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fevereiro 03, 2010

O meu problema

É que eu gosto de arranjar sarna pra me coçar.

MSN

.   diz (23:38):
e ai, meu...
q ta fazendo? :)
 
[ B e r t a ] diz (23:39):
oi
td bem?
nossa.. achei q tivesse te assustado d vez
 
.   diz (23:39):
rs
de onde c tirou isso, ro?
 
[ B e r t a ] diz (23:40):
ahh sei la, vc saiu correndo no gloria
nem tive a chance de falar nd
 
.   diz (23:40):
falar oq?
 
[ B e r t a ] diz (23:43):
naum sei.. faz tempo, neh?
hhuahuahaua
 
.   diz (23:46):
liga a cam
qro te ver..
 
[ B e r t a ] diz (23:46):
naum da.. to no laptop, naum tem webcam.. so no pc
 
.   diz (23:46):
entao vem pra ca.. :-p
 
[ B e r t a ] diz (23:47):
vc eh uma figura!! hhashausahuahsua
maaano sabe q hrs sao???
 
.   diz (23:47):
qual o problema? vc n ta dormindo
 
[ B e r t a ] diz (23:49):
mas naum vou pegar o carro e ir ate a paulista essa hr!! huahauahau
meu serio.. eu trabalho amanha
 
.   diz (23:50):
eu tb
isso nunca foi problema pra gnt, foi?
vem ai, po...
 
[ B e r t a ] diz (23:51):
vc eh doidaa hhuahuahauaha
 
.   diz (23:51):
ta. deixa quieto entao..
 
[ B e r t a ] diz (23:52):
:(
 
[ B e r t a ] diz (23:54):
naum,pera.. qr saber..
aff naum acredito q to fazendo isso
ta olha, eu vou.. mas me espera ai heim
 
.   diz (23:54):
claro q espero
 
[ B e r t a ] diz (23:54):
naum vai dormir hhuahauhauaha
 
.   diz (23:55):
jamais.. rs
 
 
 
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fevereiro 02, 2010

Maldita dicotomia

Deitei a cabeça no travesseiro e dobrei as pernas, com os pés descalços apoiados sobre a cama. Estava inquieta. Acendi um cigarro e passei a mão no rosto, de barriga pra cima – odiava brigar com o Fer. Me fazia um mal tremendo. Nossos estranhamentos sempre foram motivados pelo desgaste cotidiano, nunca por uma razão realmente válida. E por mais idiotas que fossem nossas tretas, uma vez começadas ninguém pedia desculpas.
 
Orgulho em excesso, pois é. Transbordando pelas janelas daquele apartamento.
 
A minha raiva por vê-lo dar em cima da Júlia sequer fazia sentido. Não suportava a ideia dele machucando a Mia, mas também nunca fui altruísta a esse ponto. O Fer perdeu a noção, pensei. Quem preferiria aquela playmobil à Mia? Quem preferiria qualquer garota à Mia? Talvez eu só quisesse descontar nele o meu rancor, não sei. Devia era agradecer, revirei os olhos, não sair armando barraco. Levei a mão mais uma vez até o rosto e traguei novamente, encarando o teto.
 
É. De uma forma ou de outra, o Fer era o problema. O namorado, o empecilho, a pedra no meio da porra do caminho. Mas desejar o fracasso do relacionamento deles era egoísta demais – até para mim. Não queria que isso. Nunca quis – nem por um segundo. Gostava demais dos dois para desejar qualquer mal a eles. A mera perspectiva de que ficassem juntos para sempre, por outro lado, me apertava o coração.
 
Não era tão simples. Antes dos beijos e das conversas cochichadas no corredor, eu estava conformada com a ideia de nunca ter a Mia. Agora, a possibilidade era insuportável. Me sentia dividida: se ficasse com ela e o Fer descobrisse, ele ia me matar. E se eles continuassem juntos, eu provavelmente começaria muitas outras brigas como aquela e acabaríamos nos matando de toda forma. Ou seja, a previsão não era muito melhor do que o fim dum filme do Tarantino. E eu definitivamente não queria perder a cabeça amizade com o Fer. Menos ainda por uma garota.
 
