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abril 13, 2010

Perdendo o sono e a reputação

Passamos o resto do sábado na cama. E do domingo também, testando os limites do quanto aguentávamos. No dia seguinte, após pouquíssimas horas de sono, o despertador me acordou. E então, eu acordei a Dani. Sexo. Chuveiro. Sexo. Café. Sexo de novo. E eu saí para trabalhar atrasada, claro. Passei o dia inteiro agoniada, querendo sair dali e voltar logo para a Dani para casa. Quando finalmente botei os pés dentro do apartamento de novo, passamos o resto da noite trancadas no quarto, ouvindo um trip hop pesado e bagunçando os lençóis, cada centímetro da bagunça pelo chão, na escrivaninha.
 
Na terça-feira, o alarme me acordou mais uma vez. Duas horas de sono, que inferno. Desliguei aquela porcaria escandalosa e voltei a fechar os olhos, enfiada no travesseiro. Aí foi a Dani que me acordou – com a cara metida entre as minhas pernas – e, uma hora e cinquenta minutos depois, eu estava apertando o botão do elevador freneticamente enquanto enfiava os tênis de qualquer jeito no pé. Atrasada para um caralho. É. Não dava para manter esse ritmo. Chega.
 
Aquela noite seria reservada para confortáveis horas de sono – ou eu seria incapaz de continuar. Mandei repetidas mensagens engraçadinhas para a Dani ao longo do dia, avisando que ela tinha que dormir no sofá. E no final das contas, fomos nós duas que não-dormimos-nem-um-pouco no sofá naquela noite. O resultado? Três míseras horinhas de travesseiro almofada e nem um segundo a mais.
 
Quando chegou a quarta-feira, eu não conseguia sequer inventar mais desculpas para o meu chefe pelos atrasos. A minha cara evidente de quem não pregava os olhos há dias me delatava imediatamente, toda vez que encontrava com ele no estúdio. E para ajudar, tinham ainda todas as evidências indiscretas espalhadas nos lugares menos estratégicos do meu corpo, e aquele meu cabelo constantemente bagunçado pela manhã, que agregavam um “porquê” à minha cara de sono – e rapidamente tornaram a convivência com meus colegas de trabalho insuportável. Ao final do expediente de quinta, eu já tinha “ganhado” uma porra de uma esposa.
 
Fofoqueiros de merda.

abril 12, 2010

Pequenas aberturas

“With your feet on the air and your head on the ground”, eu ouvia e não conseguia evitar senão acompanhar os Pixies, com uma cerveja na mão e a cabeça metida naquele ritmo viciante. Meus olhos, por outro lado, estavam exclusivamente na Dani. Eu me divertia, sentada sobre a mesa da cozinha, enquanto observava ela se debruçar frustrada no chão. Um dos seus brincos havia escorregado para debaixo da geladeira, numa fresta mínima e humanamente inatingível.
 
_Larga mão de ser fresca! – eu provocava de propósito – Cê não vai conseguir, já era... Tira o outro brinco e fica sem, meu. Qual o problema?
_Sabe, você podia me ajudar... – ela resmungou.
_Não. Tô bem aqui... – eu ri – A vista tá ótima, Dani.
_Vai se foder – ela retrucou e virou o corpo um pouco mais para o lado, a fim de me privar da minha “ótima vista”, se desdobrando inteira no chão.
 
Tomei mais um gole da cerveja e continuei cantarolando a letra, entretida com toda a situação. Eu estava me sentindo leve, me sentindo bem. Não só pelo fato da Dani estar de joelhos ali, sofrendo por um pedacinho de metal – o que estava me divertindo, confesso, mas também pelos motivos que eu não queria admitir. Nem para mim mesma e muito menos para ela. O fato é que, apesar da minha bebedeira fenomenal do dia anterior, eu me lembrava de cada segundo, de cada balada, de cada beijo e de cada metro percorrido. E mais especificamente, de cada frase confessada.
 
