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março 12, 2011

Me olha, garota

A porta do elevador se fechava lentamente. E eu permanecia ali, plantada no meio do corredor. Por favor. Do outro lado, encostada na parede do elevador, a Mia mantinha a cabeça baixa, como se olhar para o chão fosse mais suportável do que me encarar naquele momento. Não faz isso, garota. A porta avançava centímetro por centímetro, como um erro que ninguém corrigia. Por favor. Prestes a descer e a levar embora sem me dizer uma única palavra. Nada além de um “eu preciso ir”, murmurado e covarde. É só isso que você tem pra me dizer?, o meu coração apertava ao vê-la ali, os seus olhos inchados, os meus, me sentindo uma completa idiota.
 
Qualquer coisa. Fala qualquer coisa, porra. Me manda à merda, diz que não me ama, que tudo entre a gente foi um erro, mas fala, caralho, eu a observava, conforme os últimos centímetros de vão se estreitavam. E como eu queria – enfiar a mão ali, impedir que aquela fresta se fechasse. A beijar contra a parede, não deixar que fugisse, que evitasse minhas palavras. O que eu disse um minuto antes, é, numa declaração romântica malsucedida de merda. Mas eu não conseguia me mover. Nem desistir. Então a olhava, olhava e olhava, como se isso fosse o suficiente para fazer aquela porta parar. Como se o desespero no meu olhar fosse capaz de a segurar ali por mais alguns instantes – e talvez fosse, se a Mia erguesse a porra do rosto e me encarasse.
 
Mas ela não olhou. Ela não fez nada.
 
Se refugiando num silêncio desesperador; e a vontade de chorar cresceu em mim. Não vira as costas. Não me deixa aqui, minhas pálpebras fixamente abertas imploravam. E até tentei me controlar – mas, no segundo em que o elevador terminou de fechar, as lágrimas me apertaram a garganta. Um arrependimento insuportável invadiu meu peito e, caralho. A realidade pareceu se suspender de repente. Engoli seco. Machucada e sem resposta, andei de volta pelo corredor, batendo a porta do apartamento com força atrás de mim. O Fernando continuava no quarto, podia sentir o cheiro do baseado vindo debaixo da sua porta, me lembrando do quão insignificante eu era. E quem ela escolheu.
 
Inferno. Com raiva, peguei minhas tralhas no chão e me tranquei no meu quarto. Prestes a desmoronar. Não queria ver o mundo por um mês. Foda-se, foda-se tudo, tentei me distanciar da sensação, mas não conseguia me aquietar, andando de um lado para o outro em frente à janela. Apoiei a cabeça contra o vidro e fechei os olhos, tentando respirar fundo. Por que eu fui falar?, a angústia me alcançou de novo, as lágrimas também, eu estraguei tudo.
 
Apanhei um cigarro em cima da mesa do computador e o acendi, ainda tentando me acalmar. Escutei o meu celular tocar. E li o SMS, “vc me ama msm?”. Traguei uma vez. Soltei a fumaça sentindo os meus olhos molhados, angustiada, encarando a mensagem dela como se as letras pudessem me cortar. “Amo”, digitei de volta brevemente e larguei o celular sobre o parapeito da janela. Eu sabia que ela não ia responder.

março 10, 2011

Portas, portas

A porta da frente mal havia batido quando abri a do meu quarto, saindo para o corredor. Estava furiosa – comigo mesma, com o Fernando, com aquela droga de situação toda. Batendo o recorde de estrondos dentro do apartamento naquele sábado, uma porta atrás da outra. Que se foda. O Fernando se recuperava da discussão na sala, fumando um baseado que o denunciou ali antes mesmo de eu poder vê-lo. Estava sentado na poltrona perto do sofá e eu, perdendo a cabeça, indignada que a Mia pudesse sair dali machucada.
 
Marchei até ele, engolindo o meu próprio amor por ela.
 
_VAI RESOLVER! – ordenei com raiva, apontando para a porta – VAI RESOLVER ESSA MERDA!
_Quê?! Não tenho nada pra resolver!! – se indignou – Quem tem que se resolver é ELA!!
_NÃO INTERESSA!! Vai resolver... e-essa... – senti meus olhos se encherem de água, de repente, sem entender bem o porquê – ...ESSA... DROGA!
_QUE DIFERENÇA FAZ PRA VOCÊ, CARALHO?! SE ELA QUER IR EMBORA, ÓTIMO!! – deu um trago, fingindo indiferença – EU NÃO QUERO ELA AQUI! POR MIM, ELA NÃO APARECE MAIS NESSA PORRA DESSE APARTAMENTO! NUNCA MAIS! FODA-SE!!
_Escuta aqui... – eu mal conseguia falar, sentindo me doer o peito – ...a Mia... a Mia saiu do meu quarto chorando a... a merda do coração pra fora... e sabe por quê?! SABE POR QUÊ, CARALHO?!? – o encarei, ofegante – Porque por... por algum motivo estúpido e... e... bizarro, ela… ela te ama. ELA AINDA TE AMA, SEU BABACA! APESAR DE TODA A PALHAÇADA QUE VOCÊ VOMITOU NA DIREÇÃO DELA!! Ela te ama e não consegue viver com o que ela fez! Agora, cê me escuta... – o ameacei, amarga – ...se essa garota sair daqui hoje se sentindo assim... se achando menos... do que você... como se não merecesse estar nessa porcaria desse namoro, Fernando... se ela... se ela pisar pra fora desse prédio acreditando em uma só palavra do que cê disse pra ela hoje... eu tô falando sério, Fernando, eu não olho mais na sua cara. Eu não vou te perdoar! – levantei a voz – VOCÊ LEVANTA DESSA PORRA DESSA CADEIRA AGORA E VAI LÁ RESOLVER ESSA MERDA!!
_VAI FICAR DO LADO DELA, CARALHO?!? – ele gritou comigo, se levantando na minha direção – SE VOCÊ QUER SABER, EU ACHO MESMO QUE ELA É, ACHO QUE ELA É TUDO QUE EU FALEI! TUDO! E SE ELA SAIR DAQUI SE SENTINDO UM NADA, POR MIM, QUE SE DANE! EU É QUE NÃO VOU CORRER ATRÁS DELA!! JÁ DEU, CHEGA DESSA PORRA! EU QUERO É QUE SE FODA!!
 
