- »

abril 16, 2011

Pena, vaidade e outros problemas da humanidade

Vinte segundos depois, o meu celular começou a tocar.
 
O assisti espernear em cima da mesa da cozinha, barulhento, com os meus braços cruzados. Os meus olhos inchados observavam o nome da Mia na tela, paralisada. Quantas vezes eu quis que você me ligasse, garota, nesses dias todos?, pensei, tentada a atender. Mas as lágrimas ainda corriam no meu rosto e eu não suportava desmoronar assim na frente dos outros – aquilo me feria o ego dum jeito. Me sentia fraca, uma idiota. Indo atrás dela às sete da manhã dum domingo, bêbada e sem conseguir arrancar uma palavra sequer da minha garganta, ridícula, me afogando no meu próprio choro. E incapaz de conter o meu desespero. Quantas vezes?
 
A vontade de falar com a Mia fazia meus dedos formigarem, ansiosos para pegar a porra do telefone antes que ela desistisse. Como eu quis, porra, que você surgisse no meio da madrugada, que me ligasse e falasse o que diabos tá acontecendo, que você se preocupasse. Aquilo me doía por dentro. Os meus pensamentos ecoavam pelo cômodo amanhecido, enquanto o som do toque aumentava e a tela acendia insistentemente, com o seu nome nela. Mas parte de mim temia os seus motivos. Você não tinha nada para me falar, todas as vezes que te procurei, você não disse nada quando eu disse que te amava.
 
E agora ali estava, de repente, pronta para me ouvir.
 
O que você realmente quer de mim?, apertei as sobrancelhas com desgosto. As minhas lágrimas, garota? A dor na minha voz? Me ouvir desmoronar, me humilhar, caralho, é isso que te faz pegar a porra do telefone?, passei a mão no rosto. E o aperto no meu peito voltou, incômodo. Balancei a cabeça, me afundando na cadeira, cada vez mais na defensiva. É isso que você quer? Escutar os segundos entalados na minha garganta? Evidência salgada, molhada, do meu amor por você? De repente, você se importa o bastante para me ligar de volta?
 
Me sentia confusa. E me doía – como doía – olhar o nome da garota que eu amava me chamando daquele jeito, sem saber que porra fazer. Sentia as lágrimas subindo até meus olhos já vermelhos e me machucando ainda mais. Puta merda. A verdade é que eu queria atender. Desesperadamente. Era só isso que me importava, inferno. Passei as mãos mais uma vez no rosto e apoiei os cotovelos na mesa, deixando os meus olhos fechados por um instante sob meus dedos. Foi quando escutei a porta do quarto do Fer se abrir no corredor, do nada.
 
E num impulso covarde, desliguei o celular. Apagando rapidamente qualquer evidência de que era a sua ex namorada ligando.
 
_É VOCÊ QUE TÁ FAZENDO ESSE BARULHO TODO, CARALHO?!?
 
Ergui os olhos e vi o Fer parado na porta da cozinha, só de samba-canção e com uma puta cara de sono. Estava tão desnorteado que sequer reparou na minha embriaguez – ou em como enxuguei as minhas bochechas no antebraço assim que ele chegou.
 
_Foi mal – murmurei.
_PORRA, CUSTA?! – se exaltou – ABAIXA ESSA MERDA, INFERNO! A GENTE TÁ TENTANDO DORMIR!!
 
Socou a porta com a lateral da mão para mostrar que o quanto estava irritadinho. E saiu da cozinha. Babaca, revirei os olhos. Peguei o celular sobre a mesa e encarei a tela, agora desligada.
 
Mas espera, levantei o olhar, “a gente” quem?

abril 10, 2011

Recuperando consciência

Me afastei, andando pela calçada suja do Ana Rosa. Puta merda, olhei para o meu cigarro e o vi quase rasgado, provavelmente amassado no meio do meu surto, agora pendendo torto na minha boca. Tentei endireitá-lo, já quase alcançando a esquina seguinte. Sabia que descontava na Isa uma frustração que, no fundo, pouco tinha a ver com ela. O dia já tinha clareado o suficiente e eu poderia muito bem pegar as quatro estações de metrô que me separavam de casa, mas não tinha dinheiro suficiente.
 
Então, andei. Metro por metro de chão, um passo atrás do outro, me sentindo um nada. Não pensei em porra nenhuma, só andei. Até a porta do meu prédio. E aí, quando entrei em casa, quarenta minutos depois, larguei as chaves sobre a mesa da cozinha e peguei um copo no armário de cima. O enchi de água, numa sede do caralho. Então puxei uma cadeira e tirei o celular do bolso, largando-o ali na mesa e me sentando meio de qualquer jeito, afundada contra o encosto. Tomei a água em goles espaçados, exausta. E assim que terminei, fiquei parada olhando para o copo vazio. A minha respiração se tornou pesada.
 
