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junho 05, 2012

Duas coelhas...

_N-não, ele... – me enrolei – ...saiu, f-foi levar uns amigos que tavam aí.
_Hum.
 
O seu olhar oscilou, voltando para mim no batente da porta. Parada, ali, implorando para que não levasse a mal. O seu cabelo preto caía, bonito e desfiado, por cima de um cachecol com flores pequenas, indicando o frio que fazia do lado de fora. Me encarou, como se procurasse alguma explicação plausível – a que fosse – para a minha cara de culpada, ali, e a Mia logo atrás, no apartamento vazio.
 
Mas... afinal, rolou alguma coisa?!
 
Nem eu sabia dizer. Eram sempre esses momentos tão dispersos, argh. A Mia nos observava de longe e os seus olhos, os da Clara, não se enraiveceram, se manteve tranquila diante da situação. Ainda que, no fundo, eu percebesse uma constatação magoada – decepcionada comigo, com as possibilidades pouco admiráveis que o meu comportamento podia tomar. E me dava conta agora, de repente, do quanto me importava com o que a Clara pensava de mim.
 
_M-mas eu... – retomei, afobada – ...e-eu vou com você!
 
E sem saber bem o porquê, em meio a uns segundos impensados de constrangimento, me virei para ir trocar e a acompanhar – num nervosismo atrapalhado. Pedi que me esperasse dois minutos, iríamos juntas até a Ouro Fino, uma galeria de artistas e designers independentes do outro lado da Augusta. Me virei na direção do corredor, às pressas. E a Clara se surpreendeu com a decisão repentina. A Mia também.
 
Sem que eu visse, seus pés descalços se apressando no chão, a Mia me seguiu até o quarto. E fechou a porta atrás de nós. Não, não. Por que diabos você veio?, a olhei ali, angustiada. Agora é que a Clara vai pensar que tá rolando alguma coisa, porra! Seus olhos indignados.
 
_Você vai mesmo com ela??? – me questionou, num tom baixo.
 
Respondi que “sim”, começando a tirar as roupas do meio da zona que estava o meu armário. E a Mia cruzou os braços, em silêncio. Subi uns jeans rasgados pelas minhas pernas e coloquei a primeira camiseta que vi na frente, junto a um lenço palestino. Enquanto procurava pela minha jaqueta no bolo de roupas, largadas ali de qualquer jeito, a ouvi suspirar, irritada. A menos de um metro de mim.
 
Aqui. Achei a porra da jaqueta. Me virei e a Mia ainda estava lá. Por favor, só volta para a sala. Aquilo não me ajudava em nada a manter as aparências. Desviei novamente o olhar, enquanto calçava um par de tênis sujos. A Mia era incapaz de esconder o seu incômodo, cruzando e descruzando sistematicamente os braços, me observando ajeitar o cabelo amassado no espelho atrás da porta do meu armário.
 
_Sério mesmo que você vai com ela?! – sussurrou quase brava, inquieta – Agora? Assim?!
_E o que eu deveria fazer, Mia? – retruquei – Hein?! Esperar aqui com você até o Fernando voltar?
_Não foi o que eu quis dizer... É só q-que, sei lá, eu achei que a, a gente tivesse...
_Sei. Ótimo plano! – a interrompi, irônica – Só que só funciona para uma de nós.
_Não. Espera! Você não precisa ir...
 
A sua mão alcançou a minha, me segurando. Havia carinho no toque dos seus dedos, o mesmo de antes. Suspirei, tentando não me deixar afetar por cada gesto seu, e a olhei, me sentindo estranhamente capaz de ser cada vez mais sincera.
 
_Não. Não preciso ir, não preciso mesmo... – respondi, sussurrando de volta – E você também não precisa ficar com ele. Mas você, v-você fica, não é?! E enquanto você fizer o que quer, eu também faço.
 
Desviei dela, fechando a jaqueta, apressada. E a Mia me deu passagem, com os olhos magoados.

junho 01, 2012

52 ways to murder anyone

Uma tonelada – esse era o peso da minha cabeça no dia seguinte. Afundada contra o travesseiro e tentando suportar a dor, o meu estômago se retorcia. Passei mais de quarenta dos minutos iniciais daquela tarde de sábado rolando de um lado para o outro na cama, sem realmente acordar de vez, no limbo excruciante da ressaca. O meu corpo todo suado e o quarto frio.
 
Quando finalmente levantei, vesti um moletom cinza – o mais confortável do meu armário – para tentar me esquentar. Coloquei um par de meias grossas e, me sentindo ligeiramente estável, fui até a cozinha pegar um copo de água. Abri a geladeira, sentindo a minha cabeça e o meu corpo resmungarem a cada movimento. De lá, me arrastei preguiçosamente até a sala, onde me deparei com o caos silencioso daquela madrugada. O apê parecia ter sido saqueado, com copos vazios, garrafas e latas amassadas largadas por todo lado.
 
Cacete.
 
Empurrei uma jaqueta e algumas das coisas largadas sobre o sofá, despejando-as de qualquer jeito no chão. Aí liguei a TV e acendi um cigarro, demorando um pouco para achar o controle e me deitando, com a barriga virada para cima. Mudei o canal para um desenho animado qualquer. E fiquei ali algum tempo – fumando o cigarro apenas até a metade e o apagando na mesa de centro. O meu cabelo amassava-se contra o encosto e eu tinha uma das mangas do moletom apoiadas na testa. Estava tão confortável que acabei cochilando de novo.
 
