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maio 27, 2011

180''

_E então...?
 
A Mia me encarou, impaciente. Merda. Não vou conseguir. Ela tinha os braços cruzados, em pé na minha frente. Sequer pareciam os mesmos braços que me abraçaram semanas antes. Sua boca já não era a mesma, o seu corpo parecia não me conhecer mais. E por um instante, a observando ali, naquele moletom largo e uns fios de cabelo se soltando dum rabo frouxo, a pintinha sob o seu olho, me observando de volta, me ocorreu que eu nunca tinha amado ninguém daquele jeito. Com todo meu coração. E eu, eu estava cansada.
 
_Olha, e-eu... sei o que cê tá pensando... mas as... as últimas semanas não... não foram... – ela começou a se enrolar numa desculpa não solicitada – ...não é... como se...
_Mia, na boa... – a interrompi – ...para.
 
Ela me olhou, sua desculpa suspensa. Agia como se não fôssemos eu e ela, a uma distância estranha de si mesma. E aquilo me irritava. Ainda assim a sua presença ainda me amolecia, tirando a força dos meus joelhos, a coragem da minha voz. Cacete. Mas eu tentava, insistia, me forçando a parecer mais forte do que eu realmente era naquele momento – ao mesmo tempo feliz por estar perto dela de novo e com uma dor desgraçada no coração, dividida entre sentimentos confusos. As palavras sumiam de mim e eu restava, hesitante. 
 
Não. Eu, e-eu preciso fazer isso. 
 
Engoli seco e voltei a falar:
 
_Escuta, é simples. Você sente alguma coisa por mim?
_...
_Sente, Mia?!
_Eu... – abaixou o olhar para o chão, respirando fundo – ...não sei, e-eu...
_Não amor, Mia – a cortei – Qualquer... q-qualquer coisa, porra. Sente? – a observava, com um nó no estômago – Já sentiu?!
 
Ela reergueu o rosto. Podia ver os seus olhos formarem um “sim” machucado – as sobrancelhas franzidas, consternadas. Me observando de volta, apenas me olhando, em pé na sua frente. Fica comigo, garota, meu coração imploravaE as lágrimas já começavam a apertar a minha garganta. Não foge disso. Da gente. Tinha vontade de a alcançar, de a beijar mais uma vez. Mas me continha. Incerta se era só eu que imaginava, que via o que queria nos seus olhos. Pelo amor de deus, fala. Diz que foi real. A sua boca continuava em silêncio, na mesma covardia de todos aqueles dias. Se omitindo de nós duas. Fiz um gesto com as mãos, como se repetisse a pergunta.
 
_Você... v-você tem que entender, e-eu... – ela deu um passo para trás – ...eu amo ele.
_Tá bom, Mia.
 
Balancei a cabeça, não preciso ouvir essa merda. E me virei para ir embora.
 
_Espera! – ela me segurou pela mão – É só isso?!
_Mia... – senti o meu coração endurecer – ...e-ele, ele não tá nem aí para você! O Fer, porra, e-ele não te quer, ELE NÃO TÁ NEM AÍ! EU... – me frustrei – ...EU TÔ AQUI, INFERNO!
_É que... – ela suspirou, confusa – ...n-não sei, e-eu...
_Me escuta, por favor... – me aproximei dela, pressionando sua mão contra o meu coração – ...eu quero ficar com você, eu... e-eu amo você, Mia. E eu quero ficar do seu lado, porra! Eu... – encostei a testa na sua, fechando os olhos por um instante – ...quero tudo. Todas as noites sem dormir e as horas conversando no chão do seu quarto, as tatuagens ruins, os beijos, as músicas roubadas. Me diz que não sou só eu, porra. O que a gente tem é tão bom, você sabe que é. E eu sei que as coisas tão uma merda agora, mas eu espero, inferno! O tempo que for. É só você falar que eu espero. Eu quero fazer a gente dar certo.
_...
_Mia... por favor.
_E-eu, desculpa... – os seus olhos marejados encontraram os meus, quase como quem se despede – ...e-eu preciso tentar com ele.
 
Minha expressão mudou. E eu a senti diminuir dentro de mim.
 
_Então, você vai perder nós dois... – respirei fundo, enxugando o rosto de qualquer jeito – ...na boa, não vale a dor de cabeça. Não mais.
 
Dei um passo para trás e me virei, me afastando antes que o meu coração partisse na sua frente. Não tem nada para mim aqui. Não queria exceder os dois minutos que tinha prometido – pra ela e pra mim mesma. Não ia mais arrastar aquela merda. E sim, podia ter falado mais. Ter repetido o quanto a amava, de novo e de novo, me declarado cem vezes, me humilhando, implorando, podia ter apelado, exposto a traição do Fer, dito que ele já estava com outra. Mas não importava mais. Você, eu. Ele. Todos nós nos traímos, de um jeito ou de outro. E agora tinha acabado. Finalmente, tinha acabado.
 
