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junho 16, 2012

Toda calma do mundo

É. Não nos casamos, evidentemente – mas também não nos largamos mais. Nem naquela noite, nem nos meses que se seguiram. E admito, talvez eu tenha tropeçado um tanto para afastar o meu coração da Mia, hesitante em realmente deixar seu apartamento ou impedir seus avanços durante a festa, tá, eu sei, mas estar com a Clara era diferente. Diferente de tudo que eu já tinha vivido. Era o relacionamento mais sincero que já vivi. Numa ausência completa de hesitação – não tinha um pensamento que cruzasse a minha cabeça e que não saísse sem medo da minha boca, se concretizando quase imediatamente ao lado dela. Testando o limite uma da outra, nos expandindo sem filtro. E nos apaixonando pela expressão mais sincera de quem éramos. Puta merda. Assim, juntas, matando o trabalho só para nos ver; dez, doze horas sem sair da cama; fodendo em cada banheiro que a gente encontrava; caindo pelas sarjetas da Augusta, numas declarações bêbadas de madrugada; subindo no primeiro ônibus pro litoral só para ver o sol nascer no mar; conversando o caminho todo, as mãos e as pernas entrelaçadas, afundadas num banco no fundo do busão para Santos; nos contando todos nossos segredos, nuns papos sem fim, aos risos; xavecando nossas amigas; cuspindo água gelada uma na outra, numa tarde de calor no sofá da sala; nos beijando até acabar o ar – toda vez.
 
Nunca vivi esse tipo de genuinidade com alguém. Esse tipo de liberdade.
 
A única coisa sobre a qual a gente não falava era a Mia. Mas também não é como se tivesse muito o que dizer – desde que conversamos sobre nossos sentimentos, eles pareciam ter perdido a força. Ou a urgência. Era como se, em algum lugar, a Mia agora soubesse o que significava para mim e eu para ela. E a certeza nos tirava aquela angústia toda. Chegamos num ponto em que passamos a quase fazer graça, ocasionalmente nos provocando pelos corredores ou nuns SMS bobos. Sem nunca cruzar a linha.
 
As coisas só não estavam indo lá muito bem no apartamento. Financeiramente – é, o Fer continuava sem emprego. Começou com uma festa aqui, outra ali, mas aí passou um mês inteiro e depois outro... e nada. No terceiro mês, bateu o desespero. Paramos com as festas e passamos a mandar o currículo dele para tudo quanto é canto. O Fer tentou alguns freelas e até rolaram umas entrevistas, mas nada. Nada de vaga. E quando foi lá pelo quinto mês, acabou o seguro-desemprego. Aí apertou de vez. No sexto, acabaram-se as economias dele. No sétimo, as minhas. E então aconteceu exatamente o que não deveria – as festas voltaram.
 
Inferno.
 
Não para o apartamento em si, porque eu deixei bem claro que era contra, mas o Fer não passava mais uma porra de noite em casa. Não sei. Talvez ele estivesse cansado de ficar lá depois de tantos meses ou talvez só precisasse extravasar a frustração, vai saber. Mas o clima ficou uma merda. Toda vez que eu chegava do trabalho, exausta de tanta hora extra que pegava, e não o encontrava... eu reclamava.
 
E toda vez que eu reclamava, ah, dava treta.  

junho 15, 2012

[ CONTEÚDO EXCLUSIVO ]

AVISO: Os próximos 2 posts foram escrito exclusivamente para o livro do Fucking Mia e não estão disponíveis aqui. Os títulos são "5/5" e "Por que está amanhecendo?".
 
O livro do Fucking Mia está sendo preparado com muito carinho, em comemoração aos 10 anos de blog. O novo conteúdo está sendo escrito desde meados da pandemia e a ideia é lançar em breve! ♥
 
Se você quer ser avisada(o) sobre o lançamento do livro, deixe seu e-mail aqui:
 


junho 14, 2012

Lares insólitos

_Posso te contar uma coisa?
_Pode.
 
Sorri de volta para ela. E sentei na cama, despida, alcançando o isqueiro no chão. O sol terminava de se pôr lentamente e a luminosidade do meu quarto dependia quase unicamente dos postes do lado de fora, o cômodo estava escuro e os nossos olhos, já acostumados. Acendi um baseado, soprando a fumaça na direção da janela aberta.
 
Fazia horas que a gente tinha voltado para o apartamento. Passadas ali, entre as coxas e as mãos de uma, os beijos da outra. Os presentes comprados para as amigas pendiam em duas sacolas na maçaneta da porta e as pernas da Clara agora se moviam no lençol, encaixando-se na lateral do meu corpo. Ela encostou os seios descobertos na minha pele, esfriada pela proximidade da janela. Déjà-vu. Me senti bem de estar ali, com ela.
 
_No outro dia, quando... – continuou, baixinho, apoiando o rosto nas minhas costas – ...v-você passou lá no apê de surpresa, e-eu... – criou coragem – ...não ia jantar com uma amiga.
_Não? – traguei, segurando a fumaça por um instante.
_Não.
_Hum. Mas você ia jantar com alguém... é isso?
_É... – ela suspirou, envolvendo o braço na minha cintura, e eu soltei a fumaça no ar – ...quer dizer, era uma amiga, mas não... do tipo que... q-que você não precisa se preocupar. Era uma amiga mais... do... outro tipo.
_Sei.
 
