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outubro 23, 2011

Sequelas

“Gostei de te conhecer ;) E dsclp ñ ter subido, rs” – o meu celular apitou no meu ouvido, ultrassensível por causa da ressaca que me assolava naquela manhã. Os meus olhos cansados se esforçaram para ler a mensagem da Patti. Eram 8:15 e eu não tinha dormido nem três horas. Com o raciocínio consideravelmente prejudicado, tentei conciliar aquelas poucas palavras com o que me restava de memória da noite anterior. O que não era lá muita coisa – tinha um buraco na minha mente. Argh. Lembrava de ter voltado para a pista com a Patti e de termos dançado agarradas uma na outra – mas depois disso, nada. Zero.
 
Não. Espera...
 
Uma lembrança meio confusa me veio à mente, da Patti encostada numa parede suja da Augusta, como um flash rápido. Nossos corpos pressionados um no outro, nos beijando. Uns dois segundos de memória que não eram o suficiente para eu me lembrar do contexto. Subimos a Augusta juntas? Reli a mensagem, agora mais desperta, e tentei encaixar as peças soltas, mas o desfecho daquela noite permanecia vago. Por que ela não ficou? Sentia como se estivesse esquecendo algum fato importante, mas... sem chance, n-não vou lembrar.
 
O importante era que a parte que eu, sim, lembrava me fazia sorrir. Apesar da ressaca, o meu humor estava sensacional. Queria já responder a Patti, mas precisava urgentemente esvaziar cada shot consumido no Vegas da minha pobre bexiga. Levantei da cama com a mesma regata amassada da noite anterior e fui apertando as pernas até o banheiro. Virei a maçaneta e, bam! A porta estava trancada. Ahh, filho-da-mãe...
 
Bati na porta, pedindo pro Fer sair.
 
O problema é que, assim que percebeu que estava nas redondezas da privada, o meu corpo se deixou levar pela empolgação. Prestes a mijar ali mesmo. Tentei mais uma vez a maçaneta, já pulando de um lado para o outro em pleno corredor, e nada. Inferno. Ouvi então a descarga e pensei, agora vai. Mas não. Nada, de novo. Aquela merda continuava trancada. Um minuto se passou e nem sinal daquela maçaneta girar. Soquei então a porta com a lateral da mão, apressando o meu colega de quarto.
 
_VAI LOGO, PORRA! – gritei, apertada, me apoiando no batente – TENHO QUE MIJAR!!
 
Uns segundos depois, a porta se abriu e... dei de cara com a Mia.
 
Claro.
 
Me movi para passar, mas ela não se mexeu, bloqueando a droga da porta com o corpo. Com cara de poucas ideias e vestida apenas num camisetão cinza desbotado. Essa agora... A encarei, sem paciência, e aí tentei passar mais uma vez, pelo outro lado. Ela continuou imóvel. Vou mijar na calça, tive certeza – ainda que não tivesse usando nenhuma. A encarei, impaciente com aquele joguinho, e ela me encarou de volta, como se eu lhe devesse alguma coisa. Numa afronta silenciosa de você-sabe-que-o-que-você-fez-ontem-foi-inaceitável.
 
Argh. Minha bexiga estava prestes a explodir.
 
_Licença, eu preciso mesmo usar... – disse grosseiramente, me forçando banheiro adentro pelo espaço estreito entre ela e o batente da porta.
 
Abaixei a cueca e sentei no vaso o mais rápido que pude. Ia levar quatro segundos, no máximo, tamanha a urgência. A Mia ficou ali por um instante, parada na porta, me olhando feio. Quer assistir, fica à vontade, a encarei de volta. Nem um pingo de remorso em mim. Até que, por fim, ela saiu, me deixando sozinha no banheiro. E até isso me irritou. Vai lá, vai, revirei os olhos, implicante, volta pros braços do Fer. Dei a descarga e, então, segui com meu dia – que envolvia procurar minha Carteira de Trabalho, sair de casa de estômago vazio para não dividir a cozinha com o casalzinho-lixo e ir na produtora para pedir demissão. Bora.

outubro 15, 2011

Sozinhas, enfim

_“Patti” – sentei ao lado dela, no degrau do lado de fora do Vegas – Sabe, eu gosto desse nome...
_Gosta? – ela me deu uma olhada rápida de canto de olho, com um cigarro aceso nas mãos – Hum, engraçado, te vi conversando com outra “Patti” lá dentro...
_Eu?! Onde?
_No bar...
_Ah... – sorri, observando-a tragar – ...ela é só uma amiga.
 