“Ciúmes”. A palavra por si só me perturbava. Ainda que fora de contexto, ainda que cochichada após litros de tequila e vodka barata e duas horas de sexo à beira da exaustão; de um jeito ou de outro, me perturbava. Mais de um do que do outro: a Dani sempre foi uma constante na minha vida. No entanto, ao longo dos anos, ela conseguiu – de uma forma realmente impressionante – me superar na filha-da-putice e na ausência completa de compromisso ou qualquer sentimento sincero de carinho. Ela nunca deu a mínima para nós duas. Sumia quando bem entendia. E me fazia bem saber que ela sentia alguma coisa por mim, seja lá o que fosse.
 
Só não fazia sentido.
 
A Dani já tinha me visto com inúmeras outras minas. Ela desaparecia e depois ressurgia durante os meus namoros, atrapalhava cada um deles. Sempre conversamos abertamente sobre nossos casos. Contanto que conseguisse o que queria, não era um problema. Qual era a implicância repentina com a Mia? Não pode ter sido tão grave assim, eu pensava, enquanto olhava-a esticar o corpo na minha frente. Eu não estava tão bêbada assim. Não a esse ponto, porra, na frente do Fer?, tentei me convencer, não. Eu não daria tão na cara assim.
 
Infelizmente, em flashes esparsos de memória, o que eu me lembrava era que, sim, eu estava tão bêbada assim. Estava até pior, aliás. E a minha falta de discrição acarretava um milhão de possíveis riscos, o que me incomodava bem mais do que o ciúme da Dani. Esse último me intrigava, como uma coceirinha boa atrás da orelha. Parte de mim – a parte curiosa e masoquista – tinha vontade de cutucar a leoa para ver até onde chegava aquela história.
 
_Ah! Desisto! – a Dani declarou irritada, já em pé, após alguns minutos.
 
E imersa em meus pensamentos, deixei escapar.
 
_Ei... O que cê vai fazer essa semana?
_Nada, sei lá, vou voltar pra casa dos meus pais. Por quê?
_Não quer ficar uns dias aí? – perguntei, sem pensar.
 
E sem mais nem menos, estava feita a proposta.

abril 09, 2010

Manhã lenta

Senti as pernas mornas da Dani encostando no meu corpo, uma de cada lado da minha cintura, enquanto eu afundava o rosto no travesseiro. Suas mãos passeavam lentamente pelas minhas costas, me tocando apenas com as pontinhas dos dedos e me arrepiando inteira. Senti vontade de me encolher, mas não me restava qualquer força para me mover. Não queria sair dali. Suas coxas deslizavam pela minha pele e as pontas do seu cabelo faziam curvas suaves em mim. De repente, um beijo. Inesperado. Desses que talvez pudessem passar despercebidos, que quase não se fazem sentir de tão delicados. Era gostoso.
 
_Quando foi... – ouvi a Dani perguntar baixinho, por cima do meu ombro – ...que cê fez essa?
_Hmm?!
 
Murmurei, exausta, afundada no travesseiro.
 
_A tatuagem – ela explicou e eu senti seus dedos desenharem lentamente no alto das minhas costas, no mesmo lugar em que há pouco me beijara – Cê não tinha ela na última vez que te vi.
_Do que cê tá falando... – resmunguei, com preguiça de conversar – Vem aqui... vem.
 
Não ouvi nada por alguns segundos. Sem resposta. E aos poucos, senti a Dani deitando-se ao meu lado na cama – bem aos poucos. A contragosto, parecia. Pelo movimento, supus que estivesse virada para cima, encarando o teto, mas não chequei. Após mais de 24 horas sem dormir, eu me recusava a abrir os olhos. Puta sono. Estava cansada, física e emocionalmente. O meu dia, a minha noite e aquela manhã tinham sido surreais. E intermináveis.
 
Depois de sobreviver a tudo aquilo, além de uma dose extra de não-sei-de-onde-tirei-forças-para-duas-horas-de-sexo, eu não tinha mais força ou disposição de lidar com as perguntas da Dani. Nada, zero. Ela, por outro lado, permanecia irritantemente desperta. O que diabos cê cheirou, mano, me afundei ainda mais no travesseiro. Não movia um só músculo do corpo. Estava derrotada. E apesar de ainda bem desperta, ao mesmo tempo a Dani parecia mais delicada. Quase carinhosa, hum, deve ser a bebida. Tanto que se deitou ao meu lado, sem objeções, e achei por um instante que ia conseguir dormir. Tudo ficou quieto.  
 