Senti a sua respiração oscilar sobre a minha pele.
 
_Clara, eu... – dei mais um trago, insincera – ...não tô preocupada.
_Mas nã... n-não era isso que eu queria te contar... foi depois. Depois que você apareceu lá. Foi o que eu te mandei no SMS que você não recebeu essa semana. Sabe, e-eu te vi naquele dia e, e percebi que não...
_Hum?
_...n-não sei. Acho que foi o... – continuou, se atrapalhando um pouco – ...o jeito como você falou o que falou, a situação toda. E-eu me senti feliz, Bo. Mesmo que você tenha ficado só dez segundos lá. E, e eu sei que a gente não é como... como outras pessoas, sabe, como outros casais... Mas eu fiquei tão feliz, só de te ver ali.
 
Sorri, em silêncio, com as costas ainda viradas para ela.
 
_Meu, você vai achar besta... – ela comentou, apoiando o queixo pouco abaixo do meu ombro – Mas foi mesmo como se você tivesse me salvando de um jantar que eu realmente não queria ter, de um encontro idiota como qualquer outro, sem sentido nenhum. E... e era você, sabe? E-eu não queria tá ali, eu queria ficar com você. E eu tentei, e-eu passei o fim de semana todo com ela, m-mas...
_Hum – soltei a fumaça em silêncio, engolindo o ciúme que brotava em mim.
_Mas v-você é diferente, Bo – murmurou, apoiando de novo a lateral do rosto em mim – Sabe?
 
Não. Eu não sabia – sorri discretamente, num reflexo natural.
 
_E eu só queria q-que você soubesse. Eu gosto do que a gente tem.
_Então... – senti meu coração acelerar – ...o que cê tá dizendo? Vamos mesmo fazer isso? – respirei fundo – Eu e você?
_Não sei. O q-que... – ela sorriu contra a minha pele, nas minhas costas – ...que você acha?
_Eu quero ficar com você, Bi – respondi sem hesitar.
_E eu quero ficar você, desgraça.
 
Ela riu e eu sorri, dando mais uma bola no baseado. Um sentimento estranho de felicidade me contaminando, à surdina. Bem de mansinho. Os fios do seu cabelo deslizaram pela minha coluna e a Clara ajeitou o rosto contra a minha pele. Estar com ela me fazia bem – e eu sabia. Desci a mão sobre os seus joelhos, enrolados ao redor de mim, com a seda ainda entre os dedos. E deixei a fumaça escorregar aos poucos para fora da minha boca. Enquanto a deixava entrar. Na minha vida, na minha cabeça. No meu coração.
 
Coloquei a ponta restante do baseado sobre o parapeito da janela, esticando o braço. O THC inebriava os meus pulmões e os seus movimentos, tornavam-se sutis, cada vez mais perceptíveis. As pontas dos seus dedos percorriam a minha barriga, fazendo cócegas pela minha cintura e aí subindo, delicadas. Me virei na sua direção e a Clara sorriu. Podia senti-la ainda na minha pele, um sentimento descomplicado. É. E talvez fosse mesmo tão simples assim, talvez pudesse ser assim o tempo todo. É engraçado o quanto quatro paredes podem mudar a sua percepção das coisas, do que te basta para ser feliz. Sem pressa, a minha mente contemplou os caminhos ondulados do seu corpo, do que tínhamos juntas, não sei – minhas mãos foram deslizando pelo entendimento que possuíamos uma da outra, nossa sintonia, levemente chapada. Conforme ela se tornava cada vez mais, e mais, real na minha vida.
 
_Então... – sorri, encarando os seus olhos castanhos com a boca já quase na sua – ...então é isso... – os meus lábios encostaram nos seus – ...que a gente vai fazer.

junho 08, 2012

Etiqueta

Peguei o cigarro de volta das suas mãos e dei dois passos para trás. Não queria o confronto. Argh, merda. Sentei no degrau frente à galeria Ouro Fino, de cabeça baixa, encarando meus tênis contra o chão de cimento. E a Clara abaixou, agachando-se na minha frente. Traguei mais uma vez e ela colocou os braços apoiados nos meus joelhos, me olhando nos olhos. Soltei a fumaça para o lado e a encarei de volta, indisposta.
 
_Olha, eu... – ela justificou, me observando de perto – ...não tô, aqui, achando que aconteceu alguma c...
_Porque não aconteceu.
 
Segurou o fôlego, interrompida.
 
_Quê, meu?! – gesticulei nervosa, a conversa me deixava inquieta – Você sabe que não! Não aconteceu nada, porra! Então por que você tem que vir e começar isso agora?!
_Eu não tô c... – respirou fundo – A gente só tá conversando, Bo.
_“Conversando”, tá. Sei.
 
Balancei a cabeça, frustrada, e traguei mais uma vez. Outras pessoas passavam por nós no degrau e entravam na Ouro Fino. Olhei para a minha mão e o cigarro já estava quase no fim. Soltei o ar lentamente. Não posso perder o controle. Tinha a tendência de estragar esse tipo de conversa antes mesmo de começar. E não queria fazer isso com a Clara, definitivamente. Mas é, inferno, tão difícil manter a calma quando não se tem certeza da sua própria culpa.
 