Só que não é qualquer garota, meu coração contestou, é a Mia.
 
Argh. Senti um incômodo. Tentei me ajeitar no colchão, mas sabia que o problema não estava na cama. Nem no travesseiro. Isso não vai dar certo, suspirei. Eu sabia que não ia conseguir dormir, não por algum tempo. Apaguei o cigarro, me levantei e andei pelo quarto – já era quase meia noite. Sentei na cadeira do computador e liguei o MSN, apoiando os pés na mesa. Aí fui passando pelos nomes na minha lista, meio bêbada.

fevereiro 01, 2010

Desastre

Quando atingimos a marca do oitavo ou nono chopp, eu já estava consideravelmente fora de mim. Olhei na direção do Fer e o vi ali, completamente bêbado, debruçado sobre a tal da Júlia. Numa intimidade que beirava o perigo. Ambos riam de qualquer coisa, próximos demais. Abaixei o olhar e vi a mão dele apoiada na perna dela. Ah, desgraçado. Levantei imediatamente, tomada por uma revolta infundada, e fui até eles. Puxei o Fernando para fora da mesa, fazendo com que me seguisse até a lateral do bar.
 
E assim que nos afastamos de todos, me virei na sua direção:
 
_O que diabos cê tá fazendo??
_O que diabos VOCÊ tá fazendo? – ele retrucou, sem entender porra alguma.
_COM AQUELA GAROTA, FERNANDO!
_Nada, caralho. Tamo conversando!
_CONVERSANDO?! COM A MÃO NA PERNA DELA?
_QUAL É O SEU PROBLEMA, PORRA?!
_E a Mia? – o encarei, furiosa.
_O que tem a Mia?!
_Como o que tem, mano?!
_Velho, eu não tô fazendo nada! – contestou – Me deixa...
_CÊ TÁ PRATICAMENTE COMENDO A MINA NA FRENTE DE TODO MUNDO!
_E POR QUE CÊ SE IMPORTA, CARALHO?
_PORQUE A MIA NÃO MERECE ESSA MERDA!
_Mano, qual é a sua?! Juro que não entendo... – ele riu, contrariado – Cês duas vivem brigando, porra, agora cê vai agir como se desse a mínima e vir com esse discursinho para cima de mim?!?! É de foder!
_Quê?! A gente não vive brigando! – me indignei – De onde você tirou isso?
_Sei lá, porra! Primeiro ela tá falando com você e depois não tá mais falando e aí vocês são melhores amigas de novo e depois brigam e então fazem as pazes… – começou a resmungar, bêbado – Nunca vi tanto drama!
_E o que isso tem a ver com a Júlia, mano?!
_NADA! Essa é a questão! – ele riu, nervoso – Por que cê tá tão brava, meu?
_Só não quero que você faça nenhuma besteira.
 
Cruzei os braços, no auge da minha hipocrisia.
 
_Besteira? VOCÊ não quer que eu faça alguma besteira? Falou a integridade em pessoa!
_Cê tá bêbado, Fernando…
_VOCÊ TAMBÉM TÁ!
_BOM, PELO MENOS, EU NÃO TÔ ME JOGANDO EM CIMA DE UMA IDIOTA QUALQUER!
_É! POIS É, O QUE ACONTECEU? TÁ DOENTE POR ACASO?! – tirou com a minha cara – Porque, olha, não faz muito o seu tipo...
_Vai se foder.
_MANO, VAI SE FODER VOCÊ! POR QUE CÊ TÁ BRAVA COMIGO? NÃO FIZ NADA, CARALHO!
_AINDA, NÉ?! AINDA!
_CUIDA DA SUA VIDA, MANO!
 
Fiquei quieta. Ele tinha razão – eu devia mesmo cuidar da minha própria vida e não ficar me metendo na dele. Não sabia por que estava tão irritada de ver ele se engraçando com alguma ex qualquer. O problema era que eu conhecia o Fernando e sabia que ele não era a pessoa mais confiável do mundo quando se tratava de autocontrole e Júlias-da-vida. Aquilo era sacanagem com a Mia e eu sabia.
 