E eu... não sentia porra nenhuma.

maio 18, 2011

As reticências

Na quarta-feira, a garota voltou. Dei de cara com a dita cuja de manhã na cozinha, quando estava saindo para o trabalho, e presumi ser a mesma de uns dias antes. Estava com as pernas de fora num camisetão do Fer e os pés descalços, distraída, observando as fotos presas por ímãs na nossa geladeira. As imagens já começavam a desbotar. Bagunçado, o seu cabelo castanho batia na altura do ombro. Tinha tatuagens por todo o corpo e dois alargadores enormes – bem maiores do que os da Mia. Tinha cara de body piercer ou sei lá, algo que combinasse com aquele visual. Assim que entrei pela porta, ela se virou e me cumprimentou, meio sem jeito. Deve achar que sou uma louca que fica gritando com o Fer no corredor, pensei.
 
Comentei que ia fazer café e perguntei seu nome, tentando ser simpática. “Helena”. Alguns minutos depois, o Fer apareceu na cozinha e a beijou brevemente contra a porta da geladeira. Fiquei olhando os dois enquanto terminava de passar o café na pia. Não sabia onde ele havia arrumado aquela garota, tampouco me importava muito. Passaram mais tempo dentro do quarto do Fer do que pela casa. E ela até parecia gente boa – só não sei como não percebia as intenções do meu amigo.
 
Meu bem, lamentei, você é o step.
 
Acabei a minha xícara e saí de casa, sem intenção de voltar tão cedo. De hoje não passa. Tinha passado a madrugada toda fumando um cigarro atrás do outro, angustiada, sentada sozinha no meu quarto – pensando na Mia e na minha tendência estúpida de machucar todo mundo à minha volta. Ela, a Marina, o Fer. Argh. Acordei de saco cheio de mim mesma, do meu sofrimento arrastado, eu não aguentava mais me sentir daquele jeito. Algo precisava mudar.
 
Fui para o trabalho e esperei o dia se arrastar, entre uma mensagem e outra para a Mia, sendo ignorada. E assim que deu seis da tarde, subi num ônibus para Higienópolis. Assisti as ruas passarem, naquela lentidão do engarrafamento paulistano, até as redondezas do prédio da Mia. Quando cheguei no portão, uma madame estava saindo com um cachorro na coleira. Aproveitei para entrar. “Você vai lá na Mia, num é?”, o porteiro sorriu, me reconhecendo. Pediu para esperar ali, ao lado da guarita, enquanto confirmava se eu podia subir.
 
_Tudo bem, senhora, sim, eu aviso – ouvi ele dizer e imediatamente soube que ela não ia descer – Está bem, está bem. Sem problemas.
 
Nem a pau.
 
_Dá aqui, deixa eu falar eu com ela... – peguei o interfone da mão dele, grosseiramente – ...Mia?!
_...
_Mia!
_Oi...
_Olha, eu não vou fazer uma ceninha. Só quero falar com você, mano!
_E-eu não tô bem, eu... – murmurou baixinho, do outro lado – ...por favor, n...
_Que custa, porra?! – a cortei – Dois minutos e eu vou embora, prometo. Já vim até aqui, pô... Desce aí!
_... – suspirou – Tá.
 
Estiquei o interfone de volta para o porteiro, que agora já não sorria mais para mim, resmungando que eu podia ter causado um problema para ele. Tentei me desculpar e fui expulsa da guarita. Cacete. Só faço merda. Esperei por longos quinze minutos com os antebraços apoiados na grade do jardim do prédio, fumando um cigarro. Cheguei a pensar que ela não viria. Mas então ouvi seus passos atrás de mim, me virei.
 
Ela estava maravilhosa – inferno.
 
Senti como se eu não a visse há meses. Por tempo demais. Dei um último trago, jogando a bituca no chão. Os meus olhos agora fixos nela. Estava num moletom cinza, desses de ficar em casa, com cara de quem também tinha passado aquelas últimas semanas chorando; o esmalte preto já descascado nas unhas roídas, as olheiras fundas, provavelmente sem qualquer intenção de estar bonita. Mas estava, puta merda.

maio 17, 2011

Ou ama?

E-eu... preciso dar um jeito de falar com a Mia.

maio 16, 2011

O ponto final

A linha incandescente de brasa se aproximava do filtro do cigarro. Por favor, vai embora, desejei. Mas a Marina continuava lá. Paciente, me olhando com um carinho que eu não merecia. Dei um último trago, observando a brasa se acender ainda mais brilhante, e então amassei o cigarro contra o parapeito, o jogando janela afora. Me virei e apoiei contra a parede, a Marina estava na minha cama.
 
_Senta aqui...
 
Ela pediu, me olhando de volta com o seu par de olhos castanhos bem-intencionados – por detrás dos seus óculos pretinhos de aro fino. Não me movi, apenas a encarei por alguns segundos.
 
_Deixa de ser criança... – ela inclinou a cabeça, em desaprovação – ...larga a mão e vem logo aqui, meu.
 
