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janeiro 21, 2012

Exílio

Se eu tinha uma certeza, depois de uma noite mal dormida e de um encontro indesejado com a Mia pela manhã – que me fez imediatamente dar meia volta na cozinha –, era de que eu não queria trombar com ela tão cedo. Pelos dias seguintes, então, me dividi entre a cama da Clara e o sofá da Thaís, devidamente compartilhado com o Bruce, voltando para casa de vez em nunca para pegar uma troca de roupa e fazendo valer a minha fama no trabalho. Que seja.

janeiro 20, 2012

O efeito Casimir

Entrei no apartamento e me forcei a dar um sorriso amarelo para o Fer, numa tentativa de o despistar, abaixando a cabeça enquanto atravessava a sala. Sentia o meu coração disparar. A contragosto, as lágrimas se espremiam doloridas e engasgadas na minha garganta – eu as continha. Abri a porta do quarto e a fechei atrás de mim, indo direto para a cômoda pegar o meu maço. A Clara ergueu o corpo, sentando-se no colchão. As luzes do quarto estavam apagadas.
 
Acendi um cigarro. E traguei. Não é certo, minha respiração competia com o meu pulso acelerado, dificultando encher os pulmões, não é certo, porra. Me faltava o ar, de raiva. Filha da mãe. A minha cabeça parecia que ia implodir. Não conseguia engolir a sua hipocrisia, as palavras da Mia, as minhas. Aquela confusão, de novo. E me deixava torturar, de repente, pelas possibilidades. O qu... q-que diabos foi aquilo?
 
A Clara me chamou em meio ao breu, desavisada do que acabara de acontecer. E eu deveria ter ido até ela, deveria. Por que cê não me deixa em paz?, me angustiei, sem conseguir evitar, remoendo a ousadia da Mia, por que cê tem que vir e me falar essas merdas, inferno? Minha cabeça ia a mil, entre uma tragada e outra, analisando cada uma a uma das suas palavras, de novo e de novo. Obsessivamente. Tentando em vão processar, ainda que não quisesse lidar com aquilo. Não agora.
 
Caralho, viu.
 
Mais uma vez, a Clara me chamou da cama – mas eu não conseguia prestar atenção. “Nunca disse”, a minha respiração pesou, contendo as minhas lágrimas com certo esforço, não disse, não. Não é? E não, não era justo. Não era justo comigo, com a Clara, com ninguém. Maldita. Esfreguei a mão no rosto e balancei a cabeça, soltando a fumaça pro lado, tomada por uma frustração fora de controle. O erro foi seu, garota. Coloquei o cigarro de novo entre os lábios, sem saber como me sentir. Não meu. Dei mais um trago – agora você vem, né? Agora. As lágrimas deixaram os meus olhos e eu as enxuguei, sem paciência. Depois de eu lutar para te esquecer, me forçar a não querer, a não ir atrás, me sentindo um lixo por meses, inferno –, depois do tanto que eu sofri por você, garota. Depois de todas as noites não dormidas, de tantas vezes que fui rejeitada, não. Nem a pau. Me recusava a passar por aquela merda de novo. Passei ambas as mãos no rosto, mais uma vez. Cacete. O choro me causava uma dor de cabeça instantânea. E a Clara notava – me perguntando baixinho se estava tudo bem, sentindo a tensão no ar, mas eu a ignorava, engolida pelos meus pensamentos. Meu coração se afogava. “Nunca disse isso”, repetia as palavras mentalmente e tentava, num esforço desproporcional, reter as lágrimas.
 
Mas elas vinham, indesejadas.
 
Suavemente, senti as mãos da Clara tocarem então as minhas costas. Ficando em pé atrás de mim. E a minha cabeça ficou confusa – sem saber para onde ir. Ou como voltar. Mas então ela colocou os braços ao meu redor, com carinho. Foi me aterrando, aos poucos. Você não tem direito, Mia, me amargurei e amassei o cigarro contra a parede, me forçando a contrariar dentro de mim a mera sugestão do que ela “nunca” dissera. O meu coração encolheu no meu peito. V-você, enxuguei as minhas lágrimas com rancor, você nunca me amou. E você não me ama agora.
 
