_O seu amigo sabe? – a Clara perguntou, roubando o cigarro da minha mão.
_Não. Ninguém sabe.
Por favor, engoli seco, a observando tragar, não me expulsa dessa cama. Era estranho contar aquilo assim para a Clara, tão abertamente. A olhava ali, com certo receio, como se a qualquer momento pudesse se dar conta do que eu acabara de lhe dizer e mudar nosso rumo.
_Vocês... – ela soprou a fumaça, numa tranquilidade inesperada – ...vocês tavam juntas quando a gente saía?
_Não. A gente se beijou uma vez. Quer dizer... E-eu que beijei ela, uma vez, sem muito sucesso. Mas eu já gostava dela. E era pesado para mim, tudo aquilo, naquela época. Por isso nunca te disse nada, não disse pra ninguém. Só começamos o que quer que fosse depois que eu já não tava mais com você, nos meses seguintes...
_Hum. E você acha q-que... que ela ainda gosta de você?
_Não – peguei o cigarro de volta – Nunca achei, só que agora... e-eu... – hesitei – ...eu não tenho tanta certeza.
A Clara abaixou os olhos, por uns segundos. E eu torci para que não absorvesse muito daquilo, do que eu estava dizendo. Não ia me perdoar se fodesse as coisas com ela por um lance com a Mia que sequer existia mais. Diz alguma coisa, a encarei, angustiada, qualquer coisa. Sem conseguir confiar no seu silêncio. Ela não disse nada, todavia.
_Mas, Bi... – tentei remediar o estrago – ...agora isso é uma grande besteira, meu. Não tem nada entre a gente. Mesmo.
_Hum... – me examinou ali, com o rosto ainda apoiado em sua barriga – ...e eu? O que eu era?
_Como assim?
_Cê disse que... não falou o que sentia por mim, n-na época. Bom, sei lá... – questionou – ...fala agora. Eu era o quê pra você?
_Você... – sorri – ...você era real, eu queria ficar com você. Sabe? No dia que a gente se conheceu, foi tão surreal, eu lembro de te beijar naquele canto escuro do Inferno e, meu, eu não queria que acabasse. Foi assim desde o começo. Não queria te deixar, não queria que as conversas acabassem, que a noite acabasse, que o sexo acabasse, que os beijos acabassem, queria continuar e continuar; acho que teria virado seis dias inteiros acordada com você, se pudesse. A gente sempre se deu tão bem, meu. Eu sabia que queria tá com você. Ainda quero. Você, sei lá, v-você era descomplicada. Era boa notícia, sabe, uma vez na minha vida...
_Isso é... – ela riu – ...até o Vegas.
_É... – ri também – ...até o Vegas.
Ergui o corpo e alcancei, num beijo demorado. Subindo sobre ela. Numa vontade sincera, minha e dela, de que aquela madrugada também não acabasse.
