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fevereiro 26, 2010

Amigo de peixe, peixinho é?!

O ônibus de volta para Jardins estava vazio. Ou quase. Um playboy babaca falava irritantemente no celular, em alto e bom som, ao lado do coitado do cobrador. Maravilha, pensei sarcasticamente, ao passar pela catraca. Sentei o mais longe que pude, no fundo, e apoiei os pés no banco da frente. Olhei para o lado e um velhinho me encarava, como se desaprovasse o meu descaso com os meios de transporte público. O encarei de volta, algum problema? E para a minha surpresa, ele levantou as sobrancelhas, impaciente, indicando o moleque com os olhos. Comecei a rir e concordei com a cabeça. Velhinho simpático. Coloquei os fones de ouvido e deitei a cabeça para trás, numa tentativa inútil de descansar o que não havia conseguido naquela noite.
 
Fracasso total.
 
A Mia continuava na minha cabeça. Não conseguia tirá-la de lá – revivendo cada segundo da noite anterior. Mas algo me incomodava. Me sentia estranhamente irritada. Talvez porque não havia dormido nem meia horinha ou talvez fosse o cara que não calava a porra da boca; ou quem sabe fosse por causa da Michelle, que resolveu passar o sábado com a minha garota. Minha? Fui praticamente enxotada do apartamento quando a infeliz resolveu arrastar a Mia para a sua casa e não me convidou. Babaca. Agora eu voltava, desacompanhada e com um sono desgraçado, para a Frei Caneca.
 
Puta merda! – o ônibus passou por um buraco do nada e eu bati a nuca violentamente no banco. Sentei reto e decidi não tentar mais dormir, a fim de preservar a minha integridade física. Sabe como é. Argh. Dava tudo para estar com a Mia agora, lamentei. O problema era que, de repente, a noite anterior já não parecia mais as mil maravilhas que foi. Talvez fosse a ressaca ou o meu azedume matinal, resultado direto da amiga empata-foda e do playboy que coexistia escandalosamente comigo no ônibus, não sei. Mas algo revirava o meu estômago. É. À luz do dia, a imagem da Mia se misturava com a do Fernando.
 
E eu me sentia um lixo. A pior amiga do universo.
 
Não tinha desculpa para aquela filha da putice sem tamanho, sem escrúpulos, não desta vez – essa foi pra valer, pensei. E me incomodei comigo mesma. Sentada no banco do ônibus, sem conseguir lidar com o que eu tinha feito: após meses de negação e investidas frustradas, eu finalmente tinha pegado a namorada do meu melhor amigo. Que merda eu fui fazer? Balancei a cabeça, tentando fugir da responsabilidade.
 
Desci na Paulista e caminhei até a minha rua, sentindo o peso de cada tonelada da minha consciência. Os meus passos pareciam afundar o chão. Acendi um cigarro e, antes que o acabasse, já tinha chegado na porta do prédio. Respirei fundo. Joguei a bituca ainda acesa na sarjeta e entrei. Não estava pronta para encarar o meu melhor amigo. Droga. O nervosismo me embrulhava o estômago. No elevador, tudo o que eu conseguia pensar era na cara do Fernando e na porra do orgasmo da Mia. A culpa era minha – em todos os sentidos. Parei na frente do nosso apartamento e ouvi algum som qualquer ao fundo. Isso é...
 
Sepultura?, estranhei.
 
A música indicava que o Fernando estava em casa, argh. O que diabos eu vou falar? Passei a mão no rosto, ansiosa. Bosta. O problema não era mentir. Eu sabia mentir, podia mentir facilmente para qualquer garota, pai, mãe, chefe ou segurança inconveniente de balada – mas pro Fernando, não. Menos ainda nessas circunstâncias. Abri a porta. Sentindo todas as minhas entranhas se contorcerem, angustiada. O som do rádio dominava a sala inteira, num volume inacreditável. É, confirmei mentalmente, é Sepultura.
 
Como não vi ninguém ali, gritei qualquer coisa à procura de quem quer que estava ouvindo àquela barulheira, pedindo para que desligasse. E o Fer logo apareceu do corredor. Estava só de jeans e com uma cara de quem havia acabado de acordar. Ou... Seus olhos pareciam surpresos em me ver ali. E foi quando, atrás dele, vi a Júlia – a hipsterzinha de merda.
 
Ahh, cachorro.

fevereiro 25, 2010

4:20

Aquele telefone demorou uma eternidade para tocar – mas uma hora, tocou.
 
Aleluia.
 