O que eu não entendia era como eu – logo eu – me incomodaria com um possível problema no relacionamento deles. Eu devia tá incentivando, pensei. Mas eu simplesmente não conseguia. Parte de mim não queria que a Mia passasse por isso. Que ironia, não é?
 
_Eu quero ir embora. Agora. E você vai junto – decidi.
_Tá, que se dane! Cê já estragou essa bosta mesmo...
 
Entramos no carro, batendo as portas. E não trocamos uma só palavra até a Frei Caneca.

Old school

Na quinta-feira, foi a comemoração do aniversário do Marcos. O cara era um dos melhores amigos do Fer – nós três estudamos juntos – e esse era um dos únicos motivos que me fariam pisar num barzinho hétero da Vila Olímpia por escolha própria. Poucas coisas nesta vida me dão mais preguiça do que os publicitários e os jovens empresários da Berrini amontoados em um só lugar. Cruzes.
 
Pra variar, eu estava sem grana para comprar um presente. Então descolei uma fotografia cool nas sobras do estúdio e escrevi um pequeno depoimento – de coração – por cima da imagem, usando-a como cartão. O Fer passou para me pegar no trabalho e fomos de carro até lá. Ao contrário de mim, ele levava um pacote quadrado e fininho embrulhado no banco de trás. Algum vinil raro, presumi. Depois do Fernando, o Marcos era provavelmente o segundo maior colecionador entre nossos amigos.
 
Chegamos com um atraso significativo no bar, ainda que eu e o Fer tivéssemos nos empenhado em afugentar todos os pedestres e demais motoristas do nosso caminho – com palavrões aos berros e gestos obscenos. É. O Fer era um tanto quanto “esquentado” no volante e eu me juntava aos resmungos por diversão. Apesar das muitas buzinas, todavia, a nossa entrada triunfal no aniversário ainda aconteceu uma hora após o início do happy hour.
 
A mesa estava lotada. Aquilo parecia uma viagem ao passado – incluindo todas as garotas que eu havia corrompido durante o colegial, agora sentadas ao lado dos seus respectivos namorados. Também estavam lá todos os nossos amigos antigos, ex-punks convictos e atuais assalariados responsáveis. Ou quase.
 
Com exceção do aniversariante da noite e alguns poucos, a maioria ali não me interessava muito. Já o Fer rapidamente se mostrou interessado na garota sentada ao seu lado – a idiota da Júlia, uma ex-namorada que ele não via há um tempo e de cuja existência me recordei com bastante desgosto. Era um antigo “grande amor” do Fer que tentou afastar ele de todas as suas amigas mulheres, o que me incluía. Para piorar, a infeliz tinha se tornado uma dessas minas indies, sabe, com alargadores pequenos e o corte de cabelo Playmobil. Que ranço.
 
A noite estava só começando. Começamos a beber para alcançar os demais e, por algum tempo, as conversas saudosistas na mesa me distraíram – mas algo começou a me incomodar.

janeiro 31, 2010

Sozinha na sala

Ouvir a Mia se trancar no quarto com o Fer naquela noite foi… insuportável. 

janeiro 30, 2010

Meu ex-armário

A Mia se virou para frente, a cabeça apoiada contra a parede, observando a rua entre as grades da varanda. E eu a admirei, com o cigarro já quase terminado na boca. Se toda essa gente não estivesse aqui, garota, suspirei, juro que te beijava. Ficamos em silêncio por um tempo, mergulhadas em nossos pensamentos. Traguei uma última vez, soltando a fumaça para cima, e encarei uma das janelas no prédio da frente – as plantas tinham tomado conta de todo vão.
 
Foi quando, de repente, senti a mão da Mia encostar na minha.
 
Entre as nossas pernas. Como um segredo bem guardado pelas nossas coxas, apoiadas lado-a-lado sobre os ladrilhos da varanda. O meu coração acelerou.
 
_O que exatamente você disse?
 
Ela perguntou então, sem me olhar.
 
