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setembro 18, 2011

Na boca do lobo

Cadê a porra da recepcionista?, batia os pés inquietamente na sala de espera. Alternando-os contra o piso, em um ritmo acelerado – acelerado e crescente, conforme minha ansiedade também crescia. Um cara mais ou menos da minha idade esperava a umas duas cadeiras de onde eu estava. Bem menos preocupado do que eu, claro, como qualquer filhinho de papai.
 
O movimento dos meus pés começou a me irritar. Escorreguei então contra o encosto, afundando na cadeira, e cruzei as pernas um pouco mais adiante. Aquietando-as. Suspirei fundo e cruzei os braços em frente ao corpo. Maldição, por que eu tô tão nervosa? Forcei-me a sossegar por um instante – mas, no segundo em que me distraí, lá estava o meu pé direito sacudindo mais uma vez no ar. Impaciente. Inferno.
 
De repente, escutei um salto dar passos em direção a onde estávamos. Me endireitei na cadeira. E olhei para o garoto ao meu lado, trocando um sorriso de meio segundo por etiqueta. Boa sorte nada, observei atenta a porta da sala de espera, ansiosa, torcendo para que me escolhessem. Eu tinha ido bem na entrevista, uma hora antes. A recepcionista nos olhou ali, sem o menor interesse na nossa angústia por qualquer informação que fosse, e só anunciou que o veriam primeiro. Merda. Respirei fundo e preparei para me levantar, já com a certeza de que não tinha conseguido.
 
_Vão falar com você em seguida – ela me advertiu.
 
Olhei-a de volta, sem vontade nenhuma de continuar ali. E tornei a me sentar. O cara passou bem na minha frente, com seus alargadores de 4mm de playboyzinho paga-pau e um sorriso de canto de boca, desta vez sincero, como se tivesse vencido. Mano, que ódio, eu respirava pesado, tomada pela frustração. Antes que a recepcionista chegasse no corredor, acompanhando o moleque até a sala da entrevista, a chamei:
 
_Escuta... – perguntei – Onde eu posso fumar aqui?
_Lá na frente. Eu já volto para te chamar.
 
Mal posso esperar, hein. Revirei os olhos mentalmente, em ironia, e me levantei. Atravessei o mesmo corredor que eles, virando pouco antes, saindo pela mesma porta que entrei no começo da tarde. Pisei para fora, enquanto tirava o maço do bolso e logo acendi um cigarro para me consolar. Bosta. Eu realmente queria esse trampo. Apertei o filtro com o polegar e o dedo indicador, tirando-o da boca e assoprando a fumaça, frustrada. Era uma quarta-feira de cinzas realmente cinzenta. Matei o expediente à toa, “ótimo”. Terminei de fumar e joguei o cigarro na sarjeta, pisando rapidamente na brasa acesa antes de voltar para dentro. E uns dez minutos depois, a recepcionista me chamou – “eles vão falar com você agora”.
 
Entrei atrás dela, atravessando o corredor e uma outra sala, até o escritório da diretora da produtora. Uma mulher de uns quarenta e poucos anos, bonita dum jeito incomum, com ares dessas críticas cults insuportáveis. Cumprimentei-a mais uma vez, junto a uma altona responsável por recursos humanos – ambas haviam me entrevistado uma hora antes. Me observaram sentar, de frente para a mesa, e eu as encarei como quem não tem nada a perder, numa atitude um tanto desnecessária. As duas se entreolharam e sorriram.
 
_Então... – a diretora propôs – ...o que você acha de começar na segunda?

setembro 17, 2011

Desagradável

 ...pra caralho.

setembro 16, 2011

De volta

Umas cinco horas depois, abri a porta do apartamento com a mochila nas costas e dei de cara com a Mia em cima do Fer no sofá. Fodendo. Literalmente fodendo. Ela estava sentada no seu colo, as mãos dele em suas coxas, só de camisetão e sem calcinha – aquela marofa desgraçada em volta e um Misfits estourando o som da sala. Argh. Fala sério. Bati a porta propositalmente alto atrás de mim, me anunciando antes de atravessar pro corredor.
 
