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setembro 04, 2012

Prazer, Du

Estava entre a diretora de arte da produtora e uma das atrizes no set, quando senti o celular vibrar no meu bolso. Tirei-o discretamente da calça e espiei – “e oq era? :3”, a Mia respondeu. “Dps t conto”, digitei brevemente e tornei a focar os meus olhos na prancheta cheia de rabiscos, sem dar bandeira. A gravação daquela manhã parecia durar para sempre.
 
Céus. Não é possível que achem isso ‘cool’, julguei silenciosamente, observando com certo desgosto as escolhas trágicas da equipe de figurino. Umas roupas pretensiosas que contrastavam escandalosamente com a calçada suja e aquele charme urbano de São Paulo. Mas, né, quem era eu pra falar, metida numa bermuda e com a mesma camiseta desbotada de quatro dias antes.
 
Esperei as coisas acalmarem um pouco e dei uma escapada para fumar. Fiquei fofocando com uma das assistentes, entre uma tragada e outra, do lado de fora. Ela ria dos meus comentários sobre o figurino. A gravação, claro, estava atrasada. Quando olhei no meu relógio, faltavam menos de vinte minutos para as 14h – merda, merda. Joguei a bituca no chão, com pressa, apagando a brasa com a ponta do meu All Star encardido. Corri até a tenda onde estava o restante da equipe e avisei que ia tirar o meu horário de almoço, largando a prancheta com um estagiário.
 
Subi então para o metrô, descendo na Consolação e cruzando a pé para a Frei Caneca, de olho no horário. 14:07. A menos de um quarteirão do nosso prédio, vi um cara de cabelo loiro escuro parado em frente ao portão. Vestia uma calça saruel preta e tinha uns óculos escuros Clubmaster. A regata branca com o corte fundo na lateral o denunciava como amigo do Guilherme. 100% viado.
 
_E aí, beleza? – me aproximei, o cumprimentando – Você que é o Du?
 
Ele sorriu e se apresentou, pegando a mochila que estava no chão; tinha umas tatuagens esquisitas no braço – dessas propositalmente toscas e aleatórias, não sei bem explicar. Fomos juntos até o elevador do prédio. E apertei para o nosso andar, enrolando as mangas da camiseta sobre o ombro, cansada da descida em ritmo apressado até a Frei. Me sentia confortável ao lado dele, bom sinal. Agora que o via mais de perto, todavia, não me parecia ser mesmo gay. Ou será que é?, me ocupei com o meu radar por um instante, distraída.
 
Andamos até a porta do apartamento e eu entrei, largando minhas chaves na mesa e chamando o Fer para checar se estava em casa, mas ele não respondeu – o apê estava vazio. Fui na frente, mostrando o espaço e puxando assunto, sondando mais sobre o Du. Ele era ator de teatro, assim como o Gui, só que de uma outra companhia que eu nunca tinha ouvido falar. Trabalhava dando aula e fazia mestrado, tinha 26 anos. A princípio parecia meio quietão, na sua, não abriu muito a boca, mas algo me dizia que era debochado.
 
_E cê tá querendo sair lá de onde cê mora?
_É. Moro com uma família no Santa Cecília, tenho um quarto alugado – o Du olhava os cômodos conforme a gente ia andando – Mas é ruim lá, meu, não tenho privacidade e ficam cagando regra. Não funciona.
_Não te deixam levar gente ou o quê?
_Ah, entre outras coisas... – riu, erguendo os óculos sobre a cabeça – ...mas, assim, já fodi meio Vale escondido enquanto eles ouviam louvor no andar de baixo.
 
E aí estava, o deboche.
 
Achei graça. Vamos nos dar bem. Chegamos, enfim, ao quarto que ele ocuparia caso resolvesse se mudar pra lá e eu afastei a bagunça do Fernando com os pés para que pudéssemos entrar direito. Expliquei que aquele era ligeiramente maior que o meu, então o aluguel não seria dividido exatamente na metade. E que a maioria dos móveis iam sair – tudo o que o Fer não fosse levar, ele ia tentar vender, então não ia sobrar muita coisa. Nem a cama.
 
_Hum. E o seu amigo tem planos de voltar quando?
_Então, daqui uns meses, acho. Assim que ele arranjar um trampo e juntar uma grana, se estabilizar, aí ele vem de novo. Mas dá pra ir conversando... – cocei a nuca, já voltando pra sala – Quanto tempo cê acha que ia precisar aí?!
_Ah, meu... uns sete, oito meses. Tô tentando uma bolsa na gringa, a ideia é fazer uma parte do meu mestrado fora, mas isso deve rolar só lá pra julho, agosto... O que der pra eu ficar aí antes já ia ser perfeito. O apê de vocês é do caralho, meu...
 