Respirei fundo, sem muita paciência, e descruzei os braços, me sentando ao seu lado. Argh. Por mais que a Marina tivesse certa habilidade de colocar os meus pensamentos no lugar, tem vezes que a única coisa que se quer é não fazer sentido algum. Sair por aí, irracional, com as emoções desenfreadas. Doa a quem doer – e via de regra, era a mim que doía. Mas eu queria, puta merda, queria que doesse. Que me machucasse. Queria sentir cada miligrama daquele sofrimento, me afundar em cada segundo de dor, e que se foda. Olhei para a Marina à minha frente.
 
E é – esta era, definitivamente, uma dessas vezes.
 
_Fala, vai.
_Se comportar assim não vai ajudar – ela se ofendeu pelo meu tom.
_Má, não tô afim de ouvir bronca, meu...
_Não é bronca – ela me cortou – Mas você precisa querer ser ajudada, sair desse buraco, cê sabe que eu não gosto de te ver assim. Eu quero você feliz...
_Feliz como, porra?! – balancei a cabeça, como se me pedisse o impossível – Eu tô na merda, Má.
 
Dobrei as pernas em frente ao corpo, com os pés descalços sobre a cama, e me afundei contra a cabeceira. Então os meus olhos se depararam com o pequeno raio tatuado acima do meu joelho. Olhei as suas linhas tortas e senti falta delainferno. Num incômodo que brotava doído no meu peito e ia contaminando cada pedacinho de carne dentro de mim, naquela mesma tristeza sobre a qual eu não conseguia podia devia aguentava mais falar.
 
_Ela precisa me perdoar, Má – passei a mão no rosto, angustiada – Precisa.
_Te perdoar pelo quê, flor? – a Marina apoiou a mão sobre meu joelho e os seus dedos acidentalmente cobriram a tatuagem – O que você acha que fez de tão errado pra Mia, meu? Por que você tá se culpando tanto?
_Sei lá, eu... e-eu pressionei ela... foi... informação demais... na hora errada, eu... e-eu devia ter esperado, eu... – respirei fundo, me frustrando – ...eu não sei, Má, eu... eu fiz as coisas errado. Eu, e-eu não devia ter falado daquele jeito e não devia ter saído com a porra da Isa, não devia ter ligado pra ela de manhã, n...
_Espera – a Marina interrompeu – Quem é Isa?
_N-não, ninguém... – resmunguei, sem querer falar a respeito – ...o ponto é que eu fiz merda. E não devia ter feito. Não devia ter desligado a droga do telefone hoje, eu devia ter atendido, porra, enquanto ela... e-ela ainda queria falar comigo, mas... esse meu... orgulho de merda... – suspirei – ...eu não atendi a porcaria do telefone quando ela me ligou, Marina! Não atendi e agora quem não me responde é ela! Puta, mano, que ódio – me desesperei – Por que eu não atendi, inferno? Agora a Mia vai cair na real e... e ficar aí... achando que a opção dela é a porra do Fernando! Ela não vai mais me perdoar!
_Mas, linda, você não pode forçar ninguém a te amar de volta. As pessoas não escolhem o que sentir. Não vai acontecer a não ser que, por si só, a Mia veja você como uma opção para a vida dela, meu... Cê não fez nada errado! Esquece a Mia um pouco... Deixa ela ir atrás do que quer, deixa ela quebrar a cara, tomar as próprias decisões. Não depende mais de você.
_Não dá. Não dá, Má... Eu... e-eu não aguento... – a minha cabeça doía só de pensar – Eu... – comecei a sentir vontade de chorar de novo – ...eu amo ela demais. Demais. E não é só isso... Cê não entende! Eu sei que ela tá na merda também! O que cê faria, porra?! Se soubesse que a pessoa que você ama tá sofrendo, tá mal pra caralho?!? E eu não posso fazer nada! Não posso falar com ela, não posso estar com ela, cacete. Não. Não dá. Eu não consigo deixar pra lá, não fazer nada...
_Tá. E... – a Marina hesitou – ...e o que a Mia está fazendo por você?! Você não está sofrendo também??
_É diferente.
_Diferente como?!
_É diferente, caralho – me irritei – Não é a mesma coisa, porque a Mia não me am...
 
Segurei as minhas palavras, de repente, antes que se tornassem reais. A Marina ficou me encarando, à espera da conclusão – mas, droga. Aquela era uma frase eu não conseguia terminar.

maio 09, 2011

Intervenção

_Você tá com uma cara péssima.
_Não enche, Marina.
_Desculpa, mas alguém precisa te dizer isso... – foi entrando no meu quarto, sem que eu a convidasse – ...e você tava dormindo?! A essa hora??
 
É. “Estava” é a palavra-chave.
 
_O que cê tá fazendo aqui, meu?! – resmunguei deitada na cama, enfiando a cara no travesseiro, enquanto ela abria a janela.
_Eu vim salvar de você mesma.
_Deixa de ser ridícula, mano.
_Eu?! Olha, cê me desculpa, mas a ridícula nesse quarto é outra... – ela me observou, irônica, e eu revirei os olhos.
_Eu não preciso ser “salva”, Marina.
_Não?! E quando foi a última vez que você saiu?
_Ontem. E eu já me arrependi – levantei da cama, meu cabelo cheirando a cinzeiro, argh – Quem te deixou entrar, afinal? O Fer?
 