A Michelle atendeu o celular dando uns passos adiante. A gente tinha esquematizado uma rodinha não muito discreta no canto do pátio. Eu estava sentada na mureta do parquinho, com as mãos apoiadas na borda e a Mia ao meu lado, distraída, encarando os próprios pés suspensos no ar. Observei sua amiga indo em direção ao estacionamento e se afastando de nós. Até que finalmente ficamos sozinhas. Nos olhamos e sorrimos, então a Mia deu um trago demorado e abaixou a cabeça.
 
_Como eu faço... – soltou a fumaça e me olhou de novo, passando o baseado – ...pra fazer o que cê fez?
_Como assim?
_Ah, cê sabe... – se constrangeu, contendo um sorriso – ...o, o que você fez... o-ontem... – explicou desarticuladamente – ...quer dizer, eu sei o que você fez e como, mas... e-eu, sei lá, n-não sei se saberia fazer de volta.
_...hum, e queria?
 
Achei graça, tragando e segurando a fumaça enquanto a observava.
 
_Ah, sim, né...
_Em mim?
_É, sua tonta! – a Mia balançou a cabeça, envergonhada – Você entendeu...
_Ok – ri – Eu te mostro...
_Você tá tirando com a minha cara, não tá?
_Não – sorri e passei de novo para ela – É que cê tá uma graça aí, toda girininha...
_“Girininha”?
_É, é o estágio antes de ser sapa.
_Vai se foder! – me empurrou, rindo.
_Ah. A gente chega lá, gata...
 
Nós duas rimos. A Michelle continuava falando no celular, ao longe, e o vento começava a arrepiar nossas pernas. Era uma manhã cinzenta e tipicamente paulistana. Tínhamos descido só com os camisetões que usamos de pijama e sem as calças, claro. Uma decisão que eu agora repensava. Um tanto quanto desprovida de roupa para o clima. O que não é uma boa também quando se está cometendo uma atividade ilegal a pleno céu aberto e do lado da única área infantil do prédio – chama muita atenção. Até então, no entanto, salvos alguns olhares de desaprovação duns vizinhos antipáticos de meia-idade, ainda não tínhamos sido perturbadas.
 
_Ontem foi tão...
 
A Mia retomou baixinho, encarando o chão. E sorriu, sem terminar a frase.
 
_Tão...?
_Não sei, incrível – fechou os olhos, já levemente chapada, e tragou mais uma vez antes de me olhar de volta – Num foi?
 
Sorri – “pra caralho”.
 
_Meu – ela riu – Eu devo ter sido a pior trepada da sua vida!
_Mia, ontem... – a encarei, achando graça – ...não foi uma trepada.
_Não?
_Claro que não!
_Como “claro que não”? E o que mais vocês fazem, então?
_Mano...
 
Eu comecei a rir muito. Um dia você ainda descobre, garota.

fevereiro 24, 2010

As velas

O sol se levantou e eu não havia sequer fechado os olhos. Continuava deitada ali, ocupando obsessivamente meus pensamentos com o que rolou no sofá. Foi mesmo real? Parte de mim não conseguia acreditar. Todas as meninas já tinham acordado àquela altura, falando aqui e ali ainda deitadas. A Mia era a única que seguia dormindo. Fiquei esperando, esperando que acordasse. Ansiosamente. Como se precisasse de um sinal de que não fora um sonho ou apenas imaginação – algum delírio bêbado de madrugada.
 
Depois de inúmeros resmungos e uns bocejos preguiçosos, as outras finalmente se levantaram. E antes de saírem para a sala, tentaram acordar a Mia – já eu fiquei no quarto. Com saudade de estar sozinha com ela. Apoiei os meus braços no seu colchão e encostei a cabeça de lado. Sonolenta, desperta pela movimentação toda, a Mia enrolava para abrir de vez os olhos e eu a observava. Tinha os cabelos castanhos caídos sobre as bochechas e o nariz. E uma das mãos no rosto. Três pequenos pontinhos tatuados em um dos seus dedos, entre o do meio e o indicador. Ah, garota, suspirei.
 
_Oi... – ela despertou, ainda sonolenta.
_E aí, bonita... – cochichei de volta e sorri, ela afundou o rosto no travesseiro.
 
Sem a bebida e o véu da madrugada, todavia, algo agora me incomodava por dentro. O que diabos eu vou dizer para o Fer, senti o meu peito doer. Foi quando a tal da Laura nos interrompeu, entrando no quarto novamente para ver se a Mia já tinha levantado. Ela e a Michelle estavam com fome, disse. Empata-foda. Saí de lá, deixando as duas, e fui até o banheiro lavar o rosto – já emburrada. Sem esperanças de ter mais um segundo sozinha com a Mia. Me olhei no espelho, com o cabelo amassado e a raiz por fazer debaixo daquele descolorido tosco, e tive a certeza de que a ausência de horas dormidas naquela noite não poderia ser disfarçada. Estava estampada na minha cara, com duas olheiras enormes.
 