Dei mais uma tragada, já aproximando a linha da brasa fatalmente do filtro, e ofereci o pouco restante para a Clara. Ela recusou com a cabeça. Então o matei e apaguei contra a calçada. Os seus olhos castanhos me observavam apertar o fogo contra o cimento. Cacete, suspirei. Como me meti nessa? Alguns lojistas conversavam e fumavam metros adiante na calçada – uma conhecida acenou de longe e eu sorri brevemente, por educação. E tornei a olhar para a Clara, na minha frente:
 
_Olha, eu sei porque... p-porque você acha que temos que conversar, mas... não temos. Não temos mesmo – insisti – Porque não tem nada, Bi! Não aconteceu nada!
_Então você tá me dizendo que não sente nada pela Mia? É isso?! Nem ela por você?
_E o que você tem a ver com isso, meu?
 
“Nossa...”, ela arregalou os olhos, ofendida. E com um gesto de mãos para cima, ficou novamente em pé – “aparentemente nada”, resmungou. Merda. Balançou a cabeça, num suspiro, desistindo de tentar conversar civilizada comigo. Merda, merda. Como eu sou idiota, me arrependi, fechando os olhos e passando a mão no rosto. Por que eu não consigo calar a boca? “Deixa pra lá”, a Clara murmurou, falando para entrarmos antes que as lojas fechassem. E eu me levantei, a acompanhando galeria adentro.
 
O clima agora estava uma merda. Passamos por algumas das lojas do térreo e eu a segui, com as mãos nos bolsos. E o rabo entre as pernas. Ela sequer olhava na minha direção. Agíamos como meras conhecidas – droga. Não posso magoar ela assim, não a Clara. Subimos a escada rolante para o primeiro piso. Eu me arrependia, cada vez mais, mas continuava quieta. Ela tentava se mostrar indiferente, olhando as roupas e fazendo comentários curtos, apática. Estava procurando um presente para duas das suas amigas, cuja festa conjunta de aniversário aconteceria na outra sexta-feira.
 
Nada no primeiro andar, então fomos para o segundo. Demos a volta toda em silêncio. Está feliz?, me repreendia mentalmente, isso é culpa sua, sua imbecil. Observei a Clara dar alguns passos adiante, na sua jaqueta de inverno e o lenço de flores pequeninhas. Parou frente a uma vitrine com roupas vintage, mas não entrou – desanimada com tudo o que via. Apertei o passo e a alcancei, andando novamente ao seu lado; ela ignorou um sorriso espontâneo meu. Nossos olhares se cruzaram, mas – nada. Nos aproximamos do elevador, já caminhando em piloto automático para o terceiro piso.
 
_Espera, não. Vem cá... – a peguei pela mão e a encostei numa das paredes – ...espera só um pouco, vai.
_O quê?
_Eu... – apertei os olhos, fechando-os arrependida, e abaixei a cabeça – ...e-eu sou uma idiota, Bi – encostei a testa no seu ombro – Uma idiota, me desculpa. Não devia ter sido grossa com você daquele jeito...
_É, né.
_...e eu, e-eu sei que cê não tava me cobrando, nem nada, aquela hora...
_Só queria conversar numa boa, meu!
_Eu sei, desculpa!
_Sério, cara, você precisa melhorar esse... – bufou – ...esse seu “jeito”, sabe. Urgentemente. Você me trata como se...
_Eu sei, eu sei – a interrompi – É que eu... sabe, e-eu gosto de você, gosto mesmo, e... a última coisa que eu quero estragar tudo com a minha boca grande, só que... não sei... e-eu, eu sou muito, muito ruim com esse tipo de conversa, sei lá, eu f-fico nervosa e, e quando vejo acabo dando umas respostas piores ainda – a olhei nos olhos, tentando fazer com que visse a sinceridade neles – Saiu tudo errado, Bi! Não era a minha intenção, meu, não mesmo... – respirei fundo – ...e-eu gosto tanto de você, porra.
 
Meu corpo pendia sobre o seu e ela me olhava, com os braços ainda cruzados. Suas costas estavam contra a parede e a sua expressão aborrecida. Deixa passar essa, garota, eu a encarava de volta, por favor. E naquele momento, a Mia podia ir à merda. O que eu queria era ficar bem com a Clara, mais do que já quis qualquer coisa nessa vida. Ela abaixou a cabeça, cedendo um pouquinho. E empurrou o meu corpo com um dos seus ombros, num movimento leve, ainda com os braços cruzados.
 
_Eu também gosto de você... – murmurou, admitindo pela primeira vez, um tanto brava e um tanto sorrindo – ...mas você é MUITO babaca. Puta merda!
_Eu sou mesmo... – eu ri.
_Não! Não, não... – a Clara balançou a cabeça, indignada – ...não vai achando aí que é engraçado, que você pode se safar assim toda vez... – descruzou os braços, apontando o dedo na minha cara e eu ri ainda mais, junto com ela – ...você vai ter que aprender a conversar que nem uma pessoa normal, se a gente for mesmo ficar junt...
_Ahhhh! – brinquei – Então você quer ficar junto?!
_Cala a boca! Eu não terminei.
_Clara Villares Huanca desistindo do seu mar de amantes paulistanas... – a provoquei – ...quem diria, hein?
_Olha... – ela me encarou, sem paciência – ...seria muita sorte sua.
_Seria mesmo.
 
