- »

janeiro 15, 2010

[ CONTEÚDO EXCLUSIVO ]

AVISO: Os próximos 9 posts foram escritos exclusivamente para o livro do Fucking Mia e não estão disponíveis aqui. Os títulos são “Descuido”, “A.C.A.B.”, “Umas vontades de ficar”, “Boa praça”, “A fuga”, “O escanteio”, “Cilada”, “Não faz isso comigo, vai” e “No outro dia”.   
 
O livro do Fucking Mia está sendo preparado com muito carinho, em comemoração aos 10 anos de blog. O novo conteúdo está sendo desde meados da pandemia e a ideia é lançar em breve! 
 
Se você quer ser avisada(o) sobre o lançamento do livro, deixe seu e-mail aqui:
 

janeiro 14, 2010

Amigas

As semanas seguintes foram inevitavelmente ordinárias. Não aconteceu nada. A rotina e o tédio me anestesiaram de tal forma que não vi os dias passarem. As manhãs amanheciam iguais, vazias. Ia e saía do trabalho no piloto automático, consumida pelo nada que ocupava minha mente. De volta à porra do dia-a-dia. E eu não tinha absolutamente nada para fazer, para me preocupar...
 
Nada.
 
A Mia voltou a frequentar o apartamento e, com o tempo, já não me olhava mais como uma ameaça. Não esperava nada de mim – nenhum gesto em sua direção, nenhum olhar inapropriado, nenhum beijo infeliz no meio da madrugada. Nós éramos as mesmas de antes. Os meus dias tediosos se resumiam a trabalho e cigarros, um atrás do outro. E a dar uns beijos na Clara, com quem eu estava saindo mais fixo agora.
 
Ok. “Saindo” é uma palavra forte. Desde o meu desempenho fenomenal no bar do Glória, decidi que era mais inteligente investir meu dinheiro na possibilidade de um câncer do que na probabilidade de um coma. Assim sendo, não estava saindo porra nenhuma. A via na minha casa ou na sua e, fora isso, não ia a lugar algum. Mas fumava compulsivamente. Da porta do trabalho até a entrada do metrô e da saída na Consolação até a frente do meu prédio.
 
Ah. Lar, doce lar.
 
Após mais um dia completamente inútil, eu entrava em casa e dava de cara com a Mia. Que ótimo. A minha vontade de beijá-la não havia ido embora, mas agora éramos “amigas”. De novo. E isso me impedia de fazer qualquer merda que me comprometesse e acabasse de vez com as minhas chances de sequer existir na sua vida. Optei, portanto, por agir como uma pessoa normal e voltei ao que nós éramos antes de tudo aquilo acontecer.
 
Comíamos pizza juntas, assistíamos filmes de terror, conversávamos sobre Dario Argento, bebíamos cerveja, enchíamos o saco do Fer com arremessos de canudos, ouvíamos os Stooges no toca-discos da sala, fumávamos maconha, fazíamos bolinhos de chuva, ríamos muito, reclamávamos das nossas barrigas doendo, filosofávamos a noite inteira e aí íamos dormir em quartos separados.
 
Pois é, amigas.
 
E eu estava odiando cada segundo daquilo.

janeiro 12, 2010

Ressaca moral

De volta à estaca zero com a Mia. Por que tenho a sensação de que isso deveria me deixar mais feliz do que eu realmente estou?

Coragem, coragem

_Fer... Feeer... Fernando... Fernaaando... – eu sussurrava, ajoelhada ao lado da cama, sacudindo-o no escuro – Acorda... Feeeer...
_O q-que foi? – ele murmurou, sonolento, sem abrir os olhos.
_Eu preciso roubar sua namorada.
_O quê? – ele despertou, assustado – Do que cê tá falando?!
_Só um pouquinho. Assunto de extrema importância. Eu te devolvo logo.
_Mano, puta merda – deixou-se cair de novo na cama, ainda com sono – Cê tá bêbada?
_Muito.
_Deus do céu... Você não vai vomitar, vai?
_Talvez – respondi, com um quê de verdade – Me empresta ela, vai? Chama aí pra mim.
_Fique à vontade... – ele respondeu, meio dormindo, e pude ouvi-lo a balançando no escuro – Amor, acorda, emergência aqui.
 
A Mia estava do lado da cama que encostava na parede. Fora do meu alcance. Alguns chacoalhões depois, ela despertou e se levantou, me acompanhando até o corredor, sem entender o que estava acontecendo. E nem abrir os olhos direito. Parei com ela em frente ao meu quarto e pedi que entrasse.
 
