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junho 25, 2011

Nothing is real and nothing lasts

...
 
...abri os olhos, sentindo um chuvisco respingar gelado na minha cara, amassada contra o jeans do Fer. Caralho, o que aconteceu? Suas pernas estavam largadas num chão imundo e eu senti minha cabeça densa, apoiada no seu colo. Estava morrendo de frio. Como se todo sangue tivesse sido drenado das minhas veias, deitada na calçada da rua paralela da Trackers, com o braço contra um concreto que provavelmente já tinha sido mijado incontáveis vezes. Argh. Senti a repulsa correr sob minha pele, num impulso de me levantar dali, mas não conseguia mover um músculo sequer sem toda aquela tequila e sei-lá-mais-o-quê se revirar dentro de mim. Prestes a sair pela minha garganta, de novo.
 
De novo?
 
Não fazia ideia. Era como se uma parte da noite tivesse sido apagada da minha memória – inferno, eu não lembrava de porra nenhuma. Meu corpo doía por dentro e minha boca estava amarrada, com gosto de vômito. Eca. Ainda me sentia embriagada, completamente chapada. Apoiei a mão na perna do meu amigo, me erguendo com muito esforço até encostar contra a parede pichada, me sentando. O Fer me observou com um olhar preocupado, se esforçando para se manter minimamente sóbrio consciente. Deve ter me arrastado até aqui para, não sei, pensei, com certa dificuldade, para eu, e-eu vomitar? Sei lá.
 
Ele estava igualmente fora de si – provavelmente tinha gorfado junto. Colocou o braço ao redor dos meus ombros e eu apoiei a cabeça nele, sentindo um vento gelado soprar a garoa pra cima de nós. O breu da madrugada já começava a se clarear aos poucos, no trechinho de céu que dava para ver entre os prédios antigos da República. Ficamos sentados ali num estado quase contemplativo, ainda bastante bêbados. Metidos nas nossas próprias viagens. Me passavam pensamentos aleatórios pela cabeça, dispersos, se confundindo com as luzes que dançavam refletidas no prédio em frente à Trackers, deslizando pelos meus olhos em meio aos graffitis.
 
_V-você... – perguntei, sem pensar – ...você sente falta dela?
_Hum?!
_...sente?
_De quem?
_Da Mia... – murmurei, confessando o seu nome em meus pensamentos – ... cê... n-num pensa nela?
 
O Fer se virou para mim, largando a cabeça contra a parede, e me encarou por um instante, como se não entendesse por que diabos eu estava falando daquilo naquele momento. Tinha os olhos exaustos.
 
_Não.
 
Fiquei encarando ele ali, acima de mim, ainda com o meu rosto apoiado em seu ombro. Então a expressão nos seus olhos mudou e ele respirou fundo, com as pálpebras pesadas.
 
_S-sei lá... – falou baixo, arrastado – ...a, a real é q-que sim, sinto. Pra caralho.
_Hum.
 
Voltei o olhar para os pôsteres colados na parede à frente. Lambes de festas. Cartazes rasgados de lojas de ouro. Adesivos desbotados. E pixos. Sem falar mais nada. Para não confessar que talvez, no fundo de toda aquela bagunça dentro de mim, eu também sentia. Senti o meu interior vazio. Num lapso indesejado de consciência, bêbada demais para lidar com aquilo. Podia ouvir o Fer respirar ao meu lado, com o seu braço ao redor de mim, repentinamente introspectivo. Ambos quietos. É...
 
...então é assim.

junho 24, 2011

In the Big Machine now

Com certa dificuldade, empilhei o quinto copo por cima de uma fileira com outros quatro. O Fer virava mais um e a gente tentava esvaziar os seguintes, o quanto antes, tentando completar a pirâmide. Argh, a aposta mais idiota que alguém que estava longe de casa e sem carro podia fazer, onde eu tava com a cabeça? Aproximei mais um copo da minha boca e senti o meu fígado estômago corpo todo se contorcer numa ânsia de quem não aguenta mais uma só gota. Já bebi demais, puta merda. Os moleques gritavam no meu ouvido e metade dos desconhecidos à nossa volta assistiam, achando graça na disputa.
 
Suspirei. E virei de uma vez aquela desgraça.
 
Puta que pariu. Senti tudo me voltar até o topo da garganta. Apoiei as duas mãos na mesa, respirando fundo, e tentei me concentrar em não vomitar. O Rafa Benatti – o único idiota o suficiente para topar enfrentar eu e o Fer naquela babaquice – assoprava pesado no ar ao meu lado, numa pausa semelhante à minha. Já estávamos todos no limite. Eu precisava beber pelo menos mais dois shots, seriamente perigando uma manhã toda com a cara enfiada na privada, se quisesse vencer.
 