Deus. Quem come croissants de café-da-manhã?, me surpreendi, instantes depois, entrando na cozinha e encarando a cesta de pães em cima da mesa. Aquilo parecia cena de novela. Na verdade, a casa inteira da Mia parecia ter saído do horário nobre da Globo. Desviei o meu olhar dos pães e dos talheres bonitos e notei que, do outro lado da mesa, a Mia me olhava. O meu coração disparou na mesma hora. Me esforcei para conter um sorriso e não revelar às outras o nosso pequeno e fantástico delito daquela noite.
 
Após o café, descemos para parte de trás do pátio do prédio para fumar um e a Laura precisou ir embora. A tal da Gi disse que ia junto. Elas iam para o centro de São Paulo, passando quase do lado do meu apartamento, mas insisti que não precisava de carona. Mentira. Tudo o que eu queria era ficar mais um tempo com a Mia antes de ser jogada de volta à realidade. No final, restamos só nós e a outra amiga. Não via a hora de me livrar da Michelle, mas a garota parecia obstinada a não ir a lugar algum. Nossa ressaca estava insuportável. Expulsamos umas crianças do parquinho do prédio e ocupamos as balanças que ficavam no pátio. A Michelle sentou no chão para bolar um. O tempo todo, a Mia dava um jeito de me espiar e eu a olhava de volta, sem falar nada. Apenas sorríamos.
 
Mas a porra da amiga continuava lá.

REPORTAGEM ♥

Sapatonas do meu coração, 

O site Dykerama – que, tenho certeza, todos vocês já conhecem – fez uma matéria lindíssima comigo sobre o blog! Gostaria muito que vocês prestigiassem o Fucking Mia lá, lessem a reportagem e comentassem! :') 


E aproveitando, muito obrigada por acompanharem a história e pelos comentários maravilhosos. Obrigada mesmo!  

Quase dia

E quem disse que eu conseguia dormir? A Mia e cada segundo daquela noite não saíam da minha cabeça, meu deus.

Busted!

_O que vocês estão fazendo?
 
A mãe da Mia perguntou, amarrando um roupão por cima da camisola, ao acender a luz da sala – “por que tá tudo escuro aqui?!”
 
_Nada, mãe... – a Mia resmungou, numa atuação brilhante de última hora – A gente foi na cozinha só...
_Já está tarde... – nos olhou ali, ofegantes e descabeladas, desconfiada – O que aconteceu aqui?
_Como assim?
_Como “como assim”, filha? – se irritou – O que vocês duas estavam fazendo?
_Mãe, mas que droga... Qual é a sua, porra? Não tem nada rolando!
_Não precisa ser grossa na frente da sua amiga, Mia – ela falou, educadamente, e olhou para mim, que sorri amarelo – E vocês não vão dormir, não?
_Vamos, vamos. Já estamos indo...
 
Eu e a Mia dissemos “boa noite” em coro, como duas adolescentes pegas no flagra. E entramos no corredor, conforme a sua mãe se dirigia à cozinha. Peguei na sua mão e olhei para a Mia, depois espiei para trás, me assegurando de que já estávamos sozinhas. Assim que chegamos na porta do quarto, a coloquei contra a parede e a segurei pela cintura, com uma vontade desgraçada de continuar.
 
_Cê tá louca?! – ela cochichou, rindo – Minha mãe tá acordada!
_Tô. Tô louca por você, sabia?
_Nossa. Como você é brega...
_Tô nem aí!
 
Eu ri e a beijei rapidamente, me divertindo. Assim que nossos lábios se afastaram, sorrimos e nos apressamos para abrir a porta. Atravessamos o quarto no escuro, tentando não fazer barulho. A Mia sentou no meu colchão, antes de subir para a sua cama, e ficamos ali por um tempo. De mãos dadas.
 
_Fazia tempo que eu não era flagrada por uma mãe...
_Ai, que vergonha... – a Mia apoiou a cabeça no meu ombro – Nem me fala.
_Me sinto com 14 anos de novo, pegando meninas em banheiros, tendo que fugir de pai e mãe, dando beijo escondido...
_Olha, você não tá ajudando a situação – ela riu, constrangida.
_Vem – disse baixinho e sorri, beijando-a no rosto – Vamos dormir...

fevereiro 23, 2010

Lei de Murphy

Sua respiração falhou como ondas quebrando nas pedras.
 