_Mas não é melhor você ir para o banheiro? – cochichou.
_Eu n-não vou vomitar – retruquei, ofendida – Eu t-tô ótima.
_Você não me parece nada “ótima”... – ela levantou as sobrancelhas – ...quanto você bebeu?
_Ah, só entra aí logo!
 
A empurrei para dentro do meu quarto e fechei a porta.
 
_Você perdeu a cabeça? Que cê tá fazendo?!
 
Se virou para sair de novo e a segurei pelos braços.
 
_Olha... – disse, a olhando nos olhos – ...se eu não estiver incrivelmente bêbada, eu não vou resolver isso nunca.
 
Ela suspirou, sabendo do que se tratava, e cruzou os braços.
 
_E-eu queria me desculpar. Por tudo. Pela f-forma como eu ando agindo, p-pela Clara...
_Você não precisa se desculpar pelas minas com quem você sai – ela me interrompeu.
_Mia...
_Faz o que você quiser, meu, eu não tô nem aí! Você não tem que se desculpar por isso...
_Mas por ter te beijado, sim.
 
Ela ficou quieta e olhou para baixo, na mesma hora. Parecia não querer falar no assunto. Droga. Não sabia o que dizer. Senti como se tivesse tocado no tema proibido – a Mia subiu os olhos novamente em minha direção, irritada.
 
_Por que você foi fazer aquilo?
 
Me perguntou irritada, aos cochichos.
 
_Eu... e-eu não sei.
_Como “não sabe”??
_Não sei, porra! Olha, Mia, eu sou uma idiota, e-eu...
_É, você é mesmo!
_Você me odeia?
 
Olhei para ela, arrependida.
 
Senti uma insegurança horrível – como se tivesse colocado tudo a perder. Porque não ter a Mia era difícil, sim, mas só de pensar em não sermos mais tão próximas me embrulhava o estômago. Cacete. A Mia olhou para baixo e ficou em silêncio por alguns segundos. Estava descalça e com as pernas descobertas, numa blusa velha e larga do Fer.
 
_Claro que não – disse de volta, constrangida.
 
E eu sorri.
 
A Mia me deu um abraço – desses horríveis, bem de amiga – e nos olhamos. Nós duas rimos. Ela voltou para o quarto do Fer e eu pulei na cama, feliz, como uma adolescente. O sentimento não durou muito, todavia. Amanhã vai ser o pior dia da minha vida, concluí, ao me dar conta da ressaca arrasadora que me aguardava. Ainda assim, num ato de coragem, motivada pela imensa quantidade de álcool no meu sangue, fechei os olhos. E dormi.

janeiro 11, 2010

Meu passado me condena

...e infelizmente, o presente também.
 
Sabe como algumas lésbicas se consideram a “ovelha colorida” da família? Bem, digamos que eu era a galinha colorida da minha. E lugares como o Glória eram um problema – um problema considerável. Era o tipo de rolê estocado de exs e entrar lá acompanhada da Clara, que não ficava muito atrás na galinhagem, não me parecia a ideia mais sensata do mundo. Me arrependi no segundo em que chegamos. Por que eu tava com pressa de vir para cá? Impulsos suicidas?
 
Mas não tinha escolha.
 
Então entrei. Como entrei muitas vezes antes daquela e saí, horas depois, com dinheiro de menos e dor de cabeça de mais. Isso vai dar ruim. E eu não tinha a menor disposição para mais nada dando errado na minha vida. O Glória tinha esse nome porque ficava numa antiga igreja na Treze de Maio – o altar tinha sido substituído por paredes espelhadas e a pista era delineada por uns sofás largos afundados no chão, que lá pelas 4 da manhã viravam um amontoado de gente se pegando ou tentando não vomitar. Uma olhada rápida na pista e resolvi ir procurar a minha coragem no bar. Desaconselhavelmente. Duas doses de tequila depois e estava prestes a encontrá-la. De certa forma, ficar estupidamente embriagada me parecia um jeito mais fácil de estar ali.
 
_Devagar aí, gata! – a Clara disse, rindo, enquanto eu pedia a terceira dose – Quer acabar a noite na ambulância? Isso é tequila!
_Eu sei o que é – respondi, virando o copo – Vamos dançar, vem.
 
Arrastei a Clara até o meio da pista e o restante da noite me vem à memória somente em forma de flashes dispersos embaçados. Lá pelas tantas, trombamos com a ex – ou atual? – da Clara e ela me arrastou para o banheiro, aos risos, se escondendo. Fodemos em meio ao caos daquele cubículo imundo. E assim que saímos, demos de cara com a Roberta na fila. Merda. Quase me tranquei de novo na cabine. Improvisei um sorriso amarelo e, antes que pudesse trocar duas palavras com ela, a Clara me puxou para a pista – correndo para ouvir “Bucky Done Gun”. Atravessamos a multidão, nos enfiando no meio das sapatonas. E daí em diante não lembro mais porra nenhuma.
 