A meu respeito por ele morreu ali.
 
_Cara, cê realmente se acha melhor do que ela, né?! – o observei, sem acreditar no que estava ouvindo – Cê vai mesmo deixar ela sair daqui se odiando, não é, por uma merda qualquer... – meus olhos já estavam secos, revoltados – ...achando que te magoou, que te feriu, que é uma porra duma filha-da-puta, que fez uma coisa tão... tão imperdoável, não é?! – o enfrentei – Agora, me diz, o quão “filho-da-puta” você se sentiu enquanto tava enfiado naquele quarto, meses atrás, COMENDO A DROGA DA SUA EX-NAMORADA?! HEIN?! PORQUE, NA BOA, FERNANDO, SE A SUA MORAL TÁ TÃO OFENDIDA AGORA, IMAGINO QUE CÊ NÃO DEVE TER CONSEGUIDO VIVER COM O QUE FEZ, NÃO É, CARALHO?! DIZ, DIZ PRA MIM, A MIA SABE?? VOCÊ CONTOU PRA ELA OU ISSO NÃO IMPORTA?!?
_Cala a boca...
_CONTOU OU NÃO CONTOU?!? ELA TÁ LÁ SE ODIANDO POR NADA, HEIN, FERNANDO?! AÍ, DO OUTRO LADO DESSA PORTA... – briguei com ele – ...SE SENTINDO UMA MERDA ENQUANTO VOCÊ FICA QUIETO AQUI, SE ACHANDO MUITO MELHOR DO QUE ELA!!
_Não é a mesma coisa... – resmungou.
_AH, NÃO É?! ME EXPLICA ENTÃO, PORRA, QUE PARTE É DIFERENTE?!? SEU HIPÓCRITA DO CARALHO!!
_Mano, na boa... – ele passou por mim, puto, encerrando a conversa e indo para o corredor – ...não enche!
 
Covarde.
 
Vi ele fechar a porta do quarto, logo em seguida. Que se dane. Que se dane o Fernando, que se dane a porra toda. Saí do apartamento, na esperança de ainda encontrar a Mia ali. Não podia deixar ela ir embora assim. Não suportava a ideia de ter a magoado também, em meio à forma como o Fer a destratou, aquilo estava me sufocando por dentro. Atravessei o corredor e virei, olhando para o elevador sem esperanças de que a veria.
 
Mas lá estava ela.
 
Mia. Com o rosto prensado contra uma das mãos, encostada na parede oposta à do elevador, ela digitava no celular como se ainda tentasse falar com ele. Me apressei na sua direção e ouvi o elevador chegar. Merda. A sua cabeça se ergueu e ela me notou ali, mas virou o rosto sem hesitar, me ignorando.
 
_Mia, espera... – pedi – Por favor, cê entendeu tudo errado!
_Cê não precisa fazer isso...
 
Ela desviou de mim, seguindo para o elevador.
 
_Preciso, sim! Preciso, porque eu não quero te magoar, porra! Por favor... – segurei sua mão – Por favor, me escuta! Eu juro que, q-que não foi nada! Uma menina... me... m-me atacou enquanto eu… tava muito chapada... na casa duns amigos, depois da balada, e... e eu mandei ela parar, não aconteceu nada entre a gente. Meu, e-eu... eu não troquei um beijo sequer com ela!
_Na boa, não quero que você se explique...
 
Ela se soltou da minha mão e seguiu em frente, seus olhos ainda molhados.
 
_Não! Me escuta, porra... – me desesperei, implorando – E-eu sei que parece que eu... tô sendo eu, como... como eu sempre sou... e fazendo merda, mas... eu juro que não! Não dessa vez, Mia! E-eu... eu não fiquei com ninguém. Eu não queria ficar com ninguém e eu... E-eu disse isso pra ela, porra, disse pra todo mundo! Ainda tomei esporro do meu amigo! Sabe, eu...
_Você pode ficar com quem quiser – ela segurou a porta do elevador, já do lado de dentro, e me olhou com rancor – Eu não posso falar nada. E-eu... – abaixou a cabeça – ...eu acabei de passar a noite com o Fê, não é. Eu não tenho direito de querer nada, não devia ter falado merda nenhuma. Você não tem obrigação nenhuma comigo, nunca teve... – as lágrimas escorriam pelo seu rosto – ...e eu preciso ver as coisas pelo que elas são. Não é da minha conta o que você faz ou deixa de fazer na sua vida. Menos ainda agora. Faz o que cê quiser...
_Caralho, Mia... COMO CÊ É CABEÇA-DURA, PORRA! – segurei o elevador do outro lado e fiquei de frente para ela – Me escuta, cacete! Eu NÃO quero!! Não quero ficar com ninguém. Ninguém que não seja você. Só você. Eu só quero você, porra! E eu não ligo para o que quer que cê tenha feito... ontem, hoje, sei lá quando, caralho! – a encarei, sentindo meu coração arregaçar meu peito – Eu preciso que cê acredite em mim, que quando eu digo que eu quero que você fique, é porque eu quero mesmo. E se eu disse que não fiquei com a droga da menina, é porque eu não fiquei! Eu não tô mentindo para você. Eu não preciso mentir pra você, cacete, mas que inferno! Eu não quero. Não quero mais isso! Não quero mais me esconder! Não quero as mentiras, os beijos em segredo! – subi a voz e os meus olhos marejaram, ardendo – E não quero que cê não se importe com uma droga de um chupão no meu pescoço! Não quero que você me mande fazer o que eu bem entender com a minha vida, porra! PORQUE EU NÃO VOU!! NÃO VOU, MIA! NÃO MAIS... CÊ NÃO ENTENDE, CARALHO?! EU QUERO VOCÊ!! EU TE AMO!!
 
Isso. Perfeito. Fala mesmo, sua idiota.
 