P u t a q u e p a r i u.
 
Aquele foi o melhor orgasmo da minha vida – o dela.
 
Perdi a cabeça. A noção do tempo, de tudo. Onde eu parei? Ah, é... No meio das pernas da Mia. Senti as suas mãos no meu cabelo, apertando-me com força contra seu corpo. E subi as minhas para o seu quadril, a puxando na minha direção. Prolongando a sensação. Podia ouvi-la perder o fôlego. As suas pernas tremiam. E ela se contorcia no sofá, tentando não fazer barulho. O formigamento se espalhava sob a sua pele, como a água escorrendo de volta para o mar. O seu gosto em mim.
 
E aí tudo desacelerou, flutuou.
 
Mas eu, mal esperei que se recuperasse, eu quero mais, garota. E insistente, subi pelo seu corpo, nuns beijos que a empurravam quase além do que aguentava. Ela estava inteira arrepiada. E eu não conseguia parar. A minha boca me denunciava, a fissura pela sua pele. Cada toque irradiava pelos seus poros, a ressaca depois da chuva. Um oceano de vontade. Até então, a Mia não havia encostado um só dedo em mim. Parecia não sabia direito onde colocar as mãos. E eu achava certa graça na sua heterossexualidade toda. Quanto mais minha boca subia, todavia, mais ela parecia querer. Coloquei uma perna de cada lado do seu corpo e tirei a minha camiseta. Ela desceu o olhar por mim, ainda ofegante – num misto de curiosidade e tesão. Nem um pouco hétero. E eu me inclinei para frente para beijá-la. O problema é que a droga da camiseta continuava na minha mão, preciso me livrar disso. Então, sem pensar, me inclinei de novo para trás e joguei aquele pano inútil para longe, no meio da sala escura.
 
Que idiota.
 
A blusa mal encostou no chão e, metros adiante, alguém acendeu a luz do corredor. Merda. Mil vezes merda. Me arrependi na mesma hora, me sentindo uma porra duma iniciante. A Mia me olhou, desesperada, e eu saí de cima dela em velocidade recorde. Nos atrapalhamos um pouco pela sala, ainda meio bêbadas de cerveja e adrenalina, nos trombando umas duas ou três vezes até conseguirmos nos vestir. E paramos em pé no meio da sala, descabeladas, recuperando o fôlego; camisetas ao avesso.
 
Tudo em menos de 10 segundos.

Agora agüenta...

"If people were rain,
I was drizzle and she was hurricane"
 
—via Tumblr, Looking For Alaska

fevereiro 22, 2010

Meia-noite

A essa altura, eu já havia perdido os bons modos. E todas as sutilezas. Que se dane. Lá estava ela, a mulher que eu queria. A Mia. Em cima de mim, as pernas descobertas e a boca no meu ouvido. Acho que nunca senti tanta..., meu deus. A água subia. E eu mal conseguia respirar. Assim que disse aquelas palavras, afundando a minha mão entre suas pernas, a minha língua percorreu o seu pescoço. Até morder a sua boca e a beijar, era como desembrulhar um presente pelo qual você aguardou a vida toda. Você não quer tirar fita por fita, remover cuidadosamente o papel e dobrá-lo num canto para reutilizar no próximo pacote.
 
Ah, não.
 
Você quer rasgar a porra toda.
 
E eu o fazia – a beijava como se nunca tivesse saciado a minha fome em outras garotas. E de fato, não tinha. Não era suave. Era sal e pressão e uma sensação vertiginosa de ser arrastada, assim, para o fundo. O mais fundo do mar. Você mal consegue suportar. A curva do seu pescoço, a umidade entre as suas pernas, arrastando os dentes na ponta do seu queixo e encaixando em seguida a minha boca na sua. De novo e de novo. Com a voracidade de quem quer mais, até se afogar. Nossos beijos se intensificavam, nuns exageros bêbados. A Mia me apertava para junto dela, perdíamos a mão. Deslizei as minhas pelas suas coxas até a sua cintura, levantando a sua blusa. O tecido escorregou por cima da sua cabeça e eu o segurei contra as suas costas, abraçando-a descoberta. Ela me mordia de volta, machucando os meus lábios. Como quem realmente sabia pegar pesado.
 