Já chega.

janeiro 18, 2012

Take what you need

_FODA-SE!! FODA-SE!!!!
 
Gritei e o som ecoou pelas escadas vazias.
 
_FODA-SE, MIA!! QUE DIFERENÇA FAZ??
_P-por favor... só m-me escuta, por favor!
_Não! NÃO VOU!! EU NÃO TENHO QUE ESCUTAR PORRA NENHUMA!!! – esfreguei as mãos no rosto, transtornada – C-COM, COM QUE DIREITO VOCÊ VEM AQUI, MESES DEPOIS, ME FALAR ESSA MERDA? O QUE IMPORTA É O QUE VOCÊ FEZ, INFERNO, NÃO O QUE VOCÊ FALOU OU DEIXOU DE FALAR!! E VOCÊ... V-VOCÊ NÃO FEZ NADA!!! NADA!!! VOCÊ NÃO FEZ PORRA NENHUMA!!! NÃO TEVE A CORAGEM DE PEGAR A DROGA DO TELEFONE!! – a acusei – ME DEIXOU SOFRENDO, ME IGNOROU POR SEMANAS!! VOCÊ SABIA QUE EU TE AMAVA E NÃO FEZ NADA!!! NADA!! – vomitei cada palavra sufocada no meu peito – E AGORA VOCÊ VEM ACHAR RUIM QUE EU TÔ COM ALGUÉM?? SÉRIO?? VAI ME DIZER O QUE FAZER COM A PORRA DA MINHA VIDA?!?? COM QUEM EU TENHO QUE FICAR??!??
_Eu... e-eu sei, só... – implorou, com os olhos inchados – ...só não... n-não isso, POR FAVOR! NÃO COM ELA!!!
 
Dei um passo para trás. E senti o ódio tomar conta de todo meu corpo. Não podia acreditar que me pedia aquilo, de novo. Vem, desgraçada, vem aqui me falar merda às escondidas pra depois ir lá dar pra porcaria do Fernando. Hipócrita do caralho. Esfreguei as mãos no rosto mais uma vez, enxugando meus olhos. E a Mia ensaiou alcançar minha mão – mas hesitou. Suas bochechas também molhadas. Covarde. Me olhava como quem se arrepende antes mesmo de pronunciar as palavras seguintes.
 
_Olha, e-eu... eu sei que, q-que eu não tenho... – sua respiração atropelava a sua voz, ansiosa – ...que eu não tenho nenhum... d-direito de...
_É – a interrompi – Você não tem, mesmo.
 
Virei as costas e saí, não ia ouvir mais uma palavra.

Desencadeamento

_Oi?!
 
Eu ri, desnorteada por um segundo, como se não tivesse entendido direito. Repete.
 
_Eu não... – as palavras saíram da sua boca quase por acidente, hesitantes – ...n-não quero que você fique com ela.
_Você não qu...?! – passei a mão no rosto, relutando em acreditar na audácia – Eu?! Você não quer que eu fique com a Clara?! – levantei a voz – É isso?!
_Fala baixo, meu. Por favor.
_Cê veio até aqui pra me dizer o que eu tenho que fazer com a minha vida?? É sério isso?!? – me indignei – Olha, Mia, na moral... Por que DIABOS eu não ficaria?!
 
O meu coração acelerou. Suas mãos ainda me seguravam pelo braço e a Mia me olhava, a muito custo retendo as lágrimas – mas o silêncio a denunciava. Não tinha argumentos. Não tinha nada. Nada que justificasse um pedido absurdo daqueles. Preciso mesmo dar o fora daqui, me inquietei, já sentindo que ia perder a razão. De saco cheio daquela sua ceninha e de como ela vinha agindo. Numa falta de consideração com o que aconteceu entre a gente, sem nunca se implicar com qualquer merda que fosse e ainda se achando no direito de vir me dar esporro, de fazer showzinho na balada, de me olhar torto pelo apartamento, de me mandar mensagem de madrugada, de falar merda no meio da escada, vai se foder. Me soltei das suas mãos, grosseiramente. Não preciso disso, balancei a cabeça. Determinada a voltar para o apartamento, a deixar passar – no quarto, nas mãos da Clara. Que se dane. Me virei para abrir a porta, sentindo o meu coração na garganta. Mas, então...
 