Merda.
 
Virei para o lado, apoiando os braços nas pernas e o rosto nas mãos. Começou a me voltar, de repente, toda a cagada que eu tinha feito. E o ar começou a me faltar. Senti um soco no estômago e os meus olhos doeram, inchados com uma rapidez embriagada, fora de mim. A minha garganta apertou. E eu senti um pânico que vinha de dentro, um desespero. Olhava à minha volta, o apartamento, a pia, os armários, as cadeiras, o microondas, a geladeira, a torneira, o chão, a mesa, a porra do copo vazio, as minhas chaves e a porta para o corredor – e as coisas simplesmente não faziam sentido. Nada, porra, nada faz sentido mais, senti as lágrimas me subindo doídas pela garganta, mas não queria chorar.
 
Me virei de novo para a mesa e coloquei os cotovelos apoiados sobre o tampo, segurando os olhos entre os dedos e relutando, com o rosto metido nas mãos. Inferno. As minhas ações ultimamente não faziam sentido, eu não fazia sentido. O que diabos eu tô fazendo?!, me torturei, perigosamente bêbada. Eu não sabia como tudo havia chegado àquele ponto. Peguei o telefone meio de qualquer jeito, em cima da mesa, num desespero impulsivo. E aí liguei para ela. Não sei o que eu buscava, o que eu esperava ouvir – só sei que não conseguia mais estar sozinha. E que motivo egoísta, não é, para enfiá-la à força na minha vida, para trazer ela para perto. Mas eu não conseguia evitar. Completamente sem rumo, sentia a minha cabeça prestes a explodir.
 
_Hmm...?!
 
A ouvi murmurar do outro lado da linha, sonolenta. Talvez sem dar-se conta de que era eu ligando.
 
_Mia... – tentei falar e os meus olhos se encheram de lágrimas, me doendo – Mia, e-eu... – segurei as palavras na minha boca, angustiada, e os segundos correram em silêncio, droga – M-Mia...
_O que aconteceu?! – ela soou mais desperta, agora assustada.
_E-eu... – busquei fôlego, com dificuldade – ...e-eu não... eu não sei... e-eu... – não conseguia empurrar palavra alguma para fora, numa angústia horrível que me fechava a garganta, a apertando tanto que quase não deixava passar o ar, não sabia o que estava acontecendo no meu corpo.
_Alô?! Alô??
 
Quis desligar, de repente. E senti me doer mais ainda – puta que pariu. As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Tentava respirar fundo, mas não conseguia. Meu peito se enchia de angústia, esmagado em si. Passei a mão no rosto. Eu tô perdendo a razão, a noção, pensei, merda. Apertei os olhos, bem fechados, e enxuguei as lágrimas com pressa, com raiva de mim mesma, as tirando dali. Mas elas tornavam a brotar.
 
_Você tá bem?? O que foi?!
_E-eu... – solucei, chorando contra a minha vontade, sentindo uma tensão terrível tomar conta de mim, sem entender como diabos aquilo estava acontecendo comigo, o carro, a briga, a Mia, o apartamento, a porra do meu amigo, como eu tinha deixado a minha vida chegar àquele ponto e o quão idiota eu podia ser, caralho – Eu... e-eu não devia ter te ligado... desculpa.
 
Desliguei. E as lágrimas voltaram na mesma hora.

abril 09, 2011

Cansaço

_Ei... – a Isa se sentou e tocou meu braço, fazendo com que eu parasse de me vestir por um segundo – ...o que foi?!
_Nada – me soltei dela, desvirando a camiseta e a colocando no corpo.
_Nada?
_Nada, porra.
_Então, é isso?!
_É – me sentei do lado oposto do banco, sem saco para conversar, e acendi um cigarro.
_O que foi?! – ela me encarava, insistente – Só fala, meu. O que é? Você não gosta, é isso? – continuou – Meu, eu não preciso fazer nada, tipo, “com você”. Eu posso só...
_Não é isso.
_Não?!
_Não... – balancei a cabeça, tragando.
_Bom, então me explica, né... – se irritou, levemente ofendida – ...porque eu achei que tava tudo bem!
_Mas tava...
_E?!
_E nada, porra! – me irritei também – Sei lá, eu não... n-não tô afim.
_Assim, de repente?!
_É.
 