_O que eu disse quando?
_Pros seus pais, quando você contou...
_“Pai, mãe, sou sapatão!” – eu ri e aí ela me encarou, como se não acreditasse.
_Tenho certeza que não foi isso...
_Não foi – balancei a cabeça, achando graça – Eu namorava uma menina na época e... sei lá, ela vivia indo lá em casa e a gente tinha que ficar se escondendo, dormia sempre de porta trancada, saca? E isso começou a incomodar os meus pais. Começaram a me encher e toda vez era “o que que vocês ficam fazendo no quarto”, “essa sua amiga nunca fala com a gente”, perguntando se a gente tava usando droga, juro, todo tipo de merda – revirei os olhos – E a real é que eu também já tava de saco cheio. Então, um belo dia, falei: “olha, a verdade é que ela não é minha amiga, a gente namora. E eu não queria ter que fechar a minha porta toda vez que ela vem aqui, mas eu não sabia o que fazer e tava com medo de contar pra vocês”.
_Hum – a Mia pareceu refletir – E o seu pai realmente ficou sem falar com você todo aquele tempo?
_Ficou. Acho que a minha mãe chorou por uma semana. Eu chorei por um mês, ou mais.
_Sério?!
_Ah, mano, eu me sentia uma puta decepção para eles. Foi foda. Não sabia o que sei hoje, não tinha a confiança que tenho. Tinha uma puta vergonha. Comecei a evitar ir para a casa, fazia qualquer coisa pra não ver eles, ia dormir na minha ex ou no Fer, ficava até tarde na rua, mas toda vez que voltava me olhavam como se eu tivesse partido o coração deles... E foi uma merda, por um tempo.
 
A Mia olhou para baixo, desconfortável.
 
_Deve ser difícil... Ter que encarar sua família assim.
_Ah... Podia ser pior, sabe? Conheço gente que sofreu muito depois de sair do armário. Cê lembra do Gui, meu amigo?
_O que tava na festa?
_É. O pai batia nele desde pequeno por ser afeminado, meu. E um dia, quando ele era adolescente, pegou ele na rua junto com um cara. Até hoje eles não se falam.
_Sério?
_Sim, meu, e o pior é que todos os irmãos são evangélicos, volta e meia um liga para dizer que o Gui vai matar a mãe de desgosto. Ele não tem ninguém na família. Nenhum apoio. É totalmente sozinho.
_Mano, me dá tanta raiva essas coisas – a Mia esfregou o rosto com as mãos – É muito escroto.
_Muito. E tem gente que acha que ser viado é ser fraco! Só o que a gente aguenta de insulto e porrada da vida, mano...
 
Isso, sua idiota, vai. Enfia a Mia com tudo no armário mesmo.
 
Fechei os olhos brevemente, arrependida. E o silêncio cresceu entre nós. O som da zona que os caras faziam na sala era barrado parcialmente pela porta de vidro, exceto por alguns gritos mais altos, nos isolando naquela pequena varanda. A respiração da Mia parecia pesar. Deslizei dois dedos da minha mão sobre os dela – e ela olhou para as nossas mãos ali, entrelaçadas sobre o chão. Depois olhou para mim.
 
_V-você... – perguntou, baixinho – ...a-alguma vez já quis não gostar de minas?
_Não.
_Nem quando você ainda tava, sei lá, se descobrindo ou...
_Não.
_Nunca?
_Mia, escuta, eu não trocaria meu coração por um hétero nem por um milhão de reais – garanti – Eu amo ser sapatão, é a melhor parte de mim.
 
Ela suspirou, tirando a mão da minha e a colocando sobre seus joelhos dobrados, encarando-a ali. O som dos carros passando na rua se misturava com o silêncio entre nós. Me diz o que você tá pensando, garota, a observava atentamente, sem entender o que a angustiava. Os seus olhos ergueram-se brevemente na minha direção e depois tornaram a encarar suas próprias mãos.
 
_M-meus pais morreriam – disse então, noutro suspiro.
_Não é verdade...
_É sério. Acho que me expulsariam de casa na mesma hora.
_Bom... – fiz graça, quebrando o clima pesado – Também já tá meio na hora de você sair, né? Vinte anos nas costas, meu...
_Cala boca... – riu.
_O problema é só que não sabe nem fritar um ovo direito!
 