A Patti me olhou como se não acreditasse e balançou a cabeça, rindo.
 
_Quê?! – me justifiquei – É s-só que fazia... um tempo que a gente não se via.
_Tá bom... – achou graça, desconfiada – ...e então quer dizer que cê gosta de Pattis?
_Gosto. Me lembra a Patti Smith...
_Ah, não! – ela revirou os olhos, soltando a fumaça para o lado – A Patti Smith não, né?! Ela é horrorosa!
_Ah, qual é... Mano, a mulher é um gênio!
_Tá... e horrorosa.
 
Parei e a encarei por um segundo, indignada com tal afirmação.
 
_Então, é assim? – zombei – Uns amassos sapatão e, de repente, cê é expert em quem é gata ou não?
_Não precisa ser sapatão para saber que a Patti Smith não é bonita. Acho que eu mereço um pouco mais do que isso.
_Mano... – me revoltei – ...EU TE COMPARO COM UMA DAS MULHERES MAIS FODAS QUE JÁ EXISTIRAM E CÊ FICA OFENDIDA?! – roubei o seu cigarro, rindo – Chega. Parei. Já deu pra mim, cê tá muito louca...
 
Balancei a cabeça e dei um trago, desacreditada, olhando para o movimento na rua Augusta à nossa frente.
 
_Hum, então... o que cê tá me dizendo é que iria pra cama com a Patti Smith?
_Nossa, mas COM CERTEZA! NA HORA!
_Do jeito que ela é hoje?! Cê não pode tá falando sério.
_Mano, sim... – a contrariei, entregando o cigarro de volta – ...de qualquer jeito. De todos os jeitos! Se aquela mulher me desse bola, eu morria feliz...
_Ah, mas cê tá falando isso só porque admira ela, não vale!
_Como não vale?! Tesão é tesão. Vem de muitas formas, meu...
_Tá. Mas fisicamente... – provocou – ...eu ou a Patti Smith?
_Ela.
_Fisicamente!
_A Patti Smith, porra.
_Ah, não! Nem a pau. Duvido!
_O quê?! – a observei dar um último trago, ao meu lado, apagando o cigarro na calçada – Você acha mesmo que não?!
_Meu, eu tenho certeza que não!
_Nossa, dormia com ela fácil! Fácil!
_Ela? – me olhou, sem acreditar – Ao invés de mim?!
 
Ri mais uma vez, achando graça na sua indignação, e apoiei a mão nos joelhos para levantar daquele degrau, ficando em pé na calçada.
 
_Não tô dizendo que não te acho gata, meu. Mas ela também é e tem muito mais pra se gostar numa mulher além disso, porra... – estiquei a mão para ela, que a usou para se erguer também – ...quê?! Tá surpresa?!
_Um pouco... – sorriu – ...assim, depois da sua cachorrada lá dentro, não te tomaria por profunda.
_Que cachorrada, mano?! – me fiz de santa, subindo o degrau para voltar – Do que cê tá falando?!
 
Ela revirou os olhos, sem paciência com a minha cafajestice.
 
_Quê, meu?! – eu ri, atravessando a porta do Vegas, e brinquei – É que eu tenho um interesse meio efusivo...
_Ah, cala a boca!
 
