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agosto 13, 2011

Passatempo

E lá pelo último terço do baseado, morrendo de calor, digamos... nós ficamos entediadas.

Baixa Augusta

Bati a porta do apartamento e caminhei até o elevador, sem olhar para trás, alcançando os fones no meu bolso. Procurei qualquer coisa para ouvir no meu iPod velho, que comprei do Gui. Bowie? L7? Arctic Monkeys? Isso. Antes que desse por mim, já estava na rua e o Alex Turner cantava nos meus ouvidos. Desci a Augusta quase inteira e o corre foi tranquilo. Pouco depois das quatro e meia e eu já me encontrava completamente desocupada.
 
Tá. E agora, o quê?
 
Não queria ficar andando pelos cantos com uma paranga no bolso, não é mesmo, mas também não fazia questão de voltar para o apê e ver a cara da Mia. Então mandei uma mensagem para a Thaís e colei lá. Salve, salve. A porta do seu apartamento estava destrancada quando cheguei. Assim que abri, fui recepcionada aos pulos pelo Bruce, que quase me derrubou no chão naquela animação vira-lata.
 
Minha amiga estava largada no piso, em frente ao sofá, tomando uma cerveja e assistindo “Pingu” na TV. Era até engraçado ver uma caminhão daquele tamanho, cheia das tatuagens, se entretendo com um pinguim de massinha que fica gritando “NÚT-NÚT”. Me juntei a ela no chão e nos atualizamos das últimas novidades – que, no meu caso, se resumia à audácia da Mia meia hora antes.
 
_Nem sei. Na boa, não sei mesmo... – comentei, depois de contar toda a história, deitando de costas no chão da sala enquanto a Thaís enrolava um do meu lado – Não entendo qual é a dela, meu...
_Ah, ela quer atenção... – a Thaís riu, lambendo a seda em seguida – ...é isso.
_É, né, agora que não tem mais...
_Foda, velho... Sem noção essa mina aí... – colocou o baseado entre os lábios e o acendeu, dando um trago – ...meu, vir com esses papinhos aí depois de te dar o maior fora?! Nem a pau. Num vem querer ser amiguinha, não!
 
Pois é. Dobrei um dos meus braços atrás da cabeça, apoiada no piso de madeira, e encarei a faixa de luz que o entardecer projetava da janela até o teto.
 
_Ei, e deixa eu te falar... – me chamou, passando o baseado – ...falei com aquela minha amiga lá, a Renata.
_Ah! E aí?!
_Ela disse que tá rolando ainda lá, passei seu número. Deve te ligar essa semana...
_Sério?! – sorri, empolgada, equilibrando o baseado na boca – Porra, que massa!
_É. Mas agora vê se num me faz passar vergonha, hein, meu, falei mil maravilhas de você, a Rê ficou animada pra caralho. Num me vai cagar na entrevista...
_Cala a boca, trouxa! – traguei demoradamente e ri – Claro que não, vou fazer certinho. Porra, valeu mesmo...
 
Fiquei feliz. Aquilo me dava novas perspectivas, não sei – fazia tempo que não me sentia assim. Uns dias antes a Thaís tinha comentado sobre uma amiga que trabalhava numa produtora quase só de minas na Brigadeiro e que estava com vaga para assistente de produção. Não era exatamente o que eu fazia, mas pagava bem mais – e né, eu já estava de saco cheio de ficar rodeada de fotógrafo escroto o dia todo, organizando álbum de casamento e fazendo corre de produção pruns shoot de formatura, credo. Tédio mortal.
 
Bati o baseado num cinzeiro no chão, com esperança de conseguir sair do estúdio. Já era fim de fevereiro e o ventilador do apartamento da Thaís movimentava o ar quente inutilmente, de um lado para outro. A cidade inteira parecia estar enfiada numa porra dum microondas. Cacete. A Thaís resmungou do calor, tirando a camiseta. Ficou só de cueca e passou a camiseta na testa e na nuca, secando o suor. Faltava uma semana pro Carnaval.
 
