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fevereiro 18, 2012

E outras verdades

_E naquele dia, não sei... a gente discutiu, feio. Acho que... sei lá, na hora, todos os sentimentos meio que voltaram, tudo de uma vez, sabe? E não é como se a gente... digo, a gente não tá juntas, nem nada. Foi completamente do nada.
_O seu amigo sabe? – a Clara perguntou, roubando o cigarro da minha mão.
_Não. Ninguém sabe.
 
Por favor, engoli seco, a observando tragar, não me expulsa dessa cama. Era estranho contar aquilo assim para a Clara, tão abertamente. A olhava ali, com certo receio, como se a qualquer momento pudesse se dar conta do que eu acabara de lhe dizer e mudar nosso rumo.
 
_Vocês... – ela soprou a fumaça, numa tranquilidade inesperada – ...vocês tavam juntas quando a gente saía?
_Não. A gente se beijou uma vez. Quer dizer... E-eu que beijei ela, uma vez, sem muito sucesso. Mas eu já gostava dela. E era pesado para mim, tudo aquilo, naquela época. Por isso nunca te disse nada, não disse pra ninguém. Só começamos o que quer que fosse depois que eu já não tava mais com você, nos meses seguintes...
_Hum. E você acha q-que... que ela ainda gosta de você?
_Não – peguei o cigarro de volta – Nunca achei, só que agora... e-eu... – hesitei – ...eu não tenho tanta certeza.
 
A Clara abaixou os olhos, por uns segundos. E eu torci para que não absorvesse muito daquilo, do que eu estava dizendo. Não ia me perdoar se fodesse as coisas com ela por um lance com a Mia que sequer existia mais. Diz alguma coisa, a encarei, angustiada, qualquer coisa. Sem conseguir confiar no seu silêncio. Ela não disse nada, todavia.
 
_Mas, Bi... – tentei remediar o estrago – ...agora isso é uma grande besteira, meu. Não tem nada entre a gente. Mesmo.
_Hum... – me examinou ali, com o rosto ainda apoiado em sua barriga – ...e eu? O que eu era?
_Como assim?
_Cê disse que... não falou o que sentia por mim, n-na época. Bom, sei lá... – questionou – ...fala agora. Eu era o quê pra você?
_Você... – sorri – ...você era real, eu queria ficar com você. Sabe? No dia que a gente se conheceu, foi tão surreal, eu lembro de te beijar naquele canto escuro do Inferno e, meu, eu não queria que acabasse. Foi assim desde o começo. Não queria te deixar, não queria que as conversas acabassem, que a noite acabasse, que o sexo acabasse, que os beijos acabassem, queria continuar e continuar; acho que teria virado seis dias inteiros acordada com você, se pudesse. A gente sempre se deu tão bem, meu. Eu sabia que queria tá com você. Ainda quero. Você, sei lá, v-você era descomplicada. Era boa notícia, sabe, uma vez na minha vida...
_Isso é... – ela riu – ...até o Vegas.
_É... – ri também – ...até o Vegas.
 
Ergui o corpo e alcancei, num beijo demorado. Subindo sobre ela. Numa vontade sincera, minha e dela, de que aquela madrugada também não acabasse.
 
_Hum. Quem sabe... – ela sussurrou – ...talvez seja boa notícia de novo.

fevereiro 17, 2012

Sincericídio

_Hum... – murmurei – …para.
_Hum...
_Paaara... – reclamei mais uma vez, rindo – ...tá me arrepiando, meu.
_Hum, m-mas... – a Clara retrucou, com o rosto afundado na curva entre o meu pescoço e ombro, deslizando a ponta dos dedos pela minha coluna – ...é gostoso.
 
Ia me fazendo arrepiar inteira, não de um jeito bom. Reajeitei o corpo a uns cinco centímetros mais para lá no colchão, a fim de cessar a sessão-tortura. A gente estava naquele estado preguiçoso, meio aglomeradas uma na outra e submersas na cama, depois de quase cinco ou seis horas de sacanagem. Era tanta endorfina que nossos corpos estavam moles. Os lençóis bagunçados ao nosso redor, ambas numa preguiça sem fim e os olhos uma na outra.
 