Eu e o meu timing de merda, argh. As palavras saíram da minha boca e entraram no seu ouvido desavisado. Aquelas três malditas palavras. E a Mia ficou parada, ali, me encarando, em choque dentro do elevador. Eu suspirei, abaixando a cabeça:
 
_Eu sempre te amei, meu.

março 05, 2011

O purgatório

Entrei. E lá estava ela, subindo as calças pelas pernas, se vestindo ao lado da minha cama. As lágrimas corriam pelo contorno das suas bochechas, incessantes, descendo até o seu queixo. A essa altura, ela sequer as enxugava, as mãos ocupadas com os botões da calça, fechando-os um a um. Desconcertada. Esse desgraçado, me irritei com o filho-da-puta do Fernando, com raiva da reação dele. O meu coração ainda estava acelerado pela discussão. Encostei a porta, em silêncio. E ela me ouviu entrar, mas ignorou. Não sabia direito o que lhe dizer.
 
_Mia...
_Eu tô bem! – me cortou, na mesma hora.
 
Respirei fundo. Não era boa com aquilo – mal sabia lidar com os meus próprios sentimentos, que dirá com os dos outros. Mas não suportava vê-la chorando. Aquilo estava acabando comigo – numa vontade de ir até lá e beijar cada lágrima no seu rosto, o sal na sua pele, na sua boca, nos seus olhos, incansavelmente, até não sobrar um resquício de tristeza naquela garota. Dei três, quatro passos para frente e simplesmente a abracei – porque um beijo agora não funcionaria. Não dadas as circunstâncias. Não com o Fer do lado de fora e aquele arrependimento amargo ali dentro. Tinha peso demais na sua consciência. E na minha, naquele instante. Então a abracei – só a segurei. Suas mãos me empurraram de volta, por um instante, na altura do meu estômago, relutante, mas eu insisti. A fazendo ficar. E ela me segurou de volta, cedendo. Podia sentir o seu corpo tremer, chorando e soluçando, contra o meu.
 
_Ele... – ela disse baixinho, como se confessasse, deixando as lágrimas escorrerem no meu ombro – ...ele... e-ele me perguntou... do nada, e eu... eu não sabia o que dizer... – ela me apertou ainda mais e eu passei a mão no seu cabelo, a consolando – ...me desculpa.
_O que aconteceu? – perguntei, falando tão baixo que mal rompíamos o silêncio.
_T-tava, tava tudo bem... a gente acordou e... e tava conversando... quando ele disse que... ontem... o, o Marcos falou pra... pra ele ficar... esperto comigo... que ele não... não devia confiar em mim... e o, o Fê... – ela continuou, cada vez soluçando mais – ...o Fê não acreditou, ele... ele falou só por... p-por falar... hoje, na cama, sabe... ele... me perguntou se eu já... já tinha... traído ele ou algo assim, mas... meio de bobeira, porque ele... – sentia sua respiração pesar – ...porque ele sabia que eu, eu ia dizer que não e a gente... ia rir disso... mas... – ela se enfiou mais e mais em mim, machucada – ...eu não... eu não tava esperando e eu, eu fiquei... olhando para ele... que nem uma idiota e não... não consegui dizer nada... eu me atrapalhei... – merda – ...e ele, e-ele percebeu... não tinha como não perceber, ele... surtou, cê não tem noção... começou a... a me encher de pergunta e eu não sabia o que falar... não... n-não conseguia... e aí e-eu acabei admitindo, eu... tentei... tentei não te... envolver... dei a entender... q-que tinha sido um cara... eu não sabia que porra fazer e ele... tava gritando... tanto... f-falou um monte pra mim... nunca vi ele assim, e-eu... fui burra... eu fui muito burra!
_Ei. Não fala assim, linda... – a apertei com carinho, falando no seu ouvido – ...vai ficar tudo bem. Cê não tinha como saber...
_Não, eu sou... – ela insistia, chorando – ...eu sou uma estúpida. Uma puta duma estúpida! O que eu fui... o que eu fui fazer, porra... com, com a gente... a gente tava tão... tão bem... ontem... – ah, cê quer dizer vocês dois... – ...eu não... eu não queria... não queria... machucar ele... assim... desse jeito... eu... e-eu... – ela gaguejava, aos prantos – ...eu amo... eu amo tanto ele... – o meu coração se apertou e eu a segurei forte, num impulso – ...tanto, tanto... e-eu não podia... não podia ter feito isso... e-ele... ele não vai me perdoar... nunca... eu não vou me perdoar, o que... o que eu fui fazer, puta merda? – se desesperava – Como isso... isso... sequer começou?! Eu... gosto tanto do Fê... e-eu não... – ela se atrapalhava na própria fala, se desmontando em lágrimas – ...eu sou a pior pessoa do... do mundo!
_Você não... – movi o corpo para trás, de leve, segurando seu rosto e a olhei – ...acredite, Mia, você não é nem a pior pessoa desse apartamento – garanti e ela riu por um segundo, com os olhos inchados de chorar – Escuta, o que que você tenha feito, todos os erros que cometeu na sua vida inteira... – passei o dedo sobre suas bochechas, as secando com carinho – ...eu e o Fernando já fizemos pior. Cê não precisa se sentir mal. Não você... – sorri para ela – ...prometo. E na boa, o Fer é um babaca! Ele nunca deveria ter reagido assim, falado com você daquele jeito, ele foi um escroto... – a expressão no seu rosto mudou, de repente, e ela se afastou.
_Eu... e-eu... – ela se irritou, me soltando dela e se virando para a cama – ...eu preciso ir.
_Mia?!
 
A olhei, sem entender, e ela me ignorou. Tirou o camisetão que estava vestindo, bruscamente, de frente para as suas coisas sobre o colchão. E eu alcancei a sua mão, tentando a chamar – “Mia?”
 
_Você... – ela me encarou de novo, agora com raiva – ...você não pode falar assim dele. O que, o q-que a gente fez foi errado! Em todos os níveis de “errado” que existem, e você sabe!! Você mesma disse, não disse?! E eu ainda fui lá e tive a pachorra de... de brigar com ele... de machucar ele mais ainda, de mentir para ele, esse tempo todo, a... a gente tava errada! – me repreendeu – Então, não... n-não critica... não fala dele! Você não tem direito!!
_Eu não... – a olhei de volta, argumentando – ...Mia, o Fer é meu amigo. Eu não tô contra ele, porra! E eu sei, o que a gente fez não foi certo, mas isso não dá direito dele falar o que quiser pra você, desse jeito ainda! Ele saiu da linha, cacete!! Todo mundo saiu!
_É. Mas ele tinha razão...
_Sobre o quê?! Sobre você ser “uma filha-da-puta”?! É isso?!? – levantei a voz, indignada – É isso que você acha?!? Você realmente acha que merece ouvir esse tipo de lixo de um idiota que não sabe se controlar?!?
_AH! E VOCÊ SABE, POR ACASO?!??
 