Não sei bem quanto tempo se passou. Mas senti alguém acariciar levemente a minha mão, que agora pendia para fora do sofá. Num ritmo lento. Como se desenhasse com a ponta dos dedos sobre a minha pele, me despertando aos poucos. Abri os olhos e foi quando a vi ali, a Mia. Sentada ao pé do sofá, só de blusão no chão da sala. Tinha a cabeça apoiada no braço, dobrado sobre o trecho do sofá perto das minhas pernas.
 
Ei, você..., sorri instintivamente.
 
Suas mãos acariciavam as minhas, no pequeno espaço descoberto do meu antebraço – o sofá tinha repuxado o meu moletom. A outra manga cobria parcialmente os meus olhos, com o braço largado sobre a testa – e eu a observava dali, por debaixo do pano. Desacostumada a receber carinho dela assim. Ia deslizando dois ou três dos dedos pela minha pele, despreocupadamente. E eu assistia, um pouco fora da realidade. Mas onde tá o..., a ficha me caiu de uma só vez e eu arregalei os olhos.
 
_Puta merda – me ajeitei no sofá, às pressas, tirando o braço do seu alcance, me dando conta de onde estava. E com quem.
 
A Mia levantou a cabeça, como se despertasse junto comigo, num susto.
 
_Que foi?
_O, o que v-você tá fazendo?! – me alarmei, sussurrando na sua direção – Cadê o Fer?!
_Relaxa... – ela riu, trazendo novamente a minha mão para perto de si – ...ele saiu, faz um tempo já. Foi levar o Igor e o Rafa lá em Tiradentes.
 
Encostei o corpo de novo contra o sofá e... e não sei bem por que, mas deixei que as suas mãos continuassem na minha. Não pensei, não sei. Ela analisava meus dedos com carinho e eu me sentia fora do ar. Estranha. Ali, com ela. A ressaca parecia me prender contra aquele sofá, me impossibilitando de mover. Olhei para a Mia por um instante, me segurando com tanta ternura, e, não... não faz isso, porra.
 
Argh. Meu coração cansado bateu mais fraco. E apesar da angústia que se manifestou silenciosamente, quente na minha pele, por baixo dela... nas minhas veias... eu não desviei o olhar. Meus olhos seguiram os dedos dela. A verdade é que parte de mim gostava. De cada pequena atitude da Mia. O problema era a outra parte – a que gritava nos meus ouvidos, suplicando para eu me afastar dela. Não tinha condições de voltar ao que fora no passado. Você não faz bem para mim, garota. Mas lá estava ela, tão confortável comigo, ali, que, por algum motivo, deitada naquele sofá, eu não conseguia tirar a minha mão das suas.
 
_Não acho que a gente devia tá assim... – murmurei.
_Por quê?! – a Mia se debruçou de leve sobre o sofá, quase tão sonolenta quanto eu – Se alguém chegar, falo que tava só agradecendo... pelo beijo.
_Sei... – sorri.
 
Ela colocou a cabeça apoiada sobre a minha barriga e ajeitou o cabelo atrás da orelha.
 
_E me diz, como... – a minha voz se arrastou, curiosa, afundada no sofá – ...c-como você conseguiu que a sua amiga m-me desafiasse?
_Eu pedi.
_Ela não achou estranho?!
_Não. Disse que sempre tive curiosidade... – a Mia se constrangeu, falando em tom de segredo – ...mas que preferia que fosse você, que eu já conhecia. E ela topou.
_Nossa, cê não tem noção de como eu quis te matar ontem...
_Eu disse para ela não contar pro Fê que eu que tinha pedido.
_Sei – achei graça – Muito esperta voc...
 
A campainha tocou de repente, nos interrompendo. Nos afastamos imediatamente, num gesto automático. E o seu olhar buscou o meu, sem respostas. Mas... Espera. O Fer esqueceu a chave?, estranhei. Me levantei, passando por cima do braço do sofá, indo em direção à porta. A Mia continuou no chão. Tentei virar a chave na fechadura e só então notei que já estava aberta – então girei a maçaneta. E dei um passo para trás, o que diab...?
 
Era a Clara.
 
_E, e aí...?! – a cumprimentei, confusa – O q-que cê tá fazendo aqui?
_Te acordei? Ia dar uma passada lá na Ouro Fino para comprar umas coisas e aí pensei em te chamar para ir junto. Ia te mandar mensagem, mas como cê tava sem celular... – ela riu e olhou por cima do meu ombro.
 
A sua expressão mudou na mesma hora, merda. A Mia estava sentada no chão, só de blusão, nos olhando.
 
_O Fer... – a Clara tornou a me encarar, hesitante – ...tá aí?

maio 31, 2012

Velhos amigos

_E aí, rockstar... – o Marcos me zombou, acendendo o próprio cigarro, e eu revirei os olhos – ...relaxa, não vim aqui para te encher.
_Sei.
_Cara... – ele riu da minha amargura – ...cê gosta mesmo dessa mina, hein?
_E-eu nã... – suspirei – ...não vou discutir isso com você.
 