Sorri e encostei contra o apoio do sofá, ainda em pé. Ele parecia mesmo o tipo de cara que frequentava a Society – que ficava a 500 metros do nosso prédio –, senti que se mudaria imediatamente para o quarto do Fer se pudesse. Estava visivelmente animado. Cruzei os braços, o observando. Talvez eu devesse falar mais alguma coisa, não sei, mas a verdade é que eu não sabia muito bem como diabos entrevistar alguém para dividir um apartamento. Literalmente só tinha morado com o Fer desde que saí da casa dos meus pais.
 
_E... c-cê tem alguma pergunta? – questionei, sem muitas ideias de como prosseguir.
_Não. Ou melhor... – o Du riu – ...só por precaução, quais as regras?
_Olha, não muitas – ri também – A gente divide as contas e dá uma faxinada a cada semana, quinze dias, sei lá. Eu passo a maior parte do tempo fora, então nem vou ficar muito aí. Quando venho geralmente tô trancada no quarto... E de resto é bem de boa. Traz quem cê quiser, faz o que quiser, tô pouco me fodendo. Só não largar prato sujo por três dias na pia que tá tranquilo.
_Pode crer. E assim, é “legalizado”?
 
O encarei como quem diz “meu bem, olha pra minha cara de maconheira, né”. Gostei de você.

setembro 01, 2012

AM

_Bi... – ri, enchendo o seu rosto de beijo – ...acorda!
 
Já tinha me levantado há quase 40 minutos, tomado banho, escovado os dentes, feito café e a Clara continuava desmaiada entre os lençóis. Balancei os cabelos molhados, os bagunçando com a mão, para que respingassem na sua cara. Nada. Uma careta aqui, outra ali, e ela se afundou ainda mais no travesseiro. “A gente vai se atrasar”, subi então em cima dela, cochichando. Mas nada feito.
 
Na noite anterior, fumamos um baseado e acabamos nos enroscando no sofá, assistindo um filme qualquer na TV enquanto a Luna passava inconvenientemente em frente à tela. Afundei-me nos seus braços e nos ajeitamos deitadas, levemente tortas, naquele pequeno espaço. Até que começamos a nos cutucar por baixo das nossas camisetas, como duas bobas, e a brincadeira virou uns amassos meio adolescentes – que logo se transformavam num passatempo um pouco mais adulto. Dessa vez, com sucesso. E o que começou no sofá da sala, uma hora passou para o quarto. Lá pelas tantas da madrugada.
 
Agora eu lutava para tirar a Clara da cama. Foi um parto. E quando finalmente consegui, não deu tempo nem de comer qualquer coisa – saímos correndo, atrasadas e rindo, derrubando o café pelo corredor do prédio e tropeçando nos nossos próprios passos para descer as escadas. Corri até a estação Sumaré e peguei o metrô lotado para a Brigadeiro. Assim que desci na Paulista, chequei um relógio eletrônico de rua e o visor já marcava 09:11.
 
Acendi um cigarro, apressada, e peguei o meu celular para enviar uma mensagem ao tal do Du, conforme descia a rua. “Oi, o gui me passou seu numero. Ce quer ir hj ver o apto? Pode ser umas 18?”, digitei. E ainda estava descendo a calçada da Brigadeiro quando ele me respondeu – “preciso ta na rodoviária as 5, passo o Natal com minha família no interior :/”. Aquele era o último dia antes do recesso e eu tinha que acompanhar uma gravação até às 13 na Liberdade. “Pode ser dps do almoço? 14?”, perguntei a contragosto, já calculando o corre que ia ser sair do set para ir até em casa. “Sim, com ctz!”, piscou na minha tela segundos depois.
 
.
 
Passei o endereço e ia guardar o telefone de volta no bolso, mas, por algum motivo, mudei de ideia. E foi assim, numa idiotice impulsiva, a poucos passos da entrada da produtora, que abri mais uma vez a caixa de mensagem. Vejam bem, não foi planejado, foi... n-não sei o que foi. Foi um “pensei em vc do nd ontem meu... na pior hr... rs”, escrito sem pensar, conforme dava um último trago no cigarro. Apertei enviar antes que pudesse me dar conta do que estava fazendo. E na mesma hora, senti um leve revirar no estômago. Não queria passar a impressão errada para a Mia, nem desencadear nada. Não sei que porra queria. Numa vontade boba de lhe mandar algo, de falar com ela. Pra quê?, me incomodei comigo mesma.

agosto 30, 2012

Inquietude

Mas aí... perdi o foco.
 
Foi estranho. Digo, não estranho, estranho – eu continuei, ali, só a minha cabeça que parecia fora de lugar. Desconectada dos meus movimentos. O que não costumava acontecer com a Clara. Com a gente era sempre muito intenso, simbiótico quase. Talvez a ligação tenha atrapalhado, não sei, toda a história com o Fer e o rolo do apê. Argh. O que tá acontecendo?
 