Dei dois passos de volta, furiosa.
 
_NÃO FOI VOCÊ?! – a acusei subitamente, tomada pelo rancor – Não foi VOCÊ, Mia, que disse que queria tentar? QUE QUERIA FICAR COM ELE, PORRA?!?
_P-por... – ela murmurou – ...por favor, não faz isso.
_Me explica. O QUE VOCÊ QUER DE MIM??? – me revoltei, sentindo todas as emoções que engoli por meses voltarem ao meu peito – Me fala, caralho. NÃO FOI VOCÊ, MIA?! QUE NÃO QUIS FICAR COMIGO?!? QUE NÃO ME QUIS?!
_E-eu...
O som enrolou na sua boca, covardemente.
 
_FALA. SÓ FALA!! O QUE CÊ QUER DE MIM? O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA, PORRA?!? – senti minha voz embargar e a encarei fixamente, com um pesar horrível no peito – Você quer eu fique te esperando?!? É ISSO?? Até quando?? Pra sempre?? Que eu fique aqui presa a você, a... à merda que a gente teve e... – meu coração apertou – ...e que sequer SIGNIFICOU QUALQUER PORRA NA SUA VIDA! É ISSO?? É ISSO QUE VOCÊ QUER DE MIM, CARALHO?! Que eu fique sozinha?!? Sem você e sem ninguém... – senti as lágrimas me subirem aos olhos; merda – ...rasgando meu coração por você, MANO, TE ASSISTINDO LÁ COM ELE?! HEIN?!? É ISSO QUE VOCÊ QUER?? É ISSO QUE TE FAZ FELIZ??
_NÃO! CLARO QUE NÃO!!
_ENTÃO O QUÊ, PORRA?! – o meu coração parecia prestes a sair pela boca – O QUE DIABOS CÊ ESPERA QUE EU FAÇA?!?
_NADA! E-eu...
_POR MESES! POR MESES, MIA, CARALHO! – a interrompi; a sua falta de coragem me doía – Por meses foi só você. SÓ VOCÊ! Mas... – ri de nervoso, a olhando ali – ...mas aí eu fui na sua casa, cê lembra? E tive que praticamente IMPLORAR pra você descer, pra você sequer falar comigo, inferno! Depois de tudo que a gente passou! E pra quê?!? – a Mia abaixou a cabeça, apertando os braços cruzados em frente ao corpo, e eu subi ainda mais a voz – PRA QUÊ?? PRA VOCÊ OLHAR NA PORRA DA MINHA CARA E ME DAR UM PUTA FORA?! DIZER QUE ESCOLHIA ELE?? QUE NÃO ME QUERIA, QUE NÃO ME AMAVA?!?!
_NÃO! EU NUNCA DISSE ISSO! – me cortou, de repente, com lágrimas nos olhos.

E foi aí que eu perdi de vez a cabeça.

janeiro 17, 2012

A audácia

Tecnicamente, não era mentira. O caminhão, de fato, passava de madrugada e era minha responsabilidade levar o lixo para fora – mas, né, às terças. Esse pequeno detalhe eu omiti. Dei um selinho rápido na Clara, a deixando no quarto por um instante. E apressei o passo até a cozinha, pegando o saco meio vazio que estava no nosso latão e atravessando pela sala, saindo pela porta da frente – numa movimentação que gerou certo estranhamento ao Fer.
 
Afinal, ainda era quinta.
 
Todo o lixo do nosso andar era depositado numa espécie de cesto na área da escada que, além de estar a uns bons metros do nosso apartamento, ainda ficava atrás de uma porta corta-fogo. Era o lugar perfeito para não ser ouvida. Larguei o saco no tal cesto e tirei o celular do bolso, apoiando o corpo contra a parede para terminar de digitar uma mensagem importante para um dos fornecedores. E foi quando alguém abriu a porta.
 