_Posso te perguntar uma coisa? – a Clara murmurou, acomodando a cabeça no meu braço.
_Pode.
_Por que v-você... – hesitou – ...chorou aquele dia?
_Que dia?
_Na sua casa, uma vez que cê saiu pra levar o lixo...
 
Ah, esse dia.
 
Desconfortavelmente, a minha mente retornou à escada do meu prédio e à discussão com a Mia. Ela sabe, pensei. Talvez não soubesse quem, mas sabia que havia uma garota – porque ninguém chora assim, tão do nada, a não ser que tenha um motivo. E qualquer outro, que não uma garota, eu não teria evitado com tanta persistência. Cacete. Meu primeiro impulso foi não responder. Não queria trazer a Mia para dentro daquelas quatro paredes. Estava agradável ali sem ela.
 
O clima andava estranho entre nós, digo, eu e a Mia – ela melancólica, eu a ignorando. Cruzei poucas vezes com ela naquelas semanas. Sentia que algo estava prestes a acontecer e eu não sabia bem o quê. Olhei para o lado e a Clara continuava ali, atenta, à espera de uma resposta minha. Argh. Suspirei. E ergui o corpo para alcançar o meu maço, largado ao lado da cama. A Clara poderia ter insistido, mas não o fez. Não perguntou mais nada. E eu acendi um dos cigarros, me levantando para fumar na janela.
 
Me sentia mal de arrastá-la assim para os meus dramas, mas não tinha certeza de como lhe contar aquilo. Traguei mais uma vez, olhando pela janela. Em todo edifício ao lado, apenas uma luz estava acesa. Numa sala de estar branca, alguém assistia TV. Já era madrugada em São Paulo e a cidade inteira dormia. Não sabia bem que horas eram – meio perdida no vórtex daquele quarto bagunçado que me roubava da realidade. Sabia, porém, que em breve teria de ir trabalhar. A Clara também. Com sorte, nós íamos dormir umas duas horas. Respirei fundo e me virei para ela, ainda me observando por de trás das suas pernas descobertas.
 
_Desculpa eu ser... – passei as costas da mão no rosto, envergonhada – ...t-tão fodida.
_Não, meu... – ela soou arrependida – ...tá tudo bem, Bo. Eu é que tô sendo cretina, me metendo...
_Olha... – voltei para a cama e deitei ao seu lado, com o cigarro aceso na mão – ...acho bem mais cretino esse tipo de comentário aí, sem pé nem cabeça... – ri e apoiei o queixo na sua barriga, a olhando com carinho – ...cê num fez nada de errado, Bi. Pode me perguntar o que cê quiser, meu, sempre.
_Hum... – ela insistiu, rindo – ...fui um pouquinho cretina, sim.
_Não foi, não... – sussurrei para ela.
_Nem um tiquinho?!
_Bom, um tiquinho cê sempre vai ser... – fiz graça, tragando rapidamente – ...mas não por isso.
 
Subiu os cotovelos no colchão e ergueu-se para me encarar, indignada.
 
_Ah, é assim, então? – me empurrou pelo ombro – Fala sério, foi tão imperdoável? Vou ficar pagando pra sempre?!
_Óbvio – ri.
 
A Clara balançou a cabeça e deitou mais uma vez no colchão, mandando eu ir me foder. Eu sorri, achando graça. A admirava por ser quem era – crua e nunca óbvia. E me sentia mal por não ser sincera de volta com ela, por não estar “pagando” pela minha parte naquela história. Na nossa história. Os meus olhos se perderam no ar por alguns instantes, reflexivos. E então, se voltaram para ela.
 
_N-não... – emendei, num impulso sincero – ...a, a verdade é que não foi imperdoável. Não devia nem ter sido tão dramático assim, eu é que... q-que levei mal o lance todo. Não sei... – continuei, falando quase que para mim mesma – ...fiquei com o ego ferido, sabe? Sei lá, eu, eu gostava mesmo de você e acho que fui pega de surpresa com o lance todo do, do Vegas... – respirei fundo e a Clara me observou, com seus olhos castanhos, bonitos, deslizando as mãos no meu cabelo – ...mas a verdade é que eu... e-eu também não tava sendo completamente transparente.
_Como assim?
_Sei lá, meu. Foi uma época confusa. Eu devia ter dito que me importava, devia ter falado o que você era para mim, o que eu sentia por você e... – suspirei, criando coragem – ...e o que sentia por outra pessoa.
 