Encarei a tequila, ali sentadinha dentro do copo, à minha espera. E que se dane, virei mais um. Fechei os olhos, os apertando numa careta. Desgraça. Minha cabeça caiu entre os meus braços, apoiados naquela mesa quebrada, no meio dum dos muitos quartos da Trackers. Vou gorfar, caralho, v-vou, vou... desmaiar, puta que pariu. Olhei pro lado e o Fer balançou a cabeça, me encarando de volta, como quem arrega silenciosamente – a gente não ia conseguir. Sem chance. O primo do Benatti batucava nas paredes, exaltado, o encorajando a virar o último copo. Só faltava um para terminar a pirâmide. Quem virasse, ganhava – os perdedores pagavam a conta. 
 
_Não rola, velho... – o Fer murmurou, encarando o shot e arregalando os olhos em desespero.
 
Os meus não desgrudavam da tábua da mesa, sentindo me revirar tudo por dentro. Não. Não ia dar. Eu ia realmente passar mal e, cara, não vai ser bonito. Não conseguia lembrar quando beber assim se tornara tão normal para a nossa geração. O Fer deu dois passos para trás, com as mãos para cima, desistindo. Restava só eu e o Benatti – a última dose oscilava, intragável, diante dos nossos olhos embriagados. Não. Não dá, porra. Bati as mãos na mesa, entregando o jogo também.
 
E num impulso estúpido, o nosso corajoso oponente pegou o copo e virou de uma vez. O primo entrou em surto. Comemorando aos berros, com xingamentos nada amigáveis a mim e ao Fer, nos ofendendo, enquanto quase sufocava o Benatti num abraço apertado de bêbado. Os moleques o sacudiam e batiam nas paredes, declarando a vitória. Eu estava tão nauseada que sequer conseguia achar graça naquilo, me virando para o Fer, embrulhada:
 
_Preciso de uma Coca, pelo amor de deus – pedi e ele me abraçou de lado para me levar até o bar.
 
Mas nos perdemos no meio do caminho. E os minutos seguintes foram permeados por náusea e risos e gritos um tanto desnecessários, pelo som alto estourando nossos ouvidos, a pista lotada demais, numa velocidade descomunal dos fatos, merda, nuns flashes bêbados de memória, as batidas graves dos amplificadores, dançando, inebriada, sem nem saber onde estava, tomei metade dum doce, não sei nem de que mão peguei, as luzes pintavam todo mundo de vermelho e preto e um cara pintou a minha cara com uns riscos de guache, completamente fora de mim, me agarrei com uma mina, que em seguida beijou o Fer, os dois se enroscaram contra uma das paredes, as pontas dos meus dedos passeavam soltas pelo ar, uma multidão de corpos se esbarrava, eu cambaleava e me apoiava no Fer, agora sem a garota, e a gente ria muito, de absolutamente nada, isto é, numa sequência confusa, sacudíamos a cabeça e a minha pressão caía, eu esfregava a mão na cara, toda suja de tinta, sentindo um calor desgraçado, eu vou desmaiar, meu estômago se contorcia, beijei mais uma mina, senti a sua boca mordendo a minha e aí, cacete, uns apagões, dançando com os olhos fechados e a boca entreaberta, a cabeça rodando, caí em cima das pessoas, o Fer ria, que horas são, caralho, meus olhos deslizavam pelo teto todo pichado, sem sentir mais meus pés e eu, e-eu...
 
...

junho 07, 2011

Certa conspiração

Então saímos naquela noite. E aí de novo na seguinte e na outra e no sábado também. E na semana que se seguiu, mais uma vez, numa sequência de excessos e privadas abraçadas e ressacas e horários perdidos pela manhã antes do trabalho. Era como nos velhos tempos. Exceto por, é, todas as vezes em que acabei chorando em banheiros imundos ou ao fechar a porta do meu quarto, inferno, no escuro e sozinha, embriagada, longe da visão do meu amigo. Numa solidão que parecia me engolir inteira.
 
Assim que amanhecia, todavia, eu já não sentia mais nada. 
 
Seguia com a minha vida. Que se foda a Mia. E às três da manhã da sexta da outra semana, eu me encontrava no meio do caos da voodoohop, entre uma galera fritando e as bichas seminuas enroladas em panos coloridos pelos quartos daquele prédio abandonado, me envergonhando publicamente na frente de uma sapatona que tinha as mãos mais bonitas que já vi – as mãos e todo o resto. O que infelizmente só reparei tarde demais.
 
_Não, mano... – ela riu e revirou os olhos, indignada – ...cara, cê pegou minha amiga!
_Eu?! – comecei a rir também – Não... não, não... – me aproximei do seu ouvido, mal-intencionada – ...cê tá me confundindo, meu!
_Cê é muito cara-de-pau, velho!
_Mas não fui eu, juro!
 
Mentira.
 
E eu sequer tentava esconder. Estava bêbada demais para fingir que realmente não era culpada, então fazia graça da desgraça e ela ria junto. A festa acontecia numa construção toda detonada, grafitada no centro de São Paulo – a Trackers. A garota estava sentada numa banheira vazia, dessas antigas, com outras três ou quatro pessoas amassadas ali dentro, no meio de um dos muitos quartos daquele inferninho. Me apoiei na beirada e ela subiu os olhos por mim, passando a mão pela lateral raspada da cabeça, sorrindo perigosamente.
 
_Me fala seu nome – pedi.
 