Admiti. E nós ainda ríamos, quando nos beijamos contra a parede. Fazendo as pazes.

junho 06, 2012

...duas cajadadas

Sem olhar para trás, atravessei o corredor. E encontrei a Clara na porta. Respirei inquieta, enquanto o elevador descia. Ela agia diferente comigo, mais distante, se forçando a se conter. Sem afeto. Procurei ignorar os sinais e saímos do prédio, subindo a Frei Caneca em direção ao lado “bom” da Augusta – isto é, a área em que as casas de strip e os botecos sujos eram substituídos por restaurantes e lojas de estilistas em começo de carreira.
 
Assim que atravessamos a Paulista, parei rapidamente para pegar café. O dia estava frio – o termômetro da rua marcava 14ºC e a ressaca me maltratava junto ao vento. Nenhuma palavra da Clara no caminho todo. Por favor, por favor, implorei mentalmente. E me cruzou à cabeça a época em que eu ainda namorava a Marina, quando nós discutíamos toda noite. A Clara não é a Marina, me convenci.
 
Mas o que ela é, então?!
 
Desde que voltamos a nos ver, nunca discutimos as premissas do nosso relacionamento. Só fomos levando – nos vendo quando dava vontade. O problema é que, sem isso ou qualquer conversa, não sabia até onde ela tinha direito de agir daquela forma. Simplesmente por eu estar sozinha na sala com a Mia, digo. Sequer sabia se a Clara saía com outras minas. E importa? Argh. Me sentia apreensiva. Se tinha uma coisa em que eu era realmente, realmente péssima, sem dúvida, era discutir relacionamento – especialmente a culpa me rondava.
 
Caminhando lado a lado, ainda em silêncio, atravessamos a Lorena. Nenhuma de nós dizia nada. As ruas estavam relativamente cheias para aquele horário. Descemos o quarteirão até parar em frente à galeria e a Clara me segurou para que a esperasse acender um cigarro. Tirou o maço do bolso, acendendo um Lucky Strike com um dos meus isqueiros, roubado na semana anterior. Deu o primeiro trago, me oferecendo-o num gesto automático. Eu aceitei. Traguei duas ou três vezes também, devolvendo-o logo em seguida. Seus olhos não saíam de mim – os seus dedos seguravam o filtro e pressionavam os lábios, suavemente, e eu sabia o que estava por vir.
 
_Eu vou te perguntar... – ela disse calmamente e me encarou – ...isso, antes de a gente entrar, e eu não quero que você pense que me deve alguma coisa, mas eu queria que você falasse a verdade.
_Bi... não, meu. Por favor.

junho 05, 2012

Duas coelhas...

_N-não, ele... – me enrolei – ...saiu, f-foi levar uns amigos que tavam aí.
_Hum.
 
O seu olhar oscilou, voltando para mim no batente da porta. Parada, ali, implorando para que não levasse a mal. O seu cabelo preto caía, bonito e desfiado, por cima de um cachecol com flores pequenas, indicando o frio que fazia do lado de fora. Me encarou, como se procurasse alguma explicação plausível – a que fosse – para a minha cara de culpada, ali, e a Mia logo atrás, no apartamento vazio.
 
Mas... afinal, rolou alguma coisa?!
 
Nem eu sabia dizer. Eram sempre esses momentos tão dispersos, argh. A Mia nos observava de longe e os seus olhos, os da Clara, não se enraiveceram, se manteve tranquila diante da situação. Ainda que, no fundo, eu percebesse uma constatação magoada – decepcionada comigo, com as possibilidades pouco admiráveis que o meu comportamento podia tomar. E me dava conta agora, de repente, do quanto me importava com o que a Clara pensava de mim.
 
_M-mas eu... – retomei, afobada – ...e-eu vou com você!
 
E sem saber bem o porquê, em meio a uns segundos impensados de constrangimento, me virei para ir trocar e a acompanhar – num nervosismo atrapalhado. Pedi que me esperasse dois minutos, iríamos juntas até a Ouro Fino, uma galeria de artistas e designers independentes do outro lado da Augusta. Me virei na direção do corredor, às pressas. E a Clara se surpreendeu com a decisão repentina. A Mia também.
 
Sem que eu visse, seus pés descalços se apressando no chão, a Mia me seguiu até o quarto. E fechou a porta atrás de nós. Não, não. Por que diabos você veio?, a olhei ali, angustiada. Agora é que a Clara vai pensar que tá rolando alguma coisa, porra! Seus olhos indignados.
 
_Você vai mesmo com ela??? – me questionou, num tom baixo.
 
Respondi que “sim”, começando a tirar as roupas do meio da zona que estava o meu armário. E a Mia cruzou os braços, em silêncio. Subi uns jeans rasgados pelas minhas pernas e coloquei a primeira camiseta que vi na frente, junto a um lenço palestino. Enquanto procurava pela minha jaqueta no bolo de roupas, largadas ali de qualquer jeito, a ouvi suspirar, irritada. A menos de um metro de mim.
 