Os seus olhos estranharam, surpresos. E eu puxei o ar mais uma vez para os meus pulmões. Tá, agora vai...
 
_Sabe, quando... – fechei os olhos por um instante, hesitante – ...v-você me perguntou por que eu tava chorando aquele dia, lá na minha casa... – os reabri.
_Hum...
_A real é que eu fui... p-por muito tempo, apaixonada pela Mia.

fevereiro 11, 2012

Ella

Trocou o CD que tocava no rádio, caminhando de volta para a cama sem roupa, desinibida. Cómo decir que me parte en mil…, a cantora sussurrou e a Clara se deitou diante de mim no colchão, com os braços largados sobre a cabeça, ...las esquinitas de mis huesos; os contornos e desníveis em sua cintura, sua barriga, suas pernas enlaçadas formavam sombras sutis no decorrer da sua pele. E a desenhavam no escuro daquele quarto pequeno e constantemente bagunçado nos arredores da Sumaré. 
 
As horas passavam despercebidas ali. Suas paredes eram repletas de fotos e recortes e tachinhas e fitas e uns panos improvisados, pendurados como decoração. Numa prateleira, no canto, tinha todo tipo de tralha e umas pedras que a Clara pegou de diferentes lugares em suas viagens por aí. O frio incomodava toda vez que eu me mexia para fora dos lençóis sobrepostos, meio amassados, e parecia me impedir de sair dali. Quatro paredes e meio arapuca, entende?
 
Então eu ficava.
 
E as horas passavam. Enquanto nós dançávamos nuas, fumando baseados e conversando, à toa. Eu procurava por ela, minuto atrás de minuto, na ponta dos meus dedos, os deslizando pelo seu corpo. Nunca, nunca assim. Sexo nunca fora assim. Tão fácil, tão instintivo. O rádio continuou – …que han caído los esquemas de mi vida. E era um perigo que fôssemos eu e ela ali, naquela cama, em nossas ausências compulsivas de limite. Mas nos arriscávamos com gosto, nos insinuando, brincando de chefe uma com a outra. E eu, que interpretava a mim mesma, ia junto com ela sem resistência, encantada, a observando assumir as mais lindas formas a minha frente.
 
…ahora que todo era perfecto.
 
A música me lembrava o seu jeito, os seus caminhos. Nunca tinha escutado antes. A Clara a cantarolava para si mesma, movendo os lábios em silêncio, esparramada sobre colchão. E eu tinha vontade de estar perto dela, de novo – numa saudade dessas que não dão trégua, de encostar a minha pele na sua. Deslizei o pé até onde seus braços estavam, tocando-a de relance. E ela, afundada nos lençóis, me olhou por detrás deles. Eu sorri. E a Clara entendeu – ela costumava dizer que eu tinha cara de pilantra. Mas num é pilantragem, garota, é vontade de você. Virou o corpo e se levantou, num movimento fluido.
 
Me olhou de volta, enquanto a música continuava ao fundo. “Me cuesta abrir los ojos...”, ela pronunciou, acompanhando a letra, e sorriu. Quem tem cara de pilantra agora?, a observei a certa distância, sentada contra a cabeceira da cama. Escorregou as mãos nos lençóis e foi se aproximando, engatinhando pelo colchão na minha direção. Sem pressa, lentamente. Enquanto as palavras saíam da sua boca – “y lo hago poco a poco, no sea que aún te encuentre cerca”. Sorri, admirada pela forma como as dizia, ainda que não entendesse tudo, sem conseguir tirar os olhos dela.
 
Me desconcertava vê-la cantar assim, para mim. Os fios de cabelo deslizando pelos seus braços, pela sua pele. Cacete. Sentia o meio das minhas pernas molhar nos centímetros de antecipação entre nós. O quarto era iluminado somente por um abajur, largado ao lado da cama e coberto de qualquer jeito por um lenço vermelho. “Me guardo tu recuerdo...”, continuou, “...como el mejor secreto” – meio fazendo graça, meio me fodendo a cabeça. Sentia uma estranheza presa dentro de mim. Como se, de repente, o errado fosse certo demais.
 