O quê?!, a olhei, confusa, mas que diabos...?! Não tive sequer tempo de processar. Ela se virou e colocou a blusa que estava nas suas mãos, numa só tacada, largando a anterior sobre a cama para sair do quarto. Possessa.
 
_E a propósito... – se virou para mim – ...belo chupão, viu. Deixa eu adivinhar, cê saiu ontem e levou um tombo?!
 
Balançou a cabeça, murmurando para si mesma o quanto tinha sido idiota. Decidida a sair de vez dali. “Mia”, tentei a alcançar, mas ela se desvencilhou com uma angústia traída por detrás dos gestos. Bateu a porta atrás de si. E eu fiquei ali, sozinha no quarto. Inferno. Mas que inferno, porra. Pouco depois, ouvi a porta da frente abrir e fechar e, sem entender direito, escutei o Fer gritar mais alguma coisa na direção dela, rude. Merda. Não, não podia deixá-la ir embora daquele jeito. Mas que porra de opção eu tenho?!, passei as mãos no rosto, agoniada.
 
E aí não me aguentei.

março 03, 2011

E a cara-de-pau

Fui na direção deles e puxei o Fer pelo ombro, o tirando de cima dela.
 
_JÁ CHEGA, FERNANDO, PASSOU DO LIMITE! – gritei, me enfiando entre os dois, enquanto a Mia chorava atrás de mim – VAI SE ACALMAR!!
_NÃO SE METE! – ele brigou comigo – ISSO NÃO É ASSUNTO SEU!!
_É ASSUNTO MEU, SIM!! É ASSUNTO MEU, SIM, PORRA!! – me indignei – SE ELA MANDOU VOCÊ SAIR, VOCÊ SAI, CARALHO! QUE MERDA CÊ PENSA QUE CÊ TÁ FAZENDO??! 
_EU?!? CÊ SABE O QUE ELA FEZ?! O QUE ESSA MENTIROSA FEZ?? – apontou para a Mia atrás de mim – SABE?!?
_NÃO INTERESSA!!!
_EU NÃO FIZ NADA!! NADA!!! – a Mia se meteu, começou a gritar por cima do meu ombro – VOCÊ VAI ACREDITAR NAQUELE IDIOTA, PORRA?!?!
_ELE É MEU AMIGO!! MEU AMIGO, CACETE!! – repetiu, ambos gritando nos meus ouvidos e me esmagando entre eles, como se eu sequer estivesse ali – O QUE VOCÊ DISSE?!? O QUE CÊ ACABOU DE ME DIZER, HEIN?!?!
_Fernando... sai... de... – fiz força, o empurrando mais uma vez – ...DE CIMA, PORRA!!!
_NÃO SE METE, CARALHO!! – gritou comigo, me tirando dali – SAI DA MINHA FRENTE!! E VOCÊ... – ele olhou para a Mia com ódio – VOCÊ, VOCÊ SAI DA MINHA CASA... NÃO QUERO MAIS TE VER AQUI, PORRA!!
 
Me meti no meio deles, de novo.
 
_Fê... – a Mia voltou a implorar, desesperada, enquanto eu me enfiava na sua frente – ...por favor! Por favor, não faz isso! Não fala assim!! Eu... E-eu...
_Eu não sei como eu acreditei em você... – ele encostou novamente em mim, tentando chegar perto dela – ...mano... você... v-você tem noção do quanto eu te amo, DO QUANTO EU TE AMEI, DESGRAÇA?!?! – vi os seus olhos marejarem, machucados – HEIN?! E PRA QUÊ?!? PRA VOCÊ IR LÁ DAR PRA OUTRO?!?! PRA VOCÊ MENTIR NA MINHA CARA, PORRA?!?! QUAL É O SEU PROBLEMA?!?! – a voz dele tremia e eu mantinha minhas mãos entre os nossos corpos, tentando apartar a briga – OU SOU EU O PROBLEMA??!? FALA!! SOU EU O PROBLEMA, MIA?!?
_NÃO!!! CLARO QUE NÃO!!
_ENTÃO O QUE FOI, CACETE?!?! – ele gritou e comecei a empurrá-lo na direção oposta, o tirando de cima – ME LARGA, CARALHO!! DEIXA ELA FALAR... VAI, ME FALA!! FALA, PORRA!!
_E-eu não... – a Mia tentou, sem fôlego, mas as palavras não saíam da sua boca – ...juro... eu juro, que n...
_FALA!! EU NÃO SOU SUFICIENTE?!? PORQUE PARECE QUE CÊ SÓ TÁ ESPERANDO UMA PORRA DUM MOTIVO PRA TERMINAR COMIGO, NÃO É?!?
_NÃO!! EU TE AMO!!
_ME AMA O CARALHO!! VAI SE FODER!! QUANTO TEMPO CÊ TÁ ME TRAINDO??!?
_FERNANDO, CHEGA!! – gritei, o forçando para trás – SE ACALMA AÍ, PORRA, MAS QUE MERDA!!
_NÃO MANDA EU ME ACALMAR QUE CÊ NÃO SABE NEM DO QUE A GENTE TÁ FALANDO!!
_SEI! SEI, SIM!! – respondi, com o sangue fervendo – E SABE DO QUE MAIS EU SEI?? SABE, FERNANDO?!? HEIN?!?! SABE O QUE MAIS EU SEI?!? – o ameacei – O QUE MAIS ACONTECEU NESSA PORRA DESSE APARTAMENTO?!?!
_VOCÊ CALA ESSA SUA BOCA!!!
_SENÃO O QUÊ?!?! – retruquei – HEIN?! SENÃO O QUÊ, SEU MERDA?!?!
 
E aí ficamos em silêncio, subitamente.
 
Encarando um ao outro, nossos dentes cerrados. Sem ousar continuar – nem eu, nem ele. Inferno. Porque se eu falasse... se eu revelasse o segredo dele... se contasse para a Mia... se o expusesse... o meu, de repente, ganharia proporções dez... cem... mil vezes mais cretinas... e enterrava de vez a minha amizade, entregava o pouco de lealdade que me restava. Não podia contar. Não se ficasse quieta sobre a minha parte naquela merda toda. Nenhum de nós naquele corredor valia um só centavo – nós três – e, ainda assim, nos achávamos dignos de estar em pé ali, acusando os podres um do outro a plenos pulmões.
 