Sentia como se uma parte da minha mente não conseguisse estar presente, perturbada por ruídos de fundo, pensamentos indistinguíveis em si, enquanto os meus olhos se fixavam na Clara adiante. Ela se movia em cima de mim, as coxas grossas intercaladas nas minhas, absolutamente maravilhosa. Se curvava para trás, num vai-e-vém gostoso, e o meu inconsciente lá, inquieto – como se tivesse algo sempre ali, na visão periférica. Fiz um movimento, levantando as costas do chão e indo na sua direção, com vontade de fazer aquilo dar certo. E num lapso, a Mia surgiu na minha cabeça.
 
Do nada.
 
Cerrei os olhos, os meus dedos seguraram as pernas da Clara com força. E ela me beijou em resposta. Senti a sua menina molhar a minha – deslizando e me fazendo subir um calor por dentro. Mas algo em mim não se desligava. Meu coração acelerava involuntariamente. Puxei-a mais para perto, esbarrando nossos corpos suados. Querendo atropelar o que fazia o meu pulso disparar. De fora para dentro, não o contrário. Vamos lá. A Clara já tinha gozado duas vezes e eu não cheguei nem perto.
 
Agora, me esforçava. Inferno. Desci a boca pelo seu corpo, os dentes arranhando a sua pele, a mordendo. Ia lambendo cada marca que fazia, a segurando colada contra mim. Sua respiração ofegante, inconsistente enchendo os meus ouvidos; o meu corpo gritando pelo dela. E como se me pedissem, dez segundos antes, para não pensar na porra do elefante rosa no meio da sala loja de cristal – tudo o que me vinha à cabeça agora era o desgraçado. Isto é, a Mia. E os seus olhos, seu gosto. A textura da sua pele. A forma suja como se movia quando estava comigo, o seu cheiro, a sua boca. E cada maldita palavra que saía dela. “As melhores”, é. Puta merda. Dei um suspiro carregado e cerrei mais uma vez os olhos, franzindo as sobrancelhas, tentando me concentrar. Mas, não. N-não dá.
 
_Cara, me dá só um segundo... – pedi, interrompendo, e abaixei a cabeça, frustrada – ...eu tô, t-tô fora de mim, não sei.
 
Deslizei para o lado, no chão, me afastando da Clara.
 
_Aconteceu alguma coisa?!
_Não... e-eu só... sei lá, tô, t-tô em outro lugar.
 
Em algum mês do ano passado, provavelmente.
 
_Mas... n-não foi nada que... – a Clara estranhou – ...que eu fiz de errado, foi?
_Não! Não, meu... – me apressei em garantir, segurando o seu rosto entre as minhas mãos, me sentindo mal – Cê não fez nada errado, linda, pelo contrário... cê fez tudo certo... – sorri, a beijando – ...eu que tô fora de órbita, sei lá. Já, já passa...
 
“Tá bem”, ela murmurou, se deitando no chão do apartamento. Se espreguiçou, esticando as mãos sobre a cabeça. E eu a olhei ali, a mina que eu amava, nua, a meio metro de distância de mim, sem conseguir entender o que se passava comigo. Esfreguei a mão no rosto, tentando me desfazer daquela confusão, e alcancei um cigarro no maço largado ao nosso lado. Que merda eu tenho hoje?

agosto 08, 2012

2 pais e 1 amigo gay

No dia seguinte, o meu pai me ligou. No exato momento em que eu me desdobrava, descoordenadamente, entre enviar um SMS para a Clara e a desajeitada tarefa de segurar a mochila para frente ao sair pela catraca do metrô. Coloquei o celular entre o ombro e o ouvido, apoiando-o enquanto usava as mãos para desvirar a mochila e vestir as alças novamente nas costas.
 
_Como tá indo a mudanç... – ele interrompeu a fala, me ouvindo em meio ao caos – ...onde você tá?
_Saindo do metrô. Só um segundo.
 
Subi as escadas num impulso e acendi um cigarro já do lado de fora, na frente da estação Sumaré. Com o filtro na boca, tornei a colocar o telefone no ouvido e o incentivei a continuar – “fala”. A saída do metrô estava movimentada e a noite agradável.
 
_Olha, a sua mãe tá preocupada com quem você vai enfiar nesse apartamento para morar com você. Ela disse qu...
_Claro que ela tá, meu. Ela odeia a Augusta!
_É, mas talvez seja uma oportunidade para você repensar isso, minha filha. Achar alguma coisa mais bem localizada, fora da muvuca, alugar uma kitnet.
_Não quero, já falei para vocês. Eu gosto de morar lá – argumentei, conforme olhava para o lado antes de atravessar a rua – E outra, o Fernando vai voltar. É só por uns meses até ele conseguir um emprego. Depois do Ano Novo, capaz de aparecer mais coisa...
_Ainda assim, não sei se é boa ideia você deixar qualquer um ir morar assim com você. Depois a pessoa é estranha, mexe nas suas coisas, pode levar gente perigosa pro apartamento. Você sabe como essas coisas são... – ele resmungou, contrariado, e eu ouvi a minha mãe gritar algo ao fundo – ...a sua mãe quer falar, peraí.
 