_PUTA MERDA! – o Fer gritou, enquanto a Mia saía de cima e eles se vestiam meio de qualquer jeito, às pressas – CÊ NÃO VOLTAVA AMANHÃ, PORRA?!
_Não.
 
Dei uma olhada feia para ele, irritada. Não posso circular no meu próprio apartamento agora, caralho? A Mia alcançou a calcinha no chão, a subindo pelas pernas tatuadas. E então me olhou, um tanto sem jeito – era estranho vê-la ali, daquele jeito, sabendo que dois dias antes ela estava me mandando mensagem de madrugada. Abaixou o olhar, constrangida. E eu entrei no corredor, dando as costas para os dois e me trancando no quarto.

setembro 14, 2011

[ CONTEÚDO EXCLUSIVO ]

AVISO: Os próximos 12 posts foram escritos exclusivamente para o livro do Fucking Mia e não estão disponíveis aqui. Os títulos são "Boas-vindas", "Maresia", "P.O.R.C.O.", "C'mon, c'mon", "Beliches", "O incômodo", "Pão e circo", "Marina", "O crime", "Superlotação no brejo", "Os pingos nos is" e "Mormaço". 

O livro do Fucking Mia está sendo preparado com muito carinho, em comemoração aos 10 anos de blog. O novo conteúdo está sendo escrito desde meados da pandemia e a ideia é lançar em breve! ♥

Se você quer ser avisada(o) sobre o lançamento do livro, deixe seu e-mail aqui:



setembro 06, 2011

No trânsito

...há duas horas e sem nem ter saído de São Paulo ainda, cidade de merda.
 
Estávamos fritando naquele sol. Ninguém se movia naquela porra de rodovia. E pra piorar, o carro da Marina não tinha ar-condicionado – é claro. Já nos primeiros minutos de trânsito, eu e a Thaís tiramos a camiseta, ficando só de top e bermuda no banco de trás. Minha ex ia na frente com a atual. Tirei o maço do bolso e acendi um cigarro, segurando-o para o lado de fora da janela. Não tinha uma brisa sequer.
 
Come with me”, a Cat Power começou a cantar lentamente no rádio. Fechei os olhos e arrastei a voz junto com a dela – “myyyy loooove”. Podia sentir o suor escorrendo do meu pescoço para dentro do top. Cacete, tá calor demais. A Thaís se escorou na janela aberta, do outro lado do banco, se abanando com o próprio boné e acompanhando a letra comigo – “to the sea, the sea of...”.
 
E foi quando, do nada, a Bia trocou a faixa.
 
_Mano... – me inclinei para frente, indignada – ...por que cê tirou?!
_Ah, velho, puta música chata...
_É Cat Power!!
_E daí? Puta merda deprê... – bufou no banco do passageiro, de saco cheio, e se virou para a Marina – Que mais tem nesse CD aí que cê fez?
_Ah, e-eu... – a Marina hesitou, constrangida – ...eu coloquei várias músicas, que... q-que tem a ver com mar, com praia, não sei.
_Tá, mas não tem uma MPBzinha, sei lá?
 
Ouvi a Bia reclamar e afundei de volta no banco, deixando o rosto cair pro lado da Thaís e revirando os olhos. Ela riu. “Ah, tem ‘Segundo Sol’ da Cássia”, a Marina sugeriu no banco da frente, tentando agradar a namorada. E a idiota desdenhou – “nossa, mas cê foi escolher justo a mais chatinha? Não tem nada mais animado?”. Eu vou matar essa garota, juro, me irritei, tentando respirar fundo. A Thaís franziu as sobrancelhas na minha direção, confusa, sem entender por que a droga da Bia estava insistindo naquela discussão.
 
_Só volta na que tava! – me intrometi – Tava boa, meu!
_É! – a Thaís resmungou também.
_Por favor, vai, amor – a Marina murmurou – Tá todo mundo ouvindo junto.
 