Aqui. Achei a porra da jaqueta. Me virei e a Mia ainda estava lá. Por favor, só volta para a sala. Aquilo não me ajudava em nada a manter as aparências. Desviei novamente o olhar, enquanto calçava um par de tênis sujos. A Mia era incapaz de esconder o seu incômodo, cruzando e descruzando sistematicamente os braços, me observando ajeitar o cabelo amassado no espelho atrás da porta do meu armário.
 
_Sério mesmo que você vai com ela?! – sussurrou quase brava, inquieta – Agora? Assim?!
_E o que eu deveria fazer, Mia? – retruquei – Hein?! Esperar aqui com você até o Fernando voltar?
_Não foi o que eu quis dizer... É só q-que, sei lá, eu achei que a, a gente tivesse...
_Sei. Ótimo plano! – a interrompi, irônica – Só que só funciona para uma de nós.
_Não. Espera! Você não precisa ir...
 
A sua mão alcançou a minha, me segurando. Havia carinho no toque dos seus dedos, o mesmo de antes. Suspirei, tentando não me deixar afetar por cada gesto seu, e a olhei, me sentindo estranhamente capaz de ser cada vez mais sincera.
 
_Não. Não preciso ir, não preciso mesmo... – respondi, sussurrando de volta – E você também não precisa ficar com ele. Mas você, v-você fica, não é?! E enquanto você fizer o que quer, eu também faço.
 
Desviei dela, fechando a jaqueta, apressada. E a Mia me deu passagem, com os olhos magoados.

junho 01, 2012

52 ways to murder anyone

Uma tonelada – esse era o peso da minha cabeça no dia seguinte. Afundada contra o travesseiro e tentando suportar a dor, o meu estômago se retorcia. Passei mais de quarenta dos minutos iniciais daquela tarde de sábado rolando de um lado para o outro na cama, sem realmente acordar de vez, no limbo excruciante da ressaca. O meu corpo todo suado e o quarto frio.
 
Quando finalmente levantei, vesti um moletom cinza – o mais confortável do meu armário – para tentar me esquentar. Coloquei um par de meias grossas e, me sentindo ligeiramente estável, fui até a cozinha pegar um copo de água. Abri a geladeira, sentindo a minha cabeça e o meu corpo resmungarem a cada movimento. De lá, me arrastei preguiçosamente até a sala, onde me deparei com o caos silencioso daquela madrugada. O apê parecia ter sido saqueado, com copos vazios, garrafas e latas amassadas largadas por todo lado.
 
Cacete.
 
Empurrei uma jaqueta e algumas das coisas largadas sobre o sofá, despejando-as de qualquer jeito no chão. Aí liguei a TV e acendi um cigarro, demorando um pouco para achar o controle e me deitando, com a barriga virada para cima. Mudei o canal para um desenho animado qualquer. E fiquei ali algum tempo – fumando o cigarro apenas até a metade e o apagando na mesa de centro. O meu cabelo amassava-se contra o encosto e eu tinha uma das mangas do moletom apoiadas na testa. Estava tão confortável que acabei cochilando de novo.
 
Não sei bem quanto tempo se passou. Mas senti alguém acariciar levemente a minha mão, que agora pendia para fora do sofá. Num ritmo lento. Como se desenhasse com a ponta dos dedos sobre a minha pele, me despertando aos poucos. Abri os olhos e foi quando a vi ali, a Mia. Sentada ao pé do sofá, só de blusão no chão da sala. Tinha a cabeça apoiada no braço, dobrado sobre o trecho do sofá perto das minhas pernas.
 
Ei, você..., sorri instintivamente.
 
Suas mãos acariciavam as minhas, no pequeno espaço descoberto do meu antebraço – o sofá tinha repuxado o meu moletom. A outra manga cobria parcialmente os meus olhos, com o braço largado sobre a testa – e eu a observava dali, por debaixo do pano. Desacostumada a receber carinho dela assim. Ia deslizando dois ou três dos dedos pela minha pele, despreocupadamente. E eu assistia, um pouco fora da realidade. Mas onde tá o..., a ficha me caiu de uma só vez e eu arregalei os olhos.
 
_Puta merda – me ajeitei no sofá, às pressas, tirando o braço do seu alcance, me dando conta de onde estava. E com quem.
 
A Mia levantou a cabeça, como se despertasse junto comigo, num susto.
 
_Que foi?
_O, o que v-você tá fazendo?! – me alarmei, sussurrando na sua direção – Cadê o Fer?!
_Relaxa... – ela riu, trazendo novamente a minha mão para perto de si – ...ele saiu, faz um tempo já. Foi levar o Igor e o Rafa lá em Tiradentes.
 
Encostei o corpo de novo contra o sofá e... e não sei bem por que, mas deixei que as suas mãos continuassem na minha. Não pensei, não sei. Ela analisava meus dedos com carinho e eu me sentia fora do ar. Estranha. Ali, com ela. A ressaca parecia me prender contra aquele sofá, me impossibilitando de mover. Olhei para a Mia por um instante, me segurando com tanta ternura, e, não... não faz isso, porra.
 