Lá vem, suspirei e revirei os olhos, já me aproximando do prédio da Clara. Um baixinho de poucos andares e com varandas minúsculas, a dois quarteirões dali. Quanto antes chegasse, antes me livraria dos palpites da minha mãe.
 
_Você ligou para a sua prima, como eu te pedi?
_Não.
_E por que não?!
_Mãe, pela milésima vez, eu não vou morar com a Nádia. Ela fica na porra do Morumbi! Que merda eu vou fazer lá, me diz?! – me estressei com a insistência; fazia dias que ela me enchia com aquilo – Fora que, né, a gente não tem nada a ver uma com a outra.
_Como não? Vocês duas eram tão grudadas...
_Quando eu tinha 8 anos, né... – revirei os olhos, tentando entender o que a minha mãe enxergava em comum entre a filha caminhão e a sobrinha hétera-top que fazia aula de Zumba – Não, não dá, mãe. Imagina eu aparecendo lá no flat da menina com meus amigos viados, levando a Clara para dormir lá, que maravilha ia ser.
_Você também não precisa agir desse jeito.
_Hum, fala... – me incomodei com o comentário – ...de que jeito?!
_Não foi o que eu quis dizer e você sabe.
_Tá, tá. Olha, mãe, preciso desligar... – a cortei – ...tô chegando no prédio da Clá já, depois a gente se fala!
 
Desliguei às pressas, antes mesmo de terminar o primeiro quarteirão. Aí desci os metros que faltavam e toquei a campainha ao chegar, terminando o cigarro o mais rápido que deu e subindo depois pelas escadas. Tão logo a Clara abriu a porta, arranquei a camiseta que eu estava usando e a larguei no chão. Ela sorriu, me beijando, enquanto desabotoava a minha calça e descia o meu zíper – o seu SMS, uns quarenta minutos antes, tinha sido bastante específico quanto ao que ela queria fazer naquela noite. É. E ia acontecer ali mesmo, no meio da sala.
 
Sorri, imprestável, com uma saudade desgraçada dela. E em menos de dois minutos, o meu rosto já estava metido entre as suas pernas, deitadas no chão – a sua calcinha amassada na minha mão direita e seu vestido erguido até a cintura pela esquerda. Mas aí o meu telefone começou a tocar de novo. Inferno. Depois parou. E então começou mais uma vez. “Você quer atender?”. “Não”, murmurei, tirando a boca dela por um segundo, “são meus pais, deixa quieto”. Voltei ao que estava fazendo. E senti o seu corpo inclinar, logo em seguida, droga.
 
_Hum. Aqui tá dizendo ‘Gui’... – a Clara riu, com o celular já em mãos.
 
Por que não deixou no chão, porra?
 
Me sentei no vão entre as suas pernas, inconformada, a olhando de volta. E ela me esticou o telefone, o qual atendi emburrada. “Temos tempo”, a Clara gesticulou com a boca em silêncio, e eu a beijei com vontade – conforme o Gui tagarelava, afetado, do outro lado.
 
_Amiga! Revolvi seu problema!
 
Duvido, pensei, interrompida.
 
_Eu tô aqui na Fradique, numa mesa de bar... – quase gritava no meu ouvido, rindo – ...com três bichas maravilhosas e um boy que nunca comeu uma bunda e só por isso não sab... – céus, isso vai levar uma eternidade – ...ai, não me belisca! Para! – ele se distraiu, por um instante, e eu podia ouvir o restante da mesa rindo, entre comentários e xingamentos trocados longe do telefone – ...e enfim, um deles tem um amigo... que sempre vai na Society com a gente, o Du, e ele tá super precisando de lugar para ficar... – o Gui pausou para chamar o garçom, aos berros – ...mas então, ele é ator também... e ele quer fugir de uma pensão uó que ele fica, na casa de uma família lá no Santa Cecília, péssima... mas parece que ele quer um lugar temporário mesmo... e aí eu vi seu recado e já mandei mensagem para ele, ele disse que pode passar aí amanhã! – anunciou, convicto da boa ideia que tivera – Fala sério... me diz, você me ama ou não?
 
Não. Argh, não sei. Passei a mão no rosto, suspirando, confusa. A verdade é que eu não sabia se era mesmo aquilo que eu queria. Nem se estava pronta para, de fato, achar alguém para colocar no lugar do Fer. Todavia, o Gui aguardava, empolgado, do outro lado da linha.
 
_Amo, amo – respondi, me dando por vencida, e ri – Escuta, passa o telefone dele pra mim por mensagem e eu vejo, depois a gente se fala. Tô no meio de uma parada aqui e é importante... tá?

agosto 06, 2012

O pó do armário

_Claro que já... – a Marina tagarelava agora, por qualquer motivo, sobre suas experiências com homens – ...eu namorava um cara antes dela.
_Na faculdade isso? – o Fernando perguntou, com a Mia já ao seu lado.
_É. Um babaca! – me intrometi.
 
