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abril 02, 2010

Egos

Olhei a tequila descer turva pelo copo, dourada e sedutora, enquanto a Dani virava o seu segundo shot consecutivo. O barman a encarou preocupado, com certa razão, como se aquela quantidade toda de álcool fosse derrubar uma garota de tamanho tão desproporcional ao desafio. Ela baixou o copo vazio na bancada, sem fazer careta, e jogou a franja de cima dos olhos novamente.
 
_Aprendeu a beber, gracinha?
_E você por acaso já soube algum dia? – ela retrucou, levantando as sobrancelhas.
_Me dá um desconto, vai...
 
Eu ri, me apoiando no bar.
 
_Cê não está bebendo?
_Não. Tô sem grana...
_Eu te pago uma, vai... O que cê quer?
_Não gosto de mina me pagando bebida – a cortei imediatamente.
_Mas eu não sou qualquer mina, sou? – ela se inclinou na minha direção, ignorando minha resistência, e roubou um cigarro ainda sem acender das minhas mãos, o colocando delicadamente na sua boca – Eu sou sua mina, não?
 
Ela sorriu com o canto da boca, com o filtro entre os lábios.
 
_Ah, é? Eu não sabia dessa... – eu ri da sua presunção e puxei outro cigarro do maço, olhando para ela enquanto acendia o meu e, depois, o dela.
_Me vê uma dose de Jameson, por favor – ela pediu, certeira – Pode colocar na minha conta.
_Por que cê me ligou hoje, hein?
_Porque se depender de você, eu fico mais um ano sem pisar em São Paulo.
_Cê sabe que isso não é verdade... – eu disse, tragando demoradamente, e com o canto do olho vi minha dose de whisky aterrissando ao lado do meu braço na bancada.
_Eu liguei porque ia tocar aqui e é quase do lado da sua casa, oras... Que maldade tem?
_Nenhuma – eu ri – Mas então, quanto tempo cê tem até subir lá de novo?
_Não muito, uma meia hora... E aí? Você vem? – ela perguntou, se afastando do bar.
 
Não respondi e ela sorriu, como se já soubesse a resposta. Tirei o cigarro da boca e soltei a fumaça lentamente. Acompanhei com os olhos conforme a Dani caminhava confiante no meio de todas aquelas outras pessoas menos importantes – até o banheiro. Era como um flashback de milhares de noites no passado e joguinhos como aquele, sempre a mesma ceninha idiota. Eu sou muito trouxa mesmo. Virei para o bar novamente e segurei o copo de Jameson, hesitante. Já me arrependendo do que estava prestes a fazer, mas sabia que era inútil tentar me convencer a não ir atrás dela. Engoli todo o whisky nas minhas mãos num só gole e bati o copo vazio no balcão. Vamos acabar de uma vez com isso.

abril 01, 2010

Maus hábitos

Uma a uma, as luzes coloridas do Sonique passavam dançando pelo meu rosto. Eu olhava em volta, encostada numa das paredes da pista, pensando no que diabos eu estava fazendo ali. A Dani tinha me colocado na lista. E de qualquer forma, não tinha como voltar atrás agora – ou tinha, eu é que não queria. Eu precisava vir, me convenci mentalmente, precisava. Afinal, todo mundo tem uma história mal resolvida e a Dani era a minha. Uma delas, pelo menos.
 
Por pura cautela, não fui falar com ela assim que entrei. Ela já estava na cabine de DJ, começando a esquentar os seus discos e a pista, que se enchia numa rapidez incrível. Fiquei de longe, observando-a, e ela sorriu na minha direção, rapidamente, sem me dar muita importância. Seu cabelo estava mais escuro e mais curto, repicado e mal preso em um rabo, o que a obrigava a jogar a franja constantemente para o lado com a cabeça. Ela ficava realmente mais bonita quando não se esforçava. E naquela noite, uau, ela não tava se esforçando nem um pouco.
 