Abaixei manualmente o vidro da janela para deixar a fumaça sair. Aí olhei para a calçada e notei o dia já bem mais claro, com os resquícios da sujeira partyhard daquela madrugada.
 
_Cara, cê tem sérios problemas... – ouvi a Isa reclamar, ao fundo – ...na boa.
_Pois é – me enchi dela, num impulso grosseiro, e troquei o cigarro de mão, puxando a trava da porta para sair.
_O que cê tá fazendo?!?
_Eu posso andar até em casa – justifiquei.
_Não, meu... Espera! – ela se apressou, escorregando pelo banco, e veio atrás de mim na calçada – O que diabos cê tá fazendo?! Calma, mano, eu te levo...
_Eu não quero que cê me leve – virei para falar com ela, me forçando a respirar fundo e ser uma pessoa decente – Vai pra casa, meu. Tá tudo bem... A, a gente... a gente bebeu demais e... sei lá.
_Mas que merda deu em você?! – ela ergueu a voz – Não... não vou. Cê acha que eu vou te largar aqui, mano?! Entra no carro, vai, eu te levo até lá, não custa nada...
_Eu tô bem, é aqui do lado, meu. Sério, eu quero ficar sozinha.
_Ficar...? – ela levou a mão à testa, se estressando de repente – “Ficar sozinha”?! Então, por QUE RAIOS CÊ ME LIGOU, PORRA?!?
_Ah, mano. Não...
 
Comecei a rir, perdendo a paciência de novo.
 
_QUAL É O SEU PROBLEMA?? – a Isa me confrontou, nervosa, e eu parei de achar graça – Sério, me fala! O seu plano era o quê?! ME ENROLAR A NOITE TODA E FINGIR QUE IA ME COMER?! É ISSO?!? – revirei os olhos, com o cigarro metido na boca, e a sua atitude me incomodou – E PRA QUÊ?! HEIN??? PRA CHEGAR NO CARRO E FAZER GRAÇA POR MEIA HORA, DEPOIS SAIR ANDANDO ANTES DE EU GOZAR?!
_Meu, na boa... – balancei a cabeça – ...não começa, vai.
_“NÃO COMEÇA”, O CARALHO! CÊ ACHA QUE ISSO É CERTO?!
_“CERTO”?! MANO, QUE CÊ QUER DE MIM? – me indignei, estourando com ela – CÊ QUER QUE EU TE COMA?! É ISSO? É ISSO QUE VOCÊ QUER, PORRA?? ENTÃO TÁ! VAMOS LÁ!! – marchei de volta para o carro e abri a porta bruscamente – ENTRA AÍ!
_Não, eu não d...
_QUÊ?! QUER ROMANTISMO AGORA, PORRA?!
 
Bati a porta, de novo.
 
_NÃO! EU SÓ QUERO ENTENDER PORQUE VOC...
_Olha, na boa, você não quer entender... – resmunguei, fora de controle, passando por ela na calçada – ...o que você realmente quer, garota, eu não tenho.
_AH! É ISSO, ENTÃO?!? – ela gritou na minha direção – CÊ SIMPLESMENTE VAI SAIR ANDANDO??
_Vou.

abril 08, 2011

O ato em si

É. Era estranho beijá-la. Metidas no banco de trás do carro, ali, parado no meio da rua às quase seis da manhã de um domingo. Sentia alguma coisa fora de lugar na minha cabeça, como quando se tem a impressão de estar esquecendo algo – as chaves ou a porra da consciência. Mas a beijava de novo, e de novo, me forçando por cima do seu corpo, apertando as suas coxas e erguendo a barra do vestido até a sua cintura, como se tivesse que continuar até terminar o que aceitei fazer naquele carro.
 
A verdade é que eu já nem sabia o que estava acontecendo. Quando se está tão bêbada quanto eu realmente estava, suas ações assumem um estado arriscado de inércia. Disparam em linha reta. Pensar a respeito, uma vez que se começa a fazer merda, e de fato mover-se no sentido contrário requer muito, muito mais do que um mero “incômodo” lá no fundo da sua mente. Então eu continuava, ali, como se machucasse a mim mesma. Em cada beijo que dava naquela boca que eu não queria, naquele pescoço que eu não queria – definitivamente não queria. Nada daquilo.
 
Cacete.
 