Balancei a cabeça e fechei os olhos por um instante, apoiando contra a parede. Por favor, só me deixa em paz, expirei pelo nariz. E nem era como se o Marcos estivesse sendo escroto – pelo contrário –, surpreendentemente estava mais de boa do que o vira agir em meses. Mas, , sob a influência dos infindáveis comentários idiotas dos meus amigos nas últimas horas e de todo álcool que corria pelas minhas veias, o meu julgamento já não tava lá dos melhores. E tudo o que eu queria naquele momento era esquecer da Mia e daquela porra de beijo.
 
_Olha, não vim te atazanar, mas cê é foda também... – deu um trago ao meu lado – Não sei como o Fer não percebe, na boa...
_Não tem o que perceber – soltei a fumaça também e apaguei a bituca do meu cigarro no chão, sem paciência – Não tem mais nada entre a gente.
_Não?! E aquilo na sala foi o quê, então?!
_“Aquilo” o quê, mano?!
_Como “o quê”?! – sua voz ecoou no corredor – Cê beijou a porra da mina na frente de todo mundo!
_Ah, Marcos, vai à merda! – estourei – Era só brincadeira. Brincadeira, caralho!
_Cê vai mesmo me dizer que aquilo foi na brincadeira?!
_Claro que foi, porra! Não tive nada a ver com aquela merda! – gesticulei, indignada – Foi outra mina que desafiou!!
_Quem? – ele riu, agora sim, com a mesma atitude de merda dos últimos meses – A amiga da Mia?! Tá bom, então.
 
Para quem não veio me encher até que tá enchendo bastante, né?
 
_Olha, eu não preciso ouvir isso, na boa... – me irritei – O que é agora?! Hein? A porra da teoria da conspiração??
_Teoria da consp... – ele mesmo se interrompeu, ridicularizando – ...cara, cê tá com culpa estampada na sua testa! Se toca!! Só o jeito que, q-que cê OLHA para ela, meu... Nem a pau que vocês não tão se pegando!!
_Não, sinto muito te desapontar. Acabou – retruquei – Ela escolheu ele. E eu, e-eu tô feliz com outra mina.
 
Ele me olhou, descrente, com uma expressão de dar nos nervos. Tão arrogante – e eu já tão fora de mim – que tive vontade de acertar uma no meio da sua cara. Babaca. Entretanto, me segurei.
 
_Olha, eu não espero que você entenda... – resmunguei – ...não mesmo, Marcos.
_E o que tem pra entender?! – franziu as sobrancelhas, levemente exaltado – Meu, como você consegue?! Morar com o cara assim, olhar na cara dele todo dia, mano, escondendo uma parada dessas!
_Fala baixo, porra! – murmurei de volta – E cara, já disse que não tem nada rolando. Nada!
 
Na mesma hora, escutamos a porta se abrir. Virei para trás e vi o Benatti cambaleando para fora do apartamento, acompanhado de uma garota que eu peguei na época de colégio, indo juntos para a saída de incêndio – onde a Thaís também tinha se metido com a crush dela. Me preparei para levantar também e, antes que eu pudesse sair do alcance, o Marcos resmungou:
 
_Olha, é bom mesmo não tá rolando nada... – deu mais um trago, sem me encarar diretamente – ...porque o Fernando gosta mesmo da Mia e cê tá ligada. 
 
Revirei os olhos e dei as costas para ele, entrando de novo no apartamento. Quem ele pensa que é para me dar esporro? Uma olhada rápida na sala, em meio àquele caos, e imediatamente me irritei com aquela droga de festa interminável. Foda-se essa merda também. Andei até o meu quarto, num mau humor terrível, me trancando ali. E em algum momento, apaguei.

maio 25, 2012

Os valores modernos

Podia sentir todos os olhos em nós, mesmo com os meus fechados. Expostas ali, pela primeira vez – em meio aos sons exagerados da festa, o rádio gritando e as pessoas que nos rodeavam, bêbadas, atentas a cada gesto nosso. Avancei no vazio. E as nossas mãos se encontraram sobre o piso de madeira, as pontas dos meus dedos tocaram os dela, assim, de leve. E a minha pressão caiu na mesma hora.
 
Não, me retraí. Não posso d-dar bandeira.
 
Dei-me conta de que não sabia como beijá-la assim. Em público. Não sabia o que não fazer. Confusa do bancar ou não na frente de todo mundo – porque, se por um lado eu não podia me conter demais, perigando transparecer o quanto aquilo me afetava; por outro, também não podíamos demonstrar intimidade. Na forma como nos segurávamos. E logo me dei conta de que eu não sabia como fingir desconhecimento. Da sua boca, do seu ritmo, de como inclinar a porra da cabeça, de como me encaixar nos movimentos dela, inferno. Tudo isso, em milésimos de segundo, passou pela minha mente – milhares de pensamentos revirando meu cérebro, o meu estômago. Argh.
 