Por um ano, a Dani tinha ficado fora, morando na França com os pais. Mas eu não a via desde muito antes disso. Por tempo demais, pensei. Vê-la assim me dava uma saudade tonta, que eu não queria sentir. Nós tínhamos um relacionamento confuso, mas mais intenso e verdadeiro do que a maioria dos que eu já tive. Bem lá no fundo das nossas entrelinhas, nós estávamos sempre “para acontecer”. Só que nunca realmente acontecemos. A verdade é que a Dani era mais imprestável do que eu e me dava bem menos bola do que eu gostaria – o que, infelizmente para o meu ego, era realmente instigante.
 
Caráter à parte, agora ela aparentemente era aspirante a DJ. E dez... cem... mil vezes mais gata. Merda, eu realmente não deveria ter vindo, me arrependi, enquanto a olhava jogar aquela maldita franjinha de cima dos olhos. Como eu odiava minas assim. Irrecusáveis, argh. Eu conseguia dizer “não” para qualquer garota, qualquer uma – só não o fazia tão frequentemente porque, sejamos sinceras, nunca vi vantagem. No entanto, sentia uma dificuldade considerável em resistir a garotas assim, com essa falta de limite, como era a Dani. Ou a Mia, ao que me consta. E a minha falta de controle perto delas me incomodava. Bastante.
 
Ainda assim, eu não conseguia evitar.
 
“Words like violence, break the silence...” e, de repente, acordei dos meus pensamentos como num susto. Aquilo era Depeche Mode, ecoando pela pista inteira. Olhei para cima e a Dani me encarava discretamente ao longe, como se já esperasse que eu fosse me virar na sua direção. Levantei as sobrancelhas, num gesto referente à música, e ela piscou indiscreta para mim. Eu sorri. A porra da faixa era minha, eu sabia. É hoje, presumi. E cantarolei “Enjoy the Silence”, entre um olhar e outro dela.

março 27, 2010

Old routine

Antes que eu pudesse me dar conta, já era sexta de novo.
 
A iminência do fim de semana me revirava o estômago. O trabalho ocupou a minha mente durante os dias da semana, da forma mais medíocre possível, e eu passei o restante do meu tempo entediada até a morte – largada no sofá, deitada no meu quarto, debaixo do chuveiro, parada em frente à geladeira ou fumando na calçada do prédio. O meu consumo de cerveja quase triplicou. E agora já era sexta-feira de novo, droga.
 
O Fer havia iniciado um processo lento de reaproximação com a Mia, tentando limpar sua consciência pesada com gestos românticos e atenciosos ao longo da semana. Eu ignorei cada segundo daquilo, rancorosa com a Mia por ter ferido o meu orgulho e me rejeitado tão determinadamente no último sábado. Mais do que ela, eu estava me odiando. Por cada minuto que fiquei plantada do lado de fora do seu prédio, esperando no frio.
 
O lado positivo disso tudo é que eu não ia precisar vê-la tão cedo. Segundo o que ela mesma disse para o Fer – durante uma briga por telefone na terça –, o nosso apartamento "prejudicava o relacionamento deles". E eu estava certa de que a culpa não era dos móveis e eletrodomésticos contidos dentre as quatro paredes. Era inteiramente minha. Óbvio. Mas quando o Fer me contou, sem entender a indisposição repentina, eu não disse nada. Apenas olhei para o outro lado e balancei a cabeça, como se também não conseguisse compreender.
 
Enfrentava agora a minha indecisão com sexta à noite, fumando sentada na calçada às seis da tarde. Preciso de um porre, concluí. Infelizmente eu andava mais falida do que vendedor de guarda-chuva em dia de sol – sem um tostão para gastar em escolhas ruins. Pegar um táxi do fundo de Higienópolis até a Frei Caneca, às cinco da manhã, só porque fui cabeça-dura e mandei a Marina embora, também não tinha contribuído com a minha situação financeira.
 