E sinceramente? Se tivesse com mais roupa do que por sorte estava, não teria restado uma inteira no chão. Nem dela, nem minha. Podia sentir a sua respiração oscilar. A Mia se movia contra o meu corpo como a corrente, constante e intensa, forte o suficiente para devastar o mundo ao meu redor. Os meus pulmões, a minha pele. Tudo que restasse. Dezenas de flores de cerejeira desciam pelas suas costas. Até a lateral da sua barriga. Enchi as minhas duas mãos com suas curvas – e num atrevimento indecente, desci uma delas. Escorregando os dedos sobre o tecido já molhado da sua calcinha. Naquele vai e vem. Não conseguia tirar os olhos, a boca e todo o resto de cima dela. Ela me beijava com um tesão gostoso, me apertando com força. Os meus dedos encontravam caminho por dentro da calcinha. Num só movimento, virei-a contra o sofá e fiquei por cima.
 
_V-você não acha que... – ela me interrompeu, de repente.
_Mia, na boa – eu ri, beijando cada centímetro da sua pele – Cala a boca.
 
A sua respiração oscilou, ansiosa, conforme eu descia os lábios pelo seu corpo. Me deixa acalmar essa confusão dentro de você, garota. Ela me olhava de volta, fixamente. Todos os sentidos à flor da pele – eu sabia o que ela estava sentindo. Já tinha passado por aquilo. E queria mostrar como fazer para a tempestade passar. Confia em mim. Mas o seu olhar não desgrudava do meu. Atenta. Descendo comigo até a altura do seu umbigo e então mais embaixo. A Mia mordeu a boca, num nervosismo visível, acompanhando cada movimento. Lambi por cima do tecido, a maré alta. Lua cheia. E coloquei a sua calcinha para o lado, a sua respiração acelerou. Os olhos dela se fecharam. E os meus dedos deslizaram lentamente para dentro. Os subi então até a minha boca, molhados, lambendo o seu gosto antes de começar.
 
Pois é, baixaria. Eu sei.

Metáforas

Sabe quando você decide o que quer de Natal e ainda é julho?
 
Então, você espera. Chegar agosto e aí setembro e depois outubro e só após muito, muito tempo novembro? Pois bem. Dezembro. Você se acalma. Acha que está quase lá, não falta tanto, mas daí vêm aqueles 24 dias lentos de verão que parecem não passar nunca. Dia 1, 2, 3... 14, 15, 16... 21, 22, 23... Chega a porra do dia. Sua mãe coloca os presentes embaixo da árvore e você olha um por um, até achar o seu – a caixa é exatamente do tamanho do que você tanto desejou. Maravilha, você pensa, se animando por um instante. Mas a verdade é que você está sofrendo – sofrendo duma antecipação cruel. A espera é devastadora. O resto da família chega aos poucos. Vocês conversam, por horas – e o presente lá. Vocês começam a pôr a mesa, na velocidade de uma tartaruga manca ladeira acima – e o presente lá. Vocês jantam, prato por prato – e o presente lá. Aquela porra não acaba nunca, você já está quase socando a comida estômago adentro para terminar logo – e o presente lá. Vocês saem cheios da mesa, os estômagos enormes, e o babaca do seu tio resolve reunir todo mundo na cozinha para algumas piadas idiotas – e o presente lá. Eis que surge o Papai Noel, aquele benfeitor desgraçado filho de uma égua que não para de falar. Pirralho por pirralho, até o fim daquela sacola imensa – e o presente lá. Você não está mais se aguentando, já perdeu toda a paciência, não consegue mais se segurar de ansiedade e a sua mãe tem a pachorra de lhe dizer que os pacotes embaixo da árvore são só para “depois da meia noite”. São dez e meia. Dez e meia. Você perde a cabeça, grita com a sua mãe, diz que vai abrir de qualquer jeito e a família inteira te condena. Qual é. Onze horas – e o presente continua lá. Te chamando, te provocando. Te deixando louca, vai tomar no cu. Você tenta se distrair. Faz de tudo, espera uma eternidade para olhar novamente no relógio. Aí olha. Onze e meia. Arghhh! Fala sério?! Onze e quarenta. Onze e quarenta e cinco. Onze e cinquenta. Onze e cinquenta e cinco. Onze e cinquenta e seis. Onze e cinquenta e sete. Onze e cinquenta e oito. Onze e cinquenta e nove. Onze e cinquenta e nove. Onze e cinquenta e nove. Ainda onze e cinquenta e nove? Onze e cinquenta e nove, onze e cinquenta e nove, onze e cinquenta e nove... Onze e cinquenta e nove. O minuto mais longo da história se prolonga, irritantemente, e quando você olha de novo as horas – são onze e cinquenta e nove, ainda.
 
Puta que pariu.