E ela balançou a cabeça, se divertindo com a minha falta de vergonha na cara. Já tinha me perdido do Fer há uns bons quarenta minutos, mais ou menos por volta do fatídico momento em que me atraquei com a tal amiga num daqueles corredores estreitos. Agora pagava a porra do preço. A beirada da banheira batia no meu joelho. Pulei e me enfiei ao seu lado, ouvindo resmungos das outras pessoas ali, me forçando a caber entre elas – num espaço onde não deviam estar mais de três. O meu ombro colou no da sapatão do moicano, apertadas uma contra a outra, e coloquei os meus coturnos por cima dos seus na borda. Nossas pernas se erguiam frente aos nossos corpos, afundadas ali.
 
_Oi.
_E aí... – ela riu.
_Cê não vai me dar bola mesmo?
_Não... – me torturou, com aquele sorriso desgraçado, tinha a franja bagunçada na cara e só metade da regata branca enfiada na calça – ...só um pouquinho.
_Olha, eu acho... – argumentei no seu ouvido – ...que cês nem são tão amigas assim.
_Ah, é?! – ela achava graça, se desviando das minhas intenções – ...hum, vai lá perguntar pra ela se sou ou não.
_Não.
_Não?
_Não, tô bem aqui... – pisquei na sua direção, rindo também.
 
É. Metade do meu mérito nesta vida devo à minha cara de pau.
 
E eu sabia quando ia conseguir. Ela sorriu de leve e eu podia ver nos seus olhos, no jeito como as suas mãos subiam pelos rasgos na minha skinny até o joelho. Aquelas mãos. Como se os seus dedos passeassem pela ideia, contornando a possibilidade. Mas a amiga continuava inconscientemente entre nós. O som dos amplificadores reverberava nas paredes rabiscadas da balada. Cheguei perto de novo, olhando-a nos olhos, sem valer um centavo, e ela colocou a pontinha da língua entre os dentes. Cacete. Num quase beijo, espremidas uma na outra naquela banheira empoeirada.
 
_Cê não faz ideia de como eu tô me sentindo idiota... – confessei – Puta merda.
_Olha, ninguém mandou chegar tarde...
_Pois é. Mas, me fala... – fui me aproximando da sua boca, imprestável – ...se sua amiga não tivesse aí...
 
De repente, senti um tapão no meu coturno. Ergui os olhos e o Fer estava parado em pé, rindo de mim.
 
_PORRA, TAVA TE PROCURANDO!
 
Esticou a mão por cima das minhas pernas, como se fosse para eu levantar.
 
Não fode.
 
_Vem, mano... – deu dois tapas na minha perna e estendeu o braço de novo, insistindo – Vamos começar!
_Cara, não, me dá cinco minutos.
_Não, velho, vem e depois cê volta!
_Fer, cinco minutos... – repeti, discretamente fazendo um movimento rápido com o olhar na direção da garota – ...espera cinco minutos, porra!
_Não, mano. Vambora! – me puxou contra a minha vontade – Os caras tão esperando, vem!
_Fer...
_Quê?! – resmungou, enquanto me puxava pela mão e eu tropeçava para fora da banheira – Cê fica agitando as coisas e depois some, caralho?!
 
Mas o cara tem a manha mesmo, né, pensei, imediatamente amarga, de empatar todas as minas que eu quero.
 
_Mano... – me virei para a garota, conforme o Fer me arrastava na direção do bar – ...não some. Fica aí, meu! Eu vou voltar!

junho 01, 2011

359º

O vento passava por entre as folhas das árvores, as copas altas, numa praça nas redondezas do Hospital Samaritano. A dois quarteirões da casa da Mia. Subi em cima da mureta e sentei ali, com os pés suspensos no ar. Já estava escuro, tinha pouco movimento. Desabotoei a camisa e fiquei só com a regata que estava usando por baixo, alcançando um baseado no fundo do maço e o isqueiro. A verdade é que estava ventando demais para ficar só de regata, mas as mangas estavam me incomodando nos braços.
 
Cortei a pontinha torcida do baseado, a puxando com os dedos e jogando para o lado. Aí acendi. A minha cabeça estava vazia – e calma, de uma forma estranha. Dei um trago, segurando a fumaça por algum tempo antes de soltar no ar. Um casal passou, me notando. Com certo desprezo. E dei mais um trago, os encarando de volta. Esperei se afastarem, mais adiante na calçada, antes de apoiar os antebraços nas pernas. Sentia como se nada acontecesse ou fosse acontecer. Que dia. Traguei mais uma vez e minha visão divagou entre as árvores, os blocos da calçada, sem pensamentos concretos. A Mia estava lá, eu sabia, dentro de mim – podia senti-la. Em algum lugar, submersa. Mas eu não a trazia para a superfície. Como um sussurro que eu não fazia questão de ouvir agora, exausta de tanto sentir, de tanto chorar pela mesma merda. 
 
