta – Vocês tão melhor?
_Ah, acho que sim. Ela me ligou ontem, falou umas paradas. Foi bom. Só que eu tava no trampo, não deu pra conversar direito... então a gente marcou de se ver hoje pra falar com mais calma. Mas ela não parece mais brava...
_É? O que ela disse?
_Sei lá, falou uma pá de coisa. Que acabou exagerando, que gosta mesmo de mim. Tava toda sentimental no telefone – deu mais uma colherada no cereal – Eu nem tinha mandado mensagem, nem nada, tava tentando dar espaço. Não entendi, foi muito do nada...
_Hum...
_É foda, mano... Eu curto ela pra caralho, a gente se dá mó bem. Mas, porra, não entendo essas coisas dela! Num dia não quer falar comigo, no outro diz que tá com saudade. Me deixou o fim de semana todo na merda, meu... Queria que as coisas só ficassem bem entre a gente.
_Mas não era só o lance lá da... d-da festa?
_É. Ou, sei lá... Às vezes, acho que ela só quer uma desculpa pra terminar comigo, sabe? E-ela... Não sei, ela... fica distante, do nada, não quer fazer nada, não quer vir aí, não quer porra nenhuma comigo – argumentou, frustrado, deixando a colher de lado no prato enquanto explicava – E depois volta como se nem tivesse acontecido. Porra, fui até a casa dela domingo e ela nem me deixou subir, mano. Aí do nada, tá tudo bem, como se não tivesse rolado porra nenhuma, tudo lindo e azul no Paraíso!
_Ah, Fer, não sei... às vezes, é só o jeito dela.
_É, só que... s-só que não era, cara! A Mia não era assim. Juro que não era, ela era muito sossegada. Faz uns meses que ela entrou nessa de...
_De...?
_De, não sei, surtar o tempo todo. Me ama num segundo e, no outro, não quer nem que eu encoste nela, quer ficar sozinha. Antes a gente não conseguia nem tirar as mãos um do outro, porra! E eu curto ela pra cacete, sabe, eu sei que ela gosta de mim, mas... – balançou a cabeça – Puta, mano, é foda.
_É... – arqueei a sobrancelha, encarando a mesa.
_Velho, vai ser a mesma história, quer apostar quanto que eu vou chegar lá hoje e ela vai querer que eu vá com ela pra casa, vai querer foder a noite inteira, fingir que nem aconteceu? Mano... conheço. Aposto o que cê quiser.
_Uhum... – empurrei o prato, discretamente.
 
Um queijo quente perfeito, desperdiçado. Perdi a fome.

janeiro 27, 2011

Flashbacks urbanos

Os semáforos já haviam parado de funcionar, piscando inertes em meio à madrugada. Aquela luz amarela se acendia, toda cheia, num contorno redondo, e depois se apagava. Aí piscava de novo, forte. De repente, sabe. Diante dos meus olhos, incansável, a observava indo e vindo. Fechava as pálpebras, sentada confortável no banco de trás, e sentia que o mundo cintilava ali de fora para dentro de mim. Encostada na porta, o rosto no vidro frio, sonhando acordada com os detalhes daquela noite com a Mia. Um segundo, e eu estava de novo contra a parede do banheiro; os ladrilhos de um lado e ela do outro. O meu corpo latejava junto com o sinal; as luzes amarelas, piscando. Numa memória sensorial.
 
O carro andou, mas meu pensamento não se movia. Sempre que saía da casa da Mia parecia que a minha mente não queria deixá-la – ficava voltando. Podia vê-la agora, descendo na minha frente, se curvando no fundo da minha imaginação. Viramos a esquina e os lábios dela encostaram na minha barriga. Senti um arrepio. Abri os olhos e vi a cidade se mover do outro lado do vidro; de repente, mais um beijo.
 
Podia senti-la como se estivesse ali, comigo – mas continuava sozinha. O táxi seguia pelas ruas escuras de São Paulo, nenhum ruído lá fora ou aqui; os nossos sons contra as paredes do banheiro enchiam os meus ouvidos, a minha cabeça. E eu divagava. Mais uma esquina, mais um beijo; a língua dela corria do meu umbigo até mais... mais embaixo. Suspirei, com a ponta do dedo entre os lábios. E me ajeitei no banco, desconsertada. Os olhos da Mia me observavam entre as minhas pernas... me abaixei e a beijei; o seu gosto voltou à minha boca. Mais uma esquina, mais um beijo.
 