E a Clara veio. Como vinha vindo. Subiu no meu colo e escorregou as pernas nas minhas – uma de cada lado e as minhas mãos invariavelmente nela, a segurando, como se fosse parte da nossa natureza. Esbarrou a lateral do rosto no meu, de leve, quase que dançando ali comigo. Com os meus sentidos, as minhas intenções. Pouco a pouco. Me provocando em cada movimento do seu quadril, dizendo baixinho no meu ouvido: “...que dulce fue tenerte dentro”.
 
Estremeci.
 
Puta merda.
 
Senti um calor tomar o meu corpo todo e respirei fundo, fechando os olhos. Num tesão na sua voz, na maneira que pronunciava aquelas palavras. Na sua língua enrolando pelas letras. Tudo. Tudo nela. Tudo naquela porra de garota ia me inebriando. Filha-da-mãe. A sua boca se demorou pela minha orelha, até a pontinha, e foi indo, vindo pelo meu maxilar. E descendo. Mais. Sentia a sua pele quente contra a minha. Os seus dedos agarravam as laterais da minha cueca e as escorregavam pelas minhas pernas. “En esta oscuridad...”, cantou, indecente. E foi me tirando tudo, a roupa, o fôlego, a sanidade, pouco a pouco. Cada segundo mais do que o anterior. Sua boca percorria a minha barriga, me lambendo, sussurrando para cada poro na minha pele – “...para prestarme calma”. Suspirei. E ela seguiu descendo, me arrancando da porra da realidade. Abriu minhas pernas e os meus olhos fecharam, todos os sentidos se abriram. El tiempo todo calma. Senti a sua língua em mim, os seus dedos. La tempestad y la calma. Cada vez mais. La tempestad y la calma. Aumentando a intensidade até me fazer interromper o silêncio da madrugada.
 
Y mojará, perdi o ar, la flor que cresce en mi.

fevereiro 09, 2012

Meia hora depois

“Mano”, digitei pra Clara assim que pisei na calçada, já do lado de fora da produtora, “qse fiz uma cagada mto grande agora!!”. Segurava o celular desajeitadamente, enquanto acendia um cigarro com a outra mão. “Ai... diz q ce ñ deu em cima da sua chefe pfvr kkkk”, ela respondeu. Tirei o cigarro da boca, depois de uma tragada curta, caminhando pela calçada da Brigadeiro – “ñ foi minha culpa, ela deu mta brecha!!”. “Como assim?? CONTA”. “Ah meu, ficou falando q ja tinha pegado mina, perguntou do q eu gostava”, equilibrei o filtro entre os lábios, me divertindo com a situação, “pra q ela foi falar isso pra mim, velho?? Qse dez da noite, a gnt sozinha la... pqp!”. Parei na esquina com a Santos, esperando o farol fechar para atravessar. Aí não me aguentei e liguei para a Clara:
 
_Meu... – ri, assim que ela atendeu.
_Então quer dizer que foi boa essa hora extra aí? – ela fez graça.
_Nossa... Cê não tem noção, tô passando mal!
_É, né – ironizou, do outro lado da linha – Muito calor por aí?
_Puta merda, Bi... – esfreguei a mão na cara – ...na boa.
 
Nós rimos. E ah, é, quase esqueci: em algum momento da semana anterior, eu e a Clara começamos a nos chamar por apelidos, numa brincadeira tonta que fazia referência a uma das primeiras vezes que saímos. O “Bi” vinha, de alguma forma, de “Björk” e o “Bo”, que ela passou a usar para mim, era uma versão encurtada de “Bowie” – ambos ressurgidos duma vez que disputamos quem ia usar a camiseta de qual artista, em frente ao meu armário.
 
Duas bobas, é. Mas, por algum motivo, tudo o que vinha da Clara não me assustava –simplesmente não incomodava. Não sei explicar. Talvez porque o nosso comportamento e principalmente a nossa falta de vergonha na cara fossem parecidos demais. Sentia que podia ser eu mesma do lado dela.
 