Olhei para o lado e, o que cê...? A Mia passou por mim com as sacolas do delivery, agora vazias, num moletom preto cinco vezes maior do que o seu tamanho que ela usava como vestido. Tinha as mangas erguidas nos antebraços e as pernas descobertas, com os coturnos velhos nos pés. Jogou as sacolas direto no cesto e então se virou, me encarando. Sabia que ela não tinha ido até lá para jogar a porra do delivery fora, mas desviei o olhar para a tela do celular. Não vou dar trela. Um silêncio constrangedor cresceu entre nós. Em meio às escadas vazias. Chequei por cima do meu ombro, de relance, e ela continuava ali, a alguns metros de mim, me observando insistentemente. Então terminei a mensagem, enfiando o celular de qualquer jeito no bolso, e me virei também, a encarando de volta. Qual é?
 
Foi quando notei os seus olhos marejados. Me olhando, consternada, com uma verdade engasgada na garganta que era incapaz de dizer. E por longos segundos, não o disse. Nada. Balancei a cabeça, me livrando daquele sentimento, sem paciência pros seus silêncios. Preciso sair daqui. Fiz que ia para a porta e, nisso, a Mia me segurou pelo braço:
 
_Não quero que você fique com ela – pediu.

Linhas inimigas

Quando chegou a noite de quinta, a Clara já estava roubando coisa pior – tipo o meu celular. Merda. O arrancou da minha mão, depois da terceira ou quarta vez que eu disse que estava acabando, sem nunca acabar, e aí saiu correndo para a sala. Inferno. Corri atrás dela e ela riu, fugindo de mim, dando voltas no sofá onde o Fer e a Mia comiam um delivery qualquer.
 
_Clara, devolve!
_Vem pegar... – piscou e segurou o telefone atrás das suas costas, me desafiando.
_Mano... – balancei a cabeça, rindo – ...não vou correr atrás de você. Só me dá!
_Nem a pau! São dez pras onze e cê tá trabalhando ainda!
 
Pois é. Um dia antes, a minha chefe tinha me colocado como responsável por uma campanha publicitária, no que parecia mais um teste do que qualquer outra coisa. E desde então eu estava surtando. Ligando para cliente e fornecedor e locação e coordenando a porra toda, tentando garantir que tudo estivesse certo na tentativa de me provar. Não queria foder as coisas logo na primeira semana. Agora a Clara subia no sofá com as pernas magníficas de fora numa regata, as calças esquecidas no meu quarto, me zombando – do mesmo jeito que zombara todos aqueles dias.
 
_Olha, assim não dá... – fez graça, escalando o encosto – ...como é que cê vai ser mãe dos meus filhos se cê não sai do celular?
_Que mané mãe dos seus filhos, meu?!
 
Eu ri. E puxei ela para baixo. Nós duas caímos no chão, rolando uma em cima da outra. Eu tentava pegar o celular da sua mão e ela o segurava com toda força, com os dedos agarrados ao redor, me impedindo. A uns metros de nós, a Mia e o Fer observavam.
 
_Escuta... – a Clara subiu em cima de mim, provocando – ...não vim aqui pra ficar largada, viu?
_Não, né?
_Não.
_Hum... – fiz graça, com o braço ao redor da sua cintura – ...e veio pra quê?
_Vamos lá no quarto... que eu te conto.
 
Ergui o corpo e a beijei, esquecendo do celular por um instante. Subindo as mãos pelas suas coxas. Com a boca da Clara na minha e os olhos da Mia ali, pegando fogo, nos encarando de cima do sofá. Fomos perdendo a noção de limite – nós e ela. Podia sentir o seu olhar me fuzilando. E o Fer sequer notava, ao seu lado, gargalhando da nossa ceninha no chão.
 
_AH, MANO! – ele resmungou – A GENTE TÁ COMENDO, PORRA!
 
Levantei o dedo do meio na direção do meu amigo, sem tirar a boca da Clara. A imprestável mordeu o meu lábio e foi me beijando até a lateral do meu pescoço, montada em cima de mim e tornando a minha situação no meio daquela porra da sala realmente difícil. Isso não vai dar certo, pensei, sentindo o calor me subir pelas calças.
 
_VELHO... – o Fer tacou uma almofada na gente, rindo – ...VÃO PRO QUARTO, CÊS DUAS!
_VAI TOMAR NO CU, FERNANDO! – joguei a almofada de volta na direção dele – NUM POSSO NEM DAR UNS BEIJOS?
_UNS “BEIJOS”?!
 
Ah, pronto. Falou o que tava comendo a Mia no sofá semana passada, revirei os olhos.
 