As pernas da Isa se apertavam contra o meu joelho, apoiado no banco, enquanto eu subia em cima dela. Minha coxa se forçava contra ela e os seus lábios se forçavam nos meus em resposta, mordendo a minha boca e me puxando para si, com ambas as mãos atrás da minha nuca, enroscando os dedos no meu cabelo. Podia sentir o ar se tornando abafado, úmido, conforme os minutos se passavam, trancadas ali dentro. E antes que pudesse me dar conta, eu já estava suando, me enroscando cada vez mais intensamente nela no banco de trás.
 
Todas as janelas estavam fechadas. E eu podia sentir a tequila fervendo no meu cérebro, nas minhas veias, beijo atrás de beijo. Cada vez mais molhados. Entrava e saía de mim, nuns lapsos de consciência, como se me sufocassem a realidade. Com a minha... minha mão metida na... é, ali, entre as pernas dela. Tirei os dedos da sua calcinha, sem pensar, e arranquei a minha camiseta – passando o tecido de qualquer jeito no rosto para secar o suor. Então joguei a camiseta no chão do carro e voltei para cima dela, sem nem ideia do que estava fazendo.
 
Os vidros começavam a embaçar e a temperatura subia progressivamente. As mãos da Isa deslizavam pelas minhas costas suadas e as minhas terminavam de tirar a calcinha enrolada no meio das suas coxas. Os meus dedos entraram nela mais uma vez e ela me pegou pelo pulso, como se me obrigasse mais para dentro. Fechou os olhos lentamente, com a boca entreaberta – se contorcendo enquanto eu a fodia. Puta merda, mano. Senti minha cabeça latejar, naquele calor desesperador.
 
Ergui os olhos e vi o céu clarear pela janela. Caralho, eu vou... acabar... s-sendo pega... aqui, fiz certo esforço para concluir o pensamento, tentando me manter minimamente sóbria. Não conseguia. Sua mão me puxou o rosto de volta e a beijei, nuns apagões violentos que me doíam a cabeça. O meu braço se movia entre nossos corpos, quase automaticamente, a comendo sem qualquer vontade. Ela parecia não perceber. A sua boca machucava o meu pescoço, me enchendo de marcas roxas. E eu pensava na Mia – na sua decepção comigo.
 
Mas continuava.
 
Numa estupidez contraditória, me movia em cima dela. Me destruindo. Merda. A Isa me puxava para si, com uma das pernas ao redor da minha cintura, descendo as mãos pelas minhas costas e arranhando a minha pele deliberadamente. Desavisados, os seus dedos encontraram caminho pela linha do meu jeans. Até o meu zíper. Ah, não. Nem pensar. A contive, na mesma hora. A Isa riu e me olhou, intrigada. E sem tirar os olhos dos meus, num atrevimento que era para ser provocante, se soltou de mim. Aí insinuou o corpo para frente, me beijando, e veio mais uma vez com os dedos. Insistindo.
 
Parei de beijá-la, de novo. Inferno. E olhei para baixo, para a sua mão sobre o zíper da minha calça – a centímetros de onde ela realmente queria chegar. De jeito nenhum, garota. A Isa sorriu, meio sem graça, notando a minha expressão séria, e tirou as mãos de cima de mim. Desviou o olhar por um instante, depois tornou a me encarar. E eu perdi, de repente, toda a pouca vontade que ainda tinha de estar ali. Escorreguei minha mão para cima de novo, para fora dela. E me inclinei para trás.
 
_E-eu fiz alguma coisa?
_Não.
 
Respondi, sem paciência, procurando a minha camiseta no chão do carro.

março 30, 2011

One, two, three... floor!

Uma tequila, claro, virou duas. E duas viraram quatro. Inevitavelmente. E após uma perigosa série de doses compartilhadas, o meu julgamento foi por tequila água abaixo. De novo. Cinquenta minutos depois, me encontrava num estado lastimável, esparramada numa cadeira de bar, desafiando a loirinha de alargadores pretos do Vegas, afundada na sua jaqueta e igualmente fora de si, a me vencer num campeonato de palitocóptero. Não conseguia parar de rir da idiotice daquilo, o que obviamente prejudicava o meu desempenho – fazendo com que o palito caísse do meu nariz. Fala sério.
 
A clientela do bar já começava a se dispersar, eram 5-e-alguma-coisa da manhã. E os atendentes nos olhavam torto dum canto, duvidando da nossa intenção em pagar a conta. Quando o palito da Isa caiu, lá pela quarta vez consecutiva, ela se apoiou na mesa com os olhos semiabertos e ficou contando em voz alta, achando graça, enquanto eu tentava provar que conseguia fazer o meu dar mais cinco voltas.
 