As suas mãos seguravam o meu rosto perto do seu; sentia os meus joelhos contra o piso frio, abri os olhos. Reconheci a Augusta. Estamos chegando. Os meus dedos escorregavam por entre as coxas dela; ainda a quarteirões de casa. Minha mão percorreu meu pescoço até uma mancha escondida na lateral – a tocando, quase podia sentir a Mia me machucando. Mais um semáforo e minhas pernas se apertavam entre si, com saudade da sua boca. Dos seus dentes, da sua língua na minha pele. A rua continuava cinza, desabitada. E eu sorri. Lembrando de cada palavra, cada movimento, por menor que fosse. Cada segundo. Eu queria mais. Desesperadamente mais – daquilo, de noites como aquela, de tudo. Dela. Era sempre ela. Logo, no entanto, se acabaram as esquinas – e se acabaram, também, os beijos.
  
_Pode encostar aqui, vou descer ali perto do... – pedi ao taxista, apontando um bar cujo nome não me recordava, desistindo de dizê-lo.
 
Contei os reais no meu bolso e enfiei o troco atrás da calça ao sair. Entrei no boteco e pedi um maço de cigarros para o dia seguinte – tinha esvaziado o meu com a Mia, horas antes. Por que sexo é diretamente proporcional à nicotina? Saí novamente na calçada, puxando um dos cigarros para fora do maço, e esperei para atravessar a rua. Coloquei o filtro na boca, conforme passava pela linha desenhada no asfalto, entre as duas faixas. Um carro vinha, bem ao longe, sem riscos.
 
Cheguei ao outro lado já acendendo o cigarro e guardei o isqueiro mais uma vez no bolso, enquanto caminhava em direção à Frei Caneca. A noite estava nublada, mas agradável, de um jeito bem paulistano. Um bêbado qualquer mexeu comigo – alguma cantada cretina – e eu o ignorei. Segui andando. Virei a esquina em direção ao meu prédio, sem vontade alguma de que aquela noite acabasse, ainda que já estivesse caindo de sono.
 
Quando entrei no apartamento já eram mais de quatro da manhã. E assim que me enfiei na cama, exausta, senti uma vontade imediata de falar com a Mia. Antes que percebesse, os toques sucessivos da chamada ao telefone começaram a cortar o silêncio do meu quarto – ecoando como vibrações indiferentes na minha mente vazia, que sequer se deu conta do que estava fazendo. Acompanhava lentamente a borda da cama com a ponta do dedo, sentindo a textura do lençol. E não me dei conta de que a Mia poderia, de fato, atender.
 
_Alô?! – sua voz sonolenta surgiu do outro lado da linha.
_... – arregalei os olhos, caindo na real, tentando atrapalhadamente entender que eu realmente tinha ligado para ela.
_Alô?! Você... – a Mia insistiu, baixinho – ...tá aí?
_Ahm. Oi?
_Hum... – ela pareceu respirar fundo, como se já estivesse quase dormindo – ...oi.
_Oi – repeti e apertei os olhos imediatamente, arrependida, assim que percebi que aquele era o terceiro “oi” de uma conversa de cinco segundos.
_Tá tudo bem? – perguntou, lenta e feliz – Aconteceu alguma coisa?
_Tá... não... e-eu só... – me enrolei para me justificar – e-eu... não sei, na verdade. Desculpa, não pensei direito... – ri, brevemente – ...não sei por que liguei.
_Ahm... – ouvia ela rir do outro lado – ...sei.
_Muito ridículo dizer que eu já tava pensando em você?
_Um pouco... – ela riu, de novo.
 
Sorri, sem lhe dizer nada.
 
_Onde cê tá?
_Em casa já... – continuei, com a cabeça apoiada no travesseiro e falando tranquila – ...sabe, você me deve um maço.
_Devo? – ela achou graça.
_Sim. Com juros.
_Hmm... – a ouvia, como se ela fosse adormecer a qualquer momento – ...p-pode deixar que vou pagar.
_Oi? – perguntei, sem entender a última parte.
_Oi...
_Oi – eu ri.