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março 30, 2011

One, two, three... floor!

Uma tequila, claro, virou duas. E duas viraram quatro. Inevitavelmente. E após uma perigosa série de doses compartilhadas, o meu julgamento foi por tequila água abaixo. De novo. Cinquenta minutos depois, me encontrava num estado lastimável, esparramada numa cadeira de bar, desafiando a loirinha de alargadores pretos do Vegas, afundada na sua jaqueta e igualmente fora de si, a me vencer num campeonato de palitocóptero. Não conseguia parar de rir da idiotice daquilo, o que obviamente prejudicava o meu desempenho – fazendo com que o palito caísse do meu nariz. Fala sério.
 
A clientela do bar já começava a se dispersar, eram 5-e-alguma-coisa da manhã. E os atendentes nos olhavam torto dum canto, duvidando da nossa intenção em pagar a conta. Quando o palito da Isa caiu, lá pela quarta vez consecutiva, ela se apoiou na mesa com os olhos semiabertos e ficou contando em voz alta, achando graça, enquanto eu tentava provar que conseguia fazer o meu dar mais cinco voltas.
 
Caiu na terceira, merda.
 
Abaixei para pegar o palito no chão, reclamando do meu próprio fracasso. E ao retornar à posição normal, me senti tonta, bêbada como um gambá. Coloquei o palito sobre a mesa e me debrucei no tampo de madeira, olhando para a Isa de volta. Me pareceu bonita, assim, de repente – para quem já tinha sobrevivido a uma balada e à maior enrolação do século, isto é. E após uma longa noite de tentativas malsucedidas, o clima finalmente despontou. Sorrimos uma para a outra. E ela percebeu a brecha.
 
_Se eu tentar te beijar agora... – disse, flertando – ... cê vai dar um jeito de virar o rosto, não vai?
_Não sei... – fiz graça, brincando com o palito sobre a mesa – ...tenta, ué.
 
Ela me observou, desconfiada, e inclinou o rosto na minha direção. Os garçons nos olhavam. A barra do vestidinho amarrotado dela já tinha subido tanto que, de onde eu estava, parecia que ela estava só de jaqueta. Sorri, conforme se aproximou, cogitando se devia dar aquele beijo ou não. E no último segundo, desviei. Encostei o rosto no canto da sua boca e lhe dei um beijo comportado na bochecha, de propósito.
 
_Filha-da-puta... – ela riu.
_Quê?! Cê achou que eu ia dar uns pegas com você aqui, meu?
_Tá – me desafiou – Vamos pro carro, então...
_Não, mano... – balancei a cabeça, rindo, e aí a encarei fixo por um instante, sentindo a tequila bater – ...hum, e se eu disser que eu vou?
_Eu pago a conta agora, meu.
 
Suspirei. Sem muita certeza do que estava fazendo dizendo ali.
 
_Tá. Então, vamos.

A carona

O ar passava gelado entre os meus dedos, voando leves ao som do álbum experimental que tocava no carro. Cex, “Actual Fucking”. Minha cabeça seguia apoiada na janela aberta, o antebraço todo para fora e os dedos suspensos no ar. Eu estava bêbada, realmente bêbada – tinha aberto a janela para não vomitar ali dentro, enjoada pelas voltas que demos pela Lapa para deixar um amigo da Isa em casa. Agora o carro seguia em linha reta pela Heitor Penteado. Só eu e ela. Mas a minha mente e o meu olhar estavam longe.
 
Na Mia, é.
 
Eu sabia o que a Isa queria. Sabia exatamente o que ela estava pensando, sentada ali ao meu lado, fumando um cigarro e me observando vez ou outra, com o canto do olho, murmurando a melodia insinuante que saía do rádio. Sabia porque aquele era o papel a que eu me acostumara. A ser a garota que liga para outra às três da manhã. A atravessar a cidade para foder alguém que não ia encostar um dedo sequer em mim. A não significar. A não ser ninguém. E sabia, antes de mais nada, porque sabia o que eu tinha feito aquela “carona” parecer ao telefone.
 
Mas, àquela altura, eu estava pouco me fodendo.
 
Brisava nas batidas em downtempo da música e nos meus dedos no ar, olhando a cidade passar por detrás. Ajeitei o rosto, apoiando o queixo sobre o braço que pendia para o lado de fora. E ao notar o mínimo movimento meu, a Isa puxou assunto. Coloquei os ouvidos do lado de dentro do carro – “quê?”, pedi para ela repetir. E encostei o corpo contra o assento, colocando os pés no painel e escorregando no banco, com os joelhos na altura do rosto.
 