Mas não durou.
 
_Qual é a sua com aquela garota?
 
A Dani perguntou, quebrando o silêncio.
 
_A “Mia”.
_Dani... – respondi, ainda enfiada no travesseiro – ...sem perguntas complicadas.
_Porque, assim, se alguém me perguntasse... Eu diria que cê sente alguma coisa por ela.
_Acredite... Eu não tô perguntando.
_Mas cê sente, não sente?
_Dani... – resmunguei, cansada.
_Eu entenderia, se sentisse. Digo, até que ela é gostosa – deu de ombros e eu suspirei, incomodada com a forma agressiva como a palavra “gostosa” soava em uma manhã interminável da porra – Cê comeu ela?
_Por favor... Só me deixa dormir – me irritei, submersa na fronha.
_Comeu ou não comeu?
_Me deixa dormir, mano.
_Certeza que cês já se pegaram... – ela continuou tagarelando, bêbada ou chapada, quase como se falasse sozinha, o que não estava muito longe da realidade – Foi estranho. Cê tava incomodada demais por ela ir embora e, tipo, que diferença ia fazer se ela ficasse? Ela ia dormir lá com o teu amigo de qualquer jeito e você aqui comigo... Não sei por que você insistiu – a Dani simplesmente não calava a boca e, nesse ponto, eu comecei a considerar seriamente a hipótese de chutá-la da cama – E ainda bem que ela não ficou, né? Só me faltava você me trocar para ficar com uma heterozinha que não sabe nem achar o meio das pernas de uma garota, eu te matava.
_Fica quieta, Dani. Por favor.
_Na boa, não sei como o seu amigo não percebe... – ela seguiu, me alfinetando – Sério. Tá muito na cara!
_Jesus, você não vai calar a boca...
_Cê pegou ela, não pegou?
_“Sim”, “não”... – perdi a paciência e sentei na cama – Que diferença faz, meu?!
_Nossa, calma. Só tô puxando assunto...
_Puxando assunto, Dani? Daqui a pouco são 10 da manhã e eu não dormi porra nenhuma! – reclamei, irritada, me enfiando de novo no travesseiro – Cacete, mano, tava tudo indo bem até agora. Você realmente quer começar esse blá-blá-blá todo aí e estragar o clima, meu? Vamos dormir, velho, por favor. Eu tô cansada... – implorei – Vem cá, vai...
 
Tateei o seu corpo, pegando-a pela cintura e puxei-a contra mim. Virei para o mesmo lado e entrelacei um dos meus braços nos dela, abraçando-a de conchinha, enquanto o outro apoiava minha cabeça por debaixo do travesseiro. Para a minha surpresa, a Dani não se opôs e me abraçou de volta, quieta no seu canto. Não éramos muito de dormir grudadas assim, eu e ela, mas àquela altura já havíamos esgotado toda a nossa cota de distanciamento calculista e eu estava cansada demais para prolongar a discussão.
 
Enfim, silêncio.
 
(...)
 
_Dani... – retomei baixinho, um tempo depois.
_Hmm? – ela murmurou de volta, já quase dormindo.
_Você... v-você tá com ciúmes?
_Acho q-que... – hesitou, baixinho – ...que sim.
 
E sem que ela pudesse ver, eu abri os meus olhos.

abril 08, 2010

Desculpa (ou não)

De repente, ela surgiu. O sol já começava a nascer, iluminando cada rachadura e prédio da rua em tons de cinza e revelando toda a sujeira de São Paulo, que se acumulava nos botecos, puteiros e bueiros. A Rua Augusta amanhecia junto com o dia, tomada por sua insônia usual e centenas de pessoas que se recusavam a ir para casa. Inclusive nós.
 