Argh. Meu coração cansado bateu mais fraco. E apesar da angústia que se manifestou silenciosamente, quente na minha pele, por baixo dela... nas minhas veias... eu não desviei o olhar. Meus olhos seguiram os dedos dela. A verdade é que parte de mim gostava. De cada pequena atitude da Mia. O problema era a outra parte – a que gritava nos meus ouvidos, suplicando para eu me afastar dela. Não tinha condições de voltar ao que fora no passado. Você não faz bem para mim, garota. Mas lá estava ela, tão confortável comigo, ali, que, por algum motivo, deitada naquele sofá, eu não conseguia tirar a minha mão das suas.
 
_Não acho que a gente devia tá assim... – murmurei.
_Por quê?! – a Mia se debruçou de leve sobre o sofá, quase tão sonolenta quanto eu – Se alguém chegar, falo que tava só agradecendo... pelo beijo.
_Sei... – sorri.
 
Ela colocou a cabeça apoiada sobre a minha barriga e ajeitou o cabelo atrás da orelha.
 
_E me diz, como... – a minha voz se arrastou, curiosa, afundada no sofá – ...c-como você conseguiu que a sua amiga m-me desafiasse?
_Eu pedi.
_Ela não achou estranho?!
_Não. Disse que sempre tive curiosidade... – a Mia se constrangeu, falando em tom de segredo – ...mas que preferia que fosse você, que eu já conhecia. E ela topou.
_Nossa, cê não tem noção de como eu quis te matar ontem...
_Eu disse para ela não contar pro Fê que eu que tinha pedido.
_Sei – achei graça – Muito esperta voc...
 
A campainha tocou de repente, nos interrompendo. Nos afastamos imediatamente, num gesto automático. E o seu olhar buscou o meu, sem respostas. Mas... Espera. O Fer esqueceu a chave?, estranhei. Me levantei, passando por cima do braço do sofá, indo em direção à porta. A Mia continuou no chão. Tentei virar a chave na fechadura e só então notei que já estava aberta – então girei a maçaneta. E dei um passo para trás, o que diab...?
 
Era a Clara.
 
_E, e aí...?! – a cumprimentei, confusa – O q-que cê tá fazendo aqui?
_Te acordei? Ia dar uma passada lá na Ouro Fino para comprar umas coisas e aí pensei em te chamar para ir junto. Ia te mandar mensagem, mas como cê tava sem celular... – ela riu e olhou por cima do meu ombro.
 
A sua expressão mudou na mesma hora, merda. A Mia estava sentada no chão, só de blusão, nos olhando.
 
_O Fer... – a Clara tornou a me encarar, hesitante – ...tá aí?

maio 31, 2012

Velhos amigos

_E aí, rockstar... – o Marcos me zombou, acendendo o próprio cigarro, e eu revirei os olhos – ...relaxa, não vim aqui para te encher.
_Sei.
_Cara... – ele riu da minha amargura – ...cê gosta mesmo dessa mina, hein?
_E-eu nã... – suspirei – ...não vou discutir isso com você.
 
Balancei a cabeça e fechei os olhos por um instante, apoiando contra a parede. Por favor, só me deixa em paz, expirei pelo nariz. E nem era como se o Marcos estivesse sendo escroto – pelo contrário –, surpreendentemente estava mais de boa do que o vira agir em meses. Mas, né, sob a influência dos infindáveis comentários idiotas dos meus amigos nas últimas horas e de todo álcool que corria pelas minhas veias, o meu julgamento já não tava lá dos melhores. E tudo o que eu queria naquele momento era esquecer da Mia e daquela porra de beijo.
 
_Olha, não vim te atazanar, mas cê é foda também... – deu um trago ao meu lado – Não sei como o Fer não percebe, na boa...
_Não tem o que perceber – soltei a fumaça também e apaguei a bituca do meu cigarro no chão, sem paciência – Não tem mais nada entre a gente.
_Não?! E aquilo na sala foi o quê, então?!
_“Aquilo” o quê, mano?!
_Como “o quê”?! – sua voz ecoou no corredor – Cê beijou a porra da mina na frente de todo mundo!
_Ah, Marcos, vai à merda! – estourei – Era só brincadeira. Brincadeira, caralho!
_Cê vai mesmo me dizer que aquilo foi na brincadeira?!
_Claro que foi, porra! Não tive nada a ver com aquela merda! – gesticulei, indignada – Foi outra mina que desafiou!!
_Quem? – ele riu, agora sim, com a mesma atitude de merda dos últimos meses – A amiga da Mia?! Tá bom, então.
 
Para quem não veio me encher até que tá enchendo bastante, né?
 
_Olha, eu não preciso ouvir isso, na boa... – me irritei – O que é agora?! Hein? A porra da teoria da conspiração??
_Teoria da consp... – ele mesmo se interrompeu, ridicularizando – ...cara, cê tá com culpa estampada na sua testa! Se toca!! Só o jeito que, q-que cê OLHA para ela, meu... Nem a pau que vocês não tão se pegando!!
_Não, sinto muito te desapontar. Acabou – retruquei – Ela escolheu ele. E eu, e-eu tô feliz com outra mina.
 
Ele me olhou, descrente, com uma expressão de dar nos nervos. Tão arrogante – e eu já tão fora de mim – que tive vontade de acertar uma no meio da sua cara. Babaca. Entretanto, me segurei.
 