_Eu perguntei... – ela sorriu – ...no que cê tá pensando aí?
_Em nada... – murmurei, largada no banco do passageiro – ...sei lá. Em parar pra comer, talvez.
_Pra comer?
_É – sugeri, a poucos quarteirões de casa, sem vontade alguma – Tá com fome?
_Olha, até comeria... – sorriu – Mas só vai ter boteco aberto essa hora!
_Não. Vamos no Prime Dog, meu.
 
Passamos reto pela Augusta, atravessando até o final da Paulista. É – eu estava enrolando. Descaradamente. Ganhando tempo ali, sem fome mesmo, enfiando um hambúrguer vegano goela abaixo. Enrolando pois sabia que, assim que descesse na porta do meu modesto edifício, ela ia querer subir comigo. E eu não queria ser a filha-da-puta que, além de pegar carona a troco de beijo nenhum, também diz estou-cansada-deixa-para-outro-dia. Mas não estava afim. Então precisava criar, no mínimo, a ilusão de que aquilo tinha sido um encontro.
 
Sentada naquela cadeira gelada do Prime Dog, rodeada de outros bêbados que começavam a sair das baladas, eu a escutava tagarelar. E entrava numa bad cada vez maior. A Isa encostava sua mão na minha, debaixo da mesa, e eu apoiava ambas ao lado do prato. Aí ela pegava discretamente na minha perna e eu a cruzava, dois segundos depois. Vez atrás de outra. Ia desviando das suas tentativas de criar qualquer clima para um possível beijo e ela percebia, achando graça, como se eu estivesse me fazendo de difícil.
 
Me deixa, implorava para que ela magicamente se desinteressasse. Mas assim que levantamos da mesa, ela tentou me convencer a tomar uma saideira do outro lado da avenida. Ficou pulando na minha frente com as pernas descobertas num vestidinho preto amarrotado e uma jaqueta jeans dez vezes maior do que seu tamanho. Argh. Depois de toda aquela comida, eu já estava levemente mais sóbria – o suficiente para saber que não tinha dinheiro para mais nada. Me restavam menos de dois reais em moedas.
 
_Não, mano – argumentei – Nem tenho grana mais.
_Ah vem, vai... – a Isa insistiu, rindo – ...eu peço uma tequila e a gente divide!
 
Céus.

março 28, 2011

Me engana, eu gosto

_Ah, é?!
 
A Isa riu, do outro lado da linha.
 
_É... – arrastei as palavras, com os olhos fechados e indisposta – ...tava pensando agora mesmo. Onde cê tá?
_Onde eu tô? – achou graça – Por que cê quer saber?
_Ah. Curiosidade...
_Sei... – a Isa se divertia e eu tragava, me forçando àquela situação – ...mas o que eu ganho se te contar?
_Mano... – respirei fundo – ...todo o desinteresse do mundo.
_Ah, agora é fácil assim?
_É.
_O que eu quiser, então?
 
Quer que eu repita, porra?
 
_Vai... – insisti – Me fala onde cê tá.
_Hum. Tá com pressa?
_Não. Não é pressa, é só que... sei lá, agora me pareceu uma boa hora pra gente... – hesitei – ...dar aquele beijo.
_Às três da manhã?! – zombou.
_Alguma coisa contra ligações de madrugada?
_Nenhuma. É só que, né... Assim, do nada...
_Não do nada, eu... – soltei a fumaça no ar e me preparei para mentir descaradamente – ...eu meio que, sei lá, fiquei com você na cabeça, sabe... depois da gente conversar mais cedo. Fiz merda em ligar?
_Nem um pouco! – ela riu – Eu tô aqui na Hot Hot, mas tava pensando em sair logo mais...
_Saindo daí cê vai pra onde?
_Não sei. Depende. Onde cê tá?
_Na Clash. Mas tá um lixo aqui... – resmunguei – Cê tá de carro, meu?
 
Diz que sim, diz que sim... diz que sim.
 
_Tô – ela riu, de novo – Por quê? Quer que eu passe aí?!
_Não, mano... – me fiz de ofendida, sentindo a garoa na cara – ...eu me viro, aqui é completamente fora de mão pra você.
_Não, não, é de boa...
_Sério mesmo?
_Sim.
_Então já é.
_Mas espera... E se não funcionar?
_Se não funcionar o quê?
_O nosso trato... – fez graça – ...e se eu pegar o meu beijo e, de repente, quiser mais?
_Aí cê pega mais... – resmunguei – ...pega o que você quiser, meu.
 