Vi a Dani descer do seu carro do lado oposto da rua e deslizar entre o trânsito na direção do Santa Augusta. Fiquei em pé, para que ela me visse no meio daquela pequena aglomeração, com um cigarro quase acabado na mão. Ela sorriu para mim e eu fingi que não notei, ainda de longe. Continuava com raiva dela, mas não queria ficar nem um segundo a mais sozinha naquela sarjeta enquanto o Fer praticamente comia a Mia na minha frente. Então, assim que a Dani chegou do nosso lado da rua, coloquei meu braço ao redor da sua cintura.
 
A apresentei rapidamente para os demais. Sem cerimônias. O Fer ela já conhecia de outros erros passados. A Mia me olhou e virou a cara, amarga, na mesma hora. Já o Rafa moveu-se um pouco mais para cima na sarjeta, encarando as pernas da Dani conforme nos sentamos no meio do grupo. Comentei qualquer coisa idiota que me veio à mente e, já logo na primeira frase, me confundi e troquei uma palavra por outra.
 
_Caralho – a Dani riu, meio babaca – Passou da conta, gata?
 
A pergunta foi retórica, mas não gostei da cutucada.
 
_Pois é... – traguei mais uma vez o cigarro e joguei a bituca no chão – Sorte a sua.
 
E a puxei para perto de mim, num beijo quase sem vontade. Só me faz esquecer. Daí para frente, exceto pelo que agora me falha à memória, não desgrudamos mais. Como duas adolescentes, bêbadas, é, nos agarrando pela roupa, descaradamente, perdendo a noção do limite, montadas uma em cima da outra naquela calçada suja. Logo nos tornamos o sucesso de todos os passantes da Augusta – mas eu não estava ligando ou sequer ouvindo o que os outros diziam. Ia me atracar com a Dani com toda determinação, sim. E com todas minhas frustrações também.
 
O Fer comentou qualquer coisa a respeito, me zombando, olha quem fala. Mas depois de um tempo, se viu obrigado a dar atenção para o nosso amigo, plantado ali de vela, largando um pouco a Mia de lado. Parece que o jogo virou, não é mesmo? Doce vingança. A cada beijo de tirar o fôlego que eu emendava na Dani, podia sentir a raiva da Mia na nossa direção. Frustrada com o fracasso do seu planinho de merda para me torturar a manhã toda. E eu estava adorando cada segundo daquilo. O único problema é que as minhas mãos...
 
...estavam na garota errada.

abril 07, 2010

Santa Augusta

Quase cinco da manhã e nós persistíamos na Augusta, como quatro gambás bêbados, sentados numa sarjeta imunda qualquer. O nosso porto seguro, o Ibotirama, havia fechado algumas horas antes e nos expulsado educadamente junto com alguns dos últimos clientes. O caos de sexta à noite dominava a rua em alto e bom som.
 
Entre um bar superlotado e outro, os meninos cometeram a besteira de comprar dois litros de vodka barata – e eu cometi a besteira ainda maior de ajudar a virar toda aquela dor-de-cabeça engarrafada. Após algumas pequenas confusões quase propositais, cambaleando pela rua, e muitos novos amigos conhecidos no meio do caminho, sentamos acabados em frente ao Santa Augusta, atraídos pela movimentação constante.
 
O convívio com a Mia até aquela altura estava sendo bastante simples: ela me ignorava e eu engolia, calada, com o rabo entre as pernas. Algo próximo do tolerável. Ao chegar no Santa Augusta, ela entrou para usar o banheiro e eu fui um tempo depois para buscar uma cerveja, munida com o dinheiro do Fer. Dei de cara com a Mia no meio da muvuca, assim, de repente, enquanto ela voltava para o lado de fora e eu entrava. Olhei para a cara dela e a Mia olhou imediatamente para baixo, incomodada com a minha presença. Merda. Desviei dela, evitando qualquer constrangimento desnecessário, e me pus a caminho do bar. O que mais eu poderia fazer?
 