Caiu na terceira, merda.
 
Abaixei para pegar o palito no chão, reclamando do meu próprio fracasso. E ao retornar à posição normal, me senti tonta, bêbada como um gambá. Coloquei o palito sobre a mesa e me debrucei no tampo de madeira, olhando para a Isa de volta. Me pareceu bonita, assim, de repente – para quem já tinha sobrevivido a uma balada e à maior enrolação do século, isto é. E após uma longa noite de tentativas malsucedidas, o clima finalmente despontou. Sorrimos uma para a outra. E ela percebeu a brecha.
 
_Se eu tentar te beijar agora... – disse, flertando – ... cê vai dar um jeito de virar o rosto, não vai?
_Não sei... – fiz graça, brincando com o palito sobre a mesa – ...tenta, ué.
 
Ela me observou, desconfiada, e inclinou o rosto na minha direção. Os garçons nos olhavam. A barra do vestidinho amarrotado dela já tinha subido tanto que, de onde eu estava, parecia que ela estava só de jaqueta. Sorri, conforme se aproximou, cogitando se devia dar aquele beijo ou não. E no último segundo, desviei. Encostei o rosto no canto da sua boca e lhe dei um beijo comportado na bochecha, de propósito.
 
_Filha-da-puta... – ela riu.
_Quê?! Cê achou que eu ia dar uns pegas com você aqui, meu?
_Tá – me desafiou – Vamos pro carro, então...
_Não, mano... – balancei a cabeça, rindo, e aí a encarei fixo por um instante, sentindo a tequila bater – ...hum, e se eu disser que eu vou?
_Eu pago a conta agora, meu.
 
Suspirei. Sem muita certeza do que estava fazendo dizendo ali.
 
_Tá. Então, vamos.

A carona

O ar passava gelado entre os meus dedos, voando leves ao som do álbum experimental que tocava no carro. Cex, “Actual Fucking”. Minha cabeça seguia apoiada na janela aberta, o antebraço todo para fora e os dedos suspensos no ar. Eu estava bêbada, realmente bêbada – tinha aberto a janela para não vomitar ali dentro, enjoada pelas voltas que demos pela Lapa para deixar um amigo da Isa em casa. Agora o carro seguia em linha reta pela Heitor Penteado. Só eu e ela. Mas a minha mente e o meu olhar estavam longe.
 
Na Mia, é.
 
Eu sabia o que a Isa queria. Sabia exatamente o que ela estava pensando, sentada ali ao meu lado, fumando um cigarro e me observando vez ou outra, com o canto do olho, murmurando a melodia insinuante que saía do rádio. Sabia porque aquele era o papel a que eu me acostumara. A ser a garota que liga para outra às três da manhã. A atravessar a cidade para foder alguém que não ia encostar um dedo sequer em mim. A não significar. A não ser ninguém. E sabia, antes de mais nada, porque sabia o que eu tinha feito aquela “carona” parecer ao telefone.
 
Mas, àquela altura, eu estava pouco me fodendo.
 
Brisava nas batidas em downtempo da música e nos meus dedos no ar, olhando a cidade passar por detrás. Ajeitei o rosto, apoiando o queixo sobre o braço que pendia para o lado de fora. E ao notar o mínimo movimento meu, a Isa puxou assunto. Coloquei os ouvidos do lado de dentro do carro – “quê?”, pedi para ela repetir. E encostei o corpo contra o assento, colocando os pés no painel e escorregando no banco, com os joelhos na altura do rosto.
 
_Eu perguntei... – ela sorriu – ...no que cê tá pensando aí?
_Em nada... – murmurei, largada no banco do passageiro – ...sei lá. Em parar pra comer, talvez.
_Pra comer?
_É – sugeri, a poucos quarteirões de casa, sem vontade alguma – Tá com fome?
_Olha, até comeria... – sorriu – Mas só vai ter boteco aberto essa hora!
_Não. Vamos no Prime Dog, meu.
 
Passamos reto pela Augusta, atravessando até o final da Paulista. É – eu estava enrolando. Descaradamente. Ganhando tempo ali, sem fome mesmo, enfiando um hambúrguer vegano goela abaixo. Enrolando pois sabia que, assim que descesse na porta do meu modesto edifício, ela ia querer subir comigo. E eu não queria ser a filha-da-puta que, além de pegar carona a troco de beijo nenhum, também diz estou-cansada-deixa-para-outro-dia. Mas não estava afim. Então precisava criar, no mínimo, a ilusão de que aquilo tinha sido um encontro.
 