A infeliz se viu obrigada a voltar a faixa. E eu me afundei de novo no banco de trás, com ranço. Babaca. Não basta ter atrasado a viagem, ainda quer ficar decidindo a trilha por todo mundo. Não entendia como diabos a Marina ainda estava com aquela garota. No rádio, a Cat Power já tinha começado a cantar novamente – desta vez, sozinha. A atmosfera ficou estranha no carro. A Thaís pegou o cigarro da minha mão e tragou, silenciosamente, soltando a fumaça rapidamente pela janela antes de o devolver. Nos entreolhamos, como cúmplices daquele climão.
 
Numa tentativa de mudar o assunto, a Marina me chamou:
 
_Meu... – disse animada, com as mãos no volante – ...podemos falar 5 minutos sobre a Mia?
 
Me olhou pelo retrovisor, certificando-se de que eu a estava escutando, e então se virou brevemente para o banco de trás, me olhando com entusiasmo. Ah, não, me preparei psicologicamente para aquilo.
 
_Nossa! Meu, ela não é nada como eu imaginava...
_Como assim?
_Ah, não sei... – ela riu – Sempre achei que ela fosse mais, m-mais padrãozinha.
_Mano, né, nove da manhã e... – a Thaís comentou, do meu lado – ...a mina já tava com cara de que ia jogar molotov em vidraça de banco.
_Total! O dia que te levei lá na casa dela, fiquei com a impressão de que ela fosse uma dessas patricinhas frescas, sabe, frágil, sei lá – a Marina continuou e eu me afundei ainda mais no assento, tragando o cigarro – Acho que foi culpa de Higienópolis...
_Mas é gata, hein? Puta que pariu.
_Cala a boca, Thaís – resmunguei.
_Quê?! – riu – Ela é. E mano, na boa... sapatão.
_É, verdade! Ela tem cara de que curte umas minas...– a Marina concordou, se divertindo com o meu desconforto – ...e meu, ela ficou olhando pra você o tempo todo que a gente tava lá!
_Claro que não!
_FICOU, SIM! – as duas gritaram juntas, em coro.
_Tá. Que seja – me enchi – Chega, vai. Cortou o assunto!
_Ihhh.... Não pode nem falar nada mais!
_Falar pra quê, meu? Que importa agora?! – pistolei – Já acabou, porra, ela escolheu o Fer e eu superei, vida que segue.
 
Cruzei os braços e olhei pela janela, tragando mais uma vez. Foda-se a Mia. Não tinha disposição para ficar ouvindo minhas amigas se impressionarem tardiamente com a garota que tinha tornado a minha vida um inferno por meses. Puta conversa desnecessária. Soprei a fumaça para fora do carro e senti as duas me observando silenciosamente, arrependidas, enquanto a Bia se mantinha quieta no banco do passageiro.
 
_Ei... – a Marina retomou, com a voz mais baixa – ...e como você tá?
_Tô bem, Má. Só não quero ficar falando disso.
_Mas... – continuou, preocupada – ...como cê tá com ela lá, tipo, no apê o tempo todo? Não te incomoda, flor?!
_Ah, sei lá, meu. Que eu vou fazer, não tenho que achar nada... – mantive os olhos no asfalto entre os carros mais adiante, expressando o meu mais sincero desinteresse – ...na boa, eu já tô tão de saco cheio dessa história que só quero ficar em paz. Pra mim, já deu.
_É. E acho que se ela não fica te procurando, também facilita...
 
Pois é, facilitaria.
 
_N-na real... – traguei mais uma vez o cigarro, já quase no fim – ...e-ela me procurou dias desses. Veio com um papo pra cima de mim de que não queria que as coisas ficassem assim, que queria ser "minha amiga"...
_Mas você quer ser amiga dela?!
_... – olhei para a Marina, pelo retrovisor, com minha melhor cara de “é óbvio que não, né, porra”.
_É, meio complicado mesmo...
_Meu, sério... – a Thaís colocou a mão sobre meu ombro – ...cê tá melhor sem essa mina.
_Bem melhor! E outra... – a Marina ajeitou os óculos no nariz, me olhando de volta – ...quem tem paciência pra ficar correndo atrás de hétero, não é?
_Nossa, sim – revirei os olhos – Chega. Só quero pegar sapatão graduada daqui pra frente.
_Mas que ela tem bom gosto pra tatuagem... – a Thaís me provocou, piscando na minha direção – ...isso ela tem.