_Meu, e cê já decidiu se vai no rolê da Lê semana que vem?
_Se pá vou... – pegou o baseado de volta e tragou mais uma vez, apoiando a cabeça no sofá atrás de nós, com os peitos suados – ...preciso ver se a grana vai dar, janeiro foi fraco. Ninguém tatua no começo do ano, meu.
_Velho, não, cê tem que ir. Sério! – implorei – Cê não pode me largar sozinha com a Marina e a porra da Bia num carro por sei lá quantas horas, mano. Puta morte lenta e horrível.
 
A Thaís soltou a fumaça no ar e riu, achando graça do meu drama.
 
Vai rindo, vai, desgraça.

agosto 11, 2011

3 Little Words

_Posso sentar aí?
 
A ouvi falar baixinho, andando na direção de onde eu estava no sofá, calçando meus All Stars. Lá vem... Uma indisposição imensa de estar perto dela me incomodou. Ainda assim, me movi um pouco para o lado, por educação, liberando espaço para ela se sentar. Peguei o outro tênis no chão e comecei a amarrar o cadarço, apoiando o pé sobre a mesinha de centro.
 
_E-eu...
 
Ela ia começar algo, mas parou. Você...? Nada. Os seus olhos me observavam, hesitantes, subitamente quieta. Sua comida não vai queimar no fogo, não?, me irritei com aquele silêncio, desejando que alguma fumaça saísse da cozinha e me resgatasse daquela situação. O Fer tinha acabado de ligar o chuveiro – ninguém ia me salvar. Mantive os meus olhos nos cadarços, já quase terminando de amarrá-los, mas senti que ela ainda queria me dizer algo.
 
_O que é?! – a questionei.
_Escuta, a, a gente... – ela suspirou – ...a gente n-não precisa ficar assim.
_Assim como?
 
Só então voltei os meus olhos para ela, ao meu lado.
 
_Olha, eu... e-eu não quero que você, sabe... – falou, baixinho – ...me odeie pra sempre.
_Eu não te odeio... – respondi, sem interesse nenhum no que estava me dizendo, e peguei um cigarro à minha frente, largando o maço de qualquer jeito na mesinha de centro.
 
A Mia ficou me olhando, com certo pesar, enquanto eu acendia o cigarro. Às vezes, acho, magoo as pessoas sem nem querer. Mas, né, dane-se. Naquele momento, eu estava mais interessada em fazer a minha brasa pegar por igual do que em prosseguir naquele papinho dela.
 
_Então, cê não tá... – murmurou, confusa – ...sei lá, incomodada... comigo aqui? Eu achei qu...
_Não... – traguei lentamente – ...a vida é sua, Mia.
_Tá. Mas você não acha que o clima tá m-meio estr...
_Sei lá. Se cê acha... – continuei, a interrompendo.
_Bom, é meio óbvio... Não?! – mudou o tom, ligeiramente ofendida pela minha atitude – Sabe, eu... e-eu venho aqui e a gente nem se fala, meu! Parece que nem te conheço. E... E é, é que, é você. Porra... e-eu, eu não queria que as coisas acabassem assim, mesmo que a gente não ten...
_Tá bom – a cortei, de novo – E o que você quer?
_Eu s...
_Cê quer que eu seja sua amiga, é isso?
_N-não, eu só... – respirou fundo, frustrada – ...e-eu... – abaixou a cabeça por um instante e aí ergueu os olhos até os meus – ...sim. Quero.
 
Me encarava como se aquilo pudesse resolver todos os seus problemas. Bem consigo mesma, sabe, como se eu fosse a última peça a ser encaixada na sua vida. Tinha uma das pernas sobre o sofá e a outra para frente, apoiando a ponta do pé descalço no chão. Olhei-a por alguns segundos, sentada ali ao meu lado, com os fios castanhos quase encostando sobre a coxa tatuada, e traguei mais uma vez antes de me levantar.
 
_Não.

julho 29, 2011

Mau presságio

Passei pelos dois no corredor e fui até o quarto do Fer, de saco cheio. Vasculhei seu armário, procurando a caixa em que ele guardava sua reserva de dinheiro do mês. Normalmente a colocava ali em cima, mas desta vez eu não estava encontrando. E antes que me acusem de estar fazendo ceninha – não, não era como se eu estivesse brava com a Mia. Dane-se a Mia. Eu estava pouco me fodendo para ela. O que me incomodava era ainda me ver em situações como aquela, sentia uma indisposição desgraçada de ficar por perto.
 