Só me tira dessa merda dessa rua, garota.

março 24, 2011

Na Clash

Que porra eu tô fazendo aqui? Engoli o restante de álcool no fundo do copo e o deixei novamente sobre o balcão, pedindo para o barman encher mais uma vez. Não devia ter saído de casa, resmunguei para mim mesma, observando o whisky tingir o balcão de vermelho através do vidro. O cara marcou a dose na minha comanda e eu olhei para a pista. A Lê já tinha desistido de me acompanhar, arranjando uma garota qualquer no meu lugar.
 
Eu não estava no clima. Não estava no clima pra porra nenhuma.
 
Um babaca de jaqueta jeans e camiseta dos Pistols, metido a moderninho, me enchia o saco, grudado ao meu lado. E eu o ignorava. Homens são como cachorros – não importa o tamanho da migalha, se você joga um só pedacinho, eles não saem mais do lado da mesa. E assim ele insistia, depois de meia resposta minha, falando coisas como o quanto ler Kerouac mudou a sua vida no ano anterior e o caralho a quatro. Céus. Olhei por cima do meu ombro e, a alguns metros dali, a Lê seguia com as coxas metidas entre as pernas da garota. Eu tenho merda na cabeça, dei mais um gole no meu Jameson, me sentindo presa naquela droga de balada.
 
O ambiente escuro e abafado da Clash tinha me enfiado com tudo na bad e eu estava rezando, implorando para ir embora logo. Sem nenhum sinal, todavia, de uma partida iminente. Achei mesmo que isso ia me fazer bem? Puxei então o celular do bolso, praticamente num ritual autodepreciativo a que tinha me acostumado, encarando a ausência de notificações. Como se olhasse direto para o abismo que a Mia deixou para trás.
 
Que se foda, decidi, vou cair fora.
 
E saí. Sem avisar a Lê, cambaleando de bêbada. Já do lado de fora, uma garoa fria me despertou daquele inferninho. Tirei o maço do bolso e acendi um cigarro torto, meio sem jeito, protegendo a brasa do vento enquanto lutava para fazer pegar. Dei a primeira tragada e a fumaça morna se espalhou no ar gelado. Onde você tá? Por que você não me liga como liga para ele? Me esforçava para não pensar na Mia, caralho viu, tragando mais uma vez e sentindo meus braços congelarem. Mas a minha cabeça ficava voltando para a sua boca, para os seus olhos. Para a porra das suas pernas me abraçando, a sua cabeça encostada no meu ombro. Por que você não me ama de volta?
 
Engoli seco e as palavras da Marina ecoaram na minha cabeça. Devia mesmo ter sido diferente a essa altura. Suspirei e coloquei o cigarro na boca – precisava achar um jeito de sair daquele buraco na Barra Funda e voltar para a Frei Caneca. Observei o movimento na rua, me dando conta de que eu estava longe pra caralho de casa. Peguei o celular e olhei as horas – 03:17. Eu tô fodida, balancei a cabeça, sem acreditar na minha falta de sorte, e soltei a fumaça. Não queria esperar até o metrô abrir. Contei os meus trocados restantes e não tinha o suficiente para um táxi. Merda. Quis então ligar para a Marina, pedir para que viesse me resgatar.
 
Mas não tinha coragem – não àquela hora.
 
Apoiei as costas contra a parede de fora da balada, sentindo minhas pernas instáveis e embriagadas. Argh. Aí me agachei e sentei naquela calçada suja. Encostei a cabeça contra o concreto da parede e rodei a minha lista de contatos do celular com uma mão, enquanto a outra segurava o cigarro inacabado. E sem raciocinar direito, pressionei o número da Isa – que eu tinha anotado naquela tarde. Após alguns toques, madrugada adentro, ela atendeu.
 
_Então, pensei sobre aquele beijo...

março 21, 2011

6 minutos

Fiquei olhando para a tela do computador. Meus olhos estavam secos – e exaustos. Não posso fazer isso. A foto da droga da Isa me encarava de volta, há duas semanas ali, esperando, entre os meus pedidos de amizade. Inferno. Soltei a fumaça no ar e, que se foda. Sem pensar, aceitei o pedido e escrevi numa tacada só – “pensei q o combinado era ñ significar nd pra mim, nem pra vc”.
 