Ela gargalhou e eu a encostei contra a parede, na maior cara de pau. “Essa é a coisa mais ridícula que já ouvi...”, a Patti resmungou. “Olha...”, murmurei, já perto da sua boca, “...te garanto que o meu interesse tá todo aqui agora”. “Sei”, riu. E numa reconciliação improvável e bêbada, do nosso namorico de balada, nos beijamos ali, no escuro, cercadas pelas cortinas pesadas e vermelhas do Vegas.

outubro 11, 2011

Mea culpa

O meu coração ganhou força – sentia aquele músculo pulsar dentro de mim, tão forte quanto as batidas que saíam de cada um dos amplificadores ali, conforme eu entrava na pista. Entre todas aquelas pessoas e com só uma na cabeça. M a l d i t a. Me enfiei na multidão à procura da maior confusão que eu pudesse encontrar. Qualquer uma que fosse. Tinha dificuldade em discernir as pessoas movendo-se à minha volta, já bêbada demais. Fui trombando com corpos desconhecidos, buscando pela Patti ou por qualquer péssima ideia. E foi quando dei de cara com a pior delas.
 
É isso. Andei mais uns dois ou três metros em pequenas curvas, ultrapassando os outros à minha frente até chegar onde ela estava dançando. Encostei suavemente a minha mão em seu braço, a cumprimentando, e ela se virou num “oi” hesitante – me olhando de volta, confusa.
 
_Você não lembra de mim, né?
_Não, desculpa... – ela riu, lamentando, então olhou por mais alguns segundos para a minha cara e de repente, arregalou os olhos – ...não, espera! Espera! Você, cara... v-você tava no aniversário da Mia, não tava?!
_Sim... – sorri e encostei em seu ouvido, para explicar – ...eu moro com o Fer. Tava ali de longe e te vi aqui, meu. Legal te encontrar, pô! Eu lembro de você daquele dia, na festa...
_Nossa, mas isso faz uma eternidade! – achou graça, quase se apoiando em mim – Como cê ainda lembra de mim?! A gente mal se falou!
_Ah, sei lá... – dei de ombros e ri também – ...só lembro. Acho que cê ficou na minha cabeça...
_Como assim? – estranhou, sorrindo – Por quê?!
 
Olhei para ela por uns dois segundos, plenamente consciente do que fazia. E aí abaixei a cabeça, rindo – “não, nada. Não é nada...”
 
_O quê?! – me cutucou, curiosa.
_Nada, meu... – retruquei, sorrindo – ...escuta, posso te pagar uma bebida?
_Agora?!
_É.
 
E ela me observou por um instante, intrigada, em meio ao atordoamento da pista. Até sorrir, concordando. Levei-a através da multidão, de volta até o balcão. E sendo bem sincera, a minha cota de héteros já estava estourando pela noite. Em condições normais, eu já não teria mais paciência, mas a garota estava praticamente fazendo todo o trabalho para mim – e em menos de dez minutos de conversa fiada, já tava na minha.
 
Os beijos foram apenas consequência. Assim como os olhares dos amigos dela, a poucos metros de nós, e, não muito tempo depois, os do meu melhor amigo – próximo a uma das paredes da balada. Era questão de segundos agora até o Fer comunicar a Mia ao seu lado, provavelmente rindo do fato de eu estar pegando uma das suas amigas. Então, fechei os olhos – e deixei cada célula filha-da-puta em mim fazer aquilo direito. Uma vez que ela tivesse visto e eu provado qualquer que fosse meu ponto ali, poderia largar daquela garota e voltar atracar meu barco em outra... âncora.
 
E assim foi. De uma só vez.
 
Assim que abri os meus olhos novamente, depois de um beijo bem dado, bem demorado, procurei a Mia no canto que dividia com o Fer minutos antes e não encontrei nenhum dos dois – soltei da garota na mesma hora.

outubro 05, 2011

Shitlist

When I get mad
And I get pissed
I grab my pen
And I write out a list
Of all the assholes
That won't be missed
 
You've made my... 
Shitlist!
 
(L7)
 

outubro 02, 2011

Rancor meu, seu

_Qual é, Mia?! – me soltei da sua mão, grosseiramente – Ficou louca?!
 
De onde diabos você surgiu, inferno?!
 
Ela estava furiosa, e nitidamente bêbada. No meio de toda aquela gente, os seus olhos me repreendendo – como se eu tivesse cometido algum crime. Mas aí não disse nada, claro, e eu me enchi bem rápido daquela merda. Tirei o maço do bolso, não tô com paciência pra lidar, em deboche, entediada até a morte por aqueles dois segundos de silêncio dela. Coloquei um cigarro meio de qualquer jeito entre os lábios e ela pareceu se irritar mais ainda, me fuzilando com o olhar.
 