A Marina não respondeu, com metade do corpo já dentro do meu armário, vasculhando a pilha bagunçada de roupas que se acumulava sobre as gavetas. Fiquei parada em pé, numa camiseta desbotada dos Strokes e com a mesma cueca que estava usando no meu encontro fracassado da noite anterior, sem vontade alguma de socializar com a porra da minha ex naquele momento. Inferno. Eu odiava as “intervenções” da Marina – na época em que a gente namorava, ela costumava invadir a minha casa contra a minha vontade, no meio da tarde, para “salvar” o nosso relacionamento das nossas muitas brigas. Era sempre assim e, uma hora ou outra, eu cedia.
 
Naquela tarde, no entanto, eu não estava com saco para aquilo.
 
_Tem alguma coisa aqui que esteja passada?! – ela disse, falando sozinha, enquanto mexia no bolo de tecido.
_Sei lá – murmurei – Preciso mijar...
 
Larguei a Marina ali e arrastei os pés até o banheiro. Sentei na privada, sem me dar ao trabalho de fechar a porta, e descansei os olhos enquanto fazia xixi. Estava exausta. Minha cabeça doía, o meu corpo todo doía depois de me espremer com a Isa no banco de trás de um Gol velho por meia hora e andar quatro quilômetros até em casa, bêbada. Argh. Dei descarga e encarei os tons arroxeados, cansados, que se camuflavam sob a pele ao redor dos meus olhos. Destruída, em frente ao espelho do banheiro, dei o braço a torcer. É, tô com uma cara péssima mesmo.
 
_Ah, não. Nem pensar!
_Só veste logo!
_Meu, eu não... – me joguei na cama, por cima das roupas que ela tinha separado e ajeitado ali – ...n-não vou pra lugar nenhum.
_Ah... você vai, sim! – a Marina me puxou pela mão – Vem! A gente pode só ir jantar rapidinho...
_Má, por favor... – choraminguei, exausta, passando as mãos no rosto.
_Você não tem escolha – continuou, começando a me irritar.
_Marina, é sério, vai. Eu não quero.
_Não tô perguntando.
_Má... – sentei na cama e a encarei nos olhos para ver se ela entendia – ...para. Me deixa em paz.
_E qual é a alternativa?! – ela retrucou, levantando a voz – Me diz! Vai ficar aqui sentindo pena de você mesma?!
_Ninguém tá sentindo pena de ninguém! – a cortei, indignada – E outra: eu tô pedindo ajuda por um acaso?! Hein?! Te disse alguma coisa esses dias? Fui lá chorar no seu ouvido?? Fui?!? – levantei da cama, me estressando – Não, não fui! Não fui, Marina! Então não me enche, porra!
 
Desgraça. Não aguentava mais ficar brigando com todo mundo, o tempo todo.
 
_E precisa?! – a minha ex reclamou, insistente – Faz DUAS SEMANAS que a única coisa que eu escuto é “ah, não tô afim”, “ah, sei lá”, “fui no estúdio, já jantei”, “ah, deixa pra lá”...
_E cê quer que eu fale O QUÊ, PORRA?!?
_QUALQUER COISA! ME LIGA!! CONVERSA!! FALA COMO VOCÊ TÁ! ME DIZ O QUE TÁ ACONTECENDO! DAQUI A POUCO VAI FAZER UM MÊS E VOCÊ CONTINUA AÍ, NA MERDA!
_PROBLEMA MEU, MANO! O QUE VOCÊ TEM A VER COM ISSO??
_Linda, pelo amor de deus – baixou o tom, tentando mudar o rumo da discussão – Por favor, não faz assim. Eu tô preocupada com você.
_Eu tô bem, Marina... – balancei a cabeça, respirando fundo – ...eu só preciso de um tempo.
_Meu amor, as coisas não vão se resolver se você...
_Já disse que tô bem, porra! – a interrompi.
_Flor, pelo amor de deus, cê sabe que não é verdade – insistiu, segurando na minha mão – Você acha que isso é vida?! Ficar assim por causa de uma garota que...
_Eu tô bem! EU... ESTOU... BEM! – a cortei de novo e soltei a minha mão da dela, irritada – Quer que eu repita? Não tem nada rolando, caralho!! Eu tô bem!
_Mas você não tá! VOCÊ SABE QUE NÃO TÁ!!
_E VOCÊ QUER QUE EU DIGA O QUÊ, CACETE?!? – gritei com ela – HEIN?!?
_Calma.
_CALMA NADA! VOCÊ NÃO SABE COMO É!! O QUE DIABOS VOCÊ FARIA NO MEU LUGAR, CARALHO?! SE FALASSE PRA UMA MINA QUE AMA ELA E... E, E A GAROTA SIMPLESMENTE SUMISSE DA SUA VIDA?? NÃO TE RESPONDESSE?? SE VOCÊ FICASSE LÁ SE HUMILHANDO, PORRA?! MANDANDO MENSAGEM? LIGANDO?! SENDO IGNORADA?! VOCÊ QUER QUE EU DIGA O QUÊ?!? QUE EU NÃO TÔ BEM, CARALHO?! QUE EU TÔ MAL? QUE EU TÔ SOFRENDO?! QUE EU NÃO CONSIGO PARAR DE PENSAR NELA?? NESSA MERDA TODA?!? É LÓGICO QUE EU NÃO TÔ BEM, CARALHO!! – fui aumentando a voz – PRECISA VIR AQUI E ME ENCHER SACO?!? EU NÃO QUERO SAIR! EU NÃO TÔ AFIM! ME DEIXA, PORRA!!
_É ISSO! É SÓ ISSO QUE EU QUERO OUVIR!! A VERDADE!!
_A VERDADE NÃO FAZ EU ME SENTIR MELHOR!!!!
 