Deixamos a balada lá pelas 5 da manhã, consideravelmente mais pobres, com os braços doendo de tanto nos agarrar, numa pilantragem sem filtro. Eu estava tão bêbada que sequer contestei a quantia absurda de tequilas e vodcas que me foram cobradas. N-não bebi t-tudo isso, pensei, cambaleando para fora descabelada, c-certamente que n-não. Entrei no carro e acordei na frente de casa. Santa inconsciência.
 
Igualmente fora de controle, a Clara desceu para se despedir da minha pessoa contra o portão do edifício. E quase como se não pudéssemos evitar, demos início ao maior amasso do lado de fora do meu prédio. Pelo que acho que foram uns 20 minutos. Talvez 40? Não sei. A amiga emputecida buzinava insistentemente para que a Clara voltasse para o carro, enquanto eu me empenhava em fazê-la ficar.
 
_Vaaaamos... Eu deixo v-você ser o Bowie, eu deixo você ser q-quem você quiser... – eu argumentava, quase entrando na sua roupa, e a Clara ria, me empurrando e me puxando em seguida.
 
Por algum motivo, que não me recordo, ela não podia ficar. Talvez fosse vingança pelo meu sumiço. Que seja, pensei, recuperando momentaneamente a sobriedade – aí me despedi e subi. A minha batalha para encontrar as chaves, caída de joelhos em frente à porta do meu apartamento e tirando tudo que encontrava nos bolsos, espalhando as minhas tralhas pelo chão, é um episódio que talvez eu deva pular. É. E passar direto para a parte em que entrei em casa, sozinha e perigosamente alcoolizada.
 
Meus pés já não obedeciam direito aos meus comandos – ou talvez fossem os comandos que estivessem confusos, tanto faz – e eu mal era capaz de abrir os olhos. Parei no meio da sala, atordoada, observando tudo rodar e rodar e rodar.
 
E foi quando eu tive uma péssima, péssima ideia.

"Quem está na chuva..."

Me apoiei na parede, sentindo a água correr pela minha nuca, esperando que ela levasse toda a minha ansiedade ralo abaixo. Mas quanto mais eu demorava no banho, mais nervosa eu ficava. A ideia da Clara dividindo o mesmo cômodo que a Mia por tanto tempo me incomodava. Ainda assim, minha hesitação me mantinha embaixo do chuveiro. O que diabos eu faço agora? Respirei fundo. De um jeito ou de outro, eu estava ferrada. Não havia chance de a Mia relevar aquela entrada triunfal depois de tê-la beijado no meio da madrugada.
 
Fechei a torneira, num impulso. Quer saber? Se já tô no Inferno, é melhor ir em frente e abraçar logo o capeta.
 
Me enxuguei rapidamente e fui direto para o quarto. No pique de vestir a roupa mais sapatão possível e ir dar para a Mia um motivo real para se incomodar, tascar o maior beijo na Clara, sei lá eu, que se foda. É. Às vezes, me batiam uns impulsos burros. Nunca tive muita paciência para esperar para ver – ou largo mão ou faço três vezes pior, para acabar logo com a tensão. Parei na frente do armário e analisei minhas opções. Não sabia que diabos vestir. O que diabos se usa para impressionar uma menina gosta de meninos? 
 
Tudo em mim sempre gritou “caminhão”. Me irritava quando as pessoas vinham com essas de que “tudo bem” ser lésbica, só “não precisa virar caminhoneira”. Como se a feminilidade tornasse nossa sexualidade mais aceitável ao mundo. Ou menos pior. Meu cu. Quanto mais eu pudesse me afastar do esperado duma boa moça, melhor. Na infância, eu era a dor de cabeça da minha mãe – resistia a usar qualquer vestido ou saia. Me sentia como o Ken enfiada nas roupas da Barbie. Desagradável. Gostava de andar largada por aí com camiseta, All Star e jeans. Acho que nunca superei o fim do movimento grunge.
 
Tá. Mas e agora, hesitei, em frente ao meu armário bagunçado. Não podia usar nenhuma daquelas camisetas de banda que a Mia já tinha visto um bilhão de vezes. Queria que ela olhasse para mim. Realmente olhasse. Alguns minutos de indecisão depois, puxei duma gaveta uma flanela que sabia que ela gostava e a amarrei na cintura, vestindo uma regata preta por cima. Bermuda, coturno e é, é isso, pensei, me sentindo a última caminhão da BR-116.
 