setembro 02, 2011

Tortilleras

Cadê, mano? Me afundei na pilha de roupas, cultivada durante meses no armário, a bagunçando ainda mais. Ironicamente eu tinha dois biquínis no fundo de uma das gavetas, ambos dados pela minha mãe numa tentativa de abafar a minha caminhoneirice, mas não conseguia achar por nada a porra da bermuda de nadar que eu queria. É de foder o cu do palhaço, resmunguei para mim mesma, jogando peça por peça do armário para o chão. Sem encontrar aquela desgraça. Argh.
 
Não usava biquíni desde os 12 anos de idade e não pretendia voltar em momento algum, me recuso. Prefiro nadar pelada. Claro que eu podia ter arrumado a minha mochila na noite anterior, mas resolvi passar na casa da Thaís depois do trabalho para fumar um, pela terceira vez naquela semana, e acabamos acordadas até tarde cozinhando larica atrás de larica. Agora já era sábado de manhã e o relógio se aproximava da hora que eu tinha combinado com a Marina. Inferno. Não achava de jeito nenhum aquela droga de... Aqui! Isso! Isso! Resgatei os shorts do meio das roupas amontoadas, vitoriosa, e o enfiei de qualquer jeito na minha mochila.
 
_Eita! – me surpreendi minutos depois, ao abrir a porta da frente – Cadê a embuste?
_Não chama ela de... – a Marina revirou os olhos, bufando, sem completar a frase – ...ela não tá pronta ainda.
_Mas cê não ia passar lá antes de vir pra cá?
_Ia. Olha, nem vamos falar sobre isso que já me estressei com a Bia e não quero mais passar nervoso – resmungou, entrando no meu apartamento – Ela vai mandar mensagem quando tiver pronta.
 
Aparentemente, o azar da Marina nessa vida era namorar minas descompromissadas com pontualidade. Eu inclusa. Marchou para dentro do apartamento, irritada, com os seus shortinhos de linho marinho e uma blusa soltinha branca enfiada para dentro na cintura. Alertado pela campainha, o Fer entrou na sala e se espantou ao ver minha ex ali. Abriu um sorriso. Atrás dele vinha a Mia, claro, com as pernas de fora num camisetão do Discharge, o cabelo preso sobre a cabeça num coque despenteado e uma cara de quem tinha acabado de acordar. Esfregou as costas da mão no rosto, meio sonolenta, e observou o namorado cumprimentar aquela garota de óculos pretinhos que ela nunca tinha visto antes.
 
_Nossa, faz mó cara que num te vejo... Cês madrugaram hoje, hein?! – o Fer comentou e se virou para a Mia – Cê já conheceu a Marina, amor?
 
Imediatamente o sono sumiu da sua cara.
 
Olhou para a minha ex ali e depois para mim, rapidamente, quase sem querer, abaixando o olhar em seguida. Tentando disfarçar. A Marina sorriu para ela. E a Mia deu alguns passos adiante na sala, a cumprimentando. Assim que afastou o rosto, seu olhar escapou mais uma vez na minha direção. Num reflexo do qual provavelmente se arrependeu na mesma hora. Perdeu alguma coisa na minha cara, porra?
 
O Fer e a Marina puxaram o maior papo, apoiados contra o encosto do sofá. E a Mia ficou ali, meio deslocada, enquanto os dois tagarelavam sobre o nosso feriado. A Lê tinha nos convidado para passar uns dias no Guarujá, na casa de praia de sei-lá-quem que ela conhecia. A ideia era juntar as sapatonas e comemorar o seu aniversário em qualquer lugar que fosse longe de São Paulo. E “perto do mar”, fez questão. Dividimos o comboio de caminhões entre o carro dela – que ia com a Paula e a Jéssica – e o da Marina – onde íamos eu, a Thaís e lamentavelmente a idiota da Bia.
 