Minimizei o navegador e voltei para o Media Player, ignorando o nó no meu estômago. Comecei a rodar a minha lista de músicas, cada vez mais e mais para baixo, com a mão sobre o mouse. Trouxe o filtro do cigarro até a boca e traguei, de novo. Já estava enjoada de todas minhas playlists. Olhava para elas, uma a uma, enquanto ouvia qualquer música do Little Boots, soprando a fumaça para cima.
 
So don’t go messing with her heart or messing with her mind or messing with the things that are inside – a minha boca gesticulava silenciosamente, entre uma tragada e outra, montando uma nova lista para substituir as antigas. E apenas minutos depois, vi aparecer uma notificação no Facebook minimizado. (1). Subi mais uma vez a janela do navegador, por cima do player, e coloquei o cigarro na boca. Cliquei sobre o nome dela na tela. Aí apoiei as costas para trás no encosto da cadeira, tirando o filtro dos lábios.
 
“Sem beijo, sem trato. Mas se rolar um, talvez eu perca o interesse... ;)”, li. 

março 20, 2011

A vida sem ela

Os próximos dias se seguiram em silêncio. O meu telefone não tocava e as mensagens pelas quais ansiei o fim de semana inteiro nunca vieram. O nosso apartamento também ficou mudo. Ninguém falava, não abríamos a porra da boca. Nem o Fer, nem eu. Apenas trocávamos olhares pelo corredor e seguíamos nossos caminhos – eu, o meu e ele, o dele. Não tocávamos o assunto, não falávamos da briga. Nem da Mia. Não interferíamos um na vida do outro.
 
Eu sabia que o Fer estava mal – mas não conseguia me importar. Ele não sorria e tinha os olhos sempre amargos, escuros. Sabia que estava sofrendo. Já ele não percebia a profundidade da dor que me corroía e eu mantinha os meus motivos assim, escondidos. Enterrados no meu peito junto com o meu coração. Estava quieta, apática. Andava pelo apartamento por mera necessidade de locomoção entre um cômodo e outro. E quanto mais o tempo passava, mais difícil era quebrar o silêncio.
 
Não é fácil se acostumar com o vazio depois de ter a sua vida tão preenchida. Não sabia o que fazer com todo aquele espaço que ela deixou – então, eu lia. Lia muito. Terminei “Inferno” da Eileen Myles em dois dias. E aí passei para o sofá, largada ali por horas e mais horas, assistindo televisão até os meus olhos secarem. Tentava evitar a internet, depois de uma madrugada deplorável em que fiquei olhando todas as fotos da Mia no Facebook. Uma por uma. Agora enchia a cabeça para não a ocupar com os meus pensamentos depressivos.  
 
Mas eles vinham.
 
E eu passava horas sem conseguir dormir, sozinha na sala e encarando o teto, enquanto a TV gritava com as paredes. Pensando na Mia. E só nela, um milhão de vezes nela. No seu sorriso deitada ao meu lado no chão, nos seus dedos percorrendo minhas tatuagens, nas coisas bonitas que me dizia, distraída, na temperatura dos ladrilhos contra nossa pele; em nós duas bêbadas na Sarajevo, em como ela dançava comigo, em como sua boca me queria, no nosso beijo na pista de cima. Caralho. E aí pensava nos seus olhos inchados, parada no elevador do prédio, pensava na sua boca agora muda. Até que não me aguentei – peguei o celular ao lado do sofá e o segurei por um tempo, deitada de lado, sem saber o que fazer. Não tinha ideia do que dizer para ela. Aí escrevi um desajeitado “Eei... :)”, na esperança de que ela também estivesse acordada naquela madrugada.
 
Ela não me respondeu.
 
Naquela noite e nem nos dias seguintes. A única que falava comigo era a Marina, numas poucas ligações durante a semana, preocupada. E eu tinha cada vez menos vontade de falar. Me fazia então perguntas do tipo “você comeu alguma coisa hoje?” e eu a respondia sem muita paciência, dizia que estava bem. “Você não tá enganando ninguém”, a Marina argumentava. Mas a verdade é que eu só não estava enganando ela – todo o resto não percebeu. Nem o Fer, nem os meus amigos. Recusei todos os convites da Lê e do Gui para sair. Todo mundo presumiu que eu estava ocupada, isso me bastava.
 
Me isolei. Não falava sobre a Mia – com a Marina ou com qualquer outra pessoa. E ainda assim sentia, presa dentro de mim, uma vontade insuportável de mencionar o seu nome. O tempo todo. De ir vê-la, de saber o que estava acontecendo. Tudo o que eu sabia, numa infeliz casualidade, era que ela procurou o Fernando num dos dias que se seguiram à briga. Eu estava na cozinha, jantando um miojo insosso, quando escutei os dois discutindo no telefone. O Fer abriu a porta do quarto com força, após algum tempo, esbravejando um último “porque eu não quero que você me ligue, porra!” e saiu do apartamento, com raiva.
 