_Olha, eu não espero que você entenda... – resmunguei – ...não mesmo, Marcos.
_E o que tem pra entender?! – franziu as sobrancelhas, levemente exaltado – Meu, como você consegue?! Morar com o cara assim, olhar na cara dele todo dia, mano, escondendo uma parada dessas!
_Fala baixo, porra! – murmurei de volta – E cara, já disse que não tem nada rolando. Nada!
 
Na mesma hora, escutamos a porta se abrir. Virei para trás e vi o Benatti cambaleando para fora do apartamento, acompanhado de uma garota que eu peguei na época de colégio, indo juntos para a saída de incêndio – onde a Thaís também tinha se metido com a crush dela. Me preparei para levantar também e, antes que eu pudesse sair do alcance, o Marcos resmungou:
 
_Olha, é bom mesmo não tá rolando nada... – deu mais um trago, sem me encarar diretamente – ...porque o Fernando gosta mesmo da Mia e cê tá ligada. 
 
Revirei os olhos e dei as costas para ele, entrando de novo no apartamento. Quem ele pensa que é para me dar esporro? Uma olhada rápida na sala, em meio àquele caos, e imediatamente me irritei com aquela droga de festa interminável. Foda-se essa merda também. Andei até o meu quarto, num mau humor terrível, me trancando ali. E em algum momento, apaguei.

maio 25, 2012

Os valores modernos

Podia sentir todos os olhos em nós, mesmo com os meus fechados. Expostas ali, pela primeira vez – em meio aos sons exagerados da festa, o rádio gritando e as pessoas que nos rodeavam, bêbadas, atentas a cada gesto nosso. Avancei no vazio. E as nossas mãos se encontraram sobre o piso de madeira, as pontas dos meus dedos tocaram os dela, assim, de leve. E a minha pressão caiu na mesma hora.
 
Não, me retraí. Não posso d-dar bandeira.
 
Dei-me conta de que não sabia como beijá-la assim. Em público. Não sabia o que não fazer. Confusa do bancar ou não na frente de todo mundo – porque, se por um lado eu não podia me conter demais, perigando transparecer o quanto aquilo me afetava; por outro, também não podíamos demonstrar intimidade. Na forma como nos segurávamos. E logo me dei conta de que eu não sabia como fingir desconhecimento. Da sua boca, do seu ritmo, de como inclinar a porra da cabeça, de como me encaixar nos movimentos dela, inferno. Tudo isso, em milésimos de segundo, passou pela minha mente – milhares de pensamentos revirando meu cérebro, o meu estômago. Argh.
 
Embriagada e ainda com os olhos fechados, podia sentir a Mia sorrir a meros milímetros do meu rosto. Tá se divertindo, desgraça? Fui me aproximando, me inclinei para frente, cacete. Cacete, cacete. Até os nossos lábios, enfim, se tocarem. Puta merda, tá acontecendo mesmo. O nervosismo desceu meus braços, lambendo meus ossos e se espalhando pelas minhas mãos, plantadas no chão. Agora menos firmes do que um segundo antes. Mas então a Mia entreabriu a sua boca e o seu gosto se fundiu naturalmente em mim.
 
De repente, tudo era como sempre fora. Fácil, instintivo. Nosso. A sala, o som do rádio, tudo ao redor se tornou líquido num instante – a Mia a única coisa sólida restante, real, e meus dedos tomados pela vontade de a tocar, de me agarrar à sua presença, agora tão palpável, concreta. Durou quatro, seis segundos no máximo. O suficiente, no entanto, para empurrar a Mia com tudo de volta à minha realidade – me lembrando de todos os beijos que eu ainda tinha guardados para ela dentro de mim. Como é difícil te negar, garota.
 
E quando acabou, reabrimos os nossos olhos e nos encaramos rapidamente. Inferno. O que diabos estamos fazendo? O constrangimento cobriu meu rosto. E eu tentei não a olhar por tempo demais, abaixando logo a cabeça. Forcei uma expressão de revolta – “eu vou matar todos vocês”, reclamei em voz alta. Todo mundo na roda riu. Minhas bochechas ainda queimando. Nos afastamos, engatinhando ao revés até voltar para os nossos devidos lugares, num teatro até que convincente. E assim que sentei de novo, o Fernando abriu a boca:
 
_Quer dizer, então... – fez graça, tragando um cigarro – ...que agora eu posso dar uns beijos na Clarinha?!
_N-não ouse, babaca!
 
O ameacei. E no segundo seguinte, um copo plástico voou na sua direção das mãos da Mia, com um resto qualquer de bebida. Ele riu e se curvou, sendo atingido na altura do ombro. Todo mundo riu também. A situação parecia que seria esquecida logo, sucumbindo entre os demais desdobramentos da festa e passando despercebida – mas é claro, claro, que não acabou aí. Ah, não. Não. Os idiotas dos nossos amigos não iam deixar tão barato assim. Madrugada afora, pelas horas seguintes, fizeram questão de me atazanar incansavelmente por causa daquela porra de beijo.
 
_Mandou bem, hein... – um dos nossos amigos comentou por cima do meu ombro, me alcançando no corredor – ...pegou e com aval ainda.
_Cala a boca, Igor.
_Quê?! – retrucou, achando graça – A Mia é mó gata, meu.
_QUAL O SEU PROBLEMA?!?
 