Passei por cima do encosto do sofá, enquanto resmungava, deitando meio de qualquer jeito ao lado da Marina. A mera lembrança do imbecil já me dava revertério. Argh. Eu odiava o sujeito – sempre odiei. Revirei os olhos em desgosto pelo rumo que a conversa tinha tomado. “Para com isso!”, a Marina me deu um tapa de leve no ombro e eu ri, em teimosia. Aquela era uma briga antiga nossa, desde anos antes, quando a gente namorava. “Não é assim, ela não conheceu ele direito...”, justificou para os dois, sentados na poltrona. Não interessa, porra. Me irritava como ela ainda o defendia.
 
_Não sei por que cê é tão apegada a esse cara, mano... – balancei a cabeça, amarga, ainda afundada no sofá – Só porque foi seu último namorado? Porra, que importa?! Não tem mais nada a ver com você, caralho. Cê é sapatão!
_Ainda assim, é parte do meu passado, foi uma pessoa que eu amei. Não deixa de ser importante.
_Ah! Corta essa, Marina!!
_Ihh... – o Fer me zombou, rindo – ...tá ficando nervosinha, hein?!
_O cara era um idiota, mano, o único mérito dele é ter sido o último homem na vida da Marina, como se fosse uma porra dum marco social – argumentei – Me irrita. Me irrita mesmo! Puta lógica babaca, velho. Cês não ficaram nem seis meses juntos!
_Bom. Então, cê tá me dizendo... – a Marina insistiu, sem aceitar a minha posição – ...que os caras com quem você ficou, a sua vida toda, foram automaticamente menos do que as mina?
_Foram. Lógico que foram! – respondi, na mesma hora – É exatamente isso que eu tô dizendo! Nenhum deles importa, mano!
_Não é verdade. Não pode ser.
_Claro que é, Má. Eu não lembro nem o nome dos caras que peguei!
_Ah, quer que eu te lembre alguns? – o Fernando logo se voluntariou, rindo, e a Mia arregalou os olhos, dando-se conta de que estávamos falando sério.
_Você?! – nos interrompeu – Você pegou caras?
 
Gente, essa gaveta tá muito, muito lá no fundo do armário, me incomodei com toda a atenção. Vamos deixar lá, né?
 
_“Pegar”?! Ela já namorou um! – o Fer soltou a fumaça, rindo, ainda com o baseado em mãos – Um pobre coitado, como ele chamava?
_VOCÊ NAMOROU UM?!? – a Mia tentava não se exaltar, sem muito sucesso – UM CARA?!?!
_Era Lucas. Mas, ai, mano, isso faz, tipo... sei lá, muito tempo! Eu tava na sétima série, porra... Foi namoro de criança. E no ano seguinte, eu já estava andando pela escola de mãos dadas com a minha primeira namoradinha...
_Meu, não. Não dá – a Mia balançou a cabeça, inconformada – Não consigo te imaginar com um cara, não dá, é muito estranho!
 
Dei risada. Aí estiquei a mão e alcancei o maço na mesinha de centro, tirando um cigarro. Larguei o pacote sobre as pernas e dobrei uma delas em frente ao corpo, com os pés em cima do sofá. Acendi com um fósforo e calculei para não deixar a volta desigual. Aí senti os braços da Marina me rodeando, num abraço meio desajeitado.
 
_Não se preocupa... – ela fez graça pra Mia, me apertando com um beijo no rosto – ...mais sapatão que essa aqui não dá pra ficar.
_Nossa, sim. Credo! – dei um trago – O dia que eu gostar de macho, cês me internam!
 
A Marina riu, revirando os olhos, com os braços ainda ao meu redor.
 
_Sutil.

agosto 05, 2012

Destinada a repetir

“I could never pretend that I don’t love you
You could never pretend that I’m your man 
...
I could never place the stars at night above you
Got my hands in the ground 
And you know I’m right

(Trampled by Turtles)

agosto 02, 2012

Uns desenterros

“Então cê não vai admitir?”, o Fernando sorria e observava a Marina gesticular, à beira do sofá, cada vez mais indignada. “Não é a mesma coisa, você não tá me escutando”. Ele tinha o baseado aceso na ponta dos dedos e se curvava na sua direção. Agora estava só eu e a Marina na sala, sentadas à sua frente – a Mia tinha levantado do braço da poltrona e ido até a cozinha. A minha ex pressionava os olhos, inconformada, e se deixava irritar. Falhando em perceber que o Fernando só provocava, sem interesse real em suas respostas sobre se eu era ruim de cama ou não.
 
“Má, tudo bem”, ele insistia, condescendente, “pode dizer”. E ela balançava a cabeça – “para, chega!”. Eu ri da determinação de ambos. Me levantei, os deixando discutir sozinhos, e fui até a cozinha. O som do rádio se afastou, contido na sala – “the way you stick out your lips and keep your hands on the hips and I’m supposed to know and I’m supposed to know”. Entrei pela porta do corredor. E por um segundo, pensei em Ortega.
 
Eu sou eu e a minha circunstância.
 