Embriagada e ainda com os olhos fechados, podia sentir a Mia sorrir a meros milímetros do meu rosto. Tá se divertindo, desgraça? Fui me aproximando, me inclinei para frente, cacete. Cacete, cacete. Até os nossos lábios, enfim, se tocarem. Puta merda, tá acontecendo mesmo. O nervosismo desceu meus braços, lambendo meus ossos e se espalhando pelas minhas mãos, plantadas no chão. Agora menos firmes do que um segundo antes. Mas então a Mia entreabriu a sua boca e o seu gosto se fundiu naturalmente em mim.
 
De repente, tudo era como sempre fora. Fácil, instintivo. Nosso. A sala, o som do rádio, tudo ao redor se tornou líquido num instante – a Mia a única coisa sólida restante, real, e meus dedos tomados pela vontade de a tocar, de me agarrar à sua presença, agora tão palpável, concreta. Durou quatro, seis segundos no máximo. O suficiente, no entanto, para empurrar a Mia com tudo de volta à minha realidade – me lembrando de todos os beijos que eu ainda tinha guardados para ela dentro de mim. Como é difícil te negar, garota.
 
E quando acabou, reabrimos os nossos olhos e nos encaramos rapidamente. Inferno. O que diabos estamos fazendo? O constrangimento cobriu meu rosto. E eu tentei não a olhar por tempo demais, abaixando logo a cabeça. Forcei uma expressão de revolta – “eu vou matar todos vocês”, reclamei em voz alta. Todo mundo na roda riu. Minhas bochechas ainda queimando. Nos afastamos, engatinhando ao revés até voltar para os nossos devidos lugares, num teatro até que convincente. E assim que sentei de novo, o Fernando abriu a boca:
 
_Quer dizer, então... – fez graça, tragando um cigarro – ...que agora eu posso dar uns beijos na Clarinha?!
_N-não ouse, babaca!
 
O ameacei. E no segundo seguinte, um copo plástico voou na sua direção das mãos da Mia, com um resto qualquer de bebida. Ele riu e se curvou, sendo atingido na altura do ombro. Todo mundo riu também. A situação parecia que seria esquecida logo, sucumbindo entre os demais desdobramentos da festa e passando despercebida – mas é claro, claro, que não acabou aí. Ah, não. Não. Os idiotas dos nossos amigos não iam deixar tão barato assim. Madrugada afora, pelas horas seguintes, fizeram questão de me atazanar incansavelmente por causa daquela porra de beijo.
 
_Mandou bem, hein... – um dos nossos amigos comentou por cima do meu ombro, me alcançando no corredor – ...pegou e com aval ainda.
_Cala a boca, Igor.
_Quê?! – retrucou, achando graça – A Mia é mó gata, meu.
_QUAL O SEU PROBLEMA?!?
 
Desviei do idiota, encerrando aquela “conversa”, e entrei pela porta da cozinha. Mas não importava aonde fosse, eu não conseguia fugir. Em todos os cantos daquela merda de apartamento, tinha algum engraçadinho com um comentário a respeito do maldito beijo. Haja paciência. E se não eram os meus amigos cara-de-pau, era a Mia – quem eu pretendia, sim, evitar pelo restante da festa. Para não levantar mais suspeitas. Não tô podendo.
 
Lá pelas tantas, saí no corredor do prédio para respirar em paz por um segundo. E vi a Thaís mais adiante, perto do elevador, conversando com quem presumi ser a Ju. Uma butch gorda e forte que tinha um undercut com topete, desses meio anos 50. Puta merda. Rapidamente entendi todo o nervosismo da minha amiga em falar com ela – a mina é gata mesmo. Sorri ao ver as duas ali e sentei ao lado da porta do apartamento, com as costas apoiadas na parede. Acendi um cigarro e estiquei as pernas, aliviada por ter um momento tranquilo.
 
Foi quando alguém abriu a porta do apê, deixando o som da festa escapar para o corredor. Virei o rosto para cima para ver quem era e dei de cara com o Marcos, com a mão ainda na maçaneta, fechando a porta atrás de si.
 
_Ah, maravilha... – murmurei, irônica – ...era só o que faltava mesmo.
 
Ele riu, tendo ouvido parte do comentário e captando minha empolgação. Bati as cinzas do cigarro no chão, sem paciência para ouvir sermão, e ele se sentou ao meu lado, me olhando rabugenta ali. Por que diabos eu fui aceitar esse desafio?

maio 24, 2012

Coação

Fiquei sóbria na mesma hora.
 
_O, o q-quê? – o meu coração congelou, merda – Nã... n-não!
_Vai. E ó, beijo de verdade! – a loira insistiu, se divertindo – Num é pra vir com selinho!
_MANO, NÃO! TÁ LOUCA?
_BEIJA LOGO! – alguém gritou no meio da roda.
_N-não, não... – me atrapalhei, suando frio – Não, gente, e-eu...
 
Inferno.
 
Não conseguia me mover, sem saber como diabos reagir àquilo. Puta merda. Olhei para a Mia e ela sorriu descaradamente – argh, sabia, isso tem dedo seu. Maldição. Mas e-eu, não, eu não podia. Senti o desconforto subir pela minha espinha, ameaçando expor cada segredo que eu guardava trancado no peito, agora foi longe demais, porra. Olhei então para o Fer, atordoada, procurando qualquer saída ou resposta de que merda eu deveria fazer. Mas ele estava chapado demais para sequer registrar o que estava acontecendo – e me preocupava que tivesse um lapso de consciência tardio no dia seguinte.
 