Pulei da mureta para o chão e me ocupei com os meus passos, enquanto fumava o baseado Higienópolis afora. Decidi voltar a pé para casa. E era uma longa caminhada. Me sentia estranha, deslocada de mim mesma. Atravessei o bairro todo até a Consolação e fui indo, prestando atenção em qualquer coisa que passasse diante dos meus olhos. Postes. Lambes. Carros. Pixos. Até chegar na Roosevelt, num desvio inconsciente. Então sentei ali por algum tempo, observando uns moleques andando de skate. Digitei uma mensagem para a Marina, me desculpando por como eu andava agindo nas últimas semanas meses anos.
 
E aí levantei, caminhando o trecho restante até a Frei Caneca.
 
Cheguei no prédio e fui direto para o elevador. O Fer estava na sala, largado no sofá, assistindo um jogo do Corinthians na televisão. Duas latinhas de cerveja vazias descansavam na mesinha de centro. Deixei as minhas chaves e o celular numa estante perto da entrada, e me juntei a ele. Não disse nada, apenas sentei ali. Coloquei os pés sobre a mesinha, me afundando no encosto, e prestei atenção no jogo. Já estava nos vinte e tantos minutos do segundo tempo, 2 x 0. Meus olhos acompanhavam a tela mesmo sem saber muito de futebol – o que, no meio sapatão, era uma ofensa quase pior do que não acreditar em astrologia.
 
De tempos em tempos, o Fer xingava a TV, entretido. E me oferecia a sua terceira cerveja aberta – senti uma trégua entre nós, um tanto inesperada. Há tempos não o via assim. Como se não fosse mais um empecilho, acho. Apenas meu amigo. Nos sentamos juntos ali até o fim do jogo. 4 x 0. Deixei a lata vazia sobre a mesa e o Fer continuou vendo a televisão, à toa. Sem interesse. Observei-o por alguns segundos, largado ao meu lado numa camiseta branca tão velha que já estava cinza, se entediando até a morte naquele sofá.
 
_Ei... – disse, sem pensar muito – ...vamos sair?
_Quê?! – ele riu, estranhando, e se espreguiçou contra o encosto – Hoje?!
_É.
_Cê tá falando sério?
_Por que não, porra? Não é como se a gente tivesse alguma coisa melhor pra fazer... – argumentei, afundada contra o encosto – ...puta tempo que não saímos eu e você, meu.
_Mas pra onde?
_Sei lá, mano, qualquer lugar com bebida... – respondi e estiquei o braço para pegar o seu maço sobre a mesa, roubando um cigarro – ...vamos?
 
Ele achou graça.
 
_Demorou.

Você está saindo da minha vida

...

E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu

Só por hoje não quero mais te ver
Só por hoje não vou tomar minha dose de você
Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam
E essa abstinência, uma hora
Vai passar

(Pitty)

maio 27, 2011

180''

_E então...?
 
A Mia me encarou, impaciente. Merda. Não vou conseguir. Ela tinha os braços cruzados, em pé na minha frente. Sequer pareciam os mesmos braços que me abraçaram semanas antes. Sua boca já não era a mesma, o seu corpo parecia não me conhecer mais. E por um instante, a observando ali, naquele moletom largo e uns fios de cabelo se soltando dum rabo frouxo, a pintinha sob o seu olho, me observando de volta, me ocorreu que eu nunca tinha amado ninguém daquele jeito. Com todo meu coração. E eu, eu estava cansada.
 
_Olha, e-eu... sei o que cê tá pensando... mas as... as últimas semanas não... não foram... – ela começou a se enrolar numa desculpa não solicitada – ...não é... como se...
_Mia, na boa... – a interrompi – ...para.
 
Ela me olhou, sua desculpa suspensa. Agia como se não fôssemos eu e ela, a uma distância estranha de si mesma. E aquilo me irritava. Ainda assim a sua presença ainda me amolecia, tirando a força dos meus joelhos, a coragem da minha voz. Cacete. Mas eu tentava, insistia, me forçando a parecer mais forte do que eu realmente era naquele momento – ao mesmo tempo feliz por estar perto dela de novo e com uma dor desgraçada no coração, dividida entre sentimentos confusos. As palavras sumiam de mim e eu restava, hesitante. 
 
Não. Eu, e-eu preciso fazer isso. 
 
Engoli seco e voltei a falar:
 
_Escuta, é simples. Você sente alguma coisa por mim?
_...
_Sente, Mia?!
_Eu... – abaixou o olhar para o chão, respirando fundo – ...não sei, e-eu...
_Não amor, Mia – a cortei – Qualquer... q-qualquer coisa, porra. Sente? – a observava, com um nó no estômago – Já sentiu?!
 
Ela reergueu o rosto. Podia ver os seus olhos formarem um “sim” machucado – as sobrancelhas franzidas, consternadas. Me observando de volta, apenas me olhando, em pé na sua frente. Fica comigo, garota, meu coração imploravaE as lágrimas já começavam a apertar a minha garganta. Não foge disso. Da gente. Tinha vontade de a alcançar, de a beijar mais uma vez. Mas me continha. Incerta se era só eu que imaginava, que via o que queria nos seus olhos. Pelo amor de deus, fala. Diz que foi real. A sua boca continuava em silêncio, na mesma covardia de todos aqueles dias. Se omitindo de nós duas. Fiz um gesto com as mãos, como se repetisse a pergunta.
 