Puxei o celular do bolso para olhar as horas e fiquei tentada a fuçar na minha lista de contatos. Não. Sem arranjar problema hoje, me controlei e rapidamente enfiei o telefone de volta na jaqueta, como se quisesse evitar uma catástrofe em potencial. Assim que voltei para a companhia pouco saudável do meu cigarro, no entanto, o meu celular tocou. Tirei ele de novo do bolso e espiei a tela para ver quem estava me ligando. DDD 19, número desconhecido. Estranho.
 
Cogitei deixar tocar, sem dar muita importância, mas curiosidade é uma praga mesmo.
 
_Alô?!
_E aê, doida... – ouvi uma garota dizer.
_Quem tá falando?!
_Sou eu – ela riu – a Dani.
 
Merda.

março 25, 2010

Domingo Legal

_Que porcaria é essa que cê tá assistindo?
 
O Fer perguntou de trás do sofá.
 
_Não sei e nem quero saber – argumentei, fumando um baseado – A meta aqui é alienação completa.
_Acho que vou me juntar a você – ele riu.
_Noite difícil?
_Nossa, mano – reclamou, de saco cheio – Não sei o que rola com a Mia, porra. Tá foda. Me largou aqui sozinho ontem, meu, foi embora sem falar nada! Cê... – me olhou, desconfiado – ...cê não contou mesmo, né?
_Hein?
_Da Júlia, porra.
_Não, Fernando, não contei – resmunguei.
_É que, sei lá... Ela anda estranha. Fui tentar falar com ela hoje e ainda me deu patada!
_Vai entender...
_É... – ele bufou – Mas e você, tava onde ontem? Não vi cê chegar.
_Tava lá na Marina.
_Caralho, na Marina? Mas cês não... – ele começou a rir – ...deixa quieto, vai.
_Nem faz essa cara aí pra mim! Fui lá só pra conversar.
_Sei... – ele riu – Ah! Aliás... A Roberta passou aí ontem.
_Jesus! Cê tá de brincadeira?
_Não, passou mesmo. Até tomamos umas juntos, eu disse que cê não tava e ela ficou aí um tempo pra ver se você aparecia. Deve ter ido embora lá pra meia noite ou uma... – contou e eu sacudi a cabeça, desacreditada – Eu fui dormir logo em seguida.
_Meu deus – revirei os olhos, dando mais um trago – Qual é o problema das pessoas?
 
Disse a fracassada que ficou até 5 da manhã na calçada da Mia.
 
_Na moral, cê devia dar mais bola pra ela... Puta mina gente boa, meu.
_Não, obrigada. Tô dando um tempo de mulher.
_Ah, claro. Você?! – ele riu – Até parece.
_É sério, Fer. Pra mim chega, só me meto em furada. E além do que, meu, a Rô pode ser ótima e tudo mais, mas é meio intensona, né? Não dá... Já não era nem para ela ter vindo aqui na quinta, puta cilada que eu fui inventar. Mano, toda vez a gente treta. Toda vez! E toda vez ela fica vindo atrás. A gente já passou por isso mil vezes. Preciso parar com essas ideias idiotas...
_Como cê é sensível, hein... Parece até que não tem culpa.
_Ah! Falou o morador mais íntegro desse apartamento – o empurrei – Hein, ô adúltero de meia-tigela?
_Vai se foder.
 
Nós rimos e terminamos o baseado juntos. No fim das contas, não era tão ruim estar no apartamento com o Fer. Ainda era o Fer – o mesmo de sempre. Ruim era passar por uma noite horrível daquelas e não poder contar nada pra ele. Sempre dividimos tudo. Mas agora tinha que ficar sentada ali, do seu lado, sem me entregar. E assim ficamos, os dois, enfurnados na sala em pleno domingo à tarde. De bode pela mesma mulher.

março 24, 2010

No táxi de volta

Ok. Eu me sinto muito, muito idiota.

março 23, 2010

Insistência

Pior do que tomar um “não” na cara é ficar assim, à deriva, sem saber. E lá estava eu, plantada na frente do prédio da Mia, sem saber de porra nenhuma. Que inferno. Internamente, eu estava me odiando por ter me enfiado naquela situação ridícula – isto é, me arrastando de joelhos por uma garota às 4 da manhã em pleno sábado à noite, enquanto eu poderia muito bem estar com alguém menos...
 