_Hum... – a Clara riu, mais uma vez, no telefone – E cê não quer passar aqui, não?! Dar uma acalmada esse fogo aí?
_É, então... – atravessei a rua, já indo em direção ao metrô – ...te liguei pra isso.

fevereiro 08, 2012

Certa flexibilidade

As semanas se passaram rapidamente. Àquela altura, eu já estava trabalhando na produtora há quase um mês. Mais do que jamais tinha trabalhado na vida – o que quase me fazia sentir saudades do meu emprego anterior. Quase. Não sabia se era pior morrer de tanto tédio num cargo fácil ou me acabar em um que eu realmente gostava. As horas extras eram quase diárias.
 
Numa dessas, me vi sozinha com a minha chefe, às nove e quarenta da noite. Trancafiadas numa sala terminando, no caso dela, uma pilha de orçamentos para autorizar e, no meu, uma checklist infindável para a gravação da manhã seguinte. Não trocávamos muitas palavras além do necessário. Só o meu celular vibrava o tempo todo sobre a mesa. Aí eu o checava, fazendo uma expressão séria, como se fosse de trabalho – lendo as mensagens indecorosas da Clara, me pedindo para descrever o que a minha chefe estava usando.
 
É.
 
Nos divertindo com a crush platônica que eu mantinha por aquela mulher que nunca, nem em um milhão de anos, me daria bola – sentada a menos de dois metros de mim, no seu terninho descolado, com cara de poucas ideias. E gata, puta merda. Como é gata. Eu a olhava de relance e descrevia o que ela estava fazendo, por SMS, inventando cenários em que eu a interrompia, em que chegava nela. Passavam-se meros segundos e a Clara me sugeria outras estratégias, numa sem vergonhice compartilhada. “Vou ser demitida, mano”, eu respondia, segurando o riso, “por justa causa”. E o meu celular vibrava de novo antes de tocar a mesa – “o importante eh: vai valer a pena? rs”.
 
_Então... – a minha chefe disse do nada, detrás de uma pilha de documentos, me vendo sorrir entre uma mensagem e outra – ...qual é a sua, afinal?
_Hum?!
 
Ergui a cabeça, sem ter escutado direito.
 
_“Qual é a sua”... – ela repetiu e ergueu os olhos por um instante, me encarando mais uma vez, antes de voltar a rubricar o documento que tinha em mãos.
_A “minha”?
_É... – deixou escapar um sorriso – ...está rolando uma aposta entre todo mundo na produtora.
_Que aposta?
_Se você gosta de meninos ou meninas...
 
Sorri, chuta.
 
E ela me observou achar graça. Me ajeitei na cadeira, passando um dos braços por cima do encosto, e a encarei de volta. Ainda que talvez não devesse. Não com aquela intenção toda. Meus olhos passearam pelas suas mãos – usava vários anéis prata, de diferentes tamanhos –notei manchinhas sutis no seu braço, quase como sardas, dessas que vêm com anos de sol.
 
_Não se preocupa... – ela continuou, assinando a parte inferior de uma página – ...esse tipo de comentário é comum por aqui.
_Não tô preocupada, só... – me afundei na cadeira, sorrindo – ...curiosa.
_Curiosa?
_Pra saber em qual cê apostou.
 
A minha chefe subiu os olhos novamente na minha direção e eu arqueei as sobrancelhas a desafiando a dizer, ela riu. Por um instante, senti como se dividisse um cômodo com a Catherine Keener em “Your Friends & Neighbors”, do Neil LaBute. Que era como metade das minhas fantasias começavam, de toda forma. Cacete, essa mulher.
 
_Bom... Eu acho que você gosta das meninas.
 
Deslizei mais um pouco na cadeira, a observando com naturalidade.
 
_Hum. E você?
_Eu?
_É – comecei a brincar com um isqueiro que estava sobre a mesa, passando-o entre os meus dedos, sem deixar minha atenção desviar dela – Gosta?
_De mulher?
_Isso.
_Bom, eu sou casada com o meu sócio... – respondeu, sem parecer se incomodar com a pergunta – ...há dez anos. Mas fui “heteroflexível” por um tempo, por assim dizer, quando era um pouco mais velha que você... – brincou – ...acho mulheres muito complicadas, não é pra mim.
_Olha... – não consegui evitar, numa confiança tão natural que transparecia nos meus gestos – ...se quiser, dá pra descomplicar facinho.
 
