Peguei o cigarro de volta das suas mãos e dei dois passos para
trás. Não queria o confronto. Argh, merda. Sentei no degrau frente à
galeria Ouro Fino, de cabeça baixa, encarando meus tênis contra o chão de
cimento. E a Clara abaixou, agachando-se na minha frente. Traguei mais uma vez
e ela colocou os braços apoiados nos meus joelhos, me olhando nos olhos. Soltei
a fumaça para o lado e a encarei de volta, indisposta.
_Olha, eu... – ela justificou, me observando de perto – ...não tô,
aqui, achando que aconteceu alguma c...
_Porque não aconteceu.
Segurou o fôlego, interrompida.
_Quê, meu?! – gesticulei nervosa, a conversa me deixava
inquieta – Você sabe que não! Não aconteceu nada, porra! Então por que você tem
que vir e começar isso agora?!
_Eu não tô c... – respirou fundo – A gente só tá conversando, Bo.
_“Conversando”, tá. Sei.
Balancei a cabeça, frustrada, e traguei mais uma vez. Outras
pessoas passavam por nós no degrau e entravam na Ouro Fino. Olhei para a minha
mão e o cigarro já estava quase no fim. Soltei o ar lentamente. Não posso perder o controle. Tinha a
tendência de estragar esse tipo de conversa antes mesmo de começar. E não
queria fazer isso com a Clara, definitivamente. Mas é, inferno, tão difícil manter a calma quando não se tem certeza da
sua própria culpa.
Dei mais uma tragada, já aproximando a linha da brasa fatalmente do
filtro, e ofereci o pouco restante para a Clara. Ela recusou com a cabeça. Então
o matei e apaguei contra a calçada. Os seus olhos castanhos me observavam
apertar o fogo contra o cimento. Cacete, suspirei. Como me meti
nessa? Alguns lojistas conversavam e fumavam metros adiante na calçada –
uma conhecida acenou de longe e eu sorri brevemente, por educação. E tornei a
olhar para a Clara, na minha frente:
_Olha, eu sei porque... p-porque você acha que temos que
conversar, mas... não temos. Não temos mesmo – insisti – Porque não tem nada,
Bi! Não aconteceu nada!
_Então você tá me dizendo que não sente nada pela Mia? É isso?! Nem
ela por você?
_E o que você tem a ver com isso, meu?
“Nossa...”, ela arregalou os olhos, ofendida. E com um gesto de
mãos para cima, ficou novamente em pé – “aparentemente nada”, resmungou. Merda.
Balançou a cabeça, num suspiro, desistindo de tentar conversar civilizada comigo.
Merda, merda. Como eu sou idiota, me
arrependi, fechando os olhos e passando a mão no rosto. Por que eu não consigo calar a boca? “Deixa pra lá”, a Clara murmurou,
falando para entrarmos antes que as lojas fechassem. E eu me levantei, a
acompanhando galeria adentro.
O clima agora estava uma merda. Passamos por algumas das lojas do
térreo e eu a segui, com as mãos nos bolsos. E o rabo entre as pernas. Ela
sequer olhava na minha direção. Agíamos como meras conhecidas – droga. Não posso magoar ela assim, não a Clara. Subimos a escada rolante
para o primeiro piso. Eu me arrependia, cada vez mais, mas continuava quieta. Ela
tentava se mostrar indiferente, olhando as roupas e fazendo comentários curtos,
apática. Estava procurando um presente para duas das suas amigas, cuja festa
conjunta de aniversário aconteceria na outra sexta-feira.
Nada no primeiro andar, então fomos para o segundo. Demos a volta
toda em silêncio. Está feliz?, me repreendia mentalmente, isso é culpa sua, sua imbecil. Observei
a Clara dar alguns passos adiante, na sua jaqueta de inverno e o lenço de
flores pequeninhas. Parou frente a uma vitrine com roupas vintage, mas não entrou – desanimada com tudo o que via. Apertei o
passo e a alcancei, andando novamente ao seu lado; ela ignorou um sorriso
espontâneo meu. Nossos olhares se cruzaram, mas – nada. Nos aproximamos do elevador, já caminhando em piloto
automático para o terceiro piso.
_Espera, não. Vem cá... – a peguei pela mão e a encostei numa das
paredes – ...espera só um pouco, vai.
_O quê?
_Eu... – apertei os olhos, fechando-os arrependida, e abaixei a
cabeça – ...e-eu sou uma idiota, Bi – encostei a testa no seu ombro – Uma
idiota, me desculpa. Não devia ter sido grossa com você daquele jeito...
_É, né.
_...e eu, e-eu sei que cê não tava me cobrando, nem nada, aquela
hora...
_Só queria conversar numa boa, meu!
_Eu sei, desculpa!
_Sério, cara, você precisa melhorar esse... – bufou – ...esse seu
“jeito”, sabe. Urgentemente. Você me trata como se...
_Eu sei, eu sei – a interrompi – É que eu... sabe, e-eu gosto de
você, gosto mesmo, e... a última coisa que eu quero estragar tudo com a minha
boca grande, só que... não sei... e-eu, eu sou muito, muito ruim com esse tipo
de conversa, sei lá, eu f-fico nervosa e, e quando vejo acabo dando umas respostas
piores ainda – a olhei nos olhos, tentando fazer com que visse a sinceridade
neles – Saiu tudo errado, Bi! Não era a minha intenção, meu, não mesmo...
– respirei fundo – ...e-eu gosto tanto de você, porra.
Meu corpo pendia sobre o seu e ela me olhava, com os braços ainda cruzados. Suas costas estavam
contra a parede e a sua expressão aborrecida. Deixa passar essa, garota, eu a encarava de volta, por favor. E naquele momento, a Mia podia
ir à merda. O que eu queria era ficar bem com a Clara, mais do que já quis
qualquer coisa nessa vida. Ela abaixou a cabeça, cedendo um pouquinho. E empurrou
o meu corpo com um dos seus ombros, num movimento leve, ainda com os braços
cruzados.
_Eu também gosto de você... – murmurou, admitindo pela
primeira vez, um tanto brava e um tanto sorrindo – ...mas você é MUITO babaca. Puta
merda!
_Eu sou mesmo... – eu ri.
_Não! Não, não... – a Clara balançou a cabeça, indignada – ...não
vai achando aí que é engraçado, que você pode se safar assim toda vez... –
descruzou os braços, apontando o dedo na minha cara e eu ri ainda mais, junto com
ela – ...você vai ter que aprender a conversar que nem uma pessoa normal, se a
gente for mesmo ficar junt...
_Ahhhh! – brinquei – Então você quer ficar junto?!
_Cala a boca! Eu não terminei.
_Clara Villares Huanca desistindo do seu mar de amantes
paulistanas... – a provoquei – ...quem diria, hein?
_Olha... – ela me encarou, sem paciência – ...seria muita sorte
sua.
_Seria mesmo.
Admiti. E nós ainda ríamos, quando nos beijamos contra a parede. Fazendo
as pazes.