Sentada naquela cadeira gelada do Prime Dog, rodeada de outros bêbados que começavam a sair das baladas, eu a escutava tagarelar. E entrava numa bad cada vez maior. A Isa encostava sua mão na minha, debaixo da mesa, e eu apoiava ambas ao lado do prato. Aí ela pegava discretamente na minha perna e eu a cruzava, dois segundos depois. Vez atrás de outra. Ia desviando das suas tentativas de criar qualquer clima para um possível beijo e ela percebia, achando graça, como se eu estivesse me fazendo de difícil.
 
Me deixa, implorava para que ela magicamente se desinteressasse. Mas assim que levantamos da mesa, ela tentou me convencer a tomar uma saideira do outro lado da avenida. Ficou pulando na minha frente com as pernas descobertas num vestidinho preto amarrotado e uma jaqueta jeans dez vezes maior do que seu tamanho. Argh. Depois de toda aquela comida, eu já estava levemente mais sóbria – o suficiente para saber que não tinha dinheiro para mais nada. Me restavam menos de dois reais em moedas.
 
_Não, mano – argumentei – Nem tenho grana mais.
_Ah vem, vai... – a Isa insistiu, rindo – ...eu peço uma tequila e a gente divide!
 
Céus.

março 28, 2011

Me engana, eu gosto

_Ah, é?!
 
A Isa riu, do outro lado da linha.
 
_É... – arrastei as palavras, com os olhos fechados e indisposta – ...tava pensando agora mesmo. Onde cê tá?
_Onde eu tô? – achou graça – Por que cê quer saber?
_Ah. Curiosidade...
_Sei... – a Isa se divertia e eu tragava, me forçando àquela situação – ...mas o que eu ganho se te contar?
_Mano... – respirei fundo – ...todo o desinteresse do mundo.
_Ah, agora é fácil assim?
_É.
_O que eu quiser, então?
 
Quer que eu repita, porra?
 
_Vai... – insisti – Me fala onde cê tá.
_Hum. Tá com pressa?
_Não. Não é pressa, é só que... sei lá, agora me pareceu uma boa hora pra gente... – hesitei – ...dar aquele beijo.
_Às três da manhã?! – zombou.
_Alguma coisa contra ligações de madrugada?
_Nenhuma. É só que, né... Assim, do nada...
_Não do nada, eu... – soltei a fumaça no ar e me preparei para mentir descaradamente – ...eu meio que, sei lá, fiquei com você na cabeça, sabe... depois da gente conversar mais cedo. Fiz merda em ligar?
_Nem um pouco! – ela riu – Eu tô aqui na Hot Hot, mas tava pensando em sair logo mais...
_Saindo daí cê vai pra onde?
_Não sei. Depende. Onde cê tá?
_Na Clash. Mas tá um lixo aqui... – resmunguei – Cê tá de carro, meu?
 
Diz que sim, diz que sim... diz que sim.
 
_Tô – ela riu, de novo – Por quê? Quer que eu passe aí?!
_Não, mano... – me fiz de ofendida, sentindo a garoa na cara – ...eu me viro, aqui é completamente fora de mão pra você.
_Não, não, é de boa...
_Sério mesmo?
_Sim.
_Então já é.
_Mas espera... E se não funcionar?
_Se não funcionar o quê?
_O nosso trato... – fez graça – ...e se eu pegar o meu beijo e, de repente, quiser mais?
_Aí cê pega mais... – resmunguei – ...pega o que você quiser, meu.
 
Só me tira dessa merda dessa rua, garota.

março 24, 2011

Na Clash

Que porra eu tô fazendo aqui? Engoli o restante de álcool no fundo do copo e o deixei novamente sobre o balcão, pedindo para o barman encher mais uma vez. Não devia ter saído de casa, resmunguei para mim mesma, observando o whisky tingir o balcão de vermelho através do vidro. O cara marcou a dose na minha comanda e eu olhei para a pista. A Lê já tinha desistido de me acompanhar, arranjando uma garota qualquer no meu lugar.
 
Eu não estava no clima. Não estava no clima pra porra nenhuma.
 
Um babaca de jaqueta jeans e camiseta dos Pistols, metido a moderninho, me enchia o saco, grudado ao meu lado. E eu o ignorava. Homens são como cachorros – não importa o tamanho da migalha, se você joga um só pedacinho, eles não saem mais do lado da mesa. E assim ele insistia, depois de meia resposta minha, falando coisas como o quanto ler Kerouac mudou a sua vida no ano anterior e o caralho a quatro. Céus. Olhei por cima do meu ombro e, a alguns metros dali, a Lê seguia com as coxas metidas entre as pernas da garota. Eu tenho merda na cabeça, dei mais um gole no meu Jameson, me sentindo presa naquela droga de balada.
 