Mas nos levantamos, sim. E eu declarei – “vamos pro quarto”. A Clara me abraçou a lateral do corpo e os meus olhos cruzaram com os da Mia, sem querer. Me encarando fixamente, com os coturnos surrados sobre o sofá e um dos joelhos em frente ao corpo; a pequena tatuagem que eu fiz meses antes, em linhas tortas, aparecia um pouco abaixo na sua coxa. Senti como se algo rompesse. A Clara me beijou a bochecha e me puxou em direção ao corredor, me entregando de volta o celular a poucos passos do quarto. Aleluia.
 
Com o telefone em mãos, todavia, senti despontar uma vontadezinha ingrata de terminar a mensagem que não enviei minutos antes. Talvez fazer até uma ligaçãozinha, quem sabe? Tinha sido interrompida no meio dos trâmites todos e não podia me dar o luxo de foder as coisas na produtora. Mas – argh. Não. Não dá, hesitei, a Clara vai me matar se eu voltar a trabalhar. Observei ela entrar no quarto, com os cabelos bagunçados depois de rolar comigo pelo chão, e parei na porta.
 
_Merda! – suspirei, falando a primeira desculpa que me veio à cabeça – Me dá um minuto? Esqueci que preciso tirar o lixo.
_O lixo?!
_É, meu. Dois segundos, já volto!

janeiro 16, 2012

Eleuteromania

Na manhã seguinte, entrei na produtora com a mesma roupa do dia anterior – depois de passar trinta minutos revirando a porra do armário inteiro da Clara, sem encontrar uma roupa sequer que eu me sentisse confortável em usar. Todas justas demais ou “pijama” demais. Argh. Aí aconteceu exatamente o que eu não precisava no meu segundo dia de trabalho: alguém reparou. E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a respeito, já estava com a mesma fama que carreguei no meu emprego anterior.
 
A de quem nunca dorme na própria cama, é.
 
Então, quando a Clara me mandou aquelas baixarias no meio da tarde – numas mensagens que, puta merda –, eu sabia que tinha que pelo menos passar em casa antes de encontrar com a diaba. E foi o que eu fiz. No segundo em que o relógio da produtora marcou seis da tarde, dei um pulo da cadeira e passei no meu apartamento para tomar banho e trocar de roupa. Em menos de uma hora, a encontrei na loja onde ela trabalhava e, de lá, caímos na sua cama. Nos engolindo.
 
De alguma forma, a Clara me lembrava da relação que sustentei por anos com a Dani – nessas de ir e vir na vida uma da outra e de nos consumir até esgotar, toda vez, numas obsessões que eu não conseguia evitar. Atraída, de alguma forma, pela promessa dessa ausência completa de regras. Fascinadas e cruas, soltas, fodendo à exaustão e absorvendo cada segundo, cada falta de limite, cada conversa e madrugada em claro, como se fosse a única coisa que importasse na porra do mundo inteiro. Eram os meus relacionamentos mais sinceros.
 
E né – o sexo era fenomenal. C a c e t e.
 
Nós não nos precisávamos, apenas nos queríamos. E há uma diferença aí. Nos entendíamos de um jeito só nosso, numas manias de liberdade. O que não quer dizer, claro, que fosse um mar de rosas. Nunca é. Ou, pelo menos, era assim com a Dani. Todos aqueles anos, nos metendo numas discussões irracionais de madrugada, nuns excessos, nuns ciúmes, nuns sumiços, nos provocando e nos traindo, perdendo a noção da porra do limite até não aguentar mais. E inevitavelmente, no final, alguém sempre se machucava. Mas nunca o suficiente para impedir a próxima vez – e é aí que mora o perigo.
 
Agora, entretanto, num quartinho mal iluminado em Pinheiros, deitada ali com a Clara, me questionava se a comparação com a Dani sequer era justa. Ou se era só receio. Como quando sua cabeça te convence de que tudo o que é tão bom assim só pode ser cilada. A observava fumar um baseado, tranquila, enquanto as pontas dos meus dedos davam voltas a esmo pela superfície do seu corpo, e sentia medo da intensidade daqueles dias – de gostar, de realmente gostar. Um gostar de verdade, digo, não como eu tinha gostado da Patti. De perder o controle.
 