Não acho a droga da caixa. Fechei a porta do armário e o Fer apareceu na porta.
 
_Meu, cadê sua grana?
_Na gaveta... – ele murmurou, apoiado no batente – ...tá aí do lado. Pra quê cê quer?
_Vou fazer um corre... – disse, me curvando sobre a cômoda – ...eu paguei tudo na última.
_Tá. Mas pega lá embaixo, viu, não vai aqui em cima que o cara tá vendendo tudo zoado essas últimas... – reclamou, coçando um dos braços – ...e ô, cê não quer comer aí com a gente antes?
_Não, tô de boa.
 
Balancei a cabeça, enquanto vasculhava suas gavetas com toda aquela minha delicadeza – fazendo um baita barulho. O Fer ficou me olhando revirar ainda mais o caos do seu quarto. Assim que encontrei a porra da caixa, me perguntou se o dinheiro dava, se certificando de que estava tudo certo antes de ir tomar um banho rápido. “Tá, sim, vai lá”. Contei as notas e as coloquei no bolso, atravessando o corredor de volta para a sala. A Mia continuava no mesmo lugar que 5 minutos antes, me olhando passar.
 
Que seja. Ela podia me olhar o quanto quisesse. Eu não estava nem aí. A real é que nos últimos dois ou três meses eu sequer pensei na Mia. E mesmo quando me via forçada a encará-la, deslizando atrás do Fer pelos cantos do apartamento, como naquela tarde, ainda assim era diferente. O sentimento tinha mudado – se tornou um grande nada, o nosso relacionamento inexistia. A gente sequer se falava.
 
Isto é, até então.

julho 28, 2011

Ah, uns 4 meses...

Passei pelos dois no corredor e fui até o quarto do Fer, de saco cheio. Vasculhei seu armário, procurando a caixa em que ele guardava sua reserva de dinheiro do mês. Normalmente a colocava ali em cima, mas desta vez eu não estava encontrando. E antes que me acusem de estar fazendo ceninha – não, não era como se eu estivesse brava com a Mia. Dane-se a Mia. Eu estava pouco me fodendo para ela. O que me incomodava era ainda me ver em situações como aquela, sentia uma indisposição desgraçada de ficar por perto.
 
Não acho a droga da caixa. Fechei a porta do armário e o Fer apareceu na porta.
 
_Meu, cadê sua grana?
_Na gaveta... – ele murmurou, apoiado no batente – ...tá aí do lado. Pra quê cê quer?
_Vou fazer um corre... – disse, me curvando sobre a cômoda – ...eu paguei tudo na última.
_Tá. Mas pega lá embaixo, viu, não vai aqui em cima que o cara tá vendendo tudo zoado essas últimas... – reclamou, coçando um dos braços – ...e ô, cê não quer comer aí com a gente antes?
_Não, tô de boa.
 
Balancei a cabeça, enquanto vasculhava suas gavetas com toda aquela minha delicadeza – fazendo um baita barulho. O Fer ficou me olhando revirar ainda mais o caos do seu quarto. Assim que encontrei a porra da caixa, me perguntou se o dinheiro dava, se certificando de que estava tudo certo antes de ir tomar um banho rápido. “Tá, sim, vai lá”. Contei as notas e as coloquei no bolso, atravessando o corredor de volta para a sala. A Mia continuava no mesmo lugar que 5 minutos antes, me olhando passar.
 
Que seja. Ela podia me olhar o quanto quisesse. Eu não estava nem aí. A real é que nos últimos dois ou três meses eu sequer pensei na Mia. E mesmo quando me via forçada a encará-la, deslizando atrás do Fer pelos cantos do apartamento, como naquela tarde, ainda assim era diferente. O sentimento tinha mudado – se tornou um grande nada, o nosso relacionamento inexistia. A gente sequer se falava.
 
Isto é, até então.

julho 11, 2011

OST 3 ♥

Saiu a terceira trilha sonora do blog!  Clique nas músicas abaixo para ver onde elas aparecem na história ou clique aqui para ouvir a trilha completa no Spotify.
 


*Obrigada especial para Marcella de Oliveira pela arte maravilhosa da capa!

julho 09, 2011

E umas certezas

Espera lá.
 