O interfone tocou.
 
Corri até a cozinha para atender e olhei para o relógio de parede sobre a minha cabeça – já eram 9:30. Droga. Àquela altura, a outra metade do comboio já devia estar saindo da casa da Lê na Barra Funda. A gente tem que se apressar, pensei, desligando o interfone. Me virei para voltar para a sala, apressada, e trombei com a Marina. Sem querer. Estava saindo e ela entrando na cozinha, com uma cara de animada suspeita. A olhei sem entender o que estava fazendo ali e ela me segurou pelo braço, sem conseguir se conter, como quem está prestes a fofocar.
 
_Uau! – cochichou, sorrindo, e deu uma olhada por cima do ombro para garantir que ninguém estava nos ouvindo – Então essa é a Mia?!
_É.
_Cacete!
_Qual é, Marina...
 
Lancei um olhar de reprovação na sua direção e ela riu, conforme eu me soltava das suas mãos fuxiqueiras. “Você sabe que não vai escapar dessa conversa, né?”. “Aqui não, meu”. Revirou os olhos, se dando por vencida, e resmungou um “tá” insatisfeito. Era só o que me faltava, esfreguei as mãos no rosto. E voltamos juntas para a sala. Mal deu tempo da Mia fingir que não estava nos olhando, saindo juntas do corredor, quando a campainha tocou. E como se faltasse lésbica naquele apartamento, abri a porta para a Thaís. Me deparei com ela no seu melhor visual caminhão-praieira – bermudão, papete, óculos escuros, boné para trás, risca na sobrancelha, regata e uma camisa com folhas de palmeira aberta por cima.
 
_Caralho, hein... – sorri na mesma hora – ...tá gata!
_Gostou? – me zombou, piscando na minha direção – Me arrumei só pra você...
_Idiota.
 
Eu ri e ela sorriu de volta, com aquele sorriso desgraçado.
 
_Quanto tempo, né? – brincou, colocando o braço sobre meus ombros – Que a gente não se vê...
_Pois é – ri, entrando com ela no apartamento – Umas 10 horas inteiras?
_Ficou com saudade?
_Ô!
 
Entramos na sala rindo. E a única que prestou atenção nos nossos flertes foi a Mia. O seu olhar insistente – encostada contra a parede, os pés descalços já abrindo um buraco no chão – começou a me incomodar. A Marina e o Fer conversavam entre si, entretidos, como se fosse 2006 de novo. A Thaís largou sua mochila no chão e nos vimos obrigadas a interagir com o meu erro de meses antes.
 
_Essa é a Mia – as apresentei, indisposta – Não sei se cês já se conheceram.
_Acho que eu te vi numa das festas aqui, mas não trocamos ideia – a Thaís a encarou e sorriu, sem valer um centavo – E aí?
_Oi – ela sorriu de volta.
_Ah, é. E essa é a...
_...Thaís – a Mia me interrompeu, completando a frase, e a olhamos surpresas.
 
Como diabos cê sabe disso?
 
_E-eu... – a Mia emendou uma explicação, com os braços cruzados em frente ao corpo – ...eu seguia seu trampo no Fotolog.
_Nossa, sério?! Puta tempo que nem mexo naquilo...
_É – a Mia riu – Faz uns anos já isso. Cê é muito boa, meu, eu curtia pra caralho suas tatuagens.
_Porra, valeu – a Thaís se alegrou, ainda surpresa – Mano, aparece lá no estúdio qualquer dia pra tatuar. Ia ser massa...
 
Não exagera, né, Thaís, me irritei. 

agosto 27, 2011

We mimic the openness

…of the ones we love.
(Björk)
 
O meu lance com a Thaís não era um lance. Tecnicamente a gente não tava ficando – apesar de vez ou outra acabarmos na cama, por pura falta de vergonha na cara algo melhor para fazer. A real é que a maioria das vezes que eu ia no seu apartamento era pra evitar a Mia no meu ou pra fumar um. Ficava à toa, rolando no chão com o Bruce e conversando, enquanto ela desenhava tatuagens para alguma cliente. Ela tagarelava sobre qualquer garota que estava afim e eu reclamava sobre a minha vida. A gente se entendia.
 