Desviei do idiota, encerrando aquela “conversa”, e entrei pela porta da cozinha. Mas não importava aonde fosse, eu não conseguia fugir. Em todos os cantos daquela merda de apartamento, tinha algum engraçadinho com um comentário a respeito do maldito beijo. Haja paciência. E se não eram os meus amigos cara-de-pau, era a Mia – quem eu pretendia, sim, evitar pelo restante da festa. Para não levantar mais suspeitas. Não tô podendo.
 
Lá pelas tantas, saí no corredor do prédio para respirar em paz por um segundo. E vi a Thaís mais adiante, perto do elevador, conversando com quem presumi ser a Ju. Uma butch gorda e forte que tinha um undercut com topete, desses meio anos 50. Puta merda. Rapidamente entendi todo o nervosismo da minha amiga em falar com ela – a mina é gata mesmo. Sorri ao ver as duas ali e sentei ao lado da porta do apartamento, com as costas apoiadas na parede. Acendi um cigarro e estiquei as pernas, aliviada por ter um momento tranquilo.
 
Foi quando alguém abriu a porta do apê, deixando o som da festa escapar para o corredor. Virei o rosto para cima para ver quem era e dei de cara com o Marcos, com a mão ainda na maçaneta, fechando a porta atrás de si.
 
_Ah, maravilha... – murmurei, irônica – ...era só o que faltava mesmo.
 
Ele riu, tendo ouvido parte do comentário e captando minha empolgação. Bati as cinzas do cigarro no chão, sem paciência para ouvir sermão, e ele se sentou ao meu lado, me olhando rabugenta ali. Por que diabos eu fui aceitar esse desafio?

maio 24, 2012

Coação

Fiquei sóbria na mesma hora.
 
_O, o q-quê? – o meu coração congelou, merda – Nã... n-não!
_Vai. E ó, beijo de verdade! – a loira insistiu, se divertindo – Num é pra vir com selinho!
_MANO, NÃO! TÁ LOUCA?
_BEIJA LOGO! – alguém gritou no meio da roda.
_N-não, não... – me atrapalhei, suando frio – Não, gente, e-eu...
 
Inferno.
 
Não conseguia me mover, sem saber como diabos reagir àquilo. Puta merda. Olhei para a Mia e ela sorriu descaradamente – argh, sabia, isso tem dedo seu. Maldição. Mas e-eu, não, eu não podia. Senti o desconforto subir pela minha espinha, ameaçando expor cada segredo que eu guardava trancado no peito, agora foi longe demais, porra. Olhei então para o Fer, atordoada, procurando qualquer saída ou resposta de que merda eu deveria fazer. Mas ele estava chapado demais para sequer registrar o que estava acontecendo – e me preocupava que tivesse um lapso de consciência tardio no dia seguinte.
 
_Meu, n-não, não dá... – retomei, ansiosa, encarando a mackenzista – ...é, é sacanagem, mano.
_É só um jogo, velho! – ela desdenhou e a Mia achou graça, ao seu lado, se entretendo com a minha hesitação – Só beija duma vez!
_N-não! Não.
_Que tem?!
_Como “o que tem”?! – me exasperei – É... a, A... NAMORADA DO MEU MELHOR AMIGO, CARALHO!
_AH, QUAL É! – o Benatti resmungou, sentado ao lado do Fer – Vai dizer que nunca passou pela sua cabeça?! – zombou.
_NÃO! Eu n-nunca f.... – gaguejei, forçando uma expressão séria.
_AAAAHHHHHHH, TÁ!
 
A festa inteira gritou junto.
 
_QUÊ?! Cara, não é assim – fuzilei todos de volta, puta – NÃO MESMO!
_VAI LOGO, CARALHO... É SÓ UM BEIJO!
_É. É só um beijo, cara... – a Thaís falou baixo, me empurrando com o ombro – Se enrolar, é pior. Só vai lá!
_Mano, e-eu... – traguei o baseado, numa tentativa angustiada de pôr a cabeça no lugar – ...e v-você?! Não vai fazer nada, porra?!
 
Mas a Mia só me olhou de volta do outro lado da roda, rindo, é claro que não. Desgraçada. Meus amigos, os dela, a porra do Fernando, todo mundo me encarava, esperando. O meu coração acelerou, angustiada – não tinha como fugir.
 
_N-não sei, e-eu... – tropecei nervosamente nas palavras e aí olhei para o Fer, como se lhe pedisse permissão – ...e você, vai me matar amanhã ou o q-quê?!
 
Ele riu, em negação, balançando a cabeça e erguendo as mãos – como se dissesse “vai em frente”. Bêbado de merda. Então era carta branca, agora não tinha mais volta. Passei o baseado para a Thaís segurar. E sentindo as minhas mãos tremer, as coloquei no chão. Insegura, comecei a engatinhar roda adentro. Droga. A Mia se aproximou também, engatinhando até mim, na frente de todos nossos conhecidos. Nos encontramos no centro da roda e eu a olhei com toda a indignação que podia concentrar num só gesto, apertando as pálpebras na sua direção. Filha-da-puta. Todo mundo nos observava. A desgraçada fechou seus olhos, ainda rindo, e eu me vi obrigada a fechar os meus – o meu coração prestes a sair pela boca.
 
Puta que pariu.