Ia passeando a mão pelos seus contornos, com a cabeça no seu ombro, numa brisa boa. Como se não existisse nada além do quarto. E de fato, não existia. Deitada de barriga para baixo e um tanto fora da realidade, depois de tantas horas enfurnada ali com ela, eu me sentia bem. Assistindo a fumaça espessa deixar seus lábios e permitindo, sem desviar o olhar, que ela me roubasse o fôlego.

janeiro 15, 2012

Alvo fácil

Desci em frente ao predinho baixo onde a Clara morava, nas redondezas do Viga, na Capote Valente. A minha orelha já estava quente de tanto ser azucrinada pela Marina – a pentelha foi o trajeto todo me zombando incessantemente. Argh. Me deixa. Corri do carro até o portão e toquei o interfone, debaixo duma chuva fria. A Marina logo saiu em direção à Heitor Penteado, provavelmente ainda rindo. E em menos de um minuto eu já estava subindo as escadas do prédio, com as roupas levemente molhadas. Como se tivesse me escutado chegar, assim que pisei no seu andar, a Clara abriu a porta do seu apartamento. Sorri na mesma hora. Mas ela se colocou no caminho, bloqueando a minha entrada com uma mão em cada batente.
 
_Então quer dizer... – conteve o riso – ...que cê não aguentou de saudade?
_Cala a boca... – revirei os olhos, rindo.
_Admite, vai, que não durou nem 24 horas longe de mim...
_Olha, cê não começa, hein?
 
Tentei passar e ela me impediu, com a mão na minha barriga. Puta merda, como você é linda, pensei. Linda e, ali, me barrando no meio do corredor do seu prédio às 23:51 duma segunda-feira. Fala sério.
 
_Diz, vai? – me puxou pela barra da camiseta, fazendo chacota de mim – Fala que precisaaaava me ver e que toooda aquela amargura na sua casa era sóóóó fachada, num era? – balancei a cabeça e ri, indignada, conforme ela miava– Diiiiiiiz, vai. Diz que, na verdaaaade, você me aaaama e não conseeeegue mais dormir sem miiiim...
_Escuta, cê vai me deixar entrar ou não?
_Vou, mas primeiro você tem que dizer. Admiiiite que quer ser a mããããe dos meus fiiiilhos... – continuou me zombando – ...e que vai molhar minhas plantas sempre que eu for viajaaaar? Que vai cuid...
_Deixa eu entrar, Clara – a interrompi, rindo.
_Deeeixo, deixo... – ela sorriu, com as mãos agarradas na minha camiseta molhada; estava com as pernas de fora num shortinho de algodão, descalça e com uma blusa de dormir, o cabelo preso num rabo alto – ...só fala rapidiiiinho, vai, que quer casaaaar e ficar velhiiiiinha junto comigo...
_Tá, já chega. Eu vou embora!
 
Me virei, fazendo graça, e ela me segurou pela mão na mesma hora.
 
_Não! – riu, me puxando de novo para si – Vem cá!
_Ah, então agora eu posso entrar?
 
Ri junto. E ela colou a boca na minha, num beijo meio desajeitado, aos risos, conforme nossos pés deslizavam intuitivamente para dentro do seu apartamento. “Pode”.

janeiro 14, 2012

Mordendo a língua

Sentamos num bistrôzinho de esquina lá pro outro lado da Augusta – o lado “bom”. Eu com as mangas duma camiseta preta enroladas sobre os ombros, ela numa camisa de linho branco que geralmente usava quando tinha que entrevistar alguém importante. Sabia disso por todas as vezes que a vi tirar aquela blusa do armário, nervosa, quando a gente namorava. Mas sequer chegamos a falar sobre trabalho. Passamos o jantar inteiro ocupadas com um único assunto – a Bia e a Patti. A Marina adorava ter razão. E se gabava dez vezes mais com uma taça de vinho na mão, o que era o caso agora.
 