De volta à calçada, matei a garrafa com o Fer e começamos a comentar sobre um amigo em comum com o Rafa, detalhando os absurdos do passado duvidoso dele. O Fer ria tanto, mas tanto, que chegou a tombar duas ou três vezes para trás, esbarrando no cara parado atrás dele, o irritando. Quase deu briga. Não que o meu estado fosse tão melhor, afinal, esquecia uma de cada três palavras e já não fazia mais sentido em nada do que eu dizia. Enquanto isso, a Mia ficava cada vez mais soltinha e, consequentemente, cada vez mais em cima do Fer. Literalmente em cima. Argh. Aí, sim, começou a me incomodar. Nuns beijos empolgados, sentada no colo dele, beirando o insuportável. Desgraçada. E no auge da minha irracionalidade alcoólica, eu não podia evitar senão ficar encarando enquanto os dois se pegavam na sarjeta, completamente mordida de ciúmes, ignorando o que o Rafa tagarelava bêbado ao meu lado.
 
Para de olhar. Para de olhar. Para de olhar.
 
Argh. Não dava. Quanto mais eu me esforçava para recuperar parte da minha sobriedade, virar a cabeça e encarar a porra do chão, mais indiscreta eu ficava. Olhando fixamente para as mãos do Fer, agarrando as coxas da Mia naquela meia-calça arrastão rasgada. As mesmas pernas que estiveram sob os meus dedos naquela noite no sofá da casa dos seus pais. Por sorte, meu amigo estava tão bêbado e tão ocupado em pôr as mãos nela, que não percebeu. A Mia, por outro lado, fazia questão de virar os olhos sutilmente na minha direção, de tempos em tempos, para checar se eu estava prestando atenção suficiente – e eu estava, é claro. Porcaria.
 
Por volta das cinco e quarenta, o meu celular tocou. Eu não percebi logo de início, hipnotizada pela ceninha desconcertante da Mia e do Fer. Só fui ver alguns minutos depois. Quando olhei o visor, meu telefone já registrava duas chamadas não atendidas. Liguei de volta e, para a minha surpresa, era a Dani.
 
_Seguinte, não tô afim de ir pra Lari. Quero te encontrar – soou arrependida – Onde cê tá? Eu tô saindo daqui agora, posso ir aí? 
 
Não. Não pode. Não pode. Não pode, nem pensar.
 
_Tá. Que se dane. Tô no Santa Augusta, vem aí.

abril 06, 2010

Transtorno

Deixei a minha comanda vazia no balcão da frente e saí para a rua, puta da vida. Parei em frente à balada, arrependida de ter sequer saído de casa naquela noite, e acendi um cigarro. Eu sabia que isso ia acontecer, eu me torturava mentalmente, me sentindo idiota. Que bem poderia vir de sair com a Dani? Nenhum, porra. Nenhum!
 
Subi a rua até a esquina oposta, parando no posto seguinte para comprar uma cerveja, sem saber direito para onde ir dali. Eu devia saber, eu já devia saber, eu passava a mão no rosto, inconformada, enquanto esperava na fila do caixa. Os meus trocados não foram suficientes para pagar a porcaria da cerveja superfaturada da loja de conveniência e um playboy idiota que estava atrás de mim se ofereceu para pagar. Isto é, dependendo de como eu ia “agradecê-lo”. Claro. Babaca do caralho. Mandei ele à merda e saí, sem a cerveja.
 
Tirei o celular do bolso, descendo em direção ao meu apê, e liguei para o Fer. Não sei bem por que, simplesmente liguei. Ele atendeu em meio a uma gritaria, soando realmente bêbado. Perguntei onde ele estava e não consegui ouvir o que ele dizia. Desliguei, mais irritada ainda, e joguei a bituca do cigarro no meio da rua. Que fracasso. De repente, o meu celular vibrou e eu vi uma mensagem do Fer piscando na tela.
 
“To na augusta com a mia e o rafa benatti no ibotirama,vem ai.”
 
E contrariando todo o bom senso – como sempre –, eu fui.

Implícito

Vows are spoken to be broken
Feelings are intense, words are trivial
Pleasures remain… so does the pain.
Words are meaningless
And forgettable

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm

Enjoy the silence... bitch.