_Meu, n-não, não dá... – retomei, ansiosa, encarando a mackenzista – ...é, é sacanagem, mano.
_É só um jogo, velho! – ela desdenhou e a Mia achou graça, ao seu lado, se entretendo com a minha hesitação – Só beija duma vez!
_N-não! Não.
_Que tem?!
_Como “o que tem”?! – me exasperei – É... a, A... NAMORADA DO MEU MELHOR AMIGO, CARALHO!
_AH, QUAL É! – o Benatti resmungou, sentado ao lado do Fer – Vai dizer que nunca passou pela sua cabeça?! – zombou.
_NÃO! Eu n-nunca f.... – gaguejei, forçando uma expressão séria.
_AAAAHHHHHHH, TÁ!
 
A festa inteira gritou junto.
 
_QUÊ?! Cara, não é assim – fuzilei todos de volta, puta – NÃO MESMO!
_VAI LOGO, CARALHO... É SÓ UM BEIJO!
_É. É só um beijo, cara... – a Thaís falou baixo, me empurrando com o ombro – Se enrolar, é pior. Só vai lá!
_Mano, e-eu... – traguei o baseado, numa tentativa angustiada de pôr a cabeça no lugar – ...e v-você?! Não vai fazer nada, porra?!
 
Mas a Mia só me olhou de volta do outro lado da roda, rindo, é claro que não. Desgraçada. Meus amigos, os dela, a porra do Fernando, todo mundo me encarava, esperando. O meu coração acelerou, angustiada – não tinha como fugir.
 
_N-não sei, e-eu... – tropecei nervosamente nas palavras e aí olhei para o Fer, como se lhe pedisse permissão – ...e você, vai me matar amanhã ou o q-quê?!
 
Ele riu, em negação, balançando a cabeça e erguendo as mãos – como se dissesse “vai em frente”. Bêbado de merda. Então era carta branca, agora não tinha mais volta. Passei o baseado para a Thaís segurar. E sentindo as minhas mãos tremer, as coloquei no chão. Insegura, comecei a engatinhar roda adentro. Droga. A Mia se aproximou também, engatinhando até mim, na frente de todos nossos conhecidos. Nos encontramos no centro da roda e eu a olhei com toda a indignação que podia concentrar num só gesto, apertando as pálpebras na sua direção. Filha-da-puta. Todo mundo nos observava. A desgraçada fechou seus olhos, ainda rindo, e eu me vi obrigada a fechar os meuso meu coração prestes a sair pela boca.
 
Puta que pariu.

maio 23, 2012

Caos

Aconteceu nem duas horas depois, me pegando de surpresa. Estava distraída, molhando o dedo na ponta da língua. Um lado tá indo mais rápido que o outro, notei. Mas aí algum amigo imbecil passou e tropeçou nos meus pés, largados adiante, atrapalhando o procedimento.
 
_OLHA ONDE PISA, PORRA! – reclamei.
 
Estava deitada no chão da sala, completamente bêbada, com a cabeça no colo da Thaís. Com o indicador ainda úmido, percorri meio perímetro do meu baseado, logo abaixo da linha que queimava, tragando e tentando corrigir a trajetória da brasa. Estava todo mundo frito. Outras pessoas se acumulavam sentadas ou caídas à nossa volta, a maioria envolvida num jogo idiota.
 
De repente, alguma coisa vibrou na parte de trás da minha cabeça.
 
_Cara... – minha amiga, cuja perna me servia de apoio para a nuca, me cutucou – ...olha isso, mano.
 
Olhei para cima e vi a tela do seu celular com a mensagem da Ju, a tal da mecânica com quem ela estava flertando há dias. O SMS perguntava se a Thaís estava acordada. É, às 3 da manhã. Mas nenhuma das duas tomava a iniciativa. Não é possível isso, revirei os olhos, já irritada com aquele lenga-lenga. Dei mais um trago, acertando por fim a linha da brasa, e segurei a fumaça por bem mais tempo do que o recomendável com o tanto de álcool que eu tinha no sangue. A combinação não me fazia bem. Ou talvez fossem os excessos. Me levantei com certo esforço, sentando ao lado da Thaís, em frente à roda que se formava aos poucos no chão da sala, e estiquei a mão para que ela me passasse o telefone.
 
_Dá. Deixa eu responder! – pedi, com o baseado ainda na boca.
_Nem a pau! – ela riu, enquanto eu tentava tirar o celular das suas mãos – Para, mano, cê vai foder com tudo!
_Cala a boca! Não vou, não! – argumentei, ofendida, e ela continuou se esquivando – Me dá!
_Não! Sai pra lá!
_Velho, CHAMA ELA PRA VIR AQUI!
_Assim?? No meio da madrugada?!?
_ELA QUE TE MANDOU MENSAGEM, THAÍS, PORRA! – consegui pegar o telefone, finalmente – Vai. Confia em mim, meu. Deixa eu fazer! 
 
A Thaís esfregou as mãos no rosto, nervosa, enquanto me observava digitar. “Me passa isso aí então”, pegou o baseado, como se estivesse prestes a se arrepender. Troquei quatro ou cinco mensagens com a mina e, em menos de três minutos, já estava passando a porra do meu endereço para ela vir. “Frouxa”, zombei a Thaís, devolvendo o celular, depois de fazer todo o serviço por ela.  
 