_Essa discussão já acabou... – me enchi daquilo e me virei, enfiando a Mia meio de qualquer jeito no meu quarto, dando as costas para o Fernando – ...chega.
_Mano, cê bota essa mina pra fora daqui! – ele apontou pra ela, puto – EU NÃO QUERO ELA NO APARTAMENTO!!
_CALA A BOCA, FERNANDO!! – bati a porta com força, deixando a Mia lá dentro, e me virei para o encarar – JÁ CHEGA, PORRA!! ACABOU ESSA PALHAÇADA!! ELA SAI QUANDO EU QUISER QUE ELA SAIA!!
_VAI FICAR DEFENDENDO ESSA IDIOTA, CARALHO?!?
_VOU! VOU, SIM!! ATÉ VOCÊ SE ACALMAR, CACETE!
_VAI À MERDA... – deu com os braços pra cima e começou a andar na direção da sala, irritado – ...VÃO AS DUAS PRO INFERNO!!
 
Desregulado, bufei, ainda nervosa, me virando para entrar no quarto.

março 02, 2011

O pau da barraca

_SAI, CARALHO!
_Não... não... – ouvi a Mia soluçar – ...por favor!
_EU NÃO QUERO OLHAR NA SUA CARA, MIA!!
_Por favor, Fê... – ela chorava – ...por favor, não faz isso!
_SOME DA MINHA FRENTE, PORRA!!
 
Ele começou a berrar mais alto. Me afundei no sofá, tentando não ser vista ali.
 
_Vamos voltar pro quarto... – ouvi a Mia implorar – ...por favor, meu, por favor. Vem cá.
_ME SOLTA, INFERNO! EU NÃO TENHO NADA PRA FALAR COM VOCÊ!!
_Fê... Fê, meu, eu... eu juro que… eu n...
_CALA A BOCA! EU NÃO QUERO OUVIR MAIS NADA!!
_Me escuta... – ela soluçava mais ainda, desesperada – ...por favor, só me escuta, e-eu...
_NÃO, PORRA!! SAI DA MINHA CASA!! 
_EU NÃO VOU SAIR!! – ela gritou de volta, de repente – NÃO VOU! VOCÊ VAI TER QUE ME OBRIGAR!!
 
Larguei o controle de qualquer jeito no chão e me sentei no sofá, assustada com o rumo da discussão. Olhei para o corredor atrás de mim e tentei entender o que diabos estava acontecendo. Eles sequer me notaram, gritando um com o outro na frente da porta do quarto do Fer. A Mia estava só de camisetão, segurando o que deviam ser suas roupas na mão, e ele de bermuda, os olhos vermelhos, chorando de raiva. Raramente vi o Fernando nesse estado. Ela chorava e chorava também, desesperada, tentando chegar perto dele – se aproximar, encostar nos seus braços – e ele a tirava de cima, toda vez, aí ela insistia e eles discutiam ainda mais. Numa barulheira desgraçada.
 
Já tinha visto os dois brigarem antes. Diversas vezes, aliás, naquele apartamento – sempre faziam um escândalo e depois faziam as pazes, era sempre o mesmo drama. A mesma rotina ingrata. Mas nunca nesse nível. Não, aquilo parecia diferente.
 
_POR FAVOR!! ME ESCUTA! – ela chorava, apertando as mãos e as roupas contra o peito, como se realmente doesse – ...por favor, por favor... Fê, eu nã...
_VOCÊ NÃO, O QUÊ?! HEIN?!?! VOCÊ NÃO, O QUÊ?!?!
_Vamos, vamos pro quarto – ela o puxava, implorando – P-por favor!
_VOCÊ NÃO FEZ O QUÊ?! FALA PRA MIM!! – ele se soltava, irritado – FALA, CARALHO!! OLHA NA MINHA CARA E FALA QUE NÃO FEZ!! VOCÊ NÃO, O QUÊ, HEIN PORRA?!?!
_O QUE VOCÊ QUER QUE EU DIGA?! – ela berrou de volta, as lágrimas correndo no seu rosto – VAI FAZER ALGUMA DIFERENÇA AGORA?!? VOCÊ SABE O QUANTO EU TE AMO!!!
_VAI TOMAR NO SEU CU, MIA!! CÊ TEM NOÇÃO DO QUE FEZ COM A GENTE, CARALHO?!?! MANO, EU... – ele balançava de um lado pro outro, com raiva – ...eu não acredito que... que... filha-da-puta, mano... SUA FILHA-DA-PUTA!! DESGRAÇADA!! – perdeu o controle de novo.
_E-eu... e-eu não queria, Fê, eu n...
_COM QUEM? ME FALA, CACETE!! – ele gritava, na frente dela – QUANDO?! QUANDO FOI, HEIN?!? COM QUEM?!?!
_COM NINGUÉM!!
_COM QUEM, PORRA?!?!
_COM NINGUÉM! – ela o empurrou – SAI DA MINHA FRENTE!!
_CÊ NÃO QUERIA FICAR?! – pôs o braço na parede, a impedindo de sair, e eu comecei a me levantar – HEIN?! NÃO QUERIA?!?! ENTÃO AGORA FICA, PORRA!! VAI FICAR ATÉ ME FALAR O NOME DO DESGRAÇADO!!
_ME DEIXA EM PAZ!!
_ME FALA, CARALHO!!!
_SAI, FERNANDO!!
 
Pulei por cima do encosto do sofá, como se a briga de repente fosse minha. E era.

março 01, 2011

Catatonia

O sábado chegou e uma latinha um-quinto-cheia de cerveja choca – após passar a noite aberta fora da geladeira – agora abrigava quatro cigarros fumados pela metade, apoiada em cima da mesinha de centro. Outros dois restavam amassados no cinzeiro da sala, todos fumados naquela madrugada. Os encarei ali, tortos, por ao menos vinte minutos antes de criar coragem para, enfim, me levantar do sofá. O dia estava claro e mais quente do que nas últimas semanas. Não sabia dizer que horas eram e pouco me importava.
 