Dei dois passos e bati a porta, nos fechando ali antes que o Fer escutasse a discussão e deduzisse de quem eu estava falando. Me sentia um lixo, por dentro e por fora. Um lixo.
 
_Mas, linda, pelo menos você está falando. Isso já ajuda, voc...
_E que diferença faz?!? – me irritei com as suas palavras amenas – Eu continuo aqui, porra, enfiada nessa merda desse apartamento sozinha, SEM ELA! NÃO FAZ NEM UM MÊS QUE A GENTE TAVA AÍ SE VENDO, CACETE, ELA TAVA ME PROCURANDO, ME QUERENDO, DEPOIS DE TANTO TEMPO!! A GENTE TAVA BEM!!! E DE REPENTE, EU CAGO TUDO E ELA VAI EMBORA, ME IGNORA, FICA ATRÁS DO FERNANDO O DIA TODO, LIGA QUINZE VEZES POR DIA, ELES SÓ BRIGAM E NINGUÉM MAIS SE FALA NESSA PORRA DESSE APARTAMENTO, MINHA RELAÇÃO COM O MEU MELHOR AMIGO TÁ UM LIXO... E EU... EU... – comecei a me sentir sufocada – ...EU SINTO FALTA DELA, E-EU... EU SINTO TANTA, TANTA FALTA DELA!! PUTA, MANO! MAS QUE INFERNO!!
 
Enxuguei o rosto de qualquer jeito com as costas das mãos e andei até a porcaria da janela. Eu não aguento mais. Não aguento mais. Abri a janela e tirei o maço do bolso, ainda com raiva. Coloquei um cigarro na boca e o acendi. Primeira tragada e a Marina continuava lá, parada, me observando com um olhar de pena insuportável.
 
Maldição.

abril 20, 2011

A intromissão

_Fer! – o chamei, indo atrás dele no corredor numa arrogância embriagada – Tem alguém aí??
_Não interessa!
 
Ah, tem.
 
_Quem é?!
_Já falei, porra, não se mete! – retrucou, grosso, indo em direção à porta do seu quarto.
_Que foi agora, Fernando?! O apartamento é meu também, caralho! Não tenho direito de saber?!
_Cara, alguma vez já me intrometi na sua vida?!?? – se virou para mim, sem paciência – Já?! Já fiquei perguntando quais as minas que cê traz aí, porra?!
_Foda-se! Tô perguntando agora!!
_VAI ARRANJAR O QUE FAZER, INFERNO!
_AH, É! PORQUE VOCÊ PELO JEITO JÁ ARRANJOU, NÉ...
_Se a Mia pode, também posso – resmungou.
 
E bateu a porta na minha cara, puto. 

abril 16, 2011

Pena, vaidade e outros problemas da humanidade

Vinte segundos depois, o meu celular começou a tocar.
 
O assisti espernear em cima da mesa da cozinha, barulhento, com os meus braços cruzados. Os meus olhos inchados observavam o nome da Mia na tela, paralisada. Quantas vezes eu quis que você me ligasse, garota, nesses dias todos?, pensei, tentada a atender. Mas as lágrimas ainda corriam no meu rosto e eu não suportava desmoronar assim na frente dos outros – aquilo me feria o ego dum jeito. Me sentia fraca, uma idiota. Indo atrás dela às sete da manhã dum domingo, bêbada e sem conseguir arrancar uma palavra sequer da minha garganta, ridícula, me afogando no meu próprio choro. E incapaz de conter o meu desespero. Quantas vezes?
 
A vontade de falar com a Mia fazia meus dedos formigarem, ansiosos para pegar a porra do telefone antes que ela desistisse. Como eu quis, porra, que você surgisse no meio da madrugada, que me ligasse e falasse o que diabos tá acontecendo, que você se preocupasse. Aquilo me doía por dentro. Os meus pensamentos ecoavam pelo cômodo amanhecido, enquanto o som do toque aumentava e a tela acendia insistentemente, com o seu nome nela. Mas parte de mim temia os seus motivos. Você não tinha nada para me falar, todas as vezes que te procurei, você não disse nada quando eu disse que te amava.
 
E agora ali estava, de repente, pronta para me ouvir.
 