Apoiei as costas de novo na parede e, num impulso inconsciente, olhei rapidamente na direção da Mia. Ela estava sentada do outro lado da sala, perto de duas amigas suas do Mackenzie. Já tinha descalçado os coturnos e estava com o cabelo bagunçado, a área onde minha mão tocou sua cintura ainda vibrava quente na minha pele. Dei mais um trago lento no baseado, a observando ali. E bem nesse instante, o olhar da Mia cruzou o meu. Estavam levemente vermelhos os seus olhos, como os meus provavelmente. Ela sorriu. E balançou a cabeça – como se ainda não tivesse me perdoado pela lavanderia.
 
Me diverti, arqueando as sobrancelhas para ela – com raiva?
 
Uma movimentação no meio da roda nos distraiu. O Benatti levantou falando alto, desafiando o primo a virar quase um quarto duma garrafa de vodka. Esse jogo é uma imbecilidade, puta merda. Meus amigos estavam se provocando aleatoriamente – inventando um desafio mais estúpido que o outro – e o da vez era beber aquela vodka barata, que circulava de mão em mão ali, até atingir a marca do logo impresso na garrafa. Não tinha chance daquilo ia acabar bem.
 
_MANO, NÃO. DEIXA DE SER IDIOTA! – me intrometi na roda, enquanto todo mundo opinava ao mesmo tempo – CARA, CÊ VAI PASSAR MAL!
 
Mas “o cara” levantou, se metendo a macho, e todo mundo começou a encorajá-lo a virar logo. Aos gritos. Vamos mandar o povo pra casa de ambulância hoje, meu deus. O infeliz meteu o gargalo na boca, virando verticalmente a garrafa e bebendo de uma só vez. A vodka descia como água em galões de bebedouro, dava para ver as bolhas de ar subindo. Balancei a cabeça, desistindo dos meus amigos.
 
Essas brincadeiras sempre começavam com besteiras – eu mesma fui obrigada a dar em cima de um cara desavisado uns minutos antes. Aí o álcool ia progressivamente piorando o nível das apostas. O Fernando, por exemplo, sempre acabava abaixando as calças em algum momento. E agora lá estava ele, uns metros mais para lá na roda, enchendo a cara, lata atrás de lata, e incentivando o primo do Benatti a dobrar a porra da meta. Sem chance. O cara mal conseguiu chegar na marca do logo antes de cuspir metade da vodka para fora. Na boa, qual é o propósito da nossa geração?
 
Todo mundo entrou em surto, berrando que não tinha valido, enquanto o cara brigava com o Benatti, dizendo que tinha chegado até a marca, sim, um empurrava o outro, num desaforo amigável, e eles riam. Eu assistia aquele caos, tragando o meu baseado ali, na minha, enquanto todo mundo gritava fora de si. E foi nisso que uma das garotas perto da Mia me chamou, fazendo com um gesto com a cabeça:
 
_Ei, você! – a loira do Mackenzie disse na frente de todo mundo, do outro lado da sala – Duvido cê beijar a namorada do teu amigo. Pega a Mia aí!

maio 20, 2012

Kiss me now that I'm older

“I won't try to control you
Friday nights have been lonely
Take it slow, but don't warn me”
(The Strokes)
 
_Pra quê?
 
As palavras deixaram minha boca antes que eu pudesse evitar, em tom de desafio. E a Mia sorriu de volta. O seu vestido se amassava contra o meu tênis e o tecido formava curvas ao redor. Forçou o corpo suavemente na minha direção, os olhos ainda fixos em mim, se movendo em milímetros quase imperceptíveis – distribuindo o seu peso contra o meu. Nuns avanços sutis.
 
_O suficiente para deixar... – deslizou os dedos pelo meu jeans, sua voz baixa me atraindo para perto – ...você fazer o que quiser.
_Ah, é?
 
Arqueei a sobrancelha e ela acenou com a cabeça. A empurrei mais para trás com a perna, fazendo com que recuasse um passo. E coloquei o pé de volta ao chão, aproximando o meu corpo do seu. Minha mão tocou instintivamente a sua cintura, sentindo suas curvas se acomodarem sob minha palma. Seu calor sob as pontas dos meus dedos. Uma vibração sutil contra a minha palma, crescendo junto com a proximidade, denunciando a tensão que despontava dentro dela – a apertei mais força.
 
_E quem disse... – colei o rosto no seu, sussurrando – ...que eu quero fazer alguma coisa com você?
 
O ar morreu na sua boca. Seu peito oscilou num suspiro e eu a soltei, deixando a lavandeira. Voltei para a festa e a Mia ficou parada ali, em pé, provavelmente me odiando – mas, ah, não tanto quanto eu estava prestes a odiá-la.

maio 19, 2012

Revide

_Eu?! – a Mia riu, ofendida – Por quê?
_Porque eu, e-eu não... me c-confio... com v-você... – continuei apoiada contra a parede, atropelando as palavras – ...sozinhas aqui... – lutava contra a embriaguez, meus olhos fixos nela – ...e, e você s-sabe, Mia.
_Hum. E você acha que eu... – ergueu a sobrancelha, se divertindo – ...me aproveitaria da situação?
 