E sim, ocasionalmente, quando dava vontade, a gente se pegava também – até porque, né? Nunca vi dois grelos grudarem tão bem desse jeito, puta merda.
 
Naquele domingo, todavia, me atracar com a Thaís talvez não tenha sido a melhor das ideias. Estava um calor dos infernos. E se o ventilador já não estava dando conta de nós duas ali paradas – imagina quando resolvemos nos comer no meio da sala. Caralho. Sentia o suor escorrendo pelas minhas costas enquanto eu a fodia, passando das suas coxas para as minhas quando a gente as encaixava, pingando da sua testa no meu peito assim que ela subia em cima de mim, me comendo de volta, escorregando sob a minha mão na sua pele. Cacete. Eu soltava o ar pela boca, cozinhando de calor, esfregando o antebraço no rosto para me enxugar como dava, antes de a lamber perna adentro – a chupando até molhar a cara toda de novo. Sacanagem.
 
Gozamos até não sobrar mais fôlego nos nossos pulmões – e em cada músculo do nosso corpo –, aí largamos nossas pernas e braços sobre o chão por alguns minutos. Até conseguirmos juntar força para nos mover ou sequer falar qualquer coisa. Como pode essa desgraça foder tão bem assim? Senti meus músculos tremerem por dentro, sem saber ao certo se os tinha forçado por tempo demais ou se a culpa era dos orgasmos consecutivos. Deixava a minha mente afundar em si, ainda chapada, sentindo cada centímetro da sensação no meu corpo.
 
A Thaís se levantou e desligou a TV, acendendo a luz da sala. Foi até o banheiro. E eu me despertei daquele estado de relaxamento, virando para alcançar o maço sobre o sofá. Aí soltei o corpo de novo no chão, exausta. Acendi um cigarro e soprei a fumaça em direção ao teto. Ouvi a descarga e, pouco tempo depois, a porta do banheiro se abriu. Observei a Thaís caminhar até o som, colocando algo para tocar e vestindo a mesma camiseta de horas antes, enquanto eu tragava preguiçosamente. Assisti aquele pedaço de pano cobrir parte das suas tatuagens. Ela tinha uns braços fortes e o corpo grande, bem caminhoneira. Geralmente usava um boné para trás, mas naquele dia estava sem, com a franja curtinha jogada sobre a sobrancelha.  
 
Veio até onde eu estava e subiu em cima de mim, me olhando imprestavelmente. Mordeu meu pescoço, num beijo molhado. E eu achei graça, rindo da nossa falta de limite. Ela ergueu a cabeça e sorriu, perguntando do que eu estava rindo, já achando graça também. “Nada”, respondi. E ela se moveu lentamente para frente, na minha direção, me dando um beijo de desgraçar a cabeça. Achei que íamos mais uma vez. Mas aí largou o corpo ao meu lado, me roubando o cigarro por um instante.
 
_Essa música é animal, escuta – pediu, encarando o teto junto comigo.
 
Cantarolou duas ou três palavras. E eu prestei atenção no som, pegando o cigarro de volta e tragando mais uma vez.
 
_É Björk?
_É. Já tinha ouvido?
_Essa não – soltei a fumaça, aos poucos – Faz uma cota já que não ouço Björk, nossa. Ouvia muito antes.
_Hum, sei – ela riu, me zombando – Quer dizer que agora cê ouve “outras paradas”, então...
_Cala a boca... – a empurrei para o lado, rindo – ...não é, é só que... sei lá, me lembra alguém.
_Quem?
_Ah! Uma mina aí que eu saía, ano passado...
 
Me senti estranha por um instante, ao responder.
 
_Ixi. Quer que eu tire?
_Não – sorri – De boa.
 