O que você realmente quer de mim?, apertei as sobrancelhas com desgosto. As minhas lágrimas, garota? A dor na minha voz? Me ouvir desmoronar, me humilhar, caralho, é isso que te faz pegar a porra do telefone?, passei a mão no rosto. E o aperto no meu peito voltou, incômodo. Balancei a cabeça, me afundando na cadeira, cada vez mais na defensiva. É isso que você quer? Escutar os segundos entalados na minha garganta? Evidência salgada, molhada, do meu amor por você? De repente, você se importa o bastante para me ligar de volta?
 
Me sentia confusa. E me doía – como doía – olhar o nome da garota que eu amava me chamando daquele jeito, sem saber que porra fazer. Sentia as lágrimas subindo até meus olhos já vermelhos e me machucando ainda mais. Puta merda. A verdade é que eu queria atender. Desesperadamente. Era só isso que me importava, inferno. Passei as mãos mais uma vez no rosto e apoiei os cotovelos na mesa, deixando os meus olhos fechados por um instante sob meus dedos. Foi quando escutei a porta do quarto do Fer se abrir no corredor, do nada.
 
E num impulso covarde, desliguei o celular. Apagando rapidamente qualquer evidência de que era a sua ex namorada ligando.
 
_É VOCÊ QUE TÁ FAZENDO ESSE BARULHO TODO, CARALHO?!?
 
Ergui os olhos e vi o Fer parado na porta da cozinha, só de samba-canção e com uma puta cara de sono. Estava tão desnorteado que sequer reparou na minha embriaguez – ou em como enxuguei as minhas bochechas no antebraço assim que ele chegou.
 
_Foi mal – murmurei.
_PORRA, CUSTA?! – se exaltou – ABAIXA ESSA MERDA, INFERNO! A GENTE TÁ TENTANDO DORMIR!!
 
Socou a porta com a lateral da mão para mostrar que o quanto estava irritadinho. E saiu da cozinha. Babaca, revirei os olhos. Peguei o celular sobre a mesa e encarei a tela, agora desligada.
 
Mas espera, levantei o olhar, “a gente” quem?

abril 10, 2011

Recuperando consciência

Me afastei, andando pela calçada suja do Ana Rosa. Puta merda, olhei para o meu cigarro e o vi quase rasgado, provavelmente amassado no meio do meu surto, agora pendendo torto na minha boca. Tentei endireitá-lo, já quase alcançando a esquina seguinte. Sabia que descontava na Isa uma frustração que, no fundo, pouco tinha a ver com ela. O dia já tinha clareado o suficiente e eu poderia muito bem pegar as quatro estações de metrô que me separavam de casa, mas não tinha dinheiro suficiente.
 
Então, andei. Metro por metro de chão, um passo atrás do outro, me sentindo um nada. Não pensei em porra nenhuma, só andei. Até a porta do meu prédio. E aí, quando entrei em casa, quarenta minutos depois, larguei as chaves sobre a mesa da cozinha e peguei um copo no armário de cima. O enchi de água, numa sede do caralho. Então puxei uma cadeira e tirei o celular do bolso, largando-o ali na mesa e me sentando meio de qualquer jeito, afundada contra o encosto. Tomei a água em goles espaçados, exausta. E assim que terminei, fiquei parada olhando para o copo vazio. A minha respiração se tornou pesada.
 
Merda.
 
Virei para o lado, apoiando os braços nas pernas e o rosto nas mãos. Começou a me voltar, de repente, toda a cagada que eu tinha feito. E o ar começou a me faltar. Senti um soco no estômago e os meus olhos doeram, inchados com uma rapidez embriagada, fora de mim. A minha garganta apertou. E eu senti um pânico que vinha de dentro, um desespero. Olhava à minha volta, o apartamento, a pia, os armários, as cadeiras, o microondas, a geladeira, a torneira, o chão, a mesa, a porra do copo vazio, as minhas chaves e a porta para o corredor – e as coisas simplesmente não faziam sentido. Nada, porra, nada faz sentido mais, senti as lágrimas me subindo doídas pela garganta, mas não queria chorar.
 
Me virei de novo para a mesa e coloquei os cotovelos apoiados sobre o tampo, segurando os olhos entre os dedos e relutando, com o rosto metido nas mãos. Inferno. As minhas ações ultimamente não faziam sentido, eu não fazia sentido. O que diabos eu tô fazendo?!, me torturei, perigosamente bêbada. Eu não sabia como tudo havia chegado àquele ponto. Peguei o telefone meio de qualquer jeito, em cima da mesa, num desespero impulsivo. E aí liguei para ela. Não sei o que eu buscava, o que eu esperava ouvir – só sei que não conseguia mais estar sozinha. E que motivo egoísta, não é, para enfiá-la à força na minha vida, para trazer ela para perto. Mas eu não conseguia evitar. Completamente sem rumo, sentia a minha cabeça prestes a explodir.
 
_Hmm...?!
 
A ouvi murmurar do outro lado da linha, sonolenta. Talvez sem dar-se conta de que era eu ligando.
 