Atrás dela, a porta entreaberta dava visão para algumas pessoas conversando e se movimentando na cozinha. “Vai à merda”, respondi. Acho. O som da festa entrava pela fresta, barulhento. A Mia sorriu e aí deu um passo na minha direção, de propósito. Não começa isso, vai, garota. A observei, sem força de vontade para controlar os meus impulsos. Podia ver conforme os seus pés foram se mexendo no chão, se aproximando. E o meu coração acelerou. Inferno.
 
Olhei-a fixamente, cada vez mais perto. A sua desobediência me instigando. Para. Subi um dos meus pés, aquele All Star imundo, até o meio do seu vestidinho preto. E a segurei, mantendo a distância entre nós. Se comporta aí, diabo de mulher. A Mia começou a rir, indignada. Forçou a barriga contra a sola do meu tênis, como se testasse que estava de fato lá, a impedindo de avançar. E eu a encarei de volta, erguendo o queixo. Numas conversas inteiras sem abrir a boca. Como duas crianças no meio da lavanderia. Ela mordeu os lábios, frustrada. E eu estiquei ainda mais a perna, a afastando mais adiante por precaução.
 
_Isso é ridículo... – ela exclamou.
_...ah, eu n-não ligo...
_...realmente patético...
_...não dou a m-mínima, Mia...
_...vai, me solta...
_...n-não...
_...escuta, achei que cê tava toda segura aí, que sabia o que queria, que agora era diferente... – me provocou, seus olhos buscando sinais de fraqueza nos meus – ...que não gostava mais de mim.
_...pode falar o que quiser, vou continuar com o pé aqui, n-não tô nem aí...
_...não?! – forçou novamente o corpo na minha direção e eu cedi um pouco, dobrando a perna, só para ver o que ela fazia; puta merda, como cê é bonita – ...e me conta, hein, quem é que tava tirando a roupa pra você hoje no quarto?
_Não é da sua conta.
_Ah, não?!
_Não – estiquei de novo a perna, a afastando mais uma vez de mim.
 
A Mia riu, contrariada. Tudo nela me tirando a concentração, filha da mãe.
 
_Hum – se divertiu – Aposto que era a Clara, quem mais, ?
_Já falei. Quando for da sua conta, eu te aviso... – pisquei na sua direção, a provocando de volta.
_Me diz, quanto você bebeu hoje, hein?
_Quanto você bebeu? – retruquei.
 
Ela me encarou, seu olhar quase me tocando fisicamente.
 
_O suficiente.

maio 18, 2012

12:51

Desde que prometi para a Marina que ia pegar leve, beber significava só uma cerveja aqui e outra ali. O problema é que toda vez que eu decidia virar um pouco mais do que isso, como na noite do Vegas e na madrugada depois da peça do Gui, eu acabava tremendamente bêbada com bem, bem pouco – era um fenômeno. E apesar de não ter bebido nem metade do que costumava em outros tempos, àquela altura na festa eu já estava completamente fora de órbita.
 
O meu jeans já tinha secado e ganhado novas manchas úmidas de cerveja incontáveis vezes, num misto de descoordenação embriagada com uma incapacidade de andar direito por aquele apartamento lotado. Cortei caminho entre as pessoas que se acumulavam entre nossas paredes até alcançar a nossa cozinha igualmente cheia. Meu deus, quando foi que convidamos tanta gente? Roubei uma garrafa de whisky da mão de uma garota que eu desconhecia, dei dois goles bem espaçados e a menina arregalou os olhos pra minha falta de limites com a propriedade alheia.
 
_E você é...?
 
Ela esticou a mão para que eu lhe desse a garrafa de volta.
 
_A dona da casa... – devolvi para ela e sorri – ...prazer. E você, hein?
_Hum. A namorada dela – fez sinal com a cabeça para uma outra menina, a alguns metros dali, e desviou de mim, levando consigo a garrafa.
 
Droga.
 
Não dava a mínima para qualquer uma daquelas garotas – mas que deixasse a porra do whisky. Dei mais alguns passos cozinha adentro, cansada de só beber cerveja pela última meia hora, numa tentativa enjoada de cortar os efeitos dos shots de duas horas antes. Não aguento mais, preciso tomar outra coisa. Cambaleei com certa dificuldade até a geladeira, sem muitas esperanças, para ver se o meu rum seguia intacto ali. Nada feito. Maldição. Fechei a porta novamente, apoiando a testa na parte de cima do refrigerador. E senti a minha cabeça girar, desacostumada a beber assim nos últimos tempos. No segundo seguinte, meu estômago nauseou e me deu uma vontade desesperada de mandar todo mundo embora para poder abraçar a privada em paz. Me virei e, no entanto, dei de cara com a Mia, parada atrás de mim como se quisesse falar algo.
 
_V-você acredita... – desembestei a falar, arrastado – ...que tem uma s-sapatão nessa festa que, q-que eu não conhecia?
_Quê?! – ela riu.
_É! Sabe, q-quando você... a-acha que já... “viu” ou, s-sabe, com... c-com todo mundo...
_Meu, você não tá fazendo o menor sentido! – a Mia achou graça na situação e eu me apoiei nela para ir até a lavanderia, guiando o caminho desajeitadamente.
_N-não... – concordei, quase caindo – ...não tô mesmo.
 