_VÃO TE PÔR PRA FORA SE VOCÊ FUMAR, IMBECIL!
 
Arrancou o cigarro da minha boca, o jogando no chão num movimento brusco. E eu demorei um segundo para entender o que estava acontecendo. Meu cigarro, cacete! Abaixei o olhar, vendo-o ser massacrado pelos pés alheios e senti um ódio infantil da Mia por aquilo.
 
_Qual seu problema??!
_VOCÊ SABE MUITO BEM! – a Mia retrucou quase imediatamente, sua voz competindo com a música – V-você, meu... – ela passou as mãos no rosto, irritada – ...VOCÊ TÁ AGINDO QUE NEM UMA IDIOTA!!
_Mano... CÊ TÁ LOUCA, PORRA?! DO QUE DIABOS CÊ TÁ FALANDO?!?
 
Questionei e ela cruzou os braços, me encarando como se fosse óbvio.
 
Ah, não me vem com essa.
 
_DIZ! DIZ, MIA! – a provoquei, brigando de volta no meio da multidão – DIZ O QUE CÊ QUER DIZER!! FALA QUAL É O PROBLEMA!
_O MEU PROBLEMA É VOCÊ!!
_EU?! – balancei a cabeça, sem paciência para suas meias palavras – Olha, até onde eu sei essa noite é minha e eu posso fazer o que eu quiser, garota.
_FODA-SE QUE A NOITE É SUA! FODA-SE! O problema... – me pegou de novo pelo braço – ...é que cê tá fazendo de propósito... – se aproximou do meu ouvido – ...e VOCÊ SABE!
_TÔ FAZENDO DE PROPÓSITO?! – me soltei, com raiva – ESCUTA, MEU MUNDO NÃO GIRA MAIS EM TORNO DE VOCÊ, SABIA?!?
 
Por um segundo, vi os seus olhos se perderem.
 
_E, e-e... QUEM DISSE QUE É ISSO QUE EU QUERO?!
 
Rebateu. E eu comecei a rir, “quem disse...” – nervosa, sem disposição pra engolir uma só mentira que saía da sua boca. Não depois de assistir os seus olhos me seguirem desconfortáveis por toda aquela porra daquela balada, a cada droga de boca que eu beijava, a cada garota que eu segurava, a cada maldito segundo, a merda da noite inteira. Agora vinha com esse discursinho para cima de mim. “Quem disse”.
 
_Não quer, né? – a encarei e ri, irônica – Tá bom, então, Mia.
_Você não sabe de NADA! – rebateu.
_É e você obviamente não entendeu PORRA NENHUMA TAMBÉM! – pistolei, sem acreditar na cara de pau dela, puta merda – NÃO PARA VIR AQUI E AINDA SE ACHAR NO DIREITO DE FALAR MERDA PRA MIM! EU NÃO TE DEVO DROGA NENHUMA, GAROTA, NÃO ENCHE! VAI LÁ ACHAR O SEU NAMORADO, VAI!
_CALA A BOCA! VAI SE FODER!!
 
Berrou, com ódio, antes de dar as costas para mim e se enfiar na multidão. Perdi de vez a cabeça. VAI TOMAR NO CU, TOMAR NO CU, minha respiração acelerou, com uma raiva que mal cabia dentro de mim, QUEM VOCÊ PENSA QUE É? Desviei grosseiramente de um grupo de meninas que dançava à minha direita, seguindo em direção ao bar. E trombei com o Fer, a menos de três metros de onde estávamos. Ele vinha com duas bebidas nas mãos e me olhou como se tivesse visto uma parte, tentando entender por que diabos nós duas tínhamos acabado de discutir e agora saíamos cada uma para um lado.
 
_O que aconteceu ali?!?!
_NADA! – resmunguei, esbarrando nele para passar.
 
Não te devo satisfação.
 