Nisso, o Bruce, que até então estava capotado na cozinha, passou andando por nós – daquele seu jeito idoso e meio cego – e num equívoco, levantou a pata para mijar sobre um vaso de planta, onde estava escorado o celular da Thaís. Ops. Num só pulo, aos berros, assisti minha amiga levantar correndo. E comecei a gargalhar, enquanto o Bruce abanava o rabinho, sem entender porra nenhuma.

agosto 13, 2011

Passatempo

E lá pelo último terço do baseado, morrendo de calor, digamos... nós ficamos entediadas.

Baixa Augusta

Bati a porta do apartamento e caminhei até o elevador, sem olhar para trás, alcançando os fones no meu bolso. Procurei qualquer coisa para ouvir no meu iPod velho, que comprei do Gui. Bowie? L7? Arctic Monkeys? Isso. Antes que desse por mim, já estava na rua e o Alex Turner cantava nos meus ouvidos. Desci a Augusta quase inteira e o corre foi tranquilo. Pouco depois das quatro e meia e eu já me encontrava completamente desocupada.
 
Tá. E agora, o quê?
 
Não queria ficar andando pelos cantos com uma paranga no bolso, não é mesmo, mas também não fazia questão de voltar para o apê e ver a cara da Mia. Então mandei uma mensagem para a Thaís e colei lá. Salve, salve. A porta do seu apartamento estava destrancada quando cheguei. Assim que abri, fui recepcionada aos pulos pelo Bruce, que quase me derrubou no chão naquela animação vira-lata.
 
Minha amiga estava largada no piso, em frente ao sofá, tomando uma cerveja e assistindo “Pingu” na TV. Era até engraçado ver uma caminhão daquele tamanho, cheia das tatuagens, se entretendo com um pinguim de massinha que fica gritando “NÚT-NÚT”. Me juntei a ela no chão e nos atualizamos das últimas novidades – que, no meu caso, se resumia à audácia da Mia meia hora antes.
 
_Nem sei. Na boa, não sei mesmo... – comentei, depois de contar toda a história, deitando de costas no chão da sala enquanto a Thaís enrolava um do meu lado – Não entendo qual é a dela, meu...
_Ah, ela quer atenção... – a Thaís riu, lambendo a seda em seguida – ...é isso.
_É, né, agora que não tem mais...
_Foda, velho... Sem noção essa mina aí... – colocou o baseado entre os lábios e o acendeu, dando um trago – ...meu, vir com esses papinhos aí depois de te dar o maior fora?! Nem a pau. Num vem querer ser amiguinha, não!
 
Pois é. Dobrei um dos meus braços atrás da cabeça, apoiada no piso de madeira, e encarei a faixa de luz que o entardecer projetava da janela até o teto.
 
_Ei, e deixa eu te falar... – me chamou, passando o baseado – ...falei com aquela minha amiga lá, a Renata.
_Ah! E aí?!
_Ela disse que tá rolando ainda lá, passei seu número. Deve te ligar essa semana...
_Sério?! – sorri, empolgada, equilibrando o baseado na boca – Porra, que massa!
_É. Mas agora vê se num me faz passar vergonha, hein, meu, falei mil maravilhas de você, a Rê ficou animada pra caralho. Num me vai cagar na entrevista...
_Cala a boca, trouxa! – traguei demoradamente e ri – Claro que não, vou fazer certinho. Porra, valeu mesmo...
 
Fiquei feliz. Aquilo me dava novas perspectivas, não sei – fazia tempo que não me sentia assim. Uns dias antes a Thaís tinha comentado sobre uma amiga que trabalhava numa produtora quase só de minas na Brigadeiro e que estava com vaga para assistente de produção. Não era exatamente o que eu fazia, mas pagava bem mais – e né, eu já estava de saco cheio de ficar rodeada de fotógrafo escroto o dia todo, organizando álbum de casamento e fazendo corre de produção pruns shoot de formatura, credo. Tédio mortal.
 
Bati o baseado num cinzeiro no chão, com esperança de conseguir sair do estúdio. Já era fim de fevereiro e o ventilador do apartamento da Thaís movimentava o ar quente inutilmente, de um lado para outro. A cidade inteira parecia estar enfiada numa porra dum microondas. Cacete. A Thaís resmungou do calor, tirando a camiseta. Ficou só de cueca e passou a camiseta na testa e na nuca, secando o suor. Faltava uma semana pro Carnaval.
 