_A gente?!
_É. Eu e você. Eu não... – a Marina me olhou, chateada – ...n-não sei se a gente dá certo como amigas, flor.
_Do que cê tá falando, Marina? Calma lá... – me ajeitei no banco, preocupada – ...o que essa discussão toda tem a ver com a gente?!
_Não sei. Não sei se você sabe lidar com isso, se eu sei lidar bem com isso. É só... complicado, entende? A gente, meu, a gente já passou por tanta coisa... – lamentou – e eu não quero ficar brigando com você. Sabe, depois de tanto tempo, ficar nessa situação... ir te buscar na casa de uma mina qualquer aí, sabe, ficar discutindo, não sei se é saudável.
_Cê não pode tá falando sério... – balancei a cabeça, frustrada – Isso é coisa da Bia.
_Dá pra não enfiar ela no meio? – se irritou – Isso é assunto nosso, não tem nada a ver com ela!
_Não vou enfiar como?! Porra! – me exaltei – A mina fica enchendo sua cabeça, por ciúme da gente, caralho. Nunca foi problema antes! E agora, de repente, não é uma relação saudável e o caralho a quatro... Cacete, Má! – discordei, batendo a mão no painel do carro – Eu fiz merda! Saí e fiz merda! Foi só isso! Não tem nada a ver com a gente, porra!
_MAS EU NÃO ME SENTI BEM INDO ATÉ LÁ, INFERNO!
 
Ela gritou, de repente.
 
_E-eu... – me desconcertei, a ouvindo estourar comigo – ...des... desculpa, linda... – hesitei, caralho – ...eu não queria te chatear, eu... – passei a mão no rosto – ...e-eu só faço merda, desculpa.
_Tá tudo bem. Esquece.
 
A Marina abaixou a cabeça, magoada. E eu me senti a pior ex amiga pessoa que poderia ser para ela, que sempre estava lá para mim. Puta merda. Observei os seus olhos se desviarem e fui tomada por uma culpa desgraçada. Fechada com ela naquele carro, enquanto os pedestres passavam na calçada em frente ao meu prédio. Argh. Que merda eu tô fazendo com a minha vida?
 
_Não. Não tá, Má... – lamentei – ...a, a verdade é... q-que nem eu me senti bem hoje, acordando lá... sem saber o que diabos tinha acontecido, sabe, foi... ruim. Estranho. E e-eu, não sei, não tô bem. Não tô pensando as coisas direito e... e eu não devia ter te arrastado pra isso. A última coisa que eu quero é foder a nossa relação, meu. Cê não tem noção de quanto cê é importante pra mim, do quanto eu gosto de você... – balancei a cabeça, quase chorando – ...caralho, viu. Não devia ter te chamado hoje.
_Flor, não é questão de “não me chamar”. É tudo! Você precisa parar com essas coisas, meu.
_E-eu, eu sei...
_Não, linda, eu tô falando sério – segurou a minha mão – Você não pode continuar assim, nesse ritmo... Não é bom pra você, nem pra ninguém por perto. Eu sei que as coisas tão difíceis, mas esse não é o jeito de lidar! Eu não quero ter que ir te buscar na porra do hospital, meu. Cê precisa maneirar um pouco...
_Eu sei, Má. Cê tem razão.
_E desculpa ter surtado, é só que... – murmurou – ...cê sabe, me traz memórias ruins. E é difícil, eu me preocupo pra caralho. Mas eu amo você...
_Eu amo você também.
 
Entrelacei meus dedos nos seus e beijei brevemente as costas da sua mão. A Marina sorriu pra mim.
 
_Então, quer dizer que cê vai dar uma trégua na bebida?
_Vou, vou... – ri.
_E o cigarro?
_Não abusa, Marina.
_Quê? – fez graça, amenizando o clima entre nós – Podia aproveitar já, de uma vez.
_E o que eu ganho com isso?
_Mais anos de vida, pra começo de conversa.
_Agora você só tá sendo cretina, Marina...
_Não, eu só não tô com paciência para lidar com você hoje... – ela riu, abrindo de novo minha porta – Vai, tchau... Sai, sai!

Incertos arrependimentos

_Não tinha lugar mais longe?!
 
A Marina reclamou, assim que entrei no carro.
 
_Desculpa, linda... – me envergonhei.
_Desencana. Agora já foi.
 