O ambiente escuro e abafado da Clash tinha me enfiado com tudo na bad e eu estava rezando, implorando para ir embora logo. Sem nenhum sinal, todavia, de uma partida iminente. Achei mesmo que isso ia me fazer bem? Puxei então o celular do bolso, praticamente num ritual autodepreciativo a que tinha me acostumado, encarando a ausência de notificações. Como se olhasse direto para o abismo que a Mia deixou para trás.
 
Que se foda, decidi, vou cair fora.
 
E saí. Sem avisar a Lê, cambaleando de bêbada. Já do lado de fora, uma garoa fria me despertou daquele inferninho. Tirei o maço do bolso e acendi um cigarro torto, meio sem jeito, protegendo a brasa do vento enquanto lutava para fazer pegar. Dei a primeira tragada e a fumaça morna se espalhou no ar gelado. Onde você tá? Por que você não me liga como liga para ele? Me esforçava para não pensar na Mia, caralho viu, tragando mais uma vez e sentindo meus braços congelarem. Mas a minha cabeça ficava voltando para a sua boca, para os seus olhos. Para a porra das suas pernas me abraçando, a sua cabeça encostada no meu ombro. Por que você não me ama de volta?
 
Engoli seco e as palavras da Marina ecoaram na minha cabeça. Devia mesmo ter sido diferente a essa altura. Suspirei e coloquei o cigarro na boca – precisava achar um jeito de sair daquele buraco na Barra Funda e voltar para a Frei Caneca. Observei o movimento na rua, me dando conta de que eu estava longe pra caralho de casa. Peguei o celular e olhei as horas – 03:17. Eu tô fodida, balancei a cabeça, sem acreditar na minha falta de sorte, e soltei a fumaça. Não queria esperar até o metrô abrir. Contei os meus trocados restantes e não tinha o suficiente para um táxi. Merda. Quis então ligar para a Marina, pedir para que viesse me resgatar.
 
Mas não tinha coragem – não àquela hora.
 
Apoiei as costas contra a parede de fora da balada, sentindo minhas pernas instáveis e embriagadas. Argh. Aí me agachei e sentei naquela calçada suja. Encostei a cabeça contra o concreto da parede e rodei a minha lista de contatos do celular com uma mão, enquanto a outra segurava o cigarro inacabado. E sem raciocinar direito, pressionei o número da Isa – que eu tinha anotado naquela tarde. Após alguns toques, madrugada adentro, ela atendeu.
 
_Então, pensei sobre aquele beijo...

março 21, 2011

6 minutos

Fiquei olhando para a tela do computador. Meus olhos estavam secos – e exaustos. Não posso fazer isso. A foto da droga da Isa me encarava de volta, há duas semanas ali, esperando, entre os meus pedidos de amizade. Inferno. Soltei a fumaça no ar e, que se foda. Sem pensar, aceitei o pedido e escrevi numa tacada só – “pensei q o combinado era ñ significar nd pra mim, nem pra vc”.
 
Minimizei o navegador e voltei para o Media Player, ignorando o nó no meu estômago. Comecei a rodar a minha lista de músicas, cada vez mais e mais para baixo, com a mão sobre o mouse. Trouxe o filtro do cigarro até a boca e traguei, de novo. Já estava enjoada de todas minhas playlists. Olhava para elas, uma a uma, enquanto ouvia qualquer música do Little Boots, soprando a fumaça para cima.
 
So don’t go messing with her heart or messing with her mind or messing with the things that are inside – a minha boca gesticulava silenciosamente, entre uma tragada e outra, montando uma nova lista para substituir as antigas. E apenas minutos depois, vi aparecer uma notificação no Facebook minimizado. (1). Subi mais uma vez a janela do navegador, por cima do player, e coloquei o cigarro na boca. Cliquei sobre o nome dela na tela. Aí apoiei as costas para trás no encosto da cadeira, tirando o filtro dos lábios.
 
“Sem beijo, sem trato. Mas se rolar um, talvez eu perca o interesse... ;)”, li. 

março 20, 2011

A vida sem ela

Os próximos dias se seguiram em silêncio. O meu telefone não tocava e as mensagens pelas quais ansiei o fim de semana inteiro nunca vieram. O nosso apartamento também ficou mudo. Ninguém falava, não abríamos a porra da boca. Nem o Fer, nem eu. Apenas trocávamos olhares pelo corredor e seguíamos nossos caminhos – eu, o meu e ele, o dele. Não tocávamos o assunto, não falávamos da briga. Nem da Mia. Não interferíamos um na vida do outro.
 