Nesse dia, eu me senti um verdadeiro nada.
 
E era por isso que não falava dela com ninguém. Porque me doía lembrar – ou desconfiar, que fosse – da possibilidade de que ela sequer pensava em mim. Depois de tudo, me assombrava a percepção do quão pouco eu merecia. E assim o meu silêncio me protegia, me distraía do dela. Ouvindo-os por tabela, sem escolha. O babaca saía de casa sem nem se dar conta da repercussão dos seus atos barulhentos e eu restava sozinha, com o estômago embrulhado e uma vontade filha-da-puta de fazer alguma merda muito grande. Só para colocar tudo para fora. Descarregar toda aquela frustração de não ser comigo. De não ser para mim a porra da ligação.
 
Sentei em silêncio por vinte minutos naquela noite, com o meu telefone mudo na minha frente na mesa. E depois, com rancor, estourei o volume do som da sala até os vizinhos reclamarem.

março 18, 2011

Dig me out

...out of this mess, baby, out of my head.
(Sleater-kinney)
 
Desci a rua acendendo um cigarro, enfiando toda a fumaça que podia para dentro dos meus pulmões. Maldição. Tentava não checar a porcaria do celular a cada dois passos – mas, de uma forma realmente masoquista, não conseguia me conter. Tirei-o novamente do bolso, já quase na esquina de casa, e olhei para a tela. Nenhuma mensagem. Nada. Nada da Mia. Eram sete da noite e as calçadas já estavam tomadas de gente na Frei Caneca, o trânsito buzinava incessantemente – a azucrinação piorava a minha agonia.
 
Assim que entrei no apartamento, cruzei com o Fer saindo de casa. Estava apressado. Não falou comigo e eu também não fiz questão de cumprimentá-lo, indo direto para o meu quarto. Escroto. A verdade é que, é, talvez eu devesse fazer o mesmosabia que ficar ali, sozinha, não ia tornar os meus pensamentos mais suportáveis. Muito pelo contrário. Mas larguei o corpo na cama e fiquei encarando o teto numa insistência burra. Me deixava tomar pela angústia e podia sentir o meu coração disparar, bêbado e machucado; peguei o celular na mão e encarei a caixa de mensagens mais uma vez. Inferno.
 
“Pfvr”, digitei para a Mia, abandonando qualquer dignidade, “fala cmg”.
 
Larguei o celular na cama e levantei, inquieta. Sentei em frente ao computador e aí liguei a música no último volume, tentando me distrair de qualquer jeito. Assim que abri o Facebook, dei de cara com a Isa entre os meus pedidos de amizade. Não. Nem a pau. Fechei o navegador na mesma hora, num impulso infantil. Caralho, esfreguei as mãos no rosto, em que merda eu fui me enfiar? Comecei a ser tomada por uma bad desgraçada. E infelizmente, fechar a janela não desaparecia com o problema que a noite no Vegas tinha me causado.
 
Argh.
 
Bolei um baseado e o acendi, tentando sufocar o sentimento no meu peito. Sozinha no quarto e olhando para a merda daquela tela vazia. Não posso te perder, garota, traguei demoradamente. Não agora que gente tava bem, inferno. Conforme os minutos se transformaram em horas, afogada em maconha, foi me batendo uma paranoia de que eu tinha fodido tudo de vez. Aí todas as lágrimas que evitei naquela tarde, na frente da Marina e da Bia, vieram. De uma só vez.
 
_Má... – senti o ar sumir dos meus pulmões, sem saber a quem mais recorrer – ...Má, e se ela não quiser mais?
_Ei, shhh... – minha ex falou baixinho, do outro lado da linha – Calma, linda.
_Não, Má, m-mas e se... e se ela não quiser mais nada? – eu soluçava – P-por causa do, do Fer... da merda que eu fui falar! – enxugava meus olhos inchados, sentindo o meu coração se despedaçar – E, e se... a, a Mia não quiser mais ficar comigo?! E se eu tiver fodido tudo, Marina?!?

março 17, 2011

Maus modos

_Me vê a conta da doze.
 