A ressaca do dia anterior já tinha passado, mas o meu corpo seguia completamente destruído. Talvez fosse o peso emocional de saber que a Mia estava trancada no quarto do meu melhor amigo, logo ali ao lado, me fodendo a cabeça desde as quatro da manhã. Argh. Isso e aquele calor filho-da-puta. Sentada no sofá com a camiseta do dia anterior, as calças largadas no chão, os pés descalços e os cotovelos apoiados sobre os joelhos, tinha preguiça de sequer existir, deixando o rosto pesar contra as mãos. Acidentalmente olhei para meus joelhos e vi o pequeno raio torto, ali, ainda cicatrizando na minha perna – a lembrança daquela terça-feira me invadiu a cabeça a contragosto. Inferno.
 
Levantei, apoiando as mãos no meio das coxas, e andei até a cozinha sem força de vontade alguma. Apanhei qualquer salgadinho com gosto de isopor no armário, arrastando os pés de volta para a sala enquanto abria o pacote. Parei atrás do encosto do sofá e escorreguei de novo para a mesma posição de cinco minutos antes. Largada de qualquer jeito ali. Alcancei o controle da televisão, mais para lá na mesa, e coloquei no primeiro canal que achei com algum desenho animado passando. Papa-léguas. Me esparramei no sofá, torcendo para o coiote.
 
Me entupi de salgadinho para matar a fome por não ter jantado. Um pacote inteiro, uma cerveja e dois cigarros, quase duas horas depois, e eu continuava deitada no sofá, ignorando as circunstâncias em que eu me encontrava. Bem que eu gostaria de dizer que era proposital – que eu queria estar lá quando a Mia saísse daquele quarto, que queria que ela olhasse na minha cara depois de passar a noite trancada com o Fer no cômodo ao lado, que tinha pensado em tudo aquilo – mas a verdade é que eu não tinha. Sub-existia ali por pura inércia. Fingindo que o mundo não girava e que não havia mais nada nele além da porra do Pica-pau, que agora gargalhava na minha frente na televisão, numa sucessão de desenhos animados antigos.
 
Até que os ouvi.
 
Puta merda, não. Não estou pronta. Não queria lidar ainda. Mas podia ouvi-los no quarto, mais alto do que o normal. Detrás de uma porta e o decorrer dum corredor inteiro, por sorte, o som não se definia. Era apenas um ruído de gente. Não sou obrigada, aumentei o volume da televisão e prestei atenção no desenho, de birra. E funcionou. Algum tempo depois, todavia, o som de trás da porta aumentou. Não é possível, mano, me irritei, vocês tão de brincadeira, caralho. Quem fode assim? Tive o impulso de ir até lá bater na droga do quarto, mandar calarem a boca – mas me contive.
 
Enfiei uma das almofadas sobre a orelha, ainda deitada no sofá, fazendo um sanduíche com o meu próprio rosto. Mal conseguia escutar a porcaria da televisão agora. Droga. Não que o desenho realmente exigisse atenção nos diálogos, , então fixei os olhos na tela e continuei absorvendo as imagens passivamente. Me recusando a sair dali. Quando, do nada, ouvi um barulho alto de porta.
 
_SAI DA MINHA FRENTE, PORRA! – ouvi o Fer gritar no corredor.

fevereiro 26, 2011

As maçanetas

Sabe quando se dorme tão, tão profundo que se tem a sensação inconsciente de estar submersa? Pois lá estava eu. Afundada no breu, num túnel escuro dentro da minha própria cabeça, quando, bem lá no fundo, ouvi um barulho. Foi de repente, algo estalando. Cléc-cléc. Num movimento mecânico. Me virei, pesada, para o outro lado, mas algo continuava em movimento, não muito longe de mim. Eu podia sentir ali, em algum lugar, por ali, mesmo que não prestasse atenção.
 
Outro ruído. E o som começou a me puxar, no sentido contrário do túnel, me tirando do escuro, do sono profundo. Inconscientemente, passei a mão no rosto e o virei mais para o lado, me afundando contra o encosto. A textura do sofá contra a minha pele era rude, mas gostosa, confortável. Então, veio mais algum barulho, de leve. Alguém disse, eu acho, disse alguma coisa. Sem muita vontade de ser ouvido, falou baixo. E aí, de novo, mais um estalar. Cléc-cléc. Recuperei a consciência no segundo deles – abri meus olhos pesados, com certo esforço. Desnorteada. O cômodo estava bem mais escuro do que quando adormeci. As paredes estavam apagadas, em tons de cinza e marinho, as sombras da noite imóveis e silenciosas. Que horas são? Me mexi com preguiça para o lado, tirando o celular do bolso atrapalhadamente e acendi o visor por um instante.
 
3:59.
 
Dormi demais, merda.
 
Coloquei o telefone no chão, próximo às minhas chaves largadas ali horas antes. Continuava com sono, meu corpo parecia ter sido atropelado por um caminhão. O efeito Augusta. Me ajeitei para a esquerda, virando os braços e encarando mais uma vez o encosto, me preparando para dormir de novo. Só que aí ouvi mais um barulho, um pouco mais ao longe. Deixei os olhos abertos de novo, incomodada por ter sido acordada – a luz da cozinha estava acesa agora, notei. A porta encostada deixava escapar apenas uma fresta, um feixe de luz que se esticava pelo teto da sala. Suspirei, sonolenta. As minhas pálpebras pareciam pesar a todo custo para baixo.
 
De repente, a luminosidade aumentou, cutucando os meus olhos cansados. E ao reabri-los, notei que a fresta estava maior do que antes. A porta, calculei. Uma movimentação quase silenciosa acontecia em frente a ela, no corredor. Tentei segurar a respiração por alguns segundos, a fim de ouvir o que diziam, mas não escutava nada além de passos que pareciam não sair do lugar. A sala estava mais silenciosa do que o comum para uma sexta à noite. Talvez tenha chovido, supus e senti um vento mais friozinho entrar pela janela, encostando nos meus braços. Explicando a ausência incomum de bêbados e baladeiros barulhentos pelas calçadas da Frei Caneca.
 
_Mas eu qu... – ouvi alguém sussurrar, do nada.
 