_Você... v-você tem que entender, e-eu... – ela deu um passo para trás – ...eu amo ele.
_Tá bom, Mia.
 
Balancei a cabeça, não preciso ouvir essa merda. E me virei para ir embora.
 
_Espera! – ela me segurou pela mão – É só isso?!
_Mia... – senti o meu coração endurecer – ...e-ele, ele não tá nem aí para você! O Fer, porra, e-ele não te quer, ELE NÃO TÁ NEM AÍ! EU... – me frustrei – ...EU TÔ AQUI, INFERNO!
_É que... – ela suspirou, confusa – ...n-não sei, e-eu...
_Me escuta, por favor... – me aproximei dela, pressionando sua mão contra o meu coração – ...eu quero ficar com você, eu... e-eu amo você, Mia. E eu quero ficar do seu lado, porra! Eu... – encostei a testa na sua, fechando os olhos por um instante – ...quero tudo. Todas as noites sem dormir e as horas conversando no chão do seu quarto, as tatuagens ruins, os beijos, as músicas roubadas. Me diz que não sou só eu, porra. O que a gente tem é tão bom, você sabe que é. E eu sei que as coisas tão uma merda agora, mas eu espero, inferno! O tempo que for. É só você falar que eu espero. Eu quero fazer a gente dar certo.
_...
_Mia... por favor.
_E-eu, desculpa... – os seus olhos marejados encontraram os meus, quase como quem se despede – ...e-eu preciso tentar com ele.
 
Minha expressão mudou. E eu a senti diminuir dentro de mim.
 
_Então, você vai perder nós dois... – respirei fundo, enxugando o rosto de qualquer jeito – ...na boa, não vale a dor de cabeça. Não mais.
 
Dei um passo para trás e me virei, me afastando antes que o meu coração partisse na sua frente. Não tem nada para mim aqui. Não queria exceder os dois minutos que tinha prometido – pra ela e pra mim mesma. Não ia mais arrastar aquela merda. E sim, podia ter falado mais. Ter repetido o quanto a amava, de novo e de novo, me declarado cem vezes, me humilhando, implorando, podia ter apelado, exposto a traição do Fer, dito que ele já estava com outra. Mas não importava mais. Você, eu. Ele. Todos nós nos traímos, de um jeito ou de outro. E agora tinha acabado. Finalmente, tinha acabado.
 
E eu... não sentia porra nenhuma.

maio 18, 2011

As reticências

Na quarta-feira, a garota voltou. Dei de cara com a dita cuja de manhã na cozinha, quando estava saindo para o trabalho, e presumi ser a mesma de uns dias antes. Estava com as pernas de fora num camisetão do Fer e os pés descalços, distraída, observando as fotos presas por ímãs na nossa geladeira. As imagens já começavam a desbotar. Bagunçado, o seu cabelo castanho batia na altura do ombro. Tinha tatuagens por todo o corpo e dois alargadores enormes – bem maiores do que os da Mia. Tinha cara de body piercer ou sei lá, algo que combinasse com aquele visual. Assim que entrei pela porta, ela se virou e me cumprimentou, meio sem jeito. Deve achar que sou uma louca que fica gritando com o Fer no corredor, pensei.
 
Comentei que ia fazer café e perguntei seu nome, tentando ser simpática. “Helena”. Alguns minutos depois, o Fer apareceu na cozinha e a beijou brevemente contra a porta da geladeira. Fiquei olhando os dois enquanto terminava de passar o café na pia. Não sabia onde ele havia arrumado aquela garota, tampouco me importava muito. Passaram mais tempo dentro do quarto do Fer do que pela casa. E ela até parecia gente boa – só não sei como não percebia as intenções do meu amigo.
 
Meu bem, lamentei, você é o step.
 
Acabei a minha xícara e saí de casa, sem intenção de voltar tão cedo. De hoje não passa. Tinha passado a madrugada toda fumando um cigarro atrás do outro, angustiada, sentada sozinha no meu quarto – pensando na Mia e na minha tendência estúpida de machucar todo mundo à minha volta. Ela, a Marina, o Fer. Argh. Acordei de saco cheio de mim mesma, do meu sofrimento arrastado, eu não aguentava mais me sentir daquele jeito. Algo precisava mudar.
 
Fui para o trabalho e esperei o dia se arrastar, entre uma mensagem e outra para a Mia, sendo ignorada. E assim que deu seis da tarde, subi num ônibus para Higienópolis. Assisti as ruas passarem, naquela lentidão do engarrafamento paulistano, até as redondezas do prédio da Mia. Quando cheguei no portão, uma madame estava saindo com um cachorro na coleira. Aproveitei para entrar. “Você vai lá na Mia, num é?”, o porteiro sorriu, me reconhecendo. Pediu para esperar ali, ao lado da guarita, enquanto confirmava se eu podia subir.
 
_Tudo bem, senhora, sim, eu aviso – ouvi ele dizer e imediatamente soube que ela não ia descer – Está bem, está bem. Sem problemas.
 