Insisti, a zoando, e a Mia começou a me encher de tapa no braço.
 
_Trouxa!

A varanda

No caminho de volta para casa, a Mia já estava presente em cada pensamento que passava pela minha cabeça. Por mais que nós nos metêssemos em situações confusas e às vezes acabássemos nos desentendendo, eu não conseguia tirar ela dos meus pensamentos. Ela continuava lá. E eu ali, constantemente presa àquele sentimento, àquele impulso na sua direção. Inferno. Nos últimos dias tinha ficado claro que ela gostava de mim, de uma forma ou de outra. O problema é que eu não sabia qual – e isso me perturbava.
 
Chegando na estação Consolação, parei numa banca para comprar um chiclete e, enquanto esperava o troco, recebi uma mensagem do Fer. Ele estava na casa duns amigos ali perto, na Matias Aires. Mais amigos dele do que meus. Era um apartamento velho e grande dividido por um número sempre flutuante de moradores – eram cinco? Oito? Difícil dizer. A cada semana o sofá da sala era ocupado por algum estranho alcoolizado ou estudante de Filosofia da USP qualquer, que não tinha onde pregar os olhos ou comer a namorada. Parecia uma república coletiva de toda a Augusta.
 
Entrei no apartamento dos moleques e joguei minhas tralhas no sofá. A sala estava sob uma marofa descomunal. Vi o Fer sentado no chão jogando videogame com outro cara, que eu não conhecia, em meio à uma roda de pessoas que conversavam aos gritos, que eu também não conhecia. Ele me cumprimentou de longe – sem tirar os olhos da TV. E eu imediatamente me arrependi de ter ido naquele rolê errado.
 
Pensa numa desculpa pra ir embora, resmunguei pra mim mesma, qualquer uma. Mas foi quando reparei na Mia, num jeans preto e com as mangas da camiseta enroladas, com as tatuagens à mostra, fumando sozinha na varanda. Quer dizer, talvez eu possa ficar uns minutinhos...
 
_Oi... – eu disse, fechando a porta de vidro atrás de mim.
 
Ela sorriu de volta, com uma das mãos apoiada na beirada da varanda. E o meu coração pulou uma batida, inferno.
 
_Não sabia que cê ia colar aí...
_É. O Fer me mandou mensagem agora, tava saindo do metrô... – roubei o cigarro das mãos dela, apoiando os antebraços na grade – E você, tá escondida aqui por quê?
_Ah, mano – a Mia revirou os olhos – Muito chato lá dentro, num dá...
 
“Tá foda”, ri. E traguei uma vez, antes de devolver o cigarro para ela. A Mia observava o movimento da rua – os restaurantes tiravam as cadeiras da calçada e preparavam-se para fechar. Ela colocou o cigarro na boca, se curvando para ver mais embaixo. Me juntei a ela. E ficamos ali por um tempo, observando as pessoas que passavam na calçada.
 
_Será que se todo mundo vivesse à noite... – ela comentou, do nada, como se pensasse em voz alta – ...a gente ia querer ficar acordado de dia?
 
Achei graça. E sorri – “eu ia”. Ela me passou o cigarro e sentou no chão, com as costas apoiadas contra o vidro da porta. Sentei ao seu lado e a observei, rindo de novo.
 
_Quê?!
_Cê parece entediada até a morte, meu.
_E tô mesmo. Esse rolê tá um porre, mano.
_Como assim?! – dei um trago e forcei uma voz indignada, irônica – Você não quer assistir dois caras jogarem FIFA pela vigésima vez seguida?!
_Céus, não – ela riu.
_Osso.
_Pelo menos tem pizza – a Mia pegou o cigarro e me olhou – Cê já jantou?
_Já... Meu pai passou perto do meu trampo hoje e fomos num restaurante por lá – respondi – Meu, toda vez que saímos juntos é a mesma conversa... Ele acha que eu e o Fer somos casados ou algo do tipo.
_Você e o Fê? – ela gargalhou.
_Juro. É ridículo.
_Mas, espera, ele não sabe que você...?
_Sabe – balancei a cabeça, enquanto ela soltava a fumaça entre os lábios – Só ignora.
_Que bizarro... Faz quanto tempo que ele sabe?
_Uns seis, sete anos. Deixa eu pensar... – calculei rapidamente – É, quase sete. Eu tinha de 16 pra 17 quando contei.
_E o que ele disse?
_Nada.
_Nada?
_É, por uns dois meses – ri.
_Isso é horrível!
 