O Fer? Talvez. Não consegui entender a frase toda. Mas estava conversando, não sabia quem estava com ele. Por favor, desejei, qualquer um menos a Mia. Meu coração acelerou. Por favor, por favor. Seguiam cochichando alguma coisa, frente à cozinha, eu não conseguia acompanhar. Estava baixo demais. Pareciam se mover às vezes. Prendi a respiração novamente, em silêncio no sofá, tentando não ser notada ali.
 
_Não, deixa aí... Amanhã voc... – a outra pessoa cochichou.
_Vai estragar se eu deixar aí!
_Tá, vai lá, mas... – observei a porta se movendo, no teto, e escutei alguém mexer na geladeira.
 
Aí nenhum ruído, por um instante.
 
_Ô... Cê quer o resto da Coca aqui? – ouvi, agora claramente, num tom bem mais alto, o Fer perguntar de dentro da cozinha.
_Não... – ela respondeu e, merda, era a Mia – ...o que cê tá fazendo aí?! Vem logo!
 
Poucos segundos depois, após mais alguns passos, ouvi o interruptor clicar e todo o cômodo ficou novamente escuro.
 
_Eu tava guardando lá, meu... – ouvi o Fer dizer, cochichando – ...você largou em cima da pia, porra.
_Shhh!
 
A essa altura, eu não estava conscientemente segurando a respiração, mas já não respirava. Os passos se seguiram, um atrás do outro, tentando não fazer barulho pelo corredor. E do nada, um pequeno estrondo. O idiota trombou na porta do quarto. Devia estar bêbado, é, o que só piorava tudo. Ambos riram, se contendo, e eu ouvi o som vir de longe. Bem baixinho. Escutei, então, a maçaneta se abrir e fechar novamente, no fim do corredor. Aí todo o som sumiu do apartamento.
 
Fiquei sozinha na sala e, por um segundo, não me mexi – não conseguia. Parada, as costas contra o estofado do sofá e os olhos silenciosos no teto, apenas respirei. Então, me levantei. Sentei no escuro e acendi um cigarro, sem pensar a respeito. Deixei o maço e o isqueiro em cima da mesa de centro e olhei para a televisão apagada. Eu simplesmente não sabia o que fazer.

Game over

Idiooota, eu me pendurava no galão de água, sofrendo com a minha própria estupidez. Sozinha na cozinha do estúdio, aquele fracasso em plena sexta-feira de manhã. Mas como eu sou idiota, cara. Olhei o ambiente em volta, completamente enjoada. Não me sentia tão mal assim há tempos – e olha que eu me esforçava.
 
A falsa impressão de que eu conseguiria aguentar o tranco, alimentada pela arrogância de quem tinha bebido e cheirado mais do que devia, rapidamente se transformou em uma bad fenomenal. Como já era de se esperar, toda minha disposição de horas antes foi para o espaço. Virada há dois dias, o meu estado atual era deplorável. Que imbecil, mano, eu me condenava, odiando cada neurônio burro dentro da minha cabeça oca, inconsequente, acorrentada ao trabalho e com o expediente todo ainda por vir.
 
Quinto copo de água. O café estava me embrulhando o estômago e agravando uma dor aguda de cabeça. Não, fora de cogitação. Tudo se misturava na minha barriga e eu sentia cada gota de líquido ingerido naquela manhã e na noite anterior rodando dentro de mim, como numa máquina de lavar roupas. E a cada volta, me dava uma vontade desgraçada de vomitar. Peguei o celular, na esperança de já terem se passado ao menos cinco minutos. Mas, como se já não me sentisse mal o suficiente, toda maldita vez que olhava para o visor, via mais uma chamada não-atendida da Marina e me sentia uma amiga de merda. Não estava em condições de atender.
 
Enfiei a testa na lateral do galão de água, apertando-a contra aquele plástico azul para ver se eu conseguia magicamente sumir do planeta. Mas, nada. Abri então os olhos e o movimento denso da água ali dentro me deu ânsia, de novo. Bosta. Me sentia um lixo de pessoa. Como se minha vida inteira fosse um grande erro. E eu sabia – sabia – que a bad ia passar. Uma hora ou outra, aquele sentimento autodestrutivo ia desaparecer, o eu-não-faço-porra-nenhuma-direito seria substituído por uma anestesia exausta. Contudo, e eu tinha uma certeza terrível disso também, aquele enjoo e fraqueza insuportáveis não iam me abandonar tão cedo. Ahh, não, não... Eu ia me sentir doente pelo resto do dia e, pior, seria obrigada a manter os olhos abertos durante cada minuto de merda das próximas horas.
 
Eu sou uma imbecil mesmo, enchi o sexto copo d’água e tive vontade de chorar, por que diabos eu apareci nessa porra?! Argh. Era quase melhor ser demitida de vez. Minha cabeça se comprimia, doendo dentro de si, e minhas pernas imploravam para que eu parasse de forçá-las em pé no chão. É, como eu disse, estava num estado deplorável.
 
O expediente levou uma eternidade excruciante para passar. Cada olhada no relógio me indicava o quão longe eu ainda estava da reta final – e eu lidei com isso da pior maneira possível. Em perpétua autocomiseração. Quando, por fim, o ponteiro alcançou as 18 horas, me arrastei da cadeira onde estava até a recepção do estúdio com um entusiasmo nada aparente e me pus a caminho de casa. Como uma verdadeira zumbi.
 
Pensei em ligar para a Marina, retornar as ligações, mas não tinha a mínima vontade de fazer qualquer esforço mental. Ou emocional. Ela perguntaria o que eu queria na tarde de quinta e eu teria que contar da Mia e do Fer e eu não estava em condições. Sem mencionar que ela certamente vai me falar da Bia e de como elas estão bem e como reataram e agora estão namorando e que o sexo foi ótimo e que elas vão casar e ter filhinhos e uma casinha no campo e serem felizes para sempre, sem dúvidas, reclamei para mim mesma sentada no metrô, e eu não quero ter que ouvir essa merda.
 