Ela se virou para frente, com as mãos no volante, e eu fechei a porta. Do lado de fora, o silêncio nas ruas denunciava que era mesmo uma tarde de domingo. Uma música da Martina Topley-Bird tocava baixinho no rádio, quase esquecida ali. Algo como thought I was in love... tell me, was I wrong?, ressoando, seguida de uma frase que não consegui entender. A expressão na cara da minha ex não era lá das melhores.
 
_Obrigada, Má... – murmurei – ...por vir me buscar.
 
Ela me olhou rapidamente e logo voltou olhos para o trânsito, sem paciência.
 
_Quanto você bebeu ontem?
_Não sei.
_“Não sabe”?
_E-eu... – hesitei – ...sei lá, eu acho que exagerei um pouco.
_Onde cê foi?
_Na Oui Oui.
_Hum... – ajeitou os óculos no nariz e voltou a mão para o volante – E cê não acha que tá pegando um pouco pesado, não?
_Marina, na boa... – me inquietei – ...eu não preciso de babá.
_Ah, mas precisa... Precisa, sim! – ela retrucou, levantando o tom de voz – Se eu tô tendo que sair da minha casa num domingo para ir te buscar do outro lado da cidade é porque precisa, não é?
_Já pedi desculpas, pô, que mais cê quer que eu faça?!
_Meu, cê é inacreditável... – balançou a cabeça.
_O quê?! Me diz. Quê que eu fiz??
_Nada.
 
“Nada”, revirei os olhos e encarei a janela, observando as ruas passarem.
 
_Eu só não entendo... – ela não se aguentou e continuou, no instante seguinte – ...como você pode beber tanto que não tem nem dinheiro pra voltar pra casa!
_Sei lá, porra. Só aconteceu!
_“Sei lá”, não! Não. No que diabos você tava pensando?! – brigou comigo – Pra encher a cara e ir comer uma mina na porcaria da Penha e aí, o quê? Cê ia voltar a pé até a Augusta?! Me explica, qual era o seu plano?!
_E-eu não... – abaixei a cabeça – ...n-não lembro direito, porra, eu não... pensei... só meio que fui e acordei já na... – suspirei – ...na casa da mina e...
_Olha, mudei de ideia... – ela me cortou – ...eu não quero saber.
 
Deixamos a Radial Leste e o carro atravessou o viaduto Júlio de Mesquita, perto da Liberdade. O balanço me zoava o estômago e aquela discussão idiota não ajudava. Inferno. Acomodei a minha cabeça um pouco para trás, entre o encosto e a janela. E fiquei ali por alguns minutos, amarga – mas o clima entre nós ainda me incomodava.
 
_Meu, o que deu em você? – virei o rosto para ela, já quase na Frei Caneca, insistindo numa conversa que eu sequer queria ter.
_Nada.
_Não vai falar?
_...
_Tá bom, Marina – respirei fundo – Faz como cê quiser.
 
Cruzei os braços e encostei de novo contra o banco, apoiando os pés sobre o painel.
 
_Sabe, eu só acho engraçado... – ela não se aguentou, de novo, e começou a reclamar, ainda olhando para frente, dirigindo – ...que, né, nem cinco anos atrás eu tava aí sofrendo por causa desse seu comportamento estúpido e agora tô aqui, indo te buscar na porra da porta.
 
Olhei na sua direção e, sem dizer nada, senti um desconforto, um peso esquisito na consciência. Argh. Às vezes, não entendia por que a Marina se submetia às minhas babaquices, ao que claramente não queria fazer. Me diz não, porra, me incomodei com a disponibilidade dela. Principalmente porque eu não me confiava o suficiente para não abusar da sua boa vontade – e sempre acabava por fazê-lo. Eu sou uma idiota.
 