Ela começou a rir e eu concordei, é. Foi.
 
_Mas depois vocês ficaram bem, não?
_Ah, sim – peguei o cigarro e dei mais um trago – Sei lá, meu, acho que por mais difícil que seja, as pessoas que realmente te amam acabam entendendo. E nunca deixam de te amar, sabe? Em algum momento, elas percebem que você não pode ser feliz de outra maneira.
_Mas seu pai não aceitou totalmente... Digo, por causa desse lance do Fê e tudo mais.
_Ele fala mais por brincadeira... No fundo, ele sabe que não é assim. Já conversamos muito, ele conheceu as minas que eu namorei, acho que s-só não perde totalmente as esperanças de um dia me ver casando, tendo filho, sabe? Ao lado dum bom rapaz e o caralho a quatro.
_Olha, o Fê não é exatamente o que eu chamaria de um “bom rapaz”.
_É, cê tem razão... – eu ri.

Os mal-entendidos de sempre

Não vi a Mia por uns três dias e, na quarta-feira, meu pai me ligou. É, o meu pai. Aquele bonachão adorável e ocupado que raramente entrava em contato comigo. Não que nós tivéssemos motivos para não ligarmos um para o outro – nós dois simplesmente não gostávamos de telefone. Sempre restringi o meu uso a situações de real necessidade, um hábito que certamente puxei dele já que a minha mãe era a própria reencarnação duma telefonista.
 
Sendo assim, me surpreendi ao ver o número do meu pai piscando na tela do celular. Larguei o trabalho e o atendi. Estava com saudades de ouvir sua voz. Já logo na primeira frase fui intimada a encontrá-lo para jantar. A ligação chegou em boa hora – eu estava faminta e a quantidade absurda de álcool comprada para a festa havia acabado com todos os meus últimos centavos.
 
O meu pai era um paulistano convicto – ainda que sequer tenha nascido no estado. Veio para São Paulo uns anos antes de conhecer a minha mãe e, desde então, raramente pisava para fora do seu mundinho em Santo Amaro. Era um tanto bairrista. Mas aquela quarta-feira era uma exceção: um fornecedor qualquer o arrastou para as redondezas do estúdio onde eu trabalhava. Eis o porquê do telefonema, concluí. E sem pensar duas vezes fui encontrá-lo num restaurante a poucas quadras dali, assim que terminou meu expediente.
 
_E então... – perguntou, pouco tempo depois de começarmos a comer – Como vai no emprego?
_Vai bem. Sei lá, normal. Muita coisa para fazer...
_E em casa, tudo bem?
_Tá, sim.
_Como vão as coisas entre você e o Fernando? – ele me olhou, forçando um olhar de “sogro” na minha direção – Hum?!
_Pai... O Fernando não é meu namorado, você sabe disso. Nós somos só amigos.
_Isso é o que você continua me dizendo, mas aquele garoto gosta de você – ele continuou, como se estivesse coberto de razão – Confia no que eu estou te dizendo. Eu sei como é...
_Não – eu ri – Escuta você o que eu estou dizendo: o Fernando gosta de garotas que gostam de garotos, como ele. E não de outras minas, que nem eu.
_Ah. Por favor! – me zombou – Vocês não desgrudam desde que eram pivetes!
 
Cê também não desgruda do pai dele, o encarei, achando graça, e nem por isso eu tô aqui fazendo planos pro casamento de vocês. A piada era antiga entre as nossas famílias. Todo mundo sempre achou que íamos acabar nos casando. E apesar de ser o maior sonho do meu pai, na esperança de que alguém me salvasse da sapatonice, provavelmente era o pior pesadelo do pai do Fer. Os dois se conheciam através dum primo do meu velho, que eu mesma nunca conheci. Meus pais ajudaram a família o Fer a se instalar na cidade quando eles se mudaram para São Paulo, quando o Fer tinha 9 anos, e desde então ficou todo mundo muito amigo. Dois anos depois, ele passou a estudar na mesma escola que eu e nos tornamos inseparáveis. E terríveis.
 