A Mia se inclinava em frente à geladeira aberta, com uma das mãos apoiadas na porta. Estava num moletom da Vice Squad, uma banda punk inglesa que eu mesma só conhecia por causa dela, e com uns shorts jeans quase imperceptíveis por baixo. Uns fios despenteados caíam do rabo improvisado sobre sua cabeça – ver a Mia descabelada sempre me fazia estranhamente feliz. Como se estivesse desarmada, confortável consigo mesma. A observei de longe, encostada no batente, com a minha cerveja vazia em mãos. Ela não notou a minha presença, em busca de algo na prateleira abaixo do freezer.
 
Andei até a pia e deixei a latinha perto do lixo, apanhando uma garrafa de rum que a própria Mia devia ter colocado sobre a mesa. Abri a tampa. E pus uns dois dedos num copo. Só então ela reparou em mim ali, levantando brevemente os olhos por detrás da porta da geladeira. “Desistiu da cerveja?”, perguntou, já com a cabeça novamente abaixada. E eu ri. “É só um pouquinho”, respondi. Fechei a garrafa de novo, a deixando de lado. E dei dois passos na sua direção, encostando no balcão à sua direita.
 
Tomei um gole.
 
Podia ouvir a Mia se mexer do outro lado da porta da geladeira. Tinha metade de um limão velho na mão esquerda. E os olhos ocupados, a boca levemente entreaberta, como fazia quando estava concentrada – às vezes a via de relance, quando balançava o corpo para trás escaneando as prateleiras. Agachou-se frente à gaveta de frutas e vegetais. E eu dei mais um passo para perto, cruzando os braços sobre a porta da geladeira para espiá-la. Achei graça nela ali – “o que diabos cê tá fazendo?”.
 
_Queria... f-fazer uma... – explicou, espaçadamente, conforme vasculhava pelos legumes – ...caipirinha. Mas não acho um limão bom, mano!
_Porque não tá aí! eu ri.
 
E indiquei para que os pegasse numa cesta dentro do armário. Não era um bom lugar para limões, admito, mas foi onde os jogamos na última compra. Ela alcançou um mais fresco e eu a observei em silêncio, enquanto o cortava na metade. Sem entender como uma atividade tão simples podia me prender tanto a atenção. Encostei de volta no balcão, dando outro gole no meu rum, olhando para os seus dedos. Senti o rum descer gelado pela minha garganta. De costas para mim e em frente à mesa, também em pé, a Mia envolveu metade do limão com a mão e o espremeu num copo, o suco escorrendo sobre o esmalte descascado das suas unhas.
 
Completou com açúcar, jogado direto do saco, e virou o rum que eu assaltara minutos antes por cima, mergulhando o indicador no copo em seguida – mexendo tudo meio de qualquer jeito. Se virou para mim, apoiada contra a beira da mesa. E cruzando as pernas em frente ao corpo, chupou o dedo molhado de caipirinha, lambendo rapidamente a pontinha dos demais, antes de tomar um gole. Meus olhos fixados na sua boca. Ainda podia ouvir o Fer e a Marina discutindo sobre sexo ao longe. Virei o que restava do meu rum no copo, ainda encarando seu rosto. E lá estavam de novo, as suas sobrancelhas arqueadas.
 
_Nós tivemos umas boas, não?
 
Perguntei e ela sorriu de volta.
 
_As melhores.
 
Fiz um gesto com a cabeça, concordando. A Mia riu, desviando o olhar por um instante. Tinha certa naturalidade, não sei, uma tranquilidade conquistada entre nós. A Mia descruzou os pés, retomando seu caminho de volta à sala, e eu cruzei os meus, ficando um pouco ali. A observei sair. Meu pensamento se demorou no jeito como aquelas duas palavras deixaram a sua boca. Sorri meio à toa. E depois segui atrás dela, nuns passos desacelerados.

julho 31, 2012

Diálogos quietos

_Outros quinhentos, Fernando... – a Marina riu.
_Quinhentos a mais ou a menos?!
_Não é assim.
 
Os dois começaram então a discutir e a trocar comentários que, de um jeito ou de outro, rodeavam o meu desempenho sexual. Que agradável. Por educação ou sinceridade, a Marina me defendia das provocações do Fernando. “Boa coisa não pode ser, né”, ele dizia, “essa aí demorou pra segurar uma que fosse!”. Ele se divertia, entre uma tragada e outra do beck, brincando com ela. “Mas você também nunca me ouviu falar! Nem dela, nem de ninguém...”, a Marina argumentava, numa tentativa diplomática, ainda um tanto acanhada pelo tema. Eu me abstinha. E foi quando, num intervalo de poucos segundos, os meus olhos cruzaram com os da Mia, agora apoiada no braço da poltrona onde o Fer estava. Ela me observava de volta, conforme os dois discutiam, com um riso escondido no olhar – como quem detém uma informação que não pode revelar. Arqueou as sobrancelhas para mim e eu achei graça.
 