O Fer ficou parado, com os copos em mãos, me observando ir para o outro lado. Eu estava fora de mim. Trombei com mais pessoas a caminho do bar, deixando atrás de mim um rastro de má educação. Meses, cara... Meses! E essa porra dessa mina ainda me tira do sério, me indignei. Não conseguia me conformar com como seguia me deixando afetar por ela, tomada por um ódio desmedido. Me dá um fora e agora vem com essa?!, todo o sangue que eu tinha me subiu à cabeça. Sem acreditar na cara de pau da Mia, puta merda, se achando a certa ali, perigosamente afogada em doses e mais doses de tequila. Ah, você perdeu o direito, garota, eu fervia de ódio, pedindo a quinta ou sexta dose da noite. Virei o shot assim que chegou, numa tacada só. E fiquei de costas contra o balcão, apoiando os antebraços na madeira atrás de mim e respirando fundo, tentando recuperar a calma. Um, dois, três, quatro..., em vão, com rancor, dez. Olhei para a pista movimentada à frente.
 
Agora eu vou fazer de propósito, sua desgraçada.

outubro 01, 2011

Não é problema meu

Saímos do banheiro de mãos dadas. Namoradinhas de balada. Meus dedos permaneceram entrelaçados aos seus conforme a gente ia desviando das outras pessoas na pista, indo em direção ao grupo de amigos da Patti. E não se soltaram pelo restante das horas naquela balada. Naquela paixonite à primeira vista. Os amigos dela se deleitavam com os nossos beijos, os meus também – com nossas risadinhas compartilhadas ao pé do ouvido, nossa obsessão provisória.
 
_RESOLVEU CASAR NA BALADA, É?! – a Thaís se divertia, ressurgida, gritando a uma distância considerável de nós.
_CALA A BOCA, MANO!
 
Eu ria e, meio segundo depois, surgia o Gui para me dizer exatamente o mesmo. Todo mundo se divertindo às minhas custas, entendi. Àquela altura da madrugada, eu já malemal cruzava os olhos com os da Mia, perdidos em algum lugar das redondezas na companhia do Fer e de um amigo em comum nosso. Minhas atenções agora estavam inteiramente ancoradas nas pernas da Patti, que dançava comigo em meio à pista. Eu subia os olhos até os seus, e sorria. Ela achava graça. E eu a beijava, a puxando ainda mais perto. Sentia-a deslizar os braços sobre meus ombros, os apertando ao redor de mim e me agarrando de volta, nuns amassos exagerados. Naquela intensidade embriagada gostosa.
 
Afogada em doses de José Cuervo, a minha mente era um branco absoluto. Não pensava em nada. Só continuava dançando, mergulhando na Patti, me deixando levar e sentindo cada centímetro dela se misturar em mim, o seu corpo, os seus dedos, a sua boca. Fui perdendo um pouco a linha, confesso. Descendo as mãos pelos seus shorts até a sua curva da sua bunda, a segurando assim, forte, num beijo embalado pelos amplificadores do Vegas, e então continuava descendo, os olhos fechados e a boca na sua, sentindo aquele seu jeans se tornar pele macia sob as pontas dos meus dedos, bem aos poucos, agarrando as suas pernas por cima das linhas old school na sua coxa.
 
Até que a Patti me afastou.
 
Abri os olhos sem entender e ela riu, me mandando ir esfriar os ânimos no bar – “ainda não sou sapatão”, brincou. Ah, é assim?, me diverti. E me virei, ainda rindo, obediente. Me enfiei na multidão, indo em direção ao bar para dar um tempo para ela. A pista estava tão lotada que eu mal conseguia enxergar direito onde tava indo, me espremendo entre as pessoas para passar, quando de repente a Mia me pegou pelo braço, num tranco.
 
_Meu, v-você tá SENDO UMA IDIOTA!

setembro 26, 2011

"So please, please, please...