_Eu nunca vejo ele com outra garota – meu pai retomou – Tá sempre aí, com a minha filha linda, é ou não é?
_Nossa, pai... – balancei a cabeça, com uma careta de quem acabou de ouvir a maior besteira – Que absurdo. O Fer tá sempre com alguém, meu. Inclusive tá namorando!
_E quando vocês casam? – sorriu, com uma certa ironia.
_Não comigo... O nome dela é Mia.
_Mia? – ele colocou mais uma garfada na boca, falando de boca cheia – Sou mais a minha filha.
_Céus...
_Mas essa tal de Mia aí, você gosta dela?
 
Eita, quem te contou?
 
Me diverti em pensamento, o olhando à espera da resposta – era estranho ter que explicar quem era a Mia para o meu pai. Deixa eu ver, refleti, como posso resumir? Gosto, pai, gosto mais do que deveria, muito mais, passo o dia inteiro pensando nela, obsessivamente, é uma pena que o Fer chegou primeiro e, sim, estou apaixonada, perdidamente apaixonada, a gente até já se pegou uma vez e agora não estamos nos falando direito, mas sabe como é, né pai, coisa de amiga.
 
_Ah... – disse, por fim, evitando qualquer resposta sincera – É boa gente, sei lá. Normal.
_Sei.
_Nada demais.
_Eu sabia! – ele riu – Sabia! Me diz se isso não é ciúmes do Fernando? Tá na cara!
_Pois é, pai, pois é...
 
Concordei, rindo, a fim de não prolongar o assunto. E voltei a encarar a comida no meu prato, involuntariamente pensando na Mia. De novo. Droga.

janeiro 25, 2010

Banheiro

_Você não devia ter bebido tanto... – a Mia falou, agachada na minha frente.
 
Eu ri brevemente da minha própria desgraça, exausta demais para conversar. Ela passou a mão no meu rosto e tirou meu cabelo da frente dos meus olhos. Fiquei em silêncio, destruída e sem energia. A minha cabeça doía ainda mais depois de vomitar tanto, sentia como se todo o sangue do meu corpo tivesse se esvaziado. Ressaca da porra. E a Mia me observava com um quê de pena.
 
_D-desculpa... – ela disse, pegando na minha mão – ...sinto como se parte disso fosse culpa minha. Não sei, e-eu só... Não queria que você pensasse q-que eu faço de propósito. Eu n-não queria te machucar, é que...
_Não é culpa sua – a cortei, sem paciência.
 
Aquilo me provocou um desconforto horrível. Eu odiava me sentir frágil, como se ela tivesse esse poder sobre mim. Quis me levantar, a fim de mostrar que já estava melhor e que não precisava mais da sua ajuda, mas ainda me sentia mal. Então continuei ali no chão. Exausta. Olhei para a Mia e ela ainda me observava, preocupada.
 
_Talvez fosse melhor você tomar um banho...
 
Ela sugeriu – e imediatamente me veio à cabeça uma resposta indecente. Nem nos meus sonhos, comecei a rir de mim mesma. A Mia notou, facilmente se dando conta das minhas segundas intenções, e forçou uma cara de indignação.
 
_Eu não vou te ajudar... – ela disse, levantando a sobrancelha – ...nem adianta tentar.
_Eu não disse nada... – sorri.
_Mas pensou.
_Ah, acredite, eu já pensei coisa pior...
 
Ela começou a rir e eu cobri o rosto com uma das mãos, envergonhada. Então ela projetou o corpo para frente, com as mãos apoiadas no chão, e me deu um beijo demorado na bochecha. Olhei para ela e pisquei, fazendo graça.
 
_Você não presta... – ela sorriu e balançou a cabeça.
 
E eu concordei, rindo.