Me diz você, garota.

julho 29, 2012

Por inteiro

Naquela quarta, o meu martírio domiciliar foi interrompido pela Marina.
 
_Oi! – ela sorriu e arregalou os olhos, assim que abri a porta – Nossa... Cê tá bonita, flor!
_É? – ri, apoiada no batente – E você tá mais de uma hora atrasada, o que acontece?
 
Umas duas horas antes, tinha me mandado um SMS um tanto dramático. Um “vms jantar? PRECISO te ver agora!!” que me soava como se ela tivesse algo muito importante para me contar. Se eu bem conheço a fofoqueira da Marina, não é. A real é que eu andava um tanto ausente nas últimas semanas, engolida pela situação no apartamento – da qual ela sabia meio por cima. Mas seu atraso incomum me deixou curiosa. Algo tem aí.
 
_Hein? – insisti, com os braços de fora numa regata butch preta.
_Já te conto... – ela foi marchando apartamento adentro, daquele seu jeito – Como tão as coisas com você? Já achou alguém pra dividir?
_Não. Nem fui atrás...
 
Me olhou por trás dos seus óculos pretinhos. E me repreendeu – “flor, você não pode ficar adiando isso!”. “Eu sei”. “É sério, linda, você vai se afundar em dívida assim”. “Me deixa, Má”, resmunguei, “vou lidar com isso no meu tempo”. Ela se limitou a revirar os olhos e seguiu andando pelo apartamento, em direção à cozinha. Estava estranhamente acelerada.
 
Se serviu um copo de água da jarra na geladeira e aí logo voltou para a sala – eu a seguia como uma barata tonta. Se sentou por fim no sofá e descalçou os sapatos para cruzar as pernas em frente ao corpo. Estava com uma saia mostarda dessas bem esquerdista, com cara de acabei-de-sair-dum-filme-cult-no-Belas-Artes, que batia abaixo do seu joelho, e uma blusa preta de alcinha metida por dentro da cintura alta. Ah é, e com o cabelo solto – o que, em termos de Marina, era tão raro quanto o atraso. O que diabos tá rolando?
 
Talvez qualquer outra pessoa sequer se desse conta. Não era nada realmente explícito. Mas sabe quando você conhece alguém bem demais para se deixar enganar pela aparente normalidade? Pois é. Algo tinha ali. Estava com um ânimo diferente, não sei. Observei-a tomar um gole da água, enquanto me juntava a ela no sofá e abria uma cerveja que peguei na nossa rápida passagem pela cozinha. Achei certa graça na agitação toda.
 
_E então?
_Ai... – cobriu o rosto com a mão, se contendo – ...eu conheci alguém.
_Ah, jura? – ri – Dá para perceber, né, Marina.
_Dá?
_Vai, me conta.
_E-ela... – sorriu, mal se aguentando de felicidade, mordendo a ponta do dedo – ...chama Vivian. E, e a gente saiu quatro vezes.
_Hum...
_Não, não, cinco! – corrigiu e confessou – Vi ela rapidinho antes de vir pra cá.
_Ah, entendi tudo agora... – comecei a rir, de novo, imaginando o motivo do atraso – ...mas e aí? Tá sério já, cê já tá apaixonada assim?!
_Flor, você não tá entendendo. Eu nunca, nunca saí com ninguém assim. E-ela... – suspirou – ...ela é tão, tão bonita e, e inteligente. É advogada de, d-de direitos humanos, a, a gente se conheceu n-numa... – se enrolava para falar, emocionada – ...coletiva de imprensa. E, e ela me chamou pra tomar uma cerveja depois, a gente conversou a noite toda e, e d-depois ela me... m-me beijou contra o carro, quando a gente tava indo embora. E e-eu... meu, não sei nem explicar!
_Eita, Marina.
_Não. Cê não tem ideia! Sabe tudo o que eu passei com a Bia?
 
Revirei os olhos com a mera lembrança, acenando.
 
_Não tem nada daquilo. Zero! Sabe quando você não tem que ficar indo atrás? Quando as duas se querem do mesmo jeito? – apoiou a cabeça no encosto do sofá por um instante, toda boba-alegre – Mano, a gente troca mensagem o dia todo, e-ela se interessa por tudo o que eu falo, pelo meu trabalho, me liga para saber minha opinião toda vez que surge algum debate interessante no escritório dela. A gente, meu, juro, a gente fica horas no telefone!
 
Nunca vi ninguém gostar tanto de telefone quanto a Marina.
 
_Ok, tô convencida. É o amor da sua vida.
_Muito engraçadinha.
_Não tô fazendo graça, Má, ela parece maravilhosa mesmo – sorri.
_Ela é! – ela sorriu também – Linda, juro, e-eu nem sabia que podia ser assim. Sempre me senti tão insegura nos meus relacionamentos, você sabe... dava tudo de mim e ficava recebendo migalha em troca. E a Vi, mano, ela parece que me enxerga, sabe? Fora que, né, a diferença absurda que faz estar com outra mina preta. A gente tem conversado muito sobre isso e, meu... para ela tá sendo o mesmo processo, não sei, é como se a gente fosse construindo tudo juntas. É tão bom, flor!
_Espera. Como assim? Cês já tão construindo uma porra dum relacionamento e eu só tô ouvindo sobre essa mina agora? Olha, Marina, tô meio ofendida... – ri – ...eu te conto tudo sabe.
_Ai, não, e eu nem contei de ontem!
 