...
 
Tentei achar a palavra, mas tudo o que me vinha à mente eram as que eu não queria. Menos perfeita, suspirei. Argh. Eu sou patética, pensei em seguida, me humilhando naquela calçada. Ainda assim, já estava decidida a invadir aquela estrutura residencial superfaturada, caso o porteiro não desse as caras nos próximos dez segundos... nove... oito... sete... seis... cinco... quatro...
 
_Olha, moça, não tem ninguém atendendo lá, não – ele disse, saindo da guarita.
 
Havia certo sorriso de satisfação desgraçado no rosto do filha-da-puta. Senti vontade de mandá-lo à merda. E por pouco não o fiz, me esforçando para não demonstrar a minha própria frustração, enquanto ele me encarava daquele jeito eu-não-te-disse. Inferno. Ignorei e voltei para o carro, me apoiando na janela do passageiro. Olhei para a Marina, emburrada:
 
_Ela não tá atendendo.
_Bom... São 4 da manhã, não é? – ela me respondeu com desaforo, como se já esperasse por aquilo, o que me irritou mais ainda.
 
Levantei novamente e dei um passo para trás, respirando fundo. Olhei para cima e apertei as mãos contra o rosto, irritada. Merda, mil vezes merda. Traguei mais uma vez, sem saber o que fazer, enquanto soltava a fumaça. Então puxei o celular do bolso e procurei o nome da Mia nos meus contatos. Liguei, duas ou três vezes, e nada.
 
Filha-da-mãe.
 
Sentei na calçada com os pés na rua, meio metro à frente do carro, e apoiei os cotovelos nos joelhos. Com uma mão, eu segurava o cigarro e com a outra, eu digitava no celular: “Atende mia. ja to aqui embaixo porra, me deixa subir ou desce aqui pfvr. vou ficar esperando”. Isso era o cúmulo da humilhação. Lamentei mentalmente a situação, enquanto enviava a mensagem e tragava de novo o cigarro, já quase no fim.
 
De repente, ouvi a porta do carro bater. E logo a Marina apareceu em pé na minha frente. Olhei para cima e ela fez um gesto com as mãos, como se perguntasse o que eu estava fazendo ali. Respondi a verdade e ela imediatamente começou a discursar, por minutos a fio, sobre como aquilo era o fim do poço e como eu estava indo longe demais e como ela não ia, em hipótese alguma, ficar plantada lá esperando comigo até a Mia descer.
 
_Você sequer sabe se era verdade, flor – argumentou – E se ela não estivesse na casa dela? E se ficou irritada porque você não foi e disse aquilo só para te fazer sentir mal?
_Tô nem aí, que se dane. Eu vou esperar.
_Linda...
_Vai pra casa, Má. Eu pego um táxi, sei lá...
_Não faz isso – implorou – Já tá tarde, tá frio. Cê não sabe se ela vai descer.
_Pode ir, eu vou ficar.

março 22, 2010

O surto

_Pega suas coisas, Má. Me leva lá na Mia.
_Agora?!
_Agora.
 
A Marina se levantou do sofá, com uma das últimas cervejas restantes na mão e me olhou, rindo confusa. Lenta e atrapalhadamente, colocou seu vestidinho de volta, depois cambaleou para pegar as chaves do carro na mesinha de centro. Eu a observava impaciente, com vontade de puxá-la pela mão logo.
 