O cara do caixa me olhou torto, já de saco cheio dos bêbados que lotavam o bar num caos barulhento. Procurou a comanda da minha mesa e a colocou grosseiramente sobre o balcão. Peguei o papel para analisar os pedidos, com dificuldade em fixar na cabeça o que eu lia. Preciso sair daqui. A bebida começava a me afetar, desenterrando a pior versão de mim. Intragável, não ia conseguir aguentar mais meia hora encarando o meu celular pateticamente debaixo da mesa; nem aquela baboseira entre a Marina e a garota, recém reatadas e grudentas, interagindo como se nada na minha frente enquanto meu mundo desmoronava. Busquei no bolso os meus poucos trocados.
 
_Precisava sair da mesa assim?!
 
A Marina encostou em mim, já irritada.
 
_Eu vou pagar as quatro Itaipavas, a dose e... – a ignorei, me dirigindo ao caixa – ...e, e me vê um maço também. Pode ser o Lucky.
_Hein?! Eu tô falando com você... – ela insistiu, daquele jeito Marina de ser, que inferno – Precisava?! Você me largou falando sozinha! E agora vai embora?!
 
Ela continuou e eu comecei a perder a paciência, a ouvindo reclamar. Eu estava bêbada e o timbre da sua voz ecoava irritantemente nos meus ouvidos. Não sei qual é a porra da dificuldade em interpretar os sinais mais óbvios, me enfadei, se eu levantei da mesa, é porque não quero ficar ali. Se fui até o caixa, é porque vou embora. Se não me despedi, é porque não quero ter que me explicar. E se você traz a ridícula da sua namorada para encontrar a sua ex, no pior momento, já devia esperar descontentamento, cacete, não é tão difícil assim.
 
Mas não – a Marina tinha que insistir.
 
_Meu, o que acontece com você hoje?!
 
Nada. Que é isso... O meu dia foi ótimo.
 
_HEIN?! – se indignou com o meu silêncio – Precisava fazer essa ceninha?!? A gente tava lá conversando, de boa... Que saco, que que deu em você?!?
_Nada... – tentei segurar a minha grosseria, contando as moedas na minha mão, e as entreguei para o atendente. Observei ele derrubá-las para dentro da caixa registradora e só depois notei que a Marina estava sozinha ao meu lado – ...cadê a sua namoradinha?
_Meu... – apertou os olhos, frustrada – ...qual é o seu problema?! Ela, e-ela foi no banhei...
_Ótimo! Assim não preciso falar tchau – a interrompi, pegando o maço no balcão.
 
Me virei, já para ir embora, querendo dar o fora dali – mas a Marina me segurou, claro.
 
_Dá para você falar comigo direito?! – me pegou pelo braço – O que tá acontecendo?!?
_Mano... O QUE VOCÊ ACHA?!?! – retruquei – Eu não gosto dela, Marina, VOCÊ SABE QUE NÃO GOSTO!
_Qual é, agora?! Tá com ciúmes da Bia?!
_CIÚMES?!? – revirei os olhos, achando absurdo ter que me explicar – VELHO, ELA TE TRATOU QUE NEM MERDA NÃO FAZ DUAS SEMANAS, TE FEZ SENTIR MAL POR MINHA CAUSA, PORRA, POR VIR ME VER... E AGORA EU TENHO QUE SENTAR AQUI E FICAR FAZENDO SOCIAL, MARINA?!?! TOMAR NO CU! VOCÊ PODIA TER ME AVISADO, NÉ, CARALHO!! – me revoltei – AÍ EU NEM APARECIA NESSA MERDA DESSE BAR!
_E O QUE EU IA FAZER, HEIN, ME DIZ?! EU TAVA NA CASA DELA! EU IA DIZER O QUÊ?! IA SAIR, ASSIM, DO NADA?!?! – ela discutiu de volta e aquilo me lembrou a pior época de quando estávamos juntas – Sério, me diz, você acha que eu não tenho vida, né?! Que tudo gira em torno desse seu mundinho... Você realmente acha que todo mundo vai largar o que tá fazendo, largar a casa, a comida, a namorada, o trabalho, os amigos... só pra vir te socorrer, quando você decide ligar?!
_“DECIDE”?!? “DECIDE LIGAR”?!?! – retruquei, cada vez mais alterada – Eu não “decidi” te ligar, Marina! Não é como se, do nada, me deu na telha atrapalhar sua tarde de sábado maravilhosa com a merda da sua namorada... Vai se foder! Você acha mesmo que eu “decidi” te ligar?! Que eu não tinha nada melhor pra fazer do que me enfiar numa porra de uma briga com o Fernando e com a Mia hoje?! Que eu queria estar nessa droga dessa confusão?!? É o pior dia da minha vida!! Agora eu preciso agendar com antecedência pra poder contar com você quando eu tô na merda???
_Não. Desculpa... E-eu sei, eu... – se apressou em voltar atrás, fechando os olhos – ...não quis dizer isso, linda.
_Desencana, eu vou embora...
 