_Mia... – tentei falar e os meus olhos se encheram de lágrimas, me doendo – Mia, e-eu... – segurei as palavras na minha boca, angustiada, e os segundos correram em silêncio, droga – M-Mia...
_O que aconteceu?! – ela soou mais desperta, agora assustada.
_E-eu... – busquei fôlego, com dificuldade – ...e-eu não... eu não sei... e-eu... – não conseguia empurrar palavra alguma para fora, numa angústia horrível que me fechava a garganta, a apertando tanto que quase não deixava passar o ar, não sabia o que estava acontecendo no meu corpo.
_Alô?! Alô??
 
Quis desligar, de repente. E senti me doer mais ainda – puta que pariu. As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Tentava respirar fundo, mas não conseguia. Meu peito se enchia de angústia, esmagado em si. Passei a mão no rosto. Eu tô perdendo a razão, a noção, pensei, merda. Apertei os olhos, bem fechados, e enxuguei as lágrimas com pressa, com raiva de mim mesma, as tirando dali. Mas elas tornavam a brotar.
 
_Você tá bem?? O que foi?!
_E-eu... – solucei, chorando contra a minha vontade, sentindo uma tensão terrível tomar conta de mim, sem entender como diabos aquilo estava acontecendo comigo, o carro, a briga, a Mia, o apartamento, a porra do meu amigo, como eu tinha deixado a minha vida chegar àquele ponto e o quão idiota eu podia ser, caralho – Eu... e-eu não devia ter te ligado... desculpa.
 
Desliguei. E as lágrimas voltaram na mesma hora.

abril 09, 2011

Cansaço

_Ei... – a Isa se sentou e tocou meu braço, fazendo com que eu parasse de me vestir por um segundo – ...o que foi?!
_Nada – me soltei dela, desvirando a camiseta e a colocando no corpo.
_Nada?
_Nada, porra.
_Então, é isso?!
_É – me sentei do lado oposto do banco, sem saco para conversar, e acendi um cigarro.
_O que foi?! – ela me encarava, insistente – Só fala, meu. O que é? Você não gosta, é isso? – continuou – Meu, eu não preciso fazer nada, tipo, “com você”. Eu posso só...
_Não é isso.
_Não?!
_Não... – balancei a cabeça, tragando.
_Bom, então me explica, né... – se irritou, levemente ofendida – ...porque eu achei que tava tudo bem!
_Mas tava...
_E?!
_E nada, porra! – me irritei também – Sei lá, eu não... n-não tô afim.
_Assim, de repente?!
_É.
 
Abaixei manualmente o vidro da janela para deixar a fumaça sair. Aí olhei para a calçada e notei o dia já bem mais claro, com os resquícios da sujeira partyhard daquela madrugada.
 
_Cara, cê tem sérios problemas... – ouvi a Isa reclamar, ao fundo – ...na boa.
_Pois é – me enchi dela, num impulso grosseiro, e troquei o cigarro de mão, puxando a trava da porta para sair.
_O que cê tá fazendo?!?
_Eu posso andar até em casa – justifiquei.
_Não, meu... Espera! – ela se apressou, escorregando pelo banco, e veio atrás de mim na calçada – O que diabos cê tá fazendo?! Calma, mano, eu te levo...
_Eu não quero que cê me leve – virei para falar com ela, me forçando a respirar fundo e ser uma pessoa decente – Vai pra casa, meu. Tá tudo bem... A, a gente... a gente bebeu demais e... sei lá.
_Mas que merda deu em você?! – ela ergueu a voz – Não... não vou. Cê acha que eu vou te largar aqui, mano?! Entra no carro, vai, eu te levo até lá, não custa nada...
_Eu tô bem, é aqui do lado, meu. Sério, eu quero ficar sozinha.
_Ficar...? – ela levou a mão à testa, se estressando de repente – “Ficar sozinha”?! Então, por QUE RAIOS CÊ ME LIGOU, PORRA?!?
_Ah, mano. Não...
 
Comecei a rir, perdendo a paciência de novo.
 
_QUAL É O SEU PROBLEMA?? – a Isa me confrontou, nervosa, e eu parei de achar graça – Sério, me fala! O seu plano era o quê?! ME ENROLAR A NOITE TODA E FINGIR QUE IA ME COMER?! É ISSO?!? – revirei os olhos, com o cigarro metido na boca, e a sua atitude me incomodou – E PRA QUÊ?! HEIN??? PRA CHEGAR NO CARRO E FAZER GRAÇA POR MEIA HORA, DEPOIS SAIR ANDANDO ANTES DE EU GOZAR?!
_Meu, na boa... – balancei a cabeça – ...não começa, vai.
_“NÃO COMEÇA”, O CARALHO! CÊ ACHA QUE ISSO É CERTO?!
_“CERTO”?! MANO, QUE CÊ QUER DE MIM? – me indignei, estourando com ela – CÊ QUER QUE EU TE COMA?! É ISSO? É ISSO QUE VOCÊ QUER, PORRA?? ENTÃO TÁ! VAMOS LÁ!! – marchei de volta para o carro e abri a porta bruscamente – ENTRA AÍ!
_Não, eu não d...
_QUÊ?! QUER ROMANTISMO AGORA, PORRA?!
 
Bati a porta, de novo.
 