Conforme voltava para a sala, podia ouvir as caixas de som berrando um LP do Roxy Music. “Lift up your feet and put them on the ground, you used to walk upon…”, cantarolei, passando pelo corredor, “...when we were young”. Eu adorava a voz do Bryan Ferry.
 
_Eita. Cadê todo mundo?
 
Estranhei, me deparando com minhas duas convidadas sentadas no sofá da sala, sozinhas.
 
_“Todo mundo”, quem?
_A Mia e o Fer, aonde eles foram?!
_Dormir, não sei... Resolveram ir pro quarto.
_M-mas... como assim? Quem resolveu? Ele ou ela?
_Sei lá... – a Clara riu – ...faz diferença?
 
Muita. Lá se ia o meu plano brilhante. Fingi não me incomodar e neguei com a cabeça, sorrindo de volta para a Clara. Argh. Já estava quase na hora da balada abrir. As convenci, então, a agilizar o nosso esquenta para sair o quanto antes daquele apartamento, argumentando que a entrada era mais barata até meia-noite. A real é que eu estava frustrada – depois de ficar revirando o armário para alguém que sequer queria me ver. Devia ter previsto essa.

janeiro 10, 2010

Glória!

_Nossa! – a Clara riu, conforme eu me aproximava da bancada – Pegou “um pouco” de chuva aí, gata?
 
Sorri, meio sem jeito, me sentindo um cachorro molhado. Sentei ao lado dela, aquela deusa, e pedi uma dose de vodka enquanto era apresentada à sua amiga, uma tal de Luciana. A garota me olhou como se já tivesse ouvido todo tipo de história sobre mim. Apenas acenei com a cabeça, logo voltando os meus olhos admirados para a Clara. 
 
_E então... – brinquei, numa cafonice deliberada – ...você sempre se veste assim para trabalhar ou isso faz parte de um plano para me matar?
_Besta – ela riu, revirando os olhos – Cala a boca. É que hoje é sábado...
_...e? 
_E eu e a Lu sempre emendamos quando trabalhamos de sábado, então já trazemos uma troca de roupa – explicou.
_Hum, e emendam onde? – virei a minha dose e fiz graça, a olhando – Lá pela Augusta, talvez? Num apartamento minúsculo, meio bagunçado no fim da Frei Caneca, quem sabe?
_Não... – a Clara riu, me dando um tapa no braço – Larga de ser tonta.
_Quê?!
_A gente vai no Glória.
 
Cê só pode tá brincando, né, a encareiMas a Clara continuou imóvel, sorrindo para mim. Não? Ela não se mexia, satisfeita com a sua proposta de rolê. Eu? No Glória, hoje?, agonizei. Lá ia eu torrar todo o dinheiro que eu não tinha na pista mais cara da sapataria. Como diabos fui cair nessa furada?
 
_Linda, e-eu não sei... Olha, eu... e-eu tô cansada – mal conseguia me escutar dizer aquilo, céus, quantos anos eu tenho? 93?! – E fora que eu tô encharcada. Olha pra mim! Não dá para eu ir no Glória assim... Não vão nem me deixar entrar!
_Hum... – a Clá pensou rapidamente – ...cê tem bebida lá no apê?
 
Sorri, aliviada.
 
_Nossa, aos montes! – garanti, certa de que tinha me livrado – Não querem ir pra lá?
_Sim! – a Clara sorriu de volta – Vamos no carro da Lu, aí você se troca e fazemos o esquenta lá ao invés de enrolar aqui... Que cê acha?
 
Maldição. Como eu poderia dizer “não” depois de ter me colocado naquela sozinha? Dez minutos depois e nós estávamos no carro da amiga, indo em direção à Frei Caneca. Droga, droga. O bom é que, com a chuva e o trânsito, a Clara e eu tivemos tempo suficiente de conhecer o banco de trás. Quem não gostou muito foi a tal da Luciana, que ficou sozinha na frente, fazendo as vezes de taxista. Mas, né? Paciência.
 
Chegamos no prédio e fomos literalmente do carro ao elevador nos agarrando. Parte de mim talvez torcesse para a Clara dispensar logo a amiga e passar a noite comigo. Em vão – quando chegamos na frente do meu apartamento, a amiga continuava lá. De vela. Abri a porta do apartamento com uma mão na chave e a outra em volta da Clara. Estava tão concentrada em fazer ela desistir da balada que inicialmente não me dei conta. Foi só uns segundos depois, quando finalmente tirei a boca da sua e olhei para frente, que vi o Fer esparramado no sofá assistindo qualquer coisa na televisão e, ao lado dele, a Mia.
 