Me pegou pela mão, empolgada.
 
_Ontem?
_É. A Vi dormiu em casa.
_Hum... – arqueei as sobrancelhas – ...e?
_E meu, foi intenso. Nossa, f-foi como... – se ajeitou no sofá, cruzando os braços em volta das pernas – ...não sei, o jeito que ela me pegou, que ela me olhava enquanto a, a gente... flor. Juro. Tô desconcertada até agora. Foi muito perfeito. O beijo dela... e-eu não sabia nem quem eu era mais de tão, tão intenso, tão perdidas uma na outra que a gente tava...
_Hum, quem é essa aí? – de repente, o Fer perguntou.
 
Olhamos para trás e ele vinha pelo corredor, rindo da descrição entusiasmada da Marina. Ver o Fer assim, andando pela casa, fazia parecer como se ele fosse estar sempre ali – ainda era difícil encarar a realidade. Argh. A cumprimentou com um beijo no rosto, por cima do encosto. Mas, a essa altura, a Marina já estava toda constrangida. Muda e retraída no sofá. Eu ri do seu susto, pega desprevenida falando tão apaixonadamente sobre uma mulher. Desviei os olhos e aí vi a Mia, vindo alguns metros atrás do namorado.
 
_Quem é quem?! De quem cês tão falando? – ela chegou, desavisada, enquanto prendia o cabelo, e notou a Marina ali – Ah, oi!
_Oi... – a minha ex murmurou, querendo cavar um buraco no chão pra se esconder.
 
Eu ri ainda mais. O Fer sentou na poltrona ao nosso lado, curioso, acendendo um baseado.
 
_Num é, é que a Marina tava aqui me contando sobre um encontro que ela teve essa semana – comentei – Não sei se você reparou, né, no calor todo que fez ontem em São Paulo...
_É, pelo jeito, devia tá bom mesmo... – ele deu um trago – ...porque, olha, nunca ouvi ela falar assim de você, não.
 
Ah, vá. Idiota.

julho 25, 2012

Baque

Foi como se me roubassem o tempo.
 
Quando se vive junto assim, por tantos anos, é difícil cogitar qualquer outra possibilidade. Aquela era a minha realidade – o nosso apartamento, a nossa vida ali, porra. Sempre foi. Do segundo em que saímos da casa dos nossos pais, cada dia, cada mês, sempre fomos eu e ele. Nunca tinha morado com outra pessoa e a ideia de deixá-lo ir me partia o coração.
 
O entendimento veio aos poucos. Conforme os dias foram passando, fui me dando conta de que meu amigo não ia mais estar no quarto ao lado. Ia perder o meu companheiro de conversas no sofá de madrugada, de tantas cervejas e ressacas, abraçando a porra da privada juntos e nos metendo em encrenca, voltando para casa cambaleando, desperdiçando domingos inteiros na frente da TV jogando videogame. É o Fer. O Fer, caralho. O que diabos eu ia fazer sem ele ali?
 
Inferno.
 
A situação ganhava, cada vez mais, a devida dimensão. A dura e devida dimensão. E a ansiedade começou a invadir o meu sono, as minhas madrugadas. Aí fumava dois, três cigarros na beira da cama, desperta. Sem conseguir pregar os olhos. Depois deitava ao lado da Clara, ainda sem solução para o que estava sentindo, para aquela angústia. E ela me abraçava, me beijando carinhosamente os olhos – “vocês ainda têm tempo, linda”. Não o suficiente. Já era metade de dezembro. E com a proximidade das festas em família, combinamos que ele só se mudaria em janeiro. Por insistência minha, isto é, para poupá-lo de passar a pior época do ano metido numa casa com os pais.
 
Ao mesmo tempo, me recusava a achar alguém para entrar no seu lugar. Sentia como se aquilo, de alguma forma, fosse tornar real demais a sua saída. Então postergava. Fui ignorando o máximo que pude e o Fer fez o mesmo – não empacotava uma só coisa naquela casa. Nada. Eu estava triste. Puta merda, mano, como eu tava triste. Mas sabia que ele também estava e não o queria chatear ainda mais. Então a gente ria. O tempo todo. Quando foi a semana antes do Natal, estávamos virando noites inteiras, fumando maconha na sala e tagarelando – a nossa nova tradição. Como se pudéssemos compensar o que estava por vir. Ou evitar que as horas rodassem no relógio. Que mais um dia virasse e o meu melhor amigo fosse, de fato, embora.
 
Cacete. Existe vida sem o Fernando aqui?