...let me, let me, let me get what I want this time.
(The Smiths)
 
A Patti me seguiu, em meio àquele mar de gente dançando pós-punk, segurando a minha mão. E os olhos dos amigos dela nos seguiram também, entusiasmados, nos observando à distância em meio à pista. Nos olhavam ainda, com uma dose a menos de empolgação e umas quatro a mais de whisky, os olhos castanhos da Mia. Não vou conseguir nada com essa plateia toda, me frustrei. E numa decisão rápida, puxei a Patti e entramos no banheiro. Os amplificadores tocavam o que me parecia ser Smiths. Tinha só duas pessoas na nossa frente na fila. Longe da roda de amigos, ela se tornou um pouco mais quieta e eu perguntei se ela estava bem, sozinha ali comigo.
 
Ela disse que sim. E zombou:
 
_Era isso que cê queria me mostrar?
_Isso – eu ri – Gostou?
_Do banheiro?
_É.
_Olha... – achou graça – Não sei, não.
_Mas cê viu os ladrilhos que bonitos?
_Verdade, tem razão. Nunca vi nada igual!
_Não é? Passei a noite toda querendo te trazer aqui, meu... – brinquei – ...sabe, é um lugar especial pra mim.
_Sei. Traz várias lembranças, né?
_Várias.
 
A gente se divertia enquanto esperava. Até que uma das cabines vagou. Finalmente. Fechei a porta atrás de mim e a Patti me olhou, agora menos sorridente. Ou confiante. Como se, de repente, estranhasse a situação. Encostei em um dos lados da cabine, apoiando um dos pés contra a parede atrás de mim. E ela ficou do lado oposto, segurando com ambas as mãos sua garrafa com um restinho ínfimo de cerveja, um tanto insegura em seus movimentos. Não fiz nada. A esperei. Parecia nervosa com a possibilidade de realmente nos beijarmos – me lembrava, de certa forma, a Mia de muitos meses antes. Deu um sorriso constrangido. E observou em volta, passando os olhos pelas quatro divisórias que nos cercavam naqueles dois-metros-por-um bem mal iluminados. Ficamos quietas ali por alguns instantes.
 
_Isso é estranho... – a Patti sorriu, um tanto desconfortável.
_Por que estranho?
_Ah, não sei... mas é – disse, sem desgrudar os braços e a garrafa da frente do corpo – Não achei q-que eu... s-sei lá.
 
Desviava o olhar quase compulsivamente e eu a observava, parecia constrangida pela minha presença. Terminei de virar a minha cerveja e me curvei para apoiar a garrafa ao meu lado, no chão. As pernas da Patti estavam encostadas contra a parede, grudadas uma na outra, tensas – nuns shorts que revelavam metade duma âncora old school tatuada na parte de cima da coxa. Seus dedos se alternavam nervosamente, dedilhando contra o vidro suado da garrafa. Ela respirou fundo.
 
_Ei, cê quer ir? – achei graça no seu nervosismo.
_Não, eu... – ela riu, abaixando a cabeça por um instante – A, a gente não p-pode só... sei lá... – me encarou de novo – ...d-dizer que se beijou?
_Pode – ri – Como cê quiser, meu.
 
Sorri. E a esperei sair.
 
O som da balada entrava abafado dentro da cabine. Mas os seus pés não se moveram em direção à porta, ela ficou, os encarando ali perto dos meus no chão – seu All Star preto e o meu coturno velho. Ergueu o olhar mais uma vez até o meu e sorriu. Escuta, se você não vai fazer nada, declarei terminado do seu tempo, então eu vou.
 
Desencostei da parede. Me movi na sua direção e escorreguei os meus dedos por cima dos seus, tirando a garrafa das suas mãos – a levando para trás do meu corpo. A Patti inspirou fundo, como se criasse coragem. O seu mundo prestes a aumentar. Levei minha outra mão até o seu rosto e ela fechou os olhos, sentindo meus dedos deslizarem pela sua bochecha, seus lábios. Sua respiração oscilava. Me aproximei do seu corpo, descendo a mão até a sua cintura.
 
E finalmente, a beijei.

setembro 25, 2011

Redirecionando

Tá. Olha, eu já ia agir daquele jeito de qualquer forma. Aquela era a minha noite e eu tava com um fogo desgraçado na raba. Então, não, não é como se todos os vai-e-vens de sem vergonhice na pista fossem mero capricho. Eu estava feliz pra caralho e queria beijar todo mundo mesmo – fosse a garota dançando entre eu e a Thaís ou a amiga da Lê que saiu para fumar comigo lá pelas tantas. Que se dane. Contudo – e este é apenas um mínimo detalhe –, o fato de a Mia estar lá, digamos, a tão poucos metros de mim e com aquela cara de merda, tornava cada má decisão um tanto mais divertida. E eu estava, acreditem, fazendo com que ela visse e reprovasse cada uma delas. 
 