_Olha, eu sei o que aconteceu...
_Hum... – eu ria, largada contra a cadeira, sem nem tentar impedi-la mais – ...me conta.
_Sabe o que é, acho que cê anda com saudade dum amorzinho...
_Ah! Ando, é?
_É. Cê tá muito solta, flor, desde aquele rolo todo com a Mia. E isso não é bom... Cê pode até achar que engana com esse seu jeito... – deu mais um gole no vinho e arqueou as sobrancelhas – ...mas eu te conheço. Eu sei que cê gosta de amarrar o seu burro por aí.
_Ai, Marina... – revirei os olhos – ...nada a ver!
_Quê?! É, sim! Por isso que cê se envolveu tão rápido com a Patti... – me contrariou – ...às vezes, tem mais a ver com a vontade do que com a pessoa.
_Mano, se eu tava querendo me apaixonar, então por que larguei ela lá e fui ver a Clara?!
_Primeiramente, porque você é uma idiota, né? Não dá pra acreditar nas merdas que cê faz... – me condenou com os olhos, detrás dos óculos pretinhos – Mas também porque, não sei, a Clara tem mais a ver com você. Talvez cê tenha se deixado levar um pouco pelo lance com a Patti...
_Sei – a olhei, me divertindo com as suas teorias.
 
Tinha uma certa calma na forma como a Marina me olhava, uma serenidade cheia de si, como quem tem sempre razão. Às vezes eu queria saber o que se passa nessa sua cabeça, achei graça. E sabia que ela me falaria num instante, caso eu pedisse. Eu só não insistia muito por medo da resposta. Medo de não concordar ou, pior, de que ela acertasse demais.
 
_Você tá rindo aí, mas é verdade... – continuou – Me diz se cê num tá com saudade de acordar junto, de ter alguém, hein? Cê passou tempo demais sofrendo, se escondendo, flor... – segurou a minha mão por cima da mesa – Merece ficar tranquila um pouquinho, ter alguém que te quer de volta.
_Menos, vai. Cê tá exagerando já, Marina... – resmunguei – Ninguém tá apaixonada aqui! Foram dois dias! – matei o último gole da minha água e devolvi a garrafa sobre a mesa – Podemos voltar a falar de você e da Bia, né? E de como eu tava certa?!
 
Ela começou a rir, balançando a cabeça, e bebeu o pouco de vinho que restava em sua taça. Nossos pratos já estavam devidamente esvaziados. A enchi por mais alguns minutos sobre o quão errada a Bia era desde o começo e ela pediu a conta para encerrar logo o assunto. A verdade é que parecia muito melhor sem a embuste – mais leve, não sei. E isso me deixava feliz.
 
Depois de pagarmos, me acompanhou até o lado de fora para eu fumar. Estava chovendo, de novo, então nos esprememos debaixo de um toldo em frente ao restaurante. A Marina aproveitou para checar suas mensagens no celular, enquanto eu acendia um cigarro e dava o primeiro trago. Podia sentir o meu braço arrepiar com o vento, descoberto naquela camiseta. Soltei a fumaça no ar, observando-a se desfazer em meio às gotas que se acumulavam sobre o toldo e caíam à nossa frente.
 
_Ei – me ocorreu, do nada – Acabei não te mostrando a tatuagem que a Thaís fez, né?
_Não! Cadê?
 
Ergui a lateral da blusa para mostrar e a Marina largou o celular um pouco, dando uma olhada. O frio pareceu aumentar. Ainda que fosse só um pouco a mais de pele descoberta, ugh. Abaixei a camiseta e cruzei os braços em frente ao corpo, levando o cigarro mais uma vez à boca, numa tentativa de acelerar o processo para entrarmos logo no carro. Mas de repente, parada ali sob a chuva gelada, não sentia vontade de voltar para casa. Hum. O que será que a Clara tá fazendo?
 
À surdina, tirei o celular do bolso e digitei um SMS escondido. A Marina começou a reclamar que os seus pés estavam molhando, me acelerando para eu fumar logo. Coloquei o cigarro entre os lábios e senti o celular vibrar. Dei uma olhada discreta no visor, “vem”. E tão logo a vontade de ir me ocorreu, a reprimi. Sabia que não podia comentar com a Marina, nem a pau. Ela não ia mais me deixar em paz com suas teorias românticas furadas. Melhor não. Meti o telefone de volta no bolso, tirando o filtro da boca, e assoprei a fumaça pro lado.
 
_Vamos – falei, apagando o cigarro inacabado.
 