Eu sabia que o Fer estava mal – mas não conseguia me importar. Ele não sorria e tinha os olhos sempre amargos, escuros. Sabia que estava sofrendo. Já ele não percebia a profundidade da dor que me corroía e eu mantinha os meus motivos assim, escondidos. Enterrados no meu peito junto com o meu coração. Estava quieta, apática. Andava pelo apartamento por mera necessidade de locomoção entre um cômodo e outro. E quanto mais o tempo passava, mais difícil era quebrar o silêncio.
 
Não é fácil se acostumar com o vazio depois de ter a sua vida tão preenchida. Não sabia o que fazer com todo aquele espaço que ela deixou – então, eu lia. Lia muito. Terminei “Inferno” da Eileen Myles em dois dias. E aí passei para o sofá, largada ali por horas e mais horas, assistindo televisão até os meus olhos secarem. Tentava evitar a internet, depois de uma madrugada deplorável em que fiquei olhando todas as fotos da Mia no Facebook. Uma por uma. Agora enchia a cabeça para não a ocupar com os meus pensamentos depressivos.  
 
Mas eles vinham.
 
E eu passava horas sem conseguir dormir, sozinha na sala e encarando o teto, enquanto a TV gritava com as paredes. Pensando na Mia. E só nela, um milhão de vezes nela. No seu sorriso deitada ao meu lado no chão, nos seus dedos percorrendo minhas tatuagens, nas coisas bonitas que me dizia, distraída, na temperatura dos ladrilhos contra nossa pele; em nós duas bêbadas na Sarajevo, em como ela dançava comigo, em como sua boca me queria, no nosso beijo na pista de cima. Caralho. E aí pensava nos seus olhos inchados, parada no elevador do prédio, pensava na sua boca agora muda. Até que não me aguentei – peguei o celular ao lado do sofá e o segurei por um tempo, deitada de lado, sem saber o que fazer. Não tinha ideia do que dizer para ela. Aí escrevi um desajeitado “Eei... :)”, na esperança de que ela também estivesse acordada naquela madrugada.
 
Ela não me respondeu.
 
Naquela noite e nem nos dias seguintes. A única que falava comigo era a Marina, numas poucas ligações durante a semana, preocupada. E eu tinha cada vez menos vontade de falar. Me fazia então perguntas do tipo “você comeu alguma coisa hoje?” e eu a respondia sem muita paciência, dizia que estava bem. “Você não tá enganando ninguém”, a Marina argumentava. Mas a verdade é que eu só não estava enganando ela – todo o resto não percebeu. Nem o Fer, nem os meus amigos. Recusei todos os convites da Lê e do Gui para sair. Todo mundo presumiu que eu estava ocupada, isso me bastava.
 
Me isolei. Não falava sobre a Mia – com a Marina ou com qualquer outra pessoa. E ainda assim sentia, presa dentro de mim, uma vontade insuportável de mencionar o seu nome. O tempo todo. De ir vê-la, de saber o que estava acontecendo. Tudo o que eu sabia, numa infeliz casualidade, era que ela procurou o Fernando num dos dias que se seguiram à briga. Eu estava na cozinha, jantando um miojo insosso, quando escutei os dois discutindo no telefone. O Fer abriu a porta do quarto com força, após algum tempo, esbravejando um último “porque eu não quero que você me ligue, porra!” e saiu do apartamento, com raiva.
 
Nesse dia, eu me senti um verdadeiro nada.
 
E era por isso que não falava dela com ninguém. Porque me doía lembrar – ou desconfiar, que fosse – da possibilidade de que ela sequer pensava em mim. Depois de tudo, me assombrava a percepção do quão pouco eu merecia. E assim o meu silêncio me protegia, me distraía do dela. Ouvindo-os por tabela, sem escolha. O babaca saía de casa sem nem se dar conta da repercussão dos seus atos barulhentos e eu restava sozinha, com o estômago embrulhado e uma vontade filha-da-puta de fazer alguma merda muito grande. Só para colocar tudo para fora. Descarregar toda aquela frustração de não ser comigo. De não ser para mim a porra da ligação.
 
Sentei em silêncio por vinte minutos naquela noite, com o meu telefone mudo na minha frente na mesa. E depois, com rancor, estourei o volume do som da sala até os vizinhos reclamarem.