_Nem a pau que cê superou essa mina...
_Não enche, Lê! – ordenei, resmungando, conforme pegava dois shots de tequila do balcão.
 
Pois é. Decidi que aquela noite merecia um passe livre – mas depois duns 4 meses sem beber, bastaram dois shots para eu já estar falando alto, fora de mim, abraçando todo mundo que cruzava meu caminho. Lá pelas duas da manhã, quando o Gui chegou, atrasado e cercado dos seus amigos do teatro, pulei em cima dele com tanta empolgação que caímos os dois no chão. Entre a multidão de pés e aquele piso grudento do Vegas.
 
Quanto mais barulhenta e sem noção eu ficava, mais a Mia se incomodava. Q u e s e f o d a. A real é que, naquela noite, tinha uma hétera muito mais interessante para mim do que a Mia vinha sendo, com suas viradas de olho e cortes categóricos às minhas tentativas de integrá-la nas minhas conversas com o Fer. Era uma amiga de um amigo nosso. Uma ilustradora duns vinte e poucos anos em quem eu, após me perder por diversas vezes na boca de outras garotas na pista, tinha encanado de uma maneira que só é possível quando se tem mais tequila do que sangue correndo pelas veias e tudo parece ser uma grande epifania. Como se o nosso encontro fosse coisa do destino.
 
Mas o problema, apesar dos meus nada modestos esforços, é que ainda não tinha conseguido a beijar. Com ambas as tequilas em mãos, retornei para o seu lado num círculo de pessoas a poucos metros de onde o meu círculo de pessoas estava. Dei um dos copos para ela e viramos tudo de uma só vez. O álcool desceu queimando pela minha garganta, enquanto uma música qualquer do Billy Idol ressoava nos amplificadores da balada. Eu a olhava, insistentemente. E ela se aproximou do meu rosto, apoiando-se no meu ombro para me provocar – falando, na brincadeira, se eu a estava querendo embebedar.
 
_O que eu quero com você... – respondi no seu ouvido, já um tanto insolente – ...eu quero sóbria, que é pra lembrar de cada segundo.
 
Ela se enroscou em mim, se aproximando ainda mais, e a sua boca relou de raspão no meu pescoço. Aí sorriu e se afastou do meu rosto, desgraçada, me negando com a cabeça. É – esse era o nível de flerte que a gente estava. Mas eu gostava, puta que pariu, como gostava. “Cê já tá se achando aí”, ela disse. E eu dei de ombros, nós rimos. Volta e meia, os meus olhos cruzavam com os da Mia acidentalmente. A poucos metros de nós e cada vez mais desconfortável.
 
Qual é, garota?!
 
Na rodinha ao lado, a Lê trocava ideia com o Fer e a Thaís já tinha sumido, correndo atrás duma butch recentemente descomprometida – que mais estava interessada em fazer ceninha para a ex-namorada do que em genuinamente ficar com a minha amiga. Drama sapatão. Enquanto isso, eu e o meu probleminha da vez nos encontrávamos em mais uma rodada irresponsável, com duas cervejas em mãos.
 
Ela se chamava Patti. Tinha um piercing no septo, o cabelo preto jogado para o lado, uma mexa verde num dos lados, sotaque mineiro e umas tatuagens old school que estavam me tirando do sério. Sorria na minha direção, rindo de qualquer coisa que eu tinha falado. E eu me perdia por um segundo no jeito da sua boca. Com uma vontade desgraçada de roubar um beijo. Tomei um gole, já ultrapassando a metade da garrafa, numa tentativa fracassada de esfriar a cabeça. Não rolou. Então arrisquei, arqueando brevemente as sobrancelhas:
 
_Vamos dar uma volta comigo?
 