Saí da estação da Consolação mais rabugenta do que nunca. Fumei um último cigarro, enquanto caminhava até meu prédio, lutando contra um sono violento. A Frei Caneca nunca me pareceu tão longa e inclinada quanto naquele momento. Passo por passo, com um certo esforço, eu procurava não tropeçar em mim mesma. Até que não seria má ideia, de repente, rolar até lá embaixo. Tirei o lenço palestino do pescoço – essa merda tá me sufocando, argh – e senti um alívio em ter o vento correndo na minha pele. Agora não tinha nenhum colega de trabalho engraçadinho perto para me encher o saco sobre os chupões. Meu pescoço parecia um campo minado. Lembrei da Isa, do nada, por um instante. Devia ter feito ela parar, pensei, sem fazer muito sentido comigo mesma, e joguei o cigarro na sarjeta.
 
Portão. Elevador. Corredor. Porta. Virei a maçaneta. Chegar inteira em casa era quase um triunfo. Dei dois ou três passos para frente e capotei de qualquer jeito no sofá da sala. Com a cara afundada naquele estofado azul marinho macio. Larguei as chaves no chão e minha mão permaneceu pendurada ali mesmo. Aquele foi o último som que ouvi antes de cair em sono profundo, o do meu chaveiro contra o piso de madeira. Toneladas e toneladas de ar pareciam me pressionar para baixo, me afundando naquele tecido grosso. Apaguei. E apaguei mesmo – nenhum sonho, nenhuma ajeitada de corpo ou tirada de cabelo sobre a cara. Blackout completo.

fevereiro 23, 2011

7:42

Fechei a porta e senti a luz da manhã refletir pelas paredes da sala, vindo direto na minha cara. Minha mão continuava na maçaneta e eu respirei fundo, lutando contra a embriaguez, a exaustão. A caminhada de volta tinha me deixado ligeiramente mais sóbria. Bem ligeiramente. Senti como se estivesse fora do meu apartamento há dias, o olhando, aquele sentimento estático como de quem volta-de-viagem – depois de passar a noite inteira fora. Tudo continuava igual. Tudo, isto é, menos aqueles lençóis no sofá e um colchão no meio do chão. Fiquei parada por alguns segundos, olhando para a sala bagunçada, sem entender. Quem diabos dormiu aqui?
 
A minha cabeça rodou, toda tonta – afogada em inúmeras doses e o que quer que restava de substâncias ilícitas em mim. Era a terceira ou quarta rodada, dessas que parece que você vai desmaiar, desde que saíra da casa do moleque da Outs. Inferno. Contei até três, respirando. Recuperando o equilíbrio. E só aí comecei a andar, me sentindo ligeiramente mais estável. Atravessei a sala e me deu uma vontade de me jogar naquele sofá, assistir desenho animado a manhã toda e não ir trabalhar. Mas segui em frente.
 
E por inércia, entrei na cozinha.
 
_Mano, cê tá chegando só agora?! – o Fer riu, a uns metros, encostado na pia.
_Bom dia...
 
Murmurei, acabada.
 
Larguei as minhas chaves na mesa. E o barulho do metal contra a superfície pareceu ecoar bem no meio do meu cérebro. A nossa cozinha estava cheia de homens. Argh. Estranhei – estava acostumada a ver os moleques, mas não assim, tão já de cara, àquela hora da manhã. O Rafa passava sem camiseta ao longe, branquelo, me dando um “alô” com a cabeça antes de entregar um cigarro do seu maço para o Fer. De costas para mim, sentado à mesa, o Marcos comia o que me parecia ser um pão com presunto – sem se dar ao trabalho de virar para me cumprimentar, ignorando a minha chegada. Agradável.
 
_Vieram só vocês ontem? – perguntei, sem muito interesse.
_Não... o outro Rafa também tava aí e o Igor – o Fer comentou, em frente à pia, acendendo o isqueiro – Mas foram embora ontem. E você, tava onde até essa hora?
_Nossa, meu, sei lá, na casa de um maluco aí... Amigo do cara que o Gui tá pegando, lá do Vegas – suspirei, sentindo o peso daquela noite inteira nas costas – Eles tão lá ainda, mas eu vim pra casa – sentei numa das cadeiras – Preciso trampar hoje ainda, mano...
_Cê vai virada pro estúdio?!
_Vou, meu, num posso mais faltar.
_Sei – o Fer riu, me olhando, e se aproximou, passando a mão em cima da marca que a Mia deixou no meu pescoço – E esse chupão aí, hein, não saiu ainda?!
_Sai, Fernando... Não enche! – tirei a mão dele, virando o rosto pro outro lado.
_PORRA, TEM MAIS UM?!?!
 
Espera, arregalei os olhos.
 
_Mais um?? Onde?!??
_Aqui, mano, desse lado – ele começou a rir mais ainda e colocou a mão no meu pescoço, indicando – Tá mandando bem, hein, fia... É um por dia agora?
 
Desgraçada. A memória da Isa grudada em mim, na sala do cara, voltou à minha mente – afundei o rosto nas mãos, com os braços apoiados na mesa. Não podia acreditar naquilo. Não é possível. Quis me enfiar num buraco. Escorri as mãos para baixo, as tirando do rosto, e em meio à toda minha agonia, dei de cara com o Marcos, me julgando do outro lado da mesa. Que foi agora, me irritei, apertando os olhos na sua direção, quer falar alguma coisa, babaca?!
 
_E cês foram no Vegas, então? – o Fer perguntou e eu acenei com a cabeça, com os olhos ainda fixos no Marcos.
_Fomos.
_O que era lá ontem?
 
O Rafa passou ao meu lado e eu estiquei o braço para que ele me oferecesse o seu cigarro. Dei um trago rápido.
 
_Nem sei... – soltei a fumaça e dei de ombros, devolvendo o cigarro – Só fui porque o cara lá que o Gui tá pegando ia tocar. Mas tava bom pra caralho, meu.
_Se divertiu, então... – o Marcos resmungou, quase como se me acusasse.
 
Qual é a sua, porra?! O encarei de volta, bêbada demais para desviar o olhar e sem paciência com aquela atitude de merda dele.
 
_Sim – respondi, só de afronta; então me virei para o Fer – E vocês, fizeram o quê aí?
_Ah, ficamos jogando...
_É?! Quem ganhou?
_O Fernando – o Marcos alfinetou.

fevereiro 18, 2011

Sexta-feira, baby!

A small Jean Genie snuck off to the city
Strung out on lasers and slash back blazers
Ate all your razors while pulling the waiters
Talking ‘bout Monroe and walking on Snow White
New York’s a go-go and everything tastes nice

(David Bowie)