_NÃO! EU SÓ QUERO ENTENDER PORQUE VOC...
_Olha, na boa, você não quer entender... – resmunguei, fora de controle, passando por ela na calçada – ...o que você realmente quer, garota, eu não tenho.
_AH! É ISSO, ENTÃO?!? – ela gritou na minha direção – CÊ SIMPLESMENTE VAI SAIR ANDANDO??
_Vou.

abril 08, 2011

O ato em si

É. Era estranho beijá-la. Metidas no banco de trás do carro, ali, parado no meio da rua às quase seis da manhã de um domingo. Sentia alguma coisa fora de lugar na minha cabeça, como quando se tem a impressão de estar esquecendo algo – as chaves ou a porra da consciência. Mas a beijava de novo, e de novo, me forçando por cima do seu corpo, apertando as suas coxas e erguendo a barra do vestido até a sua cintura, como se tivesse que continuar até terminar o que aceitei fazer naquele carro.
 
A verdade é que eu já nem sabia o que estava acontecendo. Quando se está tão bêbada quanto eu realmente estava, suas ações assumem um estado arriscado de inércia. Disparam em linha reta. Pensar a respeito, uma vez que se começa a fazer merda, e de fato mover-se no sentido contrário requer muito, muito mais do que um mero “incômodo” lá no fundo da sua mente. Então eu continuava, ali, como se machucasse a mim mesma. Em cada beijo que dava naquela boca que eu não queria, naquele pescoço que eu não queria – definitivamente não queria. Nada daquilo.
 
Cacete.
 
As pernas da Isa se apertavam contra o meu joelho, apoiado no banco, enquanto eu subia em cima dela. Minha coxa se forçava contra ela e os seus lábios se forçavam nos meus em resposta, mordendo a minha boca e me puxando para si, com ambas as mãos atrás da minha nuca, enroscando os dedos no meu cabelo. Podia sentir o ar se tornando abafado, úmido, conforme os minutos se passavam, trancadas ali dentro. E antes que pudesse me dar conta, eu já estava suando, me enroscando cada vez mais intensamente nela no banco de trás.
 
Todas as janelas estavam fechadas. E eu podia sentir a tequila fervendo no meu cérebro, nas minhas veias, beijo atrás de beijo. Cada vez mais molhados. Entrava e saía de mim, nuns lapsos de consciência, como se me sufocassem a realidade. Com a minha... minha mão metida na... é, ali, entre as pernas dela. Tirei os dedos da sua calcinha, sem pensar, e arranquei a minha camiseta – passando o tecido de qualquer jeito no rosto para secar o suor. Então joguei a camiseta no chão do carro e voltei para cima dela, sem nem ideia do que estava fazendo.
 
Os vidros começavam a embaçar e a temperatura subia progressivamente. As mãos da Isa deslizavam pelas minhas costas suadas e as minhas terminavam de tirar a calcinha enrolada no meio das suas coxas. Os meus dedos entraram nela mais uma vez e ela me pegou pelo pulso, como se me obrigasse mais para dentro. Fechou os olhos lentamente, com a boca entreaberta – se contorcendo enquanto eu a fodia. Puta merda, mano. Senti minha cabeça latejar, naquele calor desesperador.
 
Ergui os olhos e vi o céu clarear pela janela. Caralho, eu vou... acabar... s-sendo pega... aqui, fiz certo esforço para concluir o pensamento, tentando me manter minimamente sóbria. Não conseguia. Sua mão me puxou o rosto de volta e a beijei, nuns apagões violentos que me doíam a cabeça. O meu braço se movia entre nossos corpos, quase automaticamente, a comendo sem qualquer vontade. Ela parecia não perceber. A sua boca machucava o meu pescoço, me enchendo de marcas roxas. E eu pensava na Mia – na sua decepção comigo.
 
Mas continuava.
 
Numa estupidez contraditória, me movia em cima dela. Me destruindo. Merda. A Isa me puxava para si, com uma das pernas ao redor da minha cintura, descendo as mãos pelas minhas costas e arranhando a minha pele deliberadamente. Desavisados, os seus dedos encontraram caminho pela linha do meu jeans. Até o meu zíper. Ah, não. Nem pensar. A contive, na mesma hora. A Isa riu e me olhou, intrigada. E sem tirar os olhos dos meus, num atrevimento que era para ser provocante, se soltou de mim. Aí insinuou o corpo para frente, me beijando, e veio mais uma vez com os dedos. Insistindo.
 
Parei de beijá-la, de novo. Inferno. E olhei para baixo, para a sua mão sobre o zíper da minha calça – a centímetros de onde ela realmente queria chegar. De jeito nenhum, garota. A Isa sorriu, meio sem graça, notando a minha expressão séria, e tirou as mãos de cima de mim. Desviou o olhar por um instante, depois tornou a me encarar. E eu perdi, de repente, toda a pouca vontade que ainda tinha de estar ali. Escorreguei minha mão para cima de novo, para fora dela. E me inclinei para trás.
 
_E-eu fiz alguma coisa?
_Não.
 
Respondi, sem paciência, procurando a minha camiseta no chão do carro.