A minha chefe riu.
 
_Você parece dar trabalho às suas meninas... – arqueou as sobrancelhas brevemente, voltando a olhar os documentos que segurava em mãos.
_Eu? Não – achei graça.
 
Nem um pouco.

fevereiro 06, 2012

[ 500.000 ]


Há dois anos, começava o que se tornaria uma verdadeira saga de garotas e mais garotas e esquinas sujas e camas alheias e noites bêbadas e sexo e mais sexo e mais e mais sexo e muito drama e brigas intermináveis e caos e pensamentos imprestáveis e arrependimentos e amor, muito amor, do tipo mais gay e inevitável. Em cada canto de São Paulo, a realidade (a minha e a de muita gente) virava ficção. Atualmente, o blog Fucking Mia pode ser considerado o maior do gênero lésbico no Brasil e chegou à incrível marca de MEIO MILHÃO DE ACESSOS!

Graças às leitoras e leitores mais incríveis, lindos e fiéis. Vocês são sensacionais, meu. Demais mesmo!


OBRIGADA POR TUDO!


Um beijo,
Mel M.


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janeiro 21, 2012

Exílio

Se eu tinha uma certeza, depois de uma noite mal dormida e de um encontro indesejado com a Mia pela manhã – que me fez imediatamente dar meia volta na cozinha –, era de que eu não queria trombar com ela tão cedo. Pelos dias seguintes, então, me dividi entre a cama da Clara e o sofá da Thaís, devidamente compartilhado com o Bruce, voltando para casa de vez em nunca para pegar uma troca de roupa e fazendo valer a minha fama no trabalho. Que seja.

janeiro 20, 2012

O efeito Casimir

Entrei no apartamento e me forcei a dar um sorriso amarelo para o Fer, numa tentativa de o despistar, abaixando a cabeça enquanto atravessava a sala. Sentia o meu coração disparar. A contragosto, as lágrimas se espremiam doloridas e engasgadas na minha garganta – eu as continha. Abri a porta do quarto e a fechei atrás de mim, indo direto para a cômoda pegar o meu maço. A Clara ergueu o corpo, sentando-se no colchão. As luzes do quarto estavam apagadas.
 
Acendi um cigarro. E traguei. Não é certo, minha respiração competia com o meu pulso acelerado, dificultando encher os pulmões, não é certo, porra. Me faltava o ar, de raiva. Filha da mãe. A minha cabeça parecia que ia implodir. Não conseguia engolir a sua hipocrisia, as palavras da Mia, as minhas. Aquela confusão, de novo. E me deixava torturar, de repente, pelas possibilidades. O qu... q-que diabos foi aquilo?
 
A Clara me chamou em meio ao breu, desavisada do que acabara de acontecer. E eu deveria ter ido até ela, deveria. Por que cê não me deixa em paz?, me angustiei, sem conseguir evitar, remoendo a ousadia da Mia, por que cê tem que vir e me falar essas merdas, inferno? Minha cabeça ia a mil, entre uma tragada e outra, analisando cada uma a uma das suas palavras, de novo e de novo. Obsessivamente. Tentando em vão processar, ainda que não quisesse lidar com aquilo. Não agora.
 
Caralho, viu.
 
Mais uma vez, a Clara me chamou da cama – mas eu não conseguia prestar atenção. “Nunca disse”, a minha respiração pesou, contendo as minhas lágrimas com certo esforço, não disse, não. Não é? E não, não era justo. Não era justo comigo, com a Clara, com ninguém. Maldita. Esfreguei a mão no rosto e balancei a cabeça, soltando a fumaça pro lado, tomada por uma frustração fora de controle. O erro foi seu, garota. Coloquei o cigarro de novo entre os lábios, sem saber como me sentir. Não meu. Dei mais um trago – agora você vem, né? Agora. As lágrimas deixaram os meus olhos e eu as enxuguei, sem paciência. Depois de eu lutar para te esquecer, me forçar a não querer, a não ir atrás, me sentindo um lixo por meses, inferno –, depois do tanto que eu sofri por você, garota. Depois de todas as noites não dormidas, de tantas vezes que fui rejeitada, não. Nem a pau. Me recusava a passar por aquela merda de novo. Passei ambas as mãos no rosto, mais uma vez. Cacete. O choro me causava uma dor de cabeça instantânea. E a Clara notava – me perguntando baixinho se estava tudo bem, sentindo a tensão no ar, mas eu a ignorava, engolida pelos meus pensamentos. Meu coração se afogava. “Nunca disse isso”, repetia as palavras mentalmente e tentava, num esforço desproporcional, reter as lágrimas.
 