_V-você... não precisa fazer isso – me senti mal, merda, e a olhei – Por que cê veio, meu?
_Porque, bom... – ela estacionou em frente ao meu prédio e se dobrou na minha frente, já abrindo a porta do meu lado e praticamente me expulsando do carro – ...porque você é tipo uma criança, sabe... – prosseguiu, irritada – ...que a gente precisa pegar na mão e mostrar o que está fazendo de certo e de errado, que não sabe o que quer da vida, não sabe se relacionar com ninguém, não entendeu pra que serve um celular e definitivamente não aprendeu a beber.
_Má, não... Espera! – fechei a porta de novo – Vamos conversar direito, vai.
_Não tem o que conversar... – ela se incomodou – ...você ficou bêbada demais ontem e é isso. É só isso! Não precisamos ficar aqui, discutindo e prolongando esse momento lamentável da nossa amizade. Não sei nem porque aceitei ir até lá te buscar na casa da merda da garota, mas agora já foi...
_Linda, desculpa, e-eu... – a observei e abaixei a voz, sendo sincera – ...eu devia ter me virado, foi mal. Eu não sabia o que, que fazer e... e-eu... não sei, se soubesse que ia te incomodar tanto, eu nem teria nem ligado, meu... – me enrolei – ...desculpa, não queria causar.
_Tá tudo bem. Não é isso.
 
Ela apertou os olhos, de leve, por debaixo dos óculos – sem me dizer o que realmente a estava incomodando. Tinha o cabelo preso numa trança lateral, meio amassada, como se a tivesse feito antes de dormir na noite anterior. E com um jeans-claro-com-blusa-branca que discretamente denunciava os seus planos de não sair de casa – isto é, antes de eu ir lá perturbar o seu domingo. Estúpida. 
 
_Olha... – a Marina respirou fundo, do nada – ...às vezes, eu não sei se isso é uma boa ideia.
_Isso o quê?
_A gente.

junho 27, 2011

Que erro. Me afoguei no tecido, me contorcendo sem nem perceber. Não conseguia adquirir consciência, apenas me movia por impulso. E o meu corpo inteiro reclamava – sentia o meu interior enfraquecido. Meu estômago se revirava e eu me recusava a abrir os olhos, meu deus, numa ressaca violenta. Onde diabos eu tô?, abri os olhos por um instante. Os lençóis se misturavam com o cabelo bagunçado sobre o meu rosto, afundada no colchão.
 
De repente, a minha barriga se dobrou involuntariamente. Nauseada. Levantei com certo esforço, desorientada; a minha cabeça doía. Onde é o banheiro nessa porra?! Andei, cambaleando, pisando descalça no chão. Banheiro, banheiro, banheiro... Saí no corredor, procurando, confusa. Entrei numa porta e vi um pedaço de uma cama, onde alguém dormia debaixo duns lençóis amassados. Tá, aqui não...encostei a porta de novo e me virei para o outro lado do corredor, ...onde é, porra? A ânsia que dominava o meu corpo começava a me desesperar, merda. Merda, merda. Empurrei a porta, já quase onde havia pressuposto ser a sala, e lá estava o banheiro.
 
Enfim.
 
Me inclinei sobre a pia e molhei o rosto, alguns fios grudaram ao longo da minha testa. Numa tentativa de subir minha pressão. Olhei no espelho e estava completamente destruída. Meu deus. Tirei as mechas molhadas de cabelo da cara, as minhas olheiras me davam um aspecto horrível e cansado, de quem bebeu mais do que deveria na noite anterior. E todas antes. Agachei em frente à pia, só com a boxer vestida no corpo, me sentindo enjoada. O que eu tô fazendo aqui, mano, apertei os meus olhos em desgosto. E os meus órgãos se contorceram, não, inferno... não!
 
Percorri meio metro arrastado, sem me levantar do chão, e dobrei o corpo sobre o vaso, levantando a tampa da privada. Maldição. Deixei a cabeça cair, apoiada nas minhas mãos, me segurando pela testa. Respirei fundo, tomada por um mal-estar horrível – e aí me faltou o ar, de repente, merda. Comecei a vomitar toda a inconsequência da madrugada anterior. Merda. Merda. Merda. Puta merda.
 
Dez minutos se seguiram no chão do banheiro. Daquele banheiro, daquele... d-daquele apartamento. Onde diabos eu tô? Minha coxa tinha um chupão, pouco acima da tatuagem que a Mia fez em mim. Minha barriga tinha outro, alguém tinha me mordido inteira. Me sentia um lixo. Voltei pro quarto com uma enxaqueca filha-da-puta, o gosto na minha boca me dava vontade de vomitar. De novo. Olhei para a garota capotada na cama, sem calcinha ou qualquer outra roupa no corpo – o cabelo ruivo bagunçado sobre o seu rosto. E não a reconheci. 
 