Droga. 
 
Tirei as mãos da Clara imediatamente. Da mesma forma que faria aos 15 anos, caso entrasse em casa com uma garota e desse de cara com o meu pai – mas os olhos da Mia já estavam fixos em nós duas. Como eu sou burra.

janeiro 09, 2010

Inesperado

Às 20h – quase isso, na verdade – eu cheguei no local combinado. A Clara estava cobrindo uma outra funcionária naquele sábado, então pediu que eu a encontrasse num bar perto da loja em que ela trabalhava, nas redondezas da Teodoro. Sua função, como ela mesma me descreveu no nosso segundo encontro, era “vender instrumentos ridiculamente caros a músicos que se superestimavam”. E ela odiava.
 
Naquela noite, por algum motivo qualquer, resolvi trocar o busão que parava quase em frente ao tal barzinho pela rapidez subterrânea do metrô e andar algumas poucas quadras. Vai ser bom caminhar, pensei. Pra quê? Assim que pisei para fora da estação Clínicas, o céu paulistano resolveu cair. Ah, pronto. Fiquei na porta da estação, observando a chuva e os minutos no relógio. Com o passar do tempo e nenhum sinal de qualquer boa notícia lá de cima, me vi obrigada a correr alguns quarteirões rua abaixo. Fiquei encharcada.
 
Valeu, São Paulo.
 
Quando finalmente encontrei o bar, eu já estava atrasada. Argh. Para ajudar, a minha regata branca tinha se tornado nula sobre o meu corpo e o meu cabelo parecia saído de uma rinha de galo no meio do Atlântico. Maldita cidade da “garoa”. Entrei no bar xingando e trombando em todos os idiotas que se colocaram na minha frente fazendo trocadilhos ambíguos e asquerosos, do tipo “posso te secar?”, até encontrar uma mesa vazia no fundo do estabelecimento, onde me sentei por um instante.
 
Após recuperar o fôlego – e momentaneamente a calma –, tirei o celular do bolso e notei uma mensagem não lida da Clara. "To aqui, cade vc?", li. Puta que pariu, só falta eu ter entrado no lugar errado. Levantei irritada da mesa e comecei a procurá-la. O bar estava lotado, transbordando de empresários prepotentes e os bêbados de Pinheiros. Credo. Foi quando, de repente, eu avistei a Clara. Sentada ao lado de uma outra garota na bancada, segurando uma cerveja, com as costas de fora, num vestido que parecia feito exclusivamente para me matar do coração – tudo o que eu não esperava de alguém que tinha acabado de sair do trabalho.
 
Perdi o fôlego, puta merda.

Caindo na real

Chega.
 
A Marina tinha razão. De que adianta eu ficar sofrendo pelos cantos pensando na Mia? Não era saudável. Ou inteligente. É isso, já chega. Faz quase três semanas. Eu preciso sair e me forçar a esquecer essa garota. Decidi que precisava começar a me preocupar com alguém que, de fato, se importasse. Ou seja, a Clara.
 
O problema é que eu não a via desde o sábado que passamos na minha cama e isso somava o mesmo tanto de tempo que eu estava sem ver a Mia – com a leve diferença de que ela eu não procurei obsessivamente. Não liguei, não mandei mensagem, não fiz nada. Ignorei-a por semanas. Que ótimo. Tinha sumido completamente da sua vida e toda a vergonha na cara que ainda me restava agora impedia que eu retomasse o contato.
 
Três semanas de filha-da-putice. Seria muita falta de bom senso pegar o telefone e ligar, como se nada tivesse acontecido? Hesitei. Fiquei deitada no sofá por um tempo segurando o celular na mão, sem coragem alguma de começar a discar. Um SMS resolve, concluí covardemente, após alguns minutos. É menos cara-de-pau e ela não precisa me responder se não quiser, pensei. Então digitei – “ei Bjork, ainda ta com a minha camiseta? qria ela de volta. q tal hj a noite?”.
 
Enviei. Sem esperanças. Eu não tinha sido exatamente a melhor pretendente e a Clara tinha todo o direito de me ignorar para sempre. Deixei o celular em cima de uma almofada e levantei para pegar uma cerveja na cozinha. Poucos minutos depois, enquanto eu me desdobrava para alcançar uma latinha de Itaipava no fundo da geladeira, ouvi um barulho na sala. Larguei o que estava fazendo e corri para ver o que era. A resposta já estava piscando no meu celular:
 
“So se eu for o bowie dessa vez ;)”.

Mia, Mia...

Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia, Mia... ahhh.

: (