Mas elas vinham, indesejadas.
 
Suavemente, senti as mãos da Clara tocarem então as minhas costas. Ficando em pé atrás de mim. E a minha cabeça ficou confusa – sem saber para onde ir. Ou como voltar. Mas então ela colocou os braços ao meu redor, com carinho. Foi me aterrando, aos poucos. Você não tem direito, Mia, me amargurei e amassei o cigarro contra a parede, me forçando a contrariar dentro de mim a mera sugestão do que ela “nunca” dissera. O meu coração encolheu no meu peito. V-você, enxuguei as minhas lágrimas com rancor, você nunca me amou. E você não me ama agora.
 
Já chega.

janeiro 18, 2012

Take what you need

_FODA-SE!! FODA-SE!!!!
 
Gritei e o som ecoou pelas escadas vazias.
 
_FODA-SE, MIA!! QUE DIFERENÇA FAZ??
_P-por favor... só m-me escuta, por favor!
_Não! NÃO VOU!! EU NÃO TENHO QUE ESCUTAR PORRA NENHUMA!!! – esfreguei as mãos no rosto, transtornada – C-COM, COM QUE DIREITO VOCÊ VEM AQUI, MESES DEPOIS, ME FALAR ESSA MERDA? O QUE IMPORTA É O QUE VOCÊ FEZ, INFERNO, NÃO O QUE VOCÊ FALOU OU DEIXOU DE FALAR!! E VOCÊ... V-VOCÊ NÃO FEZ NADA!!! NADA!!! VOCÊ NÃO FEZ PORRA NENHUMA!!! NÃO TEVE A CORAGEM DE PEGAR A DROGA DO TELEFONE!! – a acusei – ME DEIXOU SOFRENDO, ME IGNOROU POR SEMANAS!! VOCÊ SABIA QUE EU TE AMAVA E NÃO FEZ NADA!!! NADA!! – vomitei cada palavra sufocada no meu peito – E AGORA VOCÊ VEM ACHAR RUIM QUE EU TÔ COM ALGUÉM?? SÉRIO?? VAI ME DIZER O QUE FAZER COM A PORRA DA MINHA VIDA?!?? COM QUEM EU TENHO QUE FICAR??!??
_Eu... e-eu sei, só... – implorou, com os olhos inchados – ...só não... n-não isso, POR FAVOR! NÃO COM ELA!!!
 
Dei um passo para trás. E senti o ódio tomar conta de todo meu corpo. Não podia acreditar que me pedia aquilo, de novo. Vem, desgraçada, vem aqui me falar merda às escondidas pra depois ir lá dar pra porcaria do Fernando. Hipócrita do caralho. Esfreguei as mãos no rosto mais uma vez, enxugando meus olhos. E a Mia ensaiou alcançar minha mão – mas hesitou. Suas bochechas também molhadas. Covarde. Me olhava como quem se arrepende antes mesmo de pronunciar as palavras seguintes.
 
_Olha, e-eu... eu sei que, q-que eu não tenho... – sua respiração atropelava a sua voz, ansiosa – ...que eu não tenho nenhum... d-direito de...
_É – a interrompi – Você não tem, mesmo.
 
Virei as costas e saí, não ia ouvir mais uma palavra.

Desencadeamento

_Oi?!
 
Eu ri, desnorteada por um segundo, como se não tivesse entendido direito. Repete.
 