Peguei a minha blusa amassada no chão e a vesti. Então, ajoelhei em cima do colchão:
 
_Ei... – passei a mão no seu ombro e ela despertou, sem se mover – ...tem uma escova que eu posso usar?
_Hmm?
 
Ela murmurou, desorientada.
 
_Alguma escova?!
_T-tem uma n-nova... – disse sonolenta, quase num suspiro – ...t-tá lá, na caixa debaixo d-da pia.
 
Fui até o banheiro e revirei a caixa para achar. Escovei os dentes, sem conseguir me livrar daquele gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Ainda me sentindo enjoada. Voltei mais uma vez ao quarto e a garota seguia dormindo, completamente desmaiada. Dei uma olhada pela janela e não reconheci a vizinhança. Cadê meu celular? Rodei a cama com as mãos e depois o chão, até encontrá-lo no bolso da minha calça, largada atrás da porta. Minha carteira estava vazia e um recibo da balada amassado em uma das cavidades me autoincriminava. Merda, gastei toda grana. Sequer me lembrava como tinha chegado ali – e me esforçava para buscar qualquer memória de talvez ter pegado o metrô. 
 
Ou foi o ônibus?
 
Não conseguia lembrar. E era um sentimento estranho não saber – me sentia roubada de uma parte de mim. Do pior jeito possível. Sem roupa no quarto de uma desconhecida, sem certeza do que eu tinha feito com o meu corpo ou quanto tinha bebido. E pior, sem um puto na carteira para voltar para casa. Caralho. Esfreguei as mãos no rosto. Peguei o celular e chequei, eram 15:53. Disquei para o Fer e segurei o telefone contra o ouvido, escutando os toques se sucederem sem resposta. Aí liguei mais uma vez. Mas ele não atendeu – merda.
 
Então, passei para a segunda pessoa que eu mais confiava.
 
_Oi, sou eu.
_Oi...?
_Onde cê tá?
_Em casa, por quê? – a Marina respondeu, do outro lado da linha.
_O que cê tá fazendo?
_Escrevendo. Adiantando umas coisas pra amanhã... – estranhou – O que foi?
_Você... – parei por um segundo, sem realmente querer lhe pedir aquilo, droga – ...v-você pode vir me pegar?
_Te pegar?
_É. E-eu... – murmurei, envergonhada – ... saí ontem e não tenho como voltar... pra casa.
_Ah, ótimo... – suspirou, sem paciência para as minhas merdas – ...onde cê tá?
 
Dei uma olhada ao redor, cara, não faço ideia. Andei três ou quatro passos até a cama e acordei mais uma vez a garota. Ela me olhou, incomodada.
 
_Que bairro é este? – perguntei, falando baixo.
_Hum... P-penha.
 
Puta que pariu, a Marina vai me matar.
 
E de fato, ela bem quis. Assim que eu repeti o endereço ao telefone, pude ouvir sua respiração pesar do outro lado da linha. Não disse nada, só que demoraria para chegar – “já que, né, é do outro lado da cidade”. Eu sabia quando irritava a Marina e aquilo ultrapassava todos os limites do aceitável. Inferno. Não queria fazer aquilo com ela, mas não ia pedir dinheiro para a garota e não tinha condições de ir andando, menos ainda no estado que eu me encontrava.
 
Coloquei o telefone em cima de uma escrivaninha e ouvi os lençóis se mexendo. Olhei de canto de olho na sua direção e a garota estava com as mãos sobre o rosto, esfregando os olhos, como se despertasse devagar. Parecia gente boa, eu acho, não tinha nada contra ela – e sim, contra mim. Por que diabos sempre me meto nessas, fingi estar distraída, com vontade de sumir.
 
_Bom dia... – ela disse ao fundo, sonolenta, e os fios dos seus cabelos escorregaram pelo seu corpo descoberto.
 
Olhei na sua direção e sorri brevemente, por etiqueta.
 
Chega logo, Marina, pelo amor de deus.

junho 26, 2011

Num buraco sem fim

Naquela noite, depois de pegarmos um ônibus até em casa e dormirmos o dia inteiro, destruídos, o Fer não quis sair. Eu, sim.