(Ani DiFranco)
Estava no pior humor do mundo. Mal fechei a porta da entrada, dando
de cara com o Fer fumando um baseado no sofá – inadvertidamente vitorioso
naquela confusão toda –, e o meu telefone começou a tocar no bolso detrás da
minha calça. Conforme passava pela sala, o ergui frente a mim e vi o nome da
Mia chamando. Droga. Continuei até o
meu quarto, sem dizer nada. E atendi apenas ao encostar a porta, tentando falar
baixo para que minha voz não vazasse ao corredor.
_Já chegou em casa?
A Mia perguntou, do outro lado da linha.
_Acabei de entrar... – respondi, sentindo a minha cabeça doer –
...precisei dar uma volta, n-não sei.
_Hum.
_M-mas tá... – me preocupei – ...tudo bem por aí?
_Sim, é só que... – a Mia suspirou – ...você não, n-não subiu.
É. E isso
ainda tá me matando.
_Não, e-eu... – respondi, sem conseguir disfarçar a frustração –
...desculpa, achei melhor não. Mas aí o cara já tinha ido lá avisar...
_É. Eu imaginei...
_Bom, cê conhece o meu autocontrole, né... – forcei a piadinha, na
tentativa de aliviar a tensão – ...não sei se ia ser uma boa e... eu gostei da
conversa, Mia. Gostei mesmo... – descalcei os All Stars, deitando na cama com o
telefone contra o ouvido – ...não sei se queria que terminasse de outro jeito, de
repente eu ia e subia e fodia com tudo sem pensar, sabe?
_Sei... – ela achou graça – ...que maduro da sua parte.
_Não é? – deixei escapar um riso também.
Ainda te
surpreendo, garota.
_E você ligou por isso?
Desabotoei as calças, que me incomodavam. Ela hesitou do outro
lado da linha.
_Não, eu... t-também fiquei pensando, depois que você saiu.
_Sobre o quê?
_Ah, sobre tudo, o que cê disse. Foi... diferente te ouvir falar
assim, não sei. Achei que cê devia saber algumas coisas também... d-do, do que
eu venho passando, as coisas que aconteceram.
_Hum... – minhas mãos pausaram com minhas calças ainda no meio das
pernas, senti como se quisesse me confessar algo – ...tipo o quê?
_Tipo a, a garota que eu...
Não. Não
fala. Isso, não.
_...peguei... – o meu estômago
embrulhou, argh – ...aquele dia, c-com o Fê na festa.
Não consegui reagir, falar nada, nenhuma amenidade. Cacete.
Porque não importava o que eu decidisse, em conversas conscientes, racionais, sentada
na cama da Mia, no seu quarto, no auge da minha porra de bom senso, escutá-la
sequer mencionar a maldita me arrastava direto de volta para a sala do
Benatti. Para uma das piores noites da minha vida. Me sentia, de novo, tão mal
quanto me senti quando vi as duas juntas se agarrando naquela droga de sofá. Pior
até. Me segurei, caralho, sem abrir a boca, a ouvindo falar do outro
lado da linha.
_Quando voc... – a Mia fez uma pausa, como se tomasse coragem –
...quando você voltou com a Clara, eu... e-eu pensei muito em você. Quer dizer,
eu já... j-já tava incomodada, acho, por como as coisas tavam entre a gente...
eu e você, a, a gente era tão próxima... e te ver com outras minas, depois de
tudo, era, não sei, e-era... – aí veio outra pausa, podia imaginá-la cerrar seus
olhos do outro lado da linha – ...estranho. Mas n-nunca co... como foi
com ela. Não sei, eu, e-eu não sei o que vocês têm, mas... é diferente. Eu,
e-eu sei como você se sente... por ela e, e quando ela reapareceu, não sei, eu...
Sem entender bem o porquê, senti o meu coração acelerar.
_...e-eu senti como, como se tivesse te perdendo. Dessa vez de
verdade. E eu n-não tinha me dado conta do, do quanto não q-queria... – pareceu
buscar uma palavra, mas repetiu – ...perder você... assim. T-tudo voltou...
tudo o, o que eu tentei t-tanto esconder, ignorar por tanto tempo... voltou, me
inundando... E de repente, não tava mais só incomodada, eu tava... pensando,
sabe... pensando mesmo... em tudo... em você e como era quando era quando
a, a gente tava juntas...
Chutei o jeans pelos pés, num movimento brusco. Me sentando rapidamente
contra a parede, caralho, tentando respirar.
_...eu não sabia o que fazer, não conseguia parar de pensar no, no
quanto eu errei... no quanto eu gostava de estar c-com você. No quanto eu ainda
g-gosto de você... m-muito mais do que eu tava preparada para admitir. E-eu ia
dormir e... – sua voz tremeu – ...e tudo o que eu conseguia fazer era...
inferno, e-era chorar... e pensar na... na última vez que a gen... que você veio, aqui, que a gente foi...
lá... atrás...
Os meus olhos se fecharam na mesma hora
e a memória me invadiu – as horas contra os ladrilhos do banheiro da área de
serviço, abraçada nela, beijando cada uma das tatuagens na sua pele, a luz que
passava pela janela no box.
_...eu senti a sua falta de... de um... – se deixou marejar –
...de um jeito físico e, e... estúpido.
Ah, garota, me
contorci involuntariamente na cama, não
fala isso.
_E, e quando e-eu te vi na festa, eu... quis tanto, tanto te
beijar... só... voltar atrás, e-estar... de novo com você, porra... – pressionei
a cabeça contra as mãos, em agonia, me afogando em cada palavra que saía da sua
boca – ...e aquela, aquela menina, ela... ela me olhava como, como você me olha,
não sei, e-eu... eu tava confusa e nem sei direito o que aconteceu... e-eu tava
muito bêbada e a verdade é que eu n-nunca quis... ficar com... com outra mina
q-que não fosse v... – respirou fundo e a escutei enxugar as lágrimas – ...e-eu
só queria que... inferno, que... fosse você naquela hora, a gente,
e-eu... não queria, nunca quis te machucar, e-eu... eu sei que fiz merda e s-só
de... – começou a chorar de novo – ...de pensar que talvez eu tenha fodido
q-qualquer chance de f-ficar... com você, de novo... e-eu... n-não consigo
respirar, s...
Puta que pariu, Mia.