Nem a pau.
 
_Dá aqui, deixa eu falar eu com ela... – peguei o interfone da mão dele, grosseiramente – ...Mia?!
_...
_Mia!
_Oi...
_Olha, eu não vou fazer uma ceninha. Só quero falar com você, mano!
_E-eu não tô bem, eu... – murmurou baixinho, do outro lado – ...por favor, n...
_Que custa, porra?! – a cortei – Dois minutos e eu vou embora, prometo. Já vim até aqui, pô... Desce aí!
_... – suspirou – Tá.
 
Estiquei o interfone de volta para o porteiro, que agora já não sorria mais para mim, resmungando que eu podia ter causado um problema para ele. Tentei me desculpar e fui expulsa da guarita. Cacete. Só faço merda. Esperei por longos quinze minutos com os antebraços apoiados na grade do jardim do prédio, fumando um cigarro. Cheguei a pensar que ela não viria. Mas então ouvi seus passos atrás de mim, me virei.
 
Ela estava maravilhosa – inferno.
 
Senti como se eu não a visse há meses. Por tempo demais. Dei um último trago, jogando a bituca no chão. Os meus olhos agora fixos nela. Estava num moletom cinza, desses de ficar em casa, com cara de quem também tinha passado aquelas últimas semanas chorando; o esmalte preto já descascado nas unhas roídas, as olheiras fundas, provavelmente sem qualquer intenção de estar bonita. Mas estava, puta merda.

maio 17, 2011

Ou ama?

E-eu... preciso dar um jeito de falar com a Mia.

maio 16, 2011

O ponto final

A linha incandescente de brasa se aproximava do filtro do cigarro. Por favor, vai embora, desejei. Mas a Marina continuava lá. Paciente, me olhando com um carinho que eu não merecia. Dei um último trago, observando a brasa se acender ainda mais brilhante, e então amassei o cigarro contra o parapeito, o jogando janela afora. Me virei e apoiei contra a parede, a Marina estava na minha cama.
 
_Senta aqui...
 
Ela pediu, me olhando de volta com o seu par de olhos castanhos bem-intencionados – por detrás dos seus óculos pretinhos de aro fino. Não me movi, apenas a encarei por alguns segundos.
 
_Deixa de ser criança... – ela inclinou a cabeça, em desaprovação – ...larga a mão e vem logo aqui, meu.
 
Respirei fundo, sem muita paciência, e descruzei os braços, me sentando ao seu lado. Argh. Por mais que a Marina tivesse certa habilidade de colocar os meus pensamentos no lugar, tem vezes que a única coisa que se quer é não fazer sentido algum. Sair por aí, irracional, com as emoções desenfreadas. Doa a quem doer – e via de regra, era a mim que doía. Mas eu queria, puta merda, queria que doesse. Que me machucasse. Queria sentir cada miligrama daquele sofrimento, me afundar em cada segundo de dor, e que se foda. Olhei para a Marina à minha frente.
 
E é – esta era, definitivamente, uma dessas vezes.
 
_Fala, vai.
_Se comportar assim não vai ajudar – ela se ofendeu pelo meu tom.
_Má, não tô afim de ouvir bronca, meu...
_Não é bronca – ela me cortou – Mas você precisa querer ser ajudada, sair desse buraco, cê sabe que eu não gosto de te ver assim. Eu quero você feliz...
_Feliz como, porra?! – balancei a cabeça, como se me pedisse o impossível – Eu tô na merda, Má.
 
Dobrei as pernas em frente ao corpo, com os pés descalços sobre a cama, e me afundei contra a cabeceira. Então os meus olhos se depararam com o pequeno raio tatuado acima do meu joelho. Olhei as suas linhas tortas e senti falta delainferno. Num incômodo que brotava doído no meu peito e ia contaminando cada pedacinho de carne dentro de mim, naquela mesma tristeza sobre a qual eu não conseguia podia devia aguentava mais falar.
 