Dei alguns passos tortos na direção da área de serviço e ela me seguiu, trombando em algumas pessoas até chegarmos lá. O seu ombro me servia de apoio, apesar de ela estar quase tão fora de si quanto eu. Abri a porta daquele cubículo-com-máquina-de-lavar, nos livrando da multidão caótica, e me soltei da Mia para segurar as beiradas do tanque. Deixei minha cabeça pender, inclinando o corpo. Os fios do meu cabelo escorregaram pela minha testa, soltos no vão entre eu e aquele ralo largo de plástico. E... Nada. Respirei fundo, tentando assumir conscientemente o controle do meu corpo, e expirei com calma. Vamos lá, preciso vomitar. A minha cabeça rodava por dentro. Cacete.
 
A Mia achava engraçada a minha determinação e eu fechava os olhos, a ignorando e me esforçando para gorfar. Já fiz isso mil vezes, qual é, porra, tentava me concentrar. Mas... não, não consigo. Ergui o corpo novamente, dando-me por vencida, e larguei as mãos das bordas frias do tanque. Dando um passo para trás, meio instável, me virei na direção da Mia. E apoiei na parede, a olhando ali – pela primeira vez de fato, naquela noite.
 
Ela sorriu no breve espaço entre nós, mais segura do que o usual. Segura de quem era para mim. A minha respiração oscilou, agora um tanto desnorteada. Estava com o mesmo vestido preto que usou na primeira noite em que dormimos juntas, no dia que fomos no show no Itaim – só que, desta vez, com uma meia-calça rasgada por baixo da barra curtíssima. Cogitei por um instante se era intencional. Tinha o cabelo solto e os pés metidos no seu coturno surrado, estava bonita, é. Inferno. Bonita pra caralho.
 
_Ok, v-você... – apontei o dedo para ela – ...você p-precisa sair daqui.

maio 17, 2012

Batgirl '97

_Quê que tá pegando aqui? – o imbecil do Benatti enfiou a cara no vão da porta, bêbado, esbarrando no Fernando.
 
Eu mereço isso.
 
_Tá rolando strip, cara... – o Fer riu.
_E tá de roupa por quê?
_Não tá rolando nada! – revirei os olhos imediatamente – CAI FORA, VAI! OS DOIS!
_Não, seu idiota. Ela tava assistindo outra mina aí! – o Fer explicou, se recusando a sair, achando graça – É por isso, né, que cê não vai lá com a gente, cachorra!
_Eu não tava assist...
_PORRA, E NEM CHAMA OS IRMÃO! – o Benatti me interrompeu, falando alto.
_Não, fala sério... – me dirigi então ao meu “melhor amigo”, já puta da vida – ...olha aí o que você fez, Fernando!
_Quê?! – ele riu, chapado – CÊ TAVA MESMO!
_Mano... OS DOIS, FORA! JÁ! SAI!! Vai, vai...
 
Bem nessa hora – porque, claro, a situação não poderia ficar melhor –, a Mia se juntou aos dois babacas, passando pelo corredor e colocando a cabeça para dentro do quarto para ver o que acontecia ali. Me olhou em pé na frente do computador, com o jeans encharcado de cerveja, e perguntou qual é que era de toda a movimentação.
 
_Meu, nada, não é nad...
_Nada?! Ela tava vendo outra mina tirar a roupa na webc...
_Fernando! PORRA!! – o interrompi.
 
Eu te odeio.
 
_Ela, o quê?! – a Mia se assustou com a resposta, despreparada.
_Num tá vendo... – o Benatti me zombou, num comentário anatômico estúpido, e riu – ...tá até molhada!
_CHEGA, VAI. SAI! – encerrei o assunto antes que saísse algo muito pior da sua boca – VAMOS, TODO MUNDO PRA FORA!
 
Merda. Para a minha sorte, a minha webcam não tinha áudio. Mas eu estava certa de que a Clara já tinha deduzido tudo àquela altura do campeonato. E eu só queria poder sair da frente do monitor e conseguir me desculpar direito pelo inconveniente – no caso, pelo Fernando. Meu amigo fechou a porta atrás de si, ainda rindo, mas não antes de se permitir um último comentário – “vou dar privacidade pra vocês duas”. Meu cu. Revirei os olhos e sentei novamente na cadeira, às pressas, para me desculpar com a Clara. Preciso urgentemente começar a usar a tranca na porta. Maldição.
 
A Clara já tinha desligado a câmera. E agora só a minha cara de pau aparecia na tela, me sentindo na sétima série – quando secretamente assistia clipe do Aerosmith para ver a Alicia Silverstone e tomava susto toda vez que meu pai entrava na sala. “Dsclp, gnt bebada aqui”, digitei. Alguns segundos depois, a Clara riu e disse que não tinha problema – mas que precisava mesmo sair para a festa na casa da amiga. Não! Não vai!, me angustiei. Não me deixa sozinha agora, justo agora, pensei covardemente. Surgir naquela festa depois do incidente ia ser um desastre.
 
Mas não teve conversa, nem chance. Ela desligou.