Enfiei o maço no bolso e saí, em direção à rua. Já de saco cheio.

março 15, 2011

Bar de esquina

Cê só pode tá de brincadeira, me irritei ao olhar para frente e ver a Marina atravessando a rua, acompanhada. Traguei mais uma vez o meu cigarro já quase acabado, sentada num boteco da Augusta. E encarei a garota de mãos dadas com ela, uma idiota de regata branca e cabelo curtinho, com uma tatuagem tosca ao redor de um dos braços. A Marina só pode ter merda na cabeça para trazer essa garota aqui, soltei a fumaça para o lado sem tirar os olhos delas, que só agora chegavam ao meu lado da calçada.
 
_Meu, tá impossível estacionar... – minha ex bufou e sorriu ao me ver – ...oi.
_Cê parou muito longe? – perguntei com certa apatia, engolida no meu próprio drama.
_Não, mas foi difícil conseguir lugar, né, ? – ela se virou para a menina, em busca de validação – Ah! Essa é a Bia...
 
Jura.
 
_Hum. E aí... – ela me encarou com caras de poucos amigos, colocando a mão na parte de baixo das costas da Marina como quem protege seu território. Ridícula.
 
Acenei meio indiferente, só para não a deixar no vácuo, e soltei a fumaça que acabara de tragar. Todas ignoramos o clima estranho que se seguiu. Isso é culpa minha, traguei mais uma vez, detestando o rumo daquele sábado, não devia ter insistido no telefone. O meu humor estava péssimo. A Mia ainda não tinha me respondido e a última coisa que eu queria agora era sentar ali e abrir meu coração para a Marina com a droga da sua namoradinha do lado. Como se eu já não me sentisse mal o suficiente, observei a garota se sentar na mesa e o seu olhar cruzou com o meu.
 
O desprezo era mútuo.
 
Quase podia ver a Marina tendo que a convencer a vir junto – dizendo alguma amenidade como “você vai gostar dela” ou “se vocês se conhecerem, vai perceber que não tem motivo nenhum pra ciúme”. Pois escolheram o dia errado para esse experimento. Mal haviam se sentado e a Bia já levantou de novo, indo chamar o garçom na porta do bar. Esperei ela andar uns metros e lancei um olhar de onde-diabos-você-tá-com-a-cabeça para a Marina do outro lado da mesa. “Seja simpática”, os seus lábios gesticularam em silêncio, me encarando de volta da mesma forma que a minha mãe me encararia se eu estivesse me comportando mal aos sete anos de idade.
 
Inferno.
 
A tal da Bia logo voltou e a Marina sorriu para ela, disfarçando. Desviei o meu olhar também, apagando o cigarro na mesa de madeira e alcançando o copo semicheio de cerveja. Dei um gole. As duas ainda se olhavam – vi através do fundo de vidro –, então dei mais um e depois outro. Até que elas pararam. Baixei o copo vazio e me pus a enchê-lo com a garrafa sobre a mesa. O sol abafava o ar ao redor e refletia na calçada, num calor desgraçado. A Marina me encarava, agora, como se esperasse ouvir sobre o drama da vez.
 
Ainda incomodada com a presença da embuste ao seu lado, comecei a contar tudo o que tinha acontecido naquela semana – a ida na casa da Mia, as horas de sexo no banheirinho da área de serviço, as tatuagens, o encontro com o Fer no dia seguinte, o Vegas, a Isa, os garotos lá em casa, o Marcos, a Mia chegando de madrugada com o Fer, eu no sofá, a briga no dia seguinte, nossa conversa no quarto, o elevador e o meu eu-te-amo fora de hora. A Marina ouvia tudo atentamente. A Bia também – isso me desconcertou. Sua presença tirava o peso das minhas palavras. O incômodo de tê-la ali, escutando, ofuscava a minha angústia e eu não sentia doer nada do que eu dizia. Me recusava a chorar na sua frente.
 
_E até agora nenhuma mensagem dela?
 
A Marina franziu as sobrancelhas, chateada.
 
_Não... Se você visse a diferença nela, Má, como ela mudou, o jeito como me evitou no segundo em que o Fer chegou perto de saber. Ela, e-ela não quer lidar com essa porra toda, não se ameaça o namoro dela!
_Mano, larga mão dessa garota... – a namorada até-então-muda da Marina se pronunciou.
_“Essa garota”?
 