_Eu não... – as palavras saíram da sua boca quase por acidente, hesitantes – ...n-não quero que você fique com ela.
_Você não qu...?! – passei a mão no rosto, relutando em acreditar na audácia – Eu?! Você não quer que eu fique com a Clara?! – levantei a voz – É isso?!
_Fala baixo, meu. Por favor.
_Cê veio até aqui pra me dizer o que eu tenho que fazer com a minha vida?? É sério isso?!? – me indignei – Olha, Mia, na moral... Por que DIABOS eu não ficaria?!
 
O meu coração acelerou. Suas mãos ainda me seguravam pelo braço e a Mia me olhava, a muito custo retendo as lágrimas – mas o silêncio a denunciava. Não tinha argumentos. Não tinha nada. Nada que justificasse um pedido absurdo daqueles. Preciso mesmo dar o fora daqui, me inquietei, já sentindo que ia perder a razão. De saco cheio daquela sua ceninha e de como ela vinha agindo. Numa falta de consideração com o que aconteceu entre a gente, sem nunca se implicar com qualquer merda que fosse e ainda se achando no direito de vir me dar esporro, de fazer showzinho na balada, de me olhar torto pelo apartamento, de me mandar mensagem de madrugada, de falar merda no meio da escada, vai se foder. Me soltei das suas mãos, grosseiramente. Não preciso disso, balancei a cabeça. Determinada a voltar para o apartamento, a deixar passar – no quarto, nas mãos da Clara. Que se dane. Me virei para abrir a porta, sentindo o meu coração na garganta. Mas, então...
 
Dei dois passos de volta, furiosa.
 
_NÃO FOI VOCÊ?! – a acusei subitamente, tomada pelo rancor – Não foi VOCÊ, Mia, que disse que queria tentar? QUE QUERIA FICAR COM ELE, PORRA?!?
_P-por... – ela murmurou – ...por favor, não faz isso.
_Me explica. O QUE VOCÊ QUER DE MIM??? – me revoltei, sentindo todas as emoções que engoli por meses voltarem ao meu peito – Me fala, caralho. NÃO FOI VOCÊ, MIA?! QUE NÃO QUIS FICAR COMIGO?!? QUE NÃO ME QUIS?!
_E-eu...
O som enrolou na sua boca, covardemente.
 
_FALA. SÓ FALA!! O QUE CÊ QUER DE MIM? O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA, PORRA?!? – senti minha voz embargar e a encarei fixamente, com um pesar horrível no peito – Você quer eu fique te esperando?!? É ISSO?? Até quando?? Pra sempre?? Que eu fique aqui presa a você, a... à merda que a gente teve e... – meu coração apertou – ...e que sequer SIGNIFICOU QUALQUER PORRA NA SUA VIDA! É ISSO?? É ISSO QUE VOCÊ QUER DE MIM, CARALHO?! Que eu fique sozinha?!? Sem você e sem ninguém... – senti as lágrimas me subirem aos olhos; merda – ...rasgando meu coração por você, MANO, TE ASSISTINDO LÁ COM ELE?! HEIN?!? É ISSO QUE VOCÊ QUER?? É ISSO QUE TE FAZ FELIZ??
_NÃO! CLARO QUE NÃO!!
_ENTÃO O QUÊ, PORRA?! – o meu coração parecia prestes a sair pela boca – O QUE DIABOS CÊ ESPERA QUE EU FAÇA?!?
_NADA! E-eu...
_POR MESES! POR MESES, MIA, CARALHO! – a interrompi; a sua falta de coragem me doía – Por meses foi só você. SÓ VOCÊ! Mas... – ri de nervoso, a olhando ali – ...mas aí eu fui na sua casa, cê lembra? E tive que praticamente IMPLORAR pra você descer, pra você sequer falar comigo, inferno! Depois de tudo que a gente passou! E pra quê?!? – a Mia abaixou a cabeça, apertando os braços cruzados em frente ao corpo, e eu subi ainda mais a voz – PRA QUÊ?? PRA VOCÊ OLHAR NA PORRA DA MINHA CARA E ME DAR UM PUTA FORA?! DIZER QUE ESCOLHIA ELE?? QUE NÃO ME QUERIA, QUE NÃO ME AMAVA?!?!
_NÃO! EU NUNCA DISSE ISSO! – me cortou, de repente, com lágrimas nos olhos.

E foi aí que eu perdi de vez a cabeça.