(Depeche Mode)

Carma

Vinte minutos, por mais longos que tivessem parecido, ainda eram vinte minutos. E dada a minha falta de sorte com a Mia no último final de semana – ou em todo aquele tempo –, eu queria bem mais do que só umas baixarias casuais no banheiro. Já estávamos na segunda rodada de não-me-lembro-o-quê, quando empurrei a Dani contra uma das paredes, desta vez do bar, antes que ela voltasse para a cabine de DJ. Aí me aproximei do seu rosto, com todas as minhas más intenções, e a observei de perto. Caralho, você é bonita demais. Sorri.
 
_Não pense que eu tô satisfeita, viu... – eu disse, apertando minhas mãos na sua cintura.
_Cê quer mais, é?
 
Ela sorriu também, imprestável, e eu achei graça.
 
_Eu quero você a noite inteira, garota.
_Ah, mas eu tenho que trabalhar... – ela se insinuou, se divertindo.
_Vem dormir comigo... – a abracei pela cintura, na maior pilantragem, e encostei no seu ouvido – ...vem comigo pra casa hoje, vai.
_Hmm... tentador... – ela me olhou, como quem realmente fosse aceitar, e colocou o meu cabelo atrás da orelha, quase condescendente – Mas eu já tinha combinado outra coisa, gata.
_Outra...? Como assim?
 
Eu me afastei, confusa, olhando para ela. E a Dani se constrangeu.
 
_Ah... É que e-eu não sabia s-se você ia vir, não é? E eu precisava dormir em a-algum lugar, então eu...
_Espera, cê está falando sério? – a interrompi, indignada.
_É, e-eu... – abaixou a cabeça – ...eu vou ficar lá na Lari hoje.
 
Filha-da-mãe.
 
_Ah, vai se foder, Dani... A LARI, PORRA?! – me irritei, já meio alterada pelo álcool, exagerando no tom de voz – Você sequer gosta dela, meu!
_Quê que tem?!
_Eu não entendo, cara... Não entendo!! Por que cê faz isso?!
_E você queria QUE EU FIZESSE O QUÊ?! – ela brigou de volta e as pessoas nos olharam como se fossemos um casalzinho discutindo a porra da nossa relação no meio da balada – Você não me disse se ia vir no telefone, você sabe que eu não gosto de pegar a estrada de madrugada...
_E então VOCÊ VAI DAR PARA IMBECIL DA SUA EX EM TROCA DE UMA PORRA DE UMA CAMA?! – eu ri, nervosa – SÉRIO MESMO??? Pra quê me chamou aqui então??
_Não é isso – ela se apressou em se explicar – Eu já tinha combinado, poxa... Senão é claro que eu preferia ir pra sua casa, gata.
_Que seja... – eu resmunguei, virando as costas – Faz o que você quiser.

abril 05, 2010

Endorfina, baby!

Estar cercada por quatro paredes apertadas faz com que a sua percepção do tempo se altere. E quanto menor o lugar, mais os segundos parecem demorar para passar – vinte minutos facilmente se transformaram em horas dentro do banheiro abafado do Sonique.
 
Eu ainda estava com o meu jeans – e a mão da Dani metida nele –, numa baixaria pela metade, quando comecei a sentir o calor claustrofóbico daquelas paredes fervendo o álcool no meu sangue. Assim que gozei, afastei ela de mim, num gesto pesado e lento, e me apoiei nas minhas pernas a fim de respirar. Era algo como quando a sua vista toda escurece após parar, de repente, de correr... E nós duas havíamos corrido pra caralho.
 
_Foi tão bom assim? – a Dani me perguntou, rindo.
_Nossa... – eu confirmei com a cabeça, recuperando o fôlego, ainda ofegante – ...mas não fica se achando aí, não.
 
Eu não gostava de alimentar o ego de ninguém – muito menos o dela, que já era enorme. Mas que a Dani sabia como eu gostava, cacete, isso ela sabia. Uma vez recuperado o fôlego e esfriados os ânimos, levantei e vesti minha camiseta de novo. Observei a Dani subindo a calcinha até em cima das suas pernas. Essa mina, meu deus. Ela encostou na parede oposta, me olhando, e nós rimos juntas. Eu peguei o seu vestido, que estava caído ao lado dos meus pés, e joguei contra ela. Ela riu, segurando-o, e eu puxei o maço do bolso.
 