Eu repeti, indignada, quase rindo.
 
_Linda, escuta... – a Marina retomou e olhou na direção da Bia, reprovando o comentário – ...a Mia, ela... não sei, talvez ela esteja se sentindo culpada. Meu medo é ela ir atrás do Fer agora, tentar se redimir, sei lá. E aí, o que cê vai fazer?
_Eu sei o que eu não vou fazer: ficar esperando que nem uma trouxa depois dela me ignorar assim! – esbravejei com rancor.
_Tá. Mas...
_Não – interrompi o que ela ia dizer e passei as mãos no rosto, sentindo a falta da Mia me apertar a garganta – E-eu vou. Eu sei q-que eu vou, não adianta. Eu vou esperar, mas que inferno! – voltei atrás.
 
Que situação de merda eu fui me meter, xinguei para mim mesma, me odiando por estar tão à mercê do silêncio da Mia, daquela indefinição. Por que ela não conseguia dizer que me queria de volta? A Marina esticou a mão por cima da mesa e segurou a minha, com um olhar de pena insuportável – e eu só permiti porque a Bia olhou torto.
 
_Linda, não sei, me preocupa isso. Tenho medo de você se afundar... Não sei se dá pra você, sabe, esperar tanto assim dela. A, a Mia é... complicada. Ela ainda precisa se resolver direito, com ela mesma, com o Fer, nã...
_Eu sei, mas, Má, o que eu vou fazer, porra?! Dar as costas logo agora que... que a gente tava finalmente chegando em algum lugar?!? É a Mia. A minha Mia, caralho! – me exaltei, sentindo meu mundo virar de cabeça para baixo – Eu não posso deixar pra lá. Não agora. Você mesma que disse que ela precisa de... d-de alguém que pegue ela pela mão, não disse?! Que eu tinha que ter paciência e que...
_Disse, disse – ela me cortou – Mas e-eu... não sei, flor, não sei o que pensar!
_Essas últimas semanas foram maravilhosas, Má. Eu não consigo nem explicar. E eu sei que a Mia gosta de mim, meu, eu consigo sentir! As coisas mudaram para ela também, e-ela, ela só tá com medo!
_Mas, gata, que segurança maior cê poderia dar? Você já disse que ama ela e se a resposta não foi imediata, se na hora ela nã... – a Marina hesitou, parecendo medir suas palavras – ...escuta, se isso não fez diferença, você amar ela ou não, se não aliviou a confusão em que ela tá, meu... – suspirou, interrompendo a si mesma de novo – ...sabe, eu só acho que... q-que devia ter sido diferente, a essa altura. Com tudo o que vocês tavam vivendo. Talvez a Mia, não sei, talvez e-ela esteja muito presa ao Fer, t-talvez ame ele demais pra deixar o que vocês têm interf...
_Não... – balancei a cabeça – ...não é isso.
_Quer ouvir?! – brigou comigo e eu cruzei os braços, ouvindo a contragosto – Não tô dizendo que não foi real entre vocês. Eu sei que sim. Mas é muita coisa ao mesmo tempo, você não sabe como tá a cabeça dela. Talvez o melhor agora seja esperar a poeira abaixar, tentar falar com ela daqui uns dias... conversar com calma, sabe, ver como ela se sente longe da confusão.
_Você acha que... – hesitei, sem saber se queria perguntar – ...que eu tenho chance?
_Não sei, flor. Não sei mesmo. Tenho medo que ela esteja se sentindo culpada demais agora, sabe? Depois de ser exposta, de machucar o Fer. Não sei se ela vai voltar para você tão cedo, linda.
_Então eu espero. Eu espero, porra! – argumentei – Já não esperei antes?!
_É diferente agora, cê tá mais envolvida, você vai...
_O quê? Me machucar?!? – meus olhos marejaram, sofrendo – Bela bosta!
_Não faz isso, linda. Não fala assim, por favor.
 
E faço o quê, então?!

março 12, 2011

Estaticidade lenta

Here we go again...
I kindda wanna be more than friends
So take it easy on me...
I’m afraid you’ll never satisfy

...

Oh-ohh, I want some more...
Oh-ohh, what are you waiting for?
Take a bite of my heart tonight

Oh-ohh, I want some more...
Oh-ohh, what are you waiting for?
What are you waiting for?

Say goodbye to my heart tonight.

(Neon Trees)