_Meu, e cê já decidiu se vai no rolê da Lê semana que vem?
_Se pá vou... – pegou o baseado de volta e tragou mais uma vez, apoiando a cabeça no sofá atrás de nós, com os peitos suados – ...preciso ver se a grana vai dar, janeiro foi fraco. Ninguém tatua no começo do ano, meu.
_Velho, não, cê tem que ir. Sério! – implorei – Cê não pode me largar sozinha com a Marina e a porra da Bia num carro por sei lá quantas horas, mano. Puta morte lenta e horrível.
 
A Thaís soltou a fumaça no ar e riu, achando graça do meu drama.
 
Vai rindo, vai, desgraça.

agosto 11, 2011

3 Little Words

_Posso sentar aí?
 
A ouvi falar baixinho, andando na direção de onde eu estava no sofá, calçando meus All Stars. Lá vem... Uma indisposição imensa de estar perto dela me incomodou. Ainda assim, me movi um pouco para o lado, por educação, liberando espaço para ela se sentar. Peguei o outro tênis no chão e comecei a amarrar o cadarço, apoiando o pé sobre a mesinha de centro.
 
_E-eu...
 
Ela ia começar algo, mas parou. Você...? Nada. Os seus olhos me observavam, hesitantes, subitamente quieta. Sua comida não vai queimar no fogo, não?, me irritei com aquele silêncio, desejando que alguma fumaça saísse da cozinha e me resgatasse daquela situação. O Fer tinha acabado de ligar o chuveiro – ninguém ia me salvar. Mantive os meus olhos nos cadarços, já quase terminando de amarrá-los, mas senti que ela ainda queria me dizer algo.
 
_O que é?! – a questionei.
_Escuta, a, a gente... – ela suspirou – ...a gente n-não precisa ficar assim.
_Assim como?
 
Só então voltei os meus olhos para ela, ao meu lado.
 
_Olha, eu... e-eu não quero que você, sabe... – falou, baixinho – ...me odeie pra sempre.
_Eu não te odeio... – respondi, sem interesse nenhum no que estava me dizendo, e peguei um cigarro à minha frente, largando o maço de qualquer jeito na mesinha de centro.
 
A Mia ficou me olhando, com certo pesar, enquanto eu acendia o cigarro. Às vezes, acho, magoo as pessoas sem nem querer. Mas, né, dane-se. Naquele momento, eu estava mais interessada em fazer a minha brasa pegar por igual do que em prosseguir naquele papinho dela.
 
_Então, cê não tá... – murmurou, confusa – ...sei lá, incomodada... comigo aqui? Eu achei qu...
_Não... – traguei lentamente – ...a vida é sua, Mia.
_Tá. Mas você não acha que o clima tá m-meio estr...
_Sei lá. Se cê acha... – continuei, a interrompendo.
_Bom, é meio óbvio... Não?! – mudou o tom, ligeiramente ofendida pela minha atitude – Sabe, eu... e-eu venho aqui e a gente nem se fala, meu! Parece que nem te conheço. E... E é, é que, é você. Porra... e-eu, eu não queria que as coisas acabassem assim, mesmo que a gente não ten...
_Tá bom – a cortei, de novo – E o que você quer?
_Eu s...
_Cê quer que eu seja sua amiga, é isso?
_N-não, eu só... – respirou fundo, frustrada – ...e-eu... – abaixou a cabeça por um instante e aí ergueu os olhos até os meus – ...sim. Quero.
 
Me encarava como se aquilo pudesse resolver todos os seus problemas. Bem consigo mesma, sabe, como se eu fosse a última peça a ser encaixada na sua vida. Tinha uma das pernas sobre o sofá e a outra para frente, apoiando a ponta do pé descalço no chão. Olhei-a por alguns segundos, sentada ali ao meu lado, com os fios castanhos quase encostando sobre a coxa tatuada, e traguei mais uma vez antes de me levantar.
 
_Não.