_Ela precisa me perdoar, Má – passei a mão no rosto, angustiada – Precisa.
_Te perdoar pelo quê, flor? – a Marina apoiou a mão sobre meu joelho e os seus dedos acidentalmente cobriram a tatuagem – O que você acha que fez de tão errado pra Mia, meu? Por que você tá se culpando tanto?
_Sei lá, eu... e-eu pressionei ela... foi... informação demais... na hora errada, eu... e-eu devia ter esperado, eu... – respirei fundo, me frustrando – ...eu não sei, Má, eu... eu fiz as coisas errado. Eu, e-eu não devia ter falado daquele jeito e não devia ter saído com a porra da Isa, não devia ter ligado pra ela de manhã, n...
_Espera – a Marina interrompeu – Quem é Isa?
_N-não, ninguém... – resmunguei, sem querer falar a respeito – ...o ponto é que eu fiz merda. E não devia ter feito. Não devia ter desligado a droga do telefone hoje, eu devia ter atendido, porra, enquanto ela... e-ela ainda queria falar comigo, mas... esse meu... orgulho de merda... – suspirei – ...eu não atendi a porcaria do telefone quando ela me ligou, Marina! Não atendi e agora quem não me responde é ela! Puta, mano, que ódio – me desesperei – Por que eu não atendi, inferno? Agora a Mia vai cair na real e... e ficar aí... achando que a opção dela é a porra do Fernando! Ela não vai mais me perdoar!
_Mas, linda, você não pode forçar ninguém a te amar de volta. As pessoas não escolhem o que sentir. Não vai acontecer a não ser que, por si só, a Mia veja você como uma opção para a vida dela, meu... Cê não fez nada errado! Esquece a Mia um pouco... Deixa ela ir atrás do que quer, deixa ela quebrar a cara, tomar as próprias decisões. Não depende mais de você.
_Não dá. Não dá, Má... Eu... e-eu não aguento... – a minha cabeça doía só de pensar – Eu... – comecei a sentir vontade de chorar de novo – ...eu amo ela demais. Demais. E não é só isso... Cê não entende! Eu sei que ela tá na merda também! O que cê faria, porra?! Se soubesse que a pessoa que você ama tá sofrendo, tá mal pra caralho?!? E eu não posso fazer nada! Não posso falar com ela, não posso estar com ela, cacete. Não. Não dá. Eu não consigo deixar pra lá, não fazer nada...
_Tá. E... – a Marina hesitou – ...e o que a Mia está fazendo por você?! Você não está sofrendo também??
_É diferente.
_Diferente como?!
_É diferente, caralho – me irritei – Não é a mesma coisa, porque a Mia não me am...
 
Segurei as minhas palavras, de repente, antes que se tornassem reais. A Marina ficou me encarando, à espera da conclusão – mas, droga. Aquela era uma frase eu não conseguia terminar.

maio 09, 2011

Intervenção

_Você tá com uma cara péssima.
_Não enche, Marina.
_Desculpa, mas alguém precisa te dizer isso... – foi entrando no meu quarto, sem que eu a convidasse – ...e você tava dormindo?! A essa hora??
 
É. “Estava” é a palavra-chave.
 
_O que cê tá fazendo aqui, meu?! – resmunguei deitada na cama, enfiando a cara no travesseiro, enquanto ela abria a janela.
_Eu vim salvar de você mesma.
_Deixa de ser ridícula, mano.
_Eu?! Olha, cê me desculpa, mas a ridícula nesse quarto é outra... – ela me observou, irônica, e eu revirei os olhos.
_Eu não preciso ser “salva”, Marina.
_Não?! E quando foi a última vez que você saiu?
_Ontem. E eu já me arrependi – levantei da cama, meu cabelo cheirando a cinzeiro, argh – Quem te deixou entrar, afinal? O Fer?
 
A Marina não respondeu, com metade do corpo já dentro do meu armário, vasculhando a pilha bagunçada de roupas que se acumulava sobre as gavetas. Fiquei parada em pé, numa camiseta desbotada dos Strokes e com a mesma cueca que estava usando no meu encontro fracassado da noite anterior, sem vontade alguma de socializar com a porra da minha ex naquele momento. Inferno. Eu odiava as “intervenções” da Marina – na época em que a gente namorava, ela costumava invadir a minha casa contra a minha vontade, no meio da tarde, para “salvar” o nosso relacionamento das nossas muitas brigas. Era sempre assim e, uma hora ou outra, eu cedia.
 
Naquela tarde, no entanto, eu não estava com saco para aquilo.
 
_Tem alguma coisa aqui que esteja passada?! – ela disse, falando sozinha, enquanto mexia no bolo de tecido.
_Sei lá – murmurei – Preciso mijar...
 
Larguei a Marina ali e arrastei os pés até o banheiro. Sentei na privada, sem me dar ao trabalho de fechar a porta, e descansei os olhos enquanto fazia xixi. Estava exausta. Minha cabeça doía, o meu corpo todo doía depois de me espremer com a Isa no banco de trás de um Gol velho por meia hora e andar quatro quilômetros até em casa, bêbada. Argh. Dei descarga e encarei os tons arroxeados, cansados, que se camuflavam sob a pele ao redor dos meus olhos. Destruída, em frente ao espelho do banheiro, dei o braço a torcer. É, tô com uma cara péssima mesmo.
 
_Ah, não. Nem pensar!
_Só veste logo!
_Meu, eu não... – me joguei na cama, por cima das roupas que ela tinha separado e ajeitado ali – ...n-não vou pra lugar nenhum.
_Ah... você vai, sim! – a Marina me puxou pela mão – Vem! A gente pode só ir jantar rapidinho...
_Má, por favor... – choraminguei, exausta, passando as mãos no rosto.
_Você não tem escolha – continuou, começando a me irritar.
_Marina, é sério, vai. Eu não quero.
_Não tô perguntando.
_Má... – sentei na cama e a encarei nos olhos para ver se ela entendia – ...para. Me deixa em paz.
_E qual é a alternativa?! – ela retrucou, levantando a voz – Me diz! Vai ficar aqui sentindo pena de você mesma?!
_Ninguém tá sentindo pena de ninguém! – a cortei, indignada – E outra: eu tô pedindo ajuda por um acaso?! Hein?! Te disse alguma coisa esses dias? Fui lá chorar no seu ouvido?? Fui?!? – levantei da cama, me estressando – Não, não fui! Não fui, Marina! Então não me enche, porra!
 