_Você e os seus cigarros... – ela disse, já vestida.
_Você e as suas ideias malucas... – eu ri, de volta, colocando um dos cigarros na boca.
 
Nós saímos por fim, descabeladas e ainda vermelhas, com cinco ou seis marcas no pescoço nuca costas seios pernas pelo corpo. A Dani se olhou rapidamente no espelho, ajeitando a roupa e prendendo novamente o cabelo, enquanto eu acendia o cigarro. Saímos para a pista, com uma cara inegável de culpadas, e a funcionária responsável pelo banheiro nos olhou feio.
 
_Se sentindo melhor?!
 
Ela resmungou, ironicamente.
 
_Cê não faz ideia... – a Dani riu, com o braço ao redor de mim.
_Não pode fumar no banheiro, viu?! – a mulher soltou na minha direção.
_Bom, também não podia entrar duas juntas numa cabine, não é?
 
Eu levantei as sobrancelhas para ela, rindo, e dei de ombros – saindo abraçada com a Dani para a pista.

abril 04, 2010

Fucking Dani

As mãos dela seguraram a minha camiseta e me forçaram contra a parede. Antes que eu pudesse reagir. Mal terminei de fechar a porta do banheiro, empurrando-a com o pé pelo terço restante, e a Dani já estava em cima de mim. Isso não vai ficar assim, a empurrei contra a parede oposta, a pressionando pela cintura. Ela sorriu e eu a beijei, enfim.
 
Ao contrário de muitos banheiros inconvenientes, o do Sonique tinha portas enormes, que vinham do chão até bem acima das nossas cabeças. Ou seja – privacidade absoluta. Se havia um banheiro bom para aproveitar a companhia de uma garota na balada, ah, esse banheiro era o do Sonique. E nós tratamos de nos aproveitarmos muito bem.
 
O som da pista entrava clandestinamente pelas frestas e ladrilhos. Forcei meu corpo contra o dela, abrindo as suas pernas com a minha e a empurrando contra a porta trancada. Ela resistiu, mas eu a pressionei com mais força ainda. O lance com a Dani é que ela gostava de ficar no controle e eu, bom, não gostava de deixar. Então, toda vez nos enrolamos em algum banheiro ou outro canto escuro qualquer, as chances são de que uma de nós vai sair com alguns hematomas pelo corpo. Se não as duas. Era sempre uma disputa – no bom sentido – entre beijos violentos, movimentos indelicados e uns amores brutos.
 
Beijei ela mais uma vez contra a parede e subi minhas mãos pelas suas pernas, descobrindo-as. Segurei-a com força no meu colo, ainda a empurrando contra a madeira. Ela arrancou a minha blusa e começou a me beijar, descendo pelo meu pescoço. Suas mãos me arranhavam por todo o decorrer das minhas costas, me machucando impiedosamente. Desgraçada. Sussurrei qualquer baixaria no seu ouvido e ela me beijou, me agarrando com ambas as mãos. Até que alguém bateu na porta.
 
_Ei! Não pode entrar duas juntas aí! – reclamou uma funcionária mal-humorada responsável pelo banheiro.
_Minha amiga tá passando mal... – bati de volta na porta, sem paciência – ...usa o outro!
 
A Dani riu da minha cara de pau. E ouvimos alguém resmungar qualquer coisa do lado de fora. Foda-se, beijei ela mais uma vez e terminei de subir o seu vestidinho, o jogando no chão. Não é problema nosso, pensei, enquanto descia pelo corpo maravilhoso da Dani, a virando contra a porta e mordendo suas costas, descendo a boca pela sua coluna, centímetro por centímetro, me ajoelhando e a agarrando com as mãos cheias, beijando a sua bunda, suas coxas. E então a virando de novo – puta que pariu. Que saudade que eu tava.
 
Ela segurou a minha cabeça com uma das mãos, entrelaçando os dedos no meu cabelo. E eu tirei a sua calcinha, meio de qualquer jeito, lambendo-a coxa acima. Fui molhando cada pedacinho da sua pele. Ela apoiou a perna no meu ombro, me puxando na sua direção e me molhando de volta, ali. A beijei com gosto.
 
Ah, a Dani...