Corremos até o carro na quadra de baixo, estacionado numa travessa da Augusta. E fechamos as portas com os braços e parte da roupa molhados, naquele frio desgraçado. Cacete. Enquanto recuperava o fôlego, me secando como dava, a Marina deu a partida. Aí saiu com o carro, iniciando a volta no quarteirão para voltar em direção ao meu apartamento. Droga. A vontade de dormir com a Clara cresceu. Mas, não, sem chance, não podia pedir carona para a Marina. Olhei as ruas passarem, inquieta no banco do passageiro, conforme a gente se aproximava da Paulista. Argh. Não estava com a menor disposição de pegar transporte público naquela chuva. E a pior parte é que o prédio da Clara ficava bem no caminho para a porra da casa da Marina. Inferno. Paramos no semáforo ao lado do Conjunto Nacional e eu respirei fundo, prestes a me arrepender:
 
_Má... – murmurei, pedindo – ...cê m-me deixa lá na Sumaré?
_Você não vai pra sua casa?!
_Não...
_Hum... – abriu um sorriso imprestável – ...e o que tem na Sumaré?
 
Desgraçada.

janeiro 13, 2012

Uns recomeços

As pontinhas do seu cabelo pingavam sobre a camiseta que emprestei para ela ir trabalhar. Por cima dum top preto e o único jeans que a serviu, todos muito mais largos do que a Clara costumava usar. Por algum motivo, ver aquela garota nas minhas roupas caminhoneiras me fazia sorrir. Ficava bonita. Seus longos cabelos escuros molhavam o tecido e ela sorria para mim, enquanto a gente tagarelava e tomava café.
 
Acordamos quase duas horas antes naquela manhã de segunda, com a chuva forte que caía do lado de fora. Os seus pés se aninharam inconscientemente nos meus e as minhas mãos procuraram a sua cintura sob o lençol, nos encaixando uma na outra. Entre o esbarrar dos nossos corpos e o barulho do lado de fora da janela, acabamos despertando. Era pouco depois das seis. “Vamos ficar mais um pouco...”, a Clara sussurrou. “Não dá”, murmurei, escorregando as costas da minha mão lentamente pelo seu braço, “preciso levantar”. 
 
Ela afundou o rosto no travesseiro com preguiça. E eu achei graça. Sem a ressaca e o azedume do dia anterior, estar com a Clara de repente não parecia tão assustador. Parte de mim queria ficar ali a manhã toda. O problema é que quando cai uma gota de chuva em São Paulo, a cidade inteira para – o trânsito, o metrô, absolutamente todos os meios de transporte com teto. E aquele era o meu primeiro dia no novo emprego. Não podia voltar a dormir e arriscar chegar atrasada. Então me forcei a levantar.
 
Tomamos um banho rápido juntas. Quer dizer, não tão rápido – mas bem juntas. E agora comíamos pão com manteiga na cozinha. A Clara tentava me convencer que “But I’m a cheerleader” era o melhor romance adolescente dos anos 90. Eu ria, discordando. Todo mundo sabe que é “The incredibly true adventure of two girls in love. Depois dividimos um guarda-chuva até a entrada do metrô Consolação – ela ia para Clínicas e eu, Brigadeiro. Meu trem chegou primeiro. A beijei antes de entrar e, assim que as portas fecharam, a assisti ir para o outro lado da plataforma nas minhas roupas largas. A barra do jeans encharcada de andar na chuva.
 
O resto do dia correu descomplicado.
 
As pessoas da produtora eram interessantes, novas, eram outras – e isso por si só já me empolgava. Fui conhecendo a equipe, fazendo pouco e observando muito, vendo o dia passar rápido. Lá pelo meio da tarde, respondi uma mensagem da Marina dizendo que precisava me ver e combinamos de ir jantar. Assim que saí da produtora, umas horas depois, lá estava ela. Na calçada, apoiada contra o seu carro, com seus óculos pretinhos e o celular na mão. Sorri ao vê-la parada ali.
 
_E aí? – me perguntou, conforme entramos no carro – Como tão as coisas?
_Bom... – bati a porta, me acomodando no banco do passageiro – ...fodi de vez as coisas com a Patti e tô com a Clara agora. E você?
_Terminei com a Bia.