Desgraça. Não aguentava mais ficar brigando com todo mundo, o tempo todo.
 
_E precisa?! – a minha ex reclamou, insistente – Faz DUAS SEMANAS que a única coisa que eu escuto é “ah, não tô afim”, “ah, sei lá”, “fui no estúdio, já jantei”, “ah, deixa pra lá”...
_E cê quer que eu fale O QUÊ, PORRA?!?
_QUALQUER COISA! ME LIGA!! CONVERSA!! FALA COMO VOCÊ TÁ! ME DIZ O QUE TÁ ACONTECENDO! DAQUI A POUCO VAI FAZER UM MÊS E VOCÊ CONTINUA AÍ, NA MERDA!
_PROBLEMA MEU, MANO! O QUE VOCÊ TEM A VER COM ISSO??
_Linda, pelo amor de deus – baixou o tom, tentando mudar o rumo da discussão – Por favor, não faz assim. Eu tô preocupada com você.
_Eu tô bem, Marina... – balancei a cabeça, respirando fundo – ...eu só preciso de um tempo.
_Meu amor, as coisas não vão se resolver se você...
_Já disse que tô bem, porra! – a interrompi.
_Flor, pelo amor de deus, cê sabe que não é verdade – insistiu, segurando na minha mão – Você acha que isso é vida?! Ficar assim por causa de uma garota que...
_Eu tô bem! EU... ESTOU... BEM! – a cortei de novo e soltei a minha mão da dela, irritada – Quer que eu repita? Não tem nada rolando, caralho!! Eu tô bem!
_Mas você não tá! VOCÊ SABE QUE NÃO TÁ!!
_E VOCÊ QUER QUE EU DIGA O QUÊ, CACETE?!? – gritei com ela – HEIN?!?
_Calma.
_CALMA NADA! VOCÊ NÃO SABE COMO É!! O QUE DIABOS VOCÊ FARIA NO MEU LUGAR, CARALHO?! SE FALASSE PRA UMA MINA QUE AMA ELA E... E, E A GAROTA SIMPLESMENTE SUMISSE DA SUA VIDA?? NÃO TE RESPONDESSE?? SE VOCÊ FICASSE LÁ SE HUMILHANDO, PORRA?! MANDANDO MENSAGEM? LIGANDO?! SENDO IGNORADA?! VOCÊ QUER QUE EU DIGA O QUÊ?!? QUE EU NÃO TÔ BEM, CARALHO?! QUE EU TÔ MAL? QUE EU TÔ SOFRENDO?! QUE EU NÃO CONSIGO PARAR DE PENSAR NELA?? NESSA MERDA TODA?!? É LÓGICO QUE EU NÃO TÔ BEM, CARALHO!! – fui aumentando a voz – PRECISA VIR AQUI E ME ENCHER SACO?!? EU NÃO QUERO SAIR! EU NÃO TÔ AFIM! ME DEIXA, PORRA!!
_É ISSO! É SÓ ISSO QUE EU QUERO OUVIR!! A VERDADE!!
_A VERDADE NÃO FAZ EU ME SENTIR MELHOR!!!!
 
Dei dois passos e bati a porta, nos fechando ali antes que o Fer escutasse a discussão e deduzisse de quem eu estava falando. Me sentia um lixo, por dentro e por fora. Um lixo.
 
_Mas, linda, pelo menos você está falando. Isso já ajuda, voc...
_E que diferença faz?!? – me irritei com as suas palavras amenas – Eu continuo aqui, porra, enfiada nessa merda desse apartamento sozinha, SEM ELA! NÃO FAZ NEM UM MÊS QUE A GENTE TAVA AÍ SE VENDO, CACETE, ELA TAVA ME PROCURANDO, ME QUERENDO, DEPOIS DE TANTO TEMPO!! A GENTE TAVA BEM!!! E DE REPENTE, EU CAGO TUDO E ELA VAI EMBORA, ME IGNORA, FICA ATRÁS DO FERNANDO O DIA TODO, LIGA QUINZE VEZES POR DIA, ELES SÓ BRIGAM E NINGUÉM MAIS SE FALA NESSA PORRA DESSE APARTAMENTO, MINHA RELAÇÃO COM O MEU MELHOR AMIGO TÁ UM LIXO... E EU... EU... – comecei a me sentir sufocada – ...EU SINTO FALTA DELA, E-EU... EU SINTO TANTA, TANTA FALTA DELA!! PUTA, MANO! MAS QUE INFERNO!!
 
Enxuguei o rosto de qualquer jeito com as costas das mãos e andei até a porcaria da janela. Eu não aguento mais. Não aguento mais. Abri a janela e tirei o maço do bolso, ainda com raiva. Coloquei um cigarro na boca e o acendi. Primeira tragada e a Marina continuava lá, parada, me observando com um olhar de pena insuportável.
 
Maldição.