Ela riu, balançando a cabeça.
 
_Não dá, eu sou hétero... – repetiu, como se eu não a tivesse ouvido nas últimas dez vezes que se antecederam.
_Todo mundo é... – retruquei – ...até não ser mais.
 
E mais uma vez, ela achou graça. Começava a ganhar certo apreço por mim – acho. E eu, certa confiança. A Patti deu um gole na sua cerveja e olhou para o outro lado. Me aproximei do seu ouvido e fiz charme – “é pra eu ir embora, então?”. “Não”. “Não?”. “Fica aqui”, respondeu, esbarrando a mão na minha e eu entrelacei os meus dedos nos seus. “Então vem comigo, vai?”. “Onde?”. “Dar uma volta”. Ela balançou a cabeça, de novo. “Quero te mostrar uma coisa”, insisti. “Que coisa?”. “Vem comigo que eu te mostro”, ri e ela riu também, ainda de mãos dadas.
 
Me observou por um instante, hesitante. E aí deixou escapar um sorriso – “tá”.

Bem-vindos ao Vegas

...que comecem os jogos!

setembro 19, 2011

Isso!

“Me deve uma tatuagem :)”, digitei para a Thaís no metrô de volta. E nem um minuto depois, a resposta já estava vibrando na minha mão – “conseguiu?????”. “Sim, mano! Bora sair hj?? Chama a Le”, sugeri, descendo na estação Consolação. Coloquei o celular no bolso e subi as escadas rolantes. Assim que pisei do lado de fora, senti meu telefone vibrar de novo. Era um SMS da Lê, já devidamente informada. “PARABENS SAPATAOOOO bora comemorar”, sorri ao ler.
 
Desci a Frei Caneca num piscar de olhos. Cheguei no apartamento escancarando a porta, numa felicidade tão grande que assustei o pobre do Fernando. Ele estava assistindo TV com a Mia – desta vez, de roupa. A luz estava acesa e o cômodo bagunçado. Entrei, toda empolgada, fazendo escândalo. Pulei no sofá, me virando deitada de barriga pra cima, e apoiei a cabeça no colo do Fer. Sorrindo. Ele me olhou confuso, sem entender porra nenhuma.
 
_Então... – ri – Quem é a mais nova assistente de produção contratada?
_ERA HOJE?? – ele sorriu – DEU CERTO??
 
Levantei e ele me abraçou, na mesma hora.
 
_CÊ TÁ ME ZOANDO? JÁ É CERTEZA?!
_É! – continuei, quase gritando as boas notícias – E meu, paga bem mais! É animal! Na porra da Brigadeiro, mano, muito perto!
_Tá zoando?!
_Meu, não. É o trampo perfeito. Sério! Até a minha chefe nova é gata... – comecei a rir, acendendo um cigarro – ...começo segunda já!
_Velho, a gente tem que comemorar!
_Cê acha que não? – dei um trago – Já avisei a Lê e a Thaís, vamos no Vegas hoje. Bora?
_Fechou!
_Meu, Fer, cê num tem noção de como eu tô feliz. Tô feliz pra cacete! Sério, vou pegar aquela balada inteira hoje! – ri – Vamos arregaçar, meu.
 
Assim que as palavras saíram da minha boca, olhei inconscientemente para a Mia. E ela não pareceu gostar.
 
_Demorou! – o Fer riu, empolgado também – Vou chamar os moleques. Te pago a primeira cerveja!
 
Tirou o celular do bolso para avisar nossos amigos, como se precisassem de motivo para sair numa quarta-feira e ir encher a cara na Augusta. Digitou umas três ou quatro mensagens e guardou o telefone de novo, me abraçando mais uma vez. Aí nós dois olhamos para a Mia, ao mesmo tempo, sem querer.
 
_Parabéns... – ela resmungou, a contragosto.
 
Parecia desconfortável – com o flagra na noite anterior ou a mensagem que não respondi. Vai saber. Talvez fosse meu comentário de segundos antes. Se limitou apenas a concordar com o rolê no Vegas, sem lá muito ânimo, conforme as confirmações dos nossos amigos iam chegando no meu celular e no do Fer.