“To indo ai. Pfvr me espera acordada”, escrevi para a Mia, já no carro e quase esmagando as teclas do celular de tão ansiosa que estava. A cidade estava deserta por conta do horário – o que facilitava o nosso desrespeito completo pelas leis de trânsito, especialmente os faróis e limites de velocidade em vias urbanas. Chega logo, porra. Ignorei todas as tentativas bem-intencionadas da Marina de puxar algum assunto comigo. De certa forma, sentia que precisava me concentrar mentalmente na rapidez do percurso, torcendo inutilmente para que eu chegasse a tempo de encontrar a Mia acordada. A Marina não entendeu o recado, é claro, e foi tagarelando sozinha. Da Lapa até Higienópolis.
 
Assim que encostamos na frente do prédio, desci do carro correndo e larguei a porta aberta, o que resultou em uma reclamação mal-educada da minha doce ex-namorada. Toquei a campainha do prédio insistentemente, interrompendo um possível cochilo do porteiro, sem conseguir controlar os meus pés ansiosos no chão. Um velhinho bigodudo e quase careca saiu da guarita interna, me olhando feio, como se quisesse saber o que diabos eu fazia ali.
 
_Oi. Eu preciso falar com a Mia.
_Ihh... A essa hora não vai ter ninguém acordado, não...
_Ela tá, sim.
_Não, não. Eu conheço a família dela... O pessoal lá já vai tá tudo dormindo.
_Você não pode só interfonar e ver se ela tá acordada?
_Mas aí eu é que vou acordar todo mundo e perturbar. Você não pode voltar de manhã?
_Não! Não posso! – eu me irritei – Meu, eu acabei de falar com ela no telefone! Eu preciso falar com ela agora. O senhor pode, por favor, só interfonar logo?!
_Ah, mas aí, depois... se ela estiver dormindo... a bronca cai em cima de mim.
_Olha, a bronca vai cair em cima do senhor se ela ficar sabendo que eu vim da puta que pariu até aqui a essa hora e você não quis fazer esse esforcinho pequeno, mínimo, que é o seu trabalho, de dar dois passos, digitar três númerozinhos e interfonar pra porra do apartamento! Cê não acha?!
 
Ele me olhou com mais desgosto ainda e, sem que tivesse alternativa, retornou para a cabine e começou a discar. Olhei-o segurar o interfone contra o ouvido, calado, e os segundos se prolongaram cruelmente sem que ninguém atendesse. Eu estava em pé na calçada e o vento começou a ficar cada vez mais forte.
 
Acendi um cigarro e continuei encarando a porta da cabine, impaciente. Atende, por favor.

I'm so...

...fuckin' stupid.

março 19, 2010

Mau-sinal

_Mia...
 
Murmurei, um tanto envergonhada.
 
_O que cê quer?
_E-eu... me desculpa.
_Não posso falar agora.
_Não faz isso, meu. Me perdoa, por favor. E-eu queria ter ido hoje! Queria muito.
_Sei. E por que não foi?
_...
_Hein?
_É complicado.
_Complicado?
_Cê sabe que é.
_Mais complicado pra você do que é pra mim? Cê acha mesmo?!
_Não, não disse isso. Eu...
_Fala – se irritou – Fala logo!
_Não fica brava, por favor. Eu gosto de você, e-eu... Eu não só sei o que fazer. Eu quero sair com você, mas aí eu vou pra casa e dou de cara com o Fer e com você lá... e é horrível. Eu não queria ter me enfiado nisso, mas eu não consigo evitar. Eu e você, quer dizer, n-nós temos uma... coisa, não sei o que é. É tão...
_Olha, deixa pra lá – ela me interrompeu.
_Não, me escuta, eu quero falar com você!
_V-você... Espera, você tá bêbada?
_Ligeiramente – confessei.
_Mano, vai dormir! Outro dia a gente conversa.
_N-não, por favor. Mia... Onde cê tá?
_Que diferença faz?
_Cê tá no apê? Eu vou até aí.
_Não, não tô.
_Não?
 
Me surpreendi.
 
_Eu vim pra casa.
 
Quis perguntar o porquê, mas sabia que a resposta me envolvia. De alguma forma, a culpa era minha. E sinceramente isso me alegrava – saber que ela não tinha passado a noite com o Fer, que ela se importava com o que eu dizia ou fazia. Ao mesmo tempo, me bateu um arrependimento violento. É. Por tão deliberadamente ter decidido não ir.
 
_Tá tarde, vou dormir – ela disse, então.
 
E antes que eu pudesse responder, desligou o telefone. Pressionei a cabeça contra a parede do quarto da Marina, frustrada. Droga.

março 18, 2010

Sem maldade

_...com o dedo do meio, aí cê junta os dois lados com o dedão e o indicador.
_O indicador no meio?
_Não, Marina, o dedo do meio! O indicador abre pra direita e o dedão empurra da esquerda. O dedo do meio fica por baixo, no meio dos dois.
_Isso é muito complicado...
_Não é, não. Você que não tá fazendo direito, assim não vai rolar nunca! Tenta de novo.
_Ai, não vai! Como cê consegue?
_Me dá sua mão, eu te ajudo – eu ri – É tipo estalar os dedos... Pronto! Viu?
_Meu deus. Isso é fantástico!
_Agora é só treinar... 
_Deixa eu fazer de novo em você?
 
E lá se iam, horas e horas madrugada afora na sala da Marina. Algum tempo antes, por insistência minha, saímos para comprar cerveja num supermercado próximo e agora estávamos levemente bêbadas. E quase despidas. Antes que me acusem: não aconteceu nada. Eu só a estava ensinando a técnica milenar – ou bom, sei lá – de tirar rapidamente um sutiã com uma mão. E por motivos meramente didáticos, a minha camiseta teve que ir pro chão junto com o vestido dela.
 
Levou alguns minutos de prática, mas, por fim, a Marina finalmente pegou o jeito. Fechei o meu sutiã pela trigésima vez e acendi um cigarro, me encostando no sofá com a cabeça pra cima. Mia. Imediatamente a desgraçada voltou aos meus pensamentos. Fechei os olhos, na tentativa de esquecê-la. Mia. Mia. Mia. Mia. Mia. Mia. Respirei fundo. Droga. Por mais que eu tentasse tirá-la da cabeça, ela continuava ali. Toda vez. Toda maldita vez. Olhei para o lado e me deparei com a Marina, me observando preocupada.
 
_Ei. Vai ficar tudo bem... – sorriu, como se adivinhasse meus pensamentos.
 
Olhei de volta para ela, sem acreditar muito.
 
_Eu não devia ter respondido – me movi para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e tragando mais uma vez – Eu não devia ter dito nada, só aparecido lá amanhã e inventado qualquer desculpa.
_Ia ser pior, flor. Pelo menos você avisou que não ia poder ir...
_Mas eu podia.
_Ok, podia. Mas queria mesmo? Ir lá e piorar esse rolo todo?
_Queria! Lógico que eu queria!
_Linda, cê tava se sentindo um lixo no apartamento com ela, com o Fer. Você ia se arrepender se fosse.
_Pode ser, mas pelo menos eu ia estar com ela mais uma vez... Eu sinto que vou enlouquecer.
_Ah, meu deus... – a Marina suspirou – Olha, você quer que eu te leve?
_Agora? Do que adianta? São 3 e meia da manhã, porra! – balancei a cabeça, conformada – Não, deixa... Vamos ficar por aqui.
_Eu te levo, não tem problema. Ela deve estar acordada ainda.
_Dando pro Fer, né.
_Você não sabe disso...
_Sei, sim.
 
Eu estava me comportando como uma criança emburrada – ou pior. Minha birra se engrandecia com o excesso de álcool e o sentimento desesperador de que eu tinha tomado a pior decisão da minha vida, apesar da Marina e do meu bom senso continuarem me reafirmando que eu tinha feito a coisa certa. Eu odiava saber que aquele nosso beijo à tarde poderia ter sido o último.
 
_Eu vou ligar